#73 O Rio que me Corta por Dentro (Raul Damasceno)
Mergulhando num rio de sentimentos nesse pequeno grande livro que tanto me surpreendeu, o Contemporássico de hoje é mais uma recomendação brasileiríssima. Raul Damasceno desponta como um nome ao qual ficaremos atentos para o futuro e O Rio que me Corta por Dentro invade o podcast de hoje para alcançar mais e mais leitores.
Tico Menezes
- O Rio que me Corta por DentroAmbientação e memória afetiva · Ciclo de violência, ignorância e opressão · Personagens e suas complexidades · Micro e macro da vida pobre no Brasil · Comparação com o filme Mutum
- Raul DamascenoAutor cearense em ascensão · Visceralidade em sua obra de estreia
- Literatura BrasileiraNovos autores despontando · Importância de histórias sobre o povo brasileiro
Contemporássico Podcast A inevitável e sempre mutável união do contemporâneo e do clássico
Sejam bem-vindos à inevitável e sempre imutável união do contemporâneo e do clássico. Eu sou Tico Menezes e esse é o Contemporásico Podcast no território mais frutífero, criativo e maravilhoso nessa bolha literária, a literatura brasileira.
Hoje, para falar de um dos melhores livros do ano passado, que com certeza já está na minha lista de melhores leituras desse ano, e que também é o livro de estreia do Raul Damasceno, autor cearense que merece muito a sua atenção, a gente vai falar de O Rio Que Me Corta Por Dentro.
Toda vez que eu leio um livro que ambienta o leitor num lugar que é, ao mesmo tempo, o espaço físico e os sentimentos dos personagens, eu me sinto muito acolhido. E essa percepção é muito particular, ela é muito minha. Mas eu acho que ela é partilhada também, porque entende a importância de entender os detalhes de onde você cresceu, de onde você está, de onde você vive.
E uma vez que a gente passa pelos lugares onde vivemos experiências, esses lugares passam a viver somente na nossa memória, tendo detalhes acrescentados ou retirados cada vez que a gente se lembra deles. Vocês também sentem isso? Tipo um cheiro que lembra o lugar, que lembra a sua infância, e que cada vez que você pensa, algo está diferente, algo está melhor ou está pior, você entendeu algo que você não tinha entendido antes, ou você sente falta da inocência daquela época.
Esse livro, ele faz muito isso, cara. E o que o Raul Damasceno faz com a pequena cidade de Carrasco, no sertão do Ceará, é abrir espaço no coração do leitor para viver e se lembrar do que o Cícero, o protagonista, viveu ali. Mas talvez mais do que isso. Eu acho que ele abre espaço na percepção das pessoas de que muitas vidas não são vividas por culpa de uma opressão naturalizada e disseminada.
de que a visita para esse lugar em específico talvez não traga memórias boas. E caso elas venham, vão vir cheia de máculas, cheia de dores.
Cícero e Luzimar vivem em sua infância pequenas aventuras, pequenas descobertas, em meio a um universo bronco e imprevisível. Mas o que se destaca todos os dias é a amizade deles, a parceria, o carinho de um pelo outro. Acima do medo que eles sentem de algumas figuras, até mesmo de alguns parentes, acima da espera pelo retorno da Annecy, a mãe do Cícero que trabalha em Fortaleza e só volta pra Carrasco uma vez por ano,
Acima de tudo, tá essa relação bonita e genuína dos dois. É um livro sobre o ciclo de violência que vem da ignorância, que vem da homofobia, das frustrações, do machismo, da misoginia. E como esse ciclo sempre ceifa a vida de gente inocente, de gente que merece a vida que sonha, de gente que entende onde tá e quer fazer o melhor com o que pode.
As dores do Cícero seriam tão mais acolhidas em outro lugar, em outro contexto, mas por não serem normalizadas, elas doem com mais força ainda, elas geram dores diferentes. Isso porque a gente mergulha no rio que é o Cícero. Mas muitos outros personagens também têm suadores e sonhos mostrados aqui, e são tão encantadores e verdadeiros quanto o protagonista.
Luzimar, seu amor e sua sensibilidade contra aquilo que foi dito que era dever e honra. Anissi, com sua coragem e sonhos e todo o ódio que lhe foi imposto apenas por ser mulher. Toin, seu amor por literatura e sua belíssima existência que se engrandece com o seu propósito. Nambu, com a mais simples e revolucionária das virtudes, empatia.
São personagens grandiosos num livro curto, num livro rápido. E eles são grandiosos em sua simplicidade sertaneja. Uma das muitas qualidades desse livro é apresentar personagens que são pessoas. Gente que a gente pode ver, que a gente pode lembrar, identificar em quem já passou pela nossa vida.
Eles assistem novela, eles debatem o Rei do Gado, eles ouvem Zezé de Camargo e Luciano. São brasileiros, são brasileiros vivos, são cearenses, são gente nossa. E isso me aproximou demais de cada um. Me fez torcer por eles, me fez chorar, me fez sofrer, me fez sorrir. O micro e o macro da vida pobre no Brasil, sabe? Da vida periférica, é mostrado com delicadeza, crueza.
E curiosamente, com um certo humor que é muito assertivo, sabe? Que com certeza vai tocar o leitor num ponto que vira emoção rapidinho. Eu senti muito do clima do livro, e fica a dica aqui, do filme Mutum, de 2007. Em muitos momentos eu sentia que...
Essa inocência constantemente ameaçada que o livro nos mantém ali, lembra muito o ritmo, a energia desse filme, o cuidado com que esse filme também olha para infâncias oprimidas, de certa forma. Tiago, eu vou ensinar a você um feitiço, para qualquer mulher ficar apaixonada por você, mas qualquer uma mesmo.
Você pega assim, um pouco de terra molhada com o xixi da mulher, prende junto, três formidões, tá absurdo? Ó! É tira e queda.
A trama se revela em capítulos curtos e super pontuais, que mostram só o que precisam mostrar e permitem que o leitor complete alguns cenários e sentimentos ali na própria cabeça, na própria imaginação. São capítulos que vão ficando cada vez mais intensos, cada vez melhor ilustrados, conforme a gente conhece as histórias que estão convergindo, que vão tirando alguns véus ali, que vão levando atenção e nos recompensando, não com tudo que a gente queria, mas com o que condiz com a realidade possível.
Raul Damasceno entende do que escreve, e isso pra mim é muito precioso. É muito bom você ler sobre o que você sabe que foi vivido, que foi sentido, foi processado e transformado em história, e transformado em ficção, porque reflete a realidade. E por ser seu romance de estreia, é ainda mais impressionante o quão visceral o livro consegue ser.
É curto, mas é cheio de vida. Ele é do tamanho que tem que ser. E consegue nos posicionar e nos tirar de vários lugares e sentimentos. É incrível. É mais um daqueles que você vira a página, olha pra frente e fala sozinho. Que livro bom!
Parabéns pro Raul, parabéns pra editora Astral Cultural, que deu essa chance pro autor. E é isso, né, galera? A gente vive numa época maravilhosa de muitos autores brasileiros despontando, de muita história boa e viva sobre a nossa gente entrando no mainstream, se apresentando, sendo comentada, mas principalmente sendo lida, vivida e debatida. Isso é de extrema importância no nosso cenário.
Eu fiz aqui o meu melhor pra entregar um episódio sem spoilers. Um episódio que abrace o leitor e incentive quem ainda não conhece o livro. Mas eu preciso dizer uma frase, só uma. Uma frasezinha com um pouquinho só de spoiler pra quem já terminou de ler. Então se você não quer ter esse spoilerzinho, que é mínimo, pula os próximos 5 segundos. Então lá vai. Essa aqui é pra quem leu e sentiu a mesma coisa que eu senti naquela hora lá que vocês sabem qual é.
Queima, fela da puta! Muito bem, podemos seguir com o encerramento.
E eu agradeço imensamente a sua companhia. Eu espero de coração que quem leu o livro se sinta contemplado e quem não leu vá correndo ler. Esse aqui é um dos melhores livros que eu li nesse ano. Eu agradeço também ao Raul Damasceno por dividir essa obra com a gente. E eu não canso de recomendar. Eu espero que o episódio tenha feito jus a essa vontade que alguns têm de ler e a vontade de ver resenhado o que outros sentem, porque é o que eu precisava. Eu precisava de resenhas emocionadas sobre esse livro.
Que só leituras ótimas te encontrem, que só notícias boas cruzem seu caminho. Bora viver, galera! Um abraço e a gente se lê!