Episódios de Café Crime e Chocolate

323 - Caso Família Clansy - Parte 1 - O Começo do Fim | EUA

15 de julho de 202650min
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Em Duxbury, Massachusetts, a vida idílica da família Clancy parecia o retrato do sonho americano. Mas por trás de postagens luminosas e sorrisos perfeitos, uma tempestade invisível e silenciosa vinha sendo gestada de forma avassaladora até que na tarde fria de 24 de janeiro de 2023, as vozes do silêncio deram fim a tudo por meio de um labirinto psicológico destruidor.

AVISO: Este episódio contém temas delicados e deve ser ouvido com responsabilidade

Produção: Crimes e Mistérios Brasil

Narração: Tatiana Daignault

Edição: Tatiana Daignault

Pesquisa e Roteiro: Tatiana Daignault 

Fotos e fontes sobre o caso você encontra aqui

O Café Crime e Chocolate é um podcast brasileiro que conta casos de crimes reais acontecidos no mundo inteiro com pesquisas detalhadas, narrado com respeito e foco nas vítimas.

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AVISO: A escolha dos casos a serem contados não refletem preferência ou crítica por qualquer posição política, religião, grupo étnico, clube, organização, empresa ou indivíduo.

Participantes neste episódio1
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Tatiana Daignault

HostJornalista
Assuntos5
  • Caso Família ClancyVida idílica em Duxbury · Tragédia familiar · Saúde mental materna · Violência contra crianças · Patrick Clancy · Lindsay Clancy · Cora Marie Clancy · Dawson William Clancy
  • Impacto da IA na saúde mentalDepressão pós-parto · Ansiedade e insônia · Pensamentos intrusivos e alucinações · Tratamento psiquiátrico · Efeitos colaterais de medicamentos
  • Tragedias e ImpactosRotina matinal normal · Pedido de comida e ida à farmácia · Tentativa de suicídio de Lindsay · Descoberta das crianças no porão · Morte das crianças
  • História de Patrick e Lindsay ClancyPrimeiro encontro e casamento · Carreira profissional · Sonho de ter filhos · Nascimento dos filhos
  • Investigação Policial e EvidênciasCena do crime · Estado de Lindsay após a queda · Coleta de evidências
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TDTatiana Daignault

Olá pessoal, eu sou Tatiana Deino e esse é o Café Crime e Chocolate, um podcast para quem gosta de ouvir histórias de crimes reais com cafezinho na mão, chocolate ao lado e fatos bem apurados. Cada episódio é produzido usando fontes seguras como entrevistas, documentários e arquivos públicos. O objetivo aqui é informar, provocar reflexão e servir de alerta. Sempre com respeito às vítimas e seus familiares. Como o programa aborda temas delicados, violentos, e este em especial contém efeitos sonoros, escute com cautela.

Dado a natureza de seu conteúdo, esse episódio não é recomendado para menores de 14 anos. O caso que eu trago hoje a vocês está indo a julgamento em breve, no dia 20 de julho de 2026, e tem tomado conta das coberturas de true crime nos Estados Unidos. Minha ideia a princípio era esperar o fim das audiências e o veredito para trazer o episódio, mas muitos de vocês começaram a me mandar mensagens pedindo para eu fazer o caso justamente porque queriam acompanhar o julgamento e entender a história.

Sendo assim, eu vou fazer essa primeira parte agora, que é o caso completo, ok? Pelo menos até o que sabemos até agora. E depois, quando o julgamento terminar, eu decido se farei uma atualização com o veredito ou uma parte 2 completa com tudo que foi falado em julgamento e a sentença também. Então podem escutar esse episódio inteiro tranquilo, pois ele não traz um caso que deixará vocês na dúvida de quem cometeu o crime. Isso todos já sabem.

A questão que ficará faltando será apenas a motivação real e a consequência para essa pessoa. Essa é uma história que envolve saúde mental, psicose, depressão pós-parto, suicídio, assassinato e violência contra crianças. Embora pesado, é muito importante que esse assunto seja falado e compreendido, não apenas por mulheres grávidas e mães, mas por quem convive com elas, ou seja, todos nós. Mesmo assim, se algum desses tópicos for perturbador demais para você nesse momento, não escute esse episódio.

Na noite de 24 de janeiro de 2023, quando a repórter Christina Rex da CBS News Boston chegou à rua Summer Street em Duxbury, Massachusetts, ela ainda não sabia exatamente o que havia acontecido dentro de uma das casas daquela rua. Havia viaturas, ambulâncias, equipes de resgate e até um helicóptero sobrevoando a região e esperando sinal dos oficiais para pousar no quintal da casa, que estava naquela noite coberto de gelo. Tudo isso indicava uma ocorrência muito grave, mas foi um detalhe em particular que fez com que Cristina percebesse que aquela não era apenas mais uma cena de crime.

Os policiais que entravam e saíam da casa estavam todos chorando. Homens e mulheres acostumados a atender acidentes, mortes e situações de violência saíam daquela casa visivelmente abalados. Inclusive, alguns dos profissionais que atenderam aquela ocorrência precisariam mais tarde ser afastados do trabalho por alguns dias, tamanho o trauma. Para uma repórter policial experiente como Cristina, a reação deles dizia muito mais do que qualquer informação oficial que pudesse receber naquele momento.

Duas crianças e um adulto já haviam deixado o local de ambulância, mas um quarto integrante da família era levado de helicóptero para um centro de tratamento intensivo especializado de Boston. Ao observar tudo aquilo, Cristina entendeu que aquela noite não terminaria quando as ambulâncias fossem embora. Porém, ela mal imaginava que por trás das portas daquela casa aparentemente comum começava um dos casos mais dolorosos, complexos e difíceis de explicar dos últimos anos.

Uma história que obrigaria milhares de pessoas a encarar perguntas para as quais talvez nunca existam respostas simples. Então preparem o café, abram os chocolates e ajustem os fones de ouvido, porque hoje eu vou contar a vocês o recente caso da família Clancy. Numa charmosa casa de madeira azul e branca, localizada no número 47 da Summer Street, na histórica e acolhedora cidade litorânea de Duxbury, Massachusetts, residia uma família que, para quem via de fora, parecia ter decifrado o código da vida perfeita.

Aquele endereço, situado em um dos bairros mais nobres e pacatos da região, a cerca de 43 minutos de Boston, exibia um amplo quintal gramado que, em dias de primavera e verão, parecia clamar pela presença de crianças brincando. No inverno, ele virava um cobertor branco perfeito para atividades com trenós e construção de bonecos de neve. E esse cenário, digamos que idílico, era a materialização de uma história de amor que havia começado uma década antes, mais precisamente no verão de 2013, Quando o destino de Patrick Clancy e Lindsay Marie cruzou-se de maneira quase que cinematográfica.

Lindsay Marie Musgrove nasceu em 11 de agosto de 1990 em Wallingford, Connecticut, e cresceu ali mesmo. Sua irmã, Alison, a descreveu como sendo carinhosa, preocupada e muito dedicada a todos, citando que quando ela dava um presente a alguém, por exemplo, Ela embrulhava com carinho, pensando na pessoa, e incluía cartões escritos à mão com palavras realmente saídas do coração. Por isso, talvez, quando se graduou do colégio, Lindsay não pensou duas vezes antes de ingressar em uma faculdade de enfermagem.

Ela parecia levar realmente jeito para cuidar dos outros. Ela já estava formada e solteira quando sua irmã e uma amiga resolveram apresentar para primo dessa amiga, um cara chamado Patrick Clancy. Além de ser amoroso, educado e um cara bem família, Patrick vinha construindo uma carreira promissora no setor corporativo e o encontro dele com Lindsay evoluiu rapidamente para um relacionamento profundo e inabalável. Algum tempo depois, demonstrando todo o seu romantismo, Patrick planejou meticulosamente um retorno ao mesmo local exato onde ele deu o primeiro beijo em Lindsay e lá pediu sua mão em casamento.

Em dezembro de 2016, sob as bênçãos de seus familiares, os dois se casaram, dando início a uma trajetória compartilhada que parecia personificar o mais puro ideal do sonho americano. Casa bonita, cidade segura, marido amoroso e provedor, esposa prendada e carinhosa, e ambos trabalhando com o que gostavam. Lindsey, cuja doçura e estabilidade emocional eram constantemente elogiadas por quem a cercava, encontrou no renomado Massachusetts General Hospital, em Boston, um emprego como enfermeira de obstetrícia.

Sua função englobava mais do que apenas habilidades técnicas, pois abrangia cuidados especiais não somente aos recém-nascidos e mães saudáveis, como também aos bebês nascidos prematuros ou doentes. E gestantes que enfrentavam problemas com a gravidez, sendo primordial que ela criasse uma conexão de carinho e afeto com eles. Sua rotina profissional incluía a criação do vínculo entre o recém-nascido e a família, visando qualidade de vida familiar e o desenvolvimento saudável dos bebês e das mamães.

Lindsay adorava o que fazia e aquele ambiente alimentava seu desejo mais profundo, o de ter seus próprios filhos e exercer também a maternidade. Ela cultivava um amor tão imenso por crianças que costumava brincar com suas colegas de trabalho dizendo que, se pudesse, gostaria de ter muitos filhos, tipo um time de beisebol completo, ou seja, 9 crianças. A concretização desse sonho, ou pelo menos o começo dele, não demorou muito para se manifestar, e bem na véspera de Natal Pouco antes da meia-noite, em 24 de dezembro de 2017, a casa na Summer Street ganhou uma nova vida com o nascimento da primogênita Cora Marie.

Desde seus primeiros passinhos, Cora demonstrava ser uma menininha extraordinariamente carinhosa, doce e boazinha. Ela não dava trabalho para dormir, aceitava qualquer tipo de dieta e era um bebê simplesmente fácil. Logo após Cora ter completado um aninho, Lindsay engravidou novamente e em 30 de setembro de 2019 deu à luz a um menino a quem ela e Patrick chamaram de Dawson William. Dono de lindos olhos castanhos, Dawson era um bebê muito sorridente, brincalhão, que encantava os vizinhos.

No entanto, segundo Lindsay em postagens em páginas para mães no Facebook, ele dava mais trabalho que a irmã quando o assunto era dormir e se alimentar. Só não sabemos se isso realmente era um fato ou apenas uma percepção dela. E digo isso pelo seguinte: logo após o parto de Dawson, enquanto estava de licença-maternidade, Lindsay, que já era uma pessoa bem organizada, teve, segundo sua própria mãe e seu marido, um episódio maníaco onde ela decidiu fazer uma verdadeira limpeza de desapego na casa, dizendo que aquilo a ajudaria a simplificar sua rotina.

Acontece que a limpeza que ela julgou ser apenas uma tentativa de ser minimalista foi vista pelos demais como um tanto quanto exagerada. Em menos de 24 horas, Lindsay jogou muita coisa fora, mas muita mesmo, e ela fez isso numa espécie de desespero, deixando a casa quase que praticamente vazia de objetos. Considerando que o casal ainda tinha menos de 4 anos de casados e nem tinham tido tempo ainda de acumular objetos desnecessários, a limpeza exagerada levantou uma bandeira vermelha a Patrick, que estranhou a atitude da esposa.

Mais para frente, quando Dawson estava com 1 ano e meio, Lindsay escreveu o seguinte em uma página do Facebook para mães e pais de crianças pequenas: Olá, queridos pais e mães, Estou precisando de algum conselho, apoio, ideias, qualquer coisa. Sério, qualquer coisa mesmo. Meu filho de 19 meses tem sido de verdade a pessoa mais difícil com quem eu já tive que lidar. Digo isso com todo amor do mundo, mas sinceramente não consigo passar um único dia sem ficar extremamente frustrada com ele.

Ele não é meu primeiro filho e eu sei que não devemos comparar porque cada criança é diferente, mas só para contextualizar aqui, eu já passei por essa fase antes, não sou mãe de primeira viagem. Com ele absolutamente tudo vira uma batalha e isso já vem acontecendo há um tempo, acho que desde que ele tinha uns 8 meses. Eu realmente tento escolher minhas batalhas e só insistir naquilo que é totalmente necessário. Mas quando eu digo que tudo é uma luta, é tudo mesmo.

Tirá-lo do berço pela manhã, descer com ele, trocar a fralda, colocar a roupa, fazê-lo sentar para comer, colocá-lo na cadeirinha do carro, tirá-lo da cadeirinha, colocar o casaco e os sapatos para sair, fazê-lo entrar em casa quando chega a hora, colocá-lo para dormir à tarde, à noite, noite. Ele resiste a tudo e luta comigo em cada uma dessas etapas, mesmo sendo coisas completamente normais da rotina. Eu tenho a sensação constante de que eu preciso obrigá-lo a fazer tudo, e isso me faz sentir péssima, como se estivesse fazendo algo errado.

Mas aí ele vai, esperneia, chora sempre que precisamos realizar alguma dessas atividades tão comuns do dia a dia. E eu ando exausta, sem saber o que fazer. Agradeço o tempo de vocês e as dicas que puderem me dar. Como essa postagem já foi apagada, eu não consigo ver o que as mães do grupo responderam, mas Lindsay continuou não apenas se abrindo e buscando consolo naquele grupo, como também preenchendo um diário todos os dias com o que e como se sentia quando o assunto era maternidade.

Quando Cora estava com 4 anos e meio e Dawson 3, nasceu o terceiro filho do casal, um menino chamado Kellen Patrick. E esse bebê era um anjo. Ele era extremamente calmo, tranquilo e feliz. Parecia passar os dias sorrindo para o mundo. Ele não chorava para mamá, dormia nas horas certas e fazia parecer quase que impossível de se notar que naquela casa havia um bebezinho. Naquela época, se ninguém navegasse pelas redes sociais de Lindsay, encontraria a crônica visual de uma mãe profundamente realizada.

Eram registros contínuos e luminosos de viagens em família, passeios à creche dos mais velhos, brincadeiras na neve e tardes ensolaradas na bela praia de Duxbury, um dos lugares favoritos da família. Em uma dessas postagens, Lindsay escreveu: Eu me sinto a mãe mais sortuda do mundo. Enquanto em outra publicação ela simplesmente questionava: Como tive tanta sorte? A casa azul que a família morava parecia abrigar o ápice de tudo que eles sempre sonharam.

No entanto, a vida real possui camadas invisíveis que as lentes das redes sociais não conseguem realmente capturar, e uma tempestade silenciosa infelizmente já começava a se desenhar no horizonte daquela jovem mãe.

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TDTatiana Daignault

Logo após dar à luz ao terceiro filho, Kellen, em 26 de maio de 2022, Lindsay se inscreveu em um grupo online online ligado ao processo chamado Miracle Morning, uma espécie de comunidade voltada para quem quer começar o dia antes de todo mundo acordar, muitas vezes por volta das 4 da manhã, com o intuito de aumentar a performance em diversas áreas da vida, com base nos ensinamentos do famoso autor Hal Elrod. Quem adere a esse programa dedica as primeiras horas da manhã, enquanto o sol nem nasceu ainda, Para praticar exercícios físicos, meditação, leitura, afirmações positivas, visualização de objetivos e planejamento pessoal.

Um método que promete controle, produtividade e equilíbrio emocional por meio da disciplina. Algo que, a princípio, parecia combinar bastante com Lindsay. Uma mulher que já era bem organizada, exigente consigo mesma e que, desde mais nova, recorria a exercícios e rotinas de autocuidado para controlar a ansiedade. Embora esse método do Miracle Morning, bem como o Clube das 5 e outros da mesma linhagem, tenha se tornado popular entre empresários, influenciadores e pessoas interessadas em desenvolvimento pessoal, algumas figuras conhecidas também declaravam ter adotado a rotina.

Entre elas, o palestrante Robert Kiyosaki, a excampeã mundial de boxe Laila Ali e o empresário Pat Flynn. A modelo brasileira Gisele Bündchen não chegou a se apresentar publicamente como seguidora do Miracle Morning, mas segundo seu livro Aprendizados, ela mantém um ritual bastante parecido, acordando por volta das 5 da manhã para meditar, exercitar-se e começar o dia antes dos filhos. Ou seja, em blogs, TED Talks e Reels de Instagram, a prática só leva a um caminho: o sucesso.

Na vida real, por trás das telas e das páginas de livro, milagres parecem não existir. Em julho de 2022, ainda durante a licença-maternidade, que era de 4 meses, Lindsay publicou no grupo do Miracle Morning que, ao contrário do que havia acontecido depois do nascimento dos 2 filhos mais velhos, naquele terceiro pós-parto ela acreditava estar se saindo bem melhor, justamente Porque permanecia muito focada nos exercícios físicos diários, na alimentação saudável, no desenvolvimento pessoal e na maneira como vinha conduzindo seus próprios pensamentos.

E isso porque ela estava acordando todos os dias às 4 da manhã, correndo 3 milhas, fazendo 30 minutos de spinning na Peloton, 30 minutos de exercícios de resistência. E em apenas 5 semanas após o nascimento de Kellen, já tinha participado de uma corrida de 8 km em Boston. Ao mesmo tempo que começou a seguir o Miracle Morning, Lindsay também entrou para um daqueles negócios de pirâmide conhecido nos Estados Unidos como MLM, Multi-Level Marketing, como Herbalife, Rino D, Amway.

No caso, a que ela entrou se chamava The Body Experience, pela empresa Beachbody, que nada mais é do que uma empresa que vende produtos de nutrição, suplementos com exercícios para mente e pro corpo. Tudo isso por trás de um aplicativo que gerencia os desafios. Quanto mais você usa e acumula pontos através de compras e exercícios, mais ganha. E se você convida amigos, ou melhor, vende o aplicativo ou acesso a esse grupo a amigos, mais ganha também.

A clássica pirâmide. Portanto, quando ouvimos que Lindsay estava ótima, temos que considerar que em muitos casos pessoas que estão em negócios modelo pirâmide vão vender a imagem de estarem excelentes para promover o produto. Lindsay dizia estar tendo o melhor pós-parto que já teve e atribuía esse resultado aos dois programas, o Miracle Mornings e o The Body Experience. A sensação de controle da própria rotina e eficácia dos programas, no entanto, parece ter durado pouco, porque apenas um mês depois, em agosto, Ela voltou ao mesmo grupo e fez uma postagem dizendo que já não estava mais conseguindo seguir aquela rotina rígida havia algumas semanas e que estava sofrendo bastante por conta disso.

Como resposta, outros integrantes do grupo aconselharam a encarar a situação como uma fase passageira, dizendo que mais cedo ou mais tarde tudo se encaixaria, e Lin se concordou. No entanto, aquele comentário aparentemente simples já revelava o quanto ela dependia daquela estrutura para a sentir que estava tudo bem em sua vida e como a falta de perfeição e controle também já começava a afetá-la emocionalmente. No início de setembro, os primeiros sinais de que algo não estava bem mesmo começaram a se manifestar, ao que Lindsay passou a sentir uma severa ansiedade diante da aproximação do término de sua licença-maternidade.

A unidade hospitalar que ela trabalhava já era um ambiente de alta pressão por si só, dada a natureza dos cuidados, né, que era obstetrícia. Acontece que agora, sendo mãe de 3 filhos com menos de 5 anos, a demanda seria bem maior quando comparada à época que ela não tinha filhos ainda ou tinha apenas uma filha. Vale acrescentar que nos Estados Unidos não há o costume de se contratar babás, com exceção das famílias que optam pelo serviço de au pair.

E ajuda com limpeza da casa também não é algo diário, como acontece mais frequentemente no Brasil. Patrick era um pai bem presente, embora trabalhasse 3 dias por semana em casa e até dividisse as tarefas domésticas todas com Lindsay. Ela gostava de fazer algumas coisas sozinha, e era justamente essa preferência em fazer ela mesma e do jeito dela algumas das coisas o que vinha deixando tão estressada ao que a data de voltar para o trabalho vinha se aproximando.

Só que a preocupação excessiva com a segurança e o bem-estar dos filhos transbordou os limites da normalidade quando Lindsay, mesmo nos curtos períodos em que saía de casa para fazer alguma coisa deixando as crianças com o marido, passou a monitorá-los incessantemente através de uma câmera conectada ao seu celular. E essa vigilância obsessiva atingiu um patamar preocupante num certo dia em que, ao visualizar a câmera, ela viu a filha Cora chorando na caminha dela.

E ao que começou a ligar para Patrick, ele não atendia o telefone. Ela se desesperou. Não se sabe ainda quantas vezes Lindsay ligou para o marido e quanto tempo esperou entre uma chamada e outra. O que se sabe é que ela ligou para a polícia logo em seguida e exigiu que uma viatura fosse enviada à sua casa para realizar uma verificação de bem-estar. Quando os policiais chegaram, Patrick estava dormindo e por isso não tinha ouvido a filha chorando e nem atendido as chamadas de Lindsay.

A atitude dela foi considerada extrema por quem convivia ao seu redor e pelos policiais também, o que nos faz suspeitar que Cora não estava chorando por muito tempo nem correndo perigo iminente, pois ela não estava perto de água, fogo ou nada muito perigoso. Sendo assim, buscando conter o avanço avassalador de sua ansiedade e daqueles sintomas que ameaçavam desestruturar sua rotina, Lindsay decidiu se consultar com uma psicoterapeuta com a qual, infelizmente, a aliança terapêutica essencial não foi formada.

Ou melhor dizendo, as duas não se combinaram. Em poucos dias, Lindsay começou a ficar tão deprimida e tão desmotivada que mal conseguia sair da cama, tomar banho e realizar tarefas básicas. Foi então que Patrick pediu para ser colocado em home office direto e os pais de Lindsay viajaram de Connecticut para casa deles para ajudá-la, ao passo que sua licença-maternidade também foi estendida por mais 2 meses. Foi nesse período que Lindsay procurou uma clínica psiquiátrica na internet e encontrou uma na cidade vizinha de Kingston, onde foi atendida pela Doutora Jennifer esportes.

Durante a consulta, ela fez o teste de depressão pós-parto e sua pontuação foi 23, algo considerado severo, segundo a médica. Como parte do tratamento, a psiquiatra receitou a Lindsay 50mg de cloridrato de sertralina. Embora a médica tenha explicado que aquele medicamento era considerado uma das opções de antidepressivo mais seguras e preferidas durante a amamentação, pois passava para o leite em quantidades muito pequenas, e costumava ser indetectável no sangue do bebê, Lindsay se recusou a tomar por conta de estar amamentando.

Acontece que, sem tratamento, sua condição foi apenas piorando e, um mês depois, ela decidiu tomá-lo, começando pela dose de apenas 25 mg. Porém, na primeira noite que tomou o medicamento, Lindsay não dormiu por 48 horas, passando noite e dia com a mente acelerada. Quando ligou para a Doutora Jenifer, explicou o que tinha acontecido. A médica suspendeu a sertralina e receitou lorazepam, com uso noturno de Benadryl para caso ela tivesse insônia.

Poucos dias após a troca de medicamento, Lindsay começou a se queixar de palpitações e insônia novamente. A dificuldade em dormir se tornou tão severa que em novembro daquele mesmo ano, 5 meses após seu último parto, Lindy se dirigiu sozinha até um pronto-socorro e pediu algum tipo de ajuda imediata, porque ela não vinha conseguindo pregar os olhos e sua mente estava muito acelerada. Quem a atendeu foi uma enfermeira clínica chamada Julie Paul, que a receitou Prozac.

Depois de 4 dias no Prozac, Lindy telefonou para o hospital dizendo que o Prozac tinha piorado ainda mais sua insônia, e a enfermeira Julie cancelou esse medicamento, colocando-a na seguinte combinação: Ambien, que é o nome comercial do zolpidem, um medicamento sedativo que, segundo a bula, é usado para tratar insônia, especialmente quando há dificuldade para pegar no sono, pois reduz temporariamente a atividade cerebral para facilitar o adormecimento.

Remeron, que é o nome comercial da mirtazapina, um antidepressivo usado principalmente para tratar depressão e também pode ser receitado quando a pessoa tem ansiedade, dificuldade para dormir ou pouco apetite, o que Lindsay também tinha. E por fim, clonazepam, conhecido no Brasil como Rivotril, que é um medicamento usado para tratar crises de pânico e também pode ser prescrito em outras situações de ansiedade. Depois de 24 horas após o uso desses medicamentos, Lindsay começou a apresentar episódios de dissociação, percebendo o mundo ao seu redor como algo distorcido e distante.

Ela já não conseguia distinguir o que era real, ficou desorientada, esquecida, confusa e desconectada do próprio corpo. Ela não conseguia dirigir nem ficar sozinha. Depois de ter relatado esses sintomas alarmantes aos profissionais que acompanhavam, dizendo que ela ainda não estava bem, que estava dormindo apenas 3 ou 4 horas por noite e estava completamente desorientada, Lindsay voltou ao consultório psiquiátrico da Doutora Jennifer e foi atendida por uma enfermeira clínica chamada Rebeca Iolota.

Depois de conversar bastante com Lindsay, Rebeca considerou a possibilidade de um quadro de transtorno bipolar e cancelou todos os medicamentos anteriores, prescrevendo a ela Seroquel, um medicamento antipsicótico que também atua como estabilizador de humor. E foi depois de começar esse medicamento que o estado de Lindsay piorou de forma drástica. I guess I'll let myself out.

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TDTatiana Daignault

Lindsay passou a ter pensamentos suicidas e começou a vivenciar o que descrevia como pensamentos intrusivos. Mas que na verdade eram alucinações auditivas. A tal voz dizia: eu nunca mais vou conseguir voltar a ser a mesma, eu quero morrer. E ela não passava por isso sozinha. Durante o feriado de Ação de Graças, ela comunicou abertamente ao marido, aos seus pais, bem como aos profissionais que a acompanhavam, sobre o agravamento de seu sofrimento interno descrevendo seu estado emocional como simplesmente sem emoção e como um zumbi, atribuindo ao medicamento Seroquel esse profundo entorpecimento afetivo.

Com isso, eles marcaram uma consulta de emergência no consultório da Doutora Jennifer, porém Lindsay foi atendida novamente pela enfermeira clínica Rebecca. E aqui vale explicar uma diferença importante entre o sistema de saúde americano e o brasileiro. Rebecca Irlotta é apresentada nos documentos sobre esse caso como uma Certified Nurse Practitioner, ou seja, ela não era apenas uma enfermeira nos moldes em que normalmente entendemos essa profissão no Brasil.

Nos Estados Unidos, uma Nurse Practitioner possui formação clínica avançada e pode exercer várias funções que, para nós, costumam estar associadas a um médico. Como avaliar sintomas, elaborar hipóteses diagnósticas, solicitar exames e prescrever medicamentos, inclusive remédios psiquiátricos. No Brasil, embora enfermeiros possam receitar determinados medicamentos previstos em programas públicos ou protocolos institucionais, não existe uma função nacionalmente regulamentada com a mesma amplitude da Nurse Practitioner americana.

E isso muda a maneira como devemos compreender o papel de Rebeca aqui nesse caso. Ela não estava simplesmente transmitindo instruções de uma outra médica, mas participava diretamente das decisões clínicas e tinha autoridade legal para prescrever o que fosse necessário, a partir, é claro, dos sintomas declarados por Lindsay e testes padronizados. Então, no dia 2 de dezembro de 2022, quando Lindsay contou à enfermeira Rebeca que havia perdido cerca de 7 quilos, estava sem apetite, vinha sofrendo ataques de pânico e episódios de confusão, além de apresentado dificuldades de concentração nos 4 dias que haviam se passado, Rebeca pediu para que ela desse mais tempo aos medicamentos para eles fazerem efeito.

Até porque, até então, ela não tinha passado mais de 4 dias em um medicamento só. Porém, as alucinações de Lindsay pioraram tanto que, 2 dias depois, ela telefonou para a linha local de prevenção ao suicídio pedindo ajuda. Depois de conversar com o atendente, ficou determinado que seu caso não se tratava de uma emergência imediata porque ela dizia não ter um plano específico de como tiraria a própria vida. Por isso, nenhuma ambulância foi enviada à casa e Lindsay não foi encaminhada naquele momento para uma internação preventiva.

Ao invés disso, foi agendada para ela, no dia seguinte, uma consulta virtual com um profissional da Aspire, organização responsável pelo atendimento de crises psiquiátricas naquela região de Massachusetts. A Aspire não era um hospital, mas um serviço que avaliava pessoas em crise e decidia se elas podiam continuar recebendo apoio fora do ambiente hospitalar ou se precisavam realmente ser encaminhadas para internação. E mais uma vez, Lindsay foi informada de que não preenchia os critérios para ser internada porque não apresentava um plano concreto de eliminação de si mesma.

Inconformados, Patrick e Lindsay voltaram à clínica da Doutora Jennifer e tentaram explicar para Rebecca a situação toda. Lindsay continuava deprimida, sem motivação e dizendo que só queria que aquilo tudo acabasse.

?Voz B

Lindsey.

TDTatiana Daignault

Patrick pediu para que a enfermeira repensasse a linha de tratamento e Rebeca decidiu aumentar a dose do Seroquel que ela já estava tomando. Daquele dia em diante, Patrick reduziu sua carga de trabalho, mesmo em home office, e passou ele mesmo a telefonar para enfermeira tentando alguma solução diariamente, pois Lindsey agora vinha dizendo para ele que estava escutando vozes E que essas vozes a diziam que ela nunca mais seria a mesma, que ela estava estragada, que estava com o corpo todo deteriorado e que a única opção era morrer.

Isso deixou claro para ele que Lindsay realmente não poderia ser deixada a sós um segundo sequer. Uma semana antes do Natal, os pais de Lindsay voltaram para casa dela para passar as festas e ajudar. E quando a mãe dela sugeriu que ela fosse para um hospital se tratara, Lindsay disse a ela que sentia que as pessoas todas estavam conseguindo ler seus pensamentos e que se os médicos do pronto-socorro escutassem o que se passava na mente dela, eles ou removeriam as crianças de casa e os colocariam em lares adotivos ou a internariam para sempre.

Diante desse relato, tanto seus pais quanto Patrick perceberam o quão perigoso o estado clínico dela estava e fizeram a coisa certa. Eles a levaram para o pronto-socorro. Dali ela foi encaminhada para um programa de semi-internação de uma grande maternidade de Rhode Island, que embora ficasse em outro estado, era apenas uma hora de sua casa. Então, entre 22 e 29 de dezembro, Lindsay passava o dia internada em tratamento e as noites em casa.

Durante esse período, ela perdeu mais 3 quilos. Embora estivesse parecendo um pouco melhor, a vontade de não mais viver continuava. No dia 31 de dezembro, pela manhã, Lindsay disse ao marido que estava cansada de tentar melhorar e que sentia que o melhor mesmo seria ela se internar em um hospital psiquiátrico. Psiquiátrico, pois ela estava agora tendo pensamentos que incluíam machucar as crianças. Sendo assim, ainda naquela tarde ela foi admitida no renomado McLean Hospital.

O McLean não era um hospital psiquiátrico qualquer, e sim o maior hospital psiquiátrico dos Estados Unidos, uma das instituições de saúde mental mais antigas e respeitadas do país, ligado à Faculdade de Medicina de com unidades especializadas em quadros complexos, como transtorno bipolar, psicose, depressão grave e risco de suicídio. Para Lindsay, chegar ao McLean representava uma mudança enorme na forma como vinha sendo tratada.

Até então, ela havia passado por consultas isoladas, atendimentos virtuais, trocas sucessivas de medicamentos e avaliações de crise que terminavam com ela voltando para casa ainda confusa, assustada e sem saber exatamente o que estava acontecendo dentro da própria mente. Agora, pela primeira vez, ela estaria em um ambiente protegido, afastada das responsabilidades com as crianças e sob observação contínua de uma equipe especializada que poderia acompanhar seu sono, seu comportamento e suas reações aos medicamentos, além também de investigar com um profundidade se o que ela vinha enfrentando era uma depressão pós-parto, uma reação medicamentosa, um episódio bipolar ou até alguma forma de psicose.

No entanto, o atendimento que recebeu no McLean foi extremamente inadequado. O hospital colocou Lindsay em uma ala restrita, onde ela deveria ser monitorada a cada 15 minutos por causa do risco a si mesma. Porém, como ela havia sido internada justamente na véspera de Ano Novo e por causa desse feriado o hospital estava funcionando com uma equipe bem reduzida, pacientes como ela passavam dia e noite apenas montando quebra-cabeças e colorindo desenhos, enquanto enfermeiros permaneciam atrás de um balcão protegido por vidro.

Apesar da gravidade do quadro que havia levado Lindsay até ali, Ela só foi examinada por um médico mesmo no dia 3 de janeiro de 2023, 3 dias depois de ter dado entrada no hospital. Nessa consulta, um médico psiquiatra chamado Dr. Goodhart suspendeu todos os remédios que ela vinha tomando e prescreveu apenas trazodona para ajudá-la a dormir. E já no dia seguinte, após ter dormido uma noite inteira, Lindsay perguntou se poderia voltar para casa antes do esperado, a tempo para festinha de aniversário de 5 anos da filha Cora.

Como seus pensamentos negativos haviam melhorado depois da redução do Seroquel, sua alta foi aprovada, desde que ela retomasse seu acompanhamento com a clínica da Doutora Jennifer e também passasse todos os dias por uma consulta de pelo menos 10 minutos com o Doutor Gurtcher. Assim, em 5 de janeiro de 2023, depois de apenas 5 dias de internação, Lindsay deixou o McLean e foi para casa. Durante a festinha de aniversário de Cora, ela sorria, mas não conseguia manter uma conversa coerente com ninguém e parecia sem emoção.

Por outro lado, ela estava conseguindo dormir com medicamento indutor de sono e tentando dar ao organismo dela o tempo necessário para uma espécie de limpeza que ela sentia precisar antes de algum outro tipo de antidepressivo. Aquela calmaria que preenchia os primeiros dias de janeiro de 2023 trazia a Patrick uma sutil e reconfortante sensação de alívio, pois Lindsay parecia estar respondendo de forma positiva aos novos ajustes médicos.

Ela tinha passado a interagir com mais vivacidade com todos em casa, sorria ao brincar com as crianças no tapete da sala e organizava até pequenos passeios passeios para eles 5 a museus e restaurantes locais, o que o levou a acreditar que o pior daquela tormenta psíquica havia finalmente ficado para trás. No entanto, a linha de investigação que os peritos da polícia de Massachusetts traçariam semanas mais tarde revelaria que, sob a superfície daquela aparente melhora, uma dinâmica perversa e meticulosa estava sendo gestada pouco a pouco na mente daquela jovem mãe.

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TDTatiana Daignault

A trágica terça-feira de 24 de janeiro de 2023 teve início na linda casa azul da Summer Street com uma normalidade quase desconcertante. Logo pelas primeiras horas da manhã, Lindsay, que dizia estar bem melhor e mais animada já alguns dias, acomodou a pequena Cora de cinco anos no banco traseiro do seu carro e dirigiu-se a uma consulta de rotina. Vacina previamente agendada por um pediatra. No consultório, ela conversou de forma amena com as secretárias, respondeu com precisão às perguntas da equipe de triagem e seguiu as orientações do médico, que posteriormente declararia que ela parecia estar em completo estado de lucidez, sem manifestar um único sinal de apatia, perturbação ou comportamento estranho.

Ao retornar para casa, Lindsey aproveitou o generoso acúmulo de neve que cobria o quintal e saiu para brincar com Cora e Dawson, deixando Callan dentro de casa dormindo em um bercinho ao lado da mesa de escritório de Patrick, que estava ali trabalhando. Junto dos filhos mais velhos, ela correu, brincou e moldou um boneco de neve, registrando o momento em uma fotografia que enviou via mensagem de texto para sua própria mãe, e para Patrick.

A tarde permaneceu tranquila na casa dos Clances, com Patrick trabalhando no computador, Lindsay assistindo TV e organizando a casa, e as crianças brincando. Às 10 para 5 da tarde, enquanto Lindsay estava em seu quarto, ela enviou uma mensagem de texto para o marido, que estava também em casa, porém 2 andares abaixo, já que seu escritório ficava no porão. E perguntou o que ele achava deles pegarem comida em um restaurante chamado Trivy.

Eles não tinham costume de pedir comida de fora durante a semana, mas dado o recente problema de Lindsay, vários aspectos da rotina deles haviam mudado e Patrick não estranhou o pedido. Muito pelo contrário, ele ficou feliz em atendê-lo, pois significava que a esposa estava voltando a sentir vontades. E se ela queria algo do Trivy, ele certamente atenderia seu pedido. Acontece que esse restaurante não fazia entregas durante a semana, e como Lindsay já tinha telefonado e feito o pedido, Patrick teve que sair para ir buscar, deixando-a sozinha em casa com as crianças.

O restaurante ficava a 11 minutos da casa deles, ou seja, 22 minutos fora. Assim que ele deu ré com o carro e saiu pela rua, Lindsay mandou uma outra uma mensagem pedindo para que ele aproveitasse que estaria ali na rua para passar na farmácia CVS para pegar Miralax, um laxante infantil. Patrick parou na farmácia antes de ir ao restaurante e de lá telefonou para Lindsay só para tirar uma dúvida quanto ao medicamento e ter certeza que estava levando certo, pois na ligação ela havia dito Miralax, mas na mensagem texto que mandou para ele em seguida, ela escrevia Piri Alex, e a última coisa que ele queria era frustrá-la com o remédio errado.

Então, saindo de lá, ele foi ao 3V, esperou a comida ficar pronta e voltou direto para casa sem ter parado para abastecer nem nada, chegando às 18:09. Ao que estacionou seu veículo na entrada da garagem e abriu a porta da frente, Patrick se deparou com um silêncio pesado e absoluto. A calmaria incomum em qualquer casa com 3 crianças pequenas fez com que ele subisse imediatamente as escadas em direção ao quarto do casal, onde Lindsay estava assistindo TV.

Ali ele se deparou com a porta trancada pelo lado de dentro, e ao gritar pelo nome dela sem ouvir respostas, ele decidiu arrombar a porta. Logo que entrou, Patrick notou manchas espessas de sangue no chão em frente a espelho e a janela completamente aberta, com neve derretida escorrendo pela parede. Confuso, ele correu até o parapeito e, ao olhar para baixo, avistou o corpo de sua esposa estendido sobre o solo do quintal lateral.

Desesperado, ele ligou para o serviço de emergência e desceu as escadas correndo em direção a Lindsay para verificar seus sinais vitais. Ao se aproximar dela, Patrick percebeu que a esposa não estava apenas viva, mas ainda consciente. E pela gravação da linha telefônica, Patrick pôde ser ouvido perguntando aos prantos o que ela havia feito. Lindsay respondeu dizendo que havia tentado contra a própria vida, cortando os próprios pulsos e o pescoço antes de saltar.

Mas o pior ainda estava por vir. Quando Patrick perguntou onde estavam as crianças, Lindsey apenas respondeu: elas estão no porão. Por pouquíssimos segundos, Patrick sentiu alívio ao presumir que os filhos pelo menos não haviam presenciado a mãe cometer aquele ato e poderiam estar apenas sozinhos e assustados em seu escritório, que ficava no porão. Mas ao chegar ao cômodo, foi recebido por uma cena que destruiu instantaneamente qualquer esperança e o lançou em um desespero tão profundo que palavras não são capazes de descrever.

Na ligação ao 911, os operadores registraram o exato momento em que a voz de Patrick, ao se aproximar do final dos degraus, transformou-se em um grito de agonia pura, visceral e dilacerante. Um som clamando por socorro que ficava mais e mais alto à medida que a chamada avançava. Os oficiais Brian Josephson, Steven Hall e Vincent Carroll, da polícia de Duxbury, se dirigiram ao endereço imediatamente e, ao entrarem na casa, seguiram os gritos que ecoavam de forma aterrorizante pelo imóvel até que se depararam com uma cena de brutalidade indescritível.

O porão da residência encontrava-se dividido em duas seções: uma sala de estar com sofás à esquerda e um espaço de escritório com equipamentos de musculação à direita. Próximo à escada, Patrick andava de um lado para o outro em completo estado de choque, gritando em meio às lágrimas, dizendo que ela havia matado as crianças. Deitados em diferentes pontos do piso do porão, desacordados, sem respirar e com as faces apresentando uma coloração azulada e roxa decorrente da asfixia severa, estavam os 3 filhos do casal.

Cada uma das pequenas crianças trazia amarrada firmemente em torno dos seus pescoços uma faixa elástica de utilizada para prática de exercícios físicos. O policial Brian recolheu imediatamente o corpo de Dawson, de 3 anos, que exibia marcas profundas de trauma no pescoço e tinha ao seu lado uma faixa elástica azul repousando no chão, e correu com o menino nos braços em direção à primeira ambulância que estacionava na frente da casa.

Na outra extremidade do porão, os paramédicos iniciavam manobras desesperadas de reanimação cardiopulmonar em Cora e no bebê Callan, gerando uma mobilização em massa que exigiu o acionamento imediato de recursos adicionais. Cora e Dawson foram transportados às pressas para um pronto-socorro em Plymouth, onde os médicos, apesar dos esforços, foram forçados a declarar o óbito de ambas as crianças. Exatamente às 7:28 daquela mesma noite, observando a presença massiva de petequias faciais e equimoses ao redor dos olhos e cabeças das pequenas vítimas.

O bebê Callan, de apenas 8 meses, foi estabilizado temporariamente e transportado por um voo de helicóptero médico em estado crítico para o Boston Children's Hospital. Onde lutou bravamente por sua vida, conectado a aparelhos de suporte vital por 3 dias consecutivos, vindo a sucumbir de forma dolorosa às complicações médicas da asfixia em 26 de janeiro de 2023, data exata que completaria 8 meses de vida. Enquanto isso, Lindsay se encontrava internada sob custódia policial direita.

Ela havia sofrido lesões vertebrais catastróficas decorrentes do impacto da queda da janela, incluindo uma fratura por explosão na vértebra T1, fraturas na lâmina da C4 e uma fratura tricolumnar cominutiva grave entre as vértebras T5 e T6, com anterolistese de 14 mm, resultando em uma paralisia irreversível do umbigo para baixo. Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia, a residência da Summer Street deixava de ser apenas o cenário de uma tragédia familiar e passava a ser tratada como uma peça central da investigação.

Cada cômodo, objeto e registro podia ajudar a reconstruir não apenas o que havia acontecido naquela noite e como, mas também o estado mental de Lindsay nos meses que antecederam crime. E em poucos dias, os investigadores obtiveram as respostas que precisavam, algumas delas escondidas justamente nos lugares mais comuns da rotina da família. E o que exatamente eles encontraram, eu conto a vocês na parte 2 desse episódio.