História Pirata # 160 - A Restauração Portuguesa, com Caroline Mendes
Neste episódio, Daniel Gomes de Carvalho (@danielgomesdecr) e Rafinha (@rafaverdasca) recebem a professora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Caroline Garcia Mendes, para uma conversa sobre a Restauração Portuguesa.
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Livro do Prof. Daniel sobre a Revolução Francesa:
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Livro sobre Thomas Paine e a Revolução Francesa, download gratuito:
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Livro O Jacobinismo e a Revolução Francesa, LF Editorial, preço reduzido:
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Livro "As Origens dos Estados Unidos", por Marcos Sorrilha: https://www.amazon.com.br/origens-dos-Estados-Unidos-Am%C3%A9rica/dp/6555636955/ref=sr_1_1?dib=eyJ2IjoiMSJ9.LJGvX-i_BuxXef6tkjKu8oHDEiwp4UxahmlNsYiVhJE.JfCwevGzvkpWSD9Mn39UdALRBQGXs6e4V7LmPbyRoF0&dib_tag=se&qid=1777846851&refinements=p_27%3AMarcos+Sorrilha+Pinheiro&s=books&sr=1-1
- União Ibérica e Restauração PortuguesaCrise de sucessão em Portugal · Dom Sebastião e o Sebastianismo · Felipe II da Espanha · Dom Antônio · Catarina de Bragança · Pacto de Tomar · Dom João IV · Miguel de Vasconcelos · Rebelião na Catalunha · Batalha de Las Dunas · Dom Afonso VI · Dom Pedro II · Batalha de Montijo · Batalha de Ameixal · Batalha de Montes Claros
- Fontes históricas documentaçãoEduardo Oliveira França · Diogo Ramada Curto · Harry Daniels · Vygotsky em Foco · Relações de Sucesso · Gazeta Portuguesa · Mercúrio Português · Censura em Portugal · Don Quixote · Escola de Salamanca
- Contexto histórico de crisesCrise Imperial Espanhola · Conde-Duque de Olivares · União das Armas
- Legitimação da Coroa de BragançaEmbaixadas de Dom João IV · Casamento da filha de Dom João IV com o rei inglês · Disputa de poder entre Afonso VI e Pedro II
- Intercâmbio no exteriorTeatro do Século de Ouro Espanhol · Literatura em Espanhol
Música
Bom dia, boa tarde, boa noite, tripulantes. Aqui quem fala é o Rafinha e eu sou o marinheiro que comanda esse motim. Bem-vindos a bordo, porque esse é o podcast História Pirata. Fala, pirataria. Eu sou o Daniel Gomes de Carvalho e eu também comando este motim. E, Rafa, hoje a gente está com uma convidada muito especial, a Caroline Mendes, a Carol Mendes. A gente tem feito algumas coisas junto ultimamente, a gente está organizando um livro junto de história moderna.
Eu acho que deve sair em 2027, não tenho esperança que saia este ano ainda, mas certamente quando o livro sair a gente vai anunciar nas nossas redes, vai colocar o link na descrição, vai ser um livro bem bacana, com engregando aí todos os jovens historiadores da área da história moderna que estão produzindo, mestrados, doutorados, está ficando um trabalho bem legal. A Caroline Mendes é professora da Universidade Federal do Mato Grosso, da UFMT.
E ela fez doutorado na USP, o título do doutorado dela foi Gazetas, Mercúrios e Relações de Sucesso, a produção e a circulação de notícias impressas na Península Ibérica na segunda metade do século XVII.
Aqui na USP, o mestrado dela foi na Unicamp, chamado A Circulação e a Escrita de Cartas do Governador-Geral do Estado do Brasil, Francisco Barreto. Então, tratando ali sempre de século XVII, discutindo circulação escrita. E isso vai ser um pouco o tom do nosso programa hoje para discutirmos a restauração portuguesa. Dá um oi, pessoal. Oi, Carol. Olá, gente. Bom dia, boa tarde, boa noite. Muito obrigada pelo convite, Daniel e Rafael. Eu vou chamar de Rafinha, porque o Daniel só chama de Rafinha. Então...
já vou colocar nessa intimidade. Obrigada, gente, pelo convite. Estou bem feliz em estar aqui com vocês para falar de um tema que eu gosto bastante. A gente que agradece demais a sua presença aqui nesse nosso navio. E, Dani, como é de costume, antes dessa nossa viagem começar, o povo quer saber o que você anda lendo de bom ou o que você anda lendo de ruim, porque você é o campeão de ler umas coisas ruins de vez em quando.
Não, você vai gostar do que eu estou lendo hoje e na verdade, Rafa, assim, eu poderia ser aquelas pessoas mentirosas que deixam pra ler muito tarde o que deveriam ter lido cedo e dizem assim, ah, estou relendo, né? Mas se eu falasse isso, eu estaria mentindo. Eu não quero ser essa pessoa. Eu estou lendo pela primeira vez.
um livro que eu deveria ter lido antes, e eu estou lendo por conta do podcast de hoje. Eu queria ler os trabalhos do Eduardo Oliveira França, que foi um professor de história moderna aqui na USP há muito tempo, então eu queria ler um trabalho de um antecessor, de alguém que estava dando a mesma disciplina que eu no passado. Mas enfim, mas eu acabei enrolando e demorei, e no final das contas eu aproveitei esse podcast para ler Portugal na época da restauração.
do Eduardo Oliveira Francis, então é um texto antigo, de um antigo professor de história moderna aqui, e eu estava comentando com a Carol, é claro que tem um texto antigo, há coisas hoje que a gente sabe que não são bem daquele jeito, etc, mas é um texto muito gostoso de ler, bastante informativo, inclusive, é um texto bastante acessível.
muito bem escrito, então acho que vale a pena para quem gosta de história da historiografia, para quem gosta de dar uma olhada de como eram suas produções nas décadas passadas e certamente a despeito de críticas que possamos fazer à luz da historiografia mais contemporânea, é um livro com o qual ainda temos muito a aprender, certamente. Carol!
alguma recomendação que você queira fazer? Na verdade, eu acho que a gente tem uma questão triste e importante a dizer a respeito desse tema na historiografia hoje.
Nesse bloco eu queria dar uma sugestão de leitura de um professor desse tema que a gente vai tratar hoje sobre Portugal no século XVII e a dominação filipina, que é o professor Diogo Ramada Curto. A gente está gravando no dia 13 e ele faleceu no dia 11 de abril de 2026. Então acho que é importante a gente tratar disso aqui e fazer essa...
pequena homenagem a ele, o livro que a gente tem publicado no Brasil pela editora da Unicamp é Cultura Imperial e Projetos Coloniais, mas existe uma série de obras dele sobre o tema.
da restauração e da cultura escrita e da publicação e o valor disso no momento que a gente vai discutir aqui hoje. O professor era diretor da Biblioteca Nacional de Portugal, então um nome respeitadíssimo e muito fundamental para esse tema. Então fica a dica de todas as publicações que o Diogo Ramada Curso tenha feito, artigos, são todos a maioria em português, um autor muito importante para o tema e acho que vale a leitura e conhecer o trabalho dele.
O importante mesmo, e uma pena, né? Uma grande perda pra gente na historiografia. E Rafa, o que você anda lendo? O que você recomenda? Cara, eu vou, antes de falar o que eu tô lendo, eu vou aproveitar a homenagem recém-prestada, e eu vou prestar homenagem também, Dani, pra um amigo nosso que faleceu esse final de semana, foi um grande professor de física, o Alexandre Sasaki, e eu queria deixar aqui o registro.
E, obviamente, nossas condolências e toda a força necessária para a família. Foi uma pessoa, sem sombra de dúvidas, muito gentil que cruzou o nosso caminho. Mas eu não estou lendo física porque, apesar de eu gostar muito do Alê, eu não sou maluco. Eu... Vocês sabem, né, Dani? Eu venho tentando passar por uma transformação de carreira. Que, na verdade, é eu tentar deixar de ser um professor de pré-vestibular.
e me aprofundar ainda mais nessa minha vida de professor do ensino básico, e há muitas lacunas na minha formação que eu estou tentando preencher de alguma maneira. E eu estava fazendo um curso aqui...
às segundas-feiras, inclusive, durante a noite. E durante esse curso, um dos livros que eu trabalhei foi um livro organizado pelo Harry Daniels, chamado Vygotsky em Foco, Pressupostos e Desdobramentos, que traz, na verdade, vários artigos de vários autores e autores diferentes a respeito do trabalho do Vygotsky, o que diz respeito à educação.
e a pedagogia, ótimos textos aqui, alguns muito bons, alguns bastante elucidativos para pensar a questão especificamente da avaliação, que era o trabalho que eu estava fazendo nesse curso. Agora,
Feitas as nossas apresentações de leituras, antes do programa começar, eu quero lembrar a todos e todas que para você ajudar a manter História Pirata sempre no mar, há duas formas de fazê-lo. A primeira e mais importante é sempre ajudando a divulgar aqui os nossos podcasts. Apresenta para familiares, para amigos, amigas, etc.
A segunda forma de fazê-lo é fazendo um Pix aqui para História Pirata. E se você puder fazer um Pix recorrente, fica ainda melhor. Afinal de contas, temos muitas despesas para lidar para manter esse podcast no mar. A gente não pretende ganhar dinheiro, quer dizer, mentira, a gente pretende ganhar dinheiro, a gente só desistiu.
dessa tentativa, hoje a nossa meta é só não ter mais prejuízo com História Pirata. Então se você quiser fazer um Pix pontual ou recorrente é só saber que a nossa chave Pix é também o nosso e-mail podcast.historiapirata arroba gmail.com podcast.historiapirata arroba gmail.com
E hoje, dando início ao nosso programa, a gente recebe a professora Caroline Mendes justamente para falar, como já foi apresentado para vocês, sobre a restauração portuguesa. E no que diz respeito a isso, ela organizou aqui um programa dividido em três blocos. No primeiro bloco, falar um pouco sobre a União Ibérica e a restauração portuguesa.
No segundo bloco, se aprofundar na restauração portuguesa em todo esse intervalo que vai de 1640 até 1668. No terceiro e último bloco do programa, falar um pouco sobre as notícias impressas. Então, bora começar o programa de hoje. Vamos ao primeiro bloco, falar sobre a União Ibérica e a restauração portuguesa.
Carol, antes de eu passar a palavra para você, mas já equivalendo no programa, eu confessei para você ali no off, mas eu quero confessar publicamente porque eu sou alguém que lida com os meus próprios problemas. Eu tenho muitas dúvidas, Carol. Eu confesso para você que é daqueles temas que quando eu trabalho em sala de aula eu torço de forma confidente para que ninguém faça determinadas perguntas porque eu não saberei respondê-las. Então, hoje eu vou tentar...
responder algumas dessas perguntas fazendo ela pra você. Eu tenho certeza que você vai conseguir me ajudar, porque não são perguntas tão elaboradas, é, confesso aqui, falta de estudo da minha parte em questões um pouco maiores, assim, né? Não em detalhes, mas em questões mais estruturais sobre o que isso significa. Então, pode começar a falar um pouco sobre a União Ibérica, porque eu estou sedento aqui pra saber um pouco mais sobre isso.
Bom, vamos ver, vocês vão me ajudando aí, caso alguma coisa fique um pouco perdida na nossa conversa. Para tratar da União Ibérica, acho que a gente tem que lembrar que há algo muito comum que acontece nas casas europeias, que é o casamento entre as famílias. Então, a gente tem esse costume e isso acontece com muita frequência na Península Ibérica.
Então, quando a união acontece, que é, de fato, Portugal passar para o domínio da Espanha, vamos chamar de Espanha e Portugal, acho que fica mais fácil a compreensão, mas a gente está falando, sobretudo, de Castela aqui, o Felipe de Castela. Outras oportunidades dessa união já tinham acontecido, porque existe esse costume dos casamentos, a ligação entre Portugal e Espanha é uma ligação muito forte desde...
o início de Portugal.
Então, isso já acontecia e vai ser ali na Batalha de Alcácer-Quibir, vai ser com Dom Sebastião que isso vai acontecer de fato, porque a gente tem uma batalha em que Dom Sebastião, o rei português, um rei muito novo, sem herdeiros, vai combater no norte da África, vai com grande parte dos primogênitos das principais casas portuguesas para essa batalha e há uma grande derrota.
e Portugal fica sem herdeiros, né? O tio dele assume, o cardeal, que fica ali por dois anos, mas acaba ali com ele a própria casa dele, que fica sem herdeiros, a casa de Javis acaba, e aí a gente tem uma crise de sucessão.
Entre os possíveis herdeiros ali que poderiam assumir o trono, a gente tem o Felipe II, mas outras pessoas também concorrendo. Então, esse é o primeiro parâmetro que a gente tem, né? Por que essa união acontece? Porque Dom Sebastião, aí a gente tem toda a coisa de que ele some na batalha, né? Existe ali...
o sebastianismo, depois de que esse rei um dia voltaria e assumiria o trono, mas torna-se uma lenda ali, uma questão messiânica com Dom Sebastião, mas a união começa mesmo com essa questão da falta de herdeiros e depois uma disputa entre os prováveis possíveis herdeiros que assumiriam o trono português. Posso fazer uma pergunta aqui, Carol? Claro.
Eu acho que a primeira grande questão, e é bom, acho que eu estou na frente virtualmente de duas pessoas para me ajudar a lidar com isso, que é uma grande dificuldade de se trabalhar com esse tema dentro do ensino básico, porque a primeira simplificação a gente já fez, que é pensar numa Espanha e não pensar em Castela. E a segunda grande dificuldade, Carol, que eu encontro aqui é lidar com essa coisa de como explicar para a gente inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro inteiro
que o embate é entre casas e não entre estados, né? E não entre países. E aí, toda vez que a gente entra nessa coisa do sebastianismo, explica como um sentimento nostálgico do apogeu português, inevitavelmente essa explicação esbarra numa questão como se houvessem portugueses almejando, né? Uma recuperação de um Estado português que a gente sabe que efetivamente não existe.
E isso é difícil, né, da gente trabalhar, obviamente, dentro do ensino básico, porque exigiria várias outras discussões a priori para se trabalhar essas noções da ausência da perspectiva de Estado e de nacionalismo, mas, ao mesmo tempo, materialmente, isso existe efetivamente, assim, Carol? Há uma pressão por parte dos habitantes do reino de Portugal?
em desejar uma recuperação de um período que passou, a preocupação deles é uma defesa que eles estão fazendo da Casa de Avis ao almejar a volta de Dom Sebastião, ou a defesa deles é sobre eles próprios. Essa disputa de interesses sempre foi a minha primeira grande dificuldade de lidar com isso.
Quando a gente aborda os possíveis herdeiros, quem poderia assumir, são várias as pessoas que podem legitimamente assumir, a gente tem o Dom Antônio, que é um filho ilegítimo. E ele é aclamado rei pela população.
Em contraponto, inclusive, há o Felipe II que não é português. Então, isso está sendo pensado, sim, naquela época. A ideia de que é melhor um português assumir, e assim, tentando fugir da coisa do nacionalismo.
mas pensando que Portugal, ou ele se sairia bem e fazer parte de uma monarquia hispânica traria benefícios para ele, ou ele seria totalmente apagado por uma grande monarquia. Então, é uma questão também, e aí pensando a nobreza, se ela ganha ou se ela perde em fazer parte dessa monarquia hispânica. Então, a gente tem dois movimentos. O movimento...
da população, que aclama Dom Antônio até que ele tem que fugir, porque ele é um filho ilegítimo, ele não teria chances por conta de ser ilegítimo.
ele é um herdeiro legítimo, não conseguiria assumir. A gente tem Felipe II, que tem armas, poder financeiro e é um rei. E a terceira, que é Catarina de Bragança, que politicamente, financeiramente, apesar de ser a maior casa portuguesa, ela não teria chances de competir com um rei como Felipe II.
Então, eu acho que existe, sim, essa discussão de não queremos um rei que não seja português nesse momento, tanto que a população aclama Dom Antônio, ao mesmo tempo que Dom Antônio nunca teria chance de assumir um trono competindo com Felipe II. Então, existe, sim. E acho que não é pela casa de aviso que acaba, não. Acho que é uma questão de não fazer parte de uma monarquia que pode apagar Portugal, inclusive tomar suas colônias na América Portuguesa, enfim.
Acho que essa instituição existe. Eu não sei se é algo que você vai tratar depois, Carol, mas eu estava hoje de manhã conversando com a Iris, a Iris Cantor, sobre esse livro do Oliveira França, né? E o que ela me disse é que ela acha muito interessante que a Oliveira França, antes da historiografia portuguesa começar a fazer isso, já encarou esse período de União Ibérica, quer dizer, a junção da coroa de Portugal à Espanha.
a cruz espanhola, como um acordo de uma parte da elite portuguesa com os espanhóis, em vez de uma simples narrativa nacionalista que falam os espanhóis simplesmente dominando Portugal. Quer dizer que já havia ali uma complexidade, um vislumbre dessa complexidade na narrativa, antes da própria historiografia portuguesa começar de fato a discutir isso, mas com essa profundidade, não sei se você concorda, claro.
A restauração vai ser muito usada para tratar de nacionalismo depois, no século XX. Então, é um olhar para a restauração que, hoje, eu estou trabalhando aqui muito com a discussão que o Rafael Valadares propõe, de que não há essa questão, nessa época, a gente está falando ali de nobres que vão ser beneficiados.
Então, quando acontece a batalha, por exemplo, em Alcácer que Brilha, e os primogênitos das casas ou morrem ou ficam sequestrados, muitos dos resgates, quem paga é Felipe II. Ele começa ali o movimento dele de fazer a...
o meio campo ali com a nobreza, e ele vai fazer por todos os lados, ele vai, então, conversar e distribuir mercês, distribuir questões honoríficas ali importantes para essas pessoas, então ele vai ser apoiado por grande maioria de nobres, fidalgos e menos da população, como eu disse, que vai aclamar Dom Antônio, mas ele vai estar ali muito presente, a gente tem, então,
como eu disse, esses três possíveis herdeiros que assumiriam o trono, mas é Dom Felipe II quem vai assumir.
Felipe, a gente tem que lembrar que é soberano e aí eu até anotei aqui pra não me esquecer Castela, Aragão, Países Baixos Milão, Nápoles, Sicília, Sardenha as colônias filipinas colônias na Ásia então havia ali o medo, como eu disse de ou Portugal ser esmagado por essa grande potência ou de se beneficiar com fazer parte disso tudo de ter os benefícios de fazer parte de uma mulher que é desse tamanho inteiro
Então, até mesmo essa aliança com a nobreza, que era outra questão que eu tinha sempre na cabeça, né? Que eu morria de medo de vir em sala de aula. Essa aliança com a nobreza ajuda a impedir que a vontade de nomear Adantônio repita uma revolução de aviso. Faltava força, é isso. Faltava apoio para que isso acontecesse como acontece atrás do século XIV.
Sim, Felipe II vai, ele diz, eu anotei aqui a frasezinha
que dizem que ele falou, mas a gente não sabe se ele falou, que é o lo herede lo compre lo conquistei. Eu comprei, herdei e conquistei. Então ele vai por todos os caminhos. Ele vai à Casa de Bragança, que a dona Catarina era uma possível herdeira, e aí vai haver toda uma discussão entre as pessoas ali, os juristas, para saber se a dona Catarina, enquanto mulher, poderia assumir ou não.
Mas, na verdade, ela não teria força política para isso. E a Casa de Bragança acaba recebendo uma série de benefícios para ficar lá na cidadezinha dela, no Alentejo, e não se mexer quanto a isso. Então, Felipe II vai...
comprar, numa palavra meio... Mas ele vai pagar todo mundo muito bem, a nobreza vai estar do lado dele, mas ele também vai mandar o exército. Então ele manda as tropas, manda navios para os portos, e aí ele vai conquistar também. Aí tem a historiografia que vai dizer que foi mais por acordos com os nobres, outro vai dizer que foi mais por conquistas bélicas, que no final a gente vai ter.
Felipe II como Felipe I de Portugal. Eu vou sempre chamar ele pelos números espanhóis, que acho que faz mais sentido, mas sempre lembrar que quando for a historiografia portuguesa, normalmente eles se referem com o número de Portugal. Então, o Felipe II é Felipe I de Portugal, a partir de 1580.
Eu queria também mencionar que a gente tem esse movimento de chamar as cortes para trazer, para legitimar esse governo, então a gente tem o que ficou conhecido como pacto de tomar. Então, no momento ali em 1581, Lisboa passava por uma peste e a gente tem uma corte, a chamada das cortes acontecendo.
em Tomar, e nesse pacto de Tomar, que fica conhecido, há uma série de regras que Felipe II deveria seguir para anexar, ou para, às vezes, existem vários termos que são utilizados para falar da entrada de Portugal nessa monarquia.
Então, uma das questões importantes que depois vai ser retomada lá em 1640 para explicar os motivos pelos quais os portugueses queriam se separar é que Portugal deveria ser governado por suas próprias leis, tradições e instituições. Ele deveria continuar com sua autonomia. E outra coisa importante que a gente vai ver que começa também a se perder com o passar das décadas de domínio filipino, que é um termo...
utilizado também para esse período da União, é que Portugal só pode ser governado por um vice-rei de sangue real, ou portugueses, ou o próprio rei. Então, são algumas das questões que aparecem nesse pacto de tomar, o que vai ser um dos argumentos depois que os portugueses vão questionar a respeito do governo que vai sendo feito de Felipe II, depois III e depois IV, que são os...
o período chamado domínio filipino em Portugal. E o... Desculpa remeter toda hora ao Oliveira França, mas ele diz lá no livro, numa passagem que eu lembrei, que o pacto de tomar era vicioso em sua origem. Você concorda com isso ou você acha que isso é um pouco anacronismo, ele está vendo o que acontece depois? Ou quando ele acontece, muita gente já viu ele enquanto vicioso, enfim, já houve uma oposição de cara?
Eu não chamaria de vicioso, eu acho que foi feito um acordo ali para apaziguar os ânimos, tanto da população que não estava satisfeita com o Felipe II assumindo, e com uma nobreza que também não queria ser governado por qualquer pessoa, ele não poderia mandar ali qualquer um para governar os portugueses, por isso que essa...
esse marco de que ou o sangue real ou o próprio rei deveriam vir, e Felipe II vai, é uma das duas vezes em que um rei espanhol vai estar presente em Portugal na época da União. Então, Felipe II vai para as cortes e fica lá até 83, e aí a gente só tem mais uma visita depois, que é uma das reclamações que vão acontecer nesse período, é que a gente tem um...
um texto do Fernando Bolsa, que ele usa um trecho de um documento, que é o Lisboa sozinha é quase viúva. São metáforas que... A metáfora do casamento sempre aparece para falar de governo nessa época. E quando o Felipe III visita Lisboa, uma das pessoas que vai apresentar um texto para ele vai usar esse termo para dizer olha, você nunca mais veio aqui, os reis de Castela nunca mais vieram aqui, nós estamos aqui sozinhos, quase viúvos, de um governo que esteja aqui presente.
Era comum, a monarquia era gigantesca, era comum que locais não fossem governados pelos próprios reis, é óbvio, mas isso soava um pouco, talvez um desdém ali, um pouco valor que Portugal teria dentro desse governo. Então a gente tem essas reclamações frequentes, né, e aí a Ana Paula Mediane, que foi minha orientadora na USP, ela também tem o texto chamado Rei Ausente, que é justamente essas comemorações quando os reis aparecem finalmente em Lisboa.
Então, essa é uma grande questão durante todo o período, essa falta de um rei, de alguém que esteja ali, né? O rei mesmo, né? Está perto, afinal, né? Não está tão... A gente está falando de México, né? A gente está falando de alguns quilômetros ali. E é o contrário do que muita gente pode esperar, né? Porque o descontentamento, então, é menos um rei muito presente, um rei que está interferindo, que está, enfim...
oprimindo essa população e mais nesse caso um rei que está ausente
Eu acho que um pouco nessa esteira até da observação do Dani, porque essa aqui eu nunca tive medo que alguém me perguntasse em sala de aula, mas era uma dúvida minha. Porque a historiografia portuguesa trata o juramento de tomar como uma espécie de conquista, né? Não reivindicamos a nossa autonomia, estabeleceremos regras, etc, etc. E muitas vezes eu me perguntei, Carol, o quanto isso também não era fruto do próprio funcionamento.
da monarquia composta dos Habsburgos, que não tem condição de governar por igual todos os territórios, de estar presente em todos os territórios. Eu sempre tive essa sensação que a autonomia dos territórios dominados pelo Felipe II é mais fruto do próprio funcionamento dos Habsburgos, da extensão do seu governo, do que de uma glória ou de uma reivindicação necessariamente portuguesa.
Sim, e depois, quando as pessoas começam a questionar o pacto de tomar, o que o Felipe IV vai dizer é que, veja bem, o pacto foi uma graça real, não foi uma obrigação. Felipe II estava sendo bacana, mas ele é rei.
Então, ele não deve nada, não é uma obrigação o pacto. O discurso vai mudar com o passar dos anos. Então, Felipe IV vai usar esse, os juristas de Felipe IV vão usar esse argumento de que o pacto é uma graça real, não uma obrigação.
Perfeito. Bom, Carol, e aí a gente tem... A gente já tem um programa aqui no qual a gente falou da importância dos favoritos, para usar o termo do Helio, o Rafa já se referiu à monarquia composta, também o conceito que vem desse historiador, John Helio, que trabalha com esse período também, um historiador muito importante. E qual o papel, então, do conde-duque de Olivares? Onde que ele entra nessa história?
O Conde Duque de Olivares entra ali com o Felipe IV, já quando a gente começar a falar de restauração. Uma das questões que vão surgir ali no final do período filipino, que é quando o Conde Duque de Olivares vai começar a buscar a união das armas. Então, há o que a gente discute como uma espécie de castelhanização, uma ideia de unir.
Quer dizer, o exército português, os soldados portugueses irem lutar batalhas castelhanas, irem para outras guerras que não são as deles. Isso vai ser algo que vai incomodar bastante a nobreza. Então, o conde Duque de Olivaras tem um papel importante nessa tentativa de homogeneizar o império, que não dá muito certo, porque acho que funcionava compósito, como o Rafa disse, quando você começa a tentar...
enfim, homogeneizar todo mundo, começa a tentar pedir que nobres de Lisboa saiam dali para ir para Nápoles, eles vão questionar essas questões. Então, eu acredito que tem esse importante papel ali de, talvez, ajudar nesse fim da União.
E é uma pessoa muito poderosa, impressionante. O texto, o livro do John Erick, sobre ele, tem umas 800 páginas ou mais. Então, é um personagem que daria outro podcast sobre ele. Ele tem um poder fundamental nesse momento e ele vai acabar caindo de desgraça, porque vai sobrar para ele. É nesse momento da restauração que vai acontecer uma série de outras revoltas. Vocês já trataram aqui da crise do século XVII.
A monarca hispânica vai sofrer com ela, com essas revoltas, e ele está à frente no momento em que isso começa a acontecer. Eu queria mencionar também que nesse momento de União Ibérica vai haver um grande intercâmbio cultural, sobretudo na questão da literatura, o teatro do século de ouro espanhol. Isso vai circular, porque o espanhol é compreensível para os portugueses, o que o contrato não acontece.
Então, não há uma imposição de idioma, mas os portugueses vão utilizar esse idioma com muita frequência. É muito comum que as publicações ocorressem em espanhol justamente para que chegassem a mais leitores. Então, mesmo na época da restauração, com a ideia de se separar, é comum que as publicações fossem em espanhol para atingir um público maior. E aí a gente vai ter um intercâmbio cultural bastante extenso nesse momento.
E a gente tem ali, pensando agora, os governos dos Filipes. Então, a gente tem o Felipe II, como eu disse, entra a historiografia como um bom governo, talvez porque haja comparação depois com o Felipe III e IV, em que as coisas começam.
a desandar um pouco, então o Felipe II entra como um bom governo para a história. Aí em Felipe III, já começam as tensões políticas que vão culminar num mal-estar de governo no Felipe IV. Então a gente tem esses três Filipes, por isso que o nome da União Ibérica também às vezes é tratado como domínio filipino em Portugal. Outra coisa importante, acho que de lembrar nesse momento, é que essa anexação portuguesa, quer dizer, essa entrada de Portugal,
para os domínios castelhanos, vai render também a entrada de Portugal para outros conflitos que a Espanha está inserida. Então, isso vai sobrar para Portugal nesse momento. Então, há a proibição de holandeses e ingleses nos portos portugueses, invasões holandesas na América Portuguesa, isso já é bastante discutido. E a historiografia, eu falei que eu estou acompanhando aqui um pouco da discussão do historiador Rafael Valadares.
Mas ele vai discutir, por exemplo, que a recuperação da Bahia em 1625, que houve ali uma colaboração entre portugueses e espanhóis para, enfim, recuperar a Bahia dos holandeses, talvez tenha feito com que se pensasse nesse momento que seria fácil unir os exércitos. Porque se se uniram para recuperar a Bahia, acho que os portugueses também vão lutar nossas batalhas agora. Então, ele argumenta que isso...
que essas colaborações bélicas seriam fáceis de serem negociadas depois da recuperação da Bahia. E aí é que...
não vai dar certo. Ali, caminhando para o nosso segundo bloco, também queria chamar a atenção que, em 1634, o Felipe IV vai nomear a vice-rainha, a sua prima, Margareta de Saboia. Então, ali a gente tem uma série de mudanças da tentativa de aumentar tributos, de impor tributos a grupos que não pagavam impostos antes. Então, isso vai fazer com que os ônibus comecem a saflorar também entre a nobreza.
A gente tem uma grande revolta em 1637, em Évora, que é uma das grandes cidades portuguesas. Então vai haver uma cobrança, uma revolta popular ali. E acho que vamos reparar que a nobreza também não ajuda muito nessa revolta a acalmar os ânimos. A nobreza dá uma...
Então, deixa eles fazerem aí, eles tomam a cidade, os revoltosos tomam a cidade, e era uma cidade muito importante. Há uma conivência ali dos nobres e dos clérigos da cidade que é percebida desde de Madrid. E ali é o sul de Portugal também, ali próximo que a gente tem a Casa de Bragança e essa nobreza que está se articulando já.
enfim, dá o que vai para o nosso segundo bloco, que é o golpe de 1º de dezembro de 1640. E é legal, desculpa a gente hoje o hiperfoque em Oliveira França, mas também já serve para a gente difundir essa obra, porque quando ele vai discutir a crise do século XVII do ponto de vista espanhol, ele se interroga, né? Que crise é essa? Aí ele coloca...
Crise nos costumes? Aí ele diz, certo, havia na corte espanhola um gosto acentuado pelos prazeres, mas Madrid não era pior do que outras capitais. Depois ele se pergunta, decadência na cultura? Não, justamente o contrário, nunca o pensamento espanhol andou tão alto. Depois ele diz, crise econômica? Certo, mas crise econômica não quer dizer decadência.
a ruína, mas não a ruína de um organismo envelhecido, mas de um organismo em pleno vigor. Crise social, força é confessá-la. As pinturas de Velázquez são inesquecíveis, mas decadência, ainda não. Apenas uma crise decorrente das más condições econômicas. A verdadeira crise do Império Espanhol no século XVII, diz o Oliveira França, é a crise imperial. Não foi a Espanha que só sobrou.
Foi o Império Ibérico que se desagregou. A fragmentação desse império. Eis o drama que domina o século XVII. O grande drama do século. A conjuração das nações ocidentais para a liquidação do sauro peninsular. Muito legal, né?
A crise do século XVII na Espanha é uma crise imperial, quer dizer, uma crise talvez de legitimidade ou de funcionamento desse império que está sendo questionado em Nápoles, está sendo questionado em Portugal, está sendo questionado em várias de suas partes. Interessante essa passagem bonita.
E faz todo sentido para o próximo bloco que a gente vai entrar agora, porque um dos argumentos para que o golpe, quer dizer, a retomada do poder, a restauração, enfim, os nomes que a gente vai discutir no próximo bloco, é justamente essa crise que está acontecendo e Catalunha, que vai tentar se separar, e isso é um dos motivos pelos quais...
A escritografia argumenta que Portugal vai ver ali uma possibilidade de se revoltar. E antes da gente passar aqui para o segundo bloco, deixa eu fazer mais um check aqui na minha lista de dúvidas. Essa aqui, Carol e Dani, eu confesso para vocês que o dia que me perguntasse eu ficaria feliz que alguém estava pensando nisso. Nem sequer me incomodaria de não saber responder. Mas, por exemplo, Carol, quando a gente fala na união das armas,
De que esse exército português, né? Quem financia esse exército de Portugal pré-1640? Entre 1640 e 1888, eu entendo que é um exército já dos Bragança. Mas o que é esse exército português pré-1640?
Então, Rafinha, o que eu entendo é que não existia um exército português. Existiam casas que enviavam seus homens para essas batalhas. E aí essa ideia de unificar as armas era um ponto que não fazia sentido para eles, eu imagino. Essa nobreza não estava disposta a lutar essas batalhas que não faziam sentido para eles. É disso que a gente está falando de união das armas. Vai vir uma imposição de...ggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggggg
do Conde Duque de Olivares, que não vai ser aceita. E aí, diante de outras séries de questões que vêm acontecendo, dessa desagregação do império, como o Daniel comentou, isso vai somar, essa tentativa de união vai se somar a essa situação em Portugal e vai culminar, então, no 1º de dezembro. Perfeito, perfeito.
fazendo um check aqui muito bom na minha lista de dúvidas. O primeiro bloco do programa fica por aqui. Vamos entrar agora no segundo bloco do programa de hoje, discutir agora mais a fundo a própria restauração portuguesa.
Eu acho que vale a pena a gente começar um pouco antes, que é a ideia da organização do que fica depois conhecido como golpe. A historiografia já usa esse termo para tratar disso, então, ao invés de restauração, como a gente comentou, a restauração vai ser bem utilizada na historiografia posteriormente, por uma questão nacionalista portuguesa.
Mas o que entendemos hoje que aconteceu é que havia um governo, havia uma administração estabelecida que sofreu um golpe e um novo soberano foi colocado no poder. Então isso começa um pouco antes, a nobreza começa a se articular em torno da Casa de Bragança, que continua sendo a maior casa portuguesa, e, portanto, a ideia de restaurar, que vai ser construída depois.
A ideia de que Dona Catarina poderia ter assumido lá em 1580 e não assumiu, e que, portanto, agora a gente restaura esse poder, a gente conserta algo quebrado. A palavra não é escolhida à toa, ela nem é usada nos primeiros anos, ela vai aparecer depois. Então, a gente tem, na publicística, a gente tem...
A aclamação, a gente tem restituição, mas a restauração mesmo, esse termo vai aparecer depois, ele vai ser construído, a narrativa do que acontece ali vai ser construída depois e aí a palavra passa a ser utilizada, aí ela se torna a palavra a ser utilizada no que acontece em dezembro, no primeiro de dezembro de 1640.
E aí, então, esses nobres começam a se organizar ao redor de Dom João IV. A própria biografia dele e os oradores que trabalham, que estudam a Casa de Bragança, vão discutir que ele não estava disposto a comprar essa biga, o conde de Bragança, antes de ser Dom João IV.
Ele não estava disposto a comprar essa briga, ele não estava confiante de que isso poderia acontecer, então ele só chega em Lisboa depois que tudo aconteceu. Ele não está lá quando o golpe acontece, quando esses nobres tomam as ruas, invadem o palácio e acontece a defenestração de Miguel de Vasconcelos.
Então, o João IV não está ali, ele só chega depois. Então, o que acontece é essa organização ao redor da Casa de Bragança e aí o combinado que em 1º de dezembro de 1640, alguns nobres vão tomar alguns locais simbólicos ali em Lisboa e vão invadir o palácio, prendem a vice-rainha, jogam Miguel de Vasconcelos pela janela. Miguel de Vasconcelos era um...
um representante do conde Duque de Olivares ali, ele simbolicamente jogar ele pela janela faz sentido para aquelas pessoas, porque ele representa esse desmando de Duque de Olivares, então é por isso que a revolta vai muito para cima dele. E aí a gente tem por que isso vai acontecer nesse momento, que eu comentei no bloco anterior. Então, além de uma grande derrota naval que Castela vai sofrer, que era a chamada Batalha de Las Dunas,夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏夏
A gente tem uma grande rebelião acontecendo na Catalunha, que começou em junho de 1640. A ideia, então, de que Felipe IV não daria conta de enviar exércitos para os dois lados da península, tanto para a Catalunha quanto para Lisboa, e que há uma preferência, sim, em recuperar a Catalunha, que está ali muito próxima à França, já está fazendo seus acordos com o rei francês.
e que Portugal seria muito mais facilmente retomado posteriormente. Então, era preferível enviar essas pessoas para a Cataluña e deixar ali Portugal como está nesse momento. Então, é uma escolha consciente de que Portugal a gente consegue recuperar depois. O importante é que a Cataluña não passe para os domínios franceses e, portanto, há tanto uma escolha de Felipe IV ali, de seus juristas.
E também uma escolha dos portugueses de por que, nesse momento, fazer esse movimento ali em Lisboa. Porque percebem uma madri, uma castela enfraquecida, nesse sentido de que estão preocupados com outras frentes naquele momento. Carol, eu tenho duas perguntas que eu vou fazer ao longo desse bloco. A primeira é, você acha que a gente pode qualificar esse movimento português como revolução?
A gente sabe hoje que o termo revolução já é usado no sentido político no século XVII, em Nápoles ele aparece, é claro que não da mesma maneira que na Revolução Francesa, evidentemente, mas nas próprias revoluções inglesas, em Nápoles o termo aparece, significando ali uma mudança de governo, uma transformação, seja pensando nos usos, mas seja também pensando conceitualmente, você acha que a gente pode chamar esse movimento de revolução, mesmo ele sendo, claro,
tendo os olhos voltados para trás, mesmo ele falando numa reestruturação. Como é que você pensa isso, Carol? Olha, Daniel, eu não tenho uma resposta para isso. Nossa, pergunta ousada. O que eu comentei com vocês, que eu estava numa qualificação algum tempo atrás, era justamente essa questão levantada por um orientando do Luiz Felipe.
que ele está procurando restauração nos documentos que eu trabalhei no doutorado. Que é o Luan Vieira. Então, e assim, para aquele momento, a palavra não é utilizada em nenhum momento. Entre os portugueses, isso não acontece. A palavra revolução é usada para falar de outros locais, mas para o que eles mesmos estavam fazendo, não. O que eles estavam fazendo ali era...
era restituir, era algo... Na verdade, a restauração a gente pode até encarar como um movimento conservador, né? Que é voltar a um poder que foi perdido ali em 1580. Então, nos parâmetros de hoje, não sei te responder, não vou me entrar nesse debate, mas para os portugueses eu tenho certeza que não, que eles não vão ver como... Não vão usar o termo em nenhum momento para falar da restauração.
Legal, Carol, obrigado, porque isso também, né, não dá tempo de a gente pegar esse fio aqui, seria também um outro podcast, né, um debate historiográfico antigo, o próprio Oliveira França fala em revolução, tem aquele livro antigão do Merriman, né, as seis revoluções contemporâneas, para falar de Cataluña, Nápoles, Inglaterra, Portugal, né, o que seriam essas revoluções do século XVII, mas de fato...
pra gente fazer essa atribuição são muitas mediações mas é importante dizer pro ouvinte que é isso, na época eles não vinham a si próprios como participantes de uma revolução, muito menos como revolucionários aí essa adjetivação, esse neologismo, desculpa, revolucionário ele já é pé aí, sim, ele já é do final do 18 mesmo
Na verdade, a busca deles ali era legitimar, uma revolução naquele momento, acho que soaria mal no que estava acontecendo. Tanto que, posteriormente, nos próximos anos, se construir essa ideia de restauração, a gente também tem a ideia dos 40 fidalgos. Seriam 40 fidalgos que foram os responsáveis.
por essa restauração, por esse retorno, quando, na verdade, a gente já hoje em dia sabe que foram no máximo quatro. Então, o Rafael Valadares vai explicar isso, que é uma maneira de legitimar, colocar esses 40 fidalgos que estariam ao lado.
da Casa de Bragança, mas a Fidalguia, de fato, ela não vai se rebelar, porque ela está muito bem assistida por Felipe IV. Inclusive, havia muita gente em Madri que fica em Madri, e quem não ficou em Madri foge para Madri. Então, a gente tem uma fuga de nobres, literalmente uma fuga de barquinho saindo de Lisboa e indo para Castela.
porque era muito melhor, era mais benéfico financeiramente para as suas próprias casas, permanecer do lado de Felipe IV. Então, também é uma construção, a ideia dos 40 fidalgos. Ainda mencionando a Casa de Bragança, que segue sendo a maior casa portuguesa, e por isso é que essa...
essa revolta vai acontecer ao redor dessa casa, é pensar que eles continuam muito poderosos porque continuam fazendo esses acordos. E, por exemplo, Dom João IV, o rei que vai assumir, ele é casado com Dona Luísa de Gusmão.
ela é irmã do Duque de Medina de Sidona, ela é parente de Conde Duque de Olivares, então essa casa continua se organizando politicamente, apesar de isolada, ela não vai, eles não vão para Madrid, o Felipe IV chama Dom João para ir para Madrid, ele não vai, porque sabe ali os perigos que podem acontecer de um...
Fidalgo, como ele, ir para Madrida naquele momento. Então, essas alianças continuam sendo feitas com o passar dos anos, mesmo essa casa ficando ali no sul de Portugal, razoavelmente isolada numa questão geográfica.
Nesse momento ali, na década de 40, é que vão acontecer esses grandes movimentos de uma publicística muito grande, que a gente vai falar no último bloco do programa, mas vai acontecer também uma tentativa, ou ao menos uma discussão ali de que a Andaluzia também poderia se separar. Então, há um planejamento, a gente não sabe se houve mesmo um planejamento, ou se foram boatos que acabam.
complicando o irmão de Dona Luísa de Gusmão, que é esse nobre que eu falei, o Duque de Medina e Sidônia. E, para mim, quer dizer, chega Felipe IV que haveria um planejamento de uma separação da Andaluzia, esse Duque...
aparentado com a rainha de Portugal, e que talvez recebesse ali ajuda para que essa separação acontecesse, essa revolta acontecesse. E esse duque é chamado a Madrid e vai, para mim, surgir ali um dos documentos mais divertidos da restauração, que é o cartel de desafio. Esse duque vai fazer um desafio, vai desafiar de um João IV para um duelo. Então ele vai espalhar papéis.
pela Península Ibérica desafiando o Dom João Quarto para um duelo. Obviamente, o Dom João Quarto não vai se mexer, porque imagina que um rei faria isso. Mas o que acontece é que, em Portugal, vão publicar um papel no mesmo ano, escrito em primeira pessoa, em espanhol. A primeira pessoa é o Dom Quixote. Então, o Dom Quixote escrevendo um papel, fazendo um desafio também e tirando sarro dos espanhóis. Então, esse, para mim, é o documento mais divertido que tem ali nesse momento.
Porque Don Quixote, ainda que para a gente hoje seja uma obra-prima, nesse momento ele é visto como uma comédia. E ele acaba sendo um estereótipo espanhol nesse momento. Um cara bonachão, daquele chapéu meio ultrapassado, o bigode.
O estereótipo do espanhol vai ficar muito atrelado ao Don Quixote nesse momento, e aí a gente tem um papel escrito em primeira pessoa de Don Quixote envergonhado, porque os castelhanos só fugiam das batalhas e que o símbolo deles não deveria ser leões e sim galinhas, porque eles só fugiam.
Então, esse é o tom do documento. É impresso em Lisboa, ninguém está disfarçando ali que é um papel espanhol. Então, é impresso em Lisboa, em castelhano, mas com o Don Quixote falando em primeira pessoa, tirando o sarro dos espanhóis. Esse documento acontece porque há esse boato de uma revolta que aconteceria na Andaluzia. Então, essa é a ligação dele.
Mas são esses primeiros anos da década de 40 ali que são os fundamentais para a coroa de Bragança e para Dom João IV se estabelecerem no poder. Então, o que eu queria levantar também é que a gente tem o envio de embaixadas, por exemplo. Dom João IV vai fazer isso para uma série de países, de locais importantes que ele encontra, como Estocolmo, Roma, Haia, Paris, Londres. A ideia de que...
Era necessário conseguir apoio desses reis, do Papa, um apoio que nunca chega, no caso do Papa, o Papa nunca receberá nenhum dos embaixadores enviados, porque receber um embaixador português significaria concordar com essa nova coroa.
Esse é o argumento que a gente encontra. Então, as embaixadas são enviadas para diferentes locais. Inclusive, a gente tem o casamento da filha de Dom João IV com o rei inglês. Então, essa série de apoios vai sendo costurado nesses primeiros anos que são fundamentais para estabelecer. A gente praticamente não tem batalhas nesse momento, nessa primeira década. Por quê?
os soldados castelhanos estão na Catalunha, mas a gente tem movimentações nas fronteiras, a gente tem pequenas invasões, roubo de gado, essas coisas bem pontuais, e tudo aparece na publicística porque se queria publicar muito sobre isso. Mas é nesse momento que as embaixadas queriam chamar atenção para isso, porque esse movimento é...
movimento de apoio muito importante, então, Dom João IV vai enviar apoiadores da causa, familiares e religiosos para tentar ser ouvido em diferentes locais da Europa e conseguir apoio. Também quando você fala sobre esses estereótipos associados aos espanhóis, eu lembrei também de um texto do Ortega Gasset, não sei se você conhece, Carol, talvez conheça, sobre a soberba espanhola.
que o Ortega Gasset fala que a soberba espanhola é uma paixão nacional, é um vício étnico, e quando ele vai explicar as causas da soberba dos espanhóis, o Ortega diz que a soberba é uma reação contra uma hierarquia de valores muito forte que anula o indivíduo. Então, na verdade, a soberba seria uma reação íntima de afirmação de si mesmo contra uma realidade que é, na verdade, o oposto a isso.
Ele fala que é uma enfermidade da função estimativa, esse termo que o Ortega usa, um hermetismo para o exterior. Acho interessante estudar a história também desses estereótipos, e acho bem bacana. Eu escrevi um textinho sobre isso naquele livro que saiu na...
Federal de Pernambuco, eu acho que a gente estava comentando com Camila, que é o estereótipo espanhol e ele vai aparecer enquanto mentiroso, enquanto bonachão, alguém ultrapassado, isso ele vai aparecer em diferentes papéis de diferentes locais com esse estereótipo. E o Don Quixote vira, nos desenhos que aparece, aparece ali essa figura do Don Quixote enquanto representante dos espanhóis. Muito bom.
Seguindo, pensando esses anos da restauração, que vai de 40 a 1668, a gente também chama a atenção que o filho que vinha sendo preparado para assumir o trono após Dom João IV era Dom Teodósio. Era um príncipe descrito como inteligente, como habilidoso, que estava ali sendo formado para essa função.
e falece aos 19 anos. Então, deixa o trono para o próximo herdeiro na linha, que era Dom Afonso VI. A gente tem, então, Dona Luísa de Gusmão assumindo como regente por alguns anos e uma disputa de poder, porque Dona Luísa acaba demorando para transferir o poder para Dom Afonso VI, é muito possivelmente por uma inabilidade de Dom Afonso de governar. Então, ele é descrito pela historiografia, mais pelos documentos, e esses documentos acabam alimentando a historiografia.
como uma pessoa inapta para o governo, uma pessoa doente, uma pessoa que fazia o gazarro pela cidade, e isso acaba entrando para a historiografia. O que eu queria chamar a atenção é que, na biografia escrita pela Ângela Barreto e o Pedro Cardin, a gente lembrar
que essa documentação que acaba abastecendo a historiografia detratando mal o Afonso VI é uma documentação escrita pelos inimigos. A gente vai ter uma disputa de poder entre Dom Afonso VI e Dom Pedro II, não o nosso Dom Pedro II, Dom Pedro II ali é irmão de Dom Afonso VI nessa época, e o documento que chega para a gente são essas pessoas apoiadoras de Dom Pedro II que vão escrever mal, vão tratar mal o Afonso VI.
Então, sempre bem lembrar que essas biografias também são construções, e ainda que ele tivesse ali alguma doença, talvez parte do que a gente conhece de João Afonso VI tenha sido escrito por pessoas que estavam deliberadamente difamando esse monarca, que logo depois, no final da guerra ali, ele vai perder o poder para Dom Pedro II de fato, e vai ser...
enfim, colocado num quarto até sua morte. Então, a gente tem essa disputa de poder ali dentro da Casa de Bragança mesmo, entre Afonso VI e Pedro II depois. Mas é isso, a gente tem uma regente, a Dona Luísa, que vai ficar no poder há alguns anos, e no final, ali na década de 60, é que teremos, de fato, as grandes batalhas que aconteceram na restauração.
Em 1944, a gente teve uma grande batalha, a Batalha de Montijo, mas depois vai ser isso, vão ser encontros muito pontuais nas fronteiras, até na década de 60, temos as grandes batalhas e, de fato, uma vitória bélica portuguesa sobre os castelhanos. Carol, eu queria fazer uma pergunta, de novo a partir da Oliveira França, mas não só, isso também está em outros trabalhos. Seg post crazy.
crônico, mas também um pouco fora de moda. As origens ideológicas da restauração portuguesa. Porque o França, ele dá uma ênfase grande à discussão da Escolástica Espanhola, da chamada Segunda Escolástica, ou Escola de Salamanca, mas que também tem um papel importante em Coimbra, em Évora, essas discussões. Vou até ler aqui de novo, para o nosso ouvinte escutar, porque ele escreve bonito. Ele fala assim...
Os campeões do novo aristotelismo em Coimbra ou em Évora foram jesuítas. Foi o pensamento jurídico-teológico dos jesuítas que deu o lastro doutrinário do movimento da restauração. A sua justificação moral teórica, e por ironia, jesuítas espanhóis, o ponto de partida. Mariano, depois ele cita Souza de Macedo, Molina, Soares, enfim. Aí ele cita uma série de autores. Você acha que isso ainda é coerente?
Talvez isso seja uma parte da discussão e nem de longe o todo, ou totalmente incoerente. Como é que você enxerga isso, Carol? Eu acho que continua fazendo sentido, Daniel. Inclusive, os jesuítas são grandes apoiadores, desde o início da Casa de Bragança e do movimento que acontece em 40. Então, acho que seguimos. Talvez tenha aprofundado isso, mas acho que não foge muito até os dias de hoje.
Ah, legal. Bom, inclusive a gente precisa fazer um dia um programa aqui sobre a segunda escolástica, a escola de Salamanca. Acho que é um temão para a gente fazer. Tem muita gente que estuda, mas ao mesmo tempo é um tema pouco conhecido do público externo na universidade, embora seja muito conhecido e muito trabalhado, quem está na universidade. Sugestão aí para o futuro, para mim mesmo.
Acho que eu só finalizo, então, o bloco sobre a restauração, dizendo, então, que a gente tem essas grandes batalhas no final e que vai haver vitórias portuguesas muito significativas, muito importantes nessas batalhas, Batalha de Ameixal, Montes Claros, vai ser muito divulgado, vai haver grandes publicações sobre isso.
E em 68, por fim, assinado o tratado e a separação se estabelece. Cara, eu só queria fazer uma pergunta aqui para a gente encerrar o bloco, então, e a minha última dúvida da minha lista aqui. Na verdade, eu quero fazer uma observação antes de mais nada, porque...
Eu só queria deixar registrado aqui nesse programa que eu fiquei muito satisfeito com a mensagem clara e estabelecida de que as pessoas de bigode representam a sátira do Bonachão. Acho que isso é importante para a gente estabelecer e dar continuidade nas histórias paralelas desse podcast. E a segunda coisa... Meu bigode está tendo amplo apoio aqui na FFLASH.
Não, porra, que excelente. A gente vai chamar de Dom Quixote Gomes de Carvalho. Que é uma questão, Carol, que aí a minha dúvida de entender o quanto isso é a tentativa da gente construir uma linearidade dentro do ensino básico. Porque a gente costuma trabalhar essa ideia de que a restauração...
É o momento em que os Bragança geram uma proximidade político-diplomática com as casas reais inglesas e usar isso como um ponto de partida para construir a narrativa da dependência econômica que os Bragança e, consequentemente, Portugal vão ter com a Inglaterra.
E dentro da sua narrativa isso pareceu não se destacar. Isso de fato faz sentido, Carol? Ou é mais essa construção de uma linearidade que é tão recorrente quando a gente trabalha no ensino básico?
Eu não sei se a gente consegue falar desde essa época, porque a força que a Inglaterra vai ter posteriormente, eu não sei se ela começa ali. Não sei se é forçar muito, sabe? Remeter a Casa de Bragança. Porque as embaixadas enviadas nesse momento são muito específicas para a questão da guerra que está acontecendo, para enfrentar.
a Espanha. É muito mais procurar os inimigos de Felipe IV do que estabelecer, de fato, essas alianças que vão se consolidar posteriormente. Perfeito, perfeito. Acabaram o meu checklist de dúvidas aqui, nesse momento. E assim como o meu checklist de dúvidas, também acabou o segundo bloco do programa. Vamos ao terceiro e último bloco do programa falar sobre as notícias impressas.
Bom, a gente pode chamar esse momento, sobretudo da Guerra da Restauração, do que fica conhecido na historiografia como Guerra de Papel, que é um termo que é utilizado em diversos momentos em que as pessoas daquela sociedade estabelecem, percebem, a relevância da publicação como uma ferramenta ali para estabelecer o que elas estão organizando na Guerra de Papel.
A gente vai ter uma publicística impressa, sobretudo, porque é de mais rápida circulação, dos dois lados, de Portugal e de Espanha, que a gente vai falar mais de Lisboa aqui, de Portugal, mas a gente tem uma grande quantidade de material impresso nesse momento.
Uma unanimidade que Portugal ganha, no caso desse enfrentamento entre Lisboa e Madrid, há uma grande quantidade, muito superior, sendo feita em Lisboa, há uma percepção ali de que esses papéis importam para conseguir alianças e para estabelecer esses...
esses apoios em diferentes locais. Então, logo nos primeiros anos, vai haver uma quantidade muito grande do que a gente chama de relações de sucesso, que são esses documentos impressos rápidos, baratos, que circulam muito pelas cidades, de maneira oral também, a gente tem o próprio documento, às vezes.
colocando ali que esses textos são lidos por cegos pela cidade, então, cantados em suas violas, a gente tem uma relação do sucesso que fala isso, e papéis que vão trazer, como eu disse, qualquer coisinha pontual acontecendo nas fronteiras, eles estão publicando para enaltecer as pessoas que estão inseridas nesses pequenos encontros que acontecem nas fronteiras, mas também para demonstrar.
qualquer pequena vitória que Portugal tenha nesse momento de conflito. Então, os primeiros anos ali, 41, 42, é onde vai ter a maior quantidade de relações de sucesso impressas. Estou falando assim de uma centena de relações impressas, e só em Lisboa, que acaba se tornando um grande centro impressor nesse momento. Então, relações de sucesso são esses documentos, e esse formato existe por toda a Europa nesse momento.
com nomes traduzidos, mas relações de sucesso, reações de sucesso e todas as suas variantes existem em diferentes locais no continente europeu. Então, a gente trata ali de um documento que, no momento, começa a ser discutido e analisado a partir da questão nacional, quer dizer, a historiografia vai estudar as relações de sucesso portuguesas, as relações espanholas, mas nos últimos anos a gente identifica já que esse é um movimento ou...
transnacional, né, o movimento, esse tipo de documento é impresso por toda a Europa. Então, de novo, né, documentos pequenos, curtos, muito baratos, que acabam, inclusive, financiando as casas impressoras. Era muito mais rápido, muito mais garantido imprimir quatro, oito folhas e vender, e isso, né, traria um recurso financeiro rápido, do que imprimir uma grande obra, que vai levar ali algumas semanas, que pode cair nas malhas da censura, e aí você...
o impressor perder esse investimento ou quem está financiando. Então, as relações de sucesso vão ser muito produzidas nesse momento. E Lisboa produz uma série dessas, muita coisa digitalizada, inclusive, se alguém tiver interesse em ver um documento como esse, tanto a Biblioteca de Portugal quanto a da Espanha, eles digitalizaram muita coisa já, porque muita gente vem estudando esse material nos últimos anos.
E as pessoas podem encontrar esses documentos digitalizados em sites como o Paris, da Espanha. Qual outro você recomenda para o pessoal, Carol?
Na maioria, na Biblioteca Nacional de Portugal e da Espanha, as hemerotecas têm esse documento digitalizado. Muita coisa, não tem tudo, mas muita coisa está digitalizada. Porque a historiografia demorou a estudar esses documentos, porque via como um documento menor, um documento efêmero. Muita coisa nem chegou para a gente, porque eram papéis que circulavam muito rapidamente, também se perdiam.
Mas foi nas últimas décadas que começou a se olhar para essa documentação como uma fonte também de pesquisa. E agora tem muita coisa digitalizada. Então, as duas bibliotecas, imagino que nas outras também, mas pensando na Fenônia e do Ibérico, as duas principais têm muita coisa digitalizada. Dá para acessar muito tranquilamente, de maneira gratuita, todo esse material. A Carol também tem trabalho sobre história digital, tudo de documentos digitalizados. Ela também pensa isso, né?
Desculpa aí, vou citar mais uma vez a Oliveira França, mas é porque ele fala disso no começo do livro, né? Ele fala assim, consolo de pobre que quer trabalhar para se referir à dificuldade de um professor aqui no Brasil para ter acesso a fontes primárias. Poxa, muito do meu trabalho aqui vai ser de síntese, vai ser a partir de trabalhos já prontos, porque essas fontes não estão acessíveis para mim aqui no Brasil, aqui em São Paulo, né? Mas hoje é coisa diferente, hoje, enfim.
a gente tem esse acesso, que também deve ser discutido como, né, Carol? Você discutiu isso lá na Pus, São Luís do Maranhão, quatro anos, mas enfim, seja como for, essas coisas estão acessíveis, dá pra trabalhar, ver, é bem legal.
Hoje a gente tem um excesso de documentos e de bibliografia acessível de maneira online. Até, nossa, eu li 20 livros, mas aí na banca vai alguém e te pergunta, não, mas aquele outro lá está disponível, por que você não leu? Então a gente tem o excesso de documentação e de bibliografia nos dias de hoje. É o contrário.
além das relações de sucesso, essas documentações, essas publicações mais efêmeras e curtas, a gente vai ter os periódicos de notícias que também passam a ser publicados. Então, o primeiro periódico de notícias portugueses que a gente...
sabe, nos dias de hoje, é uma gazeta que entra para a historiografia como uma gazeta da restauração, embora ela não tenha esse nome, ela ganha esse da restauração posteriormente. Ela era só gazeta, que é uma palavra que já circulava pela Europa para tratar de periódicos. Então, é uma palavra que já era usada em Paris, já era usada na Itália, então...
a gente tem a Gazeta também portuguesa nesse momento. Não é à toa que ela começa em 1941, é nesse boom mesmo de publicações que o primeiro periódico português existe. E aí a gente tem ali, não há uma...
estabelecido quem que estava editando, quem eram os autores, mas já foi feito, por exemplo, uma comparação com a Gazeta Francesa e muita coisa que estava sendo publicada em Paris era só traduzido para Lisboa. Então, as notícias de fora do reino, que se chama no documento, eram muitas notícias que vinham e eram só traduzidas para Lisboa. Nos primeiros anos, ali em 1941, há notícias sobre a guerra e depois essas notícias param de aparecer na Gazeta.
E aí a gente tem grande maioria das notícias de fora do reino. Então, é um documento que também está acessível online, tem ele publicado também. Então, um pesquisador português fez uma edição.
no início do século XXI, se não me engano, acho que 2003. Então, a gente tem ela publicada nos dias de hoje, tem o acesso online, um PDF, muito fácil de acessar, mas é o primeiro periódico português que se conhece, é publicado nesse momento. Não à toa, de novo, há um reconhecimento ali de que importava publicar e fazer essas notícias circularem. Tanto que as relações de sucesso...
muitas delas, nesses primeiros anos da guerra, vão aparecer como financiadas pelo livreiro da Casa de Bragança. Então, essa informação aparece ao final do documento. Há um reconhecimento ali e também uma disputa, que eu acho que vale a pena mencionar, que a gente tem uma censura em Portugal, que é uma censura tríplice. Qualquer empréstimo deveria passar por uma tríplice censura da Inquisição, da Igreja e da Coroa.
E há algumas, pelo menos um processo que eu encontro, de um impressor que não passa pela inquisição uma publicação muito simples, uma relação de sucesso com uma descrição, assim...
bobinha, sabe, de um encontro ali nas fronteiras e tratando da guerra, e ele é chamado diante do Tribunal de Santo Ofício justamente para perguntar por que ele estava publicando algo que não passou pela Inquisição. O argumento dele é que, ah, mas a coroa aprovou, eu achei que não precisava. O que a gente sabe que...
É uma mentira, né? Certamente ele sabe que ele tem que passar pela Inquisição qualquer coisa, mas quando ele diz isso, o inquisidor, a gente tem, a Torre do Tombo digitalizou esse processo e o inquisidor responde que, mas veja bem, o rei vai te salvar de uma excomunhão? Então, há uma disputa ali, também, pensando a censura, como eu disse, a Inquisição ali, a tríplice censura vai fazer com que, às vezes, um documento não possa circular, a gente tem que...
Nos grandes documentos, nos livros, livros muito grandes, a gente tem todas as licenças descritas no início. Então, o documento vai e volta. Ele pode publicar desde que volte aqui impresso para a gente conferir se o impresso está igual, o manuscrito. Essa descrição das licenças aparece nos livros dessa época. Nas relações quase não aparece, porque são papéis muito curtos e muito baratos, mas a cobrança de que não se pode publicar sem a censura.
ela aparece. Então, a gente tem esse impressor que é chamado de anjo do santo ofício, e a gente tem um segundo impressor nessa época que imprime algo que a gente chama de um papel pirata, um papel que é impresso em Portugal, mas dizendo que foi impresso em outro lugar, enfim, esse papel chega a ser impresso e aí ele é proibido de imprimir, porque ele não passa pelas censuras adequadas. Então, a gente também tem um processo.
Então, há um controle muito grande ali, né? A gente tem alguns impressores sempre imprimindo essas relações e esses documentos, mas o controle existe e os impressores são punidos caso eles descumpram essa censura obrigatória. E, Carol, como é que se dava efetivamente esse tipo de vigilância, né? Porque hoje muitas pessoas podem perguntar, poxa, mas...
Dada a precariedade dos meios técnicos naquele momento, não seria relativamente fácil fugir da censura? Ou, na verdade, uma impressora não é uma coisa fácil de esconder e é mais ou menos fácil de vigiar. E efetivamente quem vigiava, só para os nossos ouvintes saberem e entenderem essas coisas.
Eu acho que muita coisa funcionava na base da denúncia, porque uma impressora era algo muito grande, não existia uma impressora escondida numa casinha. No temporano, né? Era uma coisa cara, era grande, imagino que barulhenta.
A gente tem um aluno meu que vem estudando uma impressora e ela foi uma mulher que imprime na Espanha e ela tem um processo de que ela fazia as tintas no quintal e as tintas cheiravam muito mal. Então, assim, não era algo escondido. Acho que o que acontecia era como esse impressor imprimir alguma coisa, circular e chegar nos ouvidos da censura, da inquisição, de que aquilo ali tinha saído da casa dele.
não tinha... Imagino que precisa de esse tipo de controle, Daniel, que a gente está falando, sabe? De denúncias mesmo. Ou, no caso desse primeiro impressor que eu falei, ele imprimiu, circulou, e aí sempre que se imprime um papel aparece o nome do impressor, e aí não tinha a licença completa, porque ele não enviou para uma das três obrigatoriedades da censura em Portugal.
Então, era nesse sentido o controle. Livros eu não conheço, porque eu trabalhei mais com as notícias, mas com essas notícias eu tenho esses dois impressores que foram processados, ou pelo menos, no caso desse primeiro, foi chamado diante do inquisidor para se explicar. Obrigado.
O segundo periódico de notícias desse período, que se chama Mercúrio Português, aí sim ele vai ser escrito e publicado justamente para tratar da guerra. Então, número um, o autor, que é o Macedo, que é o secretário de Estado de Dom Afonso VI, ele vai dizer que o Mercúrio Português é publicado para enfrentar as mentiras castelhanas espalhadas pela Europa sobre a guerra.
Então, essa é a função do Mercúrio, segundo ele. E, além disso, ele também vai enaltecer muito Dom Afonso VI. Ele também tem, o primeiro número é voltado para descrever a rotina de Dom Afonso de antes, governando agora enquanto rei.
Então, ah, Dom Afonso acorda, Dom Afonso almoça na frente da corte, ele vai cavalgar, ele recebe as pessoas das quartas e quintas, enfim. É uma descrição para demonstrar o quanto que Dom Afonso está apto para o governo, né? Lembrando que há essa disputa de poder ali com o irmão dele e que ele vai acabar, sim, sendo retirado do poder.
Mas a gente tem essas duas grandes publicações periódicas. A Gazeta vai e volta, tem alguns meses em que ela não aparece, mas o Mercúrio vai de 63 a 67 mensalmente, inclusive com edições extraordinárias. E todas elas também estão online na Biblioteca de Portugal, se alguém tiver interesse. O Mercúrio já são umas 800 páginas, porque, como eu disse, ele é...
mensal e às vezes as descrições das notícias ocupam muitas páginas. Então pode ser um mês que quase não teve atividade e a gente tem quatro páginas, como pode ser o casamento de Dom Afonso e a gente tem acho que mais de 20 páginas da descrição das festas que se fazem quando o casamento acontece. E tudo isso para demonstrar um poder português diante de Castela e diante...
desse conflito. Então, Mercúrio tem essa função estabelecida e já divulgada logo no primeiro número, de discutir a guerra e divulgar as vitórias portuguesas.
Poxa, Carol, muitíssimo obrigado pela sua participação aqui, muitíssimo obrigado por me ajudar com a minha empreitada pessoal de finalmente dar essa aula sem sentir o desespero de alguém fazer as perguntas que eu te fiz e que você também me respondeu. Ainda que, confesso pra vocês que, infelizmente, a chance de alguém me fazer alguma daquelas perguntas tem sido cada vez menor, mas eu dormirei mais tranquilo.
A partir de hoje, podem ter certeza disso. Carol, espero que você volte mais vezes aqui para a gente falar mais sobre impressos, sobre outras pesquisas também que você vem desenvolvendo. E o pessoal que está escutando, se tiver mais interesse, vá atrás. Procura aí no Google os trabalhos da Carol. Vocês vão gostar bastante. Eu lembro que eu estava, o ano passado, no evento de História do Livro, lá em St. Andrews, na Escócia. O pessoal mencionou o seu trabalho. Então, muito legal. E obrigado demais por ter vindo aqui.
Obrigada, gente, mais uma vez pelo convite. A tese está disponível online, né? Quem tiver interesse nesse tema, além da bibliografia, acho que a gente pode até indicar alguma coisa depois na descrição do podcast, um livro ou outro que o pessoal queira ler sobre isso, mas a tese está online, meu nome no Google e tese deve aparecer. Também estou à disposição para qualquer dúvida que surja, professores universitários, todas as informações no Google, fiquem à vontade para me escrever.
Perfeito. E muito obrigado a você que escutou a gente até aqui. Não esqueçam de seguir a nossa página no Instagram, no arroba História Pirata, e continuar, se for a sua questão, essa conversa por lá no post referente ao episódio de hoje. É isso, tamo junto e até o próximo programa. Valeu, pirataria!
O que é isso?
Bruno Leal
Livro "História em Público"