Pós-Jovem #341 - especial: LUDOVIC
Eduardo Praça (Pós-Jovem #016) e Jair Naves (#013), os dois em pé na foto, retornam ao podcast sete anos depois para comentar este marco histórico em suas vidas e carreiras, mas também em nossa geração: "Ludovic", terceiro álbum da banda, lançado duas décadas após o anterior.
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Trilha: Peartree
- Retorno da banda Ludovico· CulturaLudovico·Novo álbum Ludovico·Marco geracional
- O timing certo para o retorno· SociedadeAmadurecimento e planejamento·Sucesso financeiro e de público·Renovação do público
- Relevância Artística e Longevidade· CulturaRelevância·Popularidade vs. Relevância·Amadurecimento artístico
- Fim da Banda em 2008· EntretenimentoCondições de shows·Calote em Curitiba·Necessidade de novos projetos
- Quebra de Padrão e Dinâmica de Banda· CulturaDinâmica interna reformulada·Decisões em conjunto·Shows controlados
- Estigma do Rock Doido· CulturaCaos nos shows·Percepção do público·Jair Naves·Eduardo Praça
E aí, pós-jovens, como é que vocês estão? Espero que vocês estejam bem. O que eu sei é que vocês estão diante de um episódio muito especial, de fato, um episódio único aqui na história do Pós-Jovem. Afinal, se você conhece esse podcast, você sabe que os episódios costumam ter como tema um indivíduo, alguém que a gente admira, alguém que a gente gosta e a gente quer conhecer mais daquela pessoa, alguém que a gente quer conhecer para além do que a gente vê no palco, vê nas telas, lê nos livros, por aí vai.
E o Pó Jovem tá aqui então para a gente ter esse acesso mais pessoal, mais íntimo, sei lá como dizer, né, a esses indivíduos que a gente tanto gosta ou só não é fã porque não conheceu ainda, né. A propósito, meu nome é André Felipe de Medeiros e toda semana então tô aqui no Pó Jovem trazendo alguém bem legal para a gente bater esse papo. De vez em quando alguém que já participou aqui do Pós-Jovem retorna para a gente bater um papo sobre algo específico, né?
Não mais só sobre aquela pessoa, mas sobre algo que ela tá fazendo naquele momento. E a gente tá aí com um, como é que eu posso dizer, uma oportunidade histórica, com um fato muito grande acontecendo para nossa geração, que é o primeiro disco da banda Ludovik em 20 anos, também chamado Ludovik. Ele acabou de sair no comecinho de agosto, e dois de seus integrantes já participaram aqui do Pós-Jovem na primeiríssima temporada, o episódio 016, ou seja, episódio 16.
Para quem tá no 341, pensa, isso aqui não era nada, né? Era tudo mato, Pós-Jovem, naquela época. O episódio 16 então é com Eduardo Praça, e pouco antes dele, quando era mais mato ainda, o episódio 13 aqui do podcast é com o fundador da Banda Ludovic, Jair Naves. E os dois são pessoas que eu gosto muito em todos os sentidos. Eu gosto deles como pessoa, tenho oportunidade então de trocar com eles, pô, aí já há mais de 10 anos, né, trocar de vez em quando.
Com o Edu mais ainda, a gente tem amigos em comum, a gente se encontra nos rolês às vezes. Mas com o Jair, pô, tem uma admiração enorme por ele, sempre conversar com ele é muito bom. E eu tô falando isso para além dos trampos que eles colocam no mundo, né? A carreira solo do Jair tem músicas que me atravessam profundamente. O Edu, na banda Quarto Negro que ele tinha, quando a gente se conheceu ele tava na Quarto Negro, que é uma banda que eu escuto muito.
Tem dois discos, eu agora não vou lembrar de memória quando eles saíram, acho que é 2011, 2014, alguma coisa assim. Vocês entenderam que é por ali, né? A questão é essa, são discos que eu escuto com frequência ainda. O Edu também tem o Apeles, que é o projeto solo dele, que envolve esses amigos em comum que a gente tem e envolve muita gente muito bacana. E Ludovik, então, a banda que começou em 2000 pelo Jair e lançou em 2004 o disco Serviu, em 2006 o disco Idioma Morto, foi uma banda que eu fui conhecer mais com o tempo.
Eu não vivi aquela fase, eu não tava com eles lá, eu fui conhecer depois, até por conhecê-los Em seus outros projetos. Eu fui ouvir Ludovico, fui ouvir mais e fiquei fã e adorei. E quando eu fui escutar esse disco Ludovico, eu fiquei muito fã também. Pô, esse disco é maravilhoso. E é muito interessante como não é um retorno a uma época, não é eles fazendo alguma coisa ipsis literis como foi feita antes, mas é um disco que respeita muito o amadurecimento, eles serem pós-jovens hoje, né?
Eles não têm mais 20 anos e E é isso, Ludovik é uma banda muito especial para nossa geração. Eu não vivi aquela época, mas vários amigos meus viveram, vários ouvintes do Pós-Jovem viveram para caramba Ludovik. E eu fiz questão então de fazer algo que eu nunca fiz antes, que é um episódio sobre uma banda, que é poder trazer o Jair e o Edu para a gente bater um papo sobre esse retorno. Porque repito, é um marco histórico, né, na vida deles, na carreira deles, mas para a gente como geração também.
Então, que legal poder parar e ter essa conversa aqui no Pós-Jovem sobre o disco do Ludovic, o retorno da banda Ludovic. Essa conversa é o lado B de uma outra conversa que vai sair super em breve no podcast Música pra Ver. Eu até comentei com eles, a gente gravou numa tacada só os dois podcasts, né? E eu comentei com eles assim, o podcast Música pra Ver é uma entrevista mais convencionalzona, né? Então ali foi mais objetivo, a gente falou disso aqui.
Ah, foi assim e tal, gravamos, fizemos o show, fizemos. E aqui foi mais o espírito do Pós-Jovem mesmo, que é um papo mais solto e a gente poder falar das questões mais subjetivas. Que que a gente pensa? Que que a gente sente, né, em relação a essas coisas? Enfim, é um episódio como nunca teve outro aqui no podcast Pós-Jovem, porque repito, é sobre uma banda, né, sobre um projeto específico. Mas esses episódios, quando os convidados retornam aqui para o para mesa do bar do Pós-Jovem são sempre muito queridos por mim, assim, são, acabam sendo os meus episódios favoritos da temporada ou ali daquela, daquelas semanas, enfim.
Mas vou dizer que o episódio que sai na semana que vem, o episódio 342 aqui do Pós-Jovem, também rememora, celebra algo que é um marco na nossa geração e que tá voltando aí de alguma maneira. E é um episódio assim que, assim que confirmou que ia gravar, eu fiquei em êxtase e eu fui gravar e foi maravilhoso. E é claro que eu não vou te contar com quem que é, mas quem tá no canal de bastidores do Pós-Jovem no WhatsApp já tem uma ideia.
E é isso. Aqui na descrição do episódio você encontra o link para o canal de bastidores. Se você já virou fã e quer entrar no canal de bastidores, se você quer assinar newsletter que sai de 2 em 2 semanas para a gente manter contato e ficar sabendo também o que tá acontecendo no Pós-Jovem antes de todo mundo. E também @pósjovem do Instagram e do Bluesky para a gente manter contato entre um episódio e outro. Os links, repito, estão na descrição desse episódio.
Tudo que o Pós-Jovem se propõe a fazer tem a intenção de ser gratuito, mas você pode se envolver, você pode também Fala assim, meu, é um projeto independente que eu quero apoiar. Como é que eu apoio? Primeiro, recomenda. Recomenda para alguém. Quem mais curte Ludovic? Quem mais é fã de Ludovic? Manda esse papo. Quem mais é fã de conversa sobre a vida? Manda o podcast. Eu tenho certeza que, além do Jair e do Edu, tem muita gente que já passou por aqui que você é fã, ou só não é fã porque não conhece ainda.
Repito, né?
Então assim, Deixa o like, deixa o comentário. São bobagens que eu odeio falar, mas é isso. É um projeto independente que tem muita gente muito legal. Eu não tenho como eu colocar uma falsa modéstia aqui e dizer que é um projeto que tem alguma coisa. Não, tem muita gente muito legal que já passou por aqui em 7 anos de Pós de Jovem, e a gente vai conseguir outras pessoas tão legais quanto se a gente for notado por elas, né? A grande questão é essa.
Então, se você puder fazer esse barulhinho, é sempre uma ajuda muito legal para um projeto independente. Tô me estendendo demais nesse assunto, mas eu sei que o público do Ludovico é um público que entende isso, o público do Pós-Jovem também. Então eu sei que vocês estão comigo quando eu digo isso. Bem, recapitulando, é um episódio como nunca houve outro no Pós-Jovem, embora o espírito seja o caos de sempre aqui do podcast, de gente conversando Uma conversa super solta.
O lado UOL dessa conversa sai super, super, super em breve no podcast Música pra Ver. Fiquem atentos. Até porque nesse episódio tem mais gente que já passou aqui pelo Pós-Jovem e gente que a gente ama demais. E acompanha o Pós-Jovem que a gente tá sempre aqui trazendo uns papos bem bacanas como esse. Já falei demais. Escuta agora então esse papo com Ludovic. Ou melhor, esse papo com metade do Ludovic, com Jair e com Edu. Falando sobre esse retorno da banda e a gente se vê numa próxima.
Semana que vem o episódio é imperdível, só digo isso. Mas vamos lá, um episódio de cada vez. Escuta aí agora e me conta depois o que você achou. Gente, eu sempre falo, sempre que eu vou gravar com alguém assim, mais de uma pessoa, eu falo, ah, vamos dar um oi para cada um individualmente, para o ouvinte reconhecer a voz de cada um. Mas vocês têm vozes tão reconhecíveis que eu acho que eu vou ignorar e só começar a sair falando com vocês.
Todo mundo vai saber quem é o Edu, quem é o Jair. Mas que legal que vocês estarem aqui de novo depois de 7 anos dos primeiros Paus Jovens com vocês, os sobreviventes da primeira temporada. Então já quero começar agradecendo a presença de vocês aqui.
Oi, Edu. Oi, André. Sou Jair, só pra deixar reconhecível. E a gente que agradece. Imagina, é muito legal estar fazendo isso com o Edu, que é os meus parceiros de vida, de música e de crescimento e de todo o resto.
E digo mesmo, e eu tô surpreso, eu achava que era mais recente, 2019.
Fazem muitos anos mesmo que a gente gravava no estúdio.
Até o que a gente tava falando, né? Exato. Não sei se é jovem mais, é pós-adulto, já passou bastante tempo.
É o que o seu coração mandar. Mas olha só, eu tenho lembranças de conversar com vocês individualmente em outras ocasiões, talvez seja no Pós-Jovem, que agora eu não vou lembrar de cabeça assim, mas eu tenho vívida essa cena da gente mencionar o Dovi, que vocês fazerem uma cara de: é, não, foi da hora, aquela época foi boa, aquela época foi muito interessante. Então, para começar a conversa, é ouvir de vocês assim como é que é poder ter essa oportunidade de reviver retrabalhar, recomeçar, não sei o re que a gente quiser usar, de algo que pra gente público é muito massa, mas obviamente pra vocês também é ultra especial, né?
Cara, o tempo passa de uma forma implacável, né? Se você pensar nesse meio tempo que a gente falou, a gente teve todo o período pandêmico, teve muitas coisas que mudam na vida, tanto de cabeça quanto criativo, relacionamentos, tudo é um espaço de tempo enorme, mas que de alguma maneira pra mim não fazia todo esse tempo assim. Eu tinha a impressão que isso foi outro dia assim, talvez no lançamento do Éxtase, meu último álbum. Mas a gente tá falando de quando eu fiz o Crux assim, e isso mostra que quando o processo é divertido, a gente nem nota assim, né?
Então É, por mais que essa nossa rotina de música, de conciliar com trabalho pessoal e tudo mais, seja muitas vezes maçante, a gente ainda segue aqui fazendo álbuns e tocando, fazendo shows para pessoas que gostam da banda e que acompanham. Isso é muito gratificante, assim, eu fico pensando quantos dos nomes atuais que a gente vê daqui 20 anos vão estar aqui lançando disco assim. Eu acho que talvez a gente não se dê conta do peso e da dedicação que a gente colocou nisso tudo para ainda ser relevante, sabe?
Tipo, outro dia a gente teve uma matéria na Folha de São Paulo e eu vi fisicamente isso assim. Eu fiquei pensando, cara, de todas as pessoas que eu conheço, eu conheço milhares de pessoas que trabalham comigo, que já foram da música, já tiveram banda, quantas pessoas têm o privilégio ou resistiram todo esse tempo para ainda tá navegando nisso tudo assim. Então não tem como eu me sentir velho ou coisa do tipo com tanta coisa acontecendo de forma rápida, e rápida não, né, de lenta, mas que parece rápido, e meio maluco isso.
Da minha parte, eu também estendo a percepção desse privilégio, como que a gente fez toca tantas pessoas. E é muito surpreendente, o título do segundo álbum, Idiom of Water, veio muito de uma ideia de que onde a gente tava assim naquele cenário musical com a explosão do emo e a crescente popularidade de outros ritmos que estavam muito longe do que a gente fazia, parecia que a gente tava falando conosco mesmo, mas que Era o que a gente queria dizer.
E aí, passados 20 anos dessa sensação muito solitária em termos criativos, a gente percebe assim uma geração nova de ouvintes que é muito expressiva. Atualmente eu tô numa turnê colaborativa com dois dos Op de Loop, a gente acabou de tocar em Maceió, a gente fez a parte nordeste. E aí veio um menino assim, assim, novinho, novinho, de 14 anos, falar que a banda dele tinha tocado nos shows Você Sempre Tem Alguém aos Seus Pés, que é a primeira música do primeiro disco.
Eu fiquei assim, 14 anos? Eu falei, mas como que você foi conhecer isso? E muitos relatos desse tipo, sabe? A gente fez dois shows há pouco tempo numa casa que não permitia entrada de menores de idade, e eu tive que passar algumas tardes respondendo as pessoas indignadas porque não poderiam ver o show. 8 anos e tudo mais. E ao mesmo tempo a gente vê pessoas assim, nossa geração, que ainda se vê representadas nas músicas e nas músicas novas.
É isso, esse ponto que o Dille tocou também me faz pensar bastante. Muitos nomes que eram muito mais populares na época do que nós não tem a mesma, não sei, não são tão lembrados. Eu não vejo assim tão lembrados. E claro, tudo bem, cada um tem a sua importância, não é uma Mas isso mostra que a gente tem algo muito especial, né?
A palavra que o Edu usou é muito boa: relevância, né? Vocês olharem e falarem, pô, isso aqui que a gente faz é relevante para muita gente. E é muito inevitável a gente olhar para o mundo com um olhar que o mundo nos deu, que é de pensar em popularidade, que é, tá bom, não é competição, mas é comparação de qualquer forma, né? Só que é tão difícil medir relevância ainda mais fora desses parâmetros que o mundo nos oferece, então, que são cifras, que são, né?
E aí é muito louco assim pensar que é um índice de relevância muito grande a emoção das pessoas quando elas escutam as músicas, por exemplo.
Exatamente isso, porque se a gente usar os parâmetros que são mais frequentemente usados, os números de recepção ou de seguidores, ou de os nossos números não são expressivos, sabe? Então, por isso mesmo, eu sempre tive impressão de que tá legal, foi muito importante para mim, provavelmente foi a coisa mais importante que eu fiz na minha vida até certo ponto, mas se encerra aí, já ótimo, cumpri minha missão. Mas quando a gente começou a fazer shows, ver a quantidade e como as pessoas reagem às músicas, é um negócio que é muito visceral, sabe?
Então é estranho. E realmente é uma pergunta: como se mede relevância, né? Eu não sei, mas esse indicativo é muito precioso. É uma coisa que não se compra, que não se maquia, que é aquilo ou não é. Doideira.
Como é que é hoje para vocês lembrar ali de 2008, então, quando vocês decidiram terminar com a banda?
Eu posso falar um pouco, pouco de mim. Eu era, acho que não tão jovem assim igual quando eu entrei na banda, que tinha 16 anos, mas tava ali nos meus 21, 22. Era jovem, sim, era novinho assim, é completamente um menino assim. Então eu acho que eu tava descobrindo muita coisa ainda assim, desde as minhas possibilidades como artista, onde eu queria ir. Como processo criativo, como líder de banda, sabe? Eu lembro da época que eu falava assim, pô, eu podia ter minha própria banda como centralizador, né?
Não uma banda completa de membros que se dividem em decisão, sei lá. E tinha todo mundo pra desbravar, tinha muita coisa pra alcançar, muita coisa pra se decepcionar, assim. Então eu lembro de ser um momento de muita inquietude, assim. De, acho que você cresce e começa a ter um pouco mais de sabedoria, saber as lutas que você quer. E nessa idade assim, com 21, 22 anos, você não sabe das lutas, né? Então você vai saindo lutando por absolutamente todas elas.
Algumas vão te recompensar, algumas não vão te recompensar. E com isso você vai aprendendo e tudo mais. Então eu lembro de, para mim, isso é um momento de muita ansiedade no sentido de de desbravar e ver os meus limites assim, sabe? Como todo bom semi-pós-jovem, você vai testando seus limites e entendendo. Então eu lembro de um momento excitante de, pô, vou botar outra banda na rua, eu vou gravar discos fora, eu vou morar fora, fazer um monte de coisa, mas ao mesmo tempo conturbado no sentido de você ter decepções e ter frustrações e também ter méritos e coisas.
Não sei, é uma idade que todo mundo passa e é importante, mas eu não sinto tanta saudade.
É porque tá melhor agora, né? Comigo igualzinho.
É, com certeza.
Envelhecer traz muitas coisas boas. Em 2008, eu me lembro também, eu lembro que assim, a gente se dedicava muito à banda, sabe? Mas sem uma visão um pouco mais fria e distante E sei lá, quase empresarial da coisa, assim. Eu enxergava a gente com amadorismo no sentido, em todos os sentidos possíveis da palavra, do termo. Desde amadorismo como falta de profissionalismo, mas também como uma coisa que você ama intensamente, a qual você se doa da cabeça aos pés todos os dias da sua vida.
Mas passou a ser um pouco frustrante porque a gente ia tocar fora em condições muito ruins, passava muito tempo convivendo num sei lá, sei lá, ia tocar em Goiânia, fazer um bate e volta em Goiânia, sabe essas coisas assim? E o último show foi um show que a gente fez em Curitiba, levou um calote. A gente tipo assim, era para ter um hotel, o cara não pagou hotel, a gente foi para rodoviária esperar o primeiro ônibus, que era 6 da manhã, tipo em julho em Curitiba, um frio infernal.
E a gente meio que olhou um para o outro e falou, cara, acho que não tá dando mais, né? E artisticamente também eu acho que começou a aparecer necessidade de nós todos fazermos outras coisas assim. Eu, o Ludovico, na época tinha um estigma da banda, da banda de rock doido, de rock maluco, e uma coisa meio, sei lá, o show saiu do controle muito facilmente. Então tá um pouco cansado daquilo. O Cristo é um outro lado musical e artístico, é uma coisa que eu sinto vontade de fazer até hoje, assim, né?
Porque eu queria muito escrever mais. Eu ainda guardo esse desejo de desenvolver escrita além do formato de letra de música, que é muito imediato, mas é muito limitante também. Mas é isso, eu achava que era uma coisa que tava, um capítulo que tava se encerrando, porque a gente, o capítulo que precisava se encerrar para que a gente pudesse crescer individualmente. Nós 4 assim. E foi o que aconteceu. E já tendo super orgulho do que a gente tinha conseguido, como sigo tendo, já com consciência de que era uma coisa especial assim, ainda que não tivesse números expressivos ou fosse um fenômeno de popularidade.
Esse lance do rock doido é muito interessante, né? Eu acho muito interessante, é quase o mea culpa isso, né? Porque eu acho muito interessante como quem tá no meu lugar intitula vocês, quem tá no meu lugar de jornalista, de crítico, de repórter, a gente dá nome para as coisas que vocês fazem assim, que às vezes tá super a par com o que você tá visualizando também, e às vezes um dos dois tá viajando, né? Um dos dois tá falando, não, como assim?
Como é que você tá dizendo um negócio desse? Ao longo do tempo E também ao longo desse distanciamento agora de 20 anos, né, como é que esses termos assentaram em vocês? Em outras palavras, a maneira com que as pessoas falam de Ludovic influencia como vocês se enxergam?
Ludovic, bom, eu assim, eu acho que a gente dá os motivos também para isso acontecer. Eu não me sinto injustiçado meio que em nada na vida, sabe? Eu recebi o que eu merecia ou que eu me propus a receber. Fiz as concessões ou não fiz as concessões que me permitiram chegar a tal lugar, tudo certo. E os shows eram de fato caóticos, assim, tinha uma coisa de no começo não tocar baixo, eu não tocava na primeira música, eu tocava o resto.
E era uma coisa de muita entrega, uma entrega que chegava a ser física, contagiava as pessoas. E de repente virava um grande, sei lá, circo de pulgas gigantes, assim, todo mundo pulando, e a música poderia ficar em segundo plano. Mas começou a ficar um pouco frustrante porque eu via que pra muita gente era só o que importava. E mesmo o teor das letras às vezes ficava em segundo plano. Teve um show que a gente tocou num lugar melhor, com um sistema melhor.
E uma pessoa que em várias das nossas apresentações falou, nossa, primeira vez que eu vi as letras, elas são muito boas. Eu falei, nossa, mas só foi em 10 shows. Então assim, não acho que seja um problema de um rótulo que os jornalistas— eu, é uma percepção que o público tem, às vezes é equivocada, às vezes não é, mas com a qual você tem que lidar. Sobre o que as pessoas falam nos influenciarem, o que eu vejo mais com relação ao que a gente tá vivendo hoje, eu tinha muito medo de decepcionar as pessoas, meio que criar um elo fraco nessa discografia, sabe?
Meio que, putz, assim, meio que acontece com outras bandas assim que tem a discografia perfeita de 3 discos, fazem um quarto 40 anos depois, são, putz, não era melhor ter acabado ali? Ou às vezes nem é levado em consideração pelos fãs. E eu não vejo isso acontecendo. A recepção inicial, eu vi que tipo Tá sendo majoritariamente muito boa. Tem uma, eu peguei uma outra coisa do tipo, ah, putz, mas tá muito controlado, mas tá muito, não sei, tá diferente.
E eu entendo essa decepção como ouvinte assim, sei lá, alguém que ouve os discos de 20 anos atrás e quer uma continuação daquilo. Mas enquanto artista e criador e parte disso que tá acontecendo, eu acho que era o caminho mais, era o único caminho possível.
É, não, eu acho que isso acaba pelo conteúdo das letras e nos posicionamentos de palco tão muito concentrado no Jair assim, ele acaba causando um pouco mais desse tipo de estigma. Mas eu nunca tive, não que eu não olhe, não dê valor assim a crítica, coisa assim, mas eu nunca fui muito ligado em olhar os rótulos que as pessoas têm. Eu acho que Tanto na música como qualquer outras coisas, as pessoas acabam comprando o que você transparece com confiança, assim.
E eu sempre tive mais preocupado em como a gente passa a nossa imagem entre a gente, o que que a gente pensa da própria banda, da nossa confiança, do que a banda é, do que uma crítica ou alguma outra coisa do tipo, assim. Então isso nunca me afetou muito. E eu acho que o Ludovico tem uma certa beleza ali de que Ao mesmo tempo que por muito tempo foi caótico e de alguma forma assim destrutivo, as letras e a mensagem é extremamente sensível de relação de amor ao próximo, de consciência social assim.
Então existe uma distopia nisso assim da imagem violenta com conteúdo e um posicionamento da banda sempre muito respeitoso com as pessoas, com tudo assim. Que causa essa certa confusão assim. Às vezes o cara vai lá achando que é um show punk violento e ele sai de lá querendo ajudar o amigo dele ou querendo ter uma, sabe? Essa é uma coisa que passa uma imagem distópica das coisas assim, que eu acho que é muito bom para banda assim.
Não é nada óbvio o jeito que as pessoas recebem essa mensagem, mas eu não ligo muito não. Pode falar mal se quiser, né? Só não vou tomar uma breja de vocês depois, brincando.
Tá certo. Mas tem um lance também que eu fico curioso tentando visualizar vocês juntos assim, tomando as decisões, falando vamos compor, vamos fazer show, vamos gravar um disco, vamos fazer isso aqui, que é aquele, aquela velha história de que quando a gente tem um jeito de se relacionar e de fazer as coisas. Quando a gente tá junto, as coisas acontecem desse jeito. Aí a gente fica um tempão sem fazer essas coisas juntos, quando a gente se reúne, a gente repete o padrão, sabe?
E quando eu tô olhando para o terceiro disco e conversando com vocês, a impressão que eu tenho é que vocês quebraram o padrão. Vocês estão falando, não, pera aí, a gente não precisa necessariamente fazer aquele show que foi feito uma vez. Necessariamente fazer aquela música que foi feita aquela vez também. A gente pode fazer, propor algo diferente, entende?
Não, totalmente. E mesmo a dinâmica interna da banda foi completamente reformulada assim. Eu acho que dessa vez é uma coisa que todos sentem representados mesmo, e as decisões são tomadas em conjunto. Alguns consensos são mais difíceis de ser alcançado que outros, mas houve essa consciência de que assim, vamos retomar, mas vamos fazer de uma forma que realmente seja confortável para todos, não seja assim, não dê impressão de que a gente tá seguindo o caminho estipulado por uma pessoa ou qualquer coisa do tipo.
E isso tá refletido em tudo, assim, as questões de apresentação estética, ideia para as fotos, a capa. A gente conversou muito sobre a capa. A gente conversou muito sobre o título do disco durante algumas semanas, talvez alguns meses. Eu tava com essa ideia de ser um outro título e a gente conversou muito e eles falaram, não, quer dizer, as letras são uma parte sua, então nisso a gente não pode interferir. Mas eu sentia que não era a coisa certa e também meio que eu consegui perceber que não era a ideia mais empolgante do mundo para eles.
Então falei, não, vamos pensar em outra coisa. Então é melhor assim, até apesar de que a gente sinta saudade de trabalhar um com o outro e sinta saudade também de ter o nosso espaço fora da banda, o que é saudável para quando a gente voltar a trabalhar junto, tá todo mundo com esse ímpeto de colaboração mesmo. Então mudou muito nesse aspecto, de fato. E sobre os shows, também mudaram. Eu acho que a gente conseguiu atingir um momento, é um equilíbrio sobre interação com as pessoas, controle musical e saber conduzir, saber como fazer o espectador se sentir parte do que tá acontecendo, saber como extravasar as emoções, saber conduzir uma terapia de grito, assim, a terapia, sei lá, grupal de grito com centenas de pessoas sem que isso altere a qualidade do show.
Eu não sei, eu tô pensando isso agora pela primeira vez. Então é isso, mas muita coisa mudou assim, eu acho que mudou para o melhor. E envelhecer muitas vezes é isso, né? A gente até repensar a dinâmica que tem com as pessoas que a gente ama e que a gente conhece há muito tempo, e tentar melhorar, e enfim, tentar evoluir, tentar fazer todo mundo se sentir melhor consigo mesmo. E um com o outro.
Total, concordo.
É, tem um lance também que fica na minha cabeça, que é saber a hora de fazer as coisas acontecerem assim, olhando para a história do Ludovic, né? Porque vocês tiveram oportunidade de 2017 lançar um single, fazer show legal, mas não era a hora de um terceiro disco. Aí teve então 2024, turnê de 20 anos do primeiro disco, Legal. E aí, opa, agora a gente pode começar a conversar uma outra coisa que de fato se concretizou, né? Não sei qual que é minha pergunta, gente, tô só trazendo aqui esse assunto que eu acho importante.
Mas a pergunta é: e aí, né? E aí, vocês também, quando vocês escutam eu contar a história desse jeito, quando vocês se lembram essa história desse jeito, vocês sabem dizer por que que agora era a hora certa? Por que que antes não era? Acho que essa é minha pergunta.
É engraçado isso, porque eu sinto que eu tenho isso muito com a minha trajetória artística, mais que com minha vida pessoal. Assim, na minha vida pessoal eu já fiz um monte de bobagem precipitada e depois paguei o preço, ou me joguei. Mas quando eu vi que não— tem uma história que ilustra bem isso. A gente lançou o primeiro demo em 2000, 2001, e aí mal existia banda. Assim, eu gravei com umas pessoas, mas a gente mal fazia show, as pessoas entravam e saíam.
E um dos grandes amigos nossos de uma banda maravilhosa chamada La Carne, que era uma banda de Osasco. Eles participaram daquele programa Musicals do Gastão Moreira na TV Cultura, e eles já tinham nossa demo na época, e eles levaram lá, mostraram, e a gente recebeu um convite para fazer o Musicals. Só que eu nem sei porque eu fiz, como que eu tive essa maturidade aos 20, 21 anos. Eu falei para o cara, putz, não, não tá pronto ainda, tá verde.
E é uma coisa que assim, as pessoas pulariam, né? E esse nosso amigo, o Lenário, que era vocalista, que fez a ponte, ele ficou— eu lembro dele ter ficado muito impressionado com isso. Eu falei, como assim você não quer fazer? Você não vai fazer? E ele falava disso assim toda vez que a gente se encontrava, ocasionalmente por alguns anos. Falava, nossa, aquela vez que você não quis fazer musical, que você não quis. Eu não sei, eu acho que é uma coisa muito preciosa para mim.
Pensando agora, talvez seja A minha produção e os projetos em que eu entro talvez seja uma coisa mais preciosa para mim até do que minha vida financeira e amorosa e blá blá blá, sabe? Coisas que eu não tenho a mesma, o mesmo rigor nas decisões.
Eu sou igualzinho, Jeiro.
Maluquice. Por que, cara? Por que que a gente tem esse juízo para isso e não para o resto?
Edu, para você?
Eu não sei, eu acho que a gente foi amadurecendo nesse processo das voltas também. Quando tinha uma coisa, um fator que eram os projetos solos acontecendo simultaneamente, eu acho que o meu agora, por exemplo, tá super parado, mas o do Jair tá basicamente tão ativo quanto. Mas sempre a gente precisou de um timing ali para conseguir se concentrar em composições novas. Eu acho que teve um amadurecimento. Por exemplo, se eu não me engano, a gente teve duas pré-voltas assim, né?
Teve aquela primeira de 2017, não, a de 2017 já foi a segunda, se eu não me engano. Jair, me corrija depois. Teve aquela primeira, acho que 2014 ou 15, que a gente fez dois shows, depois 17, depois— e aí a gente foi nesse meio do caminho se conhecendo melhor, vendo as expectativas, os limites, como a gente pode conviver. Bem. Eu acho que financeiramente também a gente foi conseguindo um planejamento mais sólido e menos perturbador, que é uma coisa que na rotina de bandas tende a ter um peso enorme assim.
Então a gente foi encaixando essa nova vontade e os shows de retorno sempre foram muito impressionantes assim, igual o Jair tava falando, esse público nosso que Rejuvenesceu de uma forma inexplicável, assim. A gente, eu por trabalhar na indústria da música, assim, acessei todos os meus contatos possíveis para entender o que que era esse fenômeno. Porque a gente não tem seguidores nas redes sociais suficientes, a gente não tem streaming muito forte, mas a gente dá sold out em praticamente todos os lugares que a gente vai, com pessoas cantando as músicas, pessoas comprando merchandising, que hoje no fim é um ativo muito mais importante do que o digital, assim.
São coisas que a gente conhece de artistas enormes de ouvintes mensais e criadores que não conseguem vender 100 ingressos assim. Ludovico segue fazendo isso e segue fazendo isso com público que se renova. Então é um grande mistério assim que eu acho que motivou a gente, né? A gente pensando, pô, a gente não pode deixar isso passar e perder esse momento enquanto a gente ainda tá aqui disposto a tocar, motivado, felizes com com isso tudo.
Então esse timing vem um pouco disso, de ter visto esse movimento acontecendo, da gente tá aqui, da gente ter desenvolvido uma relação boa entre nós durante essas reuniões e continuar sendo amigos assim. Então foi um caminho natural, poderia até ter acontecido antes assim, mas as coisas acontecem tudo no tempo certo. E acho que tá todo mundo muito feliz com os resultados até agora.
É, mas eu acho que aí a gente volta à questão da relevância de novo. E aí eu vou falar em primeira pessoa assim, porque é, eu tive muito menos contato com Ludovic naquela época da atividade. Eu não podia nenhum show porque, enfim, eu tava em outro rolê naquela época. Mas aí quando eu fui conhecer Ludovic, pô, massa demais, isso aqui me move. Aí Quarto Negro me move, a Pérez me move, Jair Solo me move, sabe? Eu acho que tem essa questão de uma arte que é arte, gente, sabe?
Então é isso aí mesmo, assim, a gente pode olhar com esse olhar, com essa perspectiva de mercado, de indústria, de tudo isso que a gente precisa, porque a gente tá falando de estrutura, está falando de trabalho. Então a gente precisa olhar também com isso, dessa forma. Mas tem outra explicação? Eu não vejo, a não ser essa que é ultramente subjetiva, sabe? Vocês estão fazendo coisas, vocês dois estão fazendo coisas juntos ou separados que são impactantes, sabe?
Que move a gente. E eu só tenho a agradecer. Eu citei 4 projetos favoritos meus em um parágrafo, entendeu? E vocês têm culpa de todos eles. Então é isso. Isso aqui é um início de encerramento já, então é por isso que eu tô sendo fofo. Fofo, tá bom? Mas se vocês quiserem ser fofo, fique à vontade, mas não precisa.
É comovente ouvir isso. E enfim, se a gente ouvindo de você, né, a gente falou, a gente fala muito ocasionalmente, mas em momentos muito chave como esse assim. E toda vez que a gente conversa, eu tenho uma sensação de que você tem uma percepção, uma sensibilidade que nem todo mundo tem. É muito confortável, é muito, a gente aprende coisas que vão além do Além do superficial assim. Então não sei o que, eu acho que é parte, tudo é parte de um sistema em que todos são fundamentais, inclusive do seu fim, que também não é nada fácil manter.
Eu imagino que as crises existenciais que a gente já teve com carreira musical e com o seguimento de fazer música, você já deve ter tido com os seus projetos e trabalhos. É, pois é. E enfim, mas caso você decidisse parar, a gente seria muito afetado, como o outro, vice-versa, né? Então não sei, é bom ter conjunto com pessoas que dividem a mesma visão de mundo. E eu gostei muito que você falou também sobre ser trabalho e ao mesmo tempo é uma linha super tênue, né, onde a gente tem, sobre a qual a gente tem que caminhar, que é encarar que é um trabalho que para que a gente possa continuar fazendo isso, a gente tem que encarar dessa forma, em certa medida.
Mas que também não pode ter uma visão fria, não pode perder o calor, não pode perder o amadorismo no sentido de amar aquilo, de fazer porque realmente ama, e o brilho nos olhos e a felicidade com as pequenas conquistas. É isso, é muito complexo, mas a gente vai aprendendo no caminho. Eu acho que a gente já tá no lugar bom, muita coisa para aprender ainda, mas vamos caminhando juntos e aprendendo juntos.
É isso. Bora, bora demais!
Não, só agradecer também. A gente tá com você nesse processo todo, te mandando álbuns e te enchendo o saco nesses anos todos. Muito feliz de ter essa oportunidade com você sempre. Você é uma pessoa muito querida e com um olhar muito sensível a todos os projetos que a gente lança. Obrigado por toda essa parceria, foi muito gostoso o papo, amigo.
Encheção de saco é outra coisa. Se você soubesse, me enchem muito o saco, entendeu? Se você soubesse o que é saco de verdade, mandem mais discos, fiquem à vontade, eu só tenho a agradecer. E obrigado então por estarem mais uma vez, tava na hora, né, 7 anos depois, estarem aqui no Pós-Jovem mais uma vez. Brigadão!
Valeu demais, sempre à disposição para você.