324 - Caso Família Clansy - Parte 2 - Monstro ou Vítima? | EUA
Na segunda parte do caso Família Clancy, a investigação começa a revelar o que os detetives encontraram dentro da casa, nos registros digitais e nos meses que antecederam a tragédia. Ao mesmo tempo, a defesa apresenta uma nova leitura sobre o estado mental de Lindsay e levanta questões que podem mudar a forma como esse caso será compreendido no tribunal. Com o julgamento prestes a começar, fica a pergunta que ainda divide tanta gente: estamos diante de uma mulher plenamente consciente do que fez ou de alguém profundamente adoecida e abandonada por um sistema que não conseguiu enxergar a gravidade do que estava acontecendo?
Produção: Crimes e Mistérios Brasil
Narração: Tatiana Daignault
Edição: Tatiana Daignault
Pesquisa e Roteiro: Tatiana Daignault
Fotos e fontes sobre o caso você encontra aqui
Para acompanhar o julgamento deste caso ao vivo em inglês, acesse este link: CourtTVLive
O Café Crime e Chocolate é um podcast brasileiro que conta casos de crimes reais acontecidos no mundo inteiro com pesquisas detalhadas, narrado com respeito e foco nas vítimas.
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AVISO: A escolha dos casos a serem contados não refletem preferência ou crítica por qualquer posição política, religião, grupo étnico, clube, organização, empresa ou indivíduo.
Tatiana Daignault
- Estado Mental de Lindsay ClancyAlegação de psicose · Vozes e ordens ouvidas · Diferença entre psicose e depressão pós-parto · Impacto dos medicamentos
- Morte de Fernando IggnácioAsfixia por compressão do pescoço · Uso de faixas elásticas · Tempo de duração da asfixia
- Poder JudiciárioAcusações formais · Tese da defesa sobre responsabilidade criminal · Controvérsia sobre medicamentos prescritos · Kevin Reddington
- Investigação do Caso ClancyEvidências físicas na casa · Análise de medicamentos · Depoimento de Patrick Clancy · Contato com testemunhas
- Lindsay Lohan· EntretenimentoRegistros de dosagens de medicamentos · Ideação suicida e desabafos · Buscas sobre sociopatia e suicídio
- Declaração de Patrick ClancyAgradecimento à comunidade · Memórias dos filhos · Perdão a Lindsay Clancy · Busca por cura e propósito
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Olá pessoal, eu sou Tatiana Dano e esse é o Café Crime Chocolate, um podcast para quem gosta de ouvir histórias de crimes reais com cafezinho na mão, chocolate ao lado e fatos bem apurados. Cada episódio é produzido usando fontes seguras como entrevistas, documentários e arquivos públicos. O objetivo aqui é informar, provocar reflexão e servir de alerta sempre com respeito às vítimas e seus familiares. Como este episódio em particular aborda temas delicados e extremos como violência contra criança, suicídio, psicose e depressão pós-parto, escute com cautela e lembre-se que ele não é recomendado para menores de 14 anos.
No início do episódio anterior, eu disse a vocês que contaria a história da família Clancy em uma parte só e viria com uma atualização depois que o julgamento terminasse. Porém, o episódio acabou ficando muito longo e eu precisei dividi-lo em duas partes, o que acaba mudando o nosso calendário pra esse mês. Então, se você é daquele ouvinte que espera ansiosamente por cada episódio, na data e no horário, dê uma olhada no nosso Instagram, pois eu colocarei a alteração do calendário por lá.
No mais, esse episódio é a continuação do de número 323. Então, se você não escutou ainda, volte e ouça primeiro. Nele eu conto quem era a família Clancy e dou detalhes de como a dinâmica da família foi alterada depois do nascimento do terceiro filho do casal, Patrick Lindsay. Agora, se você já o escutou, passe um café bem forte, separe os chocolates para adoçar o coração e coloque os fones de ouvido, pois é agora que eu vou contar a vocês o que os investigadores do caso descobriram e como o estado de Massachusetts resolveu prosseguir.
Logo após o atendimento de emergência ao que os investigadores do Departamento de Polícia de Duxbury despacharam as vítimas de ambulância, eles isolaram a casa da Summer Street para que uma perícia fosse feita o quanto antes. E assim que o mandato foi expedido, o processamento do local começou. Peritos imediatamente se depararam com uma quantidade avassaladora de evidências físicas. Entre vários objetos pessoais da família coletados estavam frascos de medicamentos controlados que estavam dispostos sobre a ilha da cozinha, 4 faixas elásticas de exercício de diferentes cores, uma faca de cozinha com o cabo preto severamente manchada de sangue que estava sobre a mesinha de cabeceira do quarto do casal, celulares, computadores e cadernos.
No hospital, enfermeiras forenses também recolheram amostras de sangue e urina de Lindsay, bem como um material contido sob suas unhas, para que fossem depois comparados ao revestimento do telhado e do lado externo da casa, Provavelmente para reconstruir a queda e verificar contatos físicos. Enquanto os laudos de necropsia de Cora e Dawson não ficavam prontos e os exames físicos e toxicológicos de Lindsay ainda eram analisados, Patrick foi chamado à delegacia para explicar melhor como tudo havia acontecido.
Através do depoimento dele e de dados extraídos dos aparelhos de celular do casal, Ficou comprovado que na tarde do dia 24 de janeiro, 45 minutos antes de pedir para o marido buscar comida fora, Lindsay pesquisou no celular dela o nome de um laxante infantil e logo depois o cardápio do restaurante Tree V em Plymouth, abrindo logo em seguida o aplicativo Mapas de seu iPhone para verificar quanto tempo levaria o trajeto entre o restaurante, a farmácia e sua casa.
Durante seu depoimento, Patrick, que estava completamente desolado, contou sobre a ansiedade da esposa em relação ao fim de sua licença-maternidade, o uso dos medicamentos, os pensamentos perigosos do final de dezembro, sua internação no McLean e a conversa em que ela teve com ele, lhe garantindo que não vinha mais contemplando tirar a própria vida. Ele ainda disse que tanto naquele dia quanto na semana anterior, Lindsay parecia um pouco mais disposta e mais funcional.
Em seguida, os investigadores procuraram as pessoas que tiveram contato com Lindsay no dia do ocorrido: a equipe médica do pediatra de Cora e o gerente da farmácia da CVS, que a atendeu pelo telefone quando Lindsay ligou perguntando se eles tinham laxante infantil. Todos eles disseram que Lindsay parecia normal, coerente e atenta. No entanto, era importante tentar ouvir da própria Lindsay o que havia acontecido. Acontece que assim que ela acordou das cirurgias que precisou passar, a primeira pergunta que ela fez foi: preciso de um advogado?
Ou seja, ela sabia que havia feito algo considerado errado, de fato criminoso, e se recusou a conversar com qualquer pessoa sem a presença de um representante legal. O advogado Kevin Reddington, que foi contratado por Patrick e pelos pais de Lindsay, imediatamente começou a declarar publicamente que Lindsay vinha sendo medicada de maneira excessiva e que os remédios haviam sido responsáveis pela tragédia, tendo provocado ou intensificado pensamentos suicidas e homicidas em sua cliente.
Ele disse à imprensa e investigadores que Lindsay e Patrick procuraram ajuda repetidamente e que as mudanças nas prescrições a deixaram mentalmente entorpecida, levantando também a possibilidade de diagnósticos errados. Quando os laudos de necropsia das crianças foram concluídos, eles revelaram que as três haviam sido privadas de oxigênio por meio de compressão do pescoço com o uso de faixas elásticas. Nos corpos de Cora e Dawson, os legistas encontraram marcas de ligadura, pequenos pontos de sangramento espalhado pelo rosto, pelas pálpebras e pela parte interna dos lábios.
Além de hemorragias nos olhos e nos pulmões, sinais compatíveis com asfixia. Não havia fraturas no crânio, hemorragias cerebrais ou indícios de que tivessem sido espancados, e a causa oficial da morte dos dois foi determinada como asfixia. Kellen apresentava escoriações dos dois lados do pescoço e petequias por todo o rosto. Como havia sido reanimado e permanecido hospitalizado durante 3 dias, sua causa de morte foi registrada como complicações decorrentes de asfixia.
Em outras palavras, embora o bebê tivesse recuperado os batimentos cardíacos durante o atendimento dos paramédicos, os danos provocados pela falta de oxigênio acabaram sendo fatais. Segundo a opinião do patologista forense que os examinou, teria levado algo em torno de 5 a 8 minutos para que cada criança perdesse a vida na forma com que foram estranguladas. As faixas utilizadas não eram cordas nem pequenos elásticos comuns, mas faixas de resistência usadas em exercícios físicos, grandes tiras flexíveis de material semelhante à borracha que se esticam quando puxadas.
Patrick, ao encontrar os filhos, conseguiu retirar as faixas de Cora e Kellen com muita rapidez, de fato. Agora as de Dossa estavam mais apertadas e precisou ser passada por cima de sua cabeça para que fosse tirada. Embora tudo tenha acontecido com muita rapidez, Patrick se lembra que essas faixas estavam enlaçadas atrás dos pescoços das crianças, amarradas em meio laço, quase como um cadarço. E por isso os investigadores determinaram que Lindsay teria simplesmente dado os nós nas faixas e se afastado.
A acusação sustenta que as faixas não se manteriam apertadas sozinhas e que ela teria segurado e puxado cada uma delas manualmente por tempo suficiente até que mantesse a tensão necessária para que as crianças parassem de respirar. Essa, no entanto, é uma teoria que os promotores pretendem provar no julgamento e não uma conclusão definitiva já estabelecida. No dia 6 de fevereiro, ainda no hospital, porém sob mandado de prisão preventiva, Lindsay recebeu a visita do psicólogo forense Paul Zasel, contratado pelo seu próprio advogado.
Durante a visita dele, ela, sabendo que todas as suas ligações estavam sendo legalmente gravadas, telefonou para Patrick e disse a ele que na tarde do ocorrido, depois que ele saiu de casa para buscar a comida, ela entrou em um estado de psicose. Segundo a própria Lindsay, ela teria ouvido uma voz dando ordens para que ela tirasse a vida dos filhos e depois a dela mesma naquela hora, pois aquela seria sua última oportunidade. Patrick perguntou que tipo de voz era essa e Lindsay respondeu: A voz de um homem.
Essa se tornou a principal explicação atribuída diretamente a Lindsay para o que havia acontecido na tarde fria de 24 de janeiro. Depois dessa ligação com a esposa, Patrick contatou a polícia e contou o que Lindsay havia dito, esclarecendo que essa era a primeira vez que ele ouvia dela a palavra psicose. Esse detalhe levantou dúvidas sobre o momento em que a explicação apareceu. Pois ela foi apresentada enquanto Lindsay estava acompanhada por um especialista contratado pela defesa, quase 2 semanas depois das mortes.
Segundo a versão apresentada posteriormente por Lindsay em seus registros médicos e nos processos movidos contra os profissionais que a trataram, depois de atacar as crianças, ela teria ingerido uma quantidade excessiva de seus medicamentos prescritos, feito cortes superficiais nos pulsos e no pescoço, e não pulado a janela do quarto, mas se pendurado no batente da janela e se soltado com os pés voltados para baixo e a barriga voltada para o telhado.
Embora circule relatos de que ela teria bebido vinho naquele intervalo, essa informação não aparece confirmada nos documentos públicos do caso. Patrick encontrou na mesinha de cabeceira uma faca ensanguentada e um copo térmico em formato de taça de vinho. Mas ainda não foi divulgado o que realmente havia dentro dele. Esses achados sugerem que mesmo depois de atacar os filhos, Lindsay ainda teria realizado uma sequência de ações distintas antes de se lançar da janela, algo que os detetives interpretaram como sinal de organização e consciência do que estava fazendo.
Sua defesa, por outro lado, afirmou que uma pessoa em estado psicótico ainda poderia executar tarefas, falar de maneira aparentemente coerente e até agir com certo método, sem compreender plenamente a realidade ou a natureza de seus atos. Sendo assim, para tentar determinar qual dessas interpretações se aproximava mais da verdade, os investigadores precisavam olhar além daquela noite e entender o que se passava na mente de Lindsay durante os meses anteriores.
E foi justamente dentro da própria casa, em seus diários pessoais, que eles encontraram o registro mais Plan B is a backup birth control option that's there for you when things don't go according to plan.
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Em dois diários, um marrom encontrado pelos policiais no sofá do porão e outro colorido que estava escondido em um armário da cozinha, Lindsay registrava de próprio punho e com uma caligrafia espantosamente clara e precisa não somente as dosagens de seus medicamentos e o que eles lhe causavam, mas também expressões recorrentes de ideação suicida, e desabafos perturbadores, incluindo um datado de 25 de outubro de 2022, no qual escreveu: Acho que meio que tenho raiva dos meus filhos mais velhos porque eles me impedem de tratar Kellan como se ele fosse meu primeiro filho.
Eu queria sentir amor e conexão com todos os meus filhos de forma igual. Para os policiais, essa narrativa passou a interpretar como evidência de um distanciamento afetivo voluntário e consciente. Evidências digitais coletadas de seu celular também pintavam uma imagem um pouco diferente do que seu advogado alegava. Apenas um dia antes dos crimes, Lindy fez uma anotação no aplicativo Notes de seu celular, onde também catalogava seus sintomas, escrevendo que naquele dia ela havia sentido apenas um pouco de ansiedade pós-parto associada ao retorno ao trabalho que seria em breve.
Agora, suas buscas no Google, essas viriam assustar. Entre os dados extraídos do celular, os investigadores encontraram uma pesquisa feita 4 dias antes das mortes com a pergunta: é possível tratar um sociopata? E uma outra busca na internet era sobre maneiras de matar. Em documentos posteriores, a defesa explicaria que Lindsay havia pesquisado o que era um psicopata ou sociopata porque estava assustada com a própria apatia. Ela temia ter se transformado em um e queria saber se existia tratamento.
Quanto à busca por formas de tirar a vida, Lindsay alegaria depois que vinha há meses procurando por formas de tirar a própria vida, embora tivesse mentido para o marido dizendo que não tinha mais esses pensamentos. Em meio disso tudo, Patrick soltou um comunicado à imprensa e à comunidade que dizia: Obrigado a todos pelo amor e apoio. O carinho que recebi da comunidade é palpável e a generosidade de vocês me dá esperança de, em algum dia, encontrar algum tipo de cura.
Li todas as mensagens e contribuições, incluindo algumas de pessoas que não via há mais de uma década. E muitas que nunca conheci. Vejo e agradeço a cada um de vocês. Muitas pessoas disseram que não conseguiam imaginar tudo isso, e elas têm razão. Não há absolutamente nada que possa preparar alguém para isso. O choque e a dor são excruciantes e implacáveis. Eu me pego pensando neles constantemente, e no pouco sono que eu consigo ter Sonho com eles repetidamente.
Qualquer pai ou mãe sabe, é impossível entender o quanto você amará seus filhos até tê-los. O mesmo vale para compreender a devastação de perdê-los. Cora, Dawson e Kellan eram a essência da minha vida e eu estou completamente perdido sem eles. Minha família Foi a melhor coisa que já me aconteceu. Eu tinha muito orgulho de ser marido da Lindsay e pai da Cora, do Dawson e do Callan. Eu sempre lembrava a mim mesmo de que cada dia com eles era um novo presente.
Callan geralmente acordava primeiro e apoiava sua cabecinha no meu ombro por alguns minutos enquanto ainda despertava para o dia. Dawson costumava cantar ou falar seus pensamentos em voz alta por um tempo na cama antes de irmos buscá-lo. Cora, já grandinha, simplesmente descia as escadas sozinha andando. Ainda consigo visualizar nitidamente ela entrando na sala todas as manhãs com o cabelo todo bagunçado e um sorrisinho no rosto.
Sempre começávamos os nossos dias juntos, lendo livros, aconchegados no sofá e brincando com blocos magnéticos. Eu adorava levá-los a vários lugares, fosse para andar de patinete na escola, sair de férias, esquiar, passear de barco ou ir à praia de Duxbury, um dos nossos lugares favoritos no mundo. Eles me davam um propósito E eu nunca deixei de valorizar isso. Agora existe um vazio enorme onde esse propósito costumava estar. Cora tinha uma risada contagiante e era incrivelmente linda.
Ela era mais cautelosa, mas isso acontecia na verdade porque ela era muito carinhosa. Ela costumava dizer que queria ser médica e mamãe quando crescesse e treinava fazendo exames de rotina no Kellan. Quando ela saía de casa para ir a algum lugar, escolhia alguém para cuidar de Caroline e Charla, suas duas bonecas. Ela tinha todos os acessórios de boneca à disposição, então quem cuidava delas estava bem equipado. Antes mesmo de completar 2 anos, ela já sabia enrolar as bonecas em mantas com perfeição.
Nós dizíamos que ela era uma mamãezinha maravilhosa. Ela adorava todos os bebês, tanto os de verdade quanto os de brinquedo. Amava bichos-preguiça, unicórnios, servir chazinhos de brincadeira, almoçar com a vovó e o vovô e dar presentes às pessoas. Ela sabia tudo sobre princesas. A favorita dela era a Sofia I. Ela realmente amava seus irmãos, e a nós, e dizia isso frequentemente com sua voz doce. Fizemos também muitas atividades juntos, apenas pai e filha, como esquiar, visitar São Francisco e simplesmente conversar.
Eu a amava demais. Ela era minha primogênita. Dawson tinha olhos castanhos lindos e expressivos que irradiavam amizade. Ele era naturalmente bem-humorado e bem mais generoso do que a maioria das crianças pequenas, sempre disposto a dividir seus brinquedos com os outros. Ele sempre retribuía com mais intensidade todo o amor que recebia. Sua melhor qualidade era sua bondade genuína. Ele adorava caminhões, tratores, dinossauros, patrulha canina, Bob the Builder e ficar ao ar livre.
Ele era aventureiro e travesso, gostava de fazer pequenas travessuras, coisa que ele mesmo achava hilário. Ele também era extremamente inteligente. Nós sempre dizíamos que se não economizássemos o suficiente para aposentadoria, não teria problema, bastaria morar na casa de hóspedes do Dawson, pois ele teria sucesso. Ele costumava me abraçar com mais força do que a maioria dos adultos, e todas as noites, na hora de dormir, dizia sempre as mesmas palavras: boa noite, papai, eu te amo.
Tivemos um vínculo especial desde o primeiro dia. Ele era meu companheiro, meu primeiro menino, e verdadeiramente um presente. Kellan era nosso filho tranquilo. Eu sempre dizia que isso acontecia por ele ser o terceiro filho, pois precisou se adaptar e adaptou com facilidade. Nasceu sem dar trabalho e foi de longe quem melhor dormia. Ele era um bebê incrivelmente feliz e vibrante que sorria o tempo todo. Nosso apelido para ele era Happy Kela.
Ele já estava conseguindo se sentar sozinho e dava para perceber que estava curtindo sua recente independência, pois agarrava qualquer objeto ao seu alcance. Às vezes ele aparecia ao fundo das minhas videochamadas com a Microsoft, brincando em seu cercadinho, e eu mantinha a câmera voltada a ele, sentindo orgulho demais para desligá-la. Ele tinha começado a dizer dá, dá sempre que eu chegava onde ele estava. O último momento que tivemos juntos Foi nossa rotina.
Eu subia do meu escritório no fim do dia e balançava entre minhas pernas enquanto ele ria e gargalhava. Quando eu tinha um dia ruim, Kellan sempre sabia como me curar. Talvez tenha sido por isso que ele resistiu um pouco mais, para me trazer um pouquinho mais de amor e me poupar de qualquer dor que pudesse. Por mais doloroso que tenha sido, tive a sorte, a gratidão de sentir o calor dele até o seu último instante. A fé é a minha única esperança de acreditar que ele tenha sentido o meu.
Kellen morreu com uma coragem imensa, apesar de tão pequeno. Talvez tenha sido a maneira dele de mostrar o que eu preciso fazer para seguir em frente. Sempre tentarei buscar inspiração nele. Ele será para sempre o meu pequeno herói. Agora quero compartilhar algumas reflexões sobre Lindsay. Ultimamente ela tem sido retratada em grande parte por pessoas que nunca a conheceram e que jamais souberam quem ela realmente era. Nosso casamento foi maravilhoso e se fortaleceu imensamente à medida que a condição dela se agravava rapidamente.
Eu tinha tanto orgulho de ser marido dela quanto de ser pai e sentia-me constantemente afortunado por tê-la em minha vida. Ainda me lembro do exato momento em que a vi pela primeira vez e recordo como fui arrebatado por aquele tipo de amor à primeira vista que só vemos em filmes. Não demorou muito para que eu tivesse certeza de que queria me casar com ela. Dizíamos eu te amo várias vezes ao dia, quase que por reflexo. Tínhamos o hábito de começar todas as manhãs com um abraço apaixonado que nos trazia um suspiro de alívio, como se tivéssemos recebido o remédio perfeito para o dia.
Se passasse muito tempo sem um abraço, ela olhava para mim e perguntava: ei, se esqueceu? Compreendíamos a realidade de que as pessoas podem ter dias ruins, mas seguíamos a regra de que quando um de nós se perdia, o outro estava sempre lá para trazê-lo de volta. Sempre. Ela amava ser enfermeira, mas nada se comparava ao seu amor intenso pelos nossos filhos e a sua dedicação em ser mãe. Era tudo que ela sempre quis. O entusiasmo dela foi sempre o que me ensinou a ser um pai melhor.
Quero pedir a todos vocês que busquem no fundo dos seus corações a capacidade de perdoar a Lindsay assim como eu a perdoei. A verdadeira Lindsay era generosa, amorosa e atenciosa com todos, comigo, com os nossos filhos, com a família, com os amigos e com seus pacientes. A essência de sua alma era feita de amor. Tudo que eu desejo para ela agora é que de alguma forma ela encontre a paz. Prometo agora dedicar toda a minha energia à minha cura e a redescobrir o meu propósito.
Devo isso a todos vocês, os bombeiros e policiais de Duxbury, nossos profissionais de saúde compassivos, aos líderes religiosos locais, a comunidade da Microsoft e especialmente a Cora, Dawson e Callan. Não sei como nem quando conseguirei fazer isso, mas o amor e a generosidade de vocês me ajudarão a recomeçar. Sei que o amor sempre vence. Cora, Dawson, Kellen, vocês me deram tanto durante o pouco tempo que passaram aqui. Não sei se a dor algum dia vai passar, mas farei o possível para seguir em frente em homenagem a vocês.
O papai lhes ama muito e vai sempre se lembrar de vocês, para sempre. Com amor e infinita gratidão, Patrick Clancy. Na sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023, uma missa fúnebre foi realizada em nome de Cora Marie Dawson William e Callum Patrick na Igreja St. Mary of the Nativity em Sitchewitt, cidade vizinha a Duxbury. A imprensa não teve acesso ao interior da igreja e poucos detalhes sobre os caixões, músicas ou rituais específicos foram divulgados justamente porque a família manteve o funeral privado.
Enquanto Lindsay permanecia hospitalizada sob custódia policial, Patrick enfrentava um estado de choque tão profundo que, segundo um de seus primos, parecia praticamente catatônico durante a cerimônia. Ele optou por não retornar para casa onde tudo havia acontecido e passou um tempo hospedado com seus pais. No mês seguinte, embarcou sozinho em uma viagem pela América Central e pela Europa, e quando voltou, esvaziou a residência de Duxbury, distribuindo entre amigos alguns dos brinquedos e pertences das crianças.
Mais tarde, mudou-se para um apartamento em Midtown, Manhattan, Nova York, onde passou a tentar reconstruir uma vida que agora carregava apenas pequenos fragmentos da família que perdeu. Embora Patrick tivesse declarado seu perdão à esposa, o estado de Massachusetts, depois de 9 meses de profunda análise, tomou a decisão de como iria buscar justiça pelas crianças.
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Em setembro de 2023, Lindsay Marie Clancy foi formalmente indiciada por um grande júri da comarca de Plymouth. Culminando em sua acareação judicial na data de 26 de outubro do mesmo ano, perante ao hospital onde ela foi formalmente acusada de 3 contestações de homicídio em primeiro grau e 3 acusações separadas de estrangulamento. Lindsay declarou-se inocente de todas as acusações e permaneceu detida sem direito a fiança naquela mesma instituição médica.
A batalha judicial delineada entre o Ministério Público e o experiente advogado de defesa, Kevin Redington, transformou o caso em um verdadeiro marco sobre a responsabilidade penal e a saúde mental materna. Enquanto a promotoria apoia seu caso firmemente no argumento de que a conduta de Lindsay foi pautada por uma deliberação racional, deliberada e de extrema atrocidade e crueldade, utilizando as pesquisas cronometradas no Apple Maps e as chamadas telefônicas simuladas, para comprovar que ela teria arquitetado uma armadilha temporal consciente para eliminar seus filhos e tentar evadir-se da punição através do suicídio.
A estratégia traçada pela defesa, porém, concentrou na forma absoluta da tese de falta de responsabilidade criminal decorrente de uma intoxicação involuntária e de um colapso psiquiátrico catastrófico gerado pelos médicos que a atenderam antes do ocorrido. A defesa argumenta de forma robusta que a prescrição caótica de 13 substâncias psicotrópicas pesadas destruiu a capacidade substancial de Lindsay em saber distinguir o certo do errado ou de conformar seu comportamento aos dítames da lei no momento exato dos fatos, empurrando-a para um estado agudo de psicose pós-parto.
Induzida por medicamentos e por uma severa síndrome de abstinência. Agora, depois que uma relação completa de documentos de um caso civil em que Patrick e Lindsay juntos estão movendo contra a clínica psiquiátrica da Doutora Jennifer, contra os hospitais que ela recorreu e contra o renomado Hospital McLean, pode-se perceber que existe uma discordância clara entre defesa e acusação no que diz respeito aos medicamentos, pois tanto prontuários quanto históricos das visitas e das internações, e os próprios diários de Lindes inclusive, apresentam provas de que nunca foi prescrito a ela essas 13 medicações juntas, e que de fato ela nunca tomou nenhuma delas por mais de 4 dias.
Na maioria das vezes, Lindy abandonava o uso do medicamento no segundo ou terceiro dia e era ela mesma que pedia para que um outro fosse testado. Muitas fontes que cobrem esse caso cometem o erro de publicar que ela teria sido prescrita 13 remédios controlados e ponto final. O que eles não explicam é que 13 medicamentos foram receitados a pedido dela em visitas médicas diferentes e ao longo de 7 meses. Inclusive, um relatório parcial indicou que ela tinha apenas presença de um dos medicamentos em seu organismo que parecia estar sendo tomado de forma contínua, e não 3, 5, muito menos 13 todos juntos.
Todos esses outros medicamentos que ela havia ingerido na tarde do ocorrido, momento ali em que atentou contra a própria vida, estavam ainda em seu estômago. Durante o julgamento, defesa e acusação terão cada um a tarefa difícil de comprovar suas teses baseadas em ciência, biologia, psicologia e convencer um júri que representa uma sociedade ainda muito carente de informações sobre a saúde mental, principalmente no período pós-parto, de que suas teses são as corretas.
O caso, que caminha para o seu desfecho nos tribunais com a seleção do júri agendada para o dia 20 de julho de 2026, será, além de um divisor de águas para o tema, um severo alerta sobre as lacunas no tratamento de transtornos de humor pós-parto e na precisão da prescrição de substâncias psicotrópicas. Especialistas forenses e defensores dos direitos da saúde mental materna continuam a debater as nuances que diferenciam a depressão da psicose pós-parto, apontando que tais condições devem ser tratadas com rigor de emergências médicas absolutas, uma vez que a ausência de um diagnóstico preciso e de uma aliança terapêutica sólida pode empurrar mães dedicadas para um abismo de um colapso psiquiátrico.
Com mais de 200 testemunhas arroladas no processo e um júri de 18 membros, e não apenas 12 como usualmente acontece nos Estados Unidos, o destino legal de Lindsay Clancy permanece em aberto perante a justiça. Incapaz de se mover do umbigo para baixo devido à irreversível lesão sofrida na queda, ela aguarda o veredito final em uma instituição hospitalar do estado, presa a uma cadeira de rodas e ao peso eterno de suas próprias memórias.
Para Patrick, resta a dolorosa e solitária tarefa de reconstruir um propósito sobre o imenso vazio deixado na antiga casa azul, carregando consigo a memória eterna do sorriso de Cora, da gentileza de Dawson e do calor do pequeno Callan, cujas breves existências deixaram uma marca de amor e uma busca por respostas que o tempo jamais será capaz de apagar. Quem quiser acompanhar o julgamento, eu deixarei o link do canal da Court TV na descrição desse episódio e também compartilharei pelo Stories do nosso Instagram quando ele estiver ao vivo.
E enquanto ele não acontece, eu deixo com vocês, ouvintes, a pergunta: Lindsay Clancy é um monstro, uma vítima nesse caso? Eu aguardo o comentário de vocês. Antes de terminar esse episódio, eu também quero alertá-los quanto aos perigos dos transtornos de humor pós-parto quando não são tratados e recomendar que se você ou alguém próximo estiver passando por algo parecido, não subestime os riscos de colapso e procure ajuda, seja em um hospital ou em alguma organização como o CVV no Brasil, ou até mesmo apenas compartilhando os seus sintomas com alguém próximo que possa lhe encaminhar corretamente para ajuda certa.
Falar ajuda e salva. É importante também, nesse caso, saber fazer uma distinção clara entre depressão pós-parto e psicose pós-parto, porque embora as duas possam surgir depois do nascimento de um bebê, elas não são a mesma condição nem apresentam o mesmo grau de ruptura com a realidade. A depressão pós-parto é relativamente comum. Segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, Cerca de 1 em cada 8 mulheres que deram à luz recentemente no país apresenta sintomas desse quadro.
Ela é mais intensa e duradoura do que o chamado baby blues e pode provocar tristeza persistente, irritabilidade, crises de choro, culpa, falta de energia, perda do prazer, afastamento emocional do bebê e a sensação angustiante de não ser capaz de cuidar dele. É uma doença real e tratável. Não uma demonstração de fraqueza, ingratidão ou falta de amor pelo filho. Já a psicose pós-parto é muito mais rara, atingindo aproximadamente 1 ou 2 mulheres a cada 1000 partos.
Mas ela também é muito grave. Seus sintomas costumam aparecer de forma súbita, frequentemente nos primeiros dias ou nas 2 primeiras semanas depois do nascimento. E podem incluir alucinações, delírios, paranoia, mania, agitação extrema, mudanças bruscas de humor, insônia intensa e profunda confusão mental. Nesse estado, a mulher pode perder o contato com a realidade e nem sequer perceber que está doente, razão pela qual muitas vezes são os companheiros ou os familiares que precisam reconhecer os sinais procurar ajuda.
A psicose pós-parto é considerada uma emergência médica porque ela pode evoluir rapidamente e colocar em risco tanto a mãe quanto o bebê, assim como vimos nesse caso. Ainda assim, com atendimento imediato, hospitalização quando necessária e tratamento adequado, a maioria das pacientes consegue se recuperar completamente. Recado dado. Agora eu vou indo e volto daqui algumas semanas com mais um caso para vocês. Enquanto isso, cuidem-se, protejam-se e fiquem bem. Queen Carvania stood haloed by the morning sun.
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