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História de Bolso dos EUA # 5 - A Colonização da Nova Inglaterra e a Moral Puritana

10 de maio de 202623min
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Faaaaala Pirataria!
Já está no mar o nosso novo episódio da Série "A História de Bolso dos Estados Unidos" um projeto em parceria com o Professor Marcos Sorrilha.
Hoje vamos falar da colonização da Nova Inglaterra. Dentro da mitologia de fundação dos EUA, esse é um território que que costuma ser lembrado como berço da liberdade religiosa nos Estados Unidos. Mas essa imagem resiste à realidade? Neste episódio, exploramos as contradições por trás dos puritanos: entre fé, controle social, perseguições e os famosos julgamentos das Bruxas de Salém. Uma história muito mais complexa (e perturbadora) do que os mitos sugerem.
Confira!
Participantes neste episódio3
M

Marcos Sorrilha

HostProfessor
D

Daniel Gomes de Carvalho

Co-hostProfessor de história moderna
R

Rafinha

Co-host
Assuntos7
  • Os Julgamentos das Bruxas de SalemComportamento incomum das meninas · Acusação de bruxaria · Papel de Tituba · Uso da evidência espectral · Consequências dos julgamentos
  • O Mito dos Pais Peregrinos e o MayflowerA viagem do Mayflower · Pacto do Mayflower · Sobrevivência com ajuda indígena · Origem do Dia de Ação de Graças
  • Contradições da Nova InglaterraIntolerância religiosa · Restrição da participação política · Existência de escravidão africana
  • John Winthrop e a 'Cidade sobre a Colina'Liderança de John Winthrop · Sermão 'Um Modelo de Caridade Cristã' · Interpretações posteriores do sermão · Destino Manifesto
  • Colonização da Nova InglaterraDiferenças com Chesapeake · Companhia da Bahia de Massachusetts · Autonomia política dos colonos · Puritanos como mão de obra
  • Roger Williams e a fundação de Rhode IslandDefesa da separação igreja-estado · Respeito às terras indígenas · Fundação de Providence · Rhode Island como refúgio religioso
  • Origem e crenças dos PuritanosDefinição de puritano · Congregacionalismo · Perseguição religiosa na Inglaterra · Fuga para a Holanda
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o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o

Seja bem-vindo e seja bem-vinda a mais um episódio de A História de Bolso dos Estados Unidos, um projeto encabeçado por mim, professor Marcos Sorrilha, em parceria com História Pirata. No episódio anterior, nós mergulhamos no universo de Chesapeake, com a história de Jamestown, uma experiência marcada pela fome, pela busca do lucro, pela exploração dos recursos naturais e da mão de obra.

Terra de Pocahontas, do tabaco e de um projeto colonial que nasceu, muito mais com cara de negócio do que como sonho de liberdade religiosa. Hoje deslocamos o nosso olhar para o norte do continente em busca de outras histórias que nos ajudem a compreender o caleidoscópio colonial. Vamos rumo à Nova Inglaterra.

À primeira vista, tudo parece diferente. Saem os investidores impacientes e entram as comunidades religiosas. Sai a lógica estritamente econômica e surge a promessa de pureza moral. Nos livros didáticos, a Nova Inglaterra costuma aparecer como refúgio de liberdade religiosa e autogoverno.

Mas será que foi realmente assim? Ou será que por trás desse discurso de fé e comunidade também encontramos controle, exclusão, violência e hierarquia? É isso que vamos investigar hoje. Então ajustem suas bússolas, porque o navio muda de rota, mas os conflitos continuam a bordo. Velas ao mar, filibusteiros de uma friga!

Enquanto Chesapeake, as colônias de Maryland e Virginia, se consolidava como um mundo de plantation, tabaco e aristocracia rural, no norte surgia outro tipo de experiência colonial. Essa história se passa na Nova Inglaterra.

que é uma região que hoje reúne os estados do Maine, Connecticut, Rhode Island, New Hampshire e Massachusetts, a grande estrela desse episódio. E aqui já aparece um detalhe bastante importante. Assim como a Virgínia, Massachusetts também foi resultado dos investimentos de uma companhia de comerciantes londrinos.

a Companhia da Bahia de Massachusetts, fundada em 1629. Mas havia uma diferença fundamental entre elas. No caso da Companhia da Bahia de Massachusetts, a Carta Real foi levada fisicamente para a América. Ou seja, a sede da companhia, o governo e a autoridade política ficavam na própria colônia.

e não em Londres, como acontecia com a Companhia da Virgínia. E isso deu aos colonos uma autonomia política sem precedentes. Agora, embora tenha nascido como empresa, a colônia rapidamente se transformou em um braço político e logístico de cristãos puritanos que fugiam das perseguições do rei Carlos I.

E aqui a coisa fica interessante. A companhia da Bahia de Massachusetts logo percebeu que o conflito religioso podia ser também uma oportunidade de negócios. Porque se havia puritanos perseguidos dispostos a atravessar o Atlântico, ali estava uma chance de povoar e fortalecer o empreendimento colonial. Assim, os puritanos acabaram se tornando a principal fonte de mão de obra para viabilizar o projeto colonial.

E é aí que vem a primeira pergunta importante desse episódio. Afinal de contas, quem eram esses tais de puritanos? Primeiro ponto, eles não eram uma seita organizada ou uma denominação religiosa como a gente talvez imagine hoje.

Puritano era mais um rótulo, muitas vezes pejorativo, que designava grupos protestantes que acreditavam que a reforma religiosa na Inglaterra tinha parado no meio do caminho, porque pra eles a igreja anglicana ainda carregava traços católicos.

Católicos demais, tanto em seus rituais, em suas hierarquias e nas formas de autoridade. Daí há necessidade de purificar a igreja, de onde vem o nome puritanos. Por isso que o termo mais preciso para muitos desses grupos seria o de congregacionalistas, porque eles defendiam a autonomia das congregações locais.

Ou seja, em vez de uma igreja controlada por bispos ou por uma hierarquia centralizada, cada comunidade deveria escolher seus líderes, organizar sua vida religiosa e definir suas práticas. Outra coisa importante, muitos desses grupos não queriam romper completamente com a igreja anglicana, mas sim reformá-la por dentro.

Só que naquele contexto, mexer na religião era quase a mesma coisa que mexer na ordem política, uma vez que o rei também era o chefe da igreja. E justamente por isso, parte desses homens e mulheres foi perseguida na Inglaterra. Alguns, inicialmente, chegaram a fugir para a Holanda, conhecida por sua tolerância religiosa. E então, quando surgiu a possibilidade de migrar para a América, muitos viram ali não apenas uma chance de sobreviver, o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o

mas também de construir uma comunidade moralmente disciplinada. E é aqui em que entra uma das histórias mais famosas da colonização inglesa naquela região, a história do Mayflower. Em 1620, um grupo de puritanos partiu em direção ao Novo Mundo, a bordo desse navio, que depois viraria uma espécie de relíquia na memória nacional americana.

Essa é a história dos chamados pais peregrinos, posteriormente convertida em mito fundador dos Estados Unidos. Um mito que apresenta uma versão da história que nos traz como eixo da origem do país uma colonização branca, cristã e supostamente democrática.

Só que essa versão, como a gente vem desenvolvendo ao longo da série, não corresponde à complexidade do que foi a experiência colonial. De qualquer maneira, essa é uma história que merece ser contada. Ironicamente, o destino original do Mayflower era a Colônia da Virgínia. Mas uma tempestade desviou a embarcação de sua rota e a obrigou a desembarcar na região de Massachusetts, que ainda nem existia como uma colônia organizada.

Ali os colonos fundaram Plymouth. Vale ressaltar que ainda a bordo do navio, 41 dos cerca de 150 passageiros assinaram um documento pelo qual se comprometiam, após o desembarque, a viver sob leis justas elaboradas por representantes escolhidos por eles. Trata-se do agora famoso Pacto do Mayflower.

que no imaginário estadunidense costuma ser lembrado como símbolo de uma suposta vocação democrática do país. Porém, a chegada em terra firme foi muito menos glamurosa. Afinal de contas, os colonos não tinham suprimentos suficientes, não tinham ferramentas adequadas ao terreno e faltavam poucas semanas para o rigoroso inverno da região da Nova Inglaterra.

O resultado disso foi brutal. Metade deles morreu antes da primavera. Metade. Pense no tamanho disso. A colônia que depois seria lembrada como símbolo de perseverança e fé quase desapareceu logo no primeiro inverno. E por que não desapareceu?

porque eles contaram com a ajuda dos indígenas locais, especialmente por um sujeito chamado Esquanto, da etnia Patuxet. Esquanto já conhecia os europeus, ele havia sido anteriormente sequestrado por exploradores e levado à Europa, por isso ele falava inglês, e justamente por conhecer os dois mundos, ele se tornou um elo vital entre os colonos e os nativos.

Ele ensinou os europeus a plantar milho, a pescar e a sobreviver. Percebem como tudo isso ajuda a contar o mito? Uma rota desviada por uma tempestade, uma ajuda inesperada, a sobrevivência na adversidade. Tudo isso deu ainda mais à narrativa histórica um tom providencial, como se tudo não passasse de um plano divino.

De todo modo, depois desse primeiro ano repleto de adversidades, já em 1621, os peregrinos organizaram uma refeição em agradecimento a Deus e convidaram os indígenas que os haviam ajudado. Séculos depois, durante a Guerra Civil Americana, esse episódio foi incorporado à mitologia nacional e utilizado como base para a criação do hoje famoso Dia de Ação de Graças.

que naquela época já funcionava como uma espécie de mito de origem unificador, baseado na convivência entre os diferentes com a bênção de Deus. Tudo o que os Estados Unidos precisavam no momento quando Norte e Sul se matavam.

Agora, voltando no tempo, Plymouth, fundado pelos puritanos do Mayflower, permaneceu independente como uma colônia até 1691, quando então finalmente foi incorporada à colônia da Bahia de Massachusetts, que conseguiu efetivamente obter êxito em sua empreitada colonial. E boa parte do sucesso na consolidação dessa colônia deve-se a um homem, o reverendo John Winthrop, o primeiro governador de Boston.

Sob sua liderança, a companhia organizou o transporte de milhares de colonos. Em apenas 10 anos, cerca de 20 mil puritanos migraram para a região, um número muito superior aos demais assentamentos coloniais. E a liderança de Winthrop foi tão marcante que é a ele que se atribui um dos sermões mais famosos da época colonial, intitulado Um Modelo de Caridade Crista.

Conta-se que ainda a bordo do navio Arbela, durante a travessia do Atlântico, ele afirmou que a sociedade que seria criada no Novo Mundo deveria ser como uma cidade sobre a colina. A expressão foi retirada diretamente da Bíblia do Sermão da Montanha.

Agora é importante destacar que o sentido original empregado por Winthrop nessa oração era o de alerta, de que aquela comunidade seria observada pelo mundo. Se agisse com retidão, seria um exemplo. Se falhasse, seria motivo de vergonha diante de Deus.

E por que isso é importante? Porque a fama desse sermão não veio imediatamente após ele ser proferido, mas sim muito tempo depois, por meio das apropriações posteriores. Aliás, boa parte da leitura ligada ao destino manifesto no século XIX nasce justamente de uma interpretação equivocada desse sermão.

Porque se no sentido original ela era um apelo à disciplina moral, mais tarde ela acabou sendo usada como justificativa para a expansão, para afirmar uma superioridade civilizatória e uma vontade divina. Ou seja, aquilo que nasceu como cobrança moral interna, depois virou argumento para a expansão externa.

Conseguem perceber como Mayflower, seu pacto, a sobrevivência aos anos de penúria e a cidade sobre a colina ajudaram a construir o mito dos Estados Unidos como uma terra fundada por peregrinos temente a Deus em busca de liberdade e autogoverno?

E o preço dessa construção histórica não está apenas no apagamento das outras experiências coloniais que a gente vem narrando desde o primeiro episódio. A de homens e mulheres de outras raças e crenças que tornaram a construção dos Estados Unidos e das 13 colônias algo possível.

O perigo também está na romantização do período colonial. Afinal de contas, apesar dos aspectos que o mito relembra, a Nova Inglaterra estava muito longe de ser a terra da liberdade religiosa, tendo sido também palco de perseguições. E existe um claro motivo para isso. Lá, a vida social e política girava em torno da igreja congregacional, como eu já mencionei anteriormente.

Havia assembleias, havia práticas locais de autogoverno, havia sufrágios, ou seja, votações. Tudo isso, tudo isso é verdade. Porém, a participação política, ela era restrita. A liberdade congregacional nunca foi liberdade individual.

Até porque as pessoas que podiam exercer seu voto eram apenas aqueles que eram chamados de santos visíveis, que eram nada mais nada menos do que as pessoas consideradas como salvas aos olhos de Deus.

e aprovadas pela comunidade. Ou seja, não era uma sociedade aberta, era uma sociedade controlada e hierarquizada, mas também profundamente intolerante à dissidência. Um ótimo exemplo disso foi Roger Williams. Williams era um ministro puritano. Ele defendia duas ideias que eram explosivas pra época.

a separação da igreja, da organização política nas colônias e o respeito às terras indígenas. Resultado? Foi perseguido, julgado e banido. E para escapar da prisão e da deportação, ele fugiu com seus seguidores para o sul da colônia, onde fundou o assentamento de Providence em 1636, que seria o núcleo inicial da colônia de Rhode Island.함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함 o함

E Rhode Island nasceu diferente de Massachusetts, sem uma igreja oficial, sem exigências de filiação religiosa para votar, e com o tempo se tornaria refúgio para outras religiões, como os batistas, os quakers e até mesmo os judeus.

A grande ironia dessa história é que Massachusetts, a colônia que nasceu de refugiados religiosos, era agora quem expulsava quem pensava diferente. A sociedade que queria ser exemplo de moral definia com rigor quem podia e quem não podia fazer parte dela.

Ah, e ainda um dado pouco lembrado e muitas vezes apagado pelo mito dos pais peregrinos, que é a existência de escravidão africana na Nova Inglaterra. É muito comum a gente associar a escravidão colonial nos Estados Unidos ao Sul, mas isso não é exatamente verdade.

Só pra vocês terem uma ideia, em 1700, cerca de 2% da população da Nova Inglaterra era formada por pessoas escravizadas, ou seja, o norte livre não era assim tão livre. E foi assim nesse ambiente de disciplina moral, medo e controle social que ocorreu o episódio mais sombrio da história de Massachusetts.

Os Julgamentos das Bruxas de Salem. Você provavelmente já ouviu falar desse caso em centenas de produtos da cultura pop. Ele é de fato muito famoso. Mas você sabe como que essa história começa? Tudo começou mais ou menos assim. Durante o inverno de 1692, Beth Paris, de 9 anos, e Abigail Williams, de 11.

Filha e sobrinha do reverendo Samuel Parris passaram a exibir comportamentos incomuns, como calafrios, convulsões e alucinações. O médico local foi chamado para diagnosticá-las. Examinou as meninas, mas não encontrou nenhuma explicação física para as manifestações. E quando a medicina falha, a religião entra. A origem dos sintomas foi atribuído à bruxaria.

Pouco depois, três mulheres foram acusadas de serem bruxas, Sarah Osborne, Sarah Good e Tituba. E o que elas tinham em comum? Eram todas mulheres vistas como outsiders na sociedade colonial, figuras frágeis dentro da hierarquia social da comunidade.

Tituba, em especial, ocupa lugar central nessa história, porque, além de mulher, ela era escravizada, de ascendência indígena e africana, e que trabalhava na casa do reverendo Paris, o que fez com que, em condições de brutal assimetria, ela fosse torturada, coagida e pressionada, até confessar, entre muitas aspas, seu suposto envolvimento com o diabo.함

E essa confissão mudou tudo, porque Tituba acabou introduzindo a ideia de que havia uma conspiração satânica, organizada e liderada por um homem negro, que a teria forçado a assinar o livro do diabo. Com isso, uma crise local virou uma batalha cósmica entre o bem e o mal, entre a igreja e Satanás.

Conseguem perceber o impacto disso? A partir daí, a comunidade passou a acreditar que enfrentava uma espécie de ameaça existencial, uma luta pela própria alma. E o sistema judicial não apenas corroborou essa leitura, como piorou a situação. O processo durou cerca de sete meses. Mais de 150 pessoas foram presas e mais de 25 comunidades da colônia da Bahia de Massachusetts foram envolvidas.

Ou seja, o que começou como um episódio localizado na vila de Salem, rapidamente se transformou na caça-bruxas que mobilizou toda a Bahia de Massachusetts. E um dos pontos mais absurdos dessas caças-bruxas foi o uso da evidência espectral por parte do tribunal.

O que seria isso? Basicamente, alguém podia acusar outra pessoa dizendo que havia sido atacada por ela em um sonho. E isso era utilizado como fundamento legal para o julgamento. Para piorar, decidiu-se que quem confessasse sua relação com o diabo poderia ser poupado da execução. E quem negasse correria o risco de morrer.

O resultado foi que, para se livrar da morte, muitas pessoas apareceram com falsas confissões, fazendo novas acusações, o que gerou mais perseguições. E o saldo disso foi devastador. 19 pessoas foram enforcadas, uma foi esmagada até a morte e 5 morreram ainda na prisão.

Detalhe importante é que nesse caso ninguém foi queimado na fogueira, como a cultura pop muitas vezes nos fez acreditar. De qualquer maneira, diante da crescente inquietação, o governador de Massachusetts finalmente dissolveu o tribunal em outubro de 1692.

E por que eu contei o episódio de Salem pra vocês? Não é apenas por conta de sua fama, mas porque, longe de ser um episódio isolado, Salem é um sintoma das contradições profundas da colonização na Nova Inglaterra. A rápida incriminação de Tituba expõe a intolerância contra populações não europeias, frequentemente associadas à superstição ou ao mal.

E o fato de ela ser uma mulher escravizada nos leva a uma conclusão inevitável. A terra prometida puritana nunca foi acessível a todos. Salem, então, não foi um desvio na história puritana. Foi uma revelação incômoda de suas tensões. Afinal de contas, uma sociedade construída em torno da ideia de pureza precisa definir quem é impuro. E ao fazer isso, define também quem pode ser excluído o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o

perseguido ou até mesmo eliminado. Por isso os julgamentos de Salem são tão famosos e continuam tão atuais. Não como uma curiosidade histórica, mas um alerta.

Vamos amarrar o que a gente viu hoje? Saímos do eixo econômico de Chessapique e entramos no universo da Nova Inglaterra, um mundo que à primeira vista parecia movido por fé e não por lucro. Mas ao aprofundarmos nossa história, encontramos algo mais complexo. Vimos como os puritanos tentaram construir uma sociedade disciplinada, baseada em princípios religiosos rígidos, com práticas de autogoverno, que de fato existiram, mas que eram limitadas e excludentes.

Vimos também como a sobrevivência dependeu do conhecimento indígena e percebemos ainda que essa sociedade, mesmo se vendo como exemplo moral, podia ser profundamente intolerante. Resumindo, nem só de liberdade religiosa se faz a nova Inglaterra. Mas se você acha que a história colonial inglesa se resume ao contraste entre lucro no sul e religião no norte, alto lá!

Repare bem, o tabuleiro ainda tem peças que não foram apresentadas. E no próximo episódio nós vamos conhecer as colônias centrais, Nova York e Pensilvânia, e o sul profundo, formado pelas Carolinas e pela Georgia. Então já sabe, prepare-se para uma nova guinada em nosso navio, pois a exploração está apenas começando.

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