Episódios de Politiza - Rádio Assembleia

POLITIZA #76: ASSEMBLEIA MAIS INCLUSIVA - POR UMA REDE DE APOIO REAL

24 de abril de 202636min
0:00 / 36:29

Para as famílias de 18 milhões de brasileiros com deficiência, a rotina é lutar por respeito e direitos básicos. Este episódio do Politiza discute a sobrecarga de quem cuida e o papel de cada um para construir uma inclusão real, tema escolhido pelos estudantes do Parlamento Jovem de Minas, em 2026. A convidada é Rita de Cássia Ferreira Souza, presidente da Associação Conexão Mães Neuroatípicas, com apresentação dos jornalistas Grazielle Mendes e Heitor Peixoto.

Participantes neste episódio3
G

Graziele Mendes

Co-hostJornalista
H

Heitor Peixoto

Co-hostJornalista
R

Rita de Cássia Ferreira Souza

ConvidadoPresidente da Associação Conexão Mães Neuroatípicas
Assuntos1
  • Inclusão de pessoas com deficiênciaSobrecarrega de cuidadores · Neurodivergência · Direitos das pessoas com deficiência · Educação inclusiva · Apoio à saúde mental de cuidadores
Transcrição101 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Este podcast é produzido e apresentado pela Rádio Assembleia de Minas Gerais. Você ouve agora Politiza, um podcast para mostrar que tudo é política, mesmo quando parece que não é. Oi, eu sou Graziele Mendes, jornalista da Rádio Assembleia. E eu, Heitor Peixoto, jornalista da TV Assembleia.

Antes da gente começar a nossa prosa, a gente quer te propor um exercício. Imagina se de repente toda a sua rotina tivesse que ser reorganizada. Não por uma escolha sua, mas porque o mundo simplesmente não está preparado nem para você, nem para quem você ama.

Para deixar mais claro, né, Grazi, imagina se cada vez que você saísse de casa para ir, por exemplo, para a escola, para o trabalho, para uma consulta, se isso virasse um desafio. E mais, se você percebesse o tempo todo olhares atravessados, estranhando você, estranhando seu filho, sua filha, sua irmã, seu sobrinho.

Pois é, por que a gente está te propondo essa reflexão? Porque quando a gente fala de inclusão, quase sempre a gente pensa na deficiência como um problema individual. Mas na verdade ela vira um problema mesmo quando os lugares, as pessoas e as cidades não estão preparados, não é isso, Heitor? Pois é, e quem geralmente é obrigado a aprender isso primeiro, né Grazi, além da própria pessoa, é a família.

Exatamente, Heitor. E a gente está falando de muita gente. De acordo com o IBGE, são cerca de 18 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência. E se a gente soma mães, pais, cuidadores, pessoas que vivem todos os dias os impactos dessa falta de inclusão, esse número fica muito maior.

Pois é, né, Grazi? Mesmo assim, parece um universo invisível para a maioria de nós. Sim, e tem um grupo enorme de pessoas dentro desse universo que são os neurodivergentes. São pessoas que aprendem e processam informação de um...

jeito diferente do que é considerado o típico. E é uma condição que engloba, por exemplo, as pessoas com TEIA, que é o transtorno do espectro autista, TDAH, dislexia e outras variações neurológicas. Por isso que hoje a gente quer ouvir quem vive essa realidade de perto, quem sente na prática, o que funciona e principalmente o que ainda precisa mudar.

E a nossa convidada para essa conversa é a Rita de Cássia Ferreira Souza. Ela é presidente da Associação Conexão Mães Neuroatípicas. Muitíssimo bem-vinda ao Politisa, Rita. Muito obrigada por me receber. É um prazer estar com vocês hoje. Prazer é todo nosso. Rita, começa explicando para a gente como é que essa pauta, esse tema entrou na sua vida. Então, o autismo...

Na verdade, entrou na minha vida a partir do diagnóstico do meu filho. Durante a pandemia, todo mundo dentro de casa, né? Eu trabalhava fora e o meu filho foi ter aulas online.

E ele tinha mais ou menos uns cinco anos já. E ele começou numa insistência, ele queria a atenção total da professora. O tempo todo, professora, professora, professora. Quando ele não se sentia respondido, ele entrava em crise.

Ali eu tinha certeza que realmente meu filho era diferente. Já tinha dois anos que eu tentava um diagnóstico, porque... Você já tinha percebido antes alguma coisa diferente. Já tinha percebido. Apesar dele ser super comunicativo.

Gosta de abraçar, ele tem uma proximidade, ele consegue sustentar o olho no olho. Muitas pessoas batem na tecla que quem é autista não abraça, não olha no olho, não tem uma comunicação fluida. E o meu filho veio para quebrar isso tudo.

A gente entrava com ele em consultas e os médicos falavam que eu era a doida da vez, né? Como que um menino com três anos, tão comunicativo, falava de futebol super bem, mas aí hoje a gente sabe que ele falava e fala porque é o hiperfoco dele.

Ali já foi um pontapé, Rita, para algumas dificuldades que os familiares encontram nessas situações, porque muitas vezes a gente já ouviu falar o seguinte, quando a questão da pessoa da deficiência não está na cara, literalmente, acontece esse tipo de dificuldade, inclusive nos atendimentos, nas redes de atendimento.

Com certeza, Heitor. E eu posso te falar que, infelizmente, a nossa saúde pública ou privada, seja ela, no caso nós estávamos aí em assistência da rede privada, os médicos não estão preparados para o autismo até hoje.

Se não estiver explícito, é muito difícil, porque o meu filho, enfim, foi diagnosticado com nível 1, mas eu persegui, literalmente, o diagnóstico do meu filho durante 5 anos.

Rita, a gente vai trazer aqui, inclusive, a fala de uma mãe que participou de uma audiência pública. Aliás, nós vamos ouvir aqui ao longo dessa conversa, várias falas de pessoas que participaram de audiências públicas aqui na Assembleia, como você, que já veio aqui, não só da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência, mas de outras também. Porque esses relatos ajudam a gente a ampliar a nossa compreensão do problema.

E você, te ouvindo falar desse diagnóstico, eu me lembrei da fala da Marli Lopes.

que reclamou exatamente disso. Vamos ouvir? Vamos. Nós somos mães cansadas, exaustas, muitas vezes sozinhas. Na verdade, a gente não encontra ajuda quando a gente mais precisa, que é na questão da saúde dos nossos filhos. Hoje, em Belo Horizonte, a gente não consegue uma consulta neuropediátrica para os nossos filhos na rede pública SUS.

Eu e meu filho, eu fecho um diagnóstico particular, com dois anos e meio, meu filho está com nove. Eu nunca fui chamada para consulta pelo SUS até hoje. E o desgaste emocional para as famílias é muito grande. E é desesperador. Rita, em casos assim, vocês lá na associação conseguem dar algum suporte? Ou é um gargalo que ultrapassa, inclusive, a capacidade de atuação de vocês? A gente vê sete anos de espera por uma consulta com especialistas, às vezes, que a gente já ouviu esses relatos.

Então, Heitor, eu fiquei até emocionada, gente, porque essa luta, ela é real, ela é diária, e a associação consegue até ajudar quando a mãe, de alguma forma, consegue acionar a rede privada.

Porém, a rede pública, nós não temos essa força ainda, sabe? E para acionar a rede privada, precisa de dinheiro para isso. Isso que nem toda mãe tem, né, Rita? E aí, nós temos parceiros da rede privada que flexibiliza isso para as nossas mães. Forma de pagamento, uma diminuição no valor se a mãe está...

Dentro da vulnerabilidade social, que a maioria estão, se a mãe é solo. Então, nós temos pessoas que têm esse olhar, sabe? Aliás, a maioria é mãe solo? Infelizmente, 80% das nossas mães...

É solo. É com muita tristeza que a gente traz isso. Não é que as mães não deixam os filhos. Tem mãe que, infelizmente, não sustenta isso e vai embora também. Porém, o número de pais que vão embora é muito maior.

A gente sempre ouve isso aqui, inclusive o deputado Zé Guilherme falou isso com a gente aqui num outro politiza que a gente fez sobre doenças raras, é realmente uma coisa assustadora pensar nesse abandono e na sobrecarga disso. A gente separou uma outra fala aqui que eu acho importante.

Porque mostra, eu fiquei muito impactada quando eu ouvi ela falar que a Aline Castro, ela é uma cientista, você deve conhecer, com deficiência e rompeu todas as barreiras e conseguiu uma formação muito sólida, uma formação intelectual, mas ela fala sobre o papel da mãe dela na formação, é uma loucura. Vamos ouvir, Aline Castro.

Hoje eu sou cientista, sou professora pela UFMG, estou terminando meu doutorado, sou especialista em políticas públicas. E eu falo que a minha mãe esteve comigo do maternal ao doutorado. Na escola, na minha época, não existia profissionais de apoio, não existia pessoas que pudessem me ajudar a ir no banheiro, por exemplo.

Então a minha mãe ia em todo recreio me colocar para ir ao banheiro, levar um lanche para mim. Eu tenho um irmão também com a atorofia muscular espinhal. Então ela sempre dedicou a vida dela à nossa formação. Ela dividiu o tempo dela entre me levar na escola.

Levar o meu irmão no trabalho, voltar para me levar ao banheiro, voltar para ajudar o meu irmão também, buscar ele, depois retornar porque eu estudava em tempo integral. E assim foi durante toda a minha vida. Nas aulas práticas que eu tinha na universidade, a minha mãe ia me ajudar a manusear o microscópio, por exemplo. A minha mãe me deixava no trabalho, mas voltava na hora do almoço porque eu não consigo me servir sozinha.

Nesse depoimento que é forte, quantas vezes que a gente ouviu a palavra mãe ser pronunciada, né, Rita? E me faz pensar que apesar de quaisquer avanços que a gente esteja alcançando e observando nos últimos anos, ou nas últimas décadas, a figura da mãe continua tendo essa importância central e indispensável para a garantia do básico para essas pessoas com deficiência, não é isso?

É isso. E quando a Aline traz essa fala, eu fico pensando naquelas mães que desistiram. Quem vai fazer esse papel na vida dessa criança? Na vida desse adulto igual? Ela falou que a mãe dela está com ela, do maternal ao doutorado. A gente cansa só de ouvir, de pensar. A trabalheira dessa mãe, que loucura.

É desesperador. E eu posso te falar, Grazi, que essa mãe, gente, deixou a vida dela para viver a vida dos dois filhos. Ela não teve vida. A vida dela se resumiu aos filhos. Nós temos uma dificuldade de chamar as mães de guerreiras, porque nós não gostamos dessa palavra.

porque isso nos remete a um patamar que nós não estamos, nós estamos cansadas, nós estamos frustradas, porque ela fala que a mãe volta para servi-la no almoço. Será que não tinha um colega ali que pudesse fazer esse papel? Se dispor a sentar com a Aline, a cuidar um pouco. Não é só sobre o poder público.

São as pessoas ao redor, né? De prestarem atenção nessas dificuldades, né Rita? Exatamente. Isso envolve a sociedade mesmo, né? O coletivo.

É uma questão que tem aparecido, inclusive, Rita, nas discussões que a gente tem visto aqui no plenário e nas comissões, que a importância de se criar políticas de atenção para cuidar de quem cuida. É uma expressão muito falada pelos deputados, muitas vezes em discussões, em emendas ao orçamento, essa perspectiva de criar mecanismos de ajudar, de auxiliar, de cuidar de quem cuida.

Isso é importantíssimo. Os deputados aí que têm esse olhar sensível pela pauta, para a pauta, e isso tem aproximado a população do poder público.

criação da Comissão de Defesa da Pessoa com os Direitos da Pessoa com Deficiência abriu mais essa escuta, né, Rita, e tornou mais qualificada essa conversa que subsidia muitos projetos de lei e tem muitas audiências públicas, a Assembleia tem feito um esforço muito grande nesse sentido e essa batalha por direito também é uma coisa muito cansativa, né.

A gente escutou uma mãe falando numa dessas muitas audiências públicas da Assembleia, a Heloísa Oliveira, que falou exatamente sobre isso. Vamos ouvir. Parece que a gente dá um passo à frente nos direitos e dois para trás. E isso é cansativo, que a gente já tem aquela demanda nossa de estar com o nosso filho, com o nosso parente, acompanhando, levando em terapias. E a gente não tem esse descanso, muitas vezes, perdendo alguns direitos, tendo que mobilizar.

para poder mantê-los. Um passo para frente, dois para trás, essa conta não é boa não. Não, ela não fecha, né? É, não fecha não. O que a gente vê? Existe um projeto de lei, porém, até que isso se conclua e chegue na sociedade, por exemplo, vamos falar aí da questão...

da seletividade alimentar, que é uma pauta também em questão e que custou ser aprovada, custou chegar nas redes públicas e privadas. Explica pra gente o que é. Foi um projeto de lei feito pelo deputado Wendel Mesquita, professor.

E ali, qual é a base dele? É a criança neurodivergente poder levar a sua própria alimentação de casa. Que é específica e tem restrições, né? Que é específica, porque muitas dessas crianças ou comem só um tipo de bolacha, ou tomam só um tipo de suco, ou, no caso da escola pública que tem comida, às vezes ela não come aquilo, ela come só arroz.

Ela come só um frango ou só macarrão. E a gente estava nessa luta, batendo diariamente nisso, porque as mães entram em desespero. Que o menino vai para a escola ficar 3, 4 horas dentro de uma escola, onde ele não vai comer nada.

porque a escola não consegue dar aquilo que a criança precisa. Então, diante desse projeto, foi, vamos chamar de flexibilizado, que a criança, que a mãe, mande o lanchinho dela para a escola. E aí a gente fica ainda pensando, será que as escolas estão preparadas para isso?

Depois da lei ainda falta chegar lá na ponta, ser efetivada, né? Exatamente. Porque, aliás, a gente tem boas leis, não é isso, Rita? A lei brasileira de inclusão é muito completa, né? Muito completa e todas as demais que vêm sendo acrescentadas a esse roteiro, nós temos o estatuto, né?

da pessoa com deficiência. O problema é a prática, né? O problema é praticar, o problema é tornar isso de forma plausível, consciente, com clareza, dentro dos postos de saúde, dentro das escolas.

Dentro dos próprios hospitais privados, eles não entendem quem é o autista, como lidar com o autista. E outros neurodivergentes, não é isso? E outros neuros e tem... Pessoas com deficiência de um modo geral. De um modo geral, os raros.

Sabe que nós esbarramos aí na dificuldade de acolher, porque, gente, são muitas doenças raras que nós temos. Ô Rita, você falou aí, passou por esse assunto, e eu queria me deter um pouco nele.

que é a educação. Você falou da alimentação na escola e a educação é um outro gargalo, você já até participou aqui na Assembleia Legislativa de uma audiência pública sobre isso, sobre a recusa de matrículas. Mais de uma vez a Assembleia discutiu isso.

E teve uma mãe que participou de uma audiência dessa, que ela falou que o problema não é só a recusa de matrícula, mas também a dificuldade que as crianças encontram na própria escola, mesmo estando matriculadas, porque tem uma sequência de preconceitos e problemas. Essa mãe é a Vanessa Cardoso, vamos ouvir.

Eu tenho um filho de 6 anos, meu filho não vai na escola desde maio. É a vontade de chorar, porque eu não tive negativa de matrícula, mas a escola é um preconceito com o meu filho. Primeiro, o meu filho tem duas canetinhas que ele anda na mão. Sabe o que aconteceu? Eu descobri, através de amigos, que a professora estava tirando as canetinhas da mão dele. É o objeto de apego do meu filho. Você tira a caneta dele, você acaba com ele.

Conversei, expliquei que meu filho precisava de apoio, levei laudo, levei tudo o que precisava. Matriculei meu filho, começou o ano, não tinha suporte, o plano de educação dele individual não foi feito. Quando eles me apresentaram, na semana seguinte, meu filho não queria mais ir para a escola, ele gritava.

desesperado. Ele não consegue chegar perto da escola. Aconteceu alguma coisa, além das canetas, mas ninguém sabe me falar. A informação que eu tive é, façam os trabalhos dele para chegar para a mãe. Não deixe ele atrapalhar a sala de aula. Ele não pode sair de sala, porque a mãe precisa saber que ele está frequentando as aulas. No primeiro ano, chegavam as fotos da escola para mim, no grupo.

Meu filho não estava em nenhuma foto. Gente, meu filho, ele tem direito de ter uma foto com os amigos. Depois que eu comecei a cobrar, ele começou a aparecer nas fotos. Mas foram várias fotos sem ele. Isso é inclusão?

É uma coletânea de absurdos, né, que a gente vai ouvindo, né, Rita? Inclusive, a Rita estava nessa audiência, né, Rita? Ela estava presente e falou algo que me tocou bastante ali, Rita. Eu vou até citar aqui o que você mencionou. Você disse o seguinte, os nossos filhos são ensináveis. E agora a gente vê, na fala da Vanessa, o abismo que ainda existe para se garantir que é um dos direitos mais elementares que é o da educação, né?

Eu não dei conta quando escutei o relato dela, eu chorei porque, gente, uma professora que tira da criança a canetinha de apoio, ela está desencadeando na criança uma crise. Depois que a criança entra em crise, ela não vai saber lidar com aquilo, porque se ela não está preparada para acolher a criança dentro da necessidade dela...

muito menos lidar com a crise que a criança vai passar por ela. Uma falta de informação mínima sobre o que é esse universo autista, né? Exatamente. Por isso, gente, eu volto a reforçar a importância dessa conscientização coletiva, da lei sair do papel e a gente vivenciar isso, aspirar isso na prática.

Porque nós não temos isso. O meu filho, assim como o da Vanessa, quando ele começou no ensino fundamental, a gente teve o cuidado de colocá-lo numa escola menor.

Ele já tinha o laudo dele. Meu filho tinha pisada equina, que é a pisada na ponta dos pés, que é uma característica também do autismo. Quando ele começou a estudar, ele sofreu muito bullying na escola. Sabe? Ele chegou a ser apelidado de bailarina. Então, assim, eu procurava a escola porque o meu filho começou a ficar cada vez mais retraído, mais triste.

E ele só falava assim, eu não quero voltar. Eu não quero voltar. Eles não gostam de mim. Aí eu falava, como não gosta? Não gosta, mãe. Eu não tenho coleguinha pra brincar.

Isso pra uma mãe é arrasador, né? Nossa, olha, eu vou te falar que eu acolhi o meu filho, abraçava, conversava com meu filho. Meu filho tem muita dificuldade de dormir, né? Porque a melatonina dele é pouca. E aí, ele tinha que tomar o remedinho até fazer efeito. E ali eu ficava com ele até ele conseguir dormir. E depois eu ia chorar. Porque como que você escuta?

Pois é, não tem como isso não afetar a saúde mental de quem cuida, né, Rita? A gente, inclusive, tem uma fala de uma psicóloga, a Lídia Lopes, que falou aqui na Assembleia sobre isso. Vamos ouvir.

Existe uma sobrecarga muito grande nesse cuidado. Muitas vezes famílias monoparentais de mães que foram abandonadas por esses pais, muitas vezes quando descobriram esse diagnóstico, e estão aqui cuidando, às vezes sozinhas. Nós estamos com índice alto de transtornos de suicídio nessas famílias, porque elas não estão dando conta. Então é uma sobrecarga muito grande e essa família também precisa de cuidado.

E tá faltando, né, Rita? Falta muito, sabe? E aí a gente fica assustada, porque de uns tempos pra cá, o autoextermínio aumentou.

Porém, a mãe está tão desesperada que ela não está tirando só a vida dela, ela está tirando a da criança. Porque o desespero dela é... Sabe, eu imagino uma mãe para chegar nesse ápice, o desespero dela. A gente teve casos bem recentes de mães que tirou a vida dos filhos porque eram de nível suporte 3. Vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos

E depois tirou a dela. O que passa na cabeça da mãe é, e depois que eu não estiver aqui. Porque a mãe de nível 3, gente, é outro mundo também. Não tem rede de apoio, a mãe de nível 3, ela não consegue deixar a criança na escola, porque ninguém quer cuidar do filho dela, ninguém quer limpar o filho dela, ninguém quer dar alimento na boca do filho dela.

ela entra em desespero. E a gente se deparou também com uma outra questão aqui, repetida algumas vezes nas audiências públicas da Assembleia também, Rita, que é o envelhecimento, porque às vezes a mãe morre, o pai morre, e aí essas pessoas com deficiência de modo geral, não só os neurodivergentes, vão crescendo, vão envelhecendo.

E aí, né, resta um irmão ou um tio. E um dos depoimentos que a gente ouviu sobre isso aqui na Assembleia foi do Alexandre Ribeiro, que tem uma irmã com deficiência intelectual que está envelhecendo e passando por isso. Olha só.

Hoje me considero mesmo um pai da minha irmã. Quando meus pais faleceram, ela veio conviver comigo há mais de 10 anos. Enquanto jovem, as oportunidades, principalmente do poder público, são maiores. Muitas portas foram fechadas, a gente não consegue. Porque quando você tem oportunidade financeira...

Você garante um atendimento privado para a pessoa para o resto da vida dela. Você põe um cuidador de dia, você põe um cuidador de noite, você põe um psicólogo, você põe um professor, você põe tudo. Mas quando você não tem essa oportunidade, eu vou falar aqui a palavra, desculpa a palavra, mas a pessoa fica abandonada. A gente está envelhecendo, a gente precisa trabalhar para sustentar e a gente está adoecendo junto com a pessoa.

Também virou um outro problema, né? Virou porque a população está envelhecendo. Essas famílias não têm quem cuide. Porque se a rede de apoio, ainda que ela tenha uma irmã, tios do pai, que o pai foi embora, mas a família poderia ficar. Mas a família já foi há muito tempo, foi antes do pai. Não tem essa estrutura. Como que a gente vai fazer para acolher?

O sonho da gente é que BH se torne uma capital verdadeiramente inclusiva. Nós temos aí deputados, graças a Deus, dentro dessa pauta, com muito afinco, assim como o deputado Zé Guilherme, tem a bancada feminina, tem o professor Wendel.

Deputada Maria Clara Marra, que é presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência, aliás a gente até separou uma fala dela aqui porque ela fala especificamente, ela faz um questionamento específico sobre essa realidade neurodivergente que a gente podia aproveitar para falar um pouco mais sobre ela. Vamos ouvir?

Nós temos dados do CDC, que é o Centro de Diagnóstico e Prevenção de Doenças, que nos mostram que a cada 30 nascimentos, um deles traz uma pessoa neurodivergente. E esse número vai mais do que dobrar daqui a alguns anos. Nós vamos passar por uma métrica de 1 a cada 15. E a pergunta que a gente se faz é, as nossas estruturas?

sociais, sejam aquelas do poder público ou do poder privado, estão adaptadas e adequadas para que a gente receba e acolha essas pessoas neurodiversas?

Isso, então, Rita. Longe disso, né? E isso é muito preocupante. O que o Estado vai fazer? Como resolver isso? Uma população que está só crescendo, né? É uma população crescente, envelhecendo, além de ter a turma do diagnóstico tardio. Eu sou uma mãe neurodivergente que me descobri autista dois anos atrás.

Olhando para a minha infância e para os meus prejuízos que eu carrego, hoje eu lido com isso, mas tudo que eu vivi até chegar aos meus 50 anos foi muito desafiador. Eu consegui...

crescer, formar, eu sou cantadora, sou casada, tenho dois filhos, nós temos a nossa casa, eu consigo dirigir, mas tudo teve um esforço maior.

Porque eu nunca tive terapias, uma fono, um TO que me acompanhasse, longe disso. Você nem sabia que você precisava, né? Eu nem sabia. É uma realidade comum, Rita, porque a gente tem visto isso exatamente nessa questão do diagnóstico tardio. Muitas mães familiares, mas especialmente mães, descobrindo suas próprias questões, né? Suas deficiências a partir do diagnóstico dos filhos, como é o seu caso mesmo. É uma realidade comum dentro das pessoas que você acompanha na associação?

É uma realidade, tá? Porque a partir do momento que a gente sabe que o nosso filho está no espectro, nós começamos a lembrar da nossa infância.

Que nós somos aquelas crianças que as mães chamavam de tímidos, chato, que não para de falar na minha cabeça. Menina, você fica repetindo isso. Sem limite, né? É, sem limite. E hoje a gente tem resposta pra isso.

Mas vocês ainda escutam isso das pessoas sobre os seus filhos? Com certeza, o tempo todo. E começa na nossa família, nos nossos familiares. Então, assim, antes do laudo do meu filho, ele tinha uma seletividade alimentar severa.

E quantas vezes eu, na minha ignorância, porque na minha cabeça, o autismo que eu conheci era o clássico, que é o nível 3, que é aquela criança não verbal.

que se balança o tempo todo, que hoje a gente sabe que é uma tentativa de autorregulação. Eu brigava com ele, chamava a atenção dele, você tem que comer, você tem que tentar, se você não comer, você não faz isso.

Então, assim, sofria a criança e eu sofria com ele, porque eu ficava pensando, gente, esse menino não come nada que eu faço, não é possível. E aí você passava por neuro, sabe? E o neuro ainda falava, não mãe, o problema está com você, você está vendo coisa onde não tem.

Rita, a gente está vendo na sua fala muitas ausências, omissões, despreparo mesmo de profissionais que deveriam estar minimamente orientados para esses atendimentos. Agora, também na sua fala, me faz pensar como é que traz a sociedade também para fazer parte dessa luta com vocês? Porque, igual esse conceito que você trouxe de seletividade alimentar, a questão das canetinhas...

Eu penso que para o senso comum as pessoas não têm a noção de que isso é importante. E como que traz a sociedade para isso, para também engajar nessa luta que é de todo mundo? Olha, Heitor, eu vou te falar que o meu sonho é que todos os meses do ano fossem Abril Azul.

Porque no Abril Azul existe um olhar de conscientização. Só que essa conscientização fica só em abril. Acabou o mês, as escolas param essa conscientização. Quantas crianças já não apanharam dentro da sala de aula por ser diferente? Por repetir uma fala?

ou não falar nada, a dificuldade de conseguir socializar em meio aos colegas no horário de recreio, cadê a rede de apoio da escola? As crianças estão sendo agredidas em pátios de escola, não tem colega para separar a gente, não tem alguém para chegar lá, empurrar um daqui, puxar a criança. Não tem empatia.

de ter um olhar, né? E aí é muito importante a gente pensar nesse futuro, né, Rita? E pensando nisso, os estudantes do Parlamento Jovem de Minas, que é esse programa de formação política muito legal da Assembleia Legislativa,

escolheram discutir em 2026 justamente inclusão com foco nos neurodivergentes, o que foi uma coisa muito bacana. E aí eu queria que a gente terminasse com isso, você falar por que é importante envolver os jovens nessa discussão e que mensagem você deixaria para eles.

Eu fiquei maravilhada com a pauta que eles escolheram, dizer que isso me trouxe esperança. Esperança que os nossos filhos, na verdade, deixem de ser os estranhos e seja apenas um colega de sala. Seja acolhido.

Que as professoras parem de rotular os meninos como inteligentes demais ou ignorantes demais. Ou separe os filhos daqueles que têm deficiência intelectual, que acham que não é capaz de aprender. Gente, os nossos filhos, como eu te falei, como você trouxe aquela fala, né, Heitor, eles são ensináveis.

Não desprezem os nossos filhos.

As pessoas, querendo ou não, eles fazem parte desse mundo. Eles estão aqui. É um direito deles de existir e fazer ser vistos. Olha que linda a história da Aline Castro. Ela é doutora, gente. Eu falo para o meu filho, filho, você vai ser o que você quiser, sim. Eu alimento os sonhos do meu André todos os dias.

E assim eu espero que esses jovens, dentro dessa pauta que eles escolheram, consiga despertar os jovens, tanto da rede privada quanto da rede pública, que receber os nossos filhos vai além de cidadania. É um ato de amor.

É um ato de humanidade mesmo. Acolha. Não tenha medo.

Porque assim como os filhos com deficiência são ensináveis, os filhos que não têm deficiência também são ensináveis para acolher de melhor forma esses com deficiência, né Rita? Exatamente, Heitor. Muito obrigada por você trazer isso. Porque o outro lado, que são os filhos que não estão dentro desse quadro, precisam dar as mãos para os nossos filhos. Todos nós, né Rita?

Todos nós e isso começa de casa. É falar para ele que existe um universo diferente do dele, que ele não conhece, mas que está dentro da escola e que ele tem que acolher.

Ele tem que abraçar, ele tem que entender. Muitíssimo obrigada por nos ajudar a pensar, pelo menos, em como ser um pouco melhores. Eu que agradeço, gente. Muito obrigada de coração. Toda vez que uma mãe fala, ela não está falando só por ela. Nós estamos falando por todas as mães que vivem isso. Muito obrigada mesmo. Nós que agradecemos, Rita.

Nós conversamos aqui com a Rita de Cássia Ferreira Souza, ela é presidente da Associação Conexão Mães Neuroatípicas.

Essa edição do Politiza termina aqui. Todos os episódios do nosso podcast estão no almg.gov.br barra rádio e também no Spotify, Deezer, Apple, Amazon Podcasts, Anchor, Radio Public e também no canal oficial da Assembleia de Minas no YouTube.

Eu sou Graziele Mendes, apresentei esse episódio junto com Heitor Peixoto, fiz produção e roteiro, a sonorização é de Luciano Moraes, a revisão geral de Rosângela Rabelo e a identidade visual de Clarice Maia. Até a próxima. Este podcast é produzido e apresentado pela Rádio Assembleia de Minas Gerais.

POLITIZA #76: ASSEMBLEIA MAIS INCLUSIVA - POR UMA REDE DE APOIO REAL | Castnews Index — Castnews Index