Episódios de Quinta Misteriosa

O MASSACRE EM PIOZ: O CASO BRASILEIRO QUE CHOCOU A ESPANHA #631

30 de setembro de 202638min
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Uma família da Paraíba atravessa o oceano atrás de uma vida melhor, reconstrói tudo do zero numa cidade pequena da Espanha — e desaparece do mapa por semanas, sem que ninguém estranhe. Quando o silêncio finalmente é quebrado, o que se descobre dentro de casa é algo que a polícia espanhola levaria anos pra entender por completo. #631

Participantes neste episódio1
J

Jacqueline Guerreiro

Host
Assuntos6
  • O brutal assassinato da família em Pioz e a participação de MarvinPatrick planeja o crime·Assassinato de Janaína e das crianças·Marvin Henrique Correia troca mensagens com Patrick·Assassinato de Marcos·Esquartejamento e ocultação dos corpos
  • O julgamento de Patrick e Marvin e as consequências legaisCondenação de Patrick à prisão perpétua·Marvin é preso e solto·Reabertura do processo de Marvin·Vida de Patrick na prisão·Divisão da família e perdão
  • A trajetória de Patrick Nogueira Gouveia e seu histórico de violênciaInfância e bullying·Uso de drogas e álcool·Ataque a professor com faca·Diagnóstico de sociopatia·Medidas socioeducativas
  • A convivência problemática de Patrick com a família na EspanhaPatrick se muda para a casa de Marcos·Comportamento inadequado de Patrick·Visita dos pais de Patrick·Aversão de Patrick às crianças·Mudança da família para Pioz
  • A descoberta dos corpos e a investigação que levou a PatrickVizinhos reclamam de cheiro·Guarda Civil encontra os corpos·Identificação das vítimas·Provas contra Patrick·Patrick retorna ao Brasil
  • A vida de Marcos e Janaína na Espanha antes do crimeMarcos e Janaína se conhecem online·Retorno ao Brasil e casamento·Nascimento da filha Maria Carolina·Mudança para Torrejón de Ardoz·Nascimento do filho David
Transcrição14 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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She calls it Other Mommy. She look like you.

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Other Mommy, directed by Rob Savage. Rated R. In theaters October 9th.

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Oi, bonitas e bonitos! Tudo bom com vocês? Eu sou Jacqueline Guerreiro e esse é o podcast Quinta Misteriosa. Aqui eu posto novos casos toda segunda e toda quinta. Aproveita pra me acompanhar nas redes sociais pra conteúdo extra de séries, filmes, livros e, é claro, true crime. E agora, bora começar o caso de hoje. Marcos Campos Nogueira nasceu em João Pessoa por volta de 1977. Era um dos 6 filhos de Maria das Graças Campos Nogueira.

E muito apegado à mãe desde criança, depois que o pai morreu com apenas 52 anos. Sua família sempre foi muito unida. Marcos era romântico, colecionava namoros antes de conhecer a Janaína. Mas segundo quem o conheceu, nunca mais falou de outra mulher depois dela. A Janaína Diniz Américo também era de João Pessoa e tinha a mesma idade do Marcos. Ela tinha o apelido de Naia. E segundo seu pai, sempre foi cheia de vida e alegre. Inclusive, o pai dela, Wilton Diniz Américo, era dono de uma concessionária da cidade.

O Marcos e a Janaína se conheceram pela internet, quando ele ainda morava Ele vivia lá desde 2002, trabalhando como padeiro. E depois, tentando a sorte com pequenos negócios que não davam certo. Primeiro uma construtora, depois um bar, a compra de maquinário que nunca vingou. Foi por conta da Janaína que ele voltou pro Brasil, por volta de 2012. Abrindo mão de tudo que ele tinha construído na Espanha até ali. Eles namoraram por um ano em João Pessoa, quando resolveram se casar.

O casamento aconteceu em 28 de agosto de 2013, quando os dois tinham 36 anos de idade. Eles tiveram a Maria Carolina ainda no Brasil. Depois do nascimento da filha, os dois decidiram voltar juntos pra Espanha, encantados com a cidade. Com a vida que sonhavam construir por lá. Eles se instalaram em Torrejón de Ardoz, cidade a cerca de 20 km de Madrid, dentro da região metropolitana da capital, onde o Marcos conseguiu a gerência de um restaurante.

E eles estavam muito felizes. A Janaína engravidou de novo no fim de 2014. E o segundo filho do casal, David, nasceu em 2015, já em solo espanhol. Em março de 2016, quando a Maria Carolina estava com 3 anos e o David com 1 aninho, um sobrinho do Marcos chamado Patrick chegou pra morar com eles. Mas pra eu falar sobre esse período em que ele foi viver na Espanha, eu preciso contar pra vocês quem era o Patrick e a trajetória dele até aquele momento.

François Patrick Nogueira Gouveia nasceu em 6 de novembro de 1996, em Altamira, no Paraná. Filho de Soraya, irmã do Marcos, e de François, um radiologista com clínicas na cidade. Ele tinha duas irmãs mais velhas, Carole e Hanna. E ele cresceu em uma família de posses. Sonhava em ser jogador de futebol desde pequeno, um sonho que os pais nunca apoiaram. Segundo o Patrick, aos 9 anos ele tinha uma vida regular, uma infância boa, feliz.

Até que aos 10, quando mudou de escola, tudo isso se transformou. Nessa época, ele vivia em João Pessoa com as irmãs mais velhas. E ele recebia a visita dos pais de tempos em tempos. O Patrick disse que nesse período ele começou a sofrer bullying. Batiam nele, o humilhavam, cuspiam e o chamavam de gay. Ele diria anos depois que a única defesa que ele conhecia era a violência. Segundo o relato dele, cada briga trazia mais rejeição.

E ele foi se afundando em raiva e ressentimento. Foi quando ele passou a andar com um grupo que bebia. Usava drogas e repetia de ano. Já a família dele, os pais e os tios, nem sabiam disso. Não faziam ideia que ele tava andando com essas pessoas. Pra eles, ele era um menino sempre muito educado, que não falava nem palavrão. Então eles não faziam ideia das coisas que ele tinha feito com esse grupo. Como, por exemplo, atear fogo em casas, jogar coquetéis Molotov, usar drogas.

Segundo ele, ele começou a beber muito jovem, com 10 anos de idade. Aos 15, ele bebia uma garrafa por dia. Aos 18, ele já vomitava sangue por conta de uma úlcera. Mesmo vivendo desse jeito, ele conseguia esconder tudo isso da família. Eles não faziam ideia. E ele disse mais tarde que nessa época o álcool era o único amigo que ele tinha. Para vocês terem ideia, a família nunca tinha visto ele bêbado, por exemplo. Então, para eles, eles se diziam pais atenciosos e que eles não tinham noção da extensão do problema.

Só foram descobrir isso quando na escola pegaram a mochila dele, do Patrick, tinha várias facas dentro. Foi só aí que eles começaram a perceber que tinha alguma coisa errada. Então, quando a mãe questionou ele sobre essas facas, ele disse que era para se proteger porque ele tinha sido assaltado. Em Em 15 de junho de 2013, de volta em Altamira, aos 16 anos, o Patrick esfaqueia um professor durante a aula. Uma câmera de segurança captou todo o ataque.

Então, ele veio por trás imobilizando o professor, depois usando a faca, ele atacou primeiro no pescoço e depois na lateral do corpo dele. Então, o restante dos estudantes tiveram que intervir antes que o pior acontecesse. O professor não revidou o ataque e sobreviveu. E o motivo do ataque, segundo o Patrick, foi porque o professor teria chamado ele de gay na frente da turma. O juiz determinou que o Patrick fosse internado preventivamente em Santarém.

A 500 km de Altamira e o classificou como sociopata. Mas segundo o assistente social que acompanhou o Patrick no trajeto, ele teve um tratamento bem incomum, um tratamento muito brando. Então, segundo o assistente social, ele não foi algemado. E o pai dele foi autorizado a andar no carro de polícia que acompanhava o carro que ele tava. E isso é uma coisa que não era autorizado pra outros adolescentes que passavam pela mesma coisa.

A sentença final do Patrick foi ficar sob a responsabilidade dos pais e sob o cuidado deles, o que Causou muita revolta pra muitas pessoas que acreditavam que isso só tinha acontecido porque a família do Patrick tinha dinheiro. Depois disso, ele foi cumprir 2 anos de medidas socioeducativas em João Pessoa. A família dele, com medo, mas ainda querendo apoiar quem ele era, eles acreditavam que ele ainda era aquele menino de sempre.

Uma psicóloga que foi contratada pela avó dele garantia pra ela que ele era um menino normal, que aquilo era só uma fase e que aquilo passaria. Porém, apenas os pais do Patrick que tiveram acesso completo ao laudo dele. O restante da família seguiu acreditando que ele tinha recebido alta, que ele tinha superado tudo aquilo, que aquela fase tinha ficado no passado. Eles inclusive acreditavam que a Soraya era neurótica demais por se preocupar tanto com ele.

Quando o Patrick volta pra João Pessoa, ele faz novos amigos que eram mais novos que ele e que estudavam em um colégio particular da cidade. E o Patrick, que agora era mais velho, bonito, articulado, atlético, exercia uma espécie de fascínio quase manipulador sobre o grupo. Segundo esses amigos, o Patrick parecia ser assexuado. Eles diriam, anos depois, nunca terem entendido direito. Já que a sexualidade dele sempre foi um enigma pro grupo.

Ele parecia quase ter uma aversão a relacionamentos. Mesmo que ele tivesse muitas opções de várias pessoas querendo se relacionar com ele. Nessa época, o sonho dele ainda era ser jogador de futebol. Mas os seus pais tinham outros planos pra ele. Então eles queriam que ele escolhesse entre medicina ou direito. Assim como suas irmãs mais velhas. Ele até entrou na faculdade de direito, mas nunca levou o curso a sério. Ele até ia pras aulas usando roupa de time.

Sem se importar com as aulas, e ele também treinava futebol no time da polícia. Ele era levado aos treinos pelo tio dele, casado com a irmã da mãe dele, no caso, a tia dele, que se chama Jaqueline. Um dia, ele confidenciou pra um amigo dele chamado Rafa que ele tava de saco cheio de tudo, que ele ia abandonar tudo no Brasil e ia tentar ser jogador de futebol na Europa. E foi exatamente o que ele fez. Então, no dia 9 de outubro de 2015, ele vende o carro dele e foi embora do país sem autorização e nem apoio dos pais.

A mãe, desesperada, ligou pro irmão dele dizendo que ele já tava com as malas prontas. Patrick ficou sozinho na Europa durante 5 meses. Então, ele chegou em Londres com 8 mil euros. E pouco tempo depois, ele sofreu uma lesão no joelho que atrapalhou ainda mais o seu sonho. Surgiu uma chance pra ele pra treinar em Liverpool, justo nessa época que ele sofreu a lesão. O que impediu a ida dele. E aí, depois disso, ele brigou com um colega de quarto, que ele quase partiu pra agressão.

Foi nesse ponto que ele percebeu que ele não podia mais ficar ali. Nessa época, ele só falava com o Alfrão, dos seus tios, e com uma das uma das suas irmãs, a Hanna. Apesar de tentarem muito, os pais não conseguiam contato com ele. Então ele liga pro Alfran e pede ajuda pra conseguir algum time de Portugal, porque o maior ídolo dele do futebol era o Cristiano Ronaldo. Então ele queria um time de Portugal também. Então ele vai pra Ilha de Madeira e lá ele paga um olheiro adiantado.

E aí o olheiro simplesmente sumiu com o dinheiro. Então ele levou um golpe de cerca de 1.000, 1.300 euros. Ele liga de volta pro Alfran, dessa vez furioso, ameaçando matar o olheiro caso ele não conseguisse sair de Portugal. Então mais uma vez ele pediu ajuda para ele, né? E o Alfredo comentou que na época ele não percebeu.

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Que aquilo poderia ser um alerta. Olhando para trás, ele reconhece que na época ele achou que aquilo era algo natural, algo normal. Então foi só depois que todas essas coisas aconteceram com o Patrick que o Marcos, tio dele, o acolheu na Espanha como se fosse próprio filho dele, segundo o Alfran. No primeiro mês dele morando com o Marcos, estava tudo bem, tudo correu bem até que Depois de um mês, as coisas começam a mudar. O Marcos passa a desabafar com a irmã dele, com a Jaqueline.

Então, por mensagens de voz, ele contava o que tava acontecendo, enquanto a Janaína ligava pros pais e também relatava o que tava acontecendo lá na casa deles. Segundo eles, o Patrick não ajudava em absolutamente nada dentro da casa. Ele não lavava nem o próprio prato, ele usava o banheiro, não dava descarga, ele andava só de cueca e ficava trancado no quarto o dia inteiro, ele só saía pra comer. Muitas vezes, ele reclamava que tava com fome, ele reclamava da comida.

Então, em uma dessas mensagens, do Marcos pra Jaqueline, ele fala que ele acredita que o Patrick jamais vai conseguir viver com alguma pessoa. Ele não consegue conviver com outras pessoas, ele não conseguia dividir espaço com ninguém. Então ele já tava na Europa, né, há 6 meses. E cerca de 1 mês e meio morando com o Marcos, quando os pais do Patrick vão pra lá pra visitá-lo. Ele não falava com os pais, não pedia ajuda, não os procurava.

Então quando eles chegaram lá pra visitá-lo, ele tratou os dois muito mal. Mal conversou com eles, ficou trancado no quarto. Ele tratou a Soraya tão mal que o Marcos falou em mensagem que se ele tivesse junto na hora, porque ele não estava, ele teria dado uma surra no Patrick. Inclusive, o Marcos só contou para o Patrick que os pais estavam em Madrid para visitá-lo no dia da visita. Então ele escondeu, né, essa informação até o último segundo possível, o que deixou o Patrick muito irritado e ele se sentiu traído pelo tio.

Depois desse episódio, o clima na casa ficou ainda pior. Então os pais do Patrick mandavam dinheiro, né, para ajudar ali com os custos dele morando junto, que ele repudiava. E também ele começou a se irritar cada vez mais com a prima dele de 3 anos de idade, chamada Maria Carolina. Quando ele via a criança chorando, ele falava para Janaína se como levar a criança até a praça pra que ela congelasse ou pra que ela fosse sequestrada.

Tipo de comentário que deixava tanto ela quanto o Marcos extremamente preocupados. A tensão só aumentava ao longo dos meses. Em maio de 2016, o Patrick disse que o Marcos teria roubado o dinheiro da carteira dele e sumido por 4 dias. Ele alegou que o tio o extorquia exigindo que ele pagasse 6 mil euros pra ele, senão ele iria denunciá-lo à imigração, já que ele tava ilegal no país. E ele falava isso mesmo o pai dele mandando ajuda, né?

Ele já tinha mandado cerca de 2.000 euros para o Marcos. Mas essa era a versão que o Patrick contava. A versão que o Marcos contava para Jaqueline era outra completamente diferente. Ele contava que o Patrick era quem vivia sem dinheiro, que ele gastava todo o dinheiro dele saindo para comer, porque ele sempre reclamava da comida da Janaína e a comida que ela cozinhava para ele, ele não queria comer. O Marcos tentava tranquilizar ela durante toda essa situação, dizendo para ela não ficar chateada, que ele era Que aquilo ia passar, que ele não tava normal, que ele precisava de ajuda.

E que eles estavam fazendo aquilo pelo François e pela Soraia, e não pelo Patrick. E foi também em junho, no mesmo mês que surgiu, segundo colegas de trabalho do Marcos, uma suspeita de envolvimento entre o Patrick e a Janaína. O chefe do Marcos chegou a mudar o turno dele numa tentativa de que ele conseguisse pegar os dois num flagra. E uma colega descreveu que ele sentia ciúmes bem visíveis da Janaína. Mas a mensagem que despertou toda essa suspeita era uma mensagem bem inofensiva.

Na mensagem, a Janaína só comentava com uma amiga que o sobrinho estava morando com ela e que ele tava bem. Então, esse ciúme era infundado. E aí, os dois discutiam por conta disso, muitas vezes na frente do Patrick, que só ouvia tudo quieto. E a real fonte do atrito era muito mais simples que isso. A Janaína pedia pra que o Patrick parasse de andar de cueca pela casa, já que o Marcos trabalhava o dia inteiro e ele não via o que se passava.

Mas ela tinha medo também de confrontá-lo com mais força, por ele ser sobrinho do marido. Segundo a madrasta da Janaína, ela já não aguentava mais o comportamento dele. Dizia que o Patrick implicava demais com a Maria, filha mais nova. Inclusive, a Janaína ligou pro Alfred sozinha, o que era algo super atípico nela, pedindo que ele viesse pra perto, porque o Marcos estava tendo muitos problemas com o Patrick. Numa conversa na mesma época, o Patrick teria dito a ela: Eu tenho cara de bom moço, mas não sou uma pessoa boa.

Sou uma pessoa má e eu gosto de ser mau. O pai da Janaína, ao saber, sugeriu que ela fosse pra um hotel ou voltasse pro Brasil, oferecendo mandar dinheiro. Ela recusou e disse que ficaria bem. Em 9 de julho de 2016, Marcos, a Janaína e os filhos se mudaram para uma casa alugada no condomínio La Arboleda, na cidade de Pioz, província de Guadalajara, na Rua Los Sauces, número 594. Era um imóvel grande com piscina, por 500 euros mensais.

Para pagar a fiança de 2 meses exigida pelo contrato, a Janaína chegou a pedir 1.000 euros emprestados à família no Brasil, sob o pretexto de um tratamento odontológico. Em um primeiro momento, nem Marcos nem Patrick contaram para ninguém da família que eles não moravam mais juntos. Um tempo depois, porém, o Marcos descobriu que o Alfredo ia voltar para Espanha para morar com eles, e foi só aí que ele resolveu contar tudo para família sobre o comportamento do sobrinho.

Em uma mensagem de voz do Marcos para Jaqueline, ele contou que o Patrick não quis ir morar com eles, que chamou o lugar de aquele inferno, disse que tinha o futebol e as amizades dele e que ele ficaria na mesma cidade em uma das casas de Norma, proprietária do imóvel. Depois de discutir com a Norma, segundo Marcos, o Patrick teria cedido e dito que iria com eles. O Marcos teria dito que iriam em uma sexta e o Patrick teria pedido para ficar uns dias a mais.

O Marcos então contou à irmã que tinham combinado de buscar o sobrinho no sábado ou domingo, mas que ele trabalhou nesses dias e só foi na terça-feira encontrando o apartamento completamente vazio. O Patrick já estava hospedado num hotel sem deixar bilhete algum. Ele ligou dias seguidos sem resposta porque o celular do Patrick parecia bloqueado especificamente para o número dele. Então a avó reuniu todos os filhos em casa para conversarem a respeito de tudo que tava acontecendo e sobre tudo que o Marcos havia contado sobre o Patrick e o seu comportamento.

Numa das mensagens de voz daquele período, o Marcos já expressava um pressentimento à irmã. Ele disse, entre aspas: Patrick é muito sabido, Ele de besta não tem nada. Quando ele tem que fazer as coisas dele, ele vai bem programado e bem ajustado. A gente tá com aquela coisa na cabeça de que ele vai fazer alguma coisa errada. O Patrick soube pela Hannah e ficou ainda mais enfurecido. Segundo ele contaria anos depois, o que chegou até ele naquele momento é que o Marcos tinha dito à família que ele usava drogas, que ele chegava bêbado em casa e não contribuía com nada.

Pra ele, aquela foi a gota d'água. Segundo sua versão, os fatos não eram aqueles. Ele disse que tinha combinado sim de ir junto na sexta. Mas ao chegar no apartamento do tio, não encontrou mais ninguém. Eles já tinham levado roupas e documentos dele e não tinham deixado endereço nem recado. O Patrick ainda disse que o Marcos teria ido embora sem pagar a Norma, que cobrava dele a dívida de aluguel. Ele disse também ter ficado 3 dias sem notícia nenhuma.

A Norma confirmaria depois que ele ficou esperando ali, nervoso, perguntando se o tio tinha aparecido. Foi quando ele foi pra um hotel e de lá pra um apartamento em Alcalá de Henares. A madrasta da Janaína e o pai dela acreditavam que o Patrick tinha voltado pro Brasil. E a madrasta chegaria a insinuar que ele planejou sumir de propósito, esperando o momento em que a família se sentisse segura longe dele pra agir. Numa das últimas mensagens de voz pra irmã, o Marcos resumiria a decepção.

Ele disse, Patrick me decepcionou muito. Não tem nada daquele Patrick mais. Ele é maiorzinho e eu não vou correr atrás dele. O Marcos reconhecia que o pai do sobrinho, François, mandava dinheiro e que ele recebia isso numa boa. Mas admitia que Patrick tinha complicado a vida dele e que sabia que se continuasse vivendo com o tio, ia continuar sem trabalho e vivendo sem rumo. Então, na cabeça do Marcos, talvez agora, morando sozinho, apartamento com outras pessoas, as coisas pro Patrick começassem a se organizar.

Já a Jaqueline e o Alfredo disseram depois que, na opinião deles, o Patrick ampliou a briga com o Marcos muito além do que ela realmente foi, transformando aquela briga numa justificativa desproporcional pra o que ele iria fazer. Porque, na avaliação deles, ele já tinha planejado tudo, havia tempo. E o que ele havia planejado começou a tomar forma no início de agosto de 2016, quando ele pesquisou na internet frases como: Como matar alguém em 3 segundos.

No dia 17 de agosto, o Marcos começava um novo emprego, churrasqueira no restaurante argentino Che, em um shopping onde ele já tinha trabalhado antes. Então ele se despediu da família e foi para o primeiro turno, chegando por volta das 10 horas da manhã. O Patrick seguiu a rotina normal pela manhã, foi à academia como sempre, antes de pegar um ônibus rumo a Piaus, levando facas, sacolas plásticas, fita adesiva e duas pizzas. A Janaína estava ao telefone com o Matias do Brasil quando a campainha tocou.

Ela disse que ia ver quem era e ligaria de volta. Era o Patrick, que ao chegar encontrou ela e as crianças na varanda. Então eles sentaram, comeram a pizza, conversaram por cerca e depois a Janaína entrou pra cozinha seguida dele. E eles continuaram conversando enquanto ela lavava a louça. Foi nesse momento, sem aviso, que ele atacou na frente dos dois filhos. As crianças, pelo relato dele mesmo, não correram, ficaram paralisadas.

Ele matou primeiro a Janaína, depois a Maria e depois o David. Ao longo de toda a execução do crime, o Patrick trocou mensagens em tempo real pelo WhatsApp com o amigo de infância Marvin Henrique Correia, em João Pessoa. Eles conversaram das 3:55 daquele dia até às 6:57 da manhã seguinte. O Marvin ria em alguns momentos, em outros aconselhava e questionava o amigo sobre o processo. Deu orientações sobre como evitar deixar rastros ao sair da casa no dia seguinte e incentivou o Patrick a esperar Marcos voltar do trabalho pra finalizar o serviço.

Enquanto isso, o Patrick enviava fotos, tirava sarro da situação e agia como se estivesse fazendo algo normal e corriqueiro. Ele chegou a sugerir que alugasse um carro e buscaria os corpos pra enterrá-los longe de Madrid. Ideia que o Marvin hesitou em levar adiante. Quando finalmente o Marcos chegou em casa, por volta das 22:15 da noite, Ele foi recebido pelo sobrinho já dentro da casa. Depois de matá-lo, o Patrick tentou enterrar os 4 corpos no jardim, mas não encontrou terra macia o bastante.

Então, ele optou por esquartejá-los e guardar os restos em sacos de lixo dentro da casa. Ele dormiu ali, evitando ser visto pelo segurança do condomínio. No mesmo dia em João Pessoa, o Marvin publicou no Twitter: Hoje aconteceu uma doideira que nunca poderei contar a ninguém. No dia seguinte, o Patrick voltou à sua rotina normal em Alcalá de Henares. Ainda naquela semana, pesquisou online por cadáveres e pios, tentando saber se alguém tinha notado alguma coisa.

Ninguém tinha. Ele usou o celular do Marcos nos dias seguintes até jogá-lo fora quando a família começou a ligar insistentemente sem resposta. Pioz é um município pequeno da província de Guadalajara, na região de Castilla-La Mancha. Em 2016 tinha pouco mais de 3 mil habitantes, cerca de 20 a 25 minutos de carro de Madrid e de Alcalá de Henares. Essa região onde a família morava era descrita por quem vivia por perto como um lugar de vizinhos distantes.

Ninguém se cumprimentava e ninguém se metia na vida de ninguém. O local tinha fama de atrair gente ligada a plantações ilegais de maconha e muitas pessoas se mudavam pra lá pra se esconder. Inclusive, o próprio Marcos levantou suspeitas dos corretores quando ele foi visitar os imóveis da região. Segundo eles, o Marcos tinha um comportamento estranho. Ele quis, né, ver os imóveis que eram bem afastados. Inclusive, você só conseguia chegar de carro e ele não tinha um carro.

Então ele chegou e desceu num ponto de ônibus e precisaram buscar ele nesse ponto pra levá-lo até o imóvel. Além disso, as notas que ele usou para pagar fiança no dia da assinatura estavam antigas, meio úmidas, e parecia que elas tinham ficado guardadas em algum local úmido para estarem daquela forma. Só que aí, mesmo estranhando esse sumiço da família, ninguém desconfiou de nada porque eles estavam de mudança, era período de férias, eles também poderiam ter ido viajar.

Na noite de 17 de setembro, um mês depois que o crime aconteceu, os vizinhos da família que moravam ali, né, os mais próximos da do imóvel novo deles, reclamaram de um cheiro que tava vindo ali da casa. O segurança foi conferir, assim que ele abriu o portão, ele sentiu o cheiro. Imediatamente, ele para e avisa a Guarda Civil. Já era a madrugada do dia 18 quando a polícia chega, acionando reforços e também um médico legista. Ao entrar na casa, por volta da 1:30 da manhã, a polícia nota vários brinquedos espalhados, um guarda-sol jogado no chão, uma caixa de pizza, mas nada que indicasse...

Que alguém havia entrado à força na casa. Já na cozinha, eles encontraram uma tesoura de cortar grama fora do lugar habitual e também marcas de arranhado no chão, no piso, que chamou atenção da polícia. Mas foi na sala de estar que realmente veio o choque e o cheiro era insuportável. Mais de 1000 moscas mortas no chão, a bolsa da Janaína sem nada dentro, o chapéu do Marcos no chão e ao fundo da sala vários sacos de lixo fechados.

Foi o médico legista que confirmou ao abrir esses sacos que ele não tinha dúvidas que eram restos humanos. A cena chocou até os policiais mais experientes, dizendo que eles nunca tinham ouvido nada daquele tipo. Em um dos quartos, eles encontraram uma marca de mão na parede. Era uma mão pequenininha, que parecia de criança, como se estivesse suja de sangue. Então assim, a princípio, a polícia não sabia quem eram aqueles corpos, né, qual a identidade daquelas vítimas.

E eles cogitaram várias hipóteses. Poderia ser um acerto de contas, um crime passional, uma execução profissional. E eles calcularam que que aquelas pessoas estavam mortas ali há pelo menos um mês e começaram a pensar que o assassino a essa altura poderia já ter fugido e deixado o país. Foi só no momento que eles começaram a entrevistar as pessoas da região que eles foram conectando os pontos. Um vizinho relataria depois ter ouvido um grito que parecia ser de um homem por volta do dia 15 de agosto, ele não tinha certeza da data, e ele notou que depois disso ele não viu mais as crianças brincando no quintal.

Ele notou que entregas de pão se acumularam nas caixas de correio nos dias 17 e 18 de agosto. A companhia elétrica confirmou uma uma queda abrupta do uso de energia a partir das 11 horas do dia 17. E de todas as informações que a polícia juntou naquele momento, a única que não se encaixava era uma mensagem enviada pelo Marcos ao corretor imobiliário no dia 30 de agosto, pedindo um prazo maior para que ele pudesse pagar o aluguel.

Isso intrigou a polícia em um primeiro momento. Eles até cogitaram que o Marcos pudesse ter cometido os crimes e mandado a mensagem e fugido. Isso porque o reconhecimento dos corpos não foi imediato, então eles ainda não sabiam a identidade daquelas A polícia começa a reconstruir a rotina do Marcos com a ajuda do relato de pessoas que trabalhavam com ele, dos vizinhos, com os corretores. E aí essa teoria inicial de que ele seria o assassino rapidamente caiu quando eles descobriram qual era a situação financeira da família.

Eles começaram a investigar toda essa questão financeira dele, desde o primeiro emprego dele como padeiro em 2002 até os negócios fracassados que geravam um desconto direto do salário dele no emprego no restaurante. E assim, eles foram descartando uma hipótese atrás da outra, até que no final de tudo isso, eles já tinham o nome de um suspeito. O cartão de transporte do Patrick confirmava a viagem que ele fez no dia 17 e 18 entre Alcalá de Henares e Pioz, que foi justamente nas datas que eles estimavam que a família tivesse sido morta.

Os dados do celular dele colocavam ele exatamente na cena naquele dia exato. Cães farejadores encontraram sangue em uma parede que tinha sido recém-pintada no apartamento do Patrick, em Alcalá de Henares. E além de tudo isso, o DNA dele apareceu nas facas, em gotas de suor pela casa e nos sacos plásticos. Mas o Patrick já tinha voltado pro Brasil antes que ele fosse considerado o principal suspeito e antes que a polícia tivesse as provas, né, de que ele realmente era o culpado.

Então, no dia 20 de setembro, ele volta pro Brasil, 2 dias depois da descoberta dos corpos dos tios, a pedidos da família, que acreditavam que ele poderia estar correndo perigo lá. Naquele momento, a família toda acreditava que a pessoa que matou o Marcos, a Janaína e as crianças poderia estar casa do Patrick por conta de talvez alguma dívida que eles fizeram por lá. Dentro do táxi, a caminho do aeroporto, o Patrick manda uma mensagem para uma colega de apartamento contando que o tio tinha sido morto e esquartejado, que deixou a colega extremamente assustada, com medo que a polícia fosse até o apartamento deles.

Mas o Patrick minimizou dizendo que ninguém sabia o endereço dele lá. Já em João Pessoa, a notícia se espalhou super rápido, em parte porque o Alfredo era um ex-jogador de futebol conhecido no Paraíba. Nesse meio tempo, vários amigos do Patrick tentavam localizá-lo, mandavam mensagens mensagens para ele sem saber se ele tava na Espanha, se ele tava em Londres, se ele tava em Portugal. Um dos amigos chamado Victor Lincoln espalhava a mensagem dizendo que a família tinha sido morta por um matador de aluguel.

Então, entre todas essas pessoas que conheciam o Patrick, já estavam cientes do que tinha acontecido, a única que falou sobre o Patrick para polícia e disse que talvez ele deveria ser investigado foi o pai da A única pessoa. Dias depois dele chegar no Brasil, uma reportagem no Fantástico cita o nome do Patrick antes mesmo de qualquer confirmação oficial, nem da polícia brasileira e nem da polícia espanhola. Isso acendeu um alerta entre os amigos dele, mas sem essa confirmação parecia só uma teoria.

Até que no dia 4 de outubro de 2016, a Guarda Civil convocou uma coletiva de imprensa e revelou publicamente a multiplicidade de indícios contra o Patrick e a ausência de dúvidas sobre a Nessa mesma época, uma amiga chamada Jordana recebeu pelo WhatsApp prints da conversa de Marvin e Patrick no dia do crime, com as mensagens e fotos. Ela recebeu o conteúdo do Vitor Lincoln, amigo dos dois, que tinha consertado o celular do Marvin e encontrado as conversas antigas ao restaurar um backup no WhatsApp.

A Jordana reagiu com choque físico, ela chegou a passar mal. As imagens circulavam havia dias entre um grupo fechado de amigos do Colégio Pio XI, sem que ninguém denunciasse. Ela pediu a Vitor que levasse as informações até a polícia e ele disse que não faria isso. A angústia da Jordana só crescia até que um dia, na casa do ex-namorado, ela estava assistindo um caso de true crime junto com a mãe dele quando ela começou a chorar e acabou contando tudo que ela sabia.

A mãe do rapaz, psicóloga, disse que enviaria o material para um contato dela na polícia. Mas essas evidências do WhatsApp não vieram a público imediatamente. Enquanto isso, o Alfranc, que estava na Espanha desde os primeiros dias depois do crime, ligou para a Hannah assim que teve acesso às provas contra o Patrick e disse a ela que ele era de fato o culpado. A Hannah, ainda defendendo irmão, foi até a Espanha com o advogado Eduardo Cavalcanti para analisar tudo pessoalmente.

Diante das provas que a Guarda Civil reuniu, né, o DNA na faca, na caixa de pizza, num carrinho de brinquedo, em papéis e principalmente nos sacos usados para guardar os corpos, a posição dela mudou. A Hannah perguntou à polícia de forma pragmática o que podia ser feito para minimizar os danos à família caso realmente fosse o seu irmão o culpado. O capitão José Miguel Hidalgo, que conduzia a investigação, aconselhou que ela fizesse Patrick contar tudo, mostrar quem ele realmente é.

E alertou que, tendo acabado de matar 4 pessoas, ele representava risco real, inclusive à sua família. Na volta ao Brasil, a Hanna se comprometeu com a Guarda Civil espanhola, que faria de tudo para que o irmão se entregasse. A tensão familiar na casa de Patrick chegava ao limite. Numa reunião com Eduardo, ele comentou que a família se dividiu, um lado protegendo Patrick e o outro pressionando por justiça. Segundo ele, o Patrick permaneceu em silêncio o tempo todo, sem se pronunciar.

No final, Eduardo se despediu dizendo que o trabalho dele, que tinha sido contratado para processar a família da Janaína por calúnia quando eles alertaram a de João Pessoa nos primeiros dias pra investigarem o Patrick acabava ali. Patrick pediu à irmã que estudasse a possibilidade dele se entregar diretamente na Espanha, em vez de responder aqui no Brasil. O que ela o aconselhou a fazer. Segundo alguns amigos, o medo do Patrick era ser morto em um presídio aqui por ter matado duas crianças.

Na última noite antes de embarcar, e sem contar o que ele faria, Patrick chamou o amigo Rafa pra ficar com ele no apartamento. Eles jogaram videogame a noite inteira. Bebendo, ele disse ao amigo que tinha sido ele quem cometera o crime e que ele ia se entregar. Ele explicou ter matado as crianças pra não deixá-las órfãs. Depois, Patrick foi para o aeroporto e embarcou sozinho. A Hannah avisou o capitão Hidalgo e o Patrick foi preso ao desembarcar em Bararras, na madrugada de 19 de outubro de 2016, algemado ainda na saída do avião.

E ele parecia calmo. O François, segundo relatos da família, tinha dito a ele que fosse assumir como homem o que ele tinha feito. A Soraia, depois da entrega, foi até a casa da sua mãe, Maria das Graças, pedir perdão chorando. As duas se abraçaram e choraram muito. Já na Espanha, durante o interrogatório, Patrick não demonstrou qualquer sinal de arrependimento. Ele falava com naturalidade sobre como ele tinha tinha chegado na casa do tio sobre os dias anteriores.

Mas a exceção vinha quando pediram para ele descrever cada uma das mortes. Ele começou a alegar que não lembrava de nada, que ele teve uma espécie de apagão. Quando a polícia da Espanha apreendeu o seu celular e notou que ele tinha sido resetado, isso acendeu um alerta de que o Patrick escondia mais informações. Eles já tinham provas suficientes para fechar o caso contra ele, isso nunca foi o problema. O problema era que ele não contava tudo, ele não dizia como ele tinha cometido o crime, alegava não lembrar dos detalhes.

E nesse momento, a polícia brasileira compartilhou com a polícia da Espanha o material que a Jordana tinha entregado, preenchendo através das próprias palavras do Patrick no WhatsApp o que ele se recusava a contar em voz alta. Depois de compartilharem as informações, no dia 28 de outubro de 2016, a Polícia Civil da Paraíba prendeu o Marvin, então com 18 anos. Ele foi levado à Penitenciária de Segurança Máxima Doutor Romeu Gonçalves de Abrantes, em cela separada por segurança.

O pai dele comentou na época que o maior erro do filho tinha sido a curiosidade mórbida de não denunciar o que ele A infância do Marvin também carregava peso próprio. A mãe biológica dele, chamada Melissa, tinha morrido menos de 2 anos antes do crime. Ele nasceu prematuro, aos 5 meses e meio, e tinha uma irmã gêmea muito mais desenvolvida que ele. Segundo sua família, depois da morte da mãe, ele ficou introspectivo, isolado em videogames.

Sua madrasta, Viviane Ferreira, contou que ele viveu boa parte da adolescência trancado em casa, no próprio quarto. No interrogatório, o chefe da investigação teve uma sensação estranha em relação a ele. Como se na cabeça do Marvin tudo aquilo tivesse acontecido dentro de um videogame e não numa realidade concreta. Concreta. Inclusive, o Marvin usaria uma explicação parecida anos depois para falar sobre isso. Ele disse que a relação dele com o que ele estava vendo naquelas mensagens era uma relação virtual, um contato distante, como se ele tivesse assistindo diante de uma tela e não de uma realidade verdadeira, tangível e crua.

Mas o Alfran rejeitaria essa versão com desdém, dizendo que aceitar essa explicação seria o mesmo que tratar qualquer pessoa de bom senso como Jota. Cerca de um mês após ser preso, Marvin deixa a prisão respondendo em liberdade provisória e usando tornozeleira eletrônica. O inquérito da Polícia Federal, concluído poucos dias antes pelo delegado Gustavo Barros, concluiu não haver elementos suficientes para apontar crime na conduta dele.

Na avaliação da PF, quando ele começou a trocar mensagens com o Patrick, 3 dos 4 homicídios já teriam acontecido e os assassinatos aconteceriam de qualquer forma. Enquanto isso, na Espanha, no dia 12 de dezembro, um laudo psicológico que classificou o Patrick oficialmente como psicopata. As conversas completas entre o Patrick e o Marvin foram divulgadas dias depois, no dia 21 de dezembro. Os restos mortais da família foram cremados na Espanha ainda naquele mês de dezembro.

E as urnas chegaram ao Brasil, em João Pessoa, em janeiro de 2017. Quase 5 meses depois das mortes. Agora, falando sobre o processo contra o Patrick, ele foi bem lento. No dia 7 de abril de 2017, a polícia espanhola autorizou autorizou o uso das provas que foram coletadas no Brasil. Em agosto daquele ano, quando o crime completou um ano, a Maria das Graças, que é mãe do Marcos e avó do Patrick, quebrou o silêncio publicamente pela primeira vez, dizendo que ela sofria todos os dias e que o Patrick, aos olhos dela, também não tinha mais vida.

Em fevereiro de 2018, a justiça espanhola encerrou a primeira fase do processo, e em março a promotoria pediu formalmente a prisão permanente o Patrick. O julgamento começou em 24 de outubro de 2018, e ao vê-lo no tribunal, amigos brasileiros notaram que ele parecia ter mudado sua aparência para ocasião. Ele usava óculos e tinha um comportamento quase teatral. A promotoria pediu a pena máxima. A defesa trouxe o Patrick para falar, além de testemunhas que tentaram transformar o Marcos em alguém que não sabia administrar o seu dinheiro, que extorquia o sobrinho e que devia às pessoas e era muito ciumento.

Quando todos terminaram de falar, a advogada da família da Janaína reagiu com indignação acusando a defesa de tentar culpar as vítimas. A defesa também apresentou uma tese inédita na Espanha. Um grupo de psiquiatras contratados para analisar o cérebro do Patrick alegou uma anomalia que explicaria parte do comportamento violento, mas admitiu sob questionamento da acusação que o exame não tinha 100% de certeza. A promotoria rebateu com força.

Um dos advogados da acusação argumentou que se não fossem as selfies, os vídeos e a narrativa em tempo real que o Patrick produziu durante o crime, talvez a tese tivesse alguma uma chance. Mas com tudo isso, não havia argumento que sustentasse. O Jorge, irmão da Janaína, contou ter olhado nos olhos do Patrick durante o julgamento e não visto arrependimento, só preocupação, à medida que ele percebia que a sentença seria dura. Em sua última fala, o Patrick não negou o que ele fez.

Ele disse que cavou a própria cova desde criança, reconhecendo o próprio sofrimento e o que causou aos outros. Num dos momentos mais reveladores do julgamento, o Patrick admitiu algo próximo de uma premeditação de longa data. Ele disse que ele sabia que ele ia fazer algo. Não sabia quando, mas sabia que ia. Nesse mesmo período no Brasil, Marvin passou por um exame psiquiátrico no Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, a pedido do Ministério Público da Paraíba.

O laudo considerou-o lúcido, sem transtorno mental identificado. A defesa contestaria depois o procedimento e os recursos seguem sem julgamento até hoje. Em 15 de novembro de 2018, o Tribunal de Guadalajara, presidido pela juíza Maria Helena Maior, leu a sentença 3 prisões perpétuas revisáveis pelas duas crianças e pelo tio, e mais 25 anos especificamente pela morte da Janaína. Essa foi a pena máxima prevista pelo Código Penal espanhol, e com isso o Patrick se tornou o quinto condenado na história da Espanha a recebê-la.

A sentença não ficou definitiva de imediato. Tribunal Superior de Justiça de Castilla-La Mancha chegou a reduzi-la para uma só prisão perpétua num recurso posterior, mas o Supremo Tribunal Espanhol reverteu essa decisão em maio de 2020, restabelecendo as 3. E aí, em 27 de junho de 2019, o processo contra o Marvin também teve uma reviravolta. A Justiça da Paraíba determinou a prisão preventiva dele, revertendo a liberdade de 2016, ao concluir que ele teria tentado romper a tornozeleira eletrônica.

A defesa negou, alegando desgaste natural do equipamento. O Marvin ficou preso por cerca de 10 meses. A prisão preventiva foi revogada apenas em maio de 2020, depois que a defesa invocou uma mudança recente na legislação brasileira, a chamada Lei Anticrime, que passou a exigir revisão periódica de mandatos desse tipo a cada 90 dias. Ele voltou a usar a tornozeleira eletrônica com recolhimento domiciliar obrigatório à noite. Em julho de 2021, a Justiça da Paraíba absolveu o Marvin sumariamente no processo de homicídio, entendendo que a conduta dele não configurava crime previsto no Código Penal.

O Ministério Público recorreu. Em fevereiro de 2023, o Tribunal de Justiça da Paraíba reabriu o processo. O relator, o Desembargador João Benedito da Silva, apontou indícios de que Marvin tinha incentivado o Patrick e a absolvição foi revogada. Naquele mesmo ano, Marvin falou publicamente pela primeira vez sobre o caso. Numa entrevista para série documental espanhola, dizendo querer ser conhecido por outros aspectos da própria vida.

Ele até mencionou o canal no YouTube que ele tinha aberto. Em março de 2026, o Superior Tribunal de Justiça negou o recurso da defesa do Marvin, que tentava levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal, mantendo o processo em tramitação na Paraíba. Hoje, o Patrick continua cumprindo pena na Espanha, numa trajetória marcada por ameaças e violência. De Alcalá Meco, ele passou por Extremera, e após ameaças de morte de outros presos, e aí depois por por Herrera de la Mancha até transferência em 2021 para Puerto Tercero, onde ele tá até hoje.

Em Extremadura, ele vivia isolado, monitorado como interno de acompanhamento especial. Em dezembro de 2021, cerca de 10 presidiários o espancaram em Puerto Tercero e ele ficou 4 dias hospitalizado. Segundo Alfran, ele só não morreu porque outro preso interveio. Reportagens atribuem o episódio a uma lei paralela dentro dos presídios que costuma perseguir quem mata crianças. Brigas com eles seguem acontecendo. A sentença do Patrick só pode ser revisada a partir de 2038 e ele não pode alcançar o chamado terceiro grau, o regime prisional mais brando, antes dos 42 anos.

Uma psicóloga tem permissão para acompanhá-lo. Estudando o comportamento dele na prisão, o Patrick recebe cartas de amor, ele mantém contato telefônico frequente com a sua irmã Hannah e os pais o visitam regularmente. 6 anos depois da condenação, a família segue dividida entre a dor e uma tentativa de seguir em frente. Só que a Jaqueline diz que o Patrick precisa aceitar a prisão como sendo a sua casa e se arrepender ali. O Alfran reconhece que a família desmoronou, mas ele disse que ela foi se reerguendo aos poucos.

A avó dele, Maria das Graças, contou que recebeu o François, pai do Patrick, um tempo depois em sua casa e que ele pediu perdão pelo que o seu filho tinha feito. Segundo ela, ela disse que ela perdoou, embora ela nunca vai esquecer e ainda sinta uma profunda tristeza pela morte do filho. Já o Jorge, que é irmão da Janaína, ele discorda. Ele considera considera o que o Patrick e o Marvin fizeram imperdoável. E ele cobra também que enquanto o Patrick tá cumprindo sua pena, o Marvin continue vivendo tranquilamente no Brasil.

Inclusive, 10 anos depois, o Marvin, que até hoje não foi julgado, mantém uma vida discreta. Segundo o seu advogado, ele viaja para Europa, tem uma microempresa de edição de livros desde 2023, trabalha com o pai e usa tornozeleira eletrônica restrita nos fins de semana e em viagens. Segundo ele, ele acredita já ter pago pelo seu erro nos últimos anos. A Jaqueline afirma que a família também perdoou o Marvin, mas gostaria que ele tivesse sido preso por mais tempo para que ele pudesse amadurecer.

E as visões sobre a responsabilidade do Marvin nesse caso seguem divididas, até mesmo por quem fez parte da investigação do caso. O delegado da Polícia Civil, Marcos Paulo, mantém que o Marvin foi determinante para a 4ª morte, enquanto o delegado federal Gustavo Barros tem Fall never arrives all at once.

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Já o advogado do Marvin atribui o silêncio dele na época como medo e a imaturidade da idade, não a intenção de ajudar. Já o Alfran chama o caso de exemplo de impunidade, mas ele afirma não guardar ódio de nenhum dos dois. Ele disse que já os perdoou. O caso rendeu em 2023 uma série na HBO Max chamada Não Conte a Ninguém. A série tem 5 episódios com entrevistas do Marvin, com entrevistas de pessoas e amigos conhecidos das vítimas, advogados e também apresenta prints e áudios das conversas trocadas entre o Patrick e o Marvin.

No encerramento da série, os amigos Rafa e Jordana refletem sobre o passado. O Rafa diz ainda guardar carinho pelo Patrick, mesmo sabendo que ele tem que pagar pelo que ele fez. Já a Jordana afirma que a experiência mudou para sempre a forma como ela avalia as pessoas, dizendo que ela conheceu o pior do ser humano. 5 anos depois do crime, o Alfredo decidiu morar na Espanha, em La Coruña, a mesma cidade onde ele viveu com o Marcos passado.

Já faz 10 anos desse crime, ele segue como sendo um dos episódios mais marcantes e mais chocantes da crônica policial recente entre Brasil e Espanha, não só pela brutalidade do crime, mas pelo fato de que foi cometido por alguém da própria família das vítimas e que foi narrado em tempo real para outra pessoa que estava em outro país. Quero muito saber o que vocês acharam desse caso, então me contem aqui nos comentários. Quero muito saber a opinião de vocês sobre O Marvin não ter sido julgado também, sobre o que vocês pensam sobre o envolvimento dele nesse caso.

Me contem aqui nos comentários que eu vou ler. Eu tô gripada, então se eu tô meio enasalada, falando meio enrolada, é por conta disso. Mas quero muito saber a opinião de vocês. Não esquece do like, que me ajuda muito na divulgação do vídeo. Então é isso, pra mais casos siga o podcast Quinta Misteriosa. E aproveita pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.

O MASSACRE EM PIOZ: O CASO BRASILEIRO QUE CHOCOU A ESPANHA #631 | Castnews Index — Castnews Index