Episódios de Politiza - Rádio Assembleia

POLITIZA #79: VALE PERGUNTAR - O PROBLEMA DA SAÚDE PÚBLICA É DINHEIRO?

28 de agosto de 202634min
0:00 / 34:50

Muita gente que tem plano de saúde particular acredita que não depende do SUS, mas o maior sistema de saúde universal do mundo está presente no nosso dia a dia em ações de vigilância sanitária, vacinação e até em transplantes de alta complexidade. Para inaugurar a nova fase do Politiza, que ganha a versão videocast, este episódio especial debate o funcionamento, os avanços e os gargalos do Sistema Único de Saúde. É o primeiro de três programas que vão discutir políticas públicas essenciais para o cidadão e sempre presentes em campanhas, durante as eleições 2026. A convidada é Alzira Jorge, médica, professora da Faculdade de Medicina da UFMG, que foi gestora municipal, estadual e federal de saúde e participou ativamente da fundação histórica do SUS.

A apresentação é dos jornalistas Grazielle Mendes e Heitor Peixoto.

Participantes neste episódio3
G

Grazielle Mendes

HostJornalista
H

Heitor Peixoto

Co-hostJornalista
A

Alzira Jorge

ConvidadoMédica e professora da Faculdade de Medicina da UFMG
Assuntos6
  • A complexidade e o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS)SUS·Constituição de 1988·8ª Conferência Nacional de Saúde·Descentralização do SUS·Divisão de responsabilidades entre municípios, estados e União
  • O subfinanciamento crônico do SUS e seus impactosFinanciamento da saúde no Brasil·Gasto público versus gasto privado·Gasto per capita em saúde·Lei Complementar 171/2023
  • Avanços e conquistas do SUS desde sua criaçãoAtenção básica·SAMU·UPAs·Redes de atenção à saúde·Transplantes·Vacinação
  • Desafios na gestão e acesso a medicamentos no SUSMedicamentos gratuitos·Medicamentos especiais·Burocracia no acesso a medicamentos·Relação público-privado na saúde
  • A desvalorização e falta de carreira para profissionais do SUSCondições de trabalho·Salários·Carreira única do SUS·Formação e qualificação profissional
  • Novos desafios para a saúde pública no Brasil e em Minas GeraisNegacionismo e vacinas·Desigualdades regionais e sociais·Bets e jogos ilegais·Saúde mental
Transcrição71 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
GMGrazielle Mendes

Este podcast é produzido e apresentado pela Rádio Assembleia de Minas Gerais.

HPHeitor Peixoto

Você ouve agora Politiza, um podcast para mostrar que tudo é política, mesmo quando parece que não é.

GMGrazielle Mendes

Oi, eu sou Grazielli Mendes, jornalista da Rádio Assembleia.

HPHeitor Peixoto

E eu sou Heitor Peixoto, repórter da TV Assembleia.

GMGrazielle Mendes

Esse é o Politiza, que você já conhece como podcast da Rádio Assembleia, Só que agora de cara nova, temos também imagens, somos um videocast. Finíssimo, hein, Heitor?

HPHeitor Peixoto

Fino demais, né, Grazi? Essa nova tendência, né? Agora os podcasts também migrando pela plataforma de vídeo. E para nos assistir é bem fácil, é só acessar o portal da Assembleia, almg.gov.br, ou o canal da Assembleia no YouTube, né, Grazi? Bem fácil, youtube.com/assembleiamg. Simples, direto. Agora você tem essa nova experiência do Politiza, que a gente sempre mirando em falar sobre como a política está presente nas nossas vidas, né, Grazi?

GMGrazielle Mendes

E se você quiser continuar apenas nos ouvindo, estamos na página da Rádio Assembleia e também nos principais tocadores de podcast. Só escolher o que você prefere. E para inaugurar essa nova fase do Politiza, a gente estreia 3 episódios muito especiais que vão falar de temas não só que afetam a vida de todo mundo, mas como estão sempre aparecendo em propostas de candidatos, seja ao Legislativo, Executivo em anos de eleições. Tô falando de saúde, educação e segurança pública. E o eleitor tá atento a esses temas, né, Heitor?

HPHeitor Peixoto

Tá atento, Grazi. Não é por acaso que esses temas que mencionou estão sempre presentes nas pesquisas de opinião como principais preocupações dos eleitores, mas também as principais reclamações que a gente vê sobre prestação de serviço público estão exatamente nessas áreas. Por isso a nossa preocupação em trazer esse debate aqui no Politiza.

GMGrazielle Mendes

E nós vamos trazer esse debate conversando sempre com especialistas, com pessoas que conhecem profundamente esses assuntos, mas partindo de ideias, de pensamentos que são comuns, que a gente encontra no nosso dia a dia, nas conversas, para saber se essas ideias têm fundamento em dados, análises, pesquisas, estatísticas, na realidade de fato. Nós vamos começar com saúde pública. Então vale perguntar: o problema da saúde pública É dinheiro?

Quem vai apresentar todas as respostas possíveis para isso e todas as relacionadas a essa questão é a professora Alzira Jorge, da Faculdade de Medicina da UFMG, que também é médica, trabalhou na Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, na Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais, no Ministério da Saúde e foi diretora do Hospital Risoleta Neves. Participou da construção do SUS, né, professora? Muitíssimo obrigado por aceitar nosso convite e participar do Politiza.

AJAlzira Jorge

Prazer é meu. Temos essa jornada de construção do SUS. Se a gente puder contribuir com essa discussão junto, né, a toda a população de Minas, vai ser um prazer.

GMGrazielle Mendes

Professora, antes da gente começar a falar de problemas, desafios, vamos dar alguns passos atrás e falar de que que a gente está falando. O que é o SUS? O Sistema Único de Saúde, que é conhecido por essa siglazinha curtinha, mas não tem nada de fácil, né? Uma engrenagem complexa, com muitas responsabilidades, algumas compartilhadas, outras não. Então explica pra gente como é que ele funciona, quem é responsável pelo quê, municípios, estado, União.

AJAlzira Jorge

Ok, vamos começar por aí. Eu acho que eu queria só relembrar que antes do SUS, né, que foi criado em 1988, nós tínhamos um sistema que excluía muitos grupos populacionais, né. Ele era um sistema que tinha muita fila, muitas dificuldades de acesso a exames, tinha corrupção, né. Os antigos INPS e INAMPS. E aí a população, então, com essa crítica, começou a se organizar através das comissões de saúde, as universidades, os trabalhadores, exigindo um sistema de saúde melhor.

E foi assim que a gente, na 8ª Conferência, definiu que queria um sistema único, público, universal, que todo cidadão brasileiro pudesse ser atendido. Estava lá também como médica residente. Essa conferência foi tão legitimada pela população que os nossos deputados constituintes estavam montando a Constituição de 88. Ao invés deles escreverem o capítulo da saúde, eles pegaram todas as propostas do relatório da 8ª Conferência Nacional de Saúde e assumiu pela legitimidade das 5 mil pessoas que participaram, assumiu como capítulo da saúde.

Então foi muito importante, foi aí que nós criamos o SUS, um SUS muito complexo num país muito grande. Nós temos 213 milhões de pessoas. Oferecer para essa quantidade, né, o maior sistema universal do mundo que nós tenhamos, né, 13 milhões de pessoas, um sistema gratuito, universal para todo mundo, integral, que atenda desde uma vacina até um transplante. Nós estamos, né, prometendo isso para nossa população. E mais do que isso, né, descentralizado.

A gente não tinha serviços em todos os municípios do Brasil. Hoje a gente mudou muito essa essa realidade, mais de 90% de todos os 5.570 municípios brasileiros têm pelo menos uma equipe de saúde da família.

HPHeitor Peixoto

Professora, como é que fica a divisão de tarefas entre os entes, né, municípios, estados e União?

AJAlzira Jorge

Quando a gente fez esse sistema descentralizado, a proposta foi pelo menos atenção básica ou atenção primária em todos os municípios brasileiros. Municípios, né? Esse dado de que nós temos mais de 90% de cobertura nos municípios brasileiros, né? Todo mundo tem pelo menos uma equipe de saúde da família para o atendimento de 80% dos problemas. Você pode resolver na atenção básica, né? E aí isso é de responsabilidade do nível municipal.

Além do nível municipal, dependendo do tamanho do município, nós já temos aí UPAs, nós podemos ter ambulatório de especialidades, por Os municípios maiores, Belo Horizonte, Montes Claros, Juiz de Fora, né, aqueles que são polos das regiões, eles têm, para além da atenção primária, ambulatórios, UPAs, né. E já a questão de ambulatórios mais complexos estão nos estados e hospitais em geral. A gente até tem hospitais municipais, mas maior parte tá sob responsabilidade do Estado.

E o nível federal, ele tem duas importantes responsabilidades, que é a normatização, todas as portarias, a distribuição de recursos, o financiamento, né? E ele é que dá a direcionalidade aí para grandes serviços que são de referência mesmo nacional. E a gente tem também o cofinanciamento, porque é uma cogestão municipal, estadual e federal. E aí cada um tem um percentual de recursos, né, para financiar o SUS. Todos os municípios dão 15% dos seus recursos para saúde, os estados 12%, e o nível nacional tem que dar 10% da sua receita líquida para a área de saúde.

GMGrazielle Mendes

Agora, professora, na prática toda essa engrenagem tem muitos gargalos, né? Aqui na Assembleia Legislativa, nas audiências públicas, a gente vive se deparando com eles. Aliás, as audiências públicas são os espaços que eu acho que são um dos mais ricos da Assembleia, exatamente porque recebem representantes da população, especialistas, gestores. E é sobretudo num estado como Minas Gerais, 853 municípios, com uma diversidade regional imensa. Quais são os principais desafios?

AJAlzira Jorge

Olha, antes de eu falar dos desafios, eu queria falar dos avanços. Queria perguntar para vocês se é possível, né?

GMGrazielle Mendes

Por favor.

AJAlzira Jorge

A gente saiu de um sistema assim com muita corrupção, com muitas dificuldades e com muita exclusão para o SUS, que se compromete a atender a toda a população brasileira. Eu acho que um grande avanço foi a gente conseguir montar uma atenção básica boa na maior parte dos municípios brasileiros, com uma alta cobertura. Nós conseguimos também criar SAMU, né, os serviços que atendem as pessoas nas emergências, as UPAs, melhorar os hospitais e montar redes de atenção, rede materno-infantil, a rede de urgência e emergência, né, a rede de doença doenças crônicas.

Isso tudo, gente, é essa construção dessa rede que tem hoje 290 mil unidades no Brasil inteiro, tá? Ela conseguiu abaixar muito a mortalidade infantil, a mortalidade materna, né? Conseguiu dar uma melhoria nos indicadores de saúde. E uma outra coisa que eu acho que é muito importante, que o SUS conseguiu abarcar a maior parte da mais de maior complexidade. Cirurgias cardíacas, 90, 90% são feitos no SUS. É tratamento de câncer, 90, 90% é feito no SUS.

Transplantes, o setor privado, os planos de saúde só oferecem os mais simples, todos os outros são no SUS. Inseminação artificial, vacina, urgência, emergência.

GMGrazielle Mendes

Ou seja, muita gente acha que não depende do SUS porque tem plano de saúde, mas muitas vezes usa o SUS sem perceber, né, professora?

AJAlzira Jorge

Farmácias, a gente fiscaliza através da vigilância sanitária todos os serviços de saúde, farmácias, alimentos, né, vacina. Hoje vacina toda é feita e nós temos, eu acho que esse avanço é importante, nós somos um dos 5 países do mundo que tem todas as vacinas preconizadas pela Organização Mundial de saúde. Depois nós podemos falar desse desafio que a gente passou um período recente e continuamos agora nesse período atual com ainda um negacionismo muito grande após a pandemia, né, em relação às vacinas. Isso atrapalha muito a nossa população.

GMGrazielle Mendes

Vamos falar disso, porque quando a gente fala de saúde não é assunto que não acaba, né, professora? Um sobre o outro se sobrepondo. Agora eu quero aproveitar, isso, e eu quero aproveitar que a senhora citou aí o tratamento do câncer. Isso foi uma demanda que chegou com tanta força na Assembleia que a casa acabou criando uma comissão extraordinária de prevenção e tratamento do câncer, que a senhora já acompanhou, com muitas discussões interessantes, até com muitas demandas específicas nessa área, e sempre com alguns gargalos.

A gente vai vai acompanhar no nosso programa algumas falas que a gente extraiu dessas audiências, né, porque ajudam a gente a entender esses problemas. E eu queria começar com uma delas que a gente ouviu justamente numa audiência pública da comissão extraordinária, que foi sobre o tempo de diagnóstico nesse sentido, e é da Carolina Vieira. Ela é da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Vamos relembrar o que ela falou?

AJAlzira Jorge

Consegui documentar na jornada do paciente que desde a primeira suspeita de um câncer até a realização da biópsia, o tempo médio era em torno de 93 dias, mais de 3 meses.

GMGrazielle Mendes

É muito tempo.

AJAlzira Jorge

O paciente procura unidade básica de saúde, hospital secundário, terciário, até chegar no centro de câncer de fato.

HPHeitor Peixoto

Professor, o tempo da política pública muitas vezes nem sempre é o tempo da necessidade da pessoa, né, daquela evolução da doença. Aí o cidadão acaba buscando outros caminhos, até judicializando essas questões, o que acaba sendo também mais um desafio do sistema, né?

AJAlzira Jorge

Isso mesmo, eu acho importante essa, essa fala, né, da colega. Nós temos uma legislação que fala que o paciente tem que ter 60 dias do diagnóstico até o início do tratamento para que a gente não tenha aí um prognóstico ruim. A gente precisa diagnosticar e fazer o tratamento em 60 dias, iniciar, né? Isso é o adequado. E ela fala de 90 dias. Então esse é um problema. E aí eu acho que entra num dos primeiros grandes desafios do SUS para mim, que é a questão do financiamento.

A gente tem uma proposta muito importante de atender a toda a população na sua integralidade, mas o financiamento brasileiro, quando a gente compara com outros países, gente, ele é muito diferente. A maioria dos países que se propõe sistemas universais para atendimento a toda a população, é 80% dos seus gastos do PIB são com saúde, né? Gasta 80% do PIB com saúde. O Brasil infelizmente hoje gasta mais com 50 milhões que têm plano de saúde do que com 150 milhões que só usam, só tem como alternativa o SUS, né?

Então a gente é o único país que dispõe de um sistema sistema universal e que o gasto público é menor do que o gasto privado, né?

GMGrazielle Mendes

Ou seja, o subfinanciamento é um problema crônico, é crônico, sabe, Graziella?

AJAlzira Jorge

É muito importante. Isso impacta porque eu deveria atuar sobre esses pacientes que fizeram o diagnóstico. Esse exemplo da oncologia é muito importante, de forma rápida, em 60 dias. Mas como eu tenho um subfinanciamento doente crônico, isso me atrapalha. Então tem uma parte dessa população que vai gastar mais tempo para começar o tratamento.

HPHeitor Peixoto

Esse tema da oncologia foi um dos temas selecionados no último período pela Comissão de Saúde, como elegendo temas aqui para fiscalização mais permanente, ali mais incisiva nas ações do Executivo. Tivemos também questão de regulação de cirurgias, tanto as de urgência quanto as eletivas, e a questão da transparência orçamento em saúde, esse tema que a senhora mencionou. Agora, a gente tem outras dificuldades também mencionadas pelas pessoas que participam das atividades aqui da Assembleia, né, professora?

Por exemplo, é a questão da medicação, dos medicamentos. A gente tem um trecho de uma reportagem da nossa colega Priscila Cunha numa audiência da Comissão de Participação Popular que discutiu exatamente a dificuldade de acesso a medicamentos de pacientes com esclerose múltipla. Vamos ouvir. A pessoa sai do médico, pega a receita, aí ele tem que conseguir um relatório com o médico falando sobre a doença. E naquele relatório, o médico coloca o CID da doença para ver se ele consegue o medicamento.

E nem sempre aquele medicamento ele é registrado pela Anvisa. Aí o que que o paciente tem que fazer? Ele tem que procurar um advogado. Tá demorando de 6 a 8 meses a liberação de um medicamento medicamento simples. A burocracia que tá matando mais do que a doença. Professor, esse que a gente ouviu aí é o Antônio Alves da Silva, ele é presidente da Associação de Amigos de Usuários de Medicamentos Excepcionais. Por um lado, é sempre bom a gente ver a sociedade participando, né, cobrando do governo, mas por outro é uma luta que é exaustiva para essas pessoas e de algo que deveria ser uma rotina do sistema, né, esse atendimento, né, mais célere com relação aos medicamentos.

Agora, apesar de todos os méritos, né, do SUS, isso é reconhecido, elogiado, sobretudo em comparação com outros países. Fica uma sensação que esse mesmo sistema às vezes está sempre um passo atrás nas demandas da população.

AJAlzira Jorge

Sim, eu acho que nós temos várias variáveis que nos desafiam, né, no SUS. Eu acho que é importante esse caso porque ele demonstra assim, apesar de sermos é um dos pouquíssimos sistemas no mundo que oferece medicamento gratuito. Não sei se vocês sabem disso, inclusive o NHS, né, do Reino Unido, Inglaterra, cobra taxa. Todos hoje os sistemas universais cobra alguma taxa. Nós não cobramos.

HPHeitor Peixoto

Tem estrangeiros que vem aqui e que ficam impressionados, que todos, tá, Inglaterra cobra.

AJAlzira Jorge

Mas é isso que nós estamos falando para a questão das doenças mais comuns, diabetes, hipertensão, isso não é tão problemático, mas é um problema a questão dos medicamentos especiais que são mais caros, são para doenças raras, né? Então tem a questão do financiamento que a gente precisaria hoje. O dado, né, que eu acho que é importante falar 9,6% que se gasta com saúde no Brasil, só 4% do PIB é com SUS, 5,6% é com os planos privados ou com dinheiro das famílias que paga consulta e tal.

Então tem uma, uma luta para que a gente passe pelo menos para 6% do PIB para dar uma melhorada. Eu acho que isso melhoraria a questão de mais recursos, inclusive para melhorar as redes, mas também para medicamentos, tá, pessoal? E a regulação que você falou, que eu acho que é muito importante, que é um outro desafio, sabe, Graziella? A relação público-privado. Que que é um problema do SUS? O governo lá na década de 60, ao invés dele fazer hospitais próprios, clínicas, ambulatórios próprios, ele resolveu tudo contratar precisar do setor privado.

Então a gente faz convênios com o setor privado, que aí é o surgimento das OSs, por exemplo, organizações sociais. Mas eu vou te dar um outro exemplo: 70% dos leitos do SUS hoje são em hospitais privados. Diálise, tratamento de câncer, são todos em hospitais privados que fazem um contrato com o SUS. Tem uma lógica privada por trás que faz com que ele queira ganhar mais. Às vezes é a questão do lucro que prevalece. Então a gente, enquanto gestor público, precisa regular melhor esses prestadores privados.

GMGrazielle Mendes

Ou seja, falta dinheiro, mas falta também uma visão política que priorize o público.

AJAlzira Jorge

Exatamente, é isso.

GMGrazielle Mendes

Que faça essa escolha pelo público, né?

AJAlzira Jorge

Perfeita a sua fala. Eu contrato, mas eu tenho que garantir o direito do usuário né? Eu tenho que garantir a questão pública dentro do serviço privado, já que hoje nós temos uma grande parte dos prestadores que são privados.

GMGrazielle Mendes

Agora, ainda nessa questão do financiamento, professora, a gente tem visto aqui na Assembleia muitos esforços legislativos de complementar as leis que existem com algumas alternativas, alguns instrumentos para aliviar um pouco, principalmente as prefeituras, né, que estão sempre reclamando A senhora falou dos percentuais que cada ente é obrigado a investir, mas os prefeitos estão sempre dizendo que estão investindo mais do que o mínimo constitucional, né?

E aí uma das leis recentes interessantes que a Assembleia aprovou foi a Lei Complementar 171 de 2023, que permite que os municípios usem os saldos remanescentes, né, de anos anteriores naquele ano. Eu acho que isso deu uma aliviada, né? Os prefeitos na época celebraram muito isso. Nós temos até um trechinho de uma reportagem do Flávio Júnior, que é da Rádio Assembleia. Ele explica bem essa inovação. Vamos ouvir.

HPHeitor Peixoto

O texto autoriza que os municípios utilizem recursos repassados pelo Estado por meio de parceria e convênio, mas que não tenham sido gastos por algum motivo. Como, por exemplo, o investimento já ter sido realizado com verba própria da prefeitura ou ter havido sobra do valor enviado. Como esse tipo de repasse é destinado a um investimento específico, o dinheiro não usado fica retido no Fundo Municipal de Saúde. Com a Lei Complementar 171, a prefeitura pode gastar o saldo remanescente de exercícios anteriores até o fim de 2023.

Esse nosso colega Flávio Júnior, repórter da Rádio Assembleia, comentando essa questão da Lei 171/2023, né, Grazi e professora. E a gente viu a diferença que isso fez na prática numa audiência aqui também na Assembleia, em que esteve presente o secretário de Saúde aqui de Minas, o Fábio Bachieretti. Ele falou que o destravamento dos recursos entre outras questões, foi decisivo ali no primeiro ano para que as prefeituras conseguissem quitar o 13º dos seus trabalhadores.

Esse dinheiro tava retido nos cofres das prefeituras. Tem essa questão da destinação de dinheiro do SUS ser vinculado, ser carimbado. Então esse destravamento permitiu o uso desse recurso em questões de saúde, mas diferentemente daquela destinação inicial. Isso já tinha sido adotado no Congresso Nacional para os recursos dos estados e foi feito aqui na Assembleia para os municípios. São soluções, são saídas para a gente tentar minimizar essa questão do orçamento, né, do financiamento da saúde.

AJAlzira Jorge

Isso mesmo. Eu acho que, né, tudo que pode nos ajudar a aumentar um pouco esse financiamento, que é muito, muito insuficiente, garantir atenção à saúde para 213 13 milhões de pessoas com esse financiamento é muito difícil, gente. Não é à toa que nós temos tantos problemas. Se você comparar com outros países, nós hoje gastamos por pessoa, que é o nosso, chamamos o gasto per capita no Brasil, mais ou menos é $1.400, $1.500 Quando eu comparo, eu coloco em dólar porque a gente faz essa avaliação com os outros países. Nos países que têm sistemas universais é $4.000 por pessoa por ano.

GMGrazielle Mendes

Diferença é enorme, né?

AJAlzira Jorge

Gente, é muito grande. E vamos lembrar que a maior parte aqui no Brasil que é gasto vai para o sistema dos planos de saúde, né, e não para o SUS.

GMGrazielle Mendes

Professora, e mais uma camada nessa complexidade toda é em relação a quem faz o SUS, né? Os profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, técnicos, e todas essas equipes que estão sempre aqui reclamando de condições de trabalho, de falta de valorização, de salários. Uma boa gestão precisa também olhar para essas pessoas, né? E a gente tem várias, vários exemplos disso aqui ouvidos na Assembleia, mas a gente separou de um que A gente ouviu numa audiência pública sobre o SAMU e ele reclamando sobre os baixos salários.

É uma profissão que é um socorrista do SAMU, o Marcos, que mostra para gente essa distorção salarial. Vamos ouvir.

HPHeitor Peixoto

Eles colocam nas nossas mãos uma ambulância de R$700 mil e quer pagar R$1.500 para a gente dirigir ela. Eu acho que, creio que a maioria dos conductor socorrista aqui tem dois vínculos. Tem um tempo de descanso, a gente tava na base fazendo atribuições da base, treinando. A gente lá na base, a gente treina, a gente faz acontecer para chegar no atendimento preparado para aquilo. Então não é só dirigir uma ambulância. Eu te garanto que o mercado de vocês fica mais caro que o nosso salário.

GMGrazielle Mendes

E é verdade, né, professora? Só lembrando aí aos nossos ouvintes que estão nos acompanhando pela Rádio da Assembleia, que nós ouvimos o Marcos Vinícius Ramos. Ele é socorrista do SAMU. Difícil, né, professora?

AJAlzira Jorge

Uma fala importantíssima. Acho que esse é um grande problema do SUS, né? Ele tem toda razão. São poucas as categorias profissionais que ganham bons salários e que estão valorizados como deveriam. Vamos lembrar que o SUS é construído pelas pessoas, e as pessoas os trabalhadores que estão na ponta, seja lá na atenção básica, seja no SAMU, seja na UPA. E no geral nós temos problemas que vão desde a formação desses profissionais. A gente precisa formar melhor, qualificar bem, ter durante toda a vida desses profissionais um processo de atualização, né, e educação permanente.

Mas também precisamos de melhores salários e carreiras profissionais na área de saúde. Esse rapaz do SAMU tem toda razão, é um salário insuficiente para o trabalho fundamental que ele exerce dentro do SUS.

HPHeitor Peixoto

Sobre carreira, a gente até tem outra fala aqui dentro das participações que a gente colheu das audiências da Assembleia, que é da Núbia Roberta Dias, do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde, defendendo exatamente a carreira única do SUS. Que tá numa portaria do Ministério da Saúde, em audiência pública lá na Comissão de Saúde. Vamos ouvir.

AJAlzira Jorge

Hoje, só na Câmara, nós temos mais de 23 pedidos de projeto de lei para piso. É piso da enfermagem, é piso dos agentes, é piso isso, é piso aquilo. Então, onde que nós vamos chegar? Não tem como. 62% é de gestão de pessoas, é de recursos humanos. Então a gente tem que ter também uma organização sobre esse aspecto.

GMGrazielle Mendes

É uma boa ideia, professora?

AJAlzira Jorge

É uma boa ideia. Agora é um desafio com o financiamento que nós temos, né? Então o Estado brasileiro teria que tomar essa decisão de pensar em carreiras nacionais públicas para os trabalhadores de saúde.

GMGrazielle Mendes

Professora, a gente poderia ficar aqui até o final do dia falando sobre problemas da saúde que não acabam, mas eu queria também falar dos novos desafios, o que que surgiu não só no Brasil, mas sobretudo em Minas Gerais.

AJAlzira Jorge

Na atualidade, acho que um grande desafio nosso que apareceu com a pandemia foi o negacionismo, né, em especial com as vacinas. Isso foi muito ruim para nós. Eu não sei se vocês se lembram, mas nós tínhamos coberturas vacinais de 90%, 95%, em alguns lugares, né? Minas sempre foi um exemplo nisso também.

HPHeitor Peixoto

Eu não sei se dá tempo, a gente tem dados para colocar sobre isso, é um trecho da reportagem especial da nossa colega Ana Luíza Bongiovanni, exatamente sobre essas oscilações na cobertura vacinal no Brasil e em Minas. Vamos ver?

GMGrazielle Mendes

A cobertura vacinal ideal recomendada pelo Ministério da Saúde é de 95%. No ano passado ficaram abaixo da meta vacinas como a de poliomielite, A tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, e a meningococo C, contra meningite, todas indicadas para bebês e crianças. Em Minas Gerais, os índices foram um pouco melhores do que o resultado nacional.

AJAlzira Jorge

O Brasil sempre foi uma referência em altas, homogêneas coberturas vacinais e também por garantir uma capilaridade, ou seja, a vacina chega até regiões muito muito distantes. Infelizmente, desde 2015, 2016, a gente tem vivenciado uma queda das nossas coberturas vacinais. Há vários fatores que conjuntamente pioraram esse cenário: a desinformação, fake news, né, o desconhecimento de risco, né, de doenças que são potencialmente graves e fatais.

É por isso que a gente precisa também de várias soluções para resolver este problema.

HPHeitor Peixoto

Você que nos ouve aí pela Rádio Assembleia, essa que falou por último é a Fernanda Penido, professora da Escola de Enfermagem da UFMG, falando exatamente desse problema, né, professora? Esse obstáculo que surgiu no caminho das vacinas.

AJAlzira Jorge

Exatamente. E o que nós temos que fazer é dar informação para os nossos usuários, para eles compreenderem que as vacinas são fundamentais para nós. Uma outra num país tão grande como esse, vocês me perguntarem desafios da atualidade, são as desigualdades regionais e sociais no nosso país, né, que se refletem em Minas Gerais, né, que é muito espelho dessa desigualdade, né. Minas é sempre meio como se fosse um Brasil pequeno, né.

A gente, quando tava no Ministério da Saúde, sempre fala isso, porque nós temos um estado que é como se tivesse ali o Brasil como um todo, né? E aí nós temos, né, ainda mulheres negras com muitos problemas, né, estão vinculadas à pobreza, ao preconceito, à discriminação, a discriminação quanto a pessoas trans e travestis, população indígena, quilombola. Então essas desigualdades sociais, elas se refletem também no acesso à saúde. Então nós precisamos enfrentar essas desigualdades também.

GMGrazielle Mendes

E entrando aí outras novidades ruins, como por exemplo as bets, né, professora?

AJAlzira Jorge

Eu ia falar disso, Grazi. Você, você falou muito bem, né? Nós temos aí, além da questão do tráfico de drogas e grupos nazistas, milícias, que refletem tudo que atrapalham todos os setores, as bets e os jogos ilegais, né? É uma coisa dessa modernidade, já é uma questão de saúde, né? É problema grave de saúde pública. Nós estamos perdendo as pessoas, vidas, suicídios. As pessoas, não é só o dinheiro que elas estão perdendo, mas elas ficam tão desesperadas que elas estão— aumentou demais o suicídio.

HPHeitor Peixoto

Rapidíssima informação informação que a gente até trouxe recentemente na programação da TV Assembleia. Em 2024, professor, as pessoas gastaram mais em bets do que o orçamento inteiro do SUS. Foram R$240 bilhões que as pessoas colocaram nas bets, sendo que o investimento no SUS, salvo engano, foram R$233 bilhões lá em 2024.

GMGrazielle Mendes

E o Ministério da Saúde já tá reconhecendo, né, essa, esse problema como de saúde pública, criando aplicativos para atender as pessoas. Pessoas. Tudo acaba no SUS, né, professora?

AJAlzira Jorge

Tudo sempre chega, né? A saúde mental, né? Esse é um outro problema da contemporaneidade, né? Não sei se é por conta, um das variáveis, a utilização muito da, de todas as questões digitais. E nós temos hoje é que lidar com vários problemas de saúde mental. São os nossos grandes desafios da contemporaneidade da saúde hoje.

GMGrazielle Mendes

Professora, para a gente terminar com alguma esperança, 3 ideias para sair do lugar. O que que a senhora diria que seriam bons caminhos não só para candidatos em eleições, como para gestores e para eleitores ficarem atentos nas propostas que eles ouvem sobre saúde pública?

AJAlzira Jorge

Eu começaria com uma gestão séria, profissional e ética na defesa dos usuários, né? Da atenção à saúde, pensando que nós estamos num país que escolheu um sistema de saúde único, público, universal e com atendimento integral para todos os cidadãos. Isso tem que se refletir numa gestão eficiente e ética, tá? Eu acho que uma segunda coisa: maior financiamento do SUS, invertendo começando a investir mais no SUS, na parte pública, né, do que no setor privado.

Terceiro, maior regulação sobre os prestadores privados, já que nós dependemos tanto deles no Sistema Único de Saúde. Nós precisamos regular melhor os nossos prestadores que vendem serviços ao SUS e também os planos privados de saúde. Disso, vocês me permitem uma quarta coisa, uma última.

HPHeitor Peixoto

Profunda conhecedora que a senhora é, viu o SUS nascer, pelo amor de Deus, dá ideia para gente.

AJAlzira Jorge

Essa última coisa que nós falamos, que é o investimento nas pessoas que trabalham no SUS. Eu não vou conseguir prestar um serviço de qualidade para os cidadãos brasileiros se eu não tiver pessoas melhor qualificadas, valorizadas, com salário, com carreira, né, de forma a valorizar e fixar os trabalhadores nas redes do SUS. Então é fundamental esse investimento também nas pessoas que cuidam dos cidadãos.

GMGrazielle Mendes

Professora Alzira Jorge, muitíssimo obrigada pela participação, pela aula sobre saúde pública aqui para o Politiza.

AJAlzira Jorge

O prazer foi meu, obrigada. Espero que eu tenha contribuído aí com a discussão que vocês Crusoé.

HPHeitor Peixoto

Esteja sempre conosco. Muito rica a sua fala.

GMGrazielle Mendes

Muito obrigada, professora. É isso, esse foi o Politiza Especial Videocast. Agora você pode também nos assistir nos canais da TV Assembleia e no podcast da Rádio Assembleia. Lembrando que todas essas reportagens, esses trechos de falas que você ouviu, você encontra no site da Assembleia Legislativa, lmg.gov.br, na página da Rádio Assembleia, da TV Assembleia. Nossas equipes trabalham muito para te manter bem informada, bem informado sobre tudo que acontece aqui dentro, tudo que repercute no trabalho legislativo.

E a gente espera você nas próximas edições do Politiza, só procurar a gente em todas as plataformas digitais.

HPHeitor Peixoto

A gente volta com outros temas importantíssimos de políticas públicas para você acompanhar e também fazer as suas melhores escolhas e acompanhamento da política aqui no Estado de Minas Gerais. Obrigado, um grande abraço.

GMGrazielle Mendes

Este podcast é produzido e apresentado pela Rádio Assembleia de Minas Gerais.

Anunciantes1

Assembleia de Minas Gerais

external
POLITIZA #79: VALE PERGUNTAR - O PROBLEMA DA SAÚDE PÚBLICA É DINHEIRO? | Castnews Index — Castnews Index