Episódios de Pós-Jovem

Pós-Jovem #327 - bancas e REVISTAS

12 de maio de 202654min
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Na nossa época, para ler notícias e afins era preciso ir até um local específico da sua rua e comprar artigos em papel. Que saudades! Nathália Pandeló puxa o papo nostálgico sobre o que (e como) líamos na infância e adolescência.

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Assuntos6
  • Economia das Bancas de JornalNostalgia e memórias de infância/adolescência · Transformação das bancas de jornal · Revistas como formadoras de identidade · Conteúdo adulto em bancas · Capas icônicas de revistas · O papel das revistas na formação do senso crítico · O futuro das publicações impressas
  • Diferenças de personalidadeRevista MTV · Revista Sete · Revista Showbiz · Revista Herói · Revista Capricho · Revista Super Interessante · Revista Mundo Estranho · Revista Piauí · Revista Rolling Stone · Revista Veja · Revista Época · Revista Isto É · Revista 451 · Revista Manchete · Revista Playboy
  • O impacto das capas de revistaCapas de Vera Fischer · Capa de John Lennon e Yoko Ono · Capas da revista Veja sobre aborto · Capas de revistas e sensacionalismo
  • TikTok e Estratégia DigitalPerda do acaso e da imersão · Consumo direcionado pelo algoritmo · O sensacionalismo das manchetes · O formato de cortes para redes sociais
  • A relação com o conteúdo adulto em bancasFascínio e vergonha · Acessibilidade e inacessibilidade · Revistas e DVDs pornográficos
  • Representatividade femininaMagreza extrema e retoques · Plastificação e padrões de beleza · Espaço para outros corpos e narrativas
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E aí, pós-jovem, tudo bem com você? Natália Pandeló aqui de novo. E eu convidei meu amigo André Felipe pra gente falar sobre um assunto que é extremamente pós-jovem. E você sabe do que eu tô falando. Você deu play nesse episódio. Eu tô falando daquela estrutura metálica que tem na esquina aí da sua rua. Ou das principais ruas das cidades, né? A gente tá falando, é claro, da banca de jornal, da banca de revista.

que foi desse lugar de portal de informações e de atualização para um lugar nostálgico, para uma referência, me encontra na banca, vira depois da banca, e para a gente entender em que ponto ficou a nossa relação com essas revistas, se ela ainda existe, se ela deixou de existir.

mas que passa por muito afeto, passa por muita informação, passa por transformar nossa personalidade da infância, passando pela adolescência até hoje. Afinal de contas, tanto eu quanto o André começamos lendo revista e olha só no que deu. Viramos jornalistas. Mas a gente olha para isso com o mesmo olhar que qualquer pessoa tem.

de consumir revistas, jornais, gibis e palavras cruzadas, etc. A gente está nesse momento em que o álbum da Copa voltou a circular e as pessoas hoje compram figurinha até no McDonald's.

mas a banca continua existindo. Talvez agora transmutada em loja de doces barra chaveiro 24 horas, mas ela continua aí. Então, a gente queria olhar um pouquinho com carinho para essa fase que foi tão enriquecedora para a gente e entender qual é o lugar que ela ocupa ou pode ocupar hoje no nosso imaginário e nas nossas vidas de fato. Então...

Então puxa aí uma cadeira, pega o seu cafezinho, abre o seu jornal de domingo e vem conversar com a gente. Além de ouvir o nosso papo, você pode, é claro, participar da conversa mandando o seu relato, as suas histórias para o nosso e-mail. Podcast arroba pós jovem ponto com ponto BR ou procurando aí nas principais redes sociais e casas do ramo no arroba pós jovem. Bora lá?

Meu amigo André, fala pra mim. Quando foi a última vez que você entrou numa banca de jornal para comprar uma revista ou um jornal? Não pode ser pra trocar de chip. Aham. Pra compramentos. Uau.

Eu acho que foi... É que assim, Nath, você e eu, a gente tem um passado, um histórico em assessoria de imprensa, que me fez ir à banca de jornal comprar a revista que saiu cliente. Me fez ir à banca de jornal comprar o jornal que saiu cliente. Mas eu acho que essa resposta... O famoso clipping. Eu acho que essa resposta é insuficiente, não é? Porque não é bem isso que você está querendo dizer.

Assim, a ideia que fosse de livre e espontânea vontade, você assim, flanando pelas ruas de São Paulo, você entrasse na banca e falasse assim, deixa eu ver se já chegou a nova turma da Mônica. Ah, é. Não, aí eu não consigo lembrar. De fato, eu não sei lembrar quando foi a última vez que eu entrei por livre e espontânea vontade. E você?

Eu não sei a data exata, né, obviamente, mas eu diria que não faz nenhum ano, porque eu sou casada com uma pessoa que é totalmente alucinada por gibis e animes e mangás e essas coisas, né. Então, Daniel tá sempre entrando e saindo de banca. Pode ser banca, assim, com aqueles exemplares já tudo amarelado, ele não tá nem aí. Ele quer ver, ele quer tocar. Então, pra ele, é um passatempo, assim. Se ele tiver que matar tempo dentro de uma banca de jornal, ele fica feliz, entendeu?

Então eu acabo visitando com certa frequência bancas de jornal. Mas não com a frequência que eu gostaria, porque, não sei se você se lembra, não faz muito tempo que a gente andava pelas ruas e havia bancas de jornal. Exatamente. Elas ainda não tinham virado só pontos de publicidade, não é mesmo?

Exatamente. E olha só, eu estava pensando exatamente nisso agora, enquanto você falava porquê. Eu me mudei para esse apartamento há 10 anos e meio, aproximadamente. E quando eu me mudei para cá, eu vi três bancas de jornal desaparecerem ao meu redor.

Então, assim, eu sei onde ficam as bancas de jornal se eu precisar ir. Tem uma ali perto do mercado, tem uma lá em frente da padaria, tem uma lá do metrô, sabe? Beleza, tem aquelas. Mas antes, no caminho para essas aí, eu passava por outras duas. Então, as bancas foram sumindo. E tem uma banca perto da outra padaria que ela virou... É a estrutura de banca de jornal, tá lá. Tem revista? Tem.

Tem jornal? Tem. Todos? Não. Tem uma opção ou outra. Tem livro? Tem. Tem café? Tem. Eles vendem café. Café é pó. Eles têm perfume. E é um chaveiro. E foi por isso que eu tive que ir lá outro dia. Nossa, a vida adulta, né? É bem isso.

Pois é, e antigamente era tão corriqueiro a gente passar na banca de jornal. Até pouco tempo atrás a gente tinha o fenômeno dos homens parados nas bancas de jornal, né? O homem parado pra ver se dava pra ver ali no jornal que tá exposto o placar do jogo que ele perdeu, talvez, alguma coisa assim.

Então, atualmente parece um passado distante, né? Mas eu queria que a gente voltasse aqui um pouquinho nessas memórias, porque a impressão que eu tenho é que você guarda elas com carinho, né? Assim como eu. Só que nós tivemos, digamos assim, experiências diferentes, né? Porque você mora numa cidade grande, uma das maiores, e eu sempre fui de uma cidade pequena. Então, eu queria saber se pra você a banca também tinha essa coisa do ponto de encontro da cidade, sabe?

das pessoas se esbarrarem do jornaleiro saber seu nome te avisar ó, chegou aquela que você queria

Eu acho que ponto de encontro não, eu acho que aí seria forçar a barra na minha realidade. Então, quando eu morava na casa dos meus avós, tinha o jornaleiro do bairro e falava-se jornaleiro, a placa dizia revistaria, porque na verdade era uma loja.

Não era uma banca enquanto esse lugar que é o não lugar. Esse equipamento urbano no qual você entra, ou lado de fora mesmo você pede alguma coisa e te entregam. Esse guichê de lata. Era uma lojinha. Você entrava na lojinha, normal. Podia assistir qualquer outra coisa. Era de revista e jornal.

Aí, sim, estava lá no bairro há 40 anos, meus avós conheciam todo mundo por nome, eles conheciam por nome e sabiam. E era bem isso. Ah, dá uma única que chegou que você vai gostar. Legal. Aí depois, quando a gente foi morar no apartamento que meus pais moram até hoje...

E a banca... Eu já tinha 9, 10 anos, né? Então virou a minha banca da adolescência. Assim, sabe? Então, que eu ia comprar revista de música, que eu ia comprar revista de cinema, que eu ia comprar revista tal, não sei o quê. Mas era muito mais pragmático. Eu ia, comprava na avenida, sabe? Não era na rua de casa, era na avenida. Então eu ia até lá, voltava. Não era um lugar de se estar, era um lugar de passagem.

Entendo. E a tua pergunta já trouxe a tua resposta, mas me conta mais então, como é que era pra você viver esse ponto de encontro? Não, assim, eu frequentava duas ou três bancas, mas eu tô falando de uma época em que não tinha, sei lá, uma banca pra seis bairros, tô falando de quando cada rua tinha, sabe, cada esquina tinha uma banca. Então, eu morava muito perto de uma, mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais mais

Onde a minha família tinha conta, sabe? Aquela coisa de pagar por mês, entendeu? Porque já estava garantido o nosso pacote. Então, por exemplo, todo domingo tinha que ter o Globo. E era numa época muito gostosa, assim, para mim, porque era na época que o Globo fazia umas coleções de VHS, de filme.

Então eu completava as coleções. E tinha, assim, a coleção do filme adulto, né? E a coleção do filme infantil. Não pornografia, gente. Ela tá falando de filmes assim... Filmes não infantis. É melhor explicar. Exato. E tinha... E então você podia comprar o jornal por mais, sei lá, R$5,90 vinha um VHS. Então a minha mãe comprava dois VHS. O do filme normal, entre aspas, e o filme infantil.

E foi através desses VHS que eu comecei a querer aprender inglês, porque eu, muito metida, né, queria colocar os filmes de adulto, que eram legendados, e não conseguia nem acompanhar a legenda, mas foi assim que eu fui praticando. Então, e aí, e era uma época em que você tinha que reservar o jornal na banca, porque o jornal acabava. O jornal esgotava, meu amigo.

Você chegava lá e não tinha mais. Principalmente os jornais mais baratinhos, mais populares e tal. Mas, então, eu vivia essa coisa, assim, bem comunitária, todo mundo sabia. Eu ia buscar o jornal na banca, chegava em casa, abria, amava colecionar os fascículos que vinham do... Onde está o óleo, sabe? Ler as tirinhas do jornal. Já tinha os meus rituais.

E já tinha as revistas que eu gostava, então os jornaleiros já sabiam que era só me chamar, que a venda era quase certa. E aí, eu fazia um draminha, minha mãe comprava pra mim, que a minha mãe, ela nunca, nunca teve muito dinheiro, mas pra essas coisas de leitura, ela não segurava muito, sabe? Então, ela ia me incentivando dessa forma, e foi assim que eu fiquei conhecida nas bancas de Leopoldino.

Sim, muito bom É interessante, né? Tem uma outra coisa aí, pensando nesse tema Que eu acho que eu nunca pensei Por essa ótica Mas meus avós Então eles iam a essa revistaria Toda semana, não sei a frequência Não vou dizer a frequência, toda semana pode ser exagero? Pode ser exagero, mas acho que não

E eu lembro muito de uma época do meu avô ir à banca aos domingos, justamente porque você falou, porque tinha o brinde, né? Você pagava mais R$5,90, tinha o filme. Eu lembro uma época que tinha Lego. Não sei quanto custava, mas eu lembro, eu devia ter uns 8, 9 anos. E eu ganhava, sei lá, por dois meses eu ganhei Lego. Um negocinho de Lego, um tequinho, né?

Toda semana eu vi um tequinho de Lego. Mas, talvez por ser cidade grande, talvez por serem avós que também não queriam andar, não queriam caminhar, meu avô logo assinou o jornal. Então, parou de ter essa dinâmica de ir até a banca. Quando eu fiz 12 anos, eu ganhei também de presente dos meus avós também, que assim como sua mãe era quem sempre me incentivou muito a ler.

eu ganhei a assinatura da Showbiz e da Sete de cinema. Nossa, isso marca a vida de um adolescente. Nossa, deu no que deu, né? Literalmente, deu no que deu. Mas também me distanciou da banca um pouco. Porque antes eu ia até a banca para comprar essas revistas, né? Para escolher qual comprar, para olhar a capa, folhear alguma coisa, e falar, tá bom, vou levar essa. E de repente, não, todo mês chegavam as duas para mim.

É, inclusive, né, a gente também tá falando de um contexto em que ter assinatura de revista em casa era um certo status, digamos assim. Se você queria mostrar... Eu ganhei de presente aniversário, não era uma coisa assim... Não, porque era caro, tá? Era caro. Exato, exato.

Mas se você queria mostrar que você era um pai que estava incentivando seus filhos, sabe? Ah, tô aqui, ó, tô dando todas as ferramentas que eles precisam. E aí você tinha a assinatura do jornal, assinatura da revista, além de outras ferramentas, né? Sei lá, a Barça, não sei. Exato, exato. Na minha casa nunca fez a Barça. Depois em CD-ROM, né? Exato. Mas a assinatura de revista tinha bastante, assim. Um dos grandes traumas da minha vida...

Ai, meu Deus. Assim, esticando muito a palavra trauma, tá? Tá. Que quando minha mãe finalmente pode fazer pra mim a assinatura da Turma da Mônica, eu achei que ela ia me dar a assinatura dos gibis da Turma da Mônica.

E aí o vendedor lá convenceu ela a fazer a assinatura dos passatempos da Turma da Mone. Então, chegava pra mim lá, cruzadinha, não sei o que. Ok, né? Mas eu queria historinha, sabe? Mas depois eu assinei, super interessante. Eu gostava muito dessas, assim, mundo estranho.

Ah, é nossa cara, né? A gente sabe. Você não precisava me contar que você gostava super interessante. Você sabia também que eu gostava super interessante quando eu era criança? A gente sabe. A gente sabe dessas coisas. Você também já sonhou em ser jornalista pra trabalhar na Super Interessante? É claro. Lógico.

Mas é óbvio. Mas a questão também é a seguinte, eu acho que mesmo sem a relação da banca, pensando só na assinatura, o que a assinatura não deixou a gente perder era o valor, eu estou procurando a palavra, não sei se é paixão, afeto. Afeto pela página. O afeto pelo abrir, pelo folhear.

E aquele romantismo do cheiro do livro também é o cheiro da revista. Total. Ainda vinha embalada com seu nomezinho. Isso. Nossa, esse nome tem um senso de propriedade que você atribui aqui. Isso aqui é meu. Isso aqui é meu pra caramba. Veio com meu nome. Exato.

Sei que a gente perdeu alguma coisa. A gente pode investigar hoje quais ou algumas delas. O que a gente perdeu por deixar de ir à banca? Mas a gente ganhou um outro tipo de afeto com as páginas, com as publicações. Totalmente.

Agora, você trouxe um ponto interessante que era essa coisa da questão da revista também traduzir sua personalidade, sua identidade, né? Você falou da Sete, você falou da Bis, né? Se não me engano. E aí, eu queria entender como que era pra você, assim. Quais são as revistas que você...

montaria pra mostrar a sua personalidade naquela época, sabe? Naquela época, são essas duas Revista MTV, que eu tenho todos os números ainda. De todas essas, tá? Eu tenho quase todos. Na verdade, falta uma sede que eu percebo uma amiga e ela perdeu. E eu, talvez, nunca tenha perdoado, tanto que eu lembro qual amiga e qual edição. Eu também sou dessas. Eu guardo o racônio. Faz mais de 20 anos e eu ainda lembro.

rancoroso. Não sabe o que comeu ontem, mas isso vai levar pro túmulo. Exatamente. Mas eu ainda tenho em cima do meu armário, estão todas as edições. Eu não tive todas as edições da MTV, eu nunca fui assinante da MTV, mas eu comprei muitas. Daí da Sete da Showbiz eu fui assinante por muitos anos, muitos anos, quase 10 anos.

em adolescência inteira, né? Então eu tenho guardado, assim, arquivado é meu museu pessoal, que eu não acesso com frequência, mas essas três porque eu acho que... Ah, eu lembrei de outra também. Tá bom, vamos separar a minha vida, assim. Eu acho que até os 13 anos, ou melhor, dos 14 em diante, é 7, Obis e MTV. Antes disso, é 7 Obis e a Revista Herói. Você lembra da Revista Herói?

Eu não consumia, mas sim, lembro. Porque era uma revista também que me marcou demais. É o mesmo universo que a gente está falando, né? Que é um universo do jornalismo cultural. Dentro do jornalismo cultural, um filão geek, que a gente chamaria hoje de geek.

mas era a revista que estava falando ali de cinema e de quadrinhos e de games tudo que eu gosto quadrinhos eu nunca li tanto para além de Turma da Mônica como amigos meus lêem até hoje quadrinhos assim como o Daniel, teu marido mas eu nunca li tanto mas está no meu universo você olha e fala, está interessante deixa eu ver isso aqui, conhecer alguma coisa estava por ali então eu acho que para mim é isso assim

Eu nunca parei pra pensar nesse termo, né? Mas eu acho que é um índice de adolescência eu trocar herói pela MTV, né? É. É um índice muito forte, assim. É um sinal. Talvez foi quando seus pais perceberam que você tinha entrado de fato na fase adolescente. Eu nunca fui assinante de nenhuma dessas duas, né? Sempre era o dinheiro que chegava aqui de alguma maneira.

Eita, eu com 12 anos, meu pai me dava... Gente, outros tempos, se você tem 20 e poucos anos, você não vai entender esse referencial, porque é arcaico. Mas um pão de queijo custava 50 centavos na escola, né? Um real, assim. Então, meu pai me dava, tipo, 50 centavos por dia, um real por dia. Aí, eu não comia na escola pra guardar o dinheiro e comprar a revista. Quem nunca?

Sabe? Uma revista, um pacote de figurinha. Prioridade, gente. Aham. E aí eu só não contava pra ninguém. E aí depois, no fim de semana, ia lá e pá! Uma heróizinha. Sabe? Uma revista MTVzinha aqui, ó. Eu fazia isso. Mas conta de você, da sua personalidade... Então, é... Revistíssica.

Eu também tive fases, né? Tive fases. Então, teve a fase dos gibis. Então, turma da Mônica, eu nunca assinei, como eu disse. Meu trauma. Revistas da Disney, assim, é...

Pateta, Mickey, Pato Donald, todos, assim, tio Patinhas, é... Essa coisa, é... Zé Carioca, adorava o Zé Carioca, então comprava todas quando dava, assim, né? Tinha que escolher. E aí, depois, eu entrei nessa fase mais de conhecer o mundo, então, tipo, é, mundo estranho, super interessante, aventuras na história.

eu tive uma fase capricho sabe, bem adolescente tava esperando, tava esperando os testes da capricho pra quem viveu o teste do Buzzfeed que isso, o teste do Buzzfeed já te entregava a resposta assim, ó

De mão beijada, o teste da Capricha, você tinha que ficar lá somando o negócio, você marcou mais B, você... Sabe? E o negócio estava ali para definir sua personalidade em duas páginas, era uma coisa assim de outro mundo.

Sem falar que Tinha vários tópicos Que você simplesmente não falava com seus pais Não falava de sexo, de beijo Essas coisas Sobre questões emocionais mesmo Da adolescência, que são importantes E no fim, sempre tinha ótimas colunas Então foi assim que eu conheci Liliane Prata

Antônio Prata. Então, são autores que eu consumo até hoje. Então, alguma coisa ficou, né? Sem falar nas capas, né? Algumas capas icônicas. A Sandy cansou de ser santa. A crise no Los Hermanos, escrita assim, entre aspas, somos uma banda de rock. Nossa, sim.

Enfim, tive essa fase. E depois, coisas mais jornalísticas, né? Aí então, revista semanal. Isto é, veja, época, coisas desse tipo. E aí depois eu fui comprando por conta própria. Então, comecei a comprar Rolling Stone. Lá na minha cidade não chegava a revista MTV, mas chegou a Jovem Pan. Então, eu comprava o que vinha com aquele CD.

Eu tava guardando esse assunto pra daqui a pouco. Não, é? Topo demais falar disso. Total Summer Eletro Hits das Ideias. Aham. Então, me acompanhou por muitas fases da minha vida, sabe? E, curiosamente, eu não guardei nenhuma delas. Eu era muito apegada, assim, às minhas coleções e tal. Piauí, né? Piauí não tinha nem onde guardar mais, porque além de serem muitas, eram grandes, né? É, exato.

Então eu abri mão porque eu tô, assim, numa fase muito menos a mais, entendeu? Sei, sei.

mas curiosamente o que eu tenho guardado? Os meus pôsteres de Backstreet Boys foi onde eu mais gastei dinheiro em banca de jornal a gente tá falando aqui de publicações fixas, né, e tinha a Editora Scala eu deveria ser a turista da Editora Scala Editora Scala que talvez fosse da Herói também viu, talvez, agora tô aqui, claro que eu poderia fazer um Google e eu vou, mas enfim mais sem mais

Então, eu ainda tenho Muitas revistas que eu Comprei falando sobre a personalidade De cada um, das boy bands Que eu amava, das Spice Girls Então eu tenho uma pasta com algumas Dessas coisas, as outras Eu deixei ir, né, porque uma hora a gente tem que crescer Infelizmente E não, a Herói era da Acme Editora Em parceria com a Nova Sampa E posteriormente da Conrad Editora De onde eu tirei a escala? Não sei Do arquivo da memória da época, né E mais sem mais

Bom, porque tirando essas, o que tinha só a Abril, que era, sei lá, 90% do mercado nacional. A editora 3 e essas assim. A Globo. A Globo, é verdade, a editora Globo. De fato. Agora... Não, mas isso é muito louco, né? Deixa eu... Eu levemente me distraí pesquisando no Google, mas ao mesmo tempo eu estava presente na conversa. Mas eu esqueci de falar.

É muito interessante pensar também nessas revistas que elas... Uh! Onde a minha cabeça está?

Quando a gente olha pra essa revista, que ela, na verdade, é um pôster. Essa revista que, na verdade, ela é um monte de foto. E a gente pensar que a gente tava disposto... Porque, assim, era de bandas, no geral, de qualquer nicho de música. Porque tinha do Guns N' Roses e tinha Backstreet Boys, né? Mas tinha também de, sei lá...

Atores Hollywood. Para você ter o pôster. Mas é claro que ninguém queria vender só um pôster. Queria justificar aquilo sendo uma revista. Hoje adulto e adultos que estudaram comunicação, a gente entende melhor essa produtização da coisa. Como é que a gente vai tornar isso aqui um produto. Para esse mercado. E é totalmente apoiado, acho, no valor afetivo que a gente tem pelas revistas.

Sabe? Porque se a gente cresceu indo para a banca e comprando a revista que a gente queria, quando a gente chegou ali com 13, 14, 15 anos, você vai à banca e tem uma revista feita para você, com aquilo que você mais quer no mundo, que você vai pôr na parede do seu quarto. Sabe? Sim. Exatamente. Eu acho que se a gente não tivesse já esse apreço por revista, seria só um pôster.

Mesmo. Lembra, quando eu era criança, não sei como que era em Leopoldina, mas aqui em São Paulo, quando eu ia no Carrefour, tinha uma sessão de pôsteres. Sessão muito forte, né? Esses cantinhos, como é que chama? Entre uma prateleira e outra tem um nichozinho ali, assim? Não vou saber o nome, mas eu entendi.

Você visualizou. Ali tinha pôsteres que você ia passando assim, ficavam todos emplacados, você ia passando as placas. Enfim, é isso. Se não tivesse valor pela revista, talvez os pôsteres viriam avulsos. Mas como a gente olha para a revista com esse valor que a gente tem, ao ponto de gravar um episódio de podcast do Paulo Jovem só para falar sobre isso, o marketing da Editora Escala sabia isso muito antes da gente. Literalmente 30 anos antes da gente. Então, vamos apostar nesse formato, que dá certo.

Sim, a editora Scala contratava lá os ghostwriters delas pra poder fazer a biografia do Justin Bieber. Obviamente não autorizada. Obviamente. E vou dizer, tradução de três outras matérias gringas. Sim.

Porém, eu acho que essa fase do pôster na parede, eu acho que ela é muito emblemática, porque, assim, é você querendo realmente mostrar quem você é no seu quarto, no seu mundinho ali, né? Mas eu acho que a banca de jornal, já que a gente tá falando dessa transição, né, de algumas fases da infância, adolescência, vida adulta...

foi também o momento em que muitos de nós tivemos o primeiro contato com o quê? Com as revistas que ficavam meio escondidas, mas meio exibidas.

de conteúdo adulto. Este sim. Agora sim. Agora sim adulto. 18 mais, no caso. Você tinha algum interesse ou fascínio ou vergonha quando encontrava esse tipo de conteúdo? Porque, tipo assim, ele era o puro suco de Brasil, né? Tipo assim, a gente não mostra muito, mas mostra, sabe? Aham! É inacessível, porém, tá na tua cara.

Exatamente Você falou fascínio, vergonha É uma outra palavra Eu lembro que a minha resposta era tudo isso Tudo isso é claro E por todos os motivos mais óbvios do mundo Como que você não ia olhar E eu lembro muito bem De ter essa visão Provavelmente movido pela vergonha

pelo desconforto de não saber lidar com aquilo, de às vezes chegar na banca e procurar... Tá, a Mônica estava embaixo, mas quando eu ia procurar a revista MTV, estava no meio. O que estava em cima? Era uma bunda me olhando, entendeu? Sim. E aí você fala, eita, eita. Você com 13 anos, 14, 15 anos, pelo menos eu, eu, eu com 14, 15 anos, ficava, eita, será que eu estou no lugar certo? Será que, sabe?

Porque eu quero estar aqui. É. Então é um desconforto mesmo. Sim. E pra você? Não, pra mim, é... Sei lá, eu não me sentia, digamos assim... É uma palavra?

incomodada, sabe? Eu achava aquilo super natural, fazia parte da paisagem, entendeu? Aham, aham. Eu só fui notar uma vez, eu me lembro claramente, devia ter uns oito anos, porque eu tava lá tranquilinha, escolhendo o meu gibizinho da Mônica e tinha, tipo assim, a banca era contornada por essas revistas. Sei, sei. Vamos combinar, eram as que dão o dinheiro, vai. Era as que vendiam. Então, vamos estocar.

Aí passou uma senhora e falou com o jornalheiro assim, o senhor não tem vergonha, não? De colocar essas coisas aqui, não sei o que. Aí que ela falou, eu falei assim, ah, é, aí fiquei olhando. Ah, é, realmente. Sensacional. É que é o equivalente à área da cortininha da locadora. Exatamente. Né? Só que essa é um pouco mais despudorada, talvez.

É, mas assim, também, morando onde eu morava, como eu falei, né? Primeiro morando com os meus avós, depois morando onde meus pais moram até hoje. Quem é de São Paulo, quem é da zona sul de São Paulo sabe muito bem o que eu tô falando, né? Eu tô falando de Santo Amaro. Santo Amaro é o centro da periferia, a periferia do centro. Então, assim, é um bairro que tem essas duas vivências. Quem mora na periferia, vai resolver alguma coisa no centro, vai pra Santo Amaro, né?

Então eu cresci ali, no meio da muvuca central de Santo Amaro, no qual várias bancas de jornal, do lado do terminal de ônibus, do lado da estação de trem, do lado do Largo Central, onde tem a igreja, aquela coisa bem centrão, as bancas eram 10% não pornografia. Sabe?

É um banco que se propunha a ser isso mesmo, porque é para pegar quem estava saindo do trabalho, quem estava estressado foi resolver coisa de banco, estava estressado fazer o exame, estava estressado não sei o quê. E, amizade, chega aqui. Pelo menos, sei lá. Eu penso que é alguma estratégia dessa. Talvez a pessoa...

Vamos falar muito claramente, né? Talvez o pai de família tenha vergonha de comprar na banca da esquina essa revista, né? Então, quando ele tá lá pelo centro, é mais fácil você colocar no meio da mala e vai embora, né? Certo. Então, eu lembro disso ser muito presente. Muito presente mesmo, assim, sabe? Se eu entrar na banca, vai ter muito.

E agora me veio uma outra memória recente que tem uma outra banca aqui perto de casa, pequenininha, que eu passo pra ela quando eu tô indo ao médico. E essa banca tem, dependurado do lado de fora, DVDs pornográficos. Que aí eu já acho, assim, vintage, entendeu?

Eu já acho, assim, item de colecionador. Sim, já evoluiu, já deu a volta, já ficou vintage de novo. Exatamente, exatamente. Porque não é nem revista. A banca de jornal que tem jornal e tem revista tem pendurado pro lado de fora. Então você passa e esbarra, assim, no...

num decotão, sabe? Você esbarra assim do DVD. Isso é muito interessante. Mas é, eu... Até a nossa geração, o primeiro contato que a gente foi ter com o conteúdo adulto foi impresso. Ou o VHSzão ou o DVD que alguém contrabandeou. Por aí vai. Até porque significava uma coisa você estar na capa da Playboy.

Nossa. Era uma fase que mudava carreiras. Uhum. Né? Sim. E a gente vê entrevistas até hoje com a fulana que pousou há 40 anos na Playboy. Uhum. E na entrevista fala-se sobre isso.

Sim. E aí, dependendo do caso, eu não tô nem conseguindo lembrar quem foi que falou isso, mas alguém que eu vi, não faz um tempo, tipo, ano passado, alguém contando a TV, ah, mas foi ótimo, paguei, não sei o que tava devendo, paguei, dei entrada no apartamento, e fez um não sei o quê, e tal, porque pousou na Playboy em 87, né?

Exatamente. Pois é, então, isso parece uma vida atrás, né? Mas a gente cresceu com isso, né? A gente cresceu com a banheira do Gugu, então acho que tudo faz parte desse mesmo pacote, né? Mas a gente tá falando basicamente de algumas revistas que a gente via a capa e não necessariamente o conteúdo, né? Nem sempre.

Não tô julgando também quem via, tá? Tá tudo em casa. Agora, eu... Não, o papo aqui é outro. É, agora eu tava pensando justamente nas capas. Porque as capas, das que a gente leu e das que a gente não leu, se tornaram muito icônicas, né? Até hoje a gente tem capas que são muito reconhecíveis. Você pode colocar a foto de quem for, emoldurado por uma... Um retângulo, assim, vermelho.

Time em cima. Pronto. Algumas capas são muito icônicas. Vogue. A diagramação da caras você vai reconhecer de muito longe.

Exatamente. Tem um formato muito específico, né? Todas essas revistas, inclusive, que são mais tabloide, né? Mais fofoca e tal. Todas elas têm a mesma estética, assim. Se você for ver no Brasil, é a Caras, lá não sei onde é a Hello. Isso, isso. É tudo a mesma ideia, assim. E eu queria saber se tem alguma capa, assim, que vem em mente, que te marcou muito.

Eu tava dando uma olhada nas capas da Vera Fischer. Admito que a Vera Fischer é um ícone das capas do Brasil, né? É verdade, é verdade. Porque as capas da Vera Fischer são toda uma vibe. Tem uma aura, entendeu? Vera Fischer era cluber, né?

Pica aí, pica aí. A quem diga, a quem diga. Se você olha as capas, a Vera Fischer está sempre belíssima, obviamente. Mas se você vai ler, você fala assim, alguém ajude essa mulher.

Capa da Contigo, a luta de Vera Fischer. Capa da manchete, Vera Fischer, eu me amo, não posso me drogar. E ela segurando uma navalha. Capa da Contigo, Vera Fischer, por que ela está tão calma?

capa da caras. Vera Fischer outra vez sozinha. Maravilhoso. A outra. Vera Fischer confessa que chora de solidão.

Cara, assim... Muito bom, muito bom. Primeiro, Vera Fischer, você está bem. Desse sinal de vida. Mas, é... A gente ri, porque, assim, acaba contando uma história, não é mesmo? Exato. Mas tem algumas muito marcantes. Eu acho que, assim, pra ser clichê, sei lá, John Lennon e Yoko Ando na Cabo de Rolling Stone, talvez, sabe? De mimor grávida. Inclusive, que é tão... Então...

pensando em John Yoko, é tão icônica a ponto da gente não ser vivo quando aquilo foi publicado, a ponto de ser em outro país e a gente conhece. Todo mundo visualizou. Todo mundo. Todo mundo. E assim, inclusive é uma capa que é imitada. As pessoas fazem outras capas parecidas. Acho que a Rolling Stone Brasil fez uma versão dessa capa.

Nossa, quantas pessoas já não fizeram em capa de revista ou apenas ensaios fotográficos, fazer o mesmo conceito.

Sim, exatamente. Que louco. Eu não consegui lembrar de nenhuma capa, para além das capas da Capricho que você já citou. E talvez eu lembrei delas porque você citou agora há pouco. Porque minha memória foi influenciada. Mas eu lembrei de um outro fenômeno de capas de revista. Usando a palavra fenômeno de um jeito muito à vontade. Que é, antes de São Paulo ter a lei Cidade Limpa, a revista Veja tinha vários outdoors para o São Paulo.

que mostrava uma capa da semana. E eu lembro, então, de toda semana, tinha uma pé na casa dos meus pais. Então, toda semana, eu sabia qual era a capa da veja porque eu via no outdoor qual que era. E eu lembro, assim, a minha... Eu tinha 12, 13 anos, né? Então, assim, eu não tinha senso crítico sobre aquilo. Mas o que eu puxo de memória é de um sensacionalismo que me dá...

ânsia, né? É claro, tá querendo vender revista, que é pra toda a população de São Paulo olhar, bater o olho e falar, ah, quero ler mais. Né? Então, eram umas coisas, eu lembro da Ana Carolina falando, sou bi. Ponto. Ah, é verdade. Ah, uma capa icônica, tem a capa do aborto, né? Acho que era da Veja também essa capa. Das atrizes admitindo que fizeram aborto. Hum.

Tô literalmente pesquisando agora. É, eu não tô lembrando, mas... Capa V de aborto. Eu fiz aborto. Em 1997. Elas resolveram falar. É bem essa época que eu falei. 12 anos eu tinha. Tem a Cissa Guimarães, a Hebe, várias famosas, assim, Alba Ramalho. Todas admitindo que fizeram aborto. Marcante.

Marcante, marcante mesmo. E interessante demais, porque também, eu estou tentando não nerdizar tanto essa conversa. Sei que estou falhando miseravelmente. Mas existe em mim uma intenção de não nerdizar tanto essa conversa, porque de fato são duas pessoas que se propuseram a estudar e trabalhar com comunicação, puxando essas lembranças e confrontando essas verdades agora, olhando a capa da Vera Fischer chorando solidão. Que é justamente o desconforto que eu tenho de pensar...

Que esse senso crítico teve que ser construído para eu parar de olhar para isso como normal. Sabe? Em paralelo com... A gente está falando de revista que faz jornalismo, mas também... E esse é um beijo para o Bourdieu e todos os filósofos que falaram disso, mas assim, que se propõe a ser um produto mercadológico. Então existe na revista Time...

na Veja, onde quer que seja, a revista Manchete, que era essa vontade muito grande de construir história, de construir zeitgeist, de construir cultura. Então, a gente vai questionar por que fazer uma matéria sobre aborto. Eu não estou falando que não deveria fazer. A gente vai questionar. Vamos fazer? Vamos fazer por quê? Tem um motivo.

Enquanto jornalismo, a gente tem um motivo. Mas enquanto mercado, a gente tem outro motivo. E quando a gente observa essas capas de revista... Capa! Capa, gente. É o primeiro contato que você tem. É o que te faz querer comprar revista para ler mais. Então, as intenções da capa são movidas por ideais para muito além da informação.

De novo, é um senso crítico que a gente construiu ao longo da vida. Mas quando a gente tinha 12 anos, a gente olhava e falava, é normal. Esse é o mundo. Esse é o mundo que está aí. O nosso senso crítico vai evoluindo ainda bem. E eu quero acreditar que também o setor de publicações jornalísticas do Brasil também evoluiu em algum sentido. Talvez não todos.

eu passo em frente a banca de jornal e eu vejo as vezes, de novo tem a banca do lado do metrô, tem a banca indo pro médico e aí eu reparo nas revistas e é claro, aí é com meu olhar treinado também pra decodificar essas mensagens e me assusta me assusta e eu não vou citar nomes por não precisar citar nomes

de olhar e falar isso aqui, é, claramente isso aqui tá sendo feito porque a gente sabe que o governo de tal estado é o principal assinante dessa revista ah, sim então é claro que a capa vai estar assim é óbvio que a capa vai ser isso

Se você for ver lá dentro os anúncios, isso fica mais escancarado ainda. Pior ainda. Mas é isso. Eu acho que me dá essa angústia hoje pensar em revista.

Tentando não nerdizar tanto papo, juro. Mas é isso, me dá essa angústia de olhar e falar, cara, é a mesma angústia que me dá quando eu vejo o corte de podcast no YouTube ou no Instagram. Sabe? Que é o sensacionalismo total. Eu preciso te fisgar em três segundos. É três segundos que fala-se, né? Fisgar em três segundos. Então, três segundos de vídeo falando o quê? Mas eu já fiz aborto. Corta.

Aí fala outra coisa e no fim aquilo era um detalhe ali no meio, né? Mas tá na capa. Tá na capa. E quando a gente vai subir uma coisa no Instagram, no TikTok, a gente escolhe a capa. Então, isso é uma questão tecnológica também. Ah, nerds! Ah, o papo sim. Acabou.

Acabou a tentativa. Isso é uma tendência da humanidade lidar com tecnologia. A gente não cria novas tecnologias. A gente adapta o nosso olhar tecnológico a uma nova ferramenta. Então é isso. Quando a gente para o computador, tem a lixeira do computador. Lixeira. Porque é a tecnologia que eu conheço. Onde você deposita o seu lixo. Tem a lixeira do computador. Eu não vou chamar de...

sei lá, rosa e amarela, porque isso não comunica nada. Então, assim, não, é a lixeira do computador, mas não é uma lixeira, não tem pastas, não tem o navegador da internet, que é um navio, é isso. A gente aplica o nosso olhar tecnológico como uma ferramenta nova. E aí, a gente está olhando para o TikTok, para o Instagram e pensando, qual é a capa?

e é a mesma coisa a capa do livro, a capa da revista é o nosso primeiro contato e o povo não tem o senso crítico e o povo tá fazendo capa e é isso que me dá comichão é isso, acho que eu estraguei o episódio de revistas, eu tô aqui com consciência pesada agora

Peço perdão pela mancada com os ouvintes, mas principalmente com a minha amiga Natália Pandeló, que está aqui. Com a boa intenção. Não quero nerdar para Beijo Bordier. Quem conhece, entende. Quem conhece, está acostumado.

Exato, exato. Mas a gente basicamente muda a mídia, mas não mudam as práticas, né? Então a gente tem que estar sempre de olho aberto, assim. Pra mim, né, como menina crescendo, vendo capas de revista, foi uma coisa muito marcante.

Porque as mulheres nas capas de revista sempre foram muito magras, né? Ou muito retocadas, ou muito plastificadas. As mulheres nas capas de revista sempre foram muito retocadas, muito magras, muito plastificadas. E isso sempre foi um incômodo pra mim, sabe? Então, hoje não quer dizer que elas não sejam. Inclusive, essa magreza extrema está de volta e com tudo, né? Está de volta.

mas eu sinto que existe um pouco mais de espaço para outros corpos, outras narrativas. Então, talvez eu esteja vendo o copo um pouco meio cheio, mas eu quero acreditar que esse setor também foi acompanhando um pouquinho das mudanças junto com a sociedade. É perfeito? Não, não é perfeito.

mas hoje dá pra gente dizer que mudou, inclusive, o status que ele tem, né? Então vamos ver como que tá a situação hoje, assim, porque a gente tá falando, claro, de uma época de nostalgia pra gente, mas que hoje já não é mais a mesma coisa. Um exemplo é que hoje eu precisei ajudar minha filha a fazer um trabalho pra escola e recortar palavrinhas com R, e não tinha onde recortar, porque não existe revista.

Então, hoje esse setor mudou muito. As revistas continuam acontecendo, mas migraram para bancas digitais, por exemplo. E hoje ainda significa alguma coisa. Você está na capa da Vogue, por exemplo, você está na capa da Time. Você sai na capa da Forbes, etc.

mas essas coisas também vão mudando o significado, né? Aí eu queria entender onde que tá pra você hoje esse lugar, assim, sabe? Da revista ou da banca de jornal. Se é que ele ainda ocupa algum lugar na sua vida, a não ser o chaveiro.

Aí é que tá. Eu tive essa resposta na minha cabeça quando a gente tava conversando sobre delimitação de idade, né? Porque eu falei ah, eu lia Herói, Sete, Showbiz. Aí depois Showbiz, Sete e MTV. E aí a gente citou muito brevemente Jovem Pan e Transamérica, as vistas que a gente comprava por causa dos brindes também. Além das revistas, tinha os brindes, que era o CD, era o mais importante.

Mas a questão é, eu falei, é isso, e depois parou, acabou. E quando você começou a falar, eu falei, nossa, é verdade, minha história com revista acaba. Ela tem um fim, ali, quando eu tenho 18, 19, 20 anos. Isso, porque eu lembro depois...

já trabalhando com isso, de comprar revista com um olhar de pesquisa. Sabe? Como é que fulano está falando desse assunto? Como é que isso aqui está sendo retratado ali? Como é que isso aqui está acontecendo? Mas era muito menos de um lugar de leitor, leitor, leitor, leitor, como era antes. Então, de fato, a minha história, com revistas principalmente...

acabou ali. E tanto que aí volta a minha primeira resposta para você. Quando é que foi que eu entrei de uma vez em uma banca de jornal? Para comprar uma revista ou jornal por causa de cliente meu de assessoria. Acho que de fato a minha relação agora é outra. Não aconteceu isso com livros, que é uma coisa que me acompanha desde que eu aprendi a ler muito cedo e me acompanha e acabou. Livros continuo lendo.

e tal, mas a última revista que eu li foi a edição da Noise que eu escrevi mês passado sabe? tem a matéria minha aí recebi e li a revista inteira não fui a banca comprar, recebi, né?

então acho que pra mim não sei tô contando sem julgamento de juízo gente, valor de juízo qualquer frase é isso sem dar valor sem julgar gente, eu tô com fome eu tô cansado agora vocês estão vendo os efeitos da pessoa que parou de ler revista olha só não tem mais vocabulário não tem mais vocabulário

Não tem, não tem. Juízo de valor, exatamente. Só que acabou ali, a minha história foi muito intensa, a gente se divorciou ali, entendeu? E é isso. Mas a tua relação, pelo jeito, é mais contínua.

Eu não diria isso, assim, pra não dizer que não existe revista aqui em casa, né? Eu acabei de encontrar aqui na minha mesa, ó, a 451, que o Daniel comprou numa ida à livraria. O preço de capa dela, que não tá dando pra você ver aqui, é R$ 37,90, meu amigo. É livro, né?

É um livro, entendeu? Então, assim, realmente, muito boa a revista, inclusive acho que vale 37,90. Mas eu acho que a revista, ela foi para um outro lugar. No caso da 451, a gente falou de uma revista de literatura, por exemplo. Ela está super especializada, ela não está tentando acompanhar tudo o que está acontecendo, até porque seria impossível, né? Hoje a gente vive com outras métricas.

Então, a revista está num lugar de conteúdo mais especializado, mais específico, para um público muito nichado.

Duvido que hoje a tiragem da Veja seja a mesma de anos atrás, né? Apesar de que o grande público-alvo da Veja seja o quê? Consultório de dentista? Médico? Mas isso é outra coisa que eu reparei. Não tem mais revistas na sala de espera. Nem no salão de beleza, você acredita? Eu queria ficar sabendo das fofocas lá da Caras e tal. Você vai agora no salão de beleza e tem que ficar ouvindo as fofocas do bairro.

Assim fica difícil. Assim fica difícil. Fica difícil. E eu passei em frente uma banca de jornal que tinha no bairro onde eu morei, até três anos atrás, e a banca virou uma banca digital. Eles mantiveram a estrutura e colocaram daqueles painéis de LED que de dia, ok, mas de noite fica parecendo um farol na sua cara.

E como se fosse normal. Agora a sua banca é digital, eu não sei aqui. Então, outros tempos, né? E aí a gente está falando aqui de um lugar muito afetivo, do cheiro, do papel, da materialidade e tal. Mas, sendo sinceros, eu diria que a revista, ela está perdendo cada vez mais esse espaço no mundo atual e...

Não sem motivos. Porque a gente migrou, a gente foi pras telas. Hoje a gente vive muito pautado por um imediatismo que inclusive prejudica bastante a gente adquirir esse conhecimento que a gente tanto quer, né? Mas aí, no fim da história, assim, eu queria só te perguntar o que você acha que a banca te entregava que o feed não entrega? Uau!

Eu acho que primeiro eu vou responder o que a banca me entregava e que a internet anos 90 me entregou também. Que era esse senso de maravilhamento com a quantidade de informação que estava diante de mim.

Eu acho que aquele primeiro momento, 90 e tal, chegou a internet em casa, era a mesma sensação de entrar na banca e falar por onde eu começo. Agora, o que o feed não me traz, que a banca trazia, o acaso, a banca não funciona por algoritmo, não era tudo para mim. Eu tinha que me encontrar no meio das coisas.

e não eram as publicações que caíam no meu colo porque eu ia me interessar por alguma coisa. E esse senso de customização para o capitalismo é excelente, porque me faz consumir mais, porque eu estou consumindo algo que é muito direcionado para mim.

Mas acho que para um senso humano de você reconhecer o seu tamanho no mundo, e você entender que o mundo é essa máquina independente de você, as coisas estão acontecendo, e você chega e você pode ter a sua participação. Não é a informação que se curva aos seus pés. É você que tem a possibilidade de adquirir informação. Eu acho que é um efeito...

Que bom que a gente teve, sabe? Que bom, dou muito valor a isso que a gente teve. E pra você? Também. Imersão, eu acho. Porque, sim, a gente ali no feed, a gente fica até difícil de sair, a gente se sente preso, não necessariamente imerso. Sabe? Se sente sugado pela luz, pelas... Exato.

No caso da banca, em geral, né, pensando naquela banca, estrutura metálica que fica ali no meio daquele concreto, você entra ali e aí você vai passar o dedo nos cantinhos das revistas, não sei nem se conta como lombada, né? E você, dependendo do tipo de banca, você vai dar uma folhadinha ali rapidinho e vai levar pra se deliciar depois, ou no transporte público, ou no momento que você vai tirar paraquilo, sabe?

É diferente de você ser bombardeado o tempo inteiro de... Ó, você virou pra cá, pá, toma um conteúdo na sua cara. Sabe? Então ali, eu podia ir no meu ritmo. Sem falar que tinha essa questão da recomendação, mas às vezes de você encontrar outra pessoa do seu lado que tava olhando uma revista que você...

também estava olhando e pergunta se é boa e você vai e recomenda, ou vice-versa, ela recomenda algo que você talvez não olhasse, ou o jornaleiro pensou em você porque chegou uma outra revista com aquele ator que você gosta na capa, e aí você se permitia descobrir coisas novas de um jeito diferente. Sem falar que hoje em dia a gente se informa muito, entre aspas, por manchetes.

quando você comprava o jornal, você comprava a revista eu não sei você, mas eu me sentia quase na obrigação de ler pelo menos um pouco, porque assim custava dinheiro, né eu não queria jogar fora aquele dinheiro, eu tive que me deslocar pra poder comprar esse treco aí eu vou trazer pra casa e vou usar só pro cachorro fazer xixi não é possível

Então, eu acho que é isso, essa suspensão, essa imersão nesse mundinho rapidinho, pra depois eu poder mergulhar em algo com um pouco mais de profundidade do que uma manchete no feed me entrega hoje, né? Perfeito. Eu acho que fica isso, assim, é mais uma vez a gente olhar e falar, não é saudosismo, é gratidão, sabe? É falar, meu, que bom, sou grato pelo que a gente viveu, e é isso aí. É isso aí. Que bom que a gente compartilha essa história, sabe?

Exato, e hoje Muitas das revistas que a gente amava Continuam aí, a gente pode continuar acompanhando Até recebendo newsletter delas Então isso A gente pode manter viva essa chama Só que de outra forma E tá tudo bem, acho que ser jovem também é se transformar Não é mesmo? É isso aí, ser pós jovem é continuar se transformando É, exato Então fechou, bora

É isso, então contem pra gente suas histórias com as suas revistas lá no arroba pós-jovem, todas as redes sociais, manda e-mail, a gente quer saber se a relação de vocês com as revistas também precisou terminar, e se não, conta pra gente como que você tá achando bancas de jornal pra frequentar na sua cidade. Uhum, uhum.

Vai que você tem uma banca de jornal, a tua família tem uma banca de jornal, teu amigo, vai ser muito legal ouvir essa história, com certeza. Valeu, Nath, pelo papo. Sempre muito bom. Você sabe que eu volto, né? Você sabe que eu volto pra gente falar de mais nostalgia por aí.

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