319 - Caso Eric e Kouri Richins - Parte 1 - Overdose de Ambição | EUA
Nas montanhas de Park City, o romance de conto de fadas entre um próspero empresário e uma jovem carismática parecia perfeito, mas um acordo pré-nupcial assinado no jardim trancou segredos que mudariam as regras do jogo e transformariam o casamento em uma perigosa teia de ambição.
O Café Crime e Chocolate é um podcast brasileiro que conta casos de crimes reais acontecidos no mundo inteiro com pesquisas detalhadas, narrado com respeito e foco nas vítimas.
Produção: CMB Media
Narração: Tatiana Daignault
Fontes principais:
Outras fontes e fotos sobre o caso você encontra aqui
✅ Não esqueça de se inscrever no podcast pela sua plataforma preferida, assim você não perde nenhum episódio.
📲 Siga-nos também em nossas redes sociais:
AVISO: A escolha dos casos a serem contados não refletem preferência ou crítica por qualquer posição política, religião, grupo étnico, clube, organização, empresa ou indivíduo.
James
Katie
Linda Richings
Tatiana Daignault
- A Tentativa de Envenenamento no Dia dos NamoradosSanduíche surpresa de Kouri · Ingestão de substância e reação severa · Uso de EpiPen e Benadryl · Eric desconfia de Kouri
- Kouri Richins: Ambição e FraudesCarreira em imóveis e 'flip' · Compra e venda fraudulenta de imóvel em Heber City · Omissão de mofo e processo civil · Falsificação de procuração e hipoteca · Desvio de fundos e dívidas em nome de Eric · Falsificação de extratos bancários
- A Busca de Kouri por Substâncias PerigosasContato com Hayden Jeffs e pedido de fentanil · Pedido de propofol · Contato com Carmen Loeber e compra de fentanil
- Segunda Tentativa de HomicídioPedido de substância mais potente a Carmen · Preparação do Moscow Mule · Brinde e ingestão da bebida
- O Início do Relacionamento de Eric e KouriEncontro na Home Depot · Atração mútua e pedido de namoro · Gravidez e nascimento de Carter · Acordo pré-nupcial
- Eric Richins: Vida e NegóciosInfância e formação familiar · Carreira na marmoraria C&E Stone Mansory · Casamento e divórcio com Julie · Morte de Julie · Crescimento da empresa
- Fraude Processual de Gilmar MendesCartões de crédito bloqueados · Confronto com o banco e contador · Reformulações legais e alteração de testamento · Aviso a James e Katie
- Park City: Luxo e Contraste SocialCenário de montanha e estilo de vida · Mansões, resorts e restaurantes · Abismo social e trabalhadores locais · Renda familiar mediana e per capita
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Olá pessoal, eu sou Tatiana Deino e esse é o Café, Crime e Chocolate, um podcast para quem gosta de ouvir histórias de crimes reais com cafezinho na mão, chocolate ao lado e fatos bem apurados. Cada episódio é produzido usando fontes seguras como entrevistas, documentários e arquivos públicos. O objetivo aqui é informar, provocar reflexão e pode servir de alerta, sempre com respeito às vítimas e seus familiares. Como o programa aborda temas delicados, violentos e às vezes contém efeitos sonoros, escute com cautela.
Dada a natureza de seu conteúdo, esse episódio não é recomendado para menores de 14 anos. Imagine uma comunidade cercada pelas belas montanhas Wasatch, em Utah. Um cenário de cartão postal, onde a neve perfeita do inverno dá lugar a trilhas deslumbrantes no verão. Park City, uma cidadezinha a poucas milhas da capital, parece anunciar em cada esquina um estilo de vida inalcançável para a maioria de nós. Mansões monumentais escondidas entre os pinheiros, resorts de esqui badalados e restaurantes bem requintados.
Mas por trás dessa névoa de opulência existe também um abismo social, digamos que silencioso. Para que essa engrenagem de luxo funcione todos os dias, centenas de trabalhadores cruzam a cidade ganhando uma fração modesta da renda local. Pessoas que limpam essas propriedades, que operam os caixas de supermercados e lojas de construção, observando de perto uma fortuna que dificilmente poderão algum dia alcançar. E é exatamente nesse ponto de colisão entre essas duas realidades distintas que a história de hoje se passa.
Então prepare o café, abra os chocolates e coloque os fones de ouvido, pois hoje eu vou contar a vocês tudo sobre um dos casos criminais mais falados recentemente nos Estados Unidos. O caso de Corey e Erik Ridgens. Erik Eugene Ridgens nasceu em 13 de maio de 1982 em Bountiful, Utah. Ele era o único filho menino de Jim e Linda Richings e tinha duas irmãs mais novas, Katie e Amy. Seus pais eram fazendeiros conhecidos da região, assim como seus avós e bisavós.
Eles trabalhavam com gado leiteiro e não demorou muito para que a tenacidade e afinidade de Eric pelo trabalho árduo se tornasse evidente. Ele adorava cuidar dos bichos E passava inúmeras horas ajudando o pai no pasto, transportando feno, alimentando as vacas e consertando cercas. O mundo de Eric girava em torno de sua família. Sendo mais velho que suas irmãs, ele estava sempre de olho nelas, guiando, cuidando e sendo um exemplo.
Rico, como ele era carinhosamente apelidado em casa, também tinha senso de humor e adorava brincar e se divertir. Seu tempo livre com as irmãs, primos e amigos era sempre correndo, sempre no barro ou subindo em árvores, inventando brincadeiras. Ele tinha um jeito carismático de atrair pessoas, incrivelmente gentil, simpático e empático. Eric também era um atleta nato que encontrava nos esportes sua maior paixão, seja na exaustão das maratonas ou no dinamismo do basquete, beisebol e futebol.
Ele não apenas assistia, mas ele vivia o jogo. Muito aventureiro, ele tinha muitos veículos motorizados também, como quadriciclos, caminhonetes que ele modificava instalando aquelas rodas gigantes, e até aquelas motocicletas de neve. Com isso, ele também vivia se machucando. Uma hora era um braço, outra uma perna, e segundo sua família, ele detinha o recorde de maior número de pontos recebidos em um único acidente, que foi 200 pontos numa perna.
Outra paixão de Eric era o conhecimento de outras culturas. Como ele e sua família faziam parte da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, frequentemente referida como Igreja Mormon, aos 18 anos ele foi enviado para uma missão de 2 anos e escolheu o México como destino. Lá ele aprendeu a falar espanhol fluente e quando voltou para Utah entrou para a faculdade de letras se formando com diploma de espanhol avançado. Ele adorava a cultura latina, a culinária e isso ajudou muito em sua carreira.
Isso porque além de ajudar na fazenda do pai, Eric e seu melhor amigo resolveram montar uma marmoraria especializada em revestimento externo em construções. E 80% de sua equipe eram homens latinos. Esse melhor amigo de Eric se chamava Corey, C-O-R-Y. E embora vamos falar bastante dele nesse episódio, existe ainda uma outra pessoa com um nome bem parecido que vai entrar, então daqui pra frente vamos chamá-lo pelo seu nome do meio, que é James, ok?
E aí vem algo sobre essa sociedade deles que eu quero destacar. Tanto James quanto Eric eram muito esforçados e trabalhavam desde os 14, 15 anos. Até porque muitos de vocês devem saber que nos Estados Unidos os jovens, tanto meninos quanto meninas, começam a trabalhar cedo, independentemente das condições financeiras da família. É uma questão mais cultural do que financeira em si. O jovem aqui é incentivado a trabalhar para juntar seu dinheirinho para sair comprar roupas e supérfluos, muitas vezes juntando dinheiro até para comprar o primeiro carro ou para custear pelo menos a gasolina.
Como eu disse antes, a família de Eric tinha dinheiro, mas eles eram muito simples, eles não eram de ostentar. Eric sempre usou a caminhonete da fazenda como carro dele. Então, desde que começou a trabalhar na adolescência, seu dinheiro era colocado em uma poupança que ele planejava começar seu próprio negócio ao que terminasse a faculdade. A faculdade terminou em 2004 e Eric tinha ali uma quantidade considerável de dinheiro guardado, mas não suficiente ainda para abrir um negócio.
No entanto, chegou James e propôs que os dois juntassem tudo que eles tinham e abrissem juntos uma marmoraria. Eles tinham apenas 22 anos nessa época e aquele dinheiro era algo que eles economizaram desde os 14 com muito esforço. Então eles realmente se dedicavam ao sucesso dessa marmoraria, trabalhando longas horas e sempre entregando tudo em tempo e com muito capricho. Nessa época, Eric namorava uma jovem chamada Julie, que estudava com ele na faculdade e frequentava a mesma igreja desde a adolescência.
No ano seguinte, Julie e ele se casaram, mas infelizmente a relação não durou muito e Julie pediu o divórcio em 2009. Como as leis que regiam o regime de união deles incluíam todos os bens do casal na partilha em caso de divórcio, Eric dividiu com Julie a metade da casa que os pais dele haviam dado aos dois quando eles se casaram e a metade da metade dele na empresa dele de James, que a esse ponto já estava indo tão bem que valia $500 mil.
Eric ficou arrasado com o divórcio, não só pela partilha, mas porque ele era muito apaixonado por Julia ainda. De fato, o divórcio foi amigável e ele até por um bom tempo cultivou esperança de reatar o relacionamento com ela. Acontece que em 2011 Julie faleceu em um grave acidente de carro. Embora estivessem separados, Eric entrou em um luto profundo, mergulhando de cabeça mais ainda no trabalho. Para você ter uma ideia, mesmo tendo em 2009 pago a Julie 25% da marmoraria, cerca de $125 mil, em 2012 ela já estava valendo $2 milhões.
Pedras.
A empresa deles simplesmente não parava. Naquela região que eles estavam ficava Park City, uma das mais elitizadas estações de esqui, com poder aquisitivo muito alto. E não demorou para que a empresa deles ganhasse a reputação de ser uma das melhores na instalação de pedras. E só para dar um pouquinho mais de contexto do que vem à frente nessa história, Deixa eu falar um pouquinho sobre essa cidade. Park City, em Utah, não era apenas uma cidade de montanha bonita.
Ela é uma daquelas comunidades americanas em que a própria paisagem parece anunciar um estilo de vida inalcançável para a maioria. Neve perfeita do inverno, trilhas maravilhosas no verão, restaurantes charmosos na vila principal, incluindo até um restaurante brasileiro. Galerias, resorts de esqui e gigantescas mansões escondidas entre os pinheiros e as encostas. Encravada nas montanhas, o Asahatchee, a cidade gira em torno do lazer, do turismo, dos esportes de inverno e do alto padrão de vida.
Só que por trás dessa imagem de cartão postal, Park City também carrega um contraste social muito claro. Segundo dados do Censo Americano, a renda familiar mediana local em 2025 passava de $133.000 por ano e a renda per capita ficava acima de $108.000, números bem altos pros padrões nacionais. Isso significa que pra cada faxineira, cada garçom, cada caixa de supermercado ganhando em torno de $25.000, $30.000 por ano, a renda de referência da cidade era cerca de 4, 5 vezes maior.
Em outras palavras, muita gente que fazia Park City funcionar todos os dias vivia cercada por uma riqueza que podia ver de perto, mas dificilmente acessar. Pois bem, com o coração fechado para o amor e tendo olhos somente para os negócios, Eric praticamente não frequentava bares nem festas. Quando brincavam com ele perguntando quando ele iria sair para conhecer alguém, ele brincava de volta dizendo: "Há, só se for alguém que eu conhecer em alguma casa de material de construção, porque é o único lugar que eu vou." E ironicamente foi isso que aconteceu.
Como profissional do ramo de construção civil, Eric estava sempre em uma loja chamada Home Depot. Que faz parte de uma grande rede de distribuidores de material de construção. E essa ficava na cidade de Park City. Ele ia tanto a essa loja que todos o conheciam pelo nome. Foi lá que certo dia, ele com então 28 anos, bateu o olho numa jovem 6 anos mais nova que ele, de 22, muito bonita. Ela tinha cabelos castanhos compridos e se chamava Corey.
Eric, sempre que visitava a loja, passava no mesmo caixa, o de uma senhora de uns 70 anos. Mas quando Corey começou a trabalhar lá, ele começou a passar então no caixa dela. Certo dia, o caixa de Corey estava com fila, enquanto o da senhora estava livre. E assim que Eric se aproximou, essa senhora disse bem baixinho para ele: Não, não, não, não, não, pode voltar lá e pegar a fila. E vê se, pelo menos dessa vez, você pede o telefone dela, porque a loja inteira sabe que você é caidinho por ela.
E você não é o único, viu? Então, trate de agir logo. Eric ficou vermelho de vergonha, mas foi lá e fez o que a matriarca da loja mandou. Entre os colegas, Corey era descrita como alegre, cativante e muito atraente. A típica menina bonita que recebia olhares de todos os lados. Antes de trabalhar como caixa da Home Depot, Corey ajudava sua tia a limpar casas em Park City. A tia dela tinha uma empresa de limpeza, então nas épocas de alta temporada, Corey limpava as mansões que eram alugadas para grupos ou familiares passarem as férias.
Nessas casas, ela tinha contato direto com um mundo muito diferente do que ela vivia. Nascida na cidade de Sapulpa, no Oklahoma, em 20 de abril de 1990, Corey Brooke Dorden cresceu com duas irmãs e dois irmãos. Eu não encontrei registro público confiável indicando exatamente quando os pais de Corey se separaram, mas quando ela estava ainda com 16 anos, a estrutura familiar já parecia bem diferente do núcleo tradicional de pai e mãe juntos.
Sua mãe, Lisa Darden, já estava vivendo com uma parceira romântica e seu pai morando sozinho na Carolina do Sul, onde veio a falecer quando Corey estava com 19 anos. Sua mãe era de classe trabalhadora e não possuía renda suficiente para financiar uma faculdade para Corey. Então, ao concluir o ensino médio, ela foi trabalhar na loja da Home Depot. Muitos clientes achavam bonita Mas a dinâmica era especial quando Eric aparecia. Os próprios funcionários da loja faziam piada dizendo que Eric estava caidinho por ela.
E essa atração mútua era visível para qualquer cliente que passasse pelo caixa. O clima estava no ar e não demorou muito para que Eric tomasse uma atitude. Então ele foi lá, criou coragem e pediu o telefone dela. Eric e Corey se apaixonaram quase que imediatamente e logo começaram a namorar. A relação avançou rápido. Enquanto eles ainda estavam namorando, Corey engravidou e em julho de 2012 deu à luz ao primeiro filho do casal, pequeno Carter.
Quase um ano depois, em junho de 2013, o cenário parecia o de um sonho. O casal se preparava para oficializar a união em uma cerimônia bela no quintal de sua casa, quando, de repente, antes que o sim fosse dito, o clima de romance foi interrompido por uma cena que parecia ter saído de um filme de terror ou, no máximo, de uma comédia irônica.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Os preparativos pro casamento no quintal da bela residência do casal estavam a todo vapor. Flores sendo organizadas, convidados prestes a chegar e um clima de celebração tomando conta do ambiente.
Romântico.
Mas foi justamente naquele momento que a atmosfera romântica sofreu uma interrupção inesperada. E não foi um oficial de justiça, um advogado, quem atravessou o jardim com calhamaço de papéis nas mãos. Foi a própria mãe de Eric, Linda Richards. Com semblante sério, ela se aproximou da Nora e lhe entregou um documento. Era um acordo prenupcial. E pra que vocês entendam o peso e o impacto dessa cena, esse contrato assinado em 15 de junho de 2013 funcionava como uma verdadeira armadura jurídica moldada pelo clã Regens.
Em Utah, famílias com grandes patrimônios protegem o legado com unhas e dentes, e a mensagem de Linda era cristalina: "nem tente se casar por dinheiro". O documento não era novidade para Corey. Ela e Eric já haviam conversado sobre o assunto e ela sabia que a união viria com parâmetros financeiros. No entanto, Corey pensou que a família dele havia se esquecido e que o casamento seria apenas firmado sob união parcial de bens. Porém, essa documentação apresentada a ela horas antes do casamento estipulava que um terço das terras produtivas da fazenda e a marmoraria de Eric pertenceriam exclusivamente a ele em caso de divórcio.
Corey não teria direito a um único centavo desse império caso a relação se ruísse. No entanto, havia uma cláusula específica, uma linha tênue, que determinava que ela só teria direito à herança e aos ativos de Eric caso ele falecesse enquanto os dois estivessem legalmente casados. Corey tomou a caneta que estava nas mãos da sogra, assinou o acordo, e a união começou sob o espectro de desconfiança mútua e de regras rígidas. Mal sabia a família de Eric que, ao estabelecer aquela barreira legal, eles haviam criado, sem querer, um único cenário em que a existência física de Eric valeria menos que sua ausência.
A vida dos Richings parecia o retrato exato do sonho americano. Mais dois meninos, Ashton e Weston, chegaram para completar a família. Enquanto os filhos cresciam, a marmoraria de Eric James, a C&E Stone Mansory, decolava rumo à estratosfera imobiliária de Utah, gerando lucros anuais que ultrapassavam a marca de 1 milhão de dólares. Corey foi esperta. Já que não teria participação nos lucros caso um dia se divorciasse, ela resolveu entrar para uma faculdade e construir uma carreira para si mesma.
Afinal de contas, mulher nenhuma, tenha ela casado por dinheiro ou não, deveria ficar presa a uma relação caso não queira mais apenas por falta de estabilidade financeira. Como um marido dedicado e torcendo por ela Eric não apenas pagou as mensalidades, mas também cuidou das crianças para que ela pudesse estudar. E assim, Corey conquistou um diploma de administração de empresas e um pós em economia. A casa que eles moravam, dada pelos pais de Eric, estava em nome de um trust da família, que é um modelo de gestão patrimonial.
Corey e Eric moravam, podiam reformar, faziam o que queriam com a casa, mas não podiam vender. Pelo menos não sem assinatura de todos beneficiários do trust, que eram os pais, Erik e as irmãs. E só fazendo um adendo aqui, as irmãs de Erik também eram casadas sob o mesmo regime de bens com seus maridos. Filhos e cônjuges usufruíam de tudo, mas em caso de divórcio, os imóveis e bens dados pelos pais através do trust não entravam em partilha.
Corey, Eric e as crianças viviam uma vida pra lá de confortável. Imagine sua empresa gerar pelo menos 1 milhão de dólares de lucro, não apenas faturamento bruto, o que dividido por 2 sócios dá 500 mil para cada um, e ainda por cima não ter que pagar prestação da casa porque ela foi dada de presente pelos seus pais. Uau, vidão, né? Sem contar ainda que todos os anos os pais de Eric davam a ele e as irmãs uma participação nos lucros da fazenda.
Ele e Corey viajavam com frequência, dirigiam carros bons, enfim, colecionavam bens de alto padrão e desfrutavam de um conforto financeiro inquestionável. Corey não precisava nem falar para o marido quanto e como gastava o seu cartão de crédito, e tinha liberdade para usá-lo como quisesse, ajudando a mãe, viajando com as amigas, comprando roupa, fazendo que ela quisesse, realmente. No entanto, para ela, o prestígio de ser esposa de um empresário de sucesso não bastava.
Ela tinha sede de construir o seu próprio império. Nessa época, 2018, 2019, programas de televisão sobre reformas como Fixer Upper, com Chip e Joanna Gaines, e Flip or Flop, de Christina e Tarek El Moussa, bem como o estilo de vida glamouroso de corretores de imóveis famosos da TV dominavam o imaginário de Corrie. Ela não queria apenas assistir àqueles programas, ela queria ser uma espécie de Joanna Gaines das montanhas de Utah.
Então, para colocar esse plano ambicioso em prática, ela tomou algumas decisões que fugiam completamente do padrão até mesmo da classe média alta americana. Em vez de recorrer a uma au pair tradicional, Corrie contratou uma babá particular assalariada em tempo integral para que ela pudesse se dedicar inteiramente à empresa que ela havia acabado de abrir para ela mesma, sem participação de Eric nos lucros, a Kay Ritchings Realty.
Todos os dias pela manhã ela treinava e depois saía em busca da melhor casa para comprar, reformar e vender. O famoso flip. O dinheiro para comprar à vista as duas primeiras casas foi dado a ela por Eric e dali pra frente ela deveria usar esse valor de venda das duas casas como capital de giro. Considerando que uma casa pequena na região não sai por menos de $350 mil, Corey estava começando a empresa dela com $700 mil de investimento, muito mais do que os $40 mil que ele e James começaram a marmoraria.
De fato, 3 vezes mais do que a própria Joanna Gaines e Chip tinham quando fizeram o primeiro Fixer Upper. O que o mundo exterior via em Kori quando ela cruzava as ruas de Park City com seu Toyota 4Runner branco era uma mulher determinada, poderosa, pronta para fechar negócios. O que os bastidores financeiros escondiam, contudo, era um rastro catastrófico de destruição econômica. Por trás da panca de Joana do Deserto existia uma mulher com pavor de que o marido descobrisse a extensão de sua ruína imobiliária.
Uma ruína que a faria cruzar uma linha pra lá de perigosa. Em 2019, Corey comprou uma casa pequena de aproximadamente 180 metros quadrados com porão para investir em Heber City. A ideia era reformar e revender gerando lucro, o que nos Estados Unidos é chamado de flip. Ela pagou $215.000 em uma casa que normalmente valeria cerca de $400.000, ou seja, pagou a metade do preço. E por que ela pagou tão pouco? Porque essa casa precisava de sérios reparos relacionados a danos provocados pela água, o que é muito sério nos Estados Unidos dado que a maioria das casas são construídas com drywall.
O antigo proprietário havia informado Corey que o encanamento do andar inferior não podia ser usado de forma alguma sem provocar vazamentos, e que uma torneira externa fazia a água voltar para dentro da casa, acumulando água no porão. Ele também teria explicado que o telhado estava rachado, o que permitia que água da chuva escorresse pelas paredes internas, embora estivesse temporariamente protegido por uma cobertura de membrana.
Kori assinou um contrato de que compraria essa casa assim mesmo, com intenção de reforma, e contratou um cara que conheceu pela internet chamado Robert Josh Grossman para executar toda a reforma. Em apenas 2 meses, ela anunciou a casa nos jornais como propriedade recém-reformada e em ótimo estado. Não demorou para que o casal Alec e Taryn Wright se apaixonasse pelo imóvel e comprasse em janeiro de 2020. Eles pagaram $409.000, $194.000 a mais do que ela pagou.
Quase $200.000 em 2 meses. Então pensem bem, se Eric ganhava cerca de $500.000 por ano, Corey estava agora se sentindo poderosíssima. Ela tinha acabado de gerar $200.000 em 2 meses. E o gasto que teve com esse flip havia sido mínimo. Sabem por quê? Bom, veja a estratégia de negócios de Corey. A casa custou pouco porque tinha muitos problemas, né? Agora, a mão de obra para lidar com esses problemas custou bem barata porque ela autorizou Josh, o pedreiro, a dormir no trabalho para economizar com estadia, E pra agradá-lo, pra que ele ficasse contente com a quantia que ela estava pagando por tudo aquilo, ela começou a ter um caso amoroso com ele.
Sim, um caso amoroso intenso. Josh não era o tipo de cara que se interessaria por uma mulher casada, mas a história mirabolante que Corey contou a ele o fez querer salvá-la, acreditando que havia encontrado sua Rapunzel presa numa torre. Mas vamos pular essa parte por enquanto e voltar à questão da propriedade. Tendo gasto quase nada na reforma, ela sacou lucros orbitantes e partiu para o próximo negócio. Só que cerca de um ano após a compra, um cano de cobre corroído da linha principal da casa começou a vazar debaixo da escada.
A água inundou parte do porão e um dos quartos. E na primavera daquele mesmo ano, a família também começou a perceber poças e acúmulo de água nos dois pisos da casa, especialmente depois que chovia. Em agosto de 2021, o casal Wright encontrou um mofo preto crescendo na parede do quarto do filho. E isso era algo grave, pois diferente de outros bolores, o mofo preto pode liberar substâncias tóxicas conhecidas como micotoxinas no ar.
A inalação ou exposição prolongada pode causar crises alérgicas graves, agravar asma, provocar irritações respiratórias e irritações nos olhos. Em entrevistas, o casal contou que o problema apareceu numa parede que ficava atrás de uma cômoda, e quando o drywall foi retirado para localizar a origem da infiltração, os profissionais descobriram que as janelas do porão haviam sido instaladas incorretamente. Eles encomendaram novas janelas do próprio bolso e o drywall foi substituído.
Mas pouco tempo depois, o mofo começou a reaparecer e foi aí que eles perceberam que o problema era bem maior. Eles chamaram uma empresa para examinar a casa e encontraram as laterais do telhado apodrecidas, partes do acabamento externo se rompendo e pelo menos 3 buracos na fundação por onde a chuva entrava na estrutura. No mesmo mês, eles coletaram amostras do ar e os testes apontaram níveis considerados perigosos de diferentes tipos de fungos no porão, no banheiro, na sala e no sistema de aquecimento.
Amostras posteriores também indicaram que os esporos haviam se espalhado por paredes, pisos, carpetes, móveis, roupas e até objetos pessoais. Omitir mofo não é automaticamente um crime federal nos Estados Unidos. Mas quando o vendedor, né, o corretor conhece a contaminação, esconde o problema e ainda declara por escrito que ele não existe em um documento de venda, que é o que Corey fez, a omissão pode configurar fraude, gerar um processo civil milionário e, em casos mais graves, até consequências criminais.
Quando eles perceberam a extensão dos danos, a família Wright entrou com processo contra Corey Richings e sua imobiliária, acusando-a de fraude. Detalhe: Eric não fazia ideia de que tudo isso estava acontecendo. Para remediar o problema, pagar advogados e cobrir gastos, já que o dinheiro obtido com a venda dessa casa já estava a esse ponto empregado em outros projetos, Corey desatou uma engrenagem oculta de fraudes. Ela falsificou uma procuração e uma escritura de hipoteca pra conseguir uma linha de crédito de 250 mil dólares, colocando a própria casa da família como garantia.
Sim, aquela casa que nem era dela e de Eric, mas do trust familiar. E não parou por aí. Ela também desviou quase meio milhão de dólares das contas pessoais de Eric, acumulou dezenas de milhares de dólares em dívidas de cartões de crédito no nome dele, e passou a mão em mais de $134 mil que ele guardava em uma conta bancária destinada ao pagamento de impostos. Ou seja, ela estava praticamente canibalizando os bens do marido sem que ele desconfiasse de nada.
Corey chegou ao extremo de adulterar documentos bancários recortando o cabeçalho de sua conta imobiliária falida e colando no corpo dos extratos milionários da marmoraria de Eric, forjando uma fotografia de saldos fictícios de até $702 mil para enganar seus credores. Mas em setembro de 2020, esse castelo de cartas dela balançou de forma violenta.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
It could be chronic migraine. 15 or more headache days a month, each lasting 4 hours or more.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Why wait? Ask your doctor, visit botoxchronicmigraine.com, or call 1-800-44-BOTOX to learn more.
Quando Eric foi tentar utilizar um de seus cartões de crédito, ele percebeu que tudo havia sido bloqueado devido ao uso indevido. Ao confrontar o banco, a verdade apareceu. Analisando o extrato junto ao seu contador, Eric descobriu que Corey vinha drenando seu patrimônio pelas costas. Postas. Sua reação foi imediata, fria e silenciosa. Ele marcou uma reunião com advogado especialista em planejamento sucessório sem avisar a esposa e pediu para que esse advogado reformulasse os acessos de Corey ao patrimônio da família, excluindo-a da gestão das contas conjuntas e deixando claro que ele e os filhos não seriam afetados pela má administração financeira dela.
Eric também alterou seu testamento, criando um fundo fiduciário privado, nomeando também sua irmã Katie como representante legal absoluta de tudo que possuía, exigindo que o advogado mantivesse sigilo total de tudo isso. Corey não podia nem sonhar com o que estava acontecendo. Se ela quisesse o divórcio, sairia daquela relação exatamente como entrou, sem direito a um único centavo do que ele construiu. Paralelamente, a desconfiança e o medo começaram a habitar os pensamentos daquele homem.
Eric procurou a família e os amigos mais próximos para relatar as fraudes e verbalizou um pressentimento assustador sobre o comportamento imprevisível da esposa. Ele chegou a dar um aviso direto para James, seu sócio, e Katie, sua irmã, dizendo: "Fiquem de olho nas contas, viu?" "Eu descobri algo que Corey vinha fazendo e não tenho conseguido mais confiar em nenhum passo dela." Enquanto Eric protegia o seu patrimônio nos bastidores, o ambiente dentro de casa também mudava.
O casamento, que antes parecia um comercial de margarina, agora era uma fachada onde cada um jogava suas próprias cartas em absoluto segredo. Mas o que Eric não imaginava era que, enquanto ele consultava advogados, Corey já estava movendo peças em um tabuleiro bem mais perigoso. Nas primeiras semanas daquele ano, Corey entrou em contato com um homem chamado Hayden Jeffs, que ocasionalmente ajudava na reforma de suas propriedades, um outro pedreiro.
Através de mensagens de texto, Com um tom misterioso, ela insistiu que eles migrassem suas conversas do aplicativo de mensagens de texto (SMS) para o WhatsApp, alegando que precisava tratar de um assunto super aleatório, porém privado. Quando finalmente se falaram por ligação de áudio no WhatsApp, Corey fez uma pergunta que deixou Hayden chocado. Ela queria saber se ele conseguiria fentanil para ela. A justificativa seria por um suposto cliente de sua imobiliária que sofria com dores terríveis na coluna.
O fentanil é um opioide sintético extremamente potente utilizado legalmente em hospitais para anestesia e no tratamento de dores intensas, mas que também é fabricado clandestinamente e vendido no mercado ilegal. Dessa forma, ele costuma circular como pó, ser misturado a heroína, cocaína e metanfetamina. Ele pode também ser prensado em comprimidos falsificados produzidos para imitar medicamentos como oxicodona, Percocet ou Xanax.
Como a quantidade presente nessas misturas não é controlada e pode variar de uma dose para outra, muitas pessoas o consomem sem sequer saber que ela está presente na fórmula o que torna o risco de overdose extremamente alto. Hayden recusou imediatamente o pedido de Corey e desligou o telefone na cara dela. Corey, no entanto, não recuou. Horas mais tarde, ela ligou novamente e tentou uma abordagem diferente, perguntando se ele conseguiria o tal do negócio do Michael Jackson, ou seja, propofol.
A substância anestésica altamente restrita que causou a morte do Astro. Mais uma vez, o pedido foi negado. Com medo do rastro que acabara de deixar, Corey apagou manualmente todas aquelas mensagens, achando que, ao deletar o histórico, a conversa desapareceria. Mas no universo digital forense, o apagar é apenas uma ilusão. Até porque Hayden não apagou as mensagens dele. Determinada a conseguir o que queria, Corrie mudou o alvo e procurou Carmen Loeber, uma mulher que prestava serviços de limpeza para casas que ela reformava e que já tinha passagem na polícia.
Entre janeiro e março daquele ano, os registros telefônicos da operadora apontam uma troca frenética de quase 850 mensagens e dezenas de ligações entre as pílulas. E novamente todas essas mensagens desapareceram do telefone de Corey, apagadas uma por uma. Através de uma rede de contatos no submundo, Carmen conseguiu o telefone de um fornecedor de drogas. E no dia 11 de fevereiro de 2022, enquanto se deslocava até um posto de gasolina em Draper para comprar as pílulas, seu telefone trocava mensagens em tempo real com Corey, que monitorava cada passo da transação.
Naquele dia, Carmen comprou entre 15 e 30 pílulas de fentanil ilícito. Corey os buscou na garagem da casa de Carmen, pagando $900 em dinheiro vivo por eles. Corey agora tinha o que queria em mãos, e o calendário marcava que faltavam apenas 3 dias para o Dia dos Namorados, que nos Estados Unidos se comemora no 14 de fevereiro e é chamado de Valentine's Day. A data especial chegou e, como tanto Corey quanto Eric trabalhavam naquele dia, o clima parecia propício para uma trégua na rotina estressante.
Corey passou numa lanchonete local que eles dois gostavam, mas fez questão de caprichar mesmo no pedido do marido. Ela levou o lanche de surpresa até o trabalho de Eric Mas quando chegou, percebeu que ele e James não estavam lá. Os dois haviam saído para visitar um cliente e Corey deixou o pacote do lanche com um bilhetinho amoroso dentro de sua caminhonete, que ficava sempre destrancada. Eric ficou tocado pelo gesto e quando voltou para a marmoraria, entrou no carro e deu duas primeiras mordidas enquanto dirigia para casa, pois naquela tarde ele ficaria com os filhos que a este ponto não tinham mais a babá, pois já estavam com 9, 7 e 5 anos.
O efeito do lanche foi devastador e quase que instantâneo. Em poucos minutos, Eric sentiu suas vias aéreas se fechando enquanto seu corpo era tomado por uma erupção violenta de urticária, uma reação pseudoalérgica severa provocada pela ingestão súbita da substância que havia sido camuflada na comida. Em pânico e lutando por um sopro de ar, ele cambaleou até o balcão da cozinha, abriu a gaveta e sacou a caneta de epinefrina, mais conhecida como EpiPen, que pertencia a um dos seus filhos, injetando a medicação diretamente em sua coxa.
Logo após isso, ele virou meio vidro de Benadryl infantil e desabou no chão do seu escritório, onde apagou completamente por quase 2 horas.
Horas.
Quando finalmente recuperou a consciência, trêmulo e debilitado, Eric não procurou a esposa, que alegava estar fora de casa resolvendo problemas com armários de cozinha. Ele ligou para os seus dois melhores amigos, James e um outro funcionário da marmoraria. E na ligação ele disse, abre aspas: 'Cara, vocês quase me perderam hoje. Eu acho que a minha "Minha própria esposa tentou me envenenar com aquele sanduíche, acreditam?" Anos antes, em uma viagem do casal para Grécia, Eric já havia ficado gravemente doente após ingerir uma bebida oferecida por Corey, e ele havia naquela situação confidenciado à irmã, que meio que temia pelas intenções da esposa.
Mas o episódio do Dia dos Namorados Foi o aviso definitivo. O jogo de aparências na mansão dos Rachings havia se tornado uma armadilha mortal. Eric estava sobrevivendo em território inimigo sem saber que o tempo contra ele estava se esgotando, e rapidamente. Duas semanas após esse terrível episódio do Dia dos Namorados, o silêncio tenso na residência dos Rachings foi quebrado por uma aparente trégua. No fim de fevereiro, Corey voltou a fazer contato secreto com Carmen Lauber.
E o motivo? Ela alegava que as pílulas anteriores não eram fortes o suficiente e exigia algo mais potente, mencionando textualmente que queria a tal da substância Michael Jackson. Mais de $900 mudaram de mãos em um novo encontro secreto e Corey agora guardava em seu poder um arsenal químico invisível e letal. Na noite de 3 de março de 2022, o pretexto para reunião do casal no quarto era a comemoração de um novo negócio. Corey vinha insistindo que queria comprar uma mansão inacabada de 1.900 metros quadrados, um projeto megalomaníaco demoníaco de milhões de dólares que Eric considerava uma completa irresponsabilidade financeira.
Só que, mesmo contra a vontade do marido, Corey já havia fechado o contrato pelas costas dele. E naquela noite, ela fingiu que era hora de celebrar. Ela foi até a cozinha e preparou um Moscow Mule, o drink favorito de Eric, feito com vodka e cerveja de gengibre. Ela levou o copo até o quarto do casal, onde Eric já estava deitado. Eles brindaram, Eric tomou a bebida, e o que aconteceu nas horas seguintes no interior daquela mansão nas montanhas Wasatch passou a ser disputado em duas versões irreconciliáveis, que eu conto para vocês na parte 2 desse episódio.
— Anúncios inseridos dinamicamente —