315 - Caso Sherri Papini | EUA
Uma mãe sai para correr numa tarde aparentemente comum na Califórnia e desaparece sem deixar respostas, transformando a rotina de uma pequena comunidade em uma busca desesperada. Enquanto a família implora por notícias e a polícia tenta reconstruir seus últimos passos, detalhes estranhos começam a surgir — e o que parecia ser um caso claro de desaparecimento logo se torna uma história cercada por dúvidas, medo e perguntas difíceis de ignorar.entificam essa mulher como Sherri Papini.
O Café Crime e Chocolate é um podcast brasileiro que conta casos de crimes reais acontecidos no mundo inteiro com pesquisas detalhadas, narrado com respeito e foco nas vítimas.
Produção: CMB Media
Narração: Tatiana Daignault
Fontes principais:
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AVISO: A escolha dos casos a serem contados não refletem preferência ou crítica por qualquer posição política, religião, grupo étnico, clube, organização, empresa ou indivíduo.
- Descoberta de Sherry PapiniSherry Papini · Resgate · Ferimentos · Marca Êxodos
- O DNA de CristoJames · DNA · Fraude · Relacionamento abusivo
- Desaparecimento de PessoasSherri Papini · Desaparecimento · Califórnia · Busca desesperada
- Desaparecimentos e a investigação inicialDesaparecimento · Polícia · Buscas · Keith Papini
- Relacionamento de CarlaKeith Papini · Casamento · Família tradicional · Imagem de rotina perfeita
- Infância e juventudeSherri Grave · Dificuldades financeiras · Comportamento rebelde · Fuga de casa
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Olá pessoal, eu sou Tatiana Dano e esse é o Café, Crime e Chocolate. Um podcast para quem gosta de ouvir histórias de crimes reais com um cafezinho na mão, chocolate ao lado e fatos bem apurados. Cada episódio é produzido usando fontes seguras como entrevistas, documentários e arquivos públicos. O objetivo aqui é informar, provocar reflexão e servir de alerta sempre com respeito às vítimas e seus familiares.
Como o programa aborda temas delicados, violentos e às vezes contém efeitos sonoros, escute com cautela. Dado a natureza de seu conteúdo, esse episódio não é recomendado para menores de 14 anos. Em novembro de 2016, uma mulher de 34 anos, mãe de dois filhos pequenos, saiu para correr numa tarde aparentemente comum na Califórnia e desapareceu quase que sem deixar vestígios.
transformando a rotina de uma pequena comunidade em uma busca desesperada. Enquanto sua família implorava por notícias e a polícia tentava reconstruir seus últimos passos, detalhes estranhos começaram a surgir e o que parecia ser um caso claro de desaparecimento, logo se tornou uma história cercada por dúvidas, medo e perguntas difíceis de ser ignoradas.
Então, preparem o café, pois hoje eu vou contar a vocês a história do desaparecimento de Sherry Papini.
Sherry Grave nasceu em 11 de junho de 1982 na cidade de Reading, no norte da Califórnia, próximo ao famoso Monte Shasta. Lá, ela e sua irmã Sheila foram criadas pelos pais Richard e Loretta Grave. Sua infância foi descrita como turbulenta, uma vez que seus pais enfrentavam dificuldades financeiras consistentes para sustentar as duas filhas, o que gerava atritos frequentes na residência.
Sendo a caçula, Sherry era sempre a mais protegida e cuidada com mais zelo. Isso também se dava pelo fato dela ser miudinha e um pouco mais quietinha que a irmã. Embora tivesse uma aparência delicada e angelical, o comportamento de Sherry, enquanto pequena, era considerado um pouco mais dramático quando comparado à da irmã mais velha. E ela parecia às vezes inventar doenças, aumentar sintomas e até criar provocações para obter atenção.
E à medida que foi ingressando na juventude, suas atitudes foram ficando mais rebeldes. No penúltimo ano do ensino médio, aos 16 anos, Sherry abandonou os estudos e fugiu de casa, indo morar temporariamente em Los Angeles e depois na Bahia de San Francisco, distanciando-se completamente dos pais por dois anos até decidir voltar para casa.
Sua volta, porém, não trouxe paz à família por muito tempo, pois as brigas entre Sherry e seus pais eram constantes e aos 21 anos ela resolveu ir morar sozinha, cortando de vez o relacionamento com eles. Em 2008, aos 26 anos, ela reencontrou um ex-colega de escola, Keith Papini, que foi, na verdade, aquele com quem ela teve seu primeiro beijo ainda na sétima série.
Esse fato deu um tom de romance ainda maior, como se estivessem destinados a ficar juntos. E meses depois, Keith pediu em casamento. Acontece que logo após o pedido, Sherry o surpreendeu ao dizer que não podia ainda se casar, pois ela ainda estava casada com uma outra pessoa. Pois é. Em 2006, ela havia se casado com um cara que ela estava saindo chamado David Davos.
A relação dos dois era, digamos que, casual, mas como Sherry estava sem plano de saúde e precisava fazer um tratamento, David, que estava prestes a ser despachado para o Oriente Médio pelo exército, aceitou se casar com ela para que ela passasse a ter cobertura pelo seguro oferecido a esposas de militares. Ou seja, era um casamento meio que apenas no papel.
Mesmo assim, para se casar com Keith, ela precisava esperar o divórcio com David sair, e assim que saiu, os dois trocaram alianças e Sherry Grave se tornou Sherry Papini. Keith tinha a mesma idade de Sherry e cresceu em uma família de classe média ali do condado de Shasta, com a mãe, a irmã e o padrasto.
Além de ter uma boa aparência física, praticar esportes e gostar de ler, Keith era querido por todos seus amigos e colegas de trabalho. Ele não era de se envolver em brigas, dramas e conflitos. Depois de graduar pela Shasta University com um diploma de bacharel em administração com ênfase em justiça criminal, ele conseguiu emprego na loja de eletrônicos Best Buy como gerente especialista de contratos.
Se ele tivesse continuado os estudos rumo a um mestrado, poderia ter adquirido um diploma compatível ao necessário para ser um advogado, mas como o emprego na Best Buy era, de fato, muito bom, com excelentes benefícios, ele estacionou por ali mesmo.
Keith ganhou da mãe dele a casa onde cresceu, um imóvel lindo em Mountain Gate, e depois de reformado, foi lá que ele e Sherry construíram um lar onde o casal passou a cultivar meticulosamente a imagem de uma rotina doméstica perfeita. Sherry, que não escondia ter toque e mania de limpeza, mantinha a casa sempre brilhando e impecável. E seu perfeccionismo não se resumia apenas ao ambiente interno.
Ela mantinha um jardim digno de capa de revista e cultivava uma horta orgânica com tomates perfeitos, dos quais ela, todos os anos, fazia vidros e mais vidros de molho fresco para presentear os amigos. Ou seja, a dinâmica familiar era pautada por uma estrutura bem tradicional. Tradicional até na hora de planejar os filhos.
De acordo com um artigo de Elana Erola para o site Medium, Sherry fazia questão de coordenar a ordem do nascimento dos filhos com a data que ela queria e o sexo dos bebês. Então, ela pesquisava posições sexuais que aumentariam as chances de engravidar de um sexo ou de outro e cruzava essas informações com seu ciclo menstrual.
Seu plano era ter um menino e dois anos depois uma menina, e ela conseguiu seu objetivo. Depois de dar à luz seu primeiro filho, Tyler, Sherry parou de trabalhar na AT&T, onde atuava já há cinco anos, e assumiu o papel de mãe em tempo integral, enquanto Keith exibia uma postura de intensa devoção e suporte financeiro.
Ele tinha orgulho de ser o único provedor financeiro da família enquanto a esposa fazia o papel idealizado por ele de super mãe e super esposa. Mais tarde, conforme planejado, o casal teve uma filha chamada Violet e a família parecia estar completa e feliz.
completa Numbas. Sherry se dava muito bem com a sogra e com o marido dela, mas não queria proximidade com seus próprios pais. De seu lado da família, ela só tinha contato mesmo com a irmã Sheila, e mesmo assim, muito pouco. De acordo com Sheila, Sherry era uma mãe fantástica, muito presente, dedicada e verdadeiramente amorosa.
Com Keith, ela também era muito carinhosa e os dois pareciam tão apaixonados no sexto ano de casamento quanto na época do primeiro beijo. Colegas de trabalho de Keith sempre relatavam que ele era louco pela esposa e pelos filhos. Tudo que Sherry fazia, Keith elogiava e sempre que tinha a chance de contar algo sobre a vida familiar, ele contava.
Nos dias que Kidd estava de folga, os quatro faziam programas em família, como ir à praia, ao cinema, piquenique em parques, e as fotos iam todas parar nas redes sociais, fazendo com que elogios mais elogios à família fossem comentados. Mas tudo isso só até o dia 2 de novembro de 2016, quando tudo mudou para aquela família.
Naquela tarde, Keith chegou em casa do trabalho por volta das 17 horas e estranhou o silêncio. Normalmente, quando ele abria a porta da frente, as crianças já corriam abraçá-lo, mas a sala vazia com a TV desligada daquela tarde o fez estranhar.
Naquela época, as crianças com 4 e 2 anos de idade já estavam na escola e duas vezes por semana eles ficavam até um pouquinho mais tarde num programa integral, saindo entre 16 e 16 e 30.
Sherry era quem os buscava, então ele não se alarmou muito e imaginou que ela poderia ter engajado em algum bate-papo com as mães ou algo assim e já já estaria apontando com seu carro na garagem. A última comunicação dele com a esposa naquele dia havia sido às 10h37 daquela manhã quando Sherry mandou uma mensagem de texto meio picantezinha a ele perguntando ...
se ele gostaria de almoçar em casa com ela. Algo que não era de costume dele, mas Sherry tinha recentemente feito uma cirurgia estética mamária com implantes e queria provavelmente namorar enquanto as crianças não estavam em casa.
Só que naquele exato dia, Keith não respondeu porque estava super ocupado no trabalho, com o celular no bolso, e só pegou no aparelho para checar mensagens à uma e meia da tarde, quando respondeu dizendo, desculpe amor, o dia foi corrido.
Bom, Keith então estava lá, esperando que a esposa voltasse para casa a qualquer minuto, quando seu celular tocou e por um instante ele pensou que fosse Sherry avisando onde estava. Só que a ligação era da escola das crianças. E isso, naquele horário, não era um bom sinal.
A professora de Violet estava ligando para perguntar se algo havia acontecido, pois ninguém tinha ido buscar as crianças e a escola já estava prestes a fechar. Segundo ela, Sherry não havia aparecido e nem telefonado avisando que atrasaria. Foi então que o pânico tomou conta de Keith.
Assim que ele desligou com a escola, ele usou a função Find My Phone para localizar o celular da esposa e vendo que o aparelho estava parado já há algum tempo em uma estrada rural ali da região que eles moravam, ele resolveu ir até lá e ver se Sherry estava machucada, precisando de ajuda ou algo assim. Ela estava na época começando a treinar corrida, pois queria participar de uma mini maratona de ação de graças e vinha saindo para correr todas as tardes.
Isso fez com que ele pensasse que algum acidente poderia ter acontecido.
Keith pediu para a mãe dele, que também morava ali na região, buscar os netos na escola. Enquanto isso, ele seguiu em direção ao lugar que o celular de Sherry apontava no mapa. Só que chegando lá, ele encontrou o aparelho jogado no chão do cruzamento entre as ruas Sunset Drive e Old Oregon Trail, a mais de um quilômetro e meio da casa deles, numa área onde Sherry costumava correr, mas não havia sinal algum dela por ali.
Keith gritou pelo nome da esposa, vasculhou moitas ao redor, mas quando avistou um par de fones de ouvido com um chumaço de cabelo loiro enrolado, ele resolveu chamar a polícia.
quando o atendente do 9-1 perguntou qual era a sua emergência. Keith, em tom nervoso e gaguejando, deu todos os detalhes. Ele explicou que sua esposa não estava em casa quando ele chegou do trabalho e isso era bem incomum. Sua preocupação aumentou quando ele soube que ela não havia buscado as crianças na escola e, usando o aplicativo Find My Phone, ele encontrou o celular e fones de ouvido da esposa na estrada.
Do ponto de vista legal, o relato de desaparecimento de um adulto não é recebido como prioridade pelas autoridades, visto que a grande maioria é voluntária, ou seja, a pessoa quer um tempo, um espaço, ou está em alguma outra situação que não exige envolvimento policial.
No entanto, se vestígios físicos de uma suposta luta corporal estiverem presentes numa cena, ou se a pessoa desaparecida tiver algum tipo de transtorno mental, aí sim uma reclassificação imediata do caso para desaparecimento sob circunstâncias suspeitas acontece, mobilizando viaturas imediatamente. E foi isso que aconteceu nesse caso.
O tufo de cabelos loiros junto dos fones de ouvido, combinado com a improbabilidade dela simplesmente ter esquecido os filhos na escola, fizeram com que buscas começassem quase que imediatamente, com o gabinete do xerife do condado de Shasta assumindo a jurisdição do inquérito.
Seguindo a doutrina de investigação de crimes contra mulheres, que estatisticamente aponta ao parceiro íntimo como principal suspeito inicial, os detetives isolaram Keith Papine. Ele foi submetido a longas horas de interrogatório, entregou seus aparelhos eletrônicos para a perícia, permitiu a busca em sua propriedade e aceitou passar por um exame de polígrafo, que é o detector de mentiras.
Foi só depois dele ter passado no teste e análises das câmeras de seu local de trabalho, terem o colocado a tarde inteira dentro da loja, que o foco das autoridades foi redirecionado por uma ameaça externa. Com a eliminação preliminar da suspeita de violência doméstica, as forças de segurança estabeleceram uma base de operações.
As diligências incluíram o envio de cães farejadores, varreduras aéreas com helicópteros e equipes de busca terrestre esquadrinhando a vegetação toda da área onde o celular foi encontrado.
Simultaneamente, detetives iniciaram uma busca pela vizinhança, entrevistando moradores e requisitando todas as imagens de câmeras de segurança do perímetro para tentar identificar veículos suspeitos ou mapear os últimos passos conhecidos da vítima, que havia sido vista por testemunhas praticando corrida naquela tarde por volta das 14 horas na Sunset Drive vestindo uma jaqueta cor-de-rosa.
Ao que a imprensa local deu início à cobertura do caso, a comunidade de Chasta foi ficando cada vez mais assustada e mais engajada também. Todos queriam contribuir com a ajuda nas buscas e ao que as transmissões foram chegando a nível nacional, a curiosidade e preocupação só cresceram.
Antes mesmo de completar 48 horas do desaparecimento, jornais impressos e páginas de Facebook já estavam divulgando panfletos com a foto da mãe de 34 anos, 1,62m de altura e 45kg, loira de olhos azuis e sorriso simpático, pedindo ajuda e oferecendo 10 mil dólares em recompensa para quem trouxesse informações sobre seu paradeiro.
Logo, familiares e amigos fizeram doações e aumentaram o valor da recompensa para R$ 50 mil. Com isso, veio uma forte urgência por parte de diferentes departamentos de aplicação à lei para encontrá-la o quanto antes. Uma enorme pressão foi colocada na polícia local, ao ponto que autoridades federais e estaduais, como o FBI, se voluntariassem para ajudar nas investigações e buscas.
Segundo um comunicado oficial do Condado de Shasta, no dia 5 de novembro, mais de 20 mandatos de buscas já haviam sido cumpridos na tentativa de encontrar Sherry. Eles também já tinham conduzido entrevistas com amigos, familiares e conhecidos, além, é claro, de possíveis testemunhas.
Foi então que investigadores descobriram, através de dados obtidos do próprio celular de Sherry, que nas semanas que antecederam seu desaparecimento, ela vinha trocando mensagens com o cara que conheceu online e os dois estavam combinando de se encontrar pessoalmente quando ele estivesse na Califórnia.
Mantendo essa informação em completo sigilo, os policiais rastrearam esse cara. Descobriram que ele era casado, morava em Michigan, mas, curiosamente, tinha viajado para a Califórnia dois dias antes de Sherry desaparecer.
Rastreando seus movimentos, eles descobriram também que ele já estava de volta em Michigan e com o plano de, de repente, pegá-lo em flagrante com Sherry em casa, dois detetives voaram até Michigan durante a madrugada e bateram em sua porta às quatro da manhã.
No entanto, além de Sherry não estar em lugar algum da propriedade dele, o homem foi entrevistado e ficou determinado que ele não estava envolvido no desaparecimento dela. Inclusive, os policiais descobriram que eles não tinham acabado de se conhecer online como parecia pelo aplicativo.
De fato, eles se conheciam desde 2011, quando Sherry já estava casada com Keith há um ano e meio, mas não tinha tido filhos ainda e trabalhava para AT&T.
Os dois se conheceram numa das viagens dela a trabalho, ficaram juntos algumas vezes e perderam contato depois que ela engravidou do primeiro filho. Foi só em 2016, usando um aplicativo especial para pessoas casadas traírem seus cônjuges, que os dois se reconectaram. E a viagem recente dele para a Califórnia seria uma coisa rápida, ele nem chegou a marcar nada com o Sherry.
A investigação voltou a estaca zero, mas ainda era considerada de risco por causa das circunstâncias suspeitas. Enquanto a polícia procurava por Sherry, Keith começou a dar entrevistas à imprensa. Em uma delas, ele apareceu se referindo à esposa e dizendo que estava tentando, estava fazendo de tudo para encontrá-la e que a amava. Ao fim, ele pedia aos sequestradores que a trouxessem de volta para casa.
Durante as primeiras semanas de investigação, Keith sentiu que a polícia não estava fazendo o suficiente e se sentia frustrado com a falta de avanços. Por outro lado, a polícia se via incomodada com o fato dele estar aparecendo demais na imprensa, dando detalhes além da conta e comprometendo a investigação.
A solução foi chamá-lo para conversar e contar a ele tudo o que estava acontecendo nos bastidores, abrindo também o jogo sobre o cara de Michigan. Eles estavam tentando não contar aquilo a ele, mas foi preciso.
Keith ficou notavelmente arrasado, mas reiterou que contava com a polícia para trazer a esposa de volta logo e com vida, pois o relacionamento deles, eles dois consertariam depois. O importante era tê-la de volta e ele e as crianças precisavam de Sherry. Foi então que a família sugeriu a possibilidade deles oferecerem um resgate reverso.
A esse ponto, uma conta no GoFundMe já tinha sido criada e arregadou quase 50 mil dólares. Esse dinheiro foi usado para contratar detetives particulares e custear qualquer outro recurso necessário na busca por Sherry. Embora a polícia não estivesse feliz com o fato de Keith estar dando tantas entrevistas, isso acabou ajudando porque foi a notoriedade do desaparecimento que atraiu uma pessoa anônima para o caso.
uma pessoa completamente estranha, que ninguém da família conhecia, mas que se comoveu com a história de Keith. Ele se identificava como um empresário muito rico que estava oferecendo mais 50 mil dólares para serem usados como um resgate reverso. Um resgate reverso é quando alguém oferece dinheiro mesmo sem os supostos sequestradores terem pedido resgate ainda.
No resgate tradicional, os sequestradores entram em contato e exigem dinheiro para libertar a vítima. Mas no resgate reverso, a iniciativa parte do lado da família, de amigos ou de um doador. Eles anunciam ou colocam uma quantia disponível na esperança de convencer quem está com a vítima a soltá-la.
A princípio, a polícia estava totalmente contra essa ideia e disse à família que não queria que o doador anônimo se envolvesse. Mesmo assim, o homem insistiu em ajudar. O único problema era que ele queria permanecer anônimo.
A polícia, por outro lado, disse que só permitiria que uma proposta pública fosse feita caso alguém com um rosto e um nome oferecesse esse dinheiro e essa opção, até porque a polícia precisa ter uma forma de rastrear de onde está vinda essa oferta e alguém precisaria fazer a transação. A polícia em si não paga por resgate de sequestro.
Essa não é a função deles. A função deles é fazer o possível para encontrar os sequestradores e recuperar a vítima, mas dentro dos procedimentos policiais e não com o Estado oferecendo dinheiro ao bandido. Foi então que um tal de Cameron Gamble entrou na jogada. Cameron era ex-piloto da Força Aérea e trabalhava como especialista em sobrevivência em cativeiro.
O trabalho dele consistia em montar grandes containers de transporte em lugares não revelados que imitavam cenários reais de sequestros que alguém poderia enfrentar atrás das linhas inimigas. Entre as muitas coisas que ele fazia, ele também passava tempo viajando pelo mundo para ajudar em esforços de negociação para libertar reféns e vítimas de sequestro.
Na verdade, Cameron estava meio resistente em trabalhar nesse caso e até meio cético. Mas a esposa dele era amiga de uma amiga de Sherry e foi ela quem o convenceu a intermediar a proposta de resgate.
Boatos online chegaram a aparecer, alegando que ele só estava se envolvendo para promover o próprio negócio, mas Cameron os ignorou e no dia 17 de novembro, duas semanas após o desaparecimento, ele publicou um vídeo se dirigindo diretamente aos sequestradores, dando as coordenadas de como Sherry deveria ser devolvida, estipulando um prazo de 100 horas. Ou seja...
O prazo venceria no dia 21 de novembro. Porém, o dia 21 chegou e ninguém respondeu à proposta. O dia 22 amanheceu com Sherry ainda desaparecida e Keith devastado. Cameron acreditava que os supostos sequestradores ainda estavam em fase de tomada de decisão.
Diante disso, ele e o doador anônimo criaram um outro plano. Eles decidiram dobrar o valor para 100 mil dólares, só que dessa vez como recompensa. Eles estavam oferecendo esse valor a qualquer pessoa que conseguisse capturar os sequestradores. Basicamente, eles estavam oferecendo essa quantia a trackers.
Trackers são profissionais que geralmente trabalham para empresas de fiança, responsáveis por encontrar criminosos que fogem depois da empresa de fiança ter emprestado dinheiro para eles saírem da cadeia. Eles também podem ser chamados nos Estados Unidos de Bounty Hunters.
Inclusive, quem quiser saber direitinho como esse trabalho funciona, é só assistir a série de TV americana Tracker, que eu vivo recomendando nas nossas newsletters. Nela, o personagem Colter Shaw, interpretado pelo ator Justin Hartley, vai além dos limites que a própria polícia pode ir para localizar alguém. E é claro, ele conta com uma equipe de cyber-hackeadores e advogados, porque é claro, sempre rola violência nos resgates.
E essa função, ela realmente existe, não é só na série, ok? Bom, então, com esses trackers em vista, um segundo vídeo foi criado e divulgado em 23 de novembro, um dia antes do feriado de ação de graças.
data em que Keith estava obviamente mais arrasada por não ter a esposa ali por aquela comemoração tão significativa para as famílias americanas e que na casa dele era sempre tão especial, visto que Sherry era conhecida por suas festas perfeitas.
Então, paralelamente com essa nova tentativa de resgate e como uma forma de marcar a data e continuar divulgando o desaparecimento da esposa, Keith decidiu celebrar aquele dia de ação de graças reunindo amigos e familiares em um parque próximo à sua casa pela manhã em um ato de soltura de balões amarelos, representando a esperança e a atenção ao caso, para que Sherry não fosse esquecida pela imprensa e pelas autoridades.
Tudo estava organizado para acontecer por volta das dez e meia da manhã
Os balões já estavam cheios, com gás hélio, o plano todo feito, organizado. Mas então, às quatro da madrugada, o serviço de emergência do condado de Yolo, a 300 quilômetros de Redding, começou a receber uma onda de ligações de caminhoneiros e motoristas, relatando a presença de uma mulher pedindo ajuda na estrada.
A maioria deles estava trafegando em uma velocidade que não dava para parar subitamente na rodovia. Mas conseguiram notar que essa mulher parecia estar suja, assustada e precisando muito de ajuda. Logo, uma outra ligação veio de uma mulher chamada Alison Sutton, que estava viajando com sua filha adolescente rumo ao norte da Califórnia e avistou também a tal mulher.
Ela dizia que essa mulher era loira, estava usando uma camisa de flanela marrom, tentando desesperadamente que algum carro parasse para ajudá-la. Segundo Alison, a mulher apareceu do nada no meio da escuridão e estava tão desesperada por ajuda que acabou até quase sendo atropelada por ela.
Ela chegou a pensar em parar, mas ficou com medo. Depois de passar exatamente a quilometragem de onde a mulher estava aos policiais, eles disseram que ela poderia prosseguir com sua viagem, que eles enviariam uma viatura. Quando as autoridades de Yolo County chegaram à intersecção da County Road 17, com a rodovia interestadual 5, eles identificaram essa mulher como Sherry Papini.
Sherry estava coberta de sangue, hematomas e com uma corrente enorme ainda presa à sua cintura. Aquela madrugada estava bem fria e ela estava com pouca roupa, aparentando desnutrida, debilitada e fraca. Eles levaram Sherry diretamente a um hospital para que ela fosse examinada e recebesse tratamento para aqueles ferimentos.
A princípio, ela não conseguia fornecer muitas informações sobre o que havia acontecido com ela, pois ainda estava em estado de choque, algo que muitas vítimas de trauma vivenciam. De imediato, comparando a ficha médica anterior que ela tinha no Sistema Único de Saúde, os médicos perceberam que além de estar bastante debilitada, ela havia perdido cerca de 15% da gordura corporal e estava pesando apenas 39 quilos.
Quanto aos ferimentos, Sherry estava com a ponte do nariz quebrada e tinha vários hematomas no rosto e no corpo. Esses hematomas tinham cores diferentes, o que significava que eles haviam ocorrido em momentos distintos, estando em vários estágios de cicatrização.
Ela também tinha feridas profundas e erupções na pele nas áreas onde ficou acorrentada, nos pulsos, tornozelos e cintura. O cabelo loiro, antes bem comprido, também havia sido cortado e Sherry disse aos médicos que havia machucado o tornozelo tentando escapar de seus captores. No entanto, eles fizeram radiografias e não encontraram nada de errado.
O pior, no entanto, eles só encontraram quando tiraram toda a sua roupa para um banho. Sherry estava com uma marca feita de ferro direto nas costas, logo abaixo do ombro. E esse carimbo, que estampava a palavra Êxodos, já estava com crosta. Por isso, eles acreditavam que ele havia sido feito no início do sequestro.
Médicos e investigadores queriam saber mais sobre qualquer detalhe sobre seus sequestradores, pois aquilo tudo era muito sério e outras pessoas, outras mulheres desaparecidas, poderiam estar sob poder desses criminosos, mas Sherry se recusava a falar e só chamava por Keith. Assim que foi avisado, Keith entrou em seu carro e seguiu imediatamente para Woodland, onde ela estava sendo tratada.
Ao chegar no hospital, ele entrou correndo, abriu as cortinas da enfermaria e abraçou a esposa num reencontro emocionante. Sherry simplesmente não o largava. Os dois ficaram abraçados por mais de 10 minutos e Keith não conseguia parar de chorar de tanta felicidade, embora também demonstrasse tristeza ao vê-la daquele jeito.
Com que presente, os policiais achavam que Sherry seria capaz de dizer algo sobre o que aconteceu. Onde ela esteve, com quem, como foi a abdução, como era o lugar onde ela ficou. Mas, mesmo com o marido ali, ela se recusava a conversar, dizendo estar com medo, pois um de seus abdutores dizia ser um ex-policial.
Era por essa razão que ela não estava confiando neles ali e preferia se comunicar apenas com o marido. Acontece que outras pessoas poderiam estar em risco e a polícia precisava seguir com aquela investigação. O fato de um ex-policial poder estar envolvido era ainda mais grave e não dava para simplesmente deixar a população no vácuo.
Todo mundo estava com medo de sair na rua, achando que a qualquer minuto poderia ser sequestrado. O local onde eles moravam era ultra seguro e o sequestro já tinha tirado a paz de todos. Era preciso agora entender de onde estava vindo o risco.
Sendo assim, a solução encontrada pelos investigadores foi dar a Keith um gravador para que ele pudesse registrar tudo que a esposa contasse. E Keith, é claro, concordou. Ele confiava na polícia, no trabalho que eles estavam fazendo e entendia que seria preciso sacrificar a confiança dela naquele instante para um bem maior.
Na gravação, Sherry contou que seus abdutores não eram homens e sim duas mulheres latinas. Uma maior, mais alta, de cabelos cacheados pretos e mais agressiva, e a outra mais baixa, mais magrinha, de cabelo liso e mais submissa à primeira.
Ela não conseguia descrevê-las mais que isso porque elas sempre usavam máscaras e luvas. Ela também não se lembrava que tipo de roupa elas vestiam. Segundo Sherry, ela disse que no dia 2 de novembro, quando estava correndo naquela área arborizada perto de casa, uma mulher passou de carro por ela, depois deu ré, parou e pediu ajuda, pois ela estava perdida.
Ao que ela caminhou em direção à van dessa mulher, a porta lateral se abriu e uma outra mulher lá dentro estava apontando uma arma para ela. Elas disseram que não queriam matá-la, mas que ela precisava ir com elas. Quando já estava dentro da van e amordaçada, elas lhe disseram que um ex-policial iria comprá-la e que ela jamais seria encontrada.
Sherry dizia não se lembrar para onde elas a levaram nem a direção, pois sua cabeça foi coberta por um saco. Ela também acreditava que havia levado um choque de taser, pois não se lembrava nada sobre o período que passou na van. Sherry também afirmou que, enquanto esteve em cativeiro, ela era torturada todos os dias por essas mulheres, sendo espancada, xingada e maltratada, enquanto ficava boa parte do tempo sendo mantida em um closet escuro, frio e sujo.
um gravador conectado a uma escuta. Os policiais ouviram tudo isso, mas pediram para a Keith tentar saber um pouco mais sobre o lugar. Tentar saber se ela conseguia escutar alguma TV, se ela tinha conseguido, por exemplo, ouvir algum tipo de comercial que passava, pois essa é uma forma muito fácil de estabelecer o local, pois comerciais são geralmente locais.
E o que ela comia? Se fosse fast food, eles poderiam filtrar o mapa de acordo com as lanchonetes daquele local. E se ela ouvia algum tipo de som de carro ou animal? Keith deu um jeito de perguntar tudo isso a Sherry. Dessa vez, com ela já sabendo que ele estava passando essas informações todas para a polícia, porque a esse ponto, ela já tinha entendido que era preciso cooperar, pelo menos um pouco.
E aí Sherry disse que não, que ela não ouvia praticamente nada, porque as mulheres ficavam com uma música mexicana alta e irritante tocando o dia todo. Quanto à comida, elas apenas a alimentavam com um pouco de arroz e tortillas. Quanto ao local, ela não se lembrava de nada, mas devia ter alguma lareira por perto, pois o lugar que ela estava cheirava fogo.
Sherry tentava ao máximo se desviar das perguntas de Keith, apenas dizendo o quanto sentia a falta dele das crianças, o quanto estava dolorida e o quanto estava sofrendo. Porém, era muito importante para a polícia saber como ela conseguiu escapar.
Afinal de contas, os sequestradores nunca pediram resgate, a oferta do resgate inverso nunca foi respondida e ninguém havia sido preso. Por que eles a deixaram ir? E principalmente, por que eles a levaram?
Claramente, o tal ex-policial que a comprou tecnicamente não a foi buscar porque ela passou 22 dias, segundo ela mesma, em cativeiro. E quem teria o interesse em manter alguém 22 dias supervisionando, alimentando, correndo inúmeros riscos, se não por uma razão?
No hospital, Sherry havia passado por um teste para saber se ela tinha sido vítima de violência sexual e o teste voltou negativo, o que indicava que ela não estava sendo uma escrava sexual. Ela também não afirmou ter sido violentada, não afirmou nem negou, ela simplesmente não queria falar.
Na grande maioria das vezes, mulheres ou homens resgatados de escravidão sexual voltam com hematomas, fissuras e sinais típicos desse tipo de violência. Sem contar que, mesmo sem dar detalhes, essas vítimas são capazes de indicar com simples sim ou não se elas foram sexualmente violentadas.
O teste de Sherry indicava que ela não havia sofrido esse tipo de agressão, mas era preciso urgentemente saber o que teria feito uma quadrilha, abduzir uma mulher, torturá-la e simplesmente soltá-la 22 dias depois. E não era só a polícia que queria saber isso. A imprensa, o público também.
Às dez e meia da manhã, naquele mesmo dia de ação de graças, o gabinete do xerife ofereceu uma coletiva informando que Sherry estava viva, aguardando liberação médica e já estava reunida com seu marido. Considerando que o caso estava sendo coberto a nível nacional, todos queriam saber quem a encontrou, onde, como e tudo mais. Afinal de contas, quanta gente estava à procura dela, né?
A busca estava tão intensa e o caso tão alarmante que um doador anônimo chegou a oferecer 100 mil dólares. E quando a comunidade se comove a esse ponto, o mínimo que ela espera de volta depois é uma resposta, uma explicação, uma garantia de que todos podem finalmente dormir em paz. Só que a meia explicação de Sherry não viria oferecer nada disso.
Sherry explicou que no dia em que escapou, suas captoras estavam brigando. Durante uma discussão entre as duas mulheres, ela ouviu um disparo e algumas horas mais tarde, a sequestradora mais jovem a pegou, a colocou de volta na van e começou a dirigir. Ela não conseguia calcular por quanto tempo a mulher dirigiu, porque estava fraca e provavelmente drogada com algum tipo de entorpecente.
Em dado momento, a mulher parou o carro e a mandou descer. Ela ainda estava com um saco na cabeça e quando conseguiu tirá-lo, começou a correr. Sherry dava essas informações em meio de lágrimas e Keith começou a pedir aos policiais para dar um pouco de espaço para eles. Afinal de contas, não fazia nem 12 horas que ela havia sido libertada.
Como a casa deles estava cercada pela imprensa, eles seguiram direto para a casa da irmã de Keith, onde permaneceram pelo período de festas que vai do dia de ação de graças até o período ali do Natal e Réveillon. Naquele dia, a soltura de balões ainda aconteceu às dez e meia da manhã, conforme combinado com a participação dos familiares e amigos, e acabou simbolizando a boa notícia.
Acontece que muita gente viu isso como um pouco mais do que coincidência. Até porque a coletiva de imprensa do xerife também foi nesse mesmo dia e horário. A impressão era de que a soltura dos balões havia sido um ato orquestrado. E isso alimentou as suspeitas nos fóruns online, páginas de Facebook e principalmente no Reddit.
Boatos de que juntos, Keith e Sherry poderiam ter armado tudo em busca de dinheiro aumentaram depois que Cameron Gamble anunciou que a quantia doada pelo homem anônimo já havia sido devolvida a ele, mas que Sherry tinha acabado de entrar com pedido junto ao fundo de compensação a vítimas do governo.
A imprensa queria entrevistá-los a qualquer custo, o que Keith estava de acordo, mas Sherry se recusava. Eventualmente, no dia 2 de dezembro, ele aceitou oferecer uma entrevista exclusiva para o 2020 da ABC News e fez de tudo para responder todas as perguntas de acordo com o que a esposa tinha lhe contado.
Porém, as especulações continuavam e o xerife Tom Bozenko precisou ir a público novamente afirmar que sua equipe não tinha motivos para duvidar da história de Sherry Papini. E as autoridades estavam ainda vasculhando vídeos de vigilância e câmeras de trânsito para identificar os autores do crime.
No dia 7 de janeiro, Keith e Sherry deram um jantar na casa deles, apenas para amigos mais próximos, aqueles que tanto ajudaram nas buscas, e familiares também para agradecer os esforços e marcar um novo recomeço com a sobrevivência de Sherry durante todo aquele processo pra lá de traumático.
Desse dia em diante, eles ficaram mais reclusos, com Sherry se recuperando, mas também exigindo bem mais a presença de Keith, alegando...
Ela não queria ficar sozinha, nem com outras pessoas que não fossem ele, o que impactou bastante seu trabalho, mas ele não reclamava. Ele a defendia, fazia tudo o que ela queria, mas ao mesmo tempo também tentava preencher algumas lacunas da história. Afinal de contas, vamos nos colocar no lugar dele.
Alguém sequestra sua mulher perto de casa. A tortura por quase um mês e você simplesmente volta à vida normal sem entender quem estava por trás disso. E se fosse alguém do círculo deles? E se as crianças fossem as próximas vítimas?
Só que cada vez que Keith trazia o assunto à tona, Sherry reclamava e certo dia ela disse a ele que sentia que ele não parecia nada preocupado com os ferimentos dela ou com sua dor interna. Apenas com a lógica por trás de tudo e com o fato dela tê-lo traído ou não.
Porque é claro que, eventualmente, Kiefer confrontou quanto àquelas conversas e o encontro marcado com o tal cara de Michigan. E Sherry não tinha como mentir sobre isso. Era fato. Os policiais tinham ido até esse cara e visto as mensagens nos celulares.
Não sabemos o quão profunda foi a conversa deles a esse respeito, só sabemos que eles continuaram casados e o assunto sobre o que se passou no cativeiro só podia ser trazido por ela, Sherry, quando ela queria para usar alguma vantagem ou obter atenção dele.
Sempre que não estava bem ou não queria fazer algo, ela dava um jeito de alegar gatilho. Mas quando ele trazia o assunto à tona, ela o acusava de estar revitimizando-a.
E a situação só piorou quando em março de 2017, cerca de três meses após a volta de Sherry, o jornal Sacramento Bee começou a entrar com foias junto à justiça para obter arquivos do inquérito sob o direito de acesso à informação ao público.
E eles começaram a descobrir detalhes que até então só os papines e a polícia sabia, como o caso dela com cara de Michigan e depoimentos dos próprios pais de Sherry, dando detalhes sobre situações da adolescência dela que eram no mínimo suspeitas.
Em outubro do ano 2000, o pai de Sherry, Richard Grave, chamou a polícia alegando que a filha havia vandalizado a residência da família em Shasta Lake, chegando a arrombar aos chutes a porta dos fundos da casa. Já segundo depoimentos prestados por Loretta Grave, mãe de Sherry, em dezembro de 2003,
Ela teria ligado para o 911 pedindo orientação às autoridades, pois Sherry estava se machucando propositalmente e dizendo que ligaria para a polícia colocando a culpa das lesões nela, na mãe, caso ela não lhe permitisse fazer algo que Loreta não estava concordando.
Ainda naquele ano, o pai de Sherry também registrou uma queixa alegando que dinheiro havia sido retirado de sua conta bancária sem autorização e que ele suspeitava de Sherry, que estava morando com eles na época. Posteriormente, foi reportado que o dinheiro foi devolvido, mas que Sherry estaria abrindo contas de cartão de crédito em nome de seus familiares sem autorização deles.
A divulgação desses relatórios do jornal The Sacramento Bee funcionou meio que como um divisor de águas na percepção pública do caso. A reação da comunidade e da mídia internacional flutuou entre o choque, a validação de suspeitas e uma profunda polarização.
Muita gente já achava a história do sequestro mal contada devido aos detalhes bizarros e quando o histórico de automutilação e falsas acusações contra a própria mãe veio à tona, os céticos viram os relatórios como a prova de que Sherry tinha um padrão de comportamento manipulador.
Na internet, fóruns de discussão e redes sociais foram inundados por comparações diretas com o livro e o filme Gone Girl, Garota Exemplar, sugerindo ali que ela poderia ter forjado tudo.
Por outro lado, muitos moradores, amigos e familiares próximos ficaram indignados com a imprensa. Eles argumentavam que trazer à tona erros da juventude de Sherry, coisas que aconteceram 15 anos atrás, era uma tentativa cruel de assassinar a reputação de uma mulher que claramente havia sido encontrada, debilitada, faminta e machucada. Uma outra parcela ainda da comunidade começou a se sentir traída.
O caso havia mobilizado centenas de voluntários em buscas exaustivas e arrecadado milhares de dólares em campanhas de financiamento coletivo pelo GoFundMe. E saber agora que ela já havia acusado a própria mãe injustamente no passado fez com que o apoio local começasse a ruir gradualmente.
Sem contar que, como Sherry alegava ter sido levada por duas mulheres latinas, a divulgação desses relatórios aumentou a pressão de ativistas e membros da comunidade hispânica. Críticos começaram a apontar que a história do sequestro poderia ser um reflexo de preconceitos internalizados e que os relatórios de 2003 mostravam que Sherry tinha facilidade em criar bodes expiatórios para encobrir suas próprias ações.
Diante dessa repercussão agressiva e das especulações geradas por esses relatórios, a família Papini se retirou quase que completamente dos holofotes na época, mudando-se temporariamente para um local não revelado. Mas antes, Sherry aceitou conversar com investigadores e contar um pouco mais sobre os detalhes que se lembrava. Já havia passado um ano e, mesmo assim, ela falava com dificuldades.
Sentada em uma cadeira com os pés encolhidos perto do marido, Sherry respondia diversas perguntas, mesmo que de forma evasiva e sem fornecer pistas úteis. Mas os policiais conseguiram pelo menos sair com retratos falados dos possíveis sequestradores que foram divulgados, mas com cautela, apenas entre forças policiais.
Logo, as autoridades locais que antes mantinham o caso em evidência também passaram a falar cada vez menos. E aos poucos, o nome de Sherry Papini foi deixando as manchetes.
Para quem olhava de fora, parecia que os papines haviam se recolhido para tentar reconstruir a vida longe das câmeras, dos fóruns e das perguntas sem resposta. Mas aquele silêncio não significava que o caso tinha sido esquecido. Significava apenas que nos bastidores uma outra linha de investigação começava a avançar.
mais lenta, mais discreta e muito mais perigosa para Sherry. Porque enquanto o público se dividia entre acreditar ou desconfiar, as autoridades ainda tinham uma carta na manga bem importante. E para que essa carta virasse o jogo daquela investigação, eles dependiam apenas de um resultado de DNA.
Algo que a polícia não tinha aberto ainda nem para os papines era que, das roupas coletadas de Sherry no dia de seu reaparecimento, eles conseguiram extrair dois perfis de DNA, um masculino e outro feminino. E eles não eram de Sherry nem de seu marido. O FBI jogou essas amostras no coures logo no início das investigações, mas nenhuma correspondência foi encontrada.
Acontece que eles continuavam tentando a cada três, quatro meses para ver se de repente algum desses dois indivíduos iam presos por algum motivo qualquer e teriam seus DNAs extraídos durante a ocorrência ou que algum deles fizesse um daqueles testes de DNA de farmácia. E essas tentativas deram certo.
No começo de 2020, a amostra masculina de DNA, DNA esse que foi extraído do forro da calcinha de Sherry, deu um match parcial com um usuário do site de genealogia 23andMe.
Pela correspondência, esse usuário do site era um parente de segundo grau do dono do perfil daquele DNA. E ao ter seus dados investigados, os detetives descobriram que um dos primos dele, um cara chamado James, estudou com Sherry no colégio e também morou com os pais dele durante a adolescência em uma casa que eles alugavam do casal Grave, os pais de Sherry Papini.
Aprofundando mais a investigação, eles descobriram que em 2016, ano do sequestro, Sherry e James compartilhavam o uso de uma conta de e-mail no AOL e tinham até um cartão de crédito juntos.
Bastava agora encontrar esse James e interrogá-lo, mas ainda era preciso confirmar cientificamente que ele era mesmo o dono daquele DNA presente na calcinha, e para isso, as autoridades vasculharam a lixeira dele. Dela, eles coletaram uma garrafa de chá verde industrializado, e o DNA obtido por vestígios de saliva confirmou como sendo dele.
No dia 10 de agosto de 2020, James foi levado para interrogatório e contou tudo aos investigadores.
Importante dizer que, a esse ponto, as autoridades já tinham muitas evidências e quando James deu a versão dele, ela se encaixou completamente em tudo que a polícia tinha, ao contrário da versão dada por Sherry. James relatou que foi ele quem a buscou naquela estrada e a abrigou em sua casa, na cidade de Costa Mesa, durante as três semanas em que ela esteve desaparecida.
Segundo James, durante meses, Sherry ligava para ele dizendo que Keith a batia, a estuprava e a humilhava de tal forma que ela já não aguentava mais. E por isso, ele concordou em ajudar uma amiga de infância e ex-namorada a fugir de um relacionamento extremamente abusivo.
Ele achava que embora o plano inicial não fosse deles ficarem juntos, isso poderia depois no futuro mudar. Acontece que desde que chegou na casa dele, Sherry não queria ser vista por ninguém, queria se manter isolada e não queria dormir com ele.
Ele inclusive disse que os dois se beijaram e até ficaram juntos um dia antes dela querer ir embora, mas eles nunca tiveram relações sexuais envolvendo penetração enquanto ela estava lá na casa dele. E de fato, o DNA na calcinha dela era um DNA de toque e não proveniente de sêmen.
Ele disse que, desde os primeiros dias na casa dele, ela começou a se machucar propositalmente, quase não comia, e o instruiu a ir até uma loja chamada Hobby Lobby, que ele nunca tinha ouvido falar, para comprar um pirógrafo, ferramenta para queimar madeira, com o intuito de marcar suas costas. Ela dizia estar com saudade dos filhos e queria ir embora, mas não queria que ninguém soubesse da traição ao marido, então decidiu fazer com que tudo parecesse um sequestro.
Com o depoimento de James, as evidências coletadas dos celulares e os envios de dinheiro que ela fez a ele ao longo de 2016, a polícia chamou Sherry para mais um depoimento na delegacia, a informando que era um crime mentir para a polícia, pedindo para que ela contasse toda a verdade sobre o que aconteceu. E Sherry continuou com a história das duas mulheres latinas.
Porém, quando Keith, que estava com ela, porque ela fazia questão dele estar presente com ela na sala de interrogatório, saiu, Sherry admitiu que estava, sim, em contato com o ex-namorado James, mas negou ter estado com ele naqueles 22 dias.
Levou mais de dois anos para que um inquérito completo fosse montado, com todas as evidências físicas, circunstanciais e eletrônicas. Mas no dia 3 de março de 2022, Sherry Papini foi presa e acusada de prestar declarações falsas a agentes federais e de fraude postal. E nesse caso, o termo fraude postal não significa que ela fraudou o correio ou enviou uma carta falsa.
Significa que ela usou, direta ou indiretamente, o sistema de correspondência dos Estados Unidos para sustentar um esquema de fraude quando se inscreveu no Programa de Compensação Financeira a Vítimas de Violência da Califórnia.
E como ela preencheu esses formulários, que eram mensais, por um período de 34 meses, ela foi acusada de 34 atos criminais, mais a acusação de mentir para os agentes federais.
Sua fiança foi estipulada em 120 mil dólares e a família de seu marido pagou, acreditando em sua inocência. Porém, 20 dias depois, quando ela participou via Zoom de sua primeira audiência com o marido ali do lado dela e algumas provas foram exibidas pela promotoria, Keith ficou chocado com o que as provas mostraram e entrou com pedido de divórcio e guarda integral das crianças no dia seguinte.
Caso considerada culpada, Sherry poderia pegar uma pena máxima teórica de até 25 anos de prisão, mais 250 mil dólares por cada crime de fraude postal, o que multiplicado por 34 daria 8 milhões e 500 mil dólares, mais restituição do valor sacado do programa, que era algo em torno de 300 mil dólares.
Claro que esse é um valor inicial de conta e geralmente o Estado usa discernimento para calcular a multa final, dependendo ali da situação financeira do acusado. Mesmo assim, a escolha de Sherry foi evitar um julgamento onde todos os detalhes de sua vida pessoal, das mensagens e do plano seriam expostos.
e entrou em um acordo com a promotoria, aceitando pagar 350 mil em restituição e cumprir um ano e meio de prisão em regime fechado, seguido de três anos de condicional.
No dia 8 de novembro de 2022, ela foi enviada para um complexo federal de segurança média em Adelanto, na Califórnia. Pelas minhas contas, ela deveria ter cumprido sua pena em reclusão até maio de 2024. Só que não.
Em agosto de 2023, após menos de um ano de prisão, ela foi transferida para uma casa de custódia aberta na capital, em Sacramento, e em menos de um mês foi autorizada a morar em um apartamento alugado por seus pais, apenas sob supervisão de agentes federais. Nesse período, ela só podia contatar as crianças por telefone ou vídeo e sob supervisão de Keith.
No entanto, em março de 2025, ela entrou com um pedido de revisão de guarda e aumento das visitas. Só que devido a violações a cláusulas que a impedem de fazer falsas acusações sobre seu ex-marido e a família dele, Sherry perdeu o processo e continua com pouco acesso aos filhos que continuam sendo criados pelo pai e demonstram, segundo arquivos recentes da corte, pouca vontade de manter contato com ela.
E a violação dela se deu em parte a sua entrevista dada ao Investigation Discovery em uma série documental de quatro episódios onde ela já não alega mais ter sido sequestrada por duas mulheres latinas.
Ao invés disso, ela mudou sua versão e agora afirma que seu ex-namorado James a sequestrou violentamente contra sua vontade, depois dela ter simplesmente contado a ele o quanto sofria nas mãos do marido.
Em junho de 2025, Sherry Papini lançou seu próprio livro, um memoir, intitulado Sherry Papini Doesn't Exist. The lie that defined me, the media that destroyed me, and the truth that no one heard. Longo, né? Traduzindo, Sherry Papini não existe. A mentira que me definiu, a mídia que me destruiu e a verdade que ninguém escutou.
Por enquanto, não há dados públicos confiáveis sobre quantas cópias o livro dela vendeu. Mas, ao que tudo indica, o memoir de Sherry não se transformou em um grande fenômeno editorial. Ele foi autopublicado, então não tem ali uma conta realmente feita por uma editora. E ele circulou principalmente dentro do interesse gerado pelo documentário e pelas entrevistas de 2025, nunca tendo um número de venda divulgado oficialmente.
Mesmo tentando oferecer essa nova versão dos fatos, a maioria do público parece continuar profundamente cética. Hoje, em 2026, Sherry Papine é percebida pelo público em geral muito mais como uma farsante do que como uma vítima.
A imagem dominante dela ainda é da mulher que imobilizou uma comunidade inteira, prejudicou a imagem de mulheres latinas, recebeu dinheiro destinado a vítimas de crimes e depois admitiu, em acordo judicial, que havia mentido. Ela acusa hoje o marido de tê-la violentado tanto a ponto de ter causado sua fuga, mas ao sair, correu para os braços dele e demonstrou estar vivendo feliz até ser presa.
Ainda assim, existe uma minoria que enxerga a Sherry como uma figura mais complexa. Alguém possivelmente até traumatizada emocionalmente, instável, e alguém que, quem sabe até, tenha mesmo sido abusada, como ela mesma passou a alegar.
Em resumo, Sherry Papini se tornou, para a grande maioria, o rosto de uma fraude que enganou uma cidade inteira, consumiu recursos públicos, alimentou preconceitos e deixou vítimas reais pelo caminho, incluindo sua própria família. Mesmo tentando reconstruir sua imagem em entrevistas, documentários, podcasts e seu próprio livro, ela continua sendo recebida com enorme desconfiança.
Porque, para muita gente, o problema já não é mais a mentira que ela contou em 2016, mas o fato de que, quase uma década depois, ela ainda parece estar tentando controlar ela mesma qual versão da história o público deve acreditar.
Bom, agora eu quero saber a opinião de vocês ouvintes sobre esse caso. Quem quiser saber mais detalhes sobre ele, porque, sim, tem muitas nuances que eu nem cheguei a citar aqui, eu recomendo a série The Perfect Wife, do Hulu, que tem três episódios, a do ID Discovery,
E para quem gosta de conteúdo dramatizado com atores, a Netflix acabou de disponibilizar essa semana no catálogo deles o filme Hoax, o sequestro de Sherry Papini.
Para quem entende inglês, eu também recomendo a recente entrevista que a podcaster Annelise do Seriously fez com o Sherry em junho de 2025. E para quem entende bem o inglês juridiquês e apoia o café creme e chocolate, eu disponibilizei o inquérito completo no Patreon exclusivamente aos assinantes.
Fora esse inquérito, os links de todas essas séries, filmes e livros que eu acabei de mencionar aqui estarão nos stories do nosso perfil no Instagram. Então, certifiquem-se que vocês estão seguindo o perfil do Café Creme Chocolate e se não estiverem, sigam. Isso ajuda muito a divulgação do podcast. Inclusive, eu reparei esses dias que embora o Café Creme Chocolate tenha 121 mil seguidores no Spotify, no Instagram nós temos apenas 51 mil.
A gente já chegou até a estar entre os 10 finalistas do Prêmio e Best em 2023, mas o podcast não foi classificado porque não tínhamos seguidores no Instagram o suficiente. O que é estranho, né? Porque somos um podcast e não um influenciador de Instagram, mas enfim. Por isso, eu vou colocar esses links por lá, bem facinho, para ver se mais gente se aproxima.
Já teve gente que veio me oferecer até compra de seguidores, agências de publicidade, tá? Vieram me oferecer isso, mas gente, não. Além de ser cringe, é errado, é trapacear, só estraga o algoritmo e foge totalmente do sentido que é ter uma rede social.
Todo mundo percebe aquelas contas fakes e as marcas odeiam. O que eu quero mesmo é vocês, ouvintes super fiéis e, por que não, também os pais, mães, vizinhos de vocês, tá? Mas gente real, de preferência, que curta justiça, investigação e true crime.
Espero vocês por lá. Agora eu vou indo e volto daqui uns dias com mais um caso criminal para vocês. Enquanto isso, cuidem-se, protejam-se, não se machuquem e fiquem bem.
Pronto pra sentir a energia de Nescau? Então entre no jogo com Ana Castelli e Pedro Sampaio, o maior feat do ano. Chama a galera e dá o play, que eu quero ver você jogar. E se prepara que esse hit não vai sair da sua cabeça. Vem, que é agora ou nunca. Nescau, energia que dá jogo.