Episódios de Café Crime e Chocolate

318 - O Cruel Assassinato de George Duncan e a Reforma Legislativa Australiana | Austrália

12 de junho de 202624min
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🏳️‍🌈 Em 1972, o misterioso afogamento de um reservado professor de Cambridge desencadeou um perigoso jogo de poder envolvendo um pacto de silêncio fardado e uma investigação minuciosa que abalaria as estruturas do Estado de Adelaide, transformando uma trágica fatalidade noturna no estopim da luta por direitos e liberdade na Austrália.

O Café Crime e Chocolate é um podcast brasileiro que conta casos de crimes reais acontecidos no mundo inteiro com pesquisas detalhadas, narrado com respeito e foco nas vítimas.

Produção: CMB Media

Narração: Tatiana Daignault

Fontes principais: The Guardian / Monument Australia

Outras fontes  e fotos sobre o caso você encontra aqui

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AVISO: A escolha dos casos a serem contados não refletem preferência ou crítica por qualquer posição política, religião, grupo étnico, clube, organização, empresa ou indivíduo.

Participantes neste episódio5
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Rachel

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Speaker B

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S

Speaker D

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S

Speaker E

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T

Tatiana Daignault

NarradorJornalista
Assuntos3
  • Assassinato de George DuncanGeorge Duncan · Professor de Direito · Homossexualidade na Austrália · Rio Torrens · Ponto Número 1 · Roger James · Polícia de Adelaide · Vice Squad
  • Leis sociais na AustráliaDescriminalização da Homossexualidade · Murray Hill · Peter Duncan · Austrália do Sul
  • O Caso Beaven Spencer von NienanBeaven Spencer von Nienan · Serial Killer · Adelaide
Transcrição16 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

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Tatiana Daignault:Olá pessoal, eu sou Tatiana Deino e esse é o Café Crime e Chocolate, um podcast para quem gosta de ouvir histórias de crimes reais com um cafezinho na mão, chocolate ao lado e fatos bem apurados. Cada episódio é produzido usando fontes seguras como entrevistas, documentários e arquivos públicos. O objetivo aqui é informar, provocar reflexão e servir de alerta, sempre com respeito às vítimas e seus familiares. Como o programa aborda temas delicados, violentos e às vezes contém efeitos sonoros, escute com cautela. Dada a natureza de seu conteúdo, esse episódio não é recomendado para menores de 14 anos. Em maio de 1972, Adelaide, na Austrália, parecia uma cidade tranquila, quase elegante demais para guardar certos segredos. Foi para lá que se mudou o Dr. George Duncan. Um professor de direito formado em Cambridge, reservado, culto, discreto e recém-contratado pela universidade estadual. Acontece que por trás da rotina acadêmica, dos corredores universitários e da imagem respeitável de um homem brilhante, havia uma verdade que naquela Austrália ainda precisava ser escondida como questão de sobrevivência. George era um homem gay em um tempo em que amar, desejar ou simplesmente existir fora da norma local imposta podia ser tratado como crime. E mesmo sendo um homem necessário, alguém com tanto a oferecer à universidade, ao direito e à vida intelectual daquela comunidade, George ainda era visto por alguns setores do poder não pelo que produzia, ensinava ou representava, mas por aquilo que eles insistiam em transformar em ameaça. Até que certa noite, os verdadeiros criminosos não seriam aqueles que buscavam viver sua intimidade em silêncio, mas os que se julgavam autorizados a perseguir, humilhar e apagar quem não se encaixava na ordem que eles queriam manter. Então preparem um café bem forte e quem sabe dessa vez um chocolatinho bem colorido, pois hoje eu vou contar a vocês a triste e injusta história do assassinato do Professor Duncan, uma história importante por si só, mas que nesse episódio em particular ainda termina com um fato pra lá de chocante, que promete deixar qualquer true crimer de cabelo em pé. George Young Ogilvy Duncan nasceu em 20 de junho de 1930 no bairro de Golders Green, em Londres, na Inglaterra. Ele era filho único de um casal de neozelandeses e sua trajetória acadêmica sempre foi impecável, por mais resiliente que fosse. Durante a juventude, já morando em Melbourne, na Austrália, onde estudava, ele contraiu tuberculose e a gravidade da doença interrompeu seus estudos de filologia clássica. Eu não disse filosofia, mas filologia, que é a ciência que estuda a evolução das línguas e das culturas por meio da análise histórica de textos e documentos escritos. Ela atua como uma espécie de arqueologia dos textos, buscando restaurar obras antigas, compreender o sentido original dos autores e preservar o patrimônio histórico-literário da humanidade. Bom, depois de se recuperar da doença, George cruzou o oceano de volta para a Inglaterra, ingressando no prestigiado St. John's College em Cambridge, e foi lá que ele acumulou títulos de bacharelado, mestrado e, finalmente, em 1964, um doutorado em Direito. Após lecionar por um tempo ali na região mesmo, na Universidade de Bristol, o agora professor Duncan, um homem de posses, elegante, culto, charmoso e de hábitos profundamente reservados, decidiu que era hora de voltar para Austrália, um país que ele verdadeiramente adorava. Naquela época, voltar da Inglaterra para Austrália ainda podia significar quase um mês inteiro no mar, semanas atravessando oceanos, portos e fuso horários até que o navio finalmente alcançasse Adelaide. Mas a sensação de estar voltando para o local onde seu coração e sua alma pertencia fazia a viagem valer a pena. No dia 25 de março de 1972, Aos 42 anos, ele desembarcou de um navio para assumir o cargo de professor de direito na Universidade de Adelaide, instalando-se no campo do Lincoln College. Ele estava muito feliz com a posição, cheio de projetos para compartilhar com seus alunos e cheio também de planos para o seu próprio futuro. Mas foi justamente na geografia dessa nova rotina que o destino do professor começou a se entrelaçar com o perigo. Além de culto, George Duncan era um homem de profunda fé, ligado à ala conservadora da Igreja Anglicana, e mantinha sua homossexualidade sobre absoluto segredo por uma questão de sobrevivência, visto que no sul da Austrália daquela época, atos afetivos entre pessoas do mesmo sexo eram considerados crimes graves. Que resultavam em penas severas como prisão. E para compreender um pouco melhor o que viria a acontecer, precisamos desenhar o cenário. O Lincoln College, onde Duncan residia, e o campus da Universidade de Adelaide ficavam separados por uma imensa área verde cortada pelo rio Torrens, um leito de águas calmas e escuras que serpenteava bem o coração da cidade. Hoje, o Rio Torrens é um dos cartões postais de Adelaide, um corredor verde que atravessa a cidade, cercado por parques, pontes, ciclovias, áreas de passeio, restaurantes e espaços de lazer, com suas margens frequentadas por moradores, estudantes e turistas. Mas antigamente, o cenário era bem diferente. Devido à perseguição implacável do Estado à comunidade gay, os homens homossexuais e bissexuais não podiam frequentar locais públicos abertamente, que os forçava a transformar as margens arborizadas e isoladas desse rio, localizadas ali a poucos metros do campus universitário, perto ali da Quintor Avenue, em um ponto clandestino de encontros noturnos conhecido na comunidade como o Ponto Número 1. E foi cruzando essa fronteira invisível entre o respeito acadêmico e a clandestinidade forçada pela lei que na noite fria de 10 de maio de 1972, por volta das 23 horas, que a calmaria do rio Torrens foi brutalmente rompida por uma patrulha de caça humana que estava espreita nas sombras enquanto o professor Duncan caminhava diretamente para uma armadilha fatal. Daquela fatídica noite, a violência que se abateria sobre os frequentadores do local não seria um mero acaso, mas sim a execução de um plano brutal e covarde. A noite estava calma, mas só até o momento em que um grupo de homens entrou na área chamada Ponto 1 e encurralou dois frequentadores. Um deles era o professor Duncan e o outro um jovem chamado Roger James. Dois desses homens, segundo o que uma testemunha, um cara chamado Julian Clark, revelaria anos mais tarde em um depoimento detalhado à polícia, seguraram o professor enquanto um outro homem lhes morrava a ponto de quebrar seus ossos. Roger também foi espancado e arrastado pelo chão. Sem qualquer chance de defesa ou escapatória, ambos foram erguidos e arremessados do alto de um barranco diretamente nas águas turvas, profundas e frias do rio Torrens. Embora Roger tivesse sofrido uma fratura violenta no tornozelo direito durante a queda, ele conseguiu, impulsionado pelo puro instinto de sobrevivência, manter a cabeça fora d'água enquanto rastejava até a margem, onde esperou um tempo para evitar um reencontro com seus agressores e finalmente conseguiu se arrastar até a estrada mais próxima em busca de socorro. Enquanto ele era levado ao hospital, No leito do rio, o destino do professor George seguiu um rumo trágico. Havia um detalhe crucial sobre ele que seus agressores ignoraram ou simplesmente decidiram desconsiderar na crueldade do ataque. Apesar dele ter frequentado escolas de elite que valorizavam o desempenho atlético na juventude, George nunca havia aprendido a nadar. Então, Ao que foi arremessado na água, ele nem tentou fazer nada, né? Ele apenas afundou. Ao perceberem que o corpo do professor não emergia e que a brincadeira sádica havia tomado um rumo fatal— sim, porque para esses monstros isso era uma brincadeira, tá?— surgiu o medo deles terem depois que responder por homicídio. Então, temendo profundamente essa consequência, um dos agressores chegou a se despir e mergulhar nas águas lamacentas águas escuras do rio na tentativa desesperada de tentar localizar o professor, mas as buscas foram inúteis. Até porque, a esse ponto, o próprio rio já havia cobrado seu preço e o grupo criminoso fugiu, correito pela escuridão da Avenida Quintore, deixando para trás um cadáver oculto na água e um segredo que mais cedo ou mais tarde abalaria as estruturas da polícia australiana.

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Voz B:You're a savage, I knew it. Supergirl arrives.

Tatiana Daignault:What's Superman like?

Voz D:He sees the good in everyone. And I see the truth.

Voz B:What the fuck?

Tatiana Daignault:We haven't been formally introduced. Come in!

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Tatiana Daignault:Shop now in stores at nordstrom.com O comportamento das autoridades policiais nas primeiras horas do amanhecer do dia 11 de maio viria a transformar a tragédia em um escândalo institucional de proporções catastróficas. Uma vez no hospital, Roger contou o que havia acontecido e uma ocorrência foi aberta. Ao que o dia clareou e policiais não conseguiam localizar o professor no campus, uma equipe foi mandada ao Rio. E quando os oficiais da corporação finalmente localizaram o corpo, começaram a ação de retirada da água. Porém, nesta época, todas as vezes que um crime ou um acidente acontecia, a imprensa local era acionada para transmitir as primeiras imagens sensacionalistas do resgate. E nesse dia, a tal equipe de jornalismo chegou atrasada. Frustrados em não poder cobrir com imagens o momento da retirada do corpo, Imprensa e autoridades policiais tomaram em conjunto a grotesca decisão de simplesmente jogar o cadáver do professor de volta no rio, encenando uma segunda retirada toda coreografada exclusivamente para que as lentes das câmeras pudessem capturar a ação em tempo real, entre aspas, garantindo imagens impactantes para audiência daquela noite. Ou seja, não demonstraram qualquer zelo ético pela preservação das evidências ou pela dignidade elementar daquele ser humano. A notícia do afogamento e a farsa midiática espalharam um rastro instantâneo de pânico e revolta por toda a comunidade LGBT de Adelaide, que já vivia há tempos acuada pela constante ameaça de encarceramento. Roger, que ainda se recuperava no leito hospitalar da grave fratura sofrida no tornozelo, e as outras testemunhas que transitavam pela Avenida Quintori naquela noite se recusaram categoricamente a identificar os agressores aos investigadores locais, uma vez que todos sabiam perfeitamente quem eram aqueles que comandaram aquelas violentas caçadas noturnas: a própria polícia. O clima de terror e a iminência de retaliações brutais tornaram-se tão evidentes e inacreditáveis que o próprio premier da Austrália do Sul, Don Dustin, viu-se obrigado a intervir na crise por meio de um pronunciamento oficial, onde ele ofereceu garantias e proteção governamental estrita para qualquer cidadão que ousasse quebrar o pacto de silêncio para colaborar com as investigações. E assim, as suspeitas que eram sussurradas pelas esquinas da cidade não demoraram a se materializar em fatos alarmantes., confirmando que os executores do homicídio não pertenciam ao submundo dos criminosos comuns. Em poucos dias, os indícios apontaram de forma inequívoca para 3 oficiais sêniores pertencentes à própria Divisão de Costumes da Polícia de Adelaide, também conhecida como a Vice Squad, uma unidade da força policial sul-australiana responsável por policiar questões de moralidade e combater atividades consideradas ilegais na época. o que incluía a homossexualidade, prostituição e consumo de álcool fora de hotéis e pubs. Esses oficiais eram Francis Colley, Michael Clayton e Brian Hudson. E eles cumpriam as ordens de um civil poderoso e misterioso cuja identidade permanece protegida pelo anonimato até hoje. Quando os três foram convocados para prestar depoimento formal diante do inquérito instaurado pelo legista, Eles, é claro, ergueram uma muralha corporativa agressiva, recusando-se a responder a qualquer questionamento sob o amparo do direito de não produzir provas contra si mesmos. Uma manobra insolente que resultou em suas suspensões imediatas e na subsequente renúncia de seus cargos públicos. Entretanto, o verdadeiro insulto à inteligência e à moral pública materializou-se quando o comando da polícia emitiu um relatório de primeira investigação interna corporativa que concluiu formalmente que o afogamento do professor Duncan não passava de um frolic, ou seja, uma brincadeira, um trote, um trote feito por oficiais fora de serviço que infelizmente havia tomado o rumo errado. Essa cortina de fumaça e deboche institucional, para dizer assim, perdurou por longos 13 anos, tendo fim apenas no dia 30 de julho de 1985, quando um ex-policial daquela mesma unidade, um cara chamado Mick O'Shea, decidiu aliviar o peso de sua consciência e escancarou os bastidores da corporação em uma entrevista bombástica concedida ao jornal The Advertiser. Mick revelou que a morte do professor de direito estava longe de ser um incidente isolado, expondo que arremessar homossexuais no Rio Torrens era uma prática recreativa, sádica e sistemática da divisão de costumes para espancar e aterrorizar os frequentadores da região. Os oficiais possuíam inclusive um termo técnico asqueroso para batizar aquele sadismo. Eles chamavam a violenta rotina de, entre aspas, "Ensinar os veados a nadar". Isso mesmo, era esse termo pejorativo que eles usavam. Uma sinistra lição de ódio que naquela madrugada de maio custou a vida de George Duncan. Diante da indignação popular depois desse vazamento todo de informações, o premier Don Dunstan viu-se obrigado a intervir na blindagem da polícia local e autorizou o comissário Harold Salisbury a convocar detetives da super prestigiada Scotland Yard, em Londres, para que eles assumissem a responsabilidade de investigar a fundo o crime com total independência. Essa investigação britânica foi chefiada pelo detetive Bob McGowan, que conduziu os trabalhos de forma bem minuciosa e redigiu um relatório completo apontando a participação direta e inequívoca dos 3 oficiais daquela divisão nas agressões da fatídica noite. No entanto, em vez de usar as descobertas para promover a tão esperada justiça, o Parlamento Sul-Australiano e o procurador da coroa decidiram jogar o estudo todo para baixo do tapete, trancando o relatório em um cofre do governo sobre o pretexto de falta de testemunhas. E decretando assim um absoluto segredo de estado, que só viria a ser desfeito 30 anos mais tarde, em 2002, depois que o mandato de muita gente citada ali já tinha acabado. A essa altura do campeonato, o oficial Brian Hudson já havia falecido e apenas os ex-policiais Francis Colley e Michael Clayton sentaram no banco dos réus para responder pelo crime de homicídio culposo. No dia 5 de fevereiro de 1986, arrastando um julgamento frustrante que se estendeu até o dia 30 de setembro de 1988. Isso mesmo, 2 anos e meio de julgamento. E querem saber o veredito? Vocês, ouvintes, estão sentados? Ambos saíram do tribunal completamente absolvidos após se recusarem a testemunhar. Em um processo manchado por denúncias gravíssimas de intimidação e tentativas de suborno de jurados. Resultado final: ninguém cumpriu um único dia de prisão sequer pelo espancamento e morte do professor George Duncan. A única coisa que mudou com a morte dele foram as leis. Sob pressão popular, o parlamentar Murray Hill que, ironicamente, integrava a bancada de oposição conservadora, propôs, apenas 7 semanas após o afogamento, no dia 26 de julho de 1972, a primeira emenda para alterar o Código Penal que criminalizava o afeto e, após 3 anos de bloqueios, manobras e sucessivas derrotas impostas pela reacionária do Senado, no dia 27 de agosto de 1975 entrou definitivamente para a história dos direitos civis, uma mudança em toda legislação. O projeto do deputado Peter Duncan foi rejeitado, alterado, reintroduzido e derrubado várias vezes, mas enfim acabou depois sendo aprovado na terceira tentativa, finalmente transformando a Austrália do Sul no primeiro estado da nação e no primeiro território de língua inglesa do mundo a descriminalizar totalmente a homossexualidade. Professor Duncan, que se estivesse vivo completaria nesse mês de junho 96 anos, jamais escolheu ser um símbolo político. Ele era um homem tímido que detestaria ver sua intimidade devassada nos jornais e nos tribunais. Mas o seu sacrifício involuntário acabou cavando uma trincheira que garantiu o direito simples de existir para as gerações futuras na Austrália, um país que ele tanto adorava. Ele não obteve a justiça que merecia, mas sua memória venceu seus algozes fardados, transformando o leito lamacento daquele rio, né, do rio mais importante do país, que se diga, no marco zero da liberdade de uma nação inteira. Depois de Adelaide vieram outros estados, países, mas eu me pergunto: será que a sociedade já mudou o suficiente para que ninguém mais precise esconder quem é, quem ama, onde vai, como vive? Ou será que nós apenas trocamos algumas leis, alguns discursos e algumas fachadas, enquanto certos ainda continuam existindo em silêncio. Porque de nada adianta se surpreender quando o preconceito termina em morte, mas continuar menosprezando existências, normalizando violências e chamando preconceito de "opinião", né? Eu trago esses casos extremos aqui para vocês com o intuito de abrir campo para conversa, para conscientizar, quem sabe até iluminar a mente daqueles que possam estar com ela meio apagada. Mas no dia a dia mesmo, quem fica com desconforto, com a meia vida, são os que têm a coragem de amar quem o coração ama com todas as cores, num mundo que em pleno século 21 ainda insiste em pensar em preto e branco. Bom, gente, agora deixa eu contar a vocês a parte desse caso que eu prometi que deixaria vocês de queixo caído. Bom, sabe aquela parte do caso de hoje em que Roger James, de tornozelo quebrado, se arrasta até a beira do asfalto para pedir socorro? Pois bem, ele acenou para alguns carros, mas o único que o viu e parou para ajudar e acabou até o levando ao hospital foi um homem chamado Beaven Spencer von Nienan. Bom, normalmente o descreveríamos como um bom samaritano, não é? Só que nesse caso, embora ele tenha realmente ajudado, eu acho que o termo não se empregaria tão bem, dado que anos mais tarde, esse mesmo homem seria condenado à prisão perpétua como um dos serial killers mais sádicos e monstruosos da Austrália inteira, responsável por sequestro, tortura e assassinato de diversos outros jovens homossexuais da região de Adelaide. Ou seja, por uma ironia cruel do destino, quando naquela noite de 1972 Roger escapou da morte no rio, mal ele sabia que antes de chegar ao hospital ele ainda entraria no carro de um mega assassino. Surreal isso, né, gente? Bom, agora é claro, né? Eu terei que contar esse caso a vocês. Então aguardem que em breve eu venho com ele aqui no podcast. Enquanto isso, cuidem-se, protejam-se e fiquem bem.

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