Episódios de Quinta Misteriosa

O GURU, O CULTO E OS SEGREDOS POR TRÁS DE BUDDAHFIELD #623

03 de setembro de 202624min
0:00 / 24:04

No início dos anos 80, um jovem cineasta é expulso de casa por ser gay e encontra abrigo numa comunidade espiritual em Hollywood. O que parecia ser um paraíso de amor incondicional e iluminação se transforma, ao longo de 22 anos, numa máquina sofisticada de abuso sexual, manipulação psicológica e controle total. E ele estava filmando tudo. #623

Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
JGJaqueline Guerreiro

Oi, bonitas e bonitos. Tudo bom com vocês? Eu sou a Jaqueline Guerreiro e esse é o podcast Quinta Misteriosa. Aqui eu posto novos casos toda segunda e toda quinta. Aproveita pra me acompanhar nas redes sociais pra conteúdo extra de séries, filmes, livros e, é claro, true crime. E agora, bora começar o caso de hoje. Will Allen nasceu no início dos anos 60, na Califórnia. Era um menino curioso, sempre fazendo perguntas que ninguém conseguia responder.

Aos 4 anos, quando foi ao funeral da sua bisavó, o caixão tava aberto e o corpo imóvel. Ele ficou fascinado pela morte, pela vida, pelo significado de tudo isso. Eles perguntavam quem somos, por que estamos aqui, o que acontece depois. Aquela experiência plantou uma semente no Will. Uma necessidade de entender, uma busca por respostas. Quando ele tinha 12 anos, ele conseguiu sua primeira câmera e começou a filmar. Pra ele, a câmera era a sua forma mais honesta de falar.

Era como ele entendia o mundo. A sua irmã mais velha, a Amy, foi pra ele como uma mãe durante a infância. Ela o compreendia de formas que a própria mãe dos dois não conseguia. E quando o Will entendeu que ele era gay, a Amy estava ali, tranquila, aceitando ele como ele era. Porém, a mãe não. Pra ela, a homossexualidade do Will era inaceitável. Quando ele se formou na Southern Methodist University, em Dallas, no início dos anos 80, ele tinha 22 anos, tinha se formado em cinema.

E ele carregava uma verdade que a sua mãe não queria ouvir. Um dia, ele voltou pra casa e decidiu contar pra ela que ele era gay e que gostaria que ela o aceitasse como ele era. A resposta da mãe foi simples e devastadora: ele tinha que sair de casa imediatamente. Sem opções, sem rede de segurança, Will se viu sozinho. Foi aí que a sua irmã Amy o chamou novamente. Ela havia encontrado algo especial em West Hollywood. Uma comunidade meditativa que ela frequentava havia 9 meses.

Pessoas jovens, criativas, inteligentes. Eles faziam yoga, meditação, dança. E de acordo com a Amy, havia amor incondicional ali. O tipo de amor que o Will, um jovem gay rejeitado pela própria mãe, desesperadamente precisava. Ela disse pra ele, você não tem que fazer isso sozinho. Will acreditou. O que ele viu parecia perfeito demais pra ser verdade. Pessoas jovens, radiantes, corpos tonificados, sorrisos genuínos. Havia conexão profunda entre os membros, uma sensação de pertencimento que Will nunca havia experimentado.

Não havia julgamento ou rejeição, havia apenas amor incondicional. Ou o que parecia ser isso. No centro de tudo isso estava o Michel, que na verdade se chamava Jaime Gomes. Um sul-americano que havia adotado um pseudônimo francês pra soar mais sofisticado em Hollywood. O Michel tinha cerca de 45 anos, era bronzeado, musculoso e ficava quase sempre de sunga e óculos escuros. Segundo seus seguidores, ele tinha uma conexão direta com Deus e havia alcançado a iluminação pra guiar outras pessoas até lá.

O Will entrou pro grupo no mesmo ano que ele foi expulso de casa. Agora eu quero falar um pouco mais sobre esse homem, né, que tinha todos esses seguidores. Como eu falei pra vocês, o seu nome verdadeiro era Jaime Gómez. E ele nasceu em 1942, na Venezuela, filho de um fazendeiro próspero. Ele tinha um sonho clássico: sair de lá e fazer sucesso em Hollywood. Foi pros Estados Unidos quando tinha 20 e poucos anos e mudou legalmente o seu nome pra Michel Rostand.

Ele queria muito soar francês, sofisticado, europeu. Trabalhou como dançarino de balé no Oakland Ballet e conseguiu um pequeno papel no filme O Bebê de Rosemary, em 1968. Ele não tinha um personagem com falas. Ele era um dos figurantes, mas ele tava em Hollywood. Era cinema, e era a prova de que ele tinha conseguido. Só que Hollywood não quis saber dele, a carreira de ator não decolou. Nos anos 70, ele fez papéis em filmes pra adultos e depois desapareceu daquele mundo.

Mudou de rumo e começou a trabalhar como coach de atuação em Miami, e depois em LA. Ensinando técnicas pra aspirantes que tinham os mesmos sonhos que ele. Foi nessa posição de poder, como professor, mentor, que ele descobriu algo mais valioso que a fama. Ele tinha um talento extraordinário pra ler as pessoas. Ele entendia suas inseguranças mais profundas. Identificava o vazio que existia dentro delas e se colocava como a pessoa que poderia preencher aquele vazio.

Nos anos 80, o Michel muda completamente a sua estratégia. Ele deixa o coaching de atuação e começa a dar aulas de yoga e meditação em West Hollywood. Aulas em estúdios alugados, praias, montanhas. Mas ele não tava realmente interessado em ensinar espiritualidade. Ele estava interessado em poder, em ter seguidores e ser venerado. O Michel se apresentava pras pessoas como um ser iluminado, alguém que tinha conseguido alcançar a consciência divina depois de muitos anos estudando com gurus milhões de anos, o que obviamente era uma história completamente falsa.

Mas ele contava essa história por aí, as pessoas acreditavam. Ele prometia aos alunos que ele conseguia transferir essa consciência dele direto para eles através do Shakti, que é um processo antigo. Ele basicamente pressionava o dedo na testa dos alunos enquanto eles meditavam. Segundo Michel, aquele toque transferia energia espiritual, poder divino e uma conexão direta com Deus. E as pessoas acreditavam nele porque era exatamente isso que elas procuravam: uma experiência real com Deus, uma conexão que nenhuma outra religião tinha oferecido.

Já o Prometia, oferecia e entregava. Ou pelo menos as pessoas acreditavam que ele entregava. Esse grupo de pessoas começou pequeno e eram basicamente as pessoas que frequentavam o estúdio de yoga. Mas aí esse grupo foi crescendo, porque essas mesmas pessoas começavam a contar o que elas tinham presenciado pra amigos que também queriam fazer parte desse grupo. Então os amigos traziam mais amigos, as pessoas que tinham irmãos levavam os irmãos, casais também, um levava o outro.

E assim muitas pessoas começaram a chegar. E foi exatamente assim que o Will chegou, né, através da irmã dele. Que o convidou. No início dos anos 90, cerca de 150 pessoas haviam entrado nessa órbita ali do Michel. Eles se chamavam de Buda Field, um nome que se referia ao campo energético que o Michel alegava criar. E que esse campo ficava ao redor dele, nas pessoas ao redor dele. Então, acho que por isso da junção de Buda e Field, que seria campo.

Como ele oferecia toda essa conexão com Deus e tudo mais, não parecia uma seita. Mas é isso que era. Outra coisa que fazia com que não parecesse uma seita é que as pessoas não eram marginalizadas. Pessoas desesperadas que precisavam de algum lugar pra ficar ou pra se encaixar. Eram pessoas, na verdade, inteligentes, educadas, bonitas. Muitas dessas pessoas vinham de famílias tradicionais, famílias estruturadas. Tinham diploma na universidade, estavam iniciando a carreira.

E tudo isso fazia parte da estratégia do Michel, era exatamente como ele queria que o grupo parecesse. Ele não queria recrutar pessoas fracas. Ele procurava pessoas fortes que tivessem mais a contribuir. E também pessoas que fossem inteligentes pra conseguir entender a filosofia dele. Além disso, as pessoas tinham que ser bonitas, ele queria que tivesse essa estética. Deficiência visual. E obviamente pessoas que tivessem recurso, né, que pudessem pagar por essas sessões de limpeza.

O Will comentou anos depois que o grupo até brincava com isso, de que eles pareciam uma seita, justamente porque eles conheciam todos os sinais de uma seita. Então tinha o líder que todo mundo seguia, que obviamente tinha que ser carismático, aquele isolamento do mundo ao redor, dependência emocional e práticas estranhas. Então mesmo percebendo essas coisas, para eles aquilo não era uma seita, por mais que parecesse muito. Eles diziam: temos todas as características para sermos uma seita, mas somos muito inteligentes pra isso.

Essa negação era uma das coisas que mantinham essas pessoas lá. Porque na cabeça deles, pelo fato deles conseguirem identificar os padrões de uma seita, aquilo não era uma, porque eles não poderiam ser afetados por ele. Embora, obviamente, eles estivessem sendo, né. E agora, falando sobre a seita em si, né, o que eles faziam no dia a dia. Eles tinham uma rotina ali pra seguir, e era uma rotina bem intensa. Meditações diárias que duravam horas, exercícios físicos constantemente.

Práticas de balé que duravam de 3 a 5 horas, várias vezes na semana, de 2 a 3 vezes. Aulas de atuação onde as pessoas deveriam colocar pra fora a parte mais vulnerável das suas personalidades. O Michel chamava isso de cura, dizia que através dessas aulas que as pessoas conseguiriam se libertar de todos os traumas que eles tinham através dessa exposição controlada. O grupo ia pra praia, pra montanha, eles dançavam, se conectavam, faziam festas até o amanhecer.

Pra muitos, aquilo era a melhor época da vida deles, eles nunca tinham vivido nada daquele tipo, nunca tinham se sentido tão acolhidos, amados, nunca tinham feito parte de algo como esse grupo, né, o Buddha Field. Tem um dos membros que era um membro de longa data chamado Philip Coquet, que ele explicou como era esse sentimento de estar ali. Ele disse que ele amava o grupo, que eles eram super unidos e estavam todos conectados por uma experiência profunda que eles tinham todos juntos, e que ele nunca conseguiu encontrar esse amor incondicional em nenhum outro lugar.

Mas pra fazer parte dessa comunidade havia um preço muito alto que muitos deles pagavam sem nem perceber. Toda semana, cada membro precisava fazer uma sessão de limpeza com o Michel. E era uma sessão paga. E o valor da sessão, pra época, né, nos anos 80, era um valor alto. Essa sessão de limpeza era apresentada pros membros como uma hipnoterapia espiritual. Um momento onde o Michel conseguia limpar toda a energia negativa da pessoa através de regressão de vidas passadas.

Meditação guiada e sessões hipnóticas. Então, durante essas sessões, as pessoas contavam absolutamente tudo da vida delas pro Michel. Os seus medos mais profundos, traumas de infância, desejos sexuais, segredos que eles nunca tinham compartilhado com ninguém. E aí, o Michel ouvia tudo e ele anotava. Ele usava cada detalhe dessas coisas que ia descobrindo nas sessões como uma forma de controle. Um ex-membro descreveu que era como se ele tivesse um arquivo de cada pessoa.

E esse arquivo dizia exatamente o que aquela pessoa mais temia e o que ela mais desejava. E ele usava isso a seu favor, mas também usava as sessões para abusar das pessoas da comunidade, principalmente homens gays e os héteros também. Então, durante as sessões, quando era com um homem, ele dizia que também fazia parte da limpeza e que era um presente ter relações com ele, era um presente espiritual e um caminho para iluminação.

E caso a pessoa recusasse, ele dizia que a pessoa não tava claramente tão devota quanto ele pensava e que a pessoa precisava disso para jornada, e que ela tinha um ego ali que ele precisava transformar. Ele usava hipnose, pressão psicológica e chantagem emocional para convencer todos esses homens que não queriam ter relações com ele. Como eu falei para vocês, muitos deles não eram gays. Mas aí, né, conforme o tempo ia passando, como o Michel ia conhecendo cada um deles, os seus segredos, conhecia a pessoa por completo através das sessões, ele ia ganhando a confiança da pessoa, colocava essas pessoas em estados vulneráveis durante as sessões, e assim ele conseguiu o que ele queria.

Um ex-membro até disse que quando ele sugeriu para o Michel que ele não queria mais ter relações com ele durante exceções, o Michel respondeu que talvez ele não devesse mais fazer parte da comunidade. Era basicamente uma ameaça, né? Se você não fizer o que eu falo, você vai ser expulso. E as pessoas não queriam ser expulsas. E isso foi se construindo por anos. Então eram pessoas que estavam ali há anos, que conheciam todo mundo do grupo, que seus amigos estavam ali, as pessoas que eles confiavam estavam ali, e toda a rede social dessas pessoas, a vida social delas estava ali.

Dentro daquele grupo. O Michel mantinha relações sexuais com membros específicos do grupo, não todo mundo, principalmente nas terças e nas sextas. E aí, nos outros dias, ele pregava um celibato absoluto para todos os outros membros. Ele dizia que ele tinha transcendido o sexo e que o orgasmo da meditação era mais satisfatório do que o sexo físico. Com o tempo, o controle que o Michel tinha das pessoas foi se intensificando. Ele começou a renomear os membros, tirando as suas identidades.

Ele cortava laços que as pessoas tinham com os seus familiares, ele começava a proibir as coisas. Como por exemplo, além de proibir a relação com alguns familiares, ele dizia que eles não poderiam ler os jornais, não poderiam ver TV, eles não poderiam receber qualquer informação do mundo exterior. A comunidade Budafil já acabou se tornando uma bolha onde ele fazia as pessoas acreditarem que a única verdade estava ali dentro com ele.

Só a palavra dele poderia ter essa verdade. Então as pessoas acabavam acreditando, né? As pessoas eram manipuladas por ele, elas se submetiam àquelas rotinas muito doidas que eu falei para vocês, onde eles tinham que fazer muitos exercícios físicos porque o Michel pregava, né, esse corpo perfeito que eles precisavam adquirir para conseguir fazer todas as coisas que eram necessárias. As pessoas às vezes faltavam no trabalho delas.

O Michel criava performances que as pessoas tinham que aprender e tal, só que essas performances nunca eram apresentadas a outras pessoas. Era tudo para ele, ele fazia essas coisas para o seu próprio ego. E o Will, quando ele entrou na comunidade, ele levou a sua câmera junto, então ele acabou filmando essas coisas. O Michel falava tanto sobre a beleza física dele e dos outros membros da comunidade que ele passou por várias cirurgias plásticas, e ele incentivava que as pessoas do grupo fizessem o mesmo.

A aparência física se tornou ali dentro parte de toda a espiritualidade que ele pregava. Se você não tivesse o corpo perfeito, talvez você não estivesse evoluindo rápido o suficiente. Outra coisa que ele proibia eram animais de estimação e filhos. As mulheres, quando acabavam engravidando, elas eram pressionadas a abortar. O Michel dizia que crianças eram distrações da jornada espiritual. Um membro que insistiu que teria, sim, o seu filho foi expulso do grupo.

Além de terem que treinar muito, a alimentação do grupo era extremamente controlada. Então tinham várias coisas que eles não poderiam comer, como açúcar, por exemplo. Nem glúten ou álcool. E o Michel criava rituais sofisticados pra manter o grupo totalmente dependente dele. Havia o The Shakti Retreat, que era quando ele fazia pressão física com as mãos enquanto as pessoas meditavam, criando feixes de luz dentro dos seus olhos, uma técnica antiga do hinduísmo apresentada como transferência de energia espiritual.

E havia também o The Knowing, a experiência suprema que todos queriam viver. O The Knowing era apresentado como a maior experiência, um evento raro onde o Michel dava aos membros uma experiência direta com Deus. Uma cerimônia de múltiplos dias que começava com luzes piscantes, músicas específicas, meditação guiada. E então, no clímax, o Michel fazia uma pressão física nas pessoas, criando um efeito visual dentro dos seus olhos.

Os membros descreviam como uma viagem de LSD: cores vibrantes, sensação de êxtase total, contato com o divino, embora não houvesse drogas. Ou assim eles acreditavam, né? Eles imaginavam que o efeito ali era real. O Michel tinha aprendido que o cérebro humano, sob certas condições de luz, som, sugestão e privação de sono, podiam ser induzidos a estados de alucinação. A Radja Gleiss, que ficou nessa seita por 27 anos, recebeu o The Knowing apenas 7 meses após chegar.

Outros membros esperaram 18 anos para conseguir obter o The Knowing. Aquela era a moeda de troca perfeita. O Michel prometia para quem obedecia e tirava de quem questionava. Um ex-membro descreveu, entre aspas: quando recebi The Knowing, eu estava gritando, mas não era de êxtase, era medo. Cada fibra do meu corpo estava gritando para sair daquela casa, mas eu fiz tudo que pude para ficar, porque agora havia recebido o que todos queriam e eu não queria perder isso.

Alguns membros eram elevados à posição de escravo pessoal do Michel, precisavam estar disponíveis 24 horas por Cozinhando, limpando, massageando, fazendo tudo o que ele precisasse. O Will ocupava essa posição frequentemente. O Michel não trabalhava. Aliás, ele nunca havia trabalhado de verdade. Ele vivia sustentado pelas sessões de limpeza e contribuições dos membros. Uma renda que cresceu ao longo dos anos, atingindo 6 dígitos por ano.

Quando o Will entrou na comunidade, ele não sabia, mas estava prestes a passar os próximos 22 anos dentro daquela seita. Como ele era cineasta, o Michel o transformou no documentarista oficial da comunidade. Então, o Will tinha que filmar tudo. Pro Michel, o Will era uma ferramenta perfeita. Tinha habilidades técnicas e intenções puras. Essas filmagens se tornariam a prova de um dos casos mais perturbadores de abuso psicológico, manipulação e controle que a Califórnia já viu.

Em 1993, aconteceu o Cerco de Waco, no Texas. O FBI cercou um complexo religioso de David Koresh e 76 pessoas morreram. Nessa época, eles estavam morando em Austin, no Texas. O Michel assistiu tudo pela TV, a paranoia do grupo se intensificou e o controle se tornou ainda mais apertado. Nessa época, o Michel decidiu mudar o seu nome para Andreas e começou a exigir que os membros se reportassem uns aos outros. Qualquer transgressão, qualquer dúvida, qualquer pensamento questionador precisava ser reportado imediatamente.

Quando membros saíam, o Michel tentava desesperadamente recuperar fotos, vídeos, qualquer evidência que pudesse ser usada contra ele. O mais engraçado disso é que ele sabia e permitia que o Will filmasse tudo, porque ele ainda sonhava em ser uma estrela de cinema. Ele gostava de ficar na frente da câmera e ele gostava do talento do Will, que havia feito vídeos que o mostravam de forma quase divina. Isso alimentava o ego dele. O Michel confiava no Will, e essa confiança anos depois se voltaria completamente contra ele.

O grupo começou a crescer nos anos 90, e aí em 2006, um membro de alto escalão, alguém que havia passado duas décadas no grupo, saiu e enviou um email em massa para todos os outros. No email, ele expôs tudo: os abusos sexuais sistemáticos, a evasão fiscal do Michel, as mentiras sobre seu passado espiritual. Ele disse que o Michel nunca havia treinado com gurus indianos, que ele era um manipulador sexual que usava espiritualidade como escudo para abusar de pessoas pessoas vulneráveis.

Esse email foi devastador e caiu como uma bomba. De repente, todos os membros poderiam comparar notas, confirmar histórias, perceber que o que tinha acontecido com eles não era único. Então muitos começaram a questionar, a falar uns com os outros e a confrontar o Michel. Pela primeira vez em mais de 20 anos, homens que haviam sido abusados perceberam que não estavam sozinhos, que havia um padrão ali dentro e que havia outras vítimas.

Foi assim que o grupo começou a se desintegrar. O Will foi um dos que saiu do Budafield nessa época, depois de 22 anos na seita. Toda sua vida adulta havia sido dentro do grupo. Então quando ele saiu, ele entrou numa crise profunda. Ele se sentia perdido, sem direção, sem identidade. Ele se questionava se havia atuado ali ano após ano como documentarista ou como escravo. Ele se perguntava então quem era ele agora. Em meio a todas essas dúvidas, Will sabia que tinha algo que ninguém mais tinha: as filmagens.

Ele havia deixado a maior parte desse material com o grupo, uma decisão que o assombraria para o resto da vida. Mas ainda assim, ele tinha 35 horas de vídeo editado. Foi aí que ele decidiu usar aquilo para contar a Durante 4 anos, de 2007 a 2011, ele trabalhou num documentário, entrevistou outros ex-membros, como o Felipe Coquet, que eu citei pra vocês, que tinha passado mais de 20 anos lá, como a Rádia Gleis, que eu também citei, que passou 27 anos.

E todos os ex-membros contavam suas histórias, a manipulação, o abuso, a lavagem cerebral que Michel havia realizado. O documentário ganhou o título The Holy Hell, O Inferno Sagrado, e capturava perfeitamente o que era a Budafield. Algo apresentado como sagrado, quando na verdade era um inferno. O Will submeteu o documentário ao Festival de Sundance em 2015, que manteve sigilo tático e não revelou o nome do diretor no anúncio inicial.

Essa intriga funcionou. Quando o filme foi anunciado, tinha muita curiosidade e todo mundo queria saber quem era o diretor anônimo. O documentário foi exibido pela primeira vez no dia 25 de janeiro de 2016, no Festival de Sundance, em Park City, em Utah. E a resposta foi imediata e intensa. O Michel, que agora atendia pelo nome de Andreas e vivia no Havaí com os seus seguidores mais leais, que não desistiram dele, ele mandou alguns deles pra que fossem até o festival, porque ele queria que eles filmassem quais ex-membros estavam lá.

E assim, ele tentou intimidá-los. Um dos guarda-costas do Michel chegou até a ameaçar fisicamente um dos ex-membros, né, que foram entrevistados no documentário. O Michel também emitiu uma declaração dizendo que aquele documentário era fictício. Ele disse que aquela era uma tentativa de obscurecer a mensagem universal de amor e de despertar espiritual, e que aquilo era uma perseguição. Só que ninguém acreditou nele. A CNN comprou os direitos do documentário e o transmitiu em setembro daquele ano.

Inclusive, a produção executiva do documentário foi do Jared Leto, que tem muitas coisas recentes que saíram sobre ele, que acho que talvez até daria para fazer um vídeo. Mas de qualquer forma, o documentário foi distribuído primeiro nos cinemas e depois em plataformas de streaming, e virou uma referência quando se fala em seitas modernas. Internas. Depois que o documentário foi lançado e toda aquela verdade veio à tona, muitas pessoas esperavam que o Michel fosse preso ou minimamente investigado.

Mas isso nunca aconteceu, a polícia não o procurou, não havia nenhuma acusação formal contra ele. E a razão para isso tudo é basicamente como o sistema lida quando o assunto são seitas. Provar os crimes que acontecem dentro de seitas é algo extremamente difícil, principalmente porque os membros entravam sempre de forma voluntária. Eles não eram obrigados a entrar, eles queriam entrar. Eles concordavam em participar das sessões, concordavam com o que acontecia ali dentro, concordavam em dar dinheiro.

E além disso, muitos dos abusos que eles citaram aconteciam dentro de ambientes que o Michel criava, em contextos apresentados como espirituais, basicamente criando uma zona legal que a corte hesitava em tentar entrar. Além disso, nesse caso específico, as vítimas levaram, gente, mais de 20 anos para perceber que estavam sendo manipuladas. Pessoas que passaram 20, 25, 27 anos lá dentro levaram todo esse tempo, e na verdade foi mais por conta do email que foi mandado para que elas percebessem que o que elas tinham passado era de fato um abuso.

Nesse tempo, muitas evidências desapareceram, as pessoas já estavam mais velhas, as memórias também já não eram tão boas e efetivas. Para fazer alguma coisa, a polícia precisava de uma evidência sólida. E como eu falei para vocês, a maior parte dos arquivos em vídeo ficou lá dentro da comunidade, Então, o Will só conseguiu usar o que ele tinha pra fazer o documentário, que não era muita coisa. E no final das contas, era a palavra do Michel contra a palavra dos ex-membros.

E apesar de tudo que o documentário revelou, apesar dos ex-membros falando publicamente sobre os traumas, o Michel não foi formalmente acusado de nada. O Jaime Gomes, né, que é seu nome verdadeiro, que depois virou Michel, depois Andréas, ele também era chamado de The Teacher. Hoje, ele vive livre e nunca enfrentou consequências legais pelos seus atos. Apesar das múltiplas alegações de abuso sexual documentadas da evasão fiscal, apesar de pressionar mulheres a abortar, apesar de décadas de manipulação psicológica.

As últimas atualizações sobre ele nesse ano dizem que ele continua morando em uma ilha no Havaí. Ele dá aulas de yoga na praia de Lanikai e se identifica como Reise, não sei se assim pronuncia, que significa Deus Rei em japonês. Mais bizarro de tudo isso é que a Buddhafield ainda existe. O grupo continua recrutando membros através de estúdios de yoga, comunidades de bem-estar. A estrutura é exatamente a mesma, o O padrão ainda é o mesmo, ele só mudou de estado.

Em 2023, a Netflix lançou uma série documental chamada How to Become a Cult Leader, que inclui um episódio dedicado ao Jaime Gomes e a Buda Field, explorando suas técnicas de manipulação e controle. A série examina as técnicas de que cult leaders usam para conseguir recrutar e manter controle sobre os seus seguidores. O Will hoje é um documentarista reconhecido. O Holy Hell, documentário que ele fez, o transformou. Ele apareceu em podcasts sobre seitas, em documentários, painéis de conferências.

Ele converteu o seu calma em educação. Já a Radha Gleis, que passou 27 anos na Budafield, resumiu tudo entre aspas: no final ninguém alcançou iluminação, ninguém se transformou espiritualmente, ninguém se tornou melhor. A única pessoa que se beneficiou foi ele. E o Will disse entre aspas: eu amava a comunidade, mas no final tudo era sobre o Michel, sempre foi apenas sobre ele. Nós éramos ferramentas para alimentar o seu narcisismo.

Gente, esses casos de seita chamam muito minha atenção. Eu sempre eu fico muito chocada porque não entra na minha cabeça como que as pessoas conseguem ser manipuladas nesse nível extremo. Eu não consigo entender, então eu fico muito fascinada. Como eu falei, tem um episódio na Netflix para quem quiser assistir, e é chocante porque a seita ainda existe. As pessoas, né, da Califórnia, a maioria saiu, mas ela ainda existe agora no Havaí e ainda tem vários membros.

Então, tipo assim, as pessoas ainda obedecem o Michel, mesmo depois de tudo ter sido revelado. Porque pra mim é chocante. Então eu quero muito saber a opinião de vocês. Me conta aqui nos comentários e não esquece do like, que me ajuda muito na divulgação do vídeo. Então é isso. Pra mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa. E aproveite pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.