Episódios de Quinta Misteriosa

O CASO ALBERT FISH #606

08 de julho de 202630min
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Por seis anos, uma carta nunca chegou. Quando finalmente chegou, em 1934, ela respondeu a uma pergunta que uma família guardava desde 1928 — e revelou um dos casos mais perturbadores da história criminal americana. O remetente era alguém quase invisível em qualquer rua de Nova York, um dos assassinos em série mais sádicos que o país jamais havia visto. #606

Participantes neste episódio1
G

Gisberta Salsi Jr.

Narrador
Assuntos7
  • Carta manuscrita de Jair BolsonaroCarta anônima · Confissão de assassinato e canibalismo · Detetive William F. King · Emblema hexagonal da New York Private Chauffeurs
  • Vida dupla e crimes de Albert FishAbuso de crianças · Pintor e decorador · Prostituição com homens · Vítimas invisíveis e marginalizadas · Fantasias de castração
  • Peixes-boi MarinhosAlbert H. Fish · Pensão e vigilância policial · Confronto com a polícia · Confissão imediata
  • Casos de crime (true crime)Francis McDonald · William Billy Goffney · O Homem Grisalho · Julgamento por homicídio em primeiro grau · Alegação de insanidade · Condenação à morte
  • O caso Grace BuddDesaparecimento de Grace Budd · Família Budd · Frank Howard (pseudônimo) · Investigação policial
  • Infância e traumas de Albert FishHamilton Howard Fish · Orfanato St. John's · Histórico familiar de doenças mentais · Abuso e associação de dor com prazer · Mudança de nome para Albert Fish
  • Legado e consequências do casoPsiquiatria forense · Automação e agulhas · Limitações do sistema legal · Famílias das vítimas · Filhos de Albert Fish
Transcrição6 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz B

Grace Budd nasceu em 1918, em Nova York, durante a Era de Ouro da cidade. Era filha de Delia Flanagan Budd e Albert Francis Budd Sr. Ela tinha 3 irmãos, 2 mais velhos e um mais novo que ela. A família Budd era uma família que lutava contra as dificuldades econômicas da Grande Depressão, que aproximava-se do horizonte. O pai da Grace trabalhava como ajudante de cozinha quando conseguia emprego, mas os tempos eram incertos. A sua mãe, Dely, era dona de casa, responsável por manter a família unida num apartamento apertado na Rua 15 Oeste, em Manhattan.

E eles viviam em uma casa simples, mas com amor. O irmão mais velho da Grace, Edward, 8 anos mais velho que ela, era o seu protetor e seu exemplo de alguém que buscava trabalho pra ajudar a família. Em 1928, a Grace tinha 10 anos. E não havia nada nela que a marcasse como diferente de qualquer outra menina da sua idade. Ela era uma criança comum, com os sonhos simples das crianças da época. Divertimentos eram limitados pela pobreza da família.

Por isso, qualquer promessa de diversão, por mais simples que fosse, era recebida como um presente. Em 28 de maio daquele ano, o Edward, então com 18 anos, publicou um anúncio procurando trabalho num jornal de Nova York. Ele queria uma posição no interior pra ajudar no orçamento apertado da família. 3 dias depois, no dia 31, um homem respondeu ao anúncio. Ele se apresentou como Frank Howard, um fazendeiro de 58 anos de Farmingdale, disposto a pagar $15 por semana pelo trabalho do Edward.

Quando ele visitou o apartamento dos Budd pela primeira vez, ele conquistou a família imediatamente. Trouxe presentes queijo cottage, morangos. Ele almoçou com eles como se fosse um parente distante. Adele, a mãe da família, descreveria mais tarde aquele homem dizendo que ele parecia um avô gentil, de mãos trêmulas e voz mansa. Ele era tudo que uma família na miséria poderia desejar: um homem de posses, educado e interessado em ajudar.

Ninguém sabia que aquele homem era uma mentira e que tudo que vinha dele era morte. No dia 3 de junho daquele ano, o Frank volta ao apartamento da família Budd. Era um domingo e o que a família não sabia era que o Frank tinha um plano desde o início. Desde o momento que ele se aproximou da família, esse plano já existia. E nesse dia, ele decidiu que ele não queria mais o Edward. Porque ele imaginou que, como ele já tinha 18 anos, ele poderia ser forte demais.

Ele com certeza conseguiria se defender. Então, naquele domingo, a Grace, em algum momento, senta no colo do Frank e sorri pra ele. E a partir daquele segundo, ele decidiu que agora ele queria ela. E aí, ele inventou uma história pra família. Disse que ele tinha uma festa de aniversário da sobrinha pra ir. E perguntou se ele poderia levar a Grace com ele, dizendo que ela ia se divertir muito e tudo mais. E como eu falei pra vocês, os Buddger eram uma família muito pobre.

Então, qualquer promessa de divertimento pra eles Era muita coisa. Então, a família confiando naquele homem, imaginando que a Gracie ia ter um dia incrível que eles não podiam proporcionar, eles aceitaram. Então, eles colocam as melhores roupas nela. E aí, ela super animada sai de casa naquele dia acompanhando o Frank. Só que ela nunca mais voltou. Então, logo depois, a família entra em contato com a polícia de Nova York. Eles espalharam cartazes, uma busca começou pela Gracie.

Os jornais publicaram a foto dela. E a família tava vivendo ali um pesadelo, sem ter ideia do que tinha acontecido com ela, sem ter ideia... De pra onde o Frank tinha levado. As semanas se tornaram meses, a busca continuava, mas eles não tinham pista alguma pra seguir. Rapidamente, a família percebeu que aquele nome que foi apresentado a eles, né, de Frank, era um nome falso, ele não existia. Não havia evidência forense, aquela propriedade que ele disse que tinha e que inclusive ele tinha oferecido, né, o trabalho pro Edward, não existia também.

Ou seja, a polícia não tinha nada pra trabalhar, né, naquela busca. Eles não tinham absolutamente nada. Então, os meses se tornaram anos, e ao todo foram 6 anos. Esperando por alguma pista, esperando que a Grace fosse aparecer. A família acreditava que ela poderia estar vivendo uma nova vida com outra família. Mas eles realmente acreditavam que ela tava viva. Talvez morando em outra cidade. Então, eles sempre tiveram essa esperança de que ela estaria bem e que em algum momento a resposta viria.

A mãe dela nunca deixou de procurar, o irmão também. E aí, depois de 6 anos, eles recebem uma carta. No dia 12 de novembro de 1934, eles recebem essa carta que não tinha remetente. A Adélia não sabia ler. Então, quem leu foi o Edward, agora com 24 anos. Ele começou a ler em voz alta o que tava escrito ali. E aquela mensagem deixou a família inteira chocada. Essa carta era uma confissão extremamente detalhada onde o homem, né, que se apresentou como Frank, que sequestrou a Grace, dizia tudo o que ele tinha feito com ela, como ele tinha levado ela, como ele havia matado e como havia parcialmente a comido.

O texto também incluía um relato fabricado sobre canibalismo durante a fome da China. Usado como uma espécie de prefácio, pra justificar moralmente o próprio ato. Como se dando uma explicação pro que aquele monstro fez, aquilo pudesse se tornar mais aceitável. Eu não vou reproduzir os trechos dessa carta aqui pra vocês, porque ela é realmente terrível. Tem online pra quem tiver estômago e quiser ler, não recomendo que vocês leiam.

O suficiente daquela carta acabou chegando às autoridades e à imprensa. E eles não tinham dúvidas de que a carta era autêntica. Aquela carta respondeu uma pergunta que a família Byrd carregava ali por 6 anos, né. Tentando imaginar o que teria acontecido com a Grace. Mas a resposta foi muito pior do que eles poderiam sequer pensar. O detetive William F. King, da polícia de Nova York, já se dedicava ali à investigação do desaparecimento da Grace por anos.

Desde 1928, quando ela tinha desaparecido, ele nunca desistiu daquele caso, nunca desistiu de investigar e de tentar encontrar uma resposta. Então, quando essa carta chegou até a polícia, ele começou a examinar meticulosamente Cada pedacinho daquela carta, que como eu falei, não tinha remetente. Mas ela tinha um detalhe que era bem pequeno e facilmente ignorável, que era um emblema hexagonal. Tava ali impresso no papel, e o monograma dizia New York Private Chauffeurs.

O detetive sabia que aquilo era uma pista forte pro caso. Não havia motivo pro remetente usar um papel timbrado, a não ser que ele tivesse acesso a esse papel. Ou ele trabalhava nessa associação, ou ele conhecia alguém que tinha trabalhado lá. Ele sabia que havia alguma conexão. Do assassino com essa empresa. O detetive passou a investigar meticulosamente cada membro da New York Private Shoemakers Benevolent Association. Ele procurava por alguém cuja caligrafia coincidisse com a da carta.

Era um trabalho tedioso comparar a letra de dezenas de homens, linha por linha, palavra por palavra. Mas era tudo que ele tinha. A investigação levou a um homem chamado Joseph Mancini. Ele admitiu que havia levado algumas folhas de papel timbrado da associação pra sua casa. Mas disse que as havia deixado numa antiga pensão onde havia trabalhado como zelador quando ele mudou de emprego. O William rastreou imediatamente o que tava acontecendo.

Acontecendo. O remetente da carta havia deixado um rastro inteligente, mas não perfeito. Ele havia usado o papel de uma associação específica para enviar a confissão, papel que ninguém mais teria. Mas ele havia cometido um erro crítico: havia usado a mesma pensão para receber uma carta do filho, criando um ponto de contato que a polícia podia monitorar. O detetive organizou uma vigilância, instruindo os funcionários e a proprietária a avisar a polícia imediatamente quando o homem retornasse para buscar a carta do filho.

Dias se passaram até que em 3 de dezembro de 1934, quase um mês após a carta ter chegado à família Budd, um homem com as descrições que a polícia buscava Ele retornou à pensão procurando por sua correspondência. A proprietária o reconheceu imediatamente e acionou a polícia conforme combinado. Os detetives estavam esperando, então quando eles abordaram o homem, ele reagiu com violência inesperada. Sacou uma navalha contra os policiais, como se estivesse prestes a se defender de um ataque físico ou prestes a atacar.

Mas os policiais foram mais rápidos. Eles conseguiram conter aquele homem sem muita dificuldade. Foi na delegacia que ele se identificou como Albert H. Fish. Quando perguntaram se ele havia matado a Grace Budd, ele não negou. Pelo contrário, ele confessou de imediato, como se ele estivesse esperando por aquilo. Ele guiou os investigadores até uma casa abandonada em Westchester, onde os restos da Grace poderiam ser encontrados.

Ele descreveu com detalhes terríveis exatamente o que ele havia feito. A carta que a família Budd havia recebido, por mais perturbadora que fosse, havia finalmente trazido respostas. Mas agora nasciam novas perguntas. Quem era esse homem? Por quanto tempo ele tava fazendo isso? E quantas outras crianças ele havia matado. Robert Fish nasceu no dia 19 de maio de 1870, em Washington, D.C. Mas o seu nome, quando ele nasceu, era na verdade Hamilton Howard Fish.

O seu pai, Randall, era capitão de barco no Rio Potomac. Um homem que tinha 75 anos quando ele nasceu. Já a sua mãe, Ellen, tinha apenas 32. A diferença de idade entre seus pais era o primeiro sinal de uma vida que nunca seguiria um padrão normal. Quando ele tinha apenas 5 anos de idade, o seu pai morreu de ataque cardíaco. A sua mãe se viu financeiramente incapaz de sustentar a casa sozinha com 4 filhos. Em desespero, ela colocou o mais jovem, o Albert, no orfanato de St.

John's, em Washington, em 1875. Ficando apenas com os filhos mais velhos: Walter, Annie e Edwin. O Albert morou lá por 4 anos, dos 5 aos 9. E foi ali que tudo começou a se distorcer. O orfanato era um lugar de espancamentos rotineiros. Segundo seus relatos, ele assistia a outros meninos sendo açoitados repetidamente. Os gritos ecoando pelos corredores. Os funcionários usavam correias e varas de madeira. Pra muitos meninos, era apenas trauma.

Mas pra ele, algo diferente tava acontecendo. O Albert começaria a associar a dor com prazer. Oliver, uma conexão perturbadora que o acompanharia toda a vida. Décadas depois, ele diria que aquele lugar arruinou sua mente. Mas tinha algo mais. A família dele carregava um histórico pesado de problemas de saúde mental que transcendia qualquer orfanato. Um tio sofria de mania religiosa, o seu irmão Edwin havia sido internado numa instituição psiquiátrica estadual, sua irmã Anne havia recebido o diagnóstico de aflição mental.

E havia também um meio-irmão que era esquizofrênico, filho do seu pai de um relacionamento anterior. Já a mãe dele, a Helen, sofria de alucinações auditivas e visuais. Ela via coisas e ouvia vozes que não existiam. A genética do Albert era uma bomba-relógio mental. Em 1879, quando ele tinha 9 anos, a sua mãe conseguiu um emprego estável no governo e finalmente tinha recursos pra tirá-lo do orfanato e trazê-lo pra casa. Além de deixar pra trás o orfanato, foi nesse momento que ele mudou o seu nome.

Quando ele estava no local, ele ganhou o apelido cruel Ham and Eggs, que é presunto e ovos. Uma rima infantil com o seu nome, que era Hamilton. Então, assim que ele saiu, ele decidiu abandonar completamente esse nome e escolheu ser chamado de Albert, um nome que havia pertencido a um irmão falecido. Era um renascimento em nome apenas, porque o menino interior continuava sendo o mesmo. A partir daquele ponto, ele já se tornaria Albert Fish.

Durante os anos seguintes, de 1879 até 1890, o Albert viveu com sua mãe e irmãos em Washington. Ela conhecia o comportamento dele, a sua estranheza e a sua inclinação pra coisas perturbadoras. Mas ela provavelmente não imaginava aonde isso chegaria. Em 1882, quando ele tinha 12 anos, ele conheceu um entregador de telégrafos mais velho que ele, que começou a abusar dele. Então, além disso, ele também introduziu ele a práticas...

Bem nojentas, como beber urina e comer fezes. Segundo psiquiatras que conversariam com o Albert depois que ele foi preso, para uma criança que já era muito traumatizada pelas coisas que ele viveu no orfanato, ele não conseguia enxergar aquilo que tava acontecendo como abuso, e muito menos violência. Para ele era muito confuso, porque aquilo parecia atenção, um tipo de conexão que ele tava criando ali com aquela pessoa, mas também uma forma de humilhação e dano.

Essa confusão entre violência e afeto, entre abuso e pertencimento, marcaria Albert pelo resto da sua vida. Naqueles anos da sua adolescência, ele decidiu procurar outras formas de satisfação. Ele passava os fins de semana em banhos públicos, onde ele ficava observando os meninos se despirem. Ele se escondia, se tocava, criando ali um ritual solitário que ninguém poderia saber. Algo que o deixava ao mesmo tempo vivo e mortificado.

E aí, aos 15 anos de idade, ele abandona a escola. Primeiro ele trabalhou numa mercearia e depois como aprendiz de pintor e decorador, o que era um trabalho inocente, né, mas que ao mesmo tempo dava a ele acesso, acesso à casa das pessoas, acesso às famílias que tinham crianças e a desconhecidos que não faziam ideia de quem ele era. Então ele contou pra polícia que foi por volta dessa época, em 1934, que ele começou a fantasiar sobre castrar meninos, sobre cortar e transformar os seus corpos.

Ele começou a ter essa fantasia depois que ele visitou um museu de cera e viu a exibição anatômica da bissecção de um pênis humano. Em 1890, aos 20 anos de idade, ele decidiu partir. Então ele sai de Washington e se muda pra Nova York procurando trabalho, né, procurando oportunidades. Ele começou a trabalhar como pintor e decorador, uma profissão que o manteria financeiramente pelo resto da vida. E a partir desse momento que ele começa a ter uma vida dupla.

Durante o dia ele trabalhava como pintor e decorador, e à noite ele se prostituía com homens em parques e ruas. Entre esses encontros ele começa a abordar meninos, em sua maioria com menos de 6 anos de idade. A técnica dele para conseguir essa aproximação era simples. Então ele oferecia presentes, doces, promessas de diversão, e assim ele conseguia ganhar a confiança desses meninos. Depois Ele atraía eles pra lugares isolados, como edifícios abandonados, áreas desabitadas, parques vazios.

E uma vez sozinho com a criança, o que acontecia a partir dali obviamente não era consensual. Ele violava esses meninos de forma brutal, com método e intenção calculada. E o que tornava ele muito perigoso era o fato dele ser praticamente invisível. Ele tinha 20 anos, um rosto comum, não tinha nada nele que fosse marcante ou que chamasse a atenção. Ele era apenas um jovem que trabalhava como pintor. Então não tinha nada alarmante.

Nele. Os pais não desconfiavam dele, as crianças olhavam para ele, não conseguiam ver perigo algum. E ele claramente explorava muito isso. Então ele ganhava a confiança dessas crianças de forma bem fácil e depois as levava para um lugar afastado onde ninguém veria o que ele tava fazendo. Essas violações eram sistemáticas. Então ele abusava de uma criança, depois ele ia para outra e para outra e para outra. Ele não matava esses meninos, ele os traumatizava e deixava eles ali com aquele trauma e também em silêncio.

E aí vocês devem estar se perguntando por por que ninguém denunciava o que ele tava fazendo. E era basicamente porque as crianças eram muito pequenas. Então, como eu falei, a maioria tinha menos de 6 anos de idade. Então eles não conseguiam descrever exatamente o que tinha acontecido, eles não conseguiam entender o que tinha acontecido com eles pra poder explicar pros pais, que muitas vezes eram pobres, não tinham muito acesso pra conseguir algum tipo de justiça.

E também essa era uma época em que o abuso não era algo levado a sério pelas autoridades. Uma criança pobre que desaparecia por horas e depois voltava perturbada não era algo suficiente pra que a polícia começasse a investigar homem respeitável que trabalhava como pintor. O Albert sabia disso.

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?Voz B

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Em 1898, a Ellen arranja um casamento para o Al. Albert, uma mulher chamada Anna Marie Hoffman, de 23 anos. O Albert na época tinha 28, então eles se casam e têm 6 filhos: Albert, Anna, Gertrude, Eugene, John e Henry. E todos esses 6 filhos cresceram tendo amor do pai deles, um pai que sorria para eles, que comparecia a eventos escolares. Ninguém desconfiava, ninguém sabia o que ele fazia. Então ele continuava trabalhando como pintor, que era como ele sustentava a família.

Ele amava os filhos, brincava com os filhos em casa, mas sem que ninguém soubesse, ele continuava saindo à noite para abusar de crianças, né, de meninos. Em 1903, o Albert foi preso por desvio de fundos e roubo agravado. Ele cumpriu uma pena na penitenciária de Sing Sing, e as fontes não dizem exatamente quanto tempo ele ficou preso, só que eventualmente ele foi liberado. Quando ele volta a aparecer nos registros, já é 1910, e ele não estava mais com a família em Nova York.

Agora ele tava em Wilmington, Delaware, ainda trabalhando como pintor. Por que que ele tava sozinho lá? Por que ele não levou a esposa e filhos, porque ele se mudou, não tem como saber. Foi nessa época que ele conheceu um jovem chamado Thomas Keden, que tinha 19 anos. Os registros policiais e os jornais da época chamavam ele de Thomas Beeden, mas o próprio Albert deixou bem claro que era Keden. Ele era um andarilho intelectualmente deficiente que ficava viajando pelos trilhos de Delaware.

Ele era um jovem invisível numa sociedade que não procurava por jovens invisíveis. Depois de apenas 10 dias, o Albert levou Thomas para uma fazenda abandonada. Ali, durante 2 semanas, ele torturou o Thomas repetidamente. Ele o amarrou, mutilou o seu corpo e cortou metade do seu pênis. E ele disse que nunca vai esquecer o grito e o olhar que o Thomas deu para ele. O Albert não matou o Thomas naquele dia. Ele tinha planos de fazer isso e levar alguns pedaços dele para casa, mas ele tinha medo do calor, do cheiro e do corpo dele começar a se decompor muito rápido.

E aí ele não queria chamar atenção, então ele limpou a ferida. Deu $10 para o Thomas, deu um beijo nele e disse adeus. E aí ele pegou um trem e voltou sozinho para casa. Anos depois, o Albert disse que ele nunca mais ouviu falar no Thomas e ele também não procurou saber o que aconteceu com ele. Basicamente, o Thomas desapareceu. Então, quando o Albert confessou o que ele fez com ele, a polícia tentou localizá-lo, mas não conseguiu.

Então não tem como saber o que aconteceu, se ele sobreviveu, se ele se mudou, o que ele fez. Não dá para ter certeza, né, não está nos registros. Mas o que aconteceu com o Albert naquele dia foi que ele basicamente teve um ponto de virada quando ele percebeu que além de abusar de uma pessoa, ele poderia também torturar, ele poderia dominar completamente uma pessoa ali, uma vítima, e no final das contas sair ileso. Esse padrão se repetiria por muitos anos.

E aí ele sempre acabava escolhendo vítimas cada vez mais jovens. Em 1917, depois de quase 20 anos casado, a Anna, a esposa dele, decidiu deixá-lo. Ela simplesmente conheceu outro homem, saiu com ele, nunca mais voltou. Então eles não finalizaram formalmente o divórcio. Mas para o Albert não foi uma coisa ruim, para ele foi um alívio ela ter ido embora. E aí ele continuou criando 6 filhos sozinho. Inclusive, ele era, segundo relatos, um bom pai.

E para ele, agora ele sentia que ele poderia expandir a sua vida dupla, né, já que sem um casamento, sem ninguém monitorando os seus horários e o que ele tava fazendo, ele podia basicamente fazer o que ele quisesse. É aí que ele começa a viajar pelo país com frequência. E aí ele dizia que ele tava viajando pra procurar trabalho como pintor, o que era verdade. Mas não era só isso que ele tava fazendo. Pra ele, cada estado, cada cidade trazia uma nova oportunidade onde ele poderia encontrar crianças pobres, crianças, como eu disse, invisíveis, que ninguém procuraria por elas.

E assim, ele ia escolhendo as suas novas vítimas estrategicamente. Ele disse pra polícia que ele fazia isso porque ele sabia que a polícia provavelmente não procuraria por crianças pobres desaparecidas. E que nem os pais teriam recursos pra conseguir os filhos de volta. Como, por exemplo, publicar recompensas. Ou fazer algum tipo de barulho sobre aquele desaparecimento. Então essa seleção de vítimas marginalizadas fez com que ele continuasse sendo invisível.

Como ele ficava viajando para cidades diferentes, as polícias não tinham motivos para conectar os casos que estavam acontecendo. Então se desaparecia uma criança em Nova York, outra na Carolina do Norte e outra na Pensilvânia, para eles não tinha nada a ver um caso com o outro. Para eles eram ocorrências isoladas de uma tragédia urbana comum. Por mais de duas décadas, ninguém conectou os pontos, ninguém conseguia enxergar o fio que ligava esses crimes.

E assim, o Albert poderia continuar viajando e estar em qualquer lugar, em qualquer cidade. Até que em 1924, algo mudou. Na tarde do dia 14 de julho de 1924, em Port Richmond, Staten Island, o Francis McDonald, de 9 anos, filho do policial Arthur McDonald, estava brincando de pega-pega com os amigos na rua. A sua mãe, Ana, sentava-se próxima, amamentando sua filha menor, quando viu um homem estranho parado no meio da rua. Ele era velho, de cabelos e bigodes grisalhos, com roupas gastas e desbotadas.

Enquanto ela observava, o homem apertava e desapertava os punhos repetidamente, murmurando algo pra si Depois de alguns instantes, ele tirou o chapéu pra ela e desapareceu na rua. Minutos depois, o mesmo homem foi visto observando o Francis e seus amigos brincarem, longe da visão da Ana. Ele se aproximou e chamou o Francis. O menino foi com ele e nunca mais voltou. Os pais só se deram conta do desaparecimento quando ele não apareceu pra jantar naquele dia.

E imediatamente, seu pai, policial, organizou uma busca. Pela manhã, com a mobilização de um filho de policial desaparecido, a operação se transformou em uma caçada em massa. 250 detetives, vizinhos, escoteiros espalharam-se por Staten Island. Vasculharam as ruas, os bosques, cada esquina de Port Richmond. Foram os escoteiros que encontraram o corpo do menino sob uma pilha de galhos e folhas na floresta perto da casa do Francis.

Ele estava nu da cintura pra baixo, brutalmente espancado. Havia sinais de abuso. E ao redor do seu pescoço, seus próprios suspensórios usados para estrangulá-lo. A autópsia revelou detalhes ainda mais horríveis. A sua coxa esquerda tinha quase toda a carne removida. Ferimentos extensos nas pernas e abdômen sugeriam torturas prolongadas antes da morte. A polícia se perguntava como um homem que parecia tão frágil e velho poderia ter causado tanta devastação.

Talvez ele tivesse um cúmplice. A menina, mãe do Francis, nunca esqueceria o rosto daquele homem. Ela o descreveu aos repórteres. Disse que ele vinha arrastando os pés, murmurando pra si mesmo e fazendo gestos estranhos com as mãos. Essa descrição daria a Albert Fish um apelido que o perseguiria pelos 10 anos seguintes: o Homem Grisalho. A polícia tinha suspeitas, mas não tinha evidências. Eles interrogaram alguns suspeitos, mas nenhum correspondia perfeitamente ao homem descrito.

O caso esfriou, meses e anos se passaram sem resposta. Em 11 de fevereiro de 1927, no Brooklyn, o William Billy Goffney, de 4 anos, brincava no corredor de um prédio de apartamentos com o Billy Beaton, de 3 anos, e seu irmão mais velho, de 12. Quando o irmão mais velho voltou pro apartamento por um instante, os dois meninos pequenos desapareceram. O Billy Beaton foi encontrado depois no telhado do prédio. Já o William não foi encontrado.

O desaparecimento provocou uma busca em toda a cidade de Nova York. Quando perguntaram a Billy o que tinha acontecido com o amigo, a única resposta que o menino de 3 anos conseguiu dar foi: O bicho-papão o levou. O corpo do William nunca foi recuperado. Inicialmente, outro assassino em série, o Peter Kuzinoski, foi investigado pelo crime, dada a similaridade do modus operandi. Mas com o passar do tempo, o caso também esfriou. Seguinte, em maio de 1928, foi a vez da Grace, que eu contei para vocês no começo do vídeo.

No dia 3 de junho daquele ano, Albert levou a Grace para uma casa abandonada em Westchester, que ele já havia escolhido com antecedência para o que ele pretendia fazer. Se não fosse pela carta que ele decidiu enviar à família dela, talvez ele nunca tivesse sido pego. Quando perguntaram para ele por que ele tinha escrito aquela carta, porque ele havia confessado algo que ninguém poderia conectar a ele, ele respondeu que não sabia ao certo, mas que talvez porque ele tinha uma mania para escrever.

Não era remorso e nenhum um plano, era uma compulsão. Ele havia passado anos enviando correspondência obscena para mulheres, para potenciais vítimas, para qualquer pessoa cujo endereço ele pudesse encontrar. Escrever era um impulso que ele não conseguia controlar, tão incontrolável quanto seus outros desvios, tão compulsivo quanto a sua necessidade de matar. Só que dessa vez, a sua mania de escrever o destruiria. Depois de admitir ter matado a Grace e guiar os investigadores até a casa abandonada, mostrando onde os restos poderiam ser encontrados, ele negou tê-la abusado.

Ao longo dos interrogatórios e depois de conversas extensas com o psiquiatra que o examinaria para o julgamento, ele chegou a afirmar ter atacado ou matado cerca de 100 crianças ao longo da vida, em praticamente todos os estados americanos. Investigadores tentaram cruzar essa alegação com outros desaparecimentos não solucionados da época, mas nenhum desses casos pôde ser confirmado com evidência sólida. O detetive William chegou a suspeitar de pelo menos 4 assassinatos cometidos pelo Albert só na cidade de Nova York.

O psiquiatra do caso estimou pelo menos 5. A própria polícia, num cálculo mais cauteloso, falou algo entre 8 e 15. Mas apenas 3 casos puderam, de fato, ser sustentados, que foram esses 3 que eu contei pra vocês. No caso do Francis, testemunhas do caso identificaram assim que o viram preso pelo caso da Grace. Um deles foi o fazendeiro Hans Kiel, que reconheceu-o como o homem visto naquele dia de julho em 1924. Já no caso do William Goffney, a testemunha-chave foi um motorista de bonde de Brooklyn que reconheceu o rosto do Albert estampado num jornal.

Era o mesmo homem idoso que ele havia visto naquele dia, em fevereiro de 1927, tentando calar o menino sentado ao lado dele no ônibus. Mesmo negando inicialmente os dois casos, depois de condenado pelo assassinato da Grace, ele também confessou o assassinato tanto do William quanto o do Francis. O New York Daily Mirror chamou isso de revelação. A confissão solidificou a reputação do Albert como o mais violento assassino de crianças da história criminal.

Sobre o William, que era o menininho que tava brincando no corredor e que desapareceu, o Albert acabou confessando para o advogado dele o que ele fez com o menino. Ele disse que tinha amarrado o menino, o espancado, bebido o seu sangue antes de preparar partes do corpo dele em um ensopado. Isso foi uma coisa horrível para época que a polícia decidiu manter fora da imprensa. O julgamento do Albert começou em 11 de março de 1935.

No no Tribunal do Condado de Westchester, em White Plains. A defesa foi liderada pelo advogado James Dempsey, que é ex-promotor e ex-prefeito da cidade de Peekskill. Ele não contestou que o Albert tivesse matado a Gracie, porque toda a sua estratégia virava em torno da alegação da insanidade. A testemunha central da defesa foi o psiquiatra Frederick Wertham, especialista em desenvolvimento infantil, que examinou o Albert por meses.

Ele apresentou uma radiografia pélvica feita no Hospital Bellevue, que revelou 29 agulhas inseridas no próprio corpo do Albert, todas na região da virilha, algumas ainda inteiras, outras fragmentadas e deslocadas ao longo dos anos pelos próprios tecidos do corpo dele. Albert disse que tinha começado essa forma de automutilação em 1910 e desde então a mantinha de forma intermitente. O advogado Frederick falou sobre a obsessão do Albert por religião, centrada na história bíblica de Abraão e Isaque.

Segundo o psiquiatra, o Albert acreditava que sacrificar um menino seria uma penitência por seus próprios pecados e que se o ato fosse errado diante de Deus, um anjo o de cometê-lo, como quase havia acontecido antes quando um carro passou em um momento onde ele tava planejando sequestrar uma criança. O advogado também relacionou o canibalismo do Albert à própria ideia de comunhão religiosa. Ele catalogou 18 desvios sexuais distintos cometidos pelo Albert ao longo da sua vida.

Já a promotoria liderada pelo Albert Gallagher não contestou a anormalidade do comportamento do Albert, mas argumentou que automutilação e responsabilidade penal são coisas diferentes. Um homem poderia ser capaz de infligir um dano monstruoso a si mesmo e ainda assim ser completamente responsável pelos seus atos contra terceiros. A acusação defendeu que o Albert sabia perfeitamente a diferença entre certo e errado, citando como prova a premeditação dos crimes, o uso de um nome falso, a escolha antecipada de uma casa abandonada, o planejamento da história da festa de aniversário para tirar a Grace de casa, os esforços posteriores para esconder o que ele havia feito.

Depois de 10 dias de julgamento, o júri deliberou por poucas horas. O júri o Albert Fish são e culpado de homicídio em primeiro grau. Mais tarde, alguns dos jurados iriam admitir que eles acreditavam que o Albert era insano, mas votaram pela condenação porque queriam vê-lo executado de qualquer forma. O Albert Fish foi condenado à morte por eletrocução. Diante do veredito, a reação dele foi reveladora. Por um momento ele parecia decepcionado, mas isso muda quase que imediatamente para um entusiasmo perturbador.

Ele teria dito para os jornalistas que emoção será se eu tiver que morrer na cadeira elétrica, vai ser uma emoção suprema, a única que eu ainda não experimentei. Pouco depois, ele contradisse a si mesmo dizendo que o veredito tava incorreto porque ele não era de fato são. O Albert foi executado na Penitenciária de Sing Sing em 1936, aos 65 anos de idade. Ele entrou na câmara de execução às 11:06 daquele dia. Em 3 minutos, ele foi declarado morto após 2 choques, que é o procedimento padrão.

Segundo relatos de testemunhas, ele mesmo ajudou o executor a posicionar os eletrodos em seu corpo. Suas últimas palavras teriam sido: eu nem sei porque eu tô aqui. O caso do Albert de Richard Fish se tornou um dos documentos fundamentais da psiquiatria forense do século 20. A radiografia das 29 agulhas continua sendo um dos artefatos mais reproduzidos na literatura clínica sobre automutilação, citada e estudada muito além do contexto criminal em que surgiu.

O Frederick viria anos depois a publicar partes de suas anotações sobre o caso em obras acadêmicas que ainda hoje são referência em criminologia e psiquiatria forense. O caso também expôs de forma crua as limitações do sistema legal da época em lidar com transtornos psiquiátricos O próprio júri reconheceu a insanidade do Albert e ainda assim optou pela pena de morte, evidenciando que a decisão sobre a vida e morte pesou mais a segurança pública do que o diagnóstico clínico.

O caso é até hoje citado em discussões jurídicas sobre os limites do critério M. Nagyton, padrão legal da época para insanidade criminal. As famílias das 3 vítimas confirmadas nunca tiveram, fora os relatos do próprio assassino, qualquer outra fonte de resposta sobre o que havia acontecido com seus filhos. A carta enviada a Delia, por mais perturbadora que fosse, foi também o único fechamento que aquela família teve depois de 6 anos de silêncio absoluto.

Primeiro documento que de forma macabra encerrou também a procura por respostas sobre os outros crimes que sem essa confissão talvez jamais tivessem sido formalmente esclarecidos. Já os 6 filhos do Albert, depois que ele foi preso, né, continuaram ali crescendo sem a figura paterna. Quando ele foi preso em 1934, o filho mais velho dele, o Albert Júnior, deu uma declaração dizendo: que velho miserável, eu sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde.

O Albert ficou ao todo 13 meses aguardando a sua execução, e durante esses meses nenhum dos filhos o visitou. Depois da execução, todos eles desapareceram dos registros públicos. Talvez eles tenham sido protegidos justamente para que as pessoas não ficassem procurando o que eles iam fazer, enfim. Ou talvez eles tenham mudado de sobrenome para não serem reconhecidos. Então a gente não sabe o que aconteceu com eles depois da execução do Albert.

Quero muito saber o que vocês acharam desse caso. É um caso que eu conheço há muito tempo e que por algum motivo eu achava que eu já tinha contado para vocês, porque são tantos casos, tanta coisa que eu leio que às vezes eu confundo achando que eu já fiz. E sinceramente, um dos piores casos que eu contei pra vocês aqui nos últimos meses. Então comenta aqui pra mim o que você achou do caso de hoje. Não esquece do like, me ajuda muito na divulgação do vídeo.

E é isso, pra mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa. E aproveita pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.

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O CASO ALBERT FISH #606 | Castnews Index — Castnews Index