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A OBSESSÃO DE SHIRLEY TURNER | Caso Andrew Bagby #605

02 de julho de 202625min
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Em 05 de novembro de 2001, um jovem médico foi encontrado morto num parque da Pensilvânia, dias depois de terminar um relacionamento conturbado. A principal suspeita fugiu para o Canadá antes de ser presa e, meses depois, revelou que estava grávida dele. O que começou como uma investigação de homicídio se transformaria numa das batalhas judiciais mais devastadoras já registradas entre dois países. #605

Participantes neste episódio1
S

Scott Andrews

Narrador
Assuntos5
  • Falhas de fiscalizaçãoSuicídio de Shirley Turner · Investigação institucional · Relatório Peter McChristine · Falhas do sistema de proteção infantil · John Dossett
  • O Caso Ali AbulabanInfância e juventude de Andrew Bagby · Formação médica de Andrew Bagby · Shirley Jane Turner · Histórico de Shirley Turner · Relacionamento de Andrew e Shirley · Assassinato de Andrew Bagby · Fuga e prisão de Shirley Turner · Gravidez de Shirley Turner
  • Poder JudiciárioFiança de Shirley Turner · Custódia de Zachary Turner · Processo de extradição · Decisões da juíza Gail Welsh
  • Documentário Felipe MojaveKurt Cohen · Criação do documentário · Impacto legislativo no Canadá · Lei Zachary
  • Legado e ConsequênciasOrganização dos pais de Andrew · Declarações de David Bagby · Críticas ao sistema judicial
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SAScott Andrews

Andrew David Bagby nasceu em 25 de setembro de 1973 em Sunnyvale, Califórnia, filho único de Kathleen Daphne Bagby, enfermeira e parteira nascida na Inglaterra, e de David Franklin Bagby, veterano da Marinha Americana que se tornou engenheiro de computação. O Andrew cresceu nos subúrbios de San em uma infância que amigos e familiares descreveriam anos depois como cheia de afeto e estabilidade. Ele se tornou Eagle Scout aos 15 anos, que é o grau mais alto do escotismo americano.

A vocação médica vinha da mãe. A Kathleen trazia pra casa histórias de pacientes e de casos clínicos que a marcavam em sua rotina como enfermeira. E o Andrew decidiu ainda jovem que seguiria o mesmo caminho. O percurso não foi simples. Ele se candidatou a faculdades de medicina nos Estados Unidos e foi recusado em todas. A aceitação veio de um lugar inesperado, do outro lado do continente, na Memorial University of Newfoundland, no extremo leste do Canadá.

Então, em 1995, ele se muda pra St. John's, na ilha mais oriental da América do Norte, pra poder começar o curso. Alguns anos depois, no início de 99, ele começou a se relacionar com uma colega de profissão 13 anos mais velha que ele, chamada Shirley Jane Turner. Ele ainda tava no terceiro ano da faculdade de medicina e ela já era uma médica formada, cursando a própria residência. A Shirley nasceu em 28 de janeiro de 1961, em Wichita, no Kansas.

Filha de um militar americano e de uma mulher canadense de St. Anthony, Newfoundland. Ela foi criada com 3 irmãos, mas quando os pais se separaram, voltou com a mãe para o Canadá e os pais se divorciaram pouco depois. Em 1980, ela se matriculou na mesma universidade que o Andrew tava estudando agora, no curso de graduação que serviria de base para carreira médica que pretendia seguir depois. O caminho que já seria longo dos Estados Unidos, você precisa cursar um outro curso antes de poder fazer medicina, para ela foi ainda mais longo porque ela engravidou ainda no início do curso e acabou se casando com o namorado de longa data no no começo do inverno de 1981.

O primeiro filho, um menino, nasceu no dia 9 de julho de 1982. O marido cuidava da criança em casa enquanto ela seguia os estudos. Em 1983, ela se mudou pra Labrador City pra trabalhar como professora de ciências. E 2 anos depois, teve uma filha. Foi nesse período que ela retomou um relacionamento antigo com um pescador de Corner Brook. Por conta disso, o primeiro casamento terminou em janeiro de 1988. E ela se casa com esse pescador de Corner Brook poucos meses depois.

Aí, ela teve mais uma filha no dia 8 de março de 1980. Exatamente um ano antes dela se separar desse segundo marido. Em outubro de 1993, um homem que morava de aluguel na casa da Shirley confidenciou pro seu terapeuta algo que ele tinha testemunhado na casa. Ele viu a Shirley abusando de forma física e emocional de dois dos seus filhos. O relato chegou aos serviços sociais de Newfoundland, que entrevistaram as crianças. E elas confirmaram, a mãe as disciplinava com palmadas e cintadas.

E os dois filhos mais velhos passavam frequentemente dias inteiros sem qualquer supervisão. Mesmo assim, ninguém da assistência social chegou a entrevistar a própria Shirley. O caso foi arquivado em janeiro de 94, sem qualquer consequência, e ela manteve a guarda dos 3 filhos. Foi só em 1994, depois de 14 anos de um curso que normalmente leva 4, que a Shirley finalmente concluiu a graduação. Na separação do segundo casamento, ela conseguiu a guarda da filha caçula, mas dias após a decisão judicial, ela mandou a menina para morar com o próprio pai em Portland Creek, enquanto os outros 2 filhos mais velhos foram viver com a avó paterna em Parsons Pond.

Dessa forma, ela não tinha nenhum dos filhos com ela, né. Então a filha mais nova tava com o pai, os filhos mais velhos com a avó paterna. E aí ela começou a estudar, né, ingressou em medicina, se formando médica em 1998. E durante a graduação ela faltava várias vezes e ela sempre usava a desculpa dos filhos para essas faltas, dizendo que ela era mãe, ela tinha que cuidar dos filhos. Mas de novo, os filhos já não moravam mais com ela.

Então quando ela conhece o Andrew, ela já tinha dois casamentos anteriores, né, ela já tinha se divorciado duas vezes, ela tinha três filhos, dos quais nenhum morava com ela. Também um histórico documentado de violência doméstica quando ela conheceu e começou um relacionamento com ele. Desde o início, a família e os amigos do Andrew não apoiavam o relacionamento, eles não gostavam da ideia dele estar namorando com a Shirley por vários motivos, não só pela diferença de idade, que era bem grande, mas era o comportamento dela que também incomodava.

Muitas vezes ela fazia comentários inadequados, comentários abertamente sexuais na frente de outras pessoas, o que acabava deixando todo mundo ali sem graça. Em maio de 2000, o Andrew se forma e ele consegue uma residência em residia em Syracuse, Nova York. Então ele teria que mudar pra lá pra poder fazer a residência dele, enquanto a Shirley conseguiu um trabalho em uma clínica em Iowa. Eles tentaram manter o relacionamento ali à distância.

A própria Shirley disse que ela visitou o Andrew 7 vezes naquele período, enquanto ele visitou ela apenas 1 vez. Só que uma questão é que praticamente ninguém à volta do Andrew conhecia o histórico da Shirley, né. O histórico antigo dela, digamos assim. O histórico de violência e tudo mais. Um médico que supervisionou ela na época que ela tava em Newfoundland, ele... Se repetiria mais tarde, dizendo que ela era alguém que podia ser charmosa e cativante, mas ao mesmo tempo, toda vez que ela era questionada sobre qualquer coisa, ela perdia o controle, ela se tornava hostil se era confrontada por qualquer falha.

Então ela começava a gritar, a chorar e também a acusar a pessoa que estava a questionando. Em entrevista ao investigador do Gabinete de Defesa da Infância em Newfoundland, esse mesmo médico a chamaria de psicopata manipuladora sem ter noção alguma de culpa. Antes do Andrew, ela também já tinha sido acusada de perseguir um ex-namorado que também era médico e era 10 anos mais novo que ela. Em abril de 99, ele encontrou ela na porta do seu apartamento esperando por ele.

E ela tava inconsciente, vestida de preto, com um buquê de rosas. E ela tinha um bilhete de despedida dizendo que ela não era má, ela só era doente. Ela tinha ingerido comprimidos de venda livre, então ela precisou ser hospitalizada. E esse padrão iria se repetir agora com o Andrew. No outono de 2001, ele decidiu trocar a residência em cirurgia que ele tava fazendo em Nova York por uma vaga de medicina em família em Latrobe, na Pensilvânia.

O que ele achava que seria melhor pra sua carreira. A Shirley reagia às decisões que ele tomava cada vez de forma mais possessiva, ela ficava ligando muitas vezes perguntando aonde ele tava, com quem ele tava. E no mesmo outono daquele ano, essa obsessão dela se tornou ainda pior, ela começou a fazer ligações anônimas e ameaçadoras pra uma funcionária que trabalhava no mesmo hospital que ele, acusando o Andrew de traição. E aí, mais tarde, a polícia conseguiria rastrear essas ligações e descobrir que quem tinha feito Era a própria Shirley.

E nesse mesmo período, ela obteve uma autorização pra ter porte de arma de fogo. Então, ela compra uma pistola calibre 22, junto com munição. E aí, ela passou a fazer aulas de tiro. E no dia 3 de outubro, ela falou pro Andrew que ela tava grávida dele de 3 meses. Ele já tinha tentado terminar o relacionamento com ela naquele mês. Mas daí, ela apareceu sem avisar na Pensilvânia. Porque ela sabia que tinha um casamento de um amigo dele.

Então, ela aparece nesse casamento. E aí... Apesar dela não ter avisado, eles ficaram tranquilos, não houve briga, não houve nada. Eles curtiram o casamento juntos, como casal. Mas aí, dias depois, ela volta a visitar ele em Latrobe. E aí, dessa vez, ela já tinha finalizado todas as aulas de tiro que ela tinha contratado. E é nesse mesmo período que eles começam a discutir de novo, agora por um envolvimento do Andrew com outra mulher.

E aí, depois disso, no dia 3 de novembro, ela finalmente confessa pra ele que na verdade ela não tava grávida, que aquilo foi uma mentira. Que ela tinha criado pra ver se conseguia fazer com que ele continuasse ali naquele relacionamento com ela. Então ele fica furioso e decide levar ela até o aeroporto Regional Arnold Palmer, que era ali na cidade dele. Então eles almoçam juntos e depois ele coloca ela num voo de volta pra Iowa.

Ela embarcou naquele voo, então ela volta pra cidade dela. Mas assim que ela chega lá, ela pega o carro dela e começa a dirigir de volta pra Latrobe, que era bem longe. São quase 1.000 km de distância. Ela dirigiu ali por horas até chegar ali na madrugada do dia 5 em Latrobe. E ela e o Andrew Andrew combinaram de se encontrar naquela noite no Keystone State Park. Durante aquele dia, né, antes do encontro deles, vários amigos notaram que ele tava muito agitado.

O médico que supervisionava ele até aconselhou que ele não fosse nesse encontro sozinho, que ele levasse alguém com ele, mas ele não ouviu o conselho, ele foi sozinho. E aí, na manhã do dia seguinte, do dia 6, um guarda florestal encontra o corpo do Andrew no parque. Ao todo, ele tinha levado 5 tiros em várias partes, ele tinha levado tiro na nuca, no rosto. E aí a polícia não tinha nada no local. E no mesmo dia eles já entram em contato com a Shirley para falar com ela, né.

E aí ela fala que ela não tinha saído naquele dia porque ela tava doente de cama. Ela tentou, né, manter essa mentira para polícia, que ela não tinha saído naquela noite, que ela tava o tempo todo de cama. Mas a mentira não se sustentou porque rapidamente eles viram registros telefônicos que ela tinha feito naquela noite. Inclusive ela tinha ligado para o trabalho dela do telefone da casa do Andrew para dizer que ela iria faltar, e ela também tinha mexido nas contas bancárias dele.

Todos os tiros no Andrew eram de calibre 22. Ao lado do corpo, a polícia também tinha encontrado uma bala não disparada, um cartucho intacto que era o mesmo usado na arma que a Shirley tinha comprado em outubro. Um instrutor de tiro dela confirmaria mais tarde que aquela pistola tinha o hábito de ejetar alguns cartuchos sem disparar, o que acabava ligando aquele cartucho específico encontrado diretamente à arma da Shirley. Mas quando a polícia expediu o mandado de prisão contra Shirley no dia 29 de novembro, 24 dias depois do corpo do Andrew ter sido encontrado, Ela já tinha deixado os Estados Unidos.

Ela tinha passado uma semana inteira na casa dela em Council Bluffs, sob investigação, antes de fugir do país. No dia 12 de novembro, ela teria saído da casa dela e ido pra Toronto, junto do seu filho mais velho, se estabelecendo em St. John's, que é a província natal dela, em Newfoundland. E foi lá que ela descobriu uma coisa que seria capaz de virar esse caso de ponta-cabeça. Porque aí, ela viu que ela realmente estava grávida do Andrew.

A criança foi concebida ali nas últimas semanas de relacionamento deles, pouco antes da morte do Andrew. O que significava que a principal suspeita Suspeita de ter assassinado o Andrew, né, a ex-namorada dele tava grávida dele. Então, ela tava grávida de uma criança que não tinha nem nascido ainda. Até que no dia 12 de dezembro de 2001, a Shirley finalmente é presa pela polícia de Newfoundland. No mesmo dia, eles começam o processo de extradição dela de volta pros Estados Unidos, onde ela enfrentava uma acusação de homicídio em primeiro grau.

Uma acusação que, segundo a promotoria americana, não seria julgada com pena de morte. A audiência da fiança da Shirley imediatamente... Se tornou um impasse, porque de um lado a gente tinha uma mulher que tava sendo acusada de assassinar o próprio namorado a tiros, mas também uma mulher que estava grávida do filho dele. Então era uma gravidez que não tinha como ser ignorada pelo tribunal. A juíza Gail Welsh decidiu ali que a Shirley, que tinha 40 anos, não era uma ameaça para a sociedade.

Uma leitura que basicamente ignorava todo o histórico da Shirley antes do Andrew, depois do Andrew. Então ela achava que ela não era uma ameaça, o que mais tarde muitos apontariam como o primeiro erro erro institucional, de uma série de erros desse caso. Então eles liberam a Shirley, ela tinha que pagar 75 mil dólares canadenses, ela tinha que entregar o passaporte dela e ela não poderia entrar em contato com ninguém da família do Andrew.

Além disso, ela tinha que se reportar semanalmente à polícia e ela só consegue essa fiança com a ajuda do John Dossett, que era o próprio psiquiatra dela, ex-colega dela da faculdade de medicina, que deu o próprio dinheiro dele para pagar fiança para que ela pudesse sair. Do outro lado do continente, os pais do Andrew, o David e a Kathleen, recebem receberem a notícia da gravidez com um misto de horror com dever. Eles tinham acabado de perder o filho.

E agora tinham que lidar com essa situação, que era saber que o neto deles, que ainda nem tinha nascido, tava ali sendo gerado pela mulher que eles acreditavam ter matado o Andrew. Os dois decidiram deixar a Califórnia e mudar pra St. John's pra lutar pela custódia daquela criança que não tinha nem nascido ainda. E aí, o Zachary Andrew Turner nasceu no dia 18 de julho de 2002. Como eu falei pra vocês, a fiança dela tinha uma proibição proibição, ela não poderia entrar em contato com ninguém da família do Andrew.

Mas essa proibição não previa nada sobre o filho dos dois, né, que no caso ainda não existia quando essa fiança foi fixada. Mesmo assim, desde os primeiros dias, a Shirley disse que ela não tinha intenção alguma de deixar que os avós, né, os pais do Andrew, tivessem qualquer contato com o filho deles. Ela alegou temer que eles tentassem sequestrar a criança, e ela chegou também a demitir o advogado de família dela depois de concluir que ele era favorável demais aos avós.

Um mês depois do nascimento da criança, os avós, né, os pais do Andrew, conseguiram negociar ali no tribunal da família uma visitação semanal. Então eles poderiam ver a criança uma vez por semana por uma hora. Eles precisavam ser revistados antes do encontro e a Shelley ficava em uma sala ao lado aguardando ali que aquela uma hora passasse. No dia 14 de novembro de 2002, um ano e 9 dias depois do assassinato do Andrew, um juiz canadense concluiu que um júri devidamente instruído provavelmente consideraria a Shelley culpada de homicídio em primeiro grau.

Então ele determinou a sua prisão imediata, enquanto eles aguardavam a decisão final do Ministério da Justiça sobre entregá-la aos Estados Unidos. O bebê, o Zachary, que tinha 4 meses, passou a morar com os avós, com o David e com a Kathleen, finalmente sozinhos agora, com o neto, sem a presença da Shirley ou qualquer supervisão judicial. Mas aí, no dia 7 de janeiro de 2003, a Shirley apelou e a juíza Gail Welsh, a mesma juíza, voltou a libertá-la, repetindo, em essência, o argumento de meses antes de que não havia indício de transtorno psicológico que a tornasse perigosa ao público.

Público, já que o crime do qual ela era acusada tinha natureza específica dirigida a uma única pessoa. Agora o Zachary, que tinha 6 meses de vida, volta para custódia da própria mãe, ainda que os avós tenham conseguido manter a partir dali visitas mais frequentes, vendo o neto a cada 2 dias, às vezes até com pernoite incluído. Foi nesse período mais aberto que começou a se desenhar um padrão que preocupava quem acompanhava o caso de perto.

O Zachary parecia ter pouco apego à própria mãe, a Shirley, e buscava com frequência a companhia de outros adultos, em especial seus avós. Até que o episódio mais marcante acabou acontecendo no dia 18 de julho de 2003, no aniversário de 1 ano do Zachary, que tava sendo comemorado em um McDonald's em St. John's. Teve uma cena em que o Zachary agarrou ali a perna da avó e ele só ficava com os avós, ele não ficava perto da Shirley, ele basicamente ignorava ela.

Então a Shirley em um momento disse, na frente de outras pessoas, pra Kathleen, que ele obviamente gostava mais dela, então por que que ela não ficava com ele de uma vez? Naquele mesmo mês, a Shirley começou a se envolver com um homem que era mais novo que ela e que ela conheceu em bar em St. John's. Quando ele descobriu a ligação dela com o assassinato do Andrew, né, que era uma coisa que todo mundo tinha ouvido falar, ele decidiu se afastar.

Mas uma coisa que eu preciso citar é que 3 dias antes daquele aniversário do Andrew no McDonald's, no dia 15 de julho, um médico tinha prescrito lorazepam para Shirley para tratar a ansiedade. Logo depois disso, ela deixou de comparecer às suas consultas psiquiátricas. Ela só fez a retirada daquele remédio na farmácia no dia 17 de agosto. Naquele mesmo dia, ela tinha escrito várias cartas e tinha visitado vários amigos próximos no que parecia ser uma se despedida silenciosa que ela tinha decidido fazer.

No dia seguinte, no dia 18, então um dia depois de ir na farmácia pegar o remédio e exatamente um mês depois do aniversário do Zachary, a Shira não compareceu a uma consulta psiquiátrica que ela tinha agendada. E aí ela dirigiu até Conception Bay South e estacionou o carro dela próximo da casa daquele homem que ela tinha conhecido no bar pouco tempo antes e que tinha decidido se afastar dela por conta do histórico. Ela misturou o medicamento Lorazepam na mamadeira do Zachary e deu a mamadeira para ele.

Em seguida, ela ingeriu ela mesma uma dose elevada da substância. Depois, ela amarrou o Zachary no próprio corpo dela usando um suéter. E por volta das 3 da madrugada da segunda-feira, ela saltou do pier de pesca da Marina Foxtrap, pulando ali direto no Oceano Atlântico. Ela tinha sido vista pela última vez no dia anterior, na verdade às 23:30 daquele domingo, saindo de casa acompanhada filho. Amanhã seguinte, alguém ligou de forma anônima para polícia relatando o desaparecimento dos dois.

Uma busca foi aberta, então na segunda-feira a polícia já tava buscando por eles, até que um policial encontrou o carro dela estacionado. Ele tava abandonado em uma estrada de terra ao longo da praia, na região de Kelly Groves. E ainda naquela segunda-feira, já à noite, por volta das 19h, um casal que passeava com o cachorro numa praia próxima encontrou o corpo da Shirley. O corpo do Zachary foi localizado logo depois, próximo ali do corpo dela, e a causa da morte dos dois foi declarada como afogamento.

Foi no caso do Zachary, né, porque a Sheree fez aquilo de propósito. E no caso dela, foi um suicídio. A análise toxicológica feita no Zachary mostrava que ele tinha uma quantidade alta de lorazepam em um nível que era associado à sedação profunda. O que significava que ele estava vivo no momento que ela pulou na água com ele, mas que ele provavelmente estava inconsciente. Então, eles acreditavam que ele não chegou a sofrer durante a morte, justamente por estar inconsciente, por conta do remédio.

O Zachary tinha 13 meses de vida. Vida. E a Shirley morreu sem nunca ter sido julgada pela morte do Andrew. A extradição dela, que se arrastou por quase 2 anos entre apelações e decisões contraditórias, nunca chegou a se completar. O processo terminou ali, na praia de Manuel's, onde os corpos foram encontrados, sem que nenhum tribunal jamais tivesse examinado as provas contra ela. A morte do Zachary não ficou restrita à dor privada da família Bagby.

Se tornou com o tempo objeto de uma investigação institucional de grandes proporções sobre as falhas do sistema de Newfoundland e Labrador. Embora essa investigação tenha demorado para sair do papel, No dia 17 de maio de 2005, quase 2 anos depois das mortes, o Gabinete da Defensoria da Infância e Juventude da província nomeou o coronel Peter McChristine de Winnipeg como responsável por conduzir formalmente a revisão daquele caso.

Durante esse período, a própria estrutura institucional que deveria responder pelo ocorrido havia sido desmontada e reorganizada. A agência de saúde e serviços comunitários que atendia os Akrey foi absolvida em abril de 2005 por uma autoridade de saúde regional maior. Um detalhe que por si só ajuda a explicar que ninguém parecia carregar a responsabilidade direta meta por respostas. O relatório do Peter, dividido em 3 volumes, só foi divulgado em outubro de 2006.

A sua conclusão central foi direta: a morte do Zachary havia sido evitável e o sistema de serviços sociais da província falharam em protegê-lo. Ele escreveu que em nenhum lugar tinha encontrado qualquer avaliação contínua das necessidades de segurança das crianças. Numa frase que se referia tanto ao Zachary quanto à filha mais velha da Shirley, que também havia passado períodos sob os cuidados da mãe enquanto ela estava sob liberdade condicional, que carregaria depois das mortes problemas de desenvolvimento escolar e um sentimento de culpa sobre a tragédia.

A constatação mais dura do relatório foi sobre prioridades invertidas. Os profissionais envolvidos no caso, trabalhando sob a presunção de inocência da Shirley, dedicaram mais atenção ao bem-estar dela do que do próprio filho. O Peter também identificou um vácuo de responsabilização dentro da hierarquia do sistema. Ele disse, entre aspas: "As pessoas ficaram chocadas e tristes quando o Zachary foi assassinado, mas o que era realmente confuso era o senso limitado de responsabilização em termos de hierarquia e linhas de autoridade." Paralelamente, no dia 3 de maio de 2006, antes mesmo da divulgação do relatório completo, uma junta disciplinar do Colégio de Médicos e Cirurgiões de Newfoundland e Labrador considerou o psiquiatra John Doucette culpado de conduta profissional inadequada por ter ajudado a pagar a fiança da sua própria paciente.

Ele foi multado em 10 mil dólares canadenses, valor que cobria um terço dos 30 mil gastos pelo colégio médico com a investigação. Ele também era obrigado a passar por acompanhamento psiquiátrico. O John afirmou que estava decepcionado com o veredito. Já o David, pai do Andrew, ao contrário, disse estar satisfeito com o precedente que o caso estabelecia. O John, o psiquiatra, acabou deixando saiu de Newfoundland pouco depois, indo para outra parte do Canadá.

Já o diretor da Agência de Bem-Estar Infantil da província também renunciou na sequência das conclusões da investigação. E a juíza Gail Welsh, que soltou a Shirley duas vezes, né, o que aconteceu com ela? Absolutamente nada. O próprio Peter foi impedido por mandato de revisar a decisão de soltá-la. A investigação cobriu serviços sociais e não a justiça. A Gail Welsh seguiu trabalhando normalmente como juíza nos anos seguintes, sem qualquer sanção.

Anos depois, chegou a aparecer entre os nomes cotados para uma vaga na Suprema Corte do Canadá. Diante de um sistema que como não ofereceu ao David e a Kathleen nenhuma resposta satisfatória nem sobre a fiança e nem sobre a juíza que a concedeu duas vezes, a forma que sobrou para tornar pública a história do Andrew e do Zachary foi um documentário. Na tarde de 9 de novembro de 2001, Kurt Cohen recebeu uma ligação da própria irmã pedindo que ele se sentasse antes de continuar a conversa.

O Andrew, seu melhor amigo desde que eles tinham 7 anos de idade, tinha sido assassinado. Os dois tinham acabado de completar 28 anos. Eles nasceram com apenas um mês de diferença um do outro. O Kurt era cineasta desde criança, gravava filmes amadores em fita que ele conseguiu pegar numa câmera. E o Andrew era o seu ator favorito. Em praticamente todos esses filmes. Ele guardava aquelas fitas originais com a juventude inteira do amigo registrada ali, em alguma forma ou outra.

Mesmo fora das filmagens, em aniversários ou encontros, o Kurt sempre tinha uma câmera por perto. Em menos de 24 horas depois de saber da morte do seu melhor amigo, ele já tinha decidido o que ia fazer. Ele juntaria tudo o que ele tinha, entrevistaria cada pessoa que pudesse encontrar e criaria uma espécie de álbum de memórias. Não pro público, mas pros amigos e a família. E sobretudo, para o filho. Que o Andrew nem sabia misteria.

O projeto cresceu em escala junto com a própria tragédia. O Kurt viajou pelos Estados Unidos entrevistando amigos, colegas e familiares do Andrew. Ele também foi para o Reino Unido, terra natal da Catherine, lugar onde o Andrew passava os verões de infância, para conversar com os parentes do lado materno da família. Uma parte da história de Andrew que poucos fora do círculo mais próximo conheciam. Em julho de 2003, ele viajou até Newfoundland para conhecer o Zachary pessoalmente durante o primeiro aniversário dele, sem que a Shirley jamais soubesse da sua presença.

O Kurt se escondia toda vez que havia risco dela aparecer, pra não comprometer a segurança da visita. Isso aconteceu exatamente um ano antes da morte do Zachary. O resultado foi o documentário Dear Zachary: A Letter to a Son About His Father, que estreou no dia 31 de outubro de 2008 no Slam Dance Film Festival. O documentário tomou a forma de uma carta dirigida ao próprio Zachary, ainda que o menino já não estivesse vivo pra recebê-la.

O Kurt doou todo o lucro do filme pra bolsas de estudo criadas em nome do Andrew e do Zachary. Já o pai do Andrew, o David, decidiu escrever um livro contando a história da família, Publicado em 2007, é basicamente um relato cru e raivoso sobre a falha do sistema em proteger uma criança, que no caso era o Zachary. E o livro se tornou um best-seller no Canadá. A combinação do livro e do documentário, né, que a princípio o Kurt queria fazer pra família, né, como um presente ali pra família, que acabou transformando toda a história em um caso de pressão legislativa.

Quando o Dear Zachary, né, o documentário saiu em DVD, o Kurt decidiu fazer 400 cópias e enviar essas cópias cópias para cada um dos membros do parlamento canadense. A repercussão foi imediata. Em outubro de 2009, o deputado Scott Andrews apresentou ao parlamento um projeto de lei que foi informalmente apelidado de Lei Zachary, para alterar o processo penal do Canadá para permitir que tribunais negassem a fiança a acusados de crimes graves quando isso fosse necessário, para proteger a segurança de crianças.

O projeto recebeu apoio unânime na Câmara dos Comuns e foi sancionado em dezembro de 2010. O Scott diria mais tarde que essa lei dava para a família do Andrew pelo menos alguma sensação de que alguém tinha ouvido todo o clamor deles e que alguma coisa havia mudado. Essa mudança foi restrita ali apenas ao sistema canadense, né, que foi o sistema que falhou em proteger o Zachary. Já nos Estados Unidos, onde o crime aconteceu, né, onde o Zachary foi morto, nenhuma legislação equivalente chegou a ser proposta.

Os 3 filhos da Shirley hoje são adultos e não tem como encontrar nada sobre eles. Provavelmente eles foram protegidos, né, quando o caso aconteceu, porque eles ainda eram menores de idade. Dessa forma, suas identidades foram preservadas não só pela imprensa, mas também nos documentos judiciais do caso. A única coisa que se sabe é que a filha mais jovem da Shirley, que passava algumas temporadas com ela e que sofreu muito com todo esse caso, depois disso passou a viver com outros parentes.

Já o David e a Kathleen, os pais do Andrew, fundaram uma organização sem fins objetivos dedicada a apoiar estudantes de medicina e aumentar a conscientização sobre violência doméstica. Anos depois, ao testemunhar perante o parlamento canadense, o David falaria o que ele acha de toda essa situação de forma bem direta. Ele disse que assassinos são perigosos e repetições de crimes são imprevisíveis, e que nenhuma promessa feita em papel impede um novo assassinato.

Foi exatamente isso que aconteceu, segundo ele, com o seu neto Zachary. Quero muito saber o que vocês acharam desse caso. É um caso que é muito revoltante, a forma como ele termina, né, o fato dela ter tirado a própria vida, a Shirley, dela nunca ter nem ido a julgamento pelo assassinato do Andrew. E pior ainda, ela ter assassinado o próprio filho que ela teve com ele, né. Que era, com certeza pros avós, como se um pedacinho dele ainda estivesse vivo, né.

Então é uma coisa horrível que ela decidiu fazer depois de ter assassinado o Andrew, né, gente. Sério, é horrível. E acho que pior ainda é o que a juíza fez, né. Ela acreditava que a Shirley não era um perigo. E ela se provou ser um perigo sim. Não só pra ela, mas pro filho também. E provavelmente foi a pessoa que mais terrou, né, em tudo isso. Quando a gente já fala na investigação do caso, quero muito saber o que vocês acharam.

Eu fiquei muito brava com essa parte específica e saber que ela continua atuando normalmente como se nada tivesse acontecido. Me conta aqui nos comentários, não esquece do like, me ajuda muito na divulgação do vídeo. E é isso, para mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveite para avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.

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