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#74 Gibizada ABR/26 - Parte 1: O Cabeleira, Eu sou o seu Silêncio e Batman 2

04 de maio de 202614min
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Abril finalmente acabou e o Gibizada já chegou! Dessa vez, trazendo adaptação de livro clássico brasileiro, a descoberta de Jordi Lafebre como roteirista e o retorno às mensais do Batman. Só quadrinho de qualidade, Rogerinho!

Participantes neste episódio1
T

Tico Menezes

Host
Assuntos3
  • Batman MensalRun de Chip Zdarsky · Run de Tom Taylor · Investigação do assassinato do prefeito Nakano · Sharada e Kool · Vandal Savage · Bruce Wayne e Superman
  • Poder do SilêncioHQ de investigação estilo Who Done It? · Jordi Lafebvre · Eva Rojas · Família herdeira de empresa de vinhos · Saúde mental
  • Fela KutiAdaptação do romance clássico brasileiro · Franklin Távora · Leandro Assis e Hiroshi Maeda · Alan Alex · Sertão nordestino
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Contemporássico Podcast A inevitável e sempre mutável união do contemporâneo e do clássico Quando você vai perceber que o tempo aqui tem

Sejam bem-vindos à inevitável e ecleticamente mutável União do Contemporâneo e do Clássico. Eu sou Tico Menezes e esse é o Contemporássico Podcast e mais um Gibisada, programa mensal que reúne minhas leituras de gibis e quadrinhos especiais, buscando acolher aquele leitor que acha que só ele acompanha mensal ou foi a única pessoa que leu aquele quadrinho tão bacana, mas que é mais curto ou faz parte de uma antologia.

Ou só existe e é daquelas obras-primas que passam batido pela maioria? Ou não também? Aqui a gente acolhe todo mundo. O contemporáceo é igual a casa de vó. Se você tá lendo, é só se aproxegar. E se você tá querendo ler, chega mais também. Aqui tem dica, tem resenha, tem de tudo. Que programa espetacular. Como eu fico feliz quando chega o fim do mês. Primeiro porque as contas vão ser paga em breve. E segundo porque tem gibisada. Chega mais!

Eu sou uma pessoa que adora rodar por São Paulo. Eu adoro a minha cidade. Com todas as críticas que eu tenho a esse lugar infernal, eu também acho que é um lugar culturalmente muito, muito, muito rico. E, cara, uma cultura que a gente tem aqui e que deve ser incentivada sempre é a cultura do sebo. Sebo de livros, sebo de quadrinhos.

A conversa com quem mantém o Sebo Vivo é sempre muito legal. A conversa com pessoas que estão ali procurando por livros, procurando por quadrinhos, também é sempre muito bacana para leitores. É um lugar que eu acho que acolhe, incentiva, respeita o leitor e apresenta tanta coisa bacana, tanto livro, tanta obra incrível, que às vezes passou batido, às vezes está sendo vendida por um valor exorbitante nos mercenários livres.

E é uma cultura que deve continuar, deve ser incentivada. Galera, vamos visitar Cebos, vamos visitar bancas de jornal, bancas de quadrinhos, por favor, que essa galera merece demais. E rodando no Cebos aqui de São Paulo, é muito constante que eu encontre obras-primas, né? Quadrinhos que foram publicados em editoras menores, com apoio do Proac, ou de outros editais estaduais que devem ser incentivados e ajudam...

tantos artistas Brasil afora que, cara, é outra coisa que deve ser falada ainda mais, deve ser mostrada, deve ser incentivada. E nesse mês de abril, logo ali no comecinho, ainda antes da Páscoa, eu encontrei um pequeno grande quadrinho. Eu tô falando de O Cabeleira, HQ publicado em 2008, que adapta o romance clássico de Franklin Távora.

Aliás, vale mencionar que o cabeleiro é tido como o primeiro grande romance regionalista do Brasil. Ele foi publicado em 1876 e segue sendo uma história extremamente relevante, escrita com intensidade e com surpreendente estilo. O que é a escrita do Franklin Távora? Eu recomendo demais a leitura do livro.

Mas a gente tá aqui pra falar do quadrinho. E quem assina o roteiro são Leandro Assis e Hiroshi Maeda, que eram estudantes de cinema e estavam querendo adaptar o livro pras telonas, fazer um filme disso. Mas após algumas críticas e também a recomendação da editora Desiderada pra adaptar aquele trabalho em formato de quadrinhos, eles viram as artes do Alan Alex e não tiveram dúvidas. Era aquele o projeto, precisavam fazer um quadrinho do Cabeleira. Eles formaram o trio e publicaram.

E cara, o Cabeleira é uma história infelizmente muito comum dos tempos de formação do sertão nordestino. Ele tem como protagonista um matador temido que devido ao ódio com que foi criado pelo pai ignorante, turrão, nojento, com aquela visão desumanizada da infância e deturpada da masculinidade, com aquele papo de homem não chora, mas faz chorar e zero apreço pela vida humana, que também é fruto de um sistema que prioriza só branco rico e deixa os pobres à própria sorte,

Enfim, e esse protagonista acaba assassinando tanta gente que, obviamente, reúne desafetos por onde passa. A jornada central do Cabeleira é bastante básica. É uma história de pai e filho aterrorizando o estado do Pernambuco e acumulando dinheiro e mortes por onde passam.

mas é também a construção de uma lenda. E toda lenda, quando a gente conhece a construção, quando a gente vai a fundo, a gente vê as falhas, os problemas, a gente entende por que lendas não devem ser idolatradas, mas sim disseminadas, as histórias devem ser contadas com detalhes, como contos preventivos. Isso é sempre interessante, sempre vai ser. A infância conturbada, com um pai que o incentivava a brigar e matar, o seu amor por uma vizinha que mais tarde precisou fazer escolhas...

difíceis devido à vida pobre que levava, e enfim, a sua última batalha tendo sido tocado pelo amor em diferentes formas antes de enfrentar o destino de todo matador, é o que torna o Cabeleira uma obra triste, brutal, crua, muito honesta ao retratar um Brasil ainda escravocrata, ainda extremamente racista, com uma elite ignorante e maldosa e um povo cheio de fome e dores, o que gerou muitas reações através do ódio em figuras como o Cabeleira, em figuras como o pai dele.

Cara, é um quadrinho extremamente atual, extremamente relevante, muito importante pra gente entender a história da população brasileira, a história da política brasileira também. É um quadrinho que faz um resgate muito inteligente de um clássico importantíssimo da nossa literatura. Nossa, eu acho que eu gostei mais do que eu imaginava.

A gente sai desse ambiente super brasileiro pra algo um pouco mais europeu, mas eu juro que é do jeito bom. Cara, eu vou falar agora sobre Eu Sou o Seu Silêncio, HQ publicada pela Pipoca e Nanquim recentemente, eu acho que coisa de dois anos atrás, e eu devo dizer que eu simplesmente amo histórias de investigação, ainda mais naquele estilo Who Done It? Sabe aquela pergunta quem fez, quem matou?

que é basicamente aquelas histórias que houve um assassinato e a gente tenta descobrir quem foi. E um dos elementos mais interessantes de histórias assim, pra mim, é o investigador principal. A Agatha Christie tem a Miss Marple e o excêntrico e sempre ótimo Hercule Poirot. O Ryan Johnson recentemente teve o carismático Benoit Blanc.

O Arthur Conan Doyle tem o absolutamente fascinante Sherlock Holmes. E agora, Jordi Lafebvre, o desenhista absolutamente talentoso de Verões Felizes, que eu recomendo demais, assina o roteiro e a arte de Eu Sou o Seu Silêncio e nos apresenta Eva Rojas.

Uma psiquiatra encantadora, hilária, bissexual, fumante, e que anda junto dos espíritos, ou alucinações, da sua avó e de suas duas tias falecidas. E isso é inacreditavelmente envolvente. Que quadrinho bom, meu Deus do céu!

Começamos e terminamos o quadrinho com uma vista belíssima de Barcelona, mas com sentimentos completamente diferentes nos dois momentos. O talento artístico do Jordi Lafebvre não é questão pra ninguém. O cara é brilhante e ponto. Basta você ler uma obra do cara e você fala, não, isso aqui é algo que eu quero ler, se possível, todo semestre.

Mas descobrir ele como um roteirista inteligente, malandro, sabe? Que consegue criar uma personagem tão marcante quanto a Eva e uma trama tão cheia de nuances quanto essa. Puts, isso é algo que me chegou totalmente de surpresa e me arrebatou. Me deixou com um sorriso no rosto durante toda a leitura.

Como sempre, a curadoria da editora Pipoca e Nanquim segue uma das melhores do Brasil. Mas vamos à trama, que é o quê? A Eva está contando para o seu psicólogo um caso no qual ela esteve envolvida até pouquíssimo tempo. É um caso clássico de quem matou, mas situado numa família herdeira de uma empresa de vinhos, aliás, de cava, que é tida como uma das melhores do mundo há gerações.

A Eve é convidada por uma amiga, que é uma das mais jovens da família, pra leitura do testamento da matriarca dessa família, mas ainda em vida. A velha tá lendo o testamento enquanto vive. E lá, a gente tem toda aquela cena clássica. Ambientação, interação com membros da família sendo todos meio estranhos, meio suspeitos de um crime ainda não cometido, uma aproximação meio malandrinha e, inevitavelmente, uma morte.

Mas, diferente da estrutura clássica de quem matou, o fascinante dessa história é a construção da Eva como protagonista. É um verdadeiro estudo de personagem em meio a uma investigação. A Eva tem traumas muito sérios, mas o seu comportamento errático e autodestrutivo, com aquele bom humor quase inabalável e um carisma conquistador, mascaram essas dores.

E a gente ter a Eva narrando a trama para o seu psicólogo é a forma perfeita de compararmos a nossa avaliação da personagem com a do próprio psicólogo, com a do médico. Tudo isso enquanto ela também se apresenta para a gente. E exatamente como uma pessoa com traumas profundos, as emoções da Eva não são facilmente acessíveis. Mas quando a gente passa um tempo do lado dela, conseguimos ver rachaduras, pequenas brechas que revelam emoções muito bem guardadas e justificativas incontestáveis para ela ser do jeito que é.

Isso se mantém interessante a cada novo momento do psicológico da Eva durante a trama, como ela se sente, como ela vai reagindo, os sustos, os medos, as inseguranças, desde a descoberta do cadáver até a revelação final, que traz uma reviravolta no mínimo divertida, mas muito coerente com o ritmo do quadrinho.

Não é o grande evento que muitos dos quadrinhos do Pipoca e Nankin são, mas é um daqueles contos pra você ler numa viagem ou no fim de semana tranquilo, sabe? Aquele quadrinho companheiro, divertido. É exatamente o que um quadrinho tem que ser. Divertido, interessante, debrução do leitor sobre a arte, as cores de um artista dedicado, reforçando a importância da saúde mental, aqui já é um bônus, e ainda deixando umas reflexões bem importantes pra quem quiser passar um tempo a mais pensando sobre esse assunto.

Sensacional. Leiam Eu Sou o Seu Silêncio. E pra não dizer que não teve mensalzinha nessa primeira parte do Gibisada, eu fico super satisfeito em dizer que eu voltei as mensais do Batman. E voltei pra um grande acerto da Panini, que foi zerar a numeração do Morcegão e trazer edições com o final da run do Chips Darsky e o começo do Tom Taylor.

No jubisada de dezembro de 2025, mais especificamente o nosso episódio de número 44 aqui do Contemporássico, eu resenhei o primeiro volume dessa mensal. Como vocês estão ligados, eu demoro muito pra continuar algumas leituras. Eu faço mil coleções, aí eu vou lendo a conta gotas. Mas, ler essa número 2 aqui me fez querer estar em dia com as edições do Batman que estão saindo nas bancas. Vamos lá então? Batman Vol. 2.

Após a ótima introdução do arco final do Chips e Darsk no Batman, nesse segundo volume nós continuamos a investigação do assassinato do prefeito Nakano. E é muito interessante ver como o assassinato é só o fato principal da trama, mas os subarcos são tão interessantes quanto.

Nós temos o Sharada e o tal do Kool. A DC não estava contente em ver só a Marvel tendo um personagem chamado Kool, então criou o seu próprio Kool. Um Kool só pra chamar de seu. E esse Kool é o novo chefe da Corte das Corujas, que tem o novo prefeito na palma da mão. Tem também o Vandal Savage sendo e agindo super suspeito como comissário, afinal ele seria demitido pelo Nakano.

E principalmente, a gente tem o arco do Bruce tendo que lidar com uma manifestação fascista absurdamente burra que quer lutar contra o projeto de saúde pública e moradia para os mais pobres em Gotham. Assim como a alegação de um suposto irmão seu que está querendo a grana da família Wayne. Seria um filho legítimo de Thomas Wayne.

Tudo é interessante, é bizarro, tudo é bem trabalhado, tudo mantém a revista num nível que nunca baixa. Até que a gente chega ao ápice da edição, com o Gordon agindo de forma suspeita e tensa pra caramba pra cima do Batman em meio a revelações certeiras da investigação. Coisas que vão expor segredos. E quando a gente vai entender o que aconteceu, a edição acaba.

E é assim que você mantém o leitor na ativa. Parabéns, meu querido Zidarsky. Muito bom. Já no run do Tom Taylor, a gente continua com a trama dos jovens infratores mortos e da injeção de rejuvenescimento oferecida ao Bruce. E tirando o fato de que a gente elimina o pinguim da lista de suspeitos, o maior e melhor momento da edição é o Bruce levando a questão de se deve ou não aceitar o tratamento de rejuvenescimento celular lá para o Superman.

E a conversa do Clark com o Bruce sobre aproveitar oportunidades, sobre a bênção que é você estar vivo quando outros próximos morreram, sobre como o Clark acredita que o Bruce é altruísta e jamais conseguiria usufruir de algo benéfico sem criar formas de dividir isso com todas as pessoas, e principalmente sobre se livrar da culpa do sobrevivente.

Cara, é um espetacular desenvolvimento de personagem, mas de personagens que a gente já conhece. E que ao vê-los interagindo, decidindo e refletindo sobre as suas vidas, conversando, a gente sente eles mais próximos. Fica ainda mais fácil de se identificar com eles. Fica ainda mais fácil de gostar deles que a gente já amava.

E isso só faz a gente querer ver os próximos capítulos. Isso é uma aula. Essa edição é uma aula de como engajar o leitor. É um espetáculo de quadrinho, um espetáculo de mensal. Um diálogo que, cara, trouxe de volta algo que eu tava querendo há muito tempo em mensais.

E olha que eu tô deixando de lado o gancho final aqui, hein? Que é basicamente o Robin sendo a próxima vítima do assassino de Jovens Infratores. Que espetáculo de mensal! Nossa, foi muito bom ter voltado. Eu fiz questão de comprar todas as que foram lançadas até agora, já tô com tudo. Então, capaz que no Gibisada que vem, não o de amanhã, mas no mês que vem, a gente tenha aí uma overdose de Batman, hein? Só que isso, né? Fica pro mês que vem.

Por hora, dão uma pausa. Esse é o Gibisada parte 1. Um mês que teve leituras de altíssimo nível, hein? Mas será que esse nível vai se manter até o final? Será que a segunda parte de abril trouxe coisa boa também? A gente já vai saber amanhã. Na parte 2 do Gibisada de abril de 26.

Tô te esperando lá, hein? E por hora, brigadão demais pela companhia, como sempre. Brigadão pela audiência. Espero que essa semana estraga muita notícia boa e leituras de alto nível, como foi esse meu começo de mês. Brigadão sempre, galera. Um abraço e a gente se lê.

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