CANTOR ASSASSINO? Caso Marie Trintignant e Bertrand Cantat #600
Em julho de 2003, a atriz francesa Marie Trintignant foi encontrada inconsciente num quarto de hotel em Vilnius. O namorado, o roqueiro Bertrand Cantat, falou em acidente. A autópsia contaria uma história muito diferente. #600
Marie Trintignant
- Caso Marie Trintignant e Bertrand CantatMarie Trintignant · Bertrand Cantat · Morte de Marie Trintignant · Versão de Bertrand Cantat · Laudo da autópsia · Acusação de homicídio doloso · Julgamento em Vilnius · Pena de 8 anos de prisão
- Relacionamentos e CasamentoPaixão imediata · Ciúmes e controle · Viagem para Vilnius
- Morte de Christina RadziChristina Radzi · Relacionamento com Bertrand após a prisão · Suicídio · Reabertura de investigações
- Vida e carreira de Marie TrintignantFamília Trintignant · Carreira no cinema francês · Indicações ao César · Maternidade
- Vida e carreira de Bertrand CantatBanda Noir Désir · Influências musicais · Sucesso comercial · Posições políticas
- Legado e consequências do casoDivisão na França · Críticas à mídia · Documentário Netflix · Carreira musical de Bertrand após o caso
Voz A:Where is Daredevil?
Marie Trintignant:I'm right here. Don't miss the return of Marvel Television's Daredevil: Born Again. So what's next? I feel liberated. We're gonna take this city back. Overmedicated. In an all-new season, now streaming only on Disney+.
Voz C:They're hunting us.
Voz D:It's time we started hunting them.
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Marie Trintignant:Marie-Joséphine Nocent-Trintignant nasceu em 21 de janeiro de 1962 em Boulogne-Billancourt, nos arredores de Paris. Ela nasceu em uma das famílias mais importantes do cinema francês. Seu pai era Jean-Louis Trintignant, um dos maiores atores dos atores do cinema europeu do pós-guerra, vencedor da Palma de Ouro de melhor ator no Festival de Cannes. Já sua mãe, Nadine Marquand, era diretora, produtora e roteirista. A família toda era do cinema. A Marie tinha um irmão chamado Vincent, que seguiu a mesma carreira e se tornou ator e roteirista. Ela também tinha uma irmã mais nova chamada Pauline. O Christian e o Serge Marquand também eram atores. Ela nasceu dentro desse mundo e foi ele que a salvou e que a marcou para sempre. Quando Marie tinha 8 anos, sua irmã caçula Pauline morreu de morte súbita com apenas 9 meses. O luto transformou a criança De uma maneira que quem estava perto percebeu, porque ela praticamente parou de falar. Durante anos, ela conviveu com uma timidez tão severa que chegou a pensar em abandonar o contato com pessoas e virar veterinária. Tinha uma afinidade intensa com animais. Mas aos 15 anos, decidiu que ia encarar esse medo pelo único lugar onde ele fazia sentido. Ela se tornou outra pessoa pra aprender a ser ela mesma. Sua primeira aparição em tela foi aos 4 anos, no filme Mon Amour, Mon Amour. Dirigido pela própria mãe, ao lado do pai. Inclusive, seus pais se divorciaram em 1976, quando a Marie tinha 14 anos. Mas ela continuou circulando ali pelos dois mundos. Após o divórcio dos pais, a Nadine iniciou um relacionamento com o diretor Alain Corneau, que adotou a Marie e o Vincent como seus próprios filhos. O primeiro papel da Marie que chamou a atenção da crítica foi em Serre-et-Nord, em 1979. Ela tinha 16 anos. Ao longo de 36 anos de carreira, ela apareceu em mais de 30 filmes, foi indicada 5 vezes ao César, que é o Oscar francês, pelas atuações em Um Assunto de Mulheres, As Marmotas, O Grito da Seda, O Primo e Como Ela Respira. Ela trabalhou com Claude Chabrol, com quem tinha aprendido que não era preciso ir aos extremos para mostrar a dor de um personagem. Ela disse que ele o ensinou leveza e que a mostrou como crescer sem falsa tragédia. Nos anos 90, ela protagonizou Betty, onde interpretou uma burguesa alcoólatra em queda livre. Ela fez teatro, traduziu Harold Pinter para o palco francês, e ela disse que gostava de interpretar mulheres à margem, personagens que lhe permitiam falar por aqueles que não merecem ser falados. A Marie era uma atriz completa, com uma vida pessoal igualmente intensa e igualmente pública também, no modo como a mídia francesa tratava. Ela era mãe de 4 filhos de 4 pais diferentes. O Romain Colinca nasceu em 1986, filho do músico Richard Colinca. O Paul Cluzet nasceu em 1993, filho do ator François Cluzet. O Léon Othnin-Girard nasceu em 1996, filho de Mathias Othnin-Girard. E Jules Benchetrit, em 1998, filho do diretor Samuel Benchetrit. A Marie era descrita pelas pessoas próximas como uma mãe muito amorosa e protetora. Em 2003, ela se separa de Samuel, com quem era casada desde 1998. Naquele mesmo ano, ela começa um novo relacionamento, dessa vez Bertrand Cantat. Ele nasceu em 5 de março de 1964 em Pau, uma comunidade francesa nos Pirineus Atlânticos. E ele passou a infância em Le Havre, na Normândia, antes de se fixar em Bordeaux durante a adolescência. O seu pai era um oficial da Marinha e, antes disso, paraquedista da Guerra da Indochina. Sua mãe era professora primária, depois foi dona de casa. Em casa, eles tocavam pouca música, basicamente só clássicos. Os filhos eram incentivados mais à leitura do que à música. Então foi por conta própria, por volta dos 11 anos, que o Bertrand descobriu o MC5. Uma banda de Detroit conhecida pela energia crua e pelo espírito subversivo. Ele sentiu que era aquilo que ele queria fazer. Ele tinha dois irmãos: o Javier, um ano mais velho, que se tornaria fotógrafo e depois vereador, ecologista e companheiro da política Cecília Duflo, e Anne, a caçula, também fotógrafa, que morreu em janeiro de 2018. Foi em Bordeaux que, por volta de 1980, o Bertrand, então com 16 anos, se encontrou com dois colegas de colégio: o guitarrista Serge e o baterista Denis Barty. A ideia no início era simples: tocar juntos. A banda passou por vários nomes antes de chegar ao definitivo, ativo, que foi Noir Désir, que é desejo negro em francês. A formação clássica se consolidou com a entrada do baixista Frédéric, que foi substituído em 96 por Jean-Paul Roy. Nos anos iniciais era visível a admiração de Bertrand por Jim Morrison. Os jornais musicais franceses chegaram a chamá-lo de o Jim Morrison do rock francês. Ele vestia calças de couro, usava colares, gesticulava no palco com a mesma intensidade. As suas influências eram amplas: The Doors, The Who, Led Zeppelin e AC/DC, e o cantor belga Jacques Brel. O primeiro EP da banda saiu em 1987 e primeiro álbum completo chegou em 1989, mas o sucesso viria com o terceiro disco em 1991, que anos depois seria incluído na lista dos maiores álbuns do rock francês pela edição francesa da Rolling Stone. Depois eles lançam mais um álbum em 93, que acabou consolidando a banda no mainstream. E em 2001 foi o ponto mais alto da trajetória comercial deles, com o álbum De Visage de Figure, um disco que bateu recordes de venda e transformou o Bertrand em rosto do rock alternativo francês. Ele não era só músico, ele tinha posições políticas explícitas, letras com engajamento social e de esquerda, e se envolvia em causas de imigrantes, e era tratado por parte do público como um artista de consciência. A imagem que ele construiu ao longo das duas décadas era de um homem que se importava com o mundo. Na vida pessoal, ele era casado com Christina Radzi desde 1997. Ela nasceu em 23 de agosto de 1968 na Hungria. Intérprete de formação, escritora, artista de teatro e tradutora, ela era uma mulher de cultura profunda que transitava entre idiomas e artes. Ela se apaixonou por Bertán num festival em Budapeste em 93, e eles namoraram por menos de 4 anos e se casaram 1997. Os dois tiveram dois filhos, Milo, que nasceu em 97, e Alice, nascida em 2002. O casal nunca se divorciou formalmente, mas a separação viria logo após o nascimento da Alice, que foi na mesma época que o Bertrand conheceu a Marie. Segundo Dominique Reverte, que trabalhou na banda do Bertrand, ele foi à clínica onde a Christina havia acabado de dar à luz, e ali ele anunciou sua partida dizendo: "Vou embora." Em 2002, o Samuel, que na época ainda era marido da Marie, tava dirigindo um filme chamado Janis et John, que era uma comédia romântica dramática, que inclusive a Marie estava trabalhando nela, né, atuando em uma personagem que se fantasiava de Janis Joplin. Inclusive, gente, eu tô fazendo aulas de francês, mas me perdoem meu francês, que eu com certeza vou falar várias coisas com a pronúncia errada ou não tão perfeita. Mas eu queria muito contar esse caso para vocês. Então, continuando, para se preparar para esse papel que ela ia fazer, a Marie queria muito entender como era viver as coisas tão intensamente, aquela energia crua, quase violenta, de quem entrega tudo de quando tá no palco, né, que era uma coisa que a Janis fazia. Então ela queria entender como aquilo funcionava pra poder interpretar aquele papel. Ela queria ver isso ao vivo, então ela vai num show da Noir Désir, né, a banda do Bertrand. E aí, depois do show, ela pede pra conhecê-lo. Segundo uma amiga muito próxima da Marie, chamada Liu, a paixão dos dois foi quase que imediata. A Marie tinha 39 anos, o Bertrand tinha 37. E os dois eram muito consolidados, né, nas suas carreiras. Eram artistas muito intensos, que tinham vidas afetivas coisas bem complicadas. O relacionamento entre eles foi descrito por pessoas próximas como uma paixão fulminante e sufocante desde o início. Essa amiga da Marie, em 2003, né, no ano seguinte, ela estaria junto com ela no set de gravação de um outro filme que a Marie tava fazendo chamado Venu, que tava sendo gravado no verão daquele ano. E aí ela conta que eles eram tão obcecados um pelo outro que a Marie colocava o celular dela para vibrar dentro da bota que ela tava usando para que ela não perdesse nenhuma ligação dele, e que ela até chegava a interromper uma cena no meio da gravação só para poder atender. Em Paris, o Bertrand já cancelava os compromissos da Marie. Ele queria que ela desse total atenção para ele. Um dia, Marie até confidenciou para sua amiga que ele era extremamente ciumento. Ele sempre queria saber onde ela tava, o que ela tava fazendo. A mãe da Marie até disse que ela sentia que ele agia como aquelas pessoas que, quando começam um relacionamento, fazem com que a pessoa se afaste de todo mundo. Primeiro dos amigos, depois da família. E aí, dessa forma, a pessoa conseguia ter domínio total ali na relação e atenção total também. Então a Marie às vezes tava gravando, ela terminava de gravar, ia correndo já encontrar ele, ele tava lá esperando por ela. Em julho de 2003, naquele mesmo ano, a Marie tava na capital da Lituânia, em Vilnius, e a Nadine tava ali também dirigindo um telefilme sobre a escritora Colette. A Marie era a protagonista, né, então era uma produção ali com vários membros da família. A Marie como protagonista, mãe dela dirigindo, o irmão dela também tava na equipe, e o Bertrand foi junto para acompanhar Marie. O hotel Domina Plaza era onde eles estavam hospedados e também onde parte da equipe estava hospedada, né, durante toda a gravação. A presença do Bertrand foi notada no set porque ele sempre tava lá acompanhando ela, sempre esperando ela terminar as gravações. Até que na noite do dia 26 pro dia 27 de julho aconteceu alguma coisa no quarto de hotel que o casal dividia. Segundo a versão que o Bertrand apresentou às autoridades, a Marie recebeu uma mensagem de texto do Samuel, ex-marido dela. Eles mantinham contato, né, ela tinha feito um filme com ele. Com ele. E esse filme que eu citei para vocês, a Janis Joplin, tava em pós-produção ainda. O SMS que o Samuel enviou era sobre o filme, mas também tinha ali um tom carinhoso. Na mensagem ele dizia: "Liga para mim quando puder para o filme. Beijos, minha pequena Janis." Para o Bertrand, aquilo foi uma traição, porque ele tinha deixado a esposa, o filho recém-nascido, tinha largado tudo pela Marie. E pelo tom dessa mensagem para ele, parecia que ela ainda mantinha laços com o ex-marido. Uma discussão violenta se seguiu, e segundo a versão Ele contou para as autoridades, a Marie ficou histérica, teria gritado com ele e o agredido primeiro. Ele disse para as autoridades que ele deu alguns tapas nela em resposta a essa agressão, e depois ele jogou ela para o lado, e aí ela teria caído e batido a cabeça na lareira. Depois disso, ele disse que pegou ela no colo e colocou ela na cama porque ele acreditava que ela tava dormindo. E aí, segundo ele, ele até ligou para o Samuel para pedir alguns conselhos sobre o relacionamento. Enquanto a Marie tava ali no mesmo quarto, inconsciente na cama. E ele disse que depois disso, ele foi dormir. Em algum momento durante a noite, o Bertrand liga pro Vincent, que era irmão da Marie. Como eu falei pra vocês, tava trabalhando também no filme. E ele tava hospedado no mesmo hotel. Então ele liga pra ele, mas segundo o Vincent, ele não transmitiu nenhum tipo de urgência nessa ligação. Ele teria contado que os dois tinham brigado e que o rosto dela poderia não estar bom pra gravação no dia seguinte. Então, o Vincent e ele discutiram, mas o Vincent não foi até o quarto naquele momento. Até que já na manhã do dia 27, eles já tinham discutido. Dormido por um tempo, ele decidiu ir até o quarto para checar, né, como a irmã tava. E foi aí que ele encontrou ela imóvel na cama. Então ele ligou para emergência, ela foi levada em estado grave ao hospital universitário, e lá eles tentaram fazer uma cirurgia ali de emergência para tentar reduzir o edema cerebral, mas não foi suficiente. Em 30 de julho, a Maria ainda estava internada em estado de morte cerebral. A família fez um pedido para poder levá-la de volta para a França. A família conseguiu essa autorização para poder fazer a transferência, e o Bertrand teve que ficar. Ele estava ali acabou ficando nas mãos da polícia lituana. E antes da família partir, né, para França, ele pediu desculpas publicamente, dizendo que aquele tinha sido um trágico acidente. A Marie faleceu no dia 1º de agosto de 2003, em um hospital nos arredores de Paris, e a causa da morte foi um edema cerebral. Ela tinha 41 anos, tinha 4 filhos. O mais velho, o Romain, tinha 16 anos, e o Jules, o mais novo, tinha apenas 5. Na versão que o Bertrand contou para as autoridades, tinha acontecido uma alguns tapas e um empurrão. Só que aí, né, na autópsia foi outra história. Os peritos encontraram 19 marcas de golpes no corpo da Marie: nas pernas, braços, costas, no abdômen e no rosto. Foram os golpes no rosto os responsáveis pela sua morte. Segundo o laudo pericial, o esmagamento do nariz causou lesões internas que causaram o edema cerebral. Uma investigação francesa independente chegaria na conclusão que a Marie morreu em decorrência de chacoalhões violentos e pancadas graves graves e repetidas. Então já era uma história bem diferente de alguns tapas e uma queda, né, um empurrão. Nesse ponto, a família da Marie também levanta uma outra questão: o Bertrand levou muito tempo para pedir socorro, né? Então ele teve tempo de limpar o sangue, ele colocou lá na cama, segundo ele convicto de que ela tava bem, e ainda por cima ele foi dormir depois disso, né? Então o advogado da família da Marie disse que ela era uma mulher pequena, né, sem força física para conseguir atacar um homem do porte físico do Bertrand. Ele também destacou o fato do Bertrand dito que ela ficou histérica, uma estratégia comumente usada por agressores para justificar violência. Então o cantor foi formalmente acusado de homicídio doloso com intenção indireta, que no direito lituano equivale a homicídio por dolo eventual, ou seja, quando a pessoa não quer aquele resultado, mas assume conscientemente o risco de causá-lo. A Marie foi sepultada em Paris, mas antes disso ela recebeu uma homenagem que inclusive foi pública. Então ela recebeu cartas, leituras de textos e canções que ela amava. No enterro, todos os presentes foram de branco e não de preto, né, que é a cor de costume. Foi um pedido da família para que todos fossem de branco, e especialmente do filho mais velho da Marie. Com a morte dela, cada um dos filhos voltou a viver com os respectivos pais. Ela tinha 4 filhos de 4 pais diferentes. O filho mais novo dela, o Jules, voltou a morar com o pai dele, né, o Samuel, que era o ex-marido do marido da Marie. E uma curiosidade sobre o Jules é que anos mais tarde ele se casaria com a Vanessa Paradis, que é atriz e cantora francesa, ex do Johnny Depp e mãe da Lily-Rose Depp. Voltando ao caso, quando a morte da Marie aconteceu, causou muita comoção na França, porque ela era filha e estava inserida ali numa família muito conhecida no país, uma família do cinema. O seu pai era um dos rostos mais conhecidos do cinema de arte europeu, e toda a família dela era muito querida pelo público francês. E aí, além disso, tendo ali como suspeito da sua morte o namorado dela na época, que como eu contei pra vocês, era um cantor famoso na França, que tinha letras que falavam sobre justiça social, que era tratado como um artista que realmente se importava, um artista com consciência, né. Então tinha também toda essa parte, porque as pessoas conheciam muito ele também. Então o que se seguiu disso foi uma ruptura pública, né. A França ficou dividida. De um lado, o grupo de defesa das mulheres e a família da Marie, que exigiam responsabilização plena. E do outro lado, parte da imprensa e alguns setores do público que hesitavam em—
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Marie Trintignant:Intro rate first 3 months only, then full price plan options available. Taxes and fees extra. See full terms at mintmobile.com. Condenar o ídolo deles, ou que tentavam explicar o que aconteceu, né, o crime como uma tragédia passional, um excesso de amor que saiu do controle. A mídia também acabou se voltando contra a imagem da Marie, dizendo que ela tinha 4 filhos com 4 homens diferentes. Foi uma coisa usada abertamente em alguns veículos como um argumento, como se o modo que ela vivia, como se a vida pessoal dela e quantos parceiros ela teve, tivessem alguma relação com o direito de não ser espancada até a morte. Tem um documentário na Netflix sobre esse caso e a diretora do documentário, a Anne-Sophie Jeanne, identificou esse momento como uma virada de chave. Ao invés de se responsabilizar, a narrativa em torno do Bertrand passou a transformar o crime em um romance trágico. O próprio cantor, em declaração pública pra imprensa, disse: "Eu que amava tanto, ela que me amava tanto." Era uma coisa que ele meio que usava a seu favor ali. Ali para descrever que eles tinham amor tão grande que, nas palavras da diretora, ele fazia isso numa tentativa de camuflar a violência do crime. O julgamento dele começou no dia 16 de março de 2004, na capital lituana, e durou 3 dias. O tribunal era composto por 3 magistrados profissionais, sem júri popular, como determina o sistema lituano. Mais de 150 jornalistas cobriam, e a cobertura internacional foi intensa, ao ponto de o promotor ter solicitado inicialmente o julgamento de portas fechadas, alegando querer preservar a privacidade das partes, especialmente da Marie, que não podia mais se defender. O pedido não foi acatado. Os dois lados chegaram representados por advogados de peso. A família da Marie era representada por Georges Keldman, ex-ministro socialista, então com 71 anos. E a defesa do Bertrand tinha como principal advogado Thierry Lévy. E a Nadine, a mãe da Marie, estava presente na sala todos os dias. Já o pai da Marie permaneceu na França. Nos meses que antecederam o julgamento, os dois clãs haviam travado uma guerra paralela nos tribunais. Quando a família do Bertrand organizou uma festa de apoio em Vigneux, o advogado da família da Marie denunciou a festa e chamou aquilo de desrespeito à dor da família. Quando a Nadine publicou o livro "Ma fille, ma fille", onde ela escreveu 85 vezes a palavra assassino, o advogado de defesa do Bertrand acusou-a de violar a presunção de inocência. Dentro do tribunal, a atmosfera era tensa. Certos momentos provocaram clamor, houve gritos e a sessão foi suspensa ao menos uma vez por conta dessas perturbações. O Samuel foi ouvido, o ex-marido da Marie, disse com a voz calma que o SMS que enviou pra ela naquela noite era um texto carinhoso em referência ao filme que eles haviam acabado de fazer. Descreveu Marie como alguém muito doce e feliz, e o oposto da histeria. Ele disse, entre aspas: "Não estou aqui pra dizer que ela era uma santa, mas ela amava unir as pessoas". Já a namorada do irmão da Marie, a namorada do Vincent, chamada Ruth, também integrava o elenco de Colette, prestou depoimento sobre a ligação que ela recebeu do Bertrand na noite do crime. Ela disse que ele estava mais ou menos calmo e que disse apenas: "É horrível". O Bertrand contestou a palavra dizendo que ele tinha memória de ter dito grave e não horrível, que para ele a situação era grave. A Christina foi ouvida como testemunha de defesa. Ela afirmou que o Bertrand nunca havia sido violento com ela e o seu depoimento teve peso no tribunal. O promotor pediu 9 anos de prisão. Em seu pronunciamento, destacou que Bertrand havia bebido naquela noite. Em depoimento de agosto, o próprio cantor havia declarado ter consumido 1 litro de vodka e vinho. Para o promotor, isso era circunstância agravante, mas reconheceu que ele havia admitido os fatos de forma sincera e lógica. Então ele concluiu entre "O acusado podia compreender o sentido dos seus atos e a gravidade do delito. Esse assassinato não foi cometido sob o impulso da emoção." A defesa pleiteou a requalificação do crime como passional, o que, pelo código lituano, reduziria essa pena à metade. A tese era de que Marie havia batido a cabeça no aquecedor durante a briga e que as lesões não foram intencionais. O Bertin insistia que havia dado apenas 4 tapas. O tribunal de Vinil não aceitou a tese da defesa. No dia 29 de março de 2004, o veredito foi lido: culpado por homicídio doloso com intenção indireta. Sua sentença: 8 anos de prisão. A pena máxima prevista era de 15 anos. O enquadramento como crime passional foi parcialmente aceito, resultando em pena mais branda do que a solicitada pelo promotor. A família da Marie comemorou a condenação, mas não com a pena. A Nadine saiu do tribunal sem fazer declarações. Seu advogado disse que eles iriam recorrer buscando uma pena maior, mas o recurso foi mais tarde retirado. O Bertrand foi levado à prisão em Vigneux, e nos anos seguintes houve ao menos uma tentativa de tirar a própria vida dentro da prisão, algo que foi noticiado na época pela imprensa, mas não foi confirmado pela polícia. Em setembro de 2004, ele foi transferido para a prisão de Moret, no sul da França, para cumprir o restante da pena em seu país de origem. A família da Marie tentou sem sucesso impedir essa transferência, e mais tarde tentaria também impedir a liberação antecipada. Em outubro de 2007, Hubertin foi solto em liberdade condicional após 4 anos de reclusão. A saída antecipada foi concedida com base em bom comportamento, conforme legislação francesa. A notícia provocou protestos de grupos feministas e da família da Marie. Como eu falei para vocês, o Hubertin se casou com a Christina. Eles Eles nunca se separaram formalmente e ele deixou ela logo ali no hospital quando o segundo filho deles nasceu. Mas no julgamento ela falou sobre ele, disse que ele nunca tinha sido agressivo com ela. Então ela ficou do lado dele, né, testemunhou ali na defesa. Ela ficou esperando por ele enquanto ele tava preso. E quando ele foi solto em outubro de 2007, ele foi direto para propriedade da família. Ela tava lá com os filhos. E durante os 4 anos que ele ficou preso, ela visitou ele. Enfim, como eu falei, tava esperando dele sair. Os pais dela disseram que logo que ele saiu, ele alugou um apartamento próximo da casa dela, né, da casa da família. E aí, aos poucos, ele foi se reinstalando lá. As fontes descreveram esse arranjo na relação deles como algo livre, dizendo que os dois não viviam como um casal convencional, mas que ele era ali uma presença constante. O problema nisso é que durante os 4 anos que ele ficou preso, mesmo visitando, esperando por ele, a Christina construiu uma vida para si. Então ela tinha um namorado chamado François com quem ela tinha um relacionamento bom, ele convivia ali com ela, os filhos gostavam dele. Quando o Bertrand saiu da prisão, ela terminou o relacionamento com o François. E segundo ela, não foi porque ela queria, mas sim por pressão. Porque o Bertrand não tolerava a presença de outro homem. E segundo os pais da Christine, ele teria dito que se ela fosse embora, haveria um drama. E aí, o que se seguiu nos próximos anos entre os dois vivendo esse relacionamento não convencional Foi descrito por pessoas próximas como algo que foi só ficando cada vez pior, só se deteriorando. A Cristina teria chegado a confidenciar pra amigos bem próximos que ela passou por algumas agressões físicas, que chegou até quebrar o cotovelo. E segundo o ex-namorado, ela vivia ali num terror psicológico crescente. Em julho de 2009, essa situação acabou escalando, né. Ela queria sair daquela situação, mas ela não conseguia. Ela continuava trocando e-mails com o ex-namorado, com o François, dizendo que o Bertrand tinha muito ciúme dele. Dele e que ela não aguentava mais essa situação, chamando ele até de louco. Ela disse que tava cogitando fugir e ela teria deixado uma mensagem que foi gravada ali pelos pais dela, uma mensagem de pouco mais de 7 minutos, que também foi em meados de 2009, onde ela dizia que ela vivia um terror em casa, um pesadelo que o Bertrand chamava de amor. E ela também disse nessa mensagem que ela teria escapado do pior várias vezes. Ela descreveu uma série de eventos piores do que os de 2003, dizendo que todo mundo pensa que ele é um ícone e que todo mundo quer o melhor pra ele, mas que ele chega em casa e faz coisas horríveis na frente da família. E ela disse que se algo pior acontecesse com ela, haveria testemunhas. Na noite do dia 9 de janeiro de 2010, a Christina ainda trocava mensagens com o seu ex-namorado, François. Em algum momento nessa troca de mensagens, ela fez referência a um capítulo de um romance onde o tema amor e suicídio é explorado. Essas foram as últimas mensagens que ela enviou. Naquela manhã do dia 10, o Milo, o filho mais velho dela, com o Bertan encontrou a mãe morta no quarto dele. Ela havia se enforcado com uma rede e o seu pai, né, o Bertan, tava no quarto ao lado dormindo. Não foi ele que notificou os pais da Cristina, segundo eles foi um amigo músico de jazz. E a autópsia concluiu suicídio por enforcamento. Esse inquérito foi finalizado sem acusações. A Cristina tinha 41 anos, que inclusive é uma coincidência muito bizarra porque é a mesma idade que a Marie tinha quando ela morreu. O enterro dela, que aconteceu no dia 18, seguiu ritos ciganos. Toda sua família húngara estava presente e a Christina havia deixado um bilhete. Nesse bilhete ela falava sobre os filhos, pedindo desculpas a eles, dizendo que eles eram os únicos que realmente conheciam a sua vida. Ela também teria colocado ali o nome de duas mulheres, as quais ela não queria se despedir. Uma delas seria a mulher do ex-guitarrista da banda, do Bertrand. Ela teria dito sobre essas duas mulheres que elas disseram muito mal dela, que ela nunca soube por quê. Aí ela fala: "Certamente por poder, o poder." A banda inclusive tinha revivido a prisão do Bertrand. Em novembro de 2008, 2 anos após a saída dele, a banda lança 2 músicas. Então eles não tinham lançado nada desde 2003, e aí em 2008 lançam essas músicas. Havia planos de um novo álbum, eles disseram que eles estavam em gravações e que ele deveria sair em 2010, mas eles não estavam gravando. E o que aconteceu nos bastidores da banda nunca foi completamente esclarecido. O que se sabe é que 10 meses após a morte da Christina, em 29 de novembro de 2010, esse mesmo guitarrista da mulher que é citada nesse bilhete que a Christina deixou, o guitarrista se chama Sergei Taissoi, gay. Ele publica nessa data um breve comunicado anunciando a sua saída do grupo. Nesse comunicado ele fala sobre desacordos emocionais, humanos e musicais com o Bertrand. Ele também fala sobre um sentimento de indecência em relação à banda. No dia seguinte, o Dennis, que era um dos membros da banda, falou sobre a dissolução definitiva. Então ele falou no nome dele e do baixista, que eram os membros restantes, disse que eles iam acabar definitivamente e falou para os fãs que aquilo não era o fim do mundo. 30 anos depois de terem se encontrado em uma escola e começado uma banda, naquele dia foi o fim. Em 2012, num livro de investigação sobre o grupo, um jornalista publicou um relato atribuído ao Dennis, feito a microfone fechado, sobre a ruptura final. Segundo ele, Bertin havia se colocado como vítima de tudo. Dizia que o que tinha acontecido em View News, né, com a Marie, não tinha sido culpa dele, e que a morte da Christina também não era culpa dele. Ele teria dito que quando quer romper porque a situação não lhe convém, ele leva as pessoas ao limite para que sejam elas a encerrar a história e ele não precisa assumir suas responsabilidades. O Denis contestou posteriormente ter dito isso e ameaçou tomar medidas legais. Mas o que ficou, né, em relação à banda foram 30 anos de música, um catálogo que acabou moldando o rock alternativo francês e uma ruptura que ninguém quis anunciar com clareza. Com o Noir Désir encerrado, Bertrand tentou retomar a carreira de outras formas. Em 2011, o dramaturgo libanês-canadense Wajih Mouawad o escolheu para cantar numa produção em Montreal baseada em A Fuglis. Protestos públicos no Canadá fizeram com que o Bertrand se retirasse da produção. Em novembro de 2013, ele lançou o álbum Horizons em parceria com o músico Pascal Humbert, sob o nome da dupla Detroit. A data original de lançamento escolhida pela gravadora foi 25 de novembro. Só depois eles perceberam que essa era a data do Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, então o lançamento foi adiantado para o dia 18. Em 2018, o Bertrand tinha uma série de apresentações em festivais franceses programadas, mas uma petição online convocou o público a exigir sua retirada do lineup do festival Papillons de Nuit na Normandia e mais de 75 mil pessoas assinaram. Outros festivais cancelaram suas apresentações em sequência. Em comunicado publicado nas redes sociais, o Bertrand anunciou que cancelaria todas as participações em festivais. Reconheceu que sua presença era problemática e disse que queria encerrar a pressão sobre os organizadores dos eventos. Disse que continuaria com as datas da turnê já marcadas, mas que se retiraria dos festivais. No mesmo ano, num grande show em Paris, ele atacou jornalistas do palco e disse: "Não tenho nada contra vocês, vocês é que tem algo contra mim. Eu estou me lixando." A mãe da Maria Nadine reagiu em entrevista televisiva dizendo: "Como ele pode fazer isso? Um homem que todo mundo sabe que matou. Como ele ousa? Acho vergonhoso, indecente, nojento que ele suba num palco." No dia 27 de março de 2025, a Netflix lançou o documentário Do Rockstar a Assassino: O Caso Cantat, que é uma série documental em 3 partes dirigida pela Anne-Sophie, né, citei já para vocês. A produção reuniu mais de 60 arquivos históricos, entrevistas inéditas e uma análise detalhada de ambos casos. Os 3 episódios foram intitulados Um Acidente, Uma Paixão Assassina e A Maldição Cantat. O terceiro episódio trouxe um testemunho anônimo que até então não havia integrado nenhum dos 4 inquéritos abertos sobre a morte da Cristina. Uma enfermeira declarou, sem revelar sua identidade, que a Cristina havia dado entrada nas urgências de um hospital na região de Bordeaux após uma discussão violenta com o Bertrand, isso logo depois que ele saiu da prisão e voltou a morar com ela. As lesões incluíam descolamento do couro cabeludo e hematomas. A enfermeira havia consultado o prontuário de Cristina por curiosidade nos arquivos do hospital onde havia trabalhado temporariamente. O promotor público de Bordeaux assistiu ao documentário. Em julho de 2025, anunciou a reabertura das investigações sobre a morte da Cristina, dessa vez para apurar eventuais atos de violência voluntária cometidos pelo Bertrand antes da morte dela. O promotor disse, entre aspas: "Pareceu-me bastante natural reabrir esse dossiê. Acho que qualquer pessoa que assista ao documentário se pergunta ao final: efetivamente há muitas coisas que apontam para a existência de violências voluntárias contra Cristina." A A investigação enfrentará, no entanto, um obstáculo jurídico significativo, já que a última diligência processual tem a data de 2018. Então, onde está o Bertrand hoje? Ele completou 62 anos em março desse ano e, segundo informações disponíveis, ele vive de forma discreta, afastado dos grandes palcos e da mídia. Ainda assim, ele lançou um novo álbum com os Detroit em dezembro de 2024, mantendo um grupo fiel de seguidores na França. O inquérito reaberto pelo Ministério Público de Bordeaux sobre a morte da Christina segue em andamento. Os filhos dela, o Milo, hoje com 28 22 anos, tentou carreira na música e no rap. A Alice, com 23, trabalha com saúde mental e não há informações públicas sobre a relação atual deles com o pai. A mãe da Marie, Nadine, tem 91 anos e continua sendo uma voz pública consistente na cobrança por justiça. O pai da Marie disse em entrevistas que a morte da filha foi o maior sofrimento da sua vida. Ele morreu em 2022, aos 91 anos. Já o Vincent, irmão da Marie, manteve silêncio público por 15 anos após a morte da irmã. Em 2019, ao lado do seu sobrinho Romain, ele assinou uma carta aberta em apoio às mulheres vítimas de violência. Foi a primeira vez que ele falou sobre o caso. Os filhos da Marie, o Romain, o Paul, Léon e o Jules, cresceram cada um com o próprio pai. O Romain se tornou ator, como a mãe. Jules seguiu carreira artística. Léon trabalhou na área gastronômica. E o Paul enveredou pela escrita. O filme que a Marie estava gravando em vinil quando morreu foi concluído pela mãe e lançado postumamente em 2004. Aquele foi o seu último trabalho. Gente, esse é um caso que a minha professora de francês citou para mim em uma aula.
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Marie Trintignant:Que é muito gigantesco e foi o que furou a bolha mesmo, né? Todo mundo que gosta de true crime com certeza já ouviu falar, mas esse em específico eu nunca tinha ouvido falar até ela me contar. Então eu trouxe aqui para vocês. De novo, me desculpa o meu francês, eu tô aprendendo, então vou melhorar. Mas é muito doido o quanto esse caso é absurdo, né? Porque ele deu uma versão, a autópsia contou uma história completamente diferente, mesmo assim muitas pessoas ficaram do do dele, o que para mim já é absurdo bastante. E aí cumpriu só 4 anos de uma pena de 8 anos e tá solto, né? E aí tem também a Christina, né? O que realmente aconteceu com ela? Ela realmente tirou a própria vida ou foi uma coisa mais obscura, né? Enfim, muito doido imaginar que ele tá solto e tá livre. Quero muito saber o que vocês acharam, então me conta aqui nos comentários. Não esquece do like que me ajuda muito na divulgação. Vocês estão me cobrando semana Misteriosa, porque eu bati 800 mil no Instagram. Então manda o meu canal para todo mundo que você conhece que gosta de true crime, para galera se inscrever aqui. E é isso! Para mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveite para avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso!