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ELA LEVAVA UMA VIDA DUPLA... ATÉ DESAPARECER | Caso Paige Birgfeld #622

31 de agosto de 202632min
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Em Grand Junction, no Colorado, uma mãe de três filhos some sem deixar rastro depois de um dia comum de trabalho. O carro dela aparece incendiado dias depois, e uma trilha de pertences pessoais se espalha por quilômetros de rodovia. Por trás da imagem de mãe dedicada e empreendedora, a investigação vai revelar uma vida secreta que ninguém em sua família suspeitava — e que vai levar sete anos para apontar um responsável. #622

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MLMatt Lewis

Oi, bonitas e bonitos. Tudo bom com vocês? Eu sou a Jaqueline Guerreiro e esse é o podcast Quinta Misteriosa. Aqui eu posto novos casos toda segunda e toda quinta. Aproveita pra me acompanhar nas redes sociais pra conteúdo extra de séries, filmes, livros e, é claro, true crime. E agora, bora começar o caso de hoje. Paige Meredith Bergfeld nasceu em 27 de abril de 1973, em Atlanta, na Geórgia. Ainda criança, se mudou com os pais Frank e Suzane Bergfeld pro Colorado, onde cresceu e terminou o ensino médio em Littleton.

Cidade da região metropolitana de Denver. Paige tinha um irmão mais novo chamado Craig. E ela era descrita pela família como uma menina extrovertida, teimosa quando queria e generosa com quem estava perto dela. Depois do colégio, a Paige chegou a estudar enfermagem na Universidade da Flórida, mas ela não terminou o curso. Em 1995, ela se casou com um namorado que tinha desde a adolescência, chamado Howard Bagler, conhecido como Ron.

O casamento não durou muito, os dois se divorciaram em 1997. Principalmente porque ele não queria ter filhos e ela queria. No mesmo ano do divórcio, ela conhece Rob Dickson, um empresário de uma família rica que parecia aos olhos de todos ao redor um excelente partido. O relacionamento avançou rápido. No ano seguinte, os dois se casaram e se mudaram para Grand Junction, uma cidade de porte médio no oeste do Colorado, cercada por cânions e por uma paisagem árida que se estende por quilômetros.

Eles construíram uma casa grande numa colina da Hill Avenue, com piscina e vista para o vale, o rio e as montanhas no fundo. Ali, a Paige e o Rob tiveram 3 filhos: Jess, Taft e Cole. Amigos da família descreveriam anos mais tarde o início daquele casamento como um período próspero. O Rob tinha de sucesso em negócios ao lado do próprio pai, antes de conhecer a Paige. E o casal parecia ter recursos de sobra pra sustentar o estilo de vida confortável que levavam em Grand Junction.

O irmão da Paige lembraria que ela e o marido se mudaram pra essa casa da Hill Avenue, ainda em obras. Ampliando o imóvel aos poucos, no ritmo que a família crescia com a chegada dos 3 filhos. Só que por trás dessa fachada confortável, o casamento era instável. O Rob tinha um gosto caro e investia com frequência em negócios arriscados. O que foi corroendo as finanças da família ao longo dos anos. Segundo o que o pai da Paige relatou mais tarde, o Genro tinha personalidades quase que opostas, dependendo do momento.

Então, às vezes ele era charmoso e sedutor em público. Mas no particular, às vezes ele explodia de raiva e se tornava ameaçador. O que deixava a família da Paige preocupada com a segurança dela. Em 2004, a relação chegou num ponto crítico. A Paige chamou a polícia depois de uma discussão em que, segundo ela relatou pros policiais, o marido teria dito que ela chegaria em casa e encontraria os filhos todos mortos. Foi depois disso que o casal se separou.

A Paige ficou responsável pelos 3 filhos sozinha, morando ainda em Grand Junction, enquanto o Rob se mudava pra Filadélfia. A separação deixou a Paige apertada financeiramente. A casa na Hill Avenue continuava com uma prestação alta. E boa parte do dinheiro que sustentava o padrão de vida da família já tinha sido torrado nos investimentos do Rob. Então, a Paige optou por manter a casa e a rotina dos filhos. O que significava bancar sozinha todas essas despesas pensadas originalmente por 2 salários e não 1.

Pra conseguir dar conta disso, ela acumulava trabalho. Então, ela abriu uma escolinha de dança pra crianças chamada Braindance. Com recital duas vezes por ano. Ela costurava os figurinos dela mesma. Ela também revendia utensílios de cozinha da marca Pampered Chef. Ela vendia um tipo de sling pra carregar bebê. E também fazia parte do Moms Club Local, grupo de apoio pra mães que trabalhavam fora. Pras amigas, ela era o tipo de mãe que dava conta de absolutamente tudo.

Do trabalho, dos filhos, de costurar roupas, de fazer o jantar, de conseguir fazer todas as tarefas. Uma dessas amigas até conseguiu resumir bem como ela era vista. Porque ela disse que por ela conseguir fazer tudo, parecia que Todas as outras mães ficavam em segundo lugar e a Paige sempre em primeiro. Mas o que ninguém sabia, nem as amigas dela e nem a família da Paige, é que ela tava vivendo uma vida dupla. E isso só iria vir à tona muito tempo depois.

Até que no dia 28 de junho de 2007, era uma quinta-feira qualquer, onde a Paige deixou os filhos dela com a babá e ela saiu de casa à tarde, início da noite, dizendo que ela tinha que fazer algumas coisas relacionadas a trabalho, mas que ela voltaria ainda naquela noite. Uma das amigas da Paige, chamada Carol, que inclusive ajudava a Paige negócios dela, tentou falar com ela esse dia, ligou para ela várias vezes, mas ela não conseguiu.

O que para ela não foi uma coisa estranha, porque a Paige, como eu falei para vocês, sempre tava muito ocupada. Então não era sempre que ela conseguia atender e retornar assim rápido. Nesse dia era um dia comum, dia qualquer, e a Paige não levou nada com ela, não levou dinheiro, roupas, não fez nenhuma mala, não deixou nenhum bilhete. Então não tinha nada ali que demonstrasse que ela não voltaria pra casa, né. Então, ela saiu, inclusive, dizendo que ela voltaria.

Quem percebeu primeiro a falta dela foi a filha mais velha, de 8 anos, que ouviu a mãe dizendo que voltaria e a mãe ainda não tinha voltado. Então, essa filha dela, chamada Jess, fala pra babá, né, que a mãe dela já deveria ter voltado. E a babá tenta falar com ela, não consegue. Então, liga pros avós, né, no caso, os pais da Paige. O Frank e a Suzy começam a ligar pra Paige, também não conseguem entrar em contato com a filha.

E eles decidem entrar em contato com a polícia de Grand Junction pra relatar o desaparecimento da filha. Da Paige. Imediatamente a polícia abre uma investigação e a primeira coisa que eles descobrem é ali no celular da Paige que a última ligação que aparecia ali no celular tinha acontecido às 9 horas da noite e depois disso o rastro de celular sumia. 3 dias depois o Ford Focus vermelho da Paige apareceu em um supermercado e o carro tava em chamas e a Paige não estava lá.

O estacionamento onde o carro foi encontrado era um estacionamento comercial e ficava a poucos quilômetros da casa da Paige. O carro ficou destruído pelo fogo, mas a polícia conseguiu recuperar a agenda agenda da Paige que tava dentro do porta-malas. E ela anotava tudo nessa agenda. Então rapidamente eles notaram que as páginas dos últimos 4 dias estavam faltando. Alguém tinha arrancado essas páginas. E eles também notaram que o banco do motorista tava totalmente inclinado para trás.

Então da forma que tava ali era completamente incompatível com a altura da Paige. Ou seja, tinha que ser alguém bem mais alto que a Paige para colocar o banco tão para trás daquela forma para conseguir dirigir o carro. E aí os bombeiros chegaram à conclusão que o incêndio não tinha sido acidental. Alguém tinha causado aquele incêndio. Então nesse ponto a polícia começava a criar uma teoria que ganhava força, que era de que alguém tinha dirigido o carro da Paige até aquele estacionamento e colocado fogo no carro, mas que esse alguém não era ela.

Quando o desaparecimento dela aconteceu, tava verão, muito calor, 40 graus. E no primeiro dia do desaparecimento, né, quando foi relatado o desaparecimento dela, a cidade já se mobilizou e mais de 100 pessoas começaram a ajudar nas buscas. Isso é muito doido porque a maioria das pessoas não conheciam a Paige, eram voluntários que tinham se juntado ali só pela comoção mesmo. Foi nessas buscas que um dos grupos, né, Eles tinham se separado em grupos, começou a encontrar vários itens da Paige por uma rodovia.

Então eles iam andando pela rodovia, iam encontrando cada vez mais itens dela. Foi encontrado um talão de cheques, cartão de visitas, cartão de seguro, cartão de saúde, tudo isso com uma certa distância. Então ao longo de 25 km tinham itens dela. Ninguém sabia dizer se os itens tinham caído de um carro em movimento ou se alguém propositalmente foi jogando esses itens para criar um rastro. Então a polícia decide mandar várias equipes especializadas em buscas por rios, equipes com cães farejadores para procurar pela Paige nos cânions, pela rodovia, nos rios.

Até helicópteros foram usados nos cânions. E o local em si era muito gigantesco, mais de 8 mil quilômetros para que a polícia buscasse por ela ali. Então a gente tá falando de um lugar que também tem muita natureza, então tem muitos rios, as montanhas, os cânions. Enfim, é uma busca muito grande no lugar, muito difícil. Equipes de resgate de condados vizinhos também se juntaram nas primeiras semanas semanas, câmeras de trânsito da rodovia foram revisadas quadro a quadro, um trabalho manual e lento para tecnologia de 2007.

A imprensa de Denver mandou equipe, então a história virou notícia nacional, principalmente depois que a história da agenda com as páginas arrancadas veio a público. Cartazes com o rosto da Paige foram espalhados nos postos, mercado, igreja, e uma linha telefônica recebeu centenas de ligações já nas primeiras semanas. Só que a maioria das ligações não tinham relação nenhuma com o caso, mas eram todas checadas. Então, ainda falando sobre a região que ela morava, Grand fica no extremo oeste do Colorado, perto da fronteira com o Utah, numa área conhecida pela paisagem de cânions avermelhados, pomares, vinhedos, além de uma proximidade grande com parques nacionais como o Colorado National Monument.

É uma cidade de porte médio, com uma vida comunitária bastante integrada, do tipo em que histórias como a de uma mãe desaparecida se espalham rapidamente e mobilizam os moradores que talvez nunca tenham cruzado pessoalmente com a vítima. Isso explicava a dimensão da mobilização que eu falei pra vocês. Escolas, igrejas, o próprio Moms Club, comércios locais, Todo mundo tava envolvido nas buscas. Nos primeiros dias, a apuração seguiu o roteiro padrão de um desaparecimento suspeito.

Policiais entrevistaram vizinhos, colegas, amigos próximos, tentando reconstruir cada movimento da Paige nas horas antes do sumiço. A babá foi ouvida em detalhes sobre o horário exato da saída, o humor dela naquela tarde e qualquer sinal fora do comum. Em paralelo, investigadores levantaram o histórico financeiro da família, as contas, cartões, dívidas em nome da Paige ou do Rob, tentando achar um motivo financeiro pro desaparecimento.

Eles chegaram a considerar a hipótese remota de fuga voluntária. Voluntária. Mas essa ideia perdeu força rápido, porque não havia sinal nenhum de planejamento. Tinha o vínculo dela com os filhos, que era forte demais pra imaginar um abandono desses. E só na segunda ou terceira semana de investigação é que começou a aparecer um outro lado pra essa história. A porta de entrada pra isso foi um detalhe físico. Entre os pertences que eu falei pra vocês que foram achados no carro incendiado, espalhados pela rodovia também, estavam vários cartões de visita de uma empresa chamada Models Inc.

Um nome que ninguém da família dela reconheceu. Ao rastrear esse nome, os investigadores vasculharam o computador e o celular da Pei. E encontraram anúncios online com fotos dela sob o nome de Carrie, oferecendo o serviço de acompanhante de alto padrão. Essa confirmação veio logo em seguida, por meio de entrevistas com conhecidos da Paige. E o que começou como um boato virou depois o fato que mudaria por completo a direção de todo o inquérito policial.

A polícia, naquela altura, ainda não sabia dizer com certeza se o negócio era, de fato, uma fachada pra prostituição ou se era um serviço de acompanhantes nos moldes que a Paige alegava manter. Essa descoberta chocou a família dela. Os pais e os amigos mais próximos garantiam não fazer a menor ideia de que ela vivia essa vida dupla. A hipótese que a própria família passaria a considerar com o tempo era que a Paige tinha recorrido a esse trabalho como meio de lidar com as dívidas acumuladas, entre elas uma hipoteca super pesada, né, sobre a casa da família.

Foi aí que o Rob revelou para polícia um detalhe que a família não fazia ideia. Ele disse que ele já tinha descoberto essa vida dupla da Paige já há 2 anos e que foi justamente por isso que eles não reataram o relacionamento. Ele disse que essa descoberta dele foi o que que fez com que o relacionamento realmente chegasse ao fim definitivamente. Os detetives descobriram que a Paige tinha um segundo celular onde ela usava só para esse trabalho específico.

Então eles começam a rastrear esse segundo celular para ver com quem ela tinha conversado, ligações que tinham sido feitas. No dia 28, no dia que ela desapareceu, eles perceberam que várias ligações tinham acontecido e eram ligações principalmente de clientes. Isso acabou reduzindo a lista ali de possíveis suspeitos para 7 homens. E todas essas informações novas, a polícia decidiu não divulgou para imprensa, não divulgou de forma alguma, tanto para proteger a investigação e também para proteger os filhos da Paige, para que eles não ficassem sabendo dessas coisas enquanto a investigação ainda andava.

Porém, de alguma forma, essas informações acabaram vazando para imprensa, que publicou. E aí a narrativa de uma mãe que lutava ali para conseguir pagar a hipoteca da casa, que criava 3 filhos sozinha e que tava desaparecida, muda para uma mulher que tinha uma vida dupla e que tinha muitos segredos. Então a narrativa muda, a A promotoria diria mais tarde que isso com certeza teve um efeito colateral ruim. A própria mãe da Paige disse que por mais que eles falassem o quanto o fato dessa vida secreta dela ter sido descoberta, aquilo não mudava em nada o quanto ela era uma mãe perfeita pros filhos.

Mas a opinião pública, pelo menos grande parte dela e grande parte do júri também, já tinha decidido a julgar moralmente a Paige. As duas primeiras pessoas a serem investigadas como suspeitas foram, obviamente, os dois ex-maridos da Paige. E rapidamente foram descartados. O Ron, o primeiro marido dela, chegou inclusive a demonstrar que ele tava muito preocupado com o sumiço dela. O registro da torre de celular dele mostrou inclusive que no dia que ela desapareceu, ele tava a algumas horas de distância, próximo de Denver.

Já o Rob, o segundo ex-marido, pai dos filhos dela, como eu falei pra vocês, mudou pra Filadélfia. Então, ele estava lá na Filadélfia. Apesar do histórico de brigas que eles tinham, ele foi descartado rapidamente, justamente por estar em outro lugar, não tinha como ele estar envolvido. Dessa forma, a polícia começa a investigar os clientes. Especificamente aquele grupo de clientes que tinham ligado para Paige no dia 28, o dia que ela desapareceu.

Nesse ponto, a Carol, amiga dela, acaba mencionando um detalhe muito importante para polícia, que ela disse que uma das últimas pessoas com quem a Paige tinha saído era um homem que deixou ela muito assustada e que ele dirigia uma picape branca. Seguindo essa dica da Carol, eles começam a investigar que carros aqueles clientes tinham e acabou que 3 deles dirigiam caminhonetes brancas, entre eles um homem chamado Lester Ralph Jones.

O Lester Ele nasceu em 1951 e em 2007, no ano que ela desapareceu, ele tinha 56 anos. Ele trabalhava como mecânico de motorhome na concessionária Bob Scott RVs, em Grand Junction. E estava casado pela terceira vez. Ele tinha dois filhos, que já eram adultos na época. Aos olhos de quem convivia com ele, o Lester levava uma vida estável e discreta. Do tipo que não chamava atenção de ninguém. Só que na prática, ele ainda estava se reerguendo de uma passagem relativamente recente pelo sistema prisional.

Foi contra a segunda esposa, chamada Lisa Jones, que o Lester cometeu o crime que definiria o seu histórico criminal antes do caso caso da Paige. Em 1999, ele levou a então esposa para o Grand Mesa, um dos maiores platôs de topo achatado do mundo, na mesma região do Colorado. E lá ele ameaçou matá-la. O Lester foi preso duas vezes no intervalo de cerca de um mês: primeiro por esse episódio e depois por sequestro em segundo grau com intenção de abuso e outras acusações relacionadas à mesma ex-mulher.

Ele acabou condenado por agressão em primeiro grau, classificada como cometida no calor da paixão, e por tentativa de sequestro em segundo grau com arma mortal, além de ter violado as condições da a própria fiança ao longo do processo. Ele cumpriu 5 anos de prisão por esses crimes contra a Lisa. E ele só voltou a aparecer associado a crimes contra a Paige. No primeiro interrogatório, ele negou conhecê-la. Até os investigadores mostrarem os registros telefônicos que provavam o contrário.

Inclusive, que provavam que ele tinha ligado pra ela um dia antes do desaparecimento. A polícia foi eliminando os demais nomes da lista por álibi ou por DNA que não batia. A lista foi se estreitando até sobrarem só 2 suspeitos fortes. O Lester e outro homem chamado George Coraluzzo, um pintor de 30 anos que tinha ligado pra Paige 20 vezes só no dia do desaparecimento. Ele já tinha ficha criminal e saiu de Grand Junction às pressas, 2 dias depois do sumiço dela.

O George parecia, aos olhos de muita gente na investigação, o suspeito mais óbvio entre os dois. Mas ele foi descartado quando um vídeo confirmou o paradeiro dele naquela noite. Então, não tinha como ser ele. Em meados de julho de 2007, poucas semanas depois do desaparecimento da Paige, o Lester, que... Que já era considerado um suspeito, inclusive a polícia já tinha revistado a casa dele duas vezes, tenta tirar a própria vida com uma overdose de remédios pra dormir.

Nesse dia, ele deixou um bilhete pra esposa pedindo perdão e mais uma vez dizendo que ele não tinha nada a ver com o desaparecimento da Paige. Foi no mesmo período que o Sargento Art Smith, da delegacia do xerife, ligou pro Lester pra avisar pra ele que os carros apreendidos já estavam prontos pra ele buscar. Era uma ligação de rotina, né, que não tinha nada demais, era só pra avisar que os carros estavam prontos. Só que nessa ligação, o Lester, que ainda tava muito abalado pela overdose, disse algo estranho durante a ligação.

Ele falou, você me perguntou onde eu deveria enterrar um corpo. O Art ficou muito confuso na ligação, porque em momento algum ele tinha perguntado isso. Esse foi mais um motivo pros investigadores continuarem desconfiando dele. Assim, em outubro de 2007, 4 meses depois do desaparecimento da Paige, a equipe do promotor Dan Rubenstein já tinha isolado o Lester como o principal suspeito do caso. Cães farejadores já tinham identificado o cheiro dele dentro do carro da Paige, que foi encontrado incendiado.

E o Lester também não tinha conseguido dar uma explicação razoável do porquê que ele tinha um galão de gasolina ao lado da mesa dele no trabalho. Ele foi interrogado duas vezes, ao todo foram 8 horas de interrogatório, sem a presença de um advogado. Quando a polícia revistou tanto o trabalho do Lester quanto a casa dele, eles encontraram várias coisas. Viagra, camisinha, um sutiã preto, a embalagem de um celular descartável, que inclusive ele negou que fosse dele.

Eles encontraram vários números de acompanhantes. Que ele mesmo tinha anotado. Ele anotava à mão o nome da pessoa, o número e o tamanho de sutiã que essa pessoa usava. E eles também encontraram uma balança de cozinha da marca Pampered Chef, que era a mesma marca que a Paige vendia. A Carol contaria mais tarde que ela tava com medo que o Lester descobrisse quem realmente era a Carrie, né, a mulher que ele conhecia como Carrie, que era na verdade a Paige.

Com tanto medo que em uma ocasião quem se encontrou com ele foi a própria Carol. Mesmo assim, tudo isso eram provas circunstanciais, né? A polícia não tinha encontrado o corpo da Paige, não tinha uma cena de crime definida, não tinha nada que ligasse ele diretamente ao desaparecimento dela. Sem essa ligação direta, não tinha como formalizar uma acusação contra o Lester. Segundo a imprensa, cerca de 8 homens foram interrogados formalmente pela polícia entre 2007 e 2014.

Cada um tinha que apresentar um álibi para aquela noite do dia 28, né, para polícia, dizendo exatamente onde eles estavam. E a polícia precisava verificar cada um desses álibis, o que em muitos casos demorava meses. Sem uma prova concreta e sem um corpo, a investigação foi ficando cada vez mais lenta. E o motivo não era só a falta das pistas, era tratamento jurídico também. Segundo o promotor Dan Rubenstein, enquanto eles não encontrassem o corpo da Paige, a promotoria simplesmente não tinha como avançar com uma acusação de homicídio.

O pai da Paige nunca parou de pressionar as autoridades, muito incomodado com essa sensação de que o caso tava ficando estagnado. Os jornalistas que acompanhavam o caso descreviam a mesma coisa, essa sensação de que o ritmo foi ficando cada vez mais lento, que uma investigação que eles acreditavam que seria super rápida começou a durar semanas, meses, de repente virando anos, enquanto a promotoria e o gabinete do xerife não divulgavam as informações que eles obtinham.

Então eles não sabiam, né, a imprensa não sabia, o Frank também não, se de fato a investigação estava andando ou não. Um caso que começou como um desaparecimento com uma cobertura muito grande da mídia, a polícia trabalhando em peso no caso, foi aos poucos mudando e esfriando. Então parecia que o caso não estava encerrado, mas para quem via de fora parecia que não tinha nenhum desenvolvimento ali acontecendo. Enquanto isso, os filhos da Paige cresciam morando com parentes próximos e os pais da Paige simplesmente não desistiam.

Eles queriam uma resposta, né? Os filhos dela também não tinham uma resposta definitiva do que realmente aconteceu com a mãe deles. Então os pais da Paige continuavam ligando para os investigadores cobrando uma resposta, uma atualização, mesmo quando não tinha nenhuma. Essa espera era a pior parte, porque nesse Nesse ponto, né, depois começou a passar muito tempo, eles já acreditavam que a Paige estava morta, mas eles não tinham essa confirmação.

Então eles ficavam ali aguardando para que tivesse alguma atualização, que não chegava. Inclusive, essa espera por respostas duraria quase 7 anos, até que em 6 de março de 2012, um grupo em caminhada encontrou ossadas humanas num leito seco de riacho na área de Wells Gulch, perto da Rodovia 50, no condado de Delta, a cerca de 48 km a sudeste de Grand Junction. Essa área já tinha sido vasculhada pelas equipes de busca em sem nada ser encontrado.

Um lembrete de como o terreno acidentado ali podia esconder vestígios por anos, mesmo perto de rodovias movimentadas. Os exames confirmaram que os restos eram da Paige. No local, a perícia achou fragmentos de fita adesiva, o que levou os investigadores a concluírem que ela tinha sido sequestrada e assassinada, e não uma vítima de fuga ou acidente. A causa exata da morte não pôde ser determinada, dado o estado avançado de decomposição.

Um ponto que a defesa exploraria anos depois no julgamento. A notícia reacendeu a dor da família, que tinha vivido entre a esperança de achar a Paige viva o medo de nunca encontrar. O Frank descreveria depois um sentimento difícil de explicar. Por mais que ele quisesse encontrar a filha, uma parte dele torcia para que a busca nunca chegasse a esse tipo de fim. Quando confirmaram que os cestos eram dela, ele disse que a lembrança que ele guardaria da filha era de um sorriso tão radiante que, segundo o próprio obituário da família, parecia fazer inveja ao sol.

A família organizou uma despedida em Grand Junction, reunindo parentes, amigos e gente da comunidade que tinha ajudado nas buscas. No obituário, a Paige foi lembrada como uma mãe presente, uma mulher de energia contagiante, sem menção às circunstâncias da morte ou investigação. Só a lembrança de quem ela foi para os filhos, para os pais, para o irmão e para as amizades que ela construiu. Mais de um ano depois dos restos da Paige serem encontrados, no dia 12 de setembro de 2013, o gabinete do xerife do condado de Mesa formalmente levou o caso para uma equipe de revisão de casos frios do Colorado Bureau of Investigation, um time reunindo especialistas em homicídio de agências federais, estaduais e locais.

Foi esse grupo que passou os 2 anos seguintes revisitando prova por prova entrevistas e registros telefônicos acumulados desde 2007. O trabalho incluiu uma Uma nova análise de torres de celular, uma releitura de entrevistas de 2007 e 2008 com clientes da Paige e a comparação da movimentação desses homens naquela noite com o trajeto do carro incendiado. Um detetive reconheceria que investigadores em 2007 tinham lidado mal com parte das evidências, itens sem registro formal guardados numa sala qualquer. 7 anos depois, eles dependiam de registros que já existiam desde o início, só que na época, sem corpo e sem cena do crime, não tinham peso suficiente para virar acusação.

Mas agora tinham. Nos anos em que o caso seguiu parado, em que o corpo não tinha sido encontrado, o Lester seguia a vida dele normalmente. Até 2011, ele continuou ligando para serviços de acompanhantes, isso 4 anos depois do desaparecimento da Paige. Então, claramente, ele continuava a vida dele igual antes do desaparecimento dela, né, com os mesmos hábitos. Até que em 2014, pouco antes da Ação de Graças, quando ele tinha 63 anos de idade, ele foi preso e formalmente indiciado por sequestro, homicídio em primeiro grau e incêndio criminoso.

Tudo isso com base em um relatório de investigação policial que tinha 46 páginas. O Lester trabalhava para uma transportadora, inclusive no dia que ele foi preso ele tinha voltado de uma dessas viagens a trabalho. E quando foi anunciado a prisão para ele, ele não reagiu de forma alguma e não fez nenhuma pergunta. Uma fiança de 2 milhões de dólares foi fixada para ele. A prisão dele reacendeu o interesse da imprensa no caso, né, que no começo foi muito grande, depois eles foram parando de falar, mas agora eles voltavam a falar sobre o caso e sobre né, esse homem que levava uma vida normal, que era um homem discreto, que tinha um mesmo emprego já há muitos anos, tinha um histórico criminal de décadas atrás de violência contra a própria ex-mulher.

E agora, depois dessa investigação que foi feita, né, no Monroe, que eu falei para vocês, já citei o Monroe Investigation do Colorado em outros casos, que eles pegam uma investigação como eu expliquei e todo o material é reinvestigado por eles, eles analisam tudo. E assim eles escreveram aquele relatório relatório, né, depois de terminar a investigação, que ali tinha provas suficientes para conseguir, né, fazer essa acusação contra o Lester.

Era um documento que envolvia 7 anos de investigação, que mostrava ali uma lista dos suspeitos, que mostrava ali uma eliminação de cada um deles, do porquê que eles não eram mais considerados suspeitos, até a análise mais recente do caso, que era de prova canina e de geolocalização, que segundo a promotoria era a prova mais forte contra o Lester. O julgamento do Lester começou em julho de 2016, quase 9 anos depois do desaparecimento da Paige.

A acusação apresentou como prova central do caso os registros telefônicos do Lester pra Paige e o resultado da perícia de cães farejadores, os mesmos que teriam identificado o cheiro do Lester dentro do carro incendiado da Paige. Já a defesa dele concentrou seus esforços em tentar dizer que essas provas que eles tinham eram muito fracas, que não dava pra confiar 100% nessa prova canina, né, dos cães farejadores que tinham do cheiro dele no carro.

Eles tentavam apontar falhas no manuseio das provas conforme os anos foram passando e outras pessoas iam, né, investigando o caso, incluindo o relato de que algumas provas tinham ficado durante um tempo sem um registro formal adequado. Depois de dias de deliberação, o júri não conseguiu chegar a um veredito unânime. A votação terminou dividida entre 6 contra 3, então o julgamento precisou ser anulado. Para acusação, essa divisão ali do júri tinha uma ligação direta com a imagem que foi feita da Paige depois que descobriram que ela levava essa vida secreta.

A promotoria acredita que esse foi um fator que pesou para o júri, mesmo sem relação nenhuma com a autoria do crime. Esse resultado foi muito difícil para a família da Paige, que já tava aguardando, né, um fechamento para o caso há 9 anos, e agora eles tinham esse julgamento anulado. Mas a promotoria rapidamente disse que a intenção deles era de um novo julgamento para o Lester. Então a data do segundo julgamento ficou para o fim de 2016.

Para esse segundo julgamento, a promotoria decidiu mudar um pouco a forma como eles falariam sobre o caso. Então eles decidiram focar totalmente na linha do tempo e exatamente nos fatos que aconteceram ali no dia que a Paige desapareceu e depois, do que ficar focando na vida pessoal dela e falando sobre o casamento, sobre a vida dupla, enfim, né, sobre o trabalho como acompanhante. O foco deles era mostrar as ligações, as câmeras de segurança, a movimentação do veículo, e não a vida pessoal da vítima.

E a escolha do júri também mudou. Eles perguntavam diretamente para os candidatos a júri se eles tinham algum preconceito ligado a trabalho sexual e que isso poderia influenciar, né, no caso. Porque os jurados precisariam julgar com base nas provas apresentadas no julgamento e não sobre uma opinião pessoal sobre a forma como a Paige ganhava a vida. O julgamento começa no dia 21 de novembro e a promotoria leva entre as testemunhas a Jess, a filha mais velha da Paige, agora com 17 anos, que descreveu a mãe como uma mãe dedicada, que cuidava dos filhos, que levava os filhos para cima e para baixo, nos treinos, na escola, que cuidava muito bem deles, que deixava todos os filhos dormir na cama com ela.

A acusação reforçava a linha do tempo mostrando registros telefônicos e imagens de câmera de segurança que, segundo os promotores, situavam o Lester em pontos-chave da cidade naquele dia quando ela desapareceu. Enquanto a defesa focava na mesma coisa, dizer que não tinha nenhuma prova física que realmente ligasse o Lester ao crime e dizer que tinham outros suspeitos que poderiam ser, na verdade, o verdadeiro culpado. A promotoria trabalhou pra blindar o júri do que tinha comprometido o primeiro julgamento.

O risco de julgarem moralmente a forma como a Paige ganhava a vida, ao invés de olhar só pras provas. O único momento em que o clima esquentou foi quando a Carol, ao ser chamada pra testemunhar, chamou o Lester de assassino ao passar por ele no tribunal. A juíza considerou desacato e aplicou 24 horas de serviço comunitário depois que ela se desculpou. Como os jurados disseram não ter ouvido, o julgamento seguiu. Depois de 3 dias de deliberação, interrompidos pelo feriado de Natal, Os 12 jurados chegaram a um veredito unânime.

O conjunto de provas, mesmo majoritariamente circunstancial, era suficiente pra eliminar uma dúvida razoável. No dia 27 de dezembro de 2016, o Lester foi considerado culpado de homicídio doloso em primeiro grau, homicídio decorrente de outro crime, homicídio em segundo grau e sequestro em segundo grau. A acusação e a defesa concordaram e iram direto pra sentença, sem audiência posterior. A juíza condenou o Lester à prisão perpétua sem condicional pelo homicídio, que é a pena máxima do Colorado pro crime, mais 12 anos pelo sequestro.

O valor da restituição pra família da Paige seria definido depois. O xerife Matt Lewis, que tinha assumido o caso em 2014, reconheceu em nota que a decisão não traria Paige de volta, mas expressou satisfação por ver o caso resolvido depois de quase uma década. O Lester recorreu à decisão. Ele sustentava que não havia prova física direta ligando ele ao crime. Em julho de 2023, o Tribunal de Apelações do Colorado anulou uma parte específica da condenação, uma questão técnica sobre sobreposição entre categorias diferentes de acusação de homicídio sem relação com culpa ou inocência, mas manteve integralmente a pena de prisão perpétua sem condicional.

Ou seja, não teve nenhum nenhum efeito prático sobre o tempo dele preso. Ainda assim, a defesa fez com que isso virasse notícia, como uma vitória simbólica parcial pra eles. Com 71 anos na época, o Lester seguiu preso sem qualquer perspectiva de condicional. Mesmo com a prisão dele, tem alguns pontos do caso que nunca foram totalmente esclarecidos. A causa exata da morte da Paige, por exemplo, segue sem determinação precisa. O motivo das 4 páginas arrancadas da agenda também é algo que nunca foi explicado, nem se tinha uma relação direta com a pessoa que sequestrou ela ou não.

A razão dos pertences espalhados por um trecho tão extenso da Rodovia 50 também nunca teve explicação definitiva. E fica em aberto quantos outros clientes do serviço nunca chegaram a ser identificados na investigação de 2007. Um número que, segundo estimativas policiais, pode ter sido bem maior que o pequeno grupo interrogado. Depois da resolução do caso, o gabinete do xerife do condado de Mesa passou a citar o processo da Paige como referência para o treinamento de novos investigadores designados pra unidade de casos arquivados.

Especialmente no que diz respeito à importância de documentar e catalogar evidências de forma rigorosa desde o primeiro dia de uma investigação. O Lester continua cumprindo pena e ele segue contestando judicialmente aspectos da condenação, embora nenhum recurso até agora tenha mudado a sentença. Os filhos da Paige, que na época eram todos crianças, né, a Jessica era a mais velha, tinha só 8 anos. No dia que a mãe não voltou para casa, ela deixou vários recados na caixa postal dela pedindo para que ela voltasse.

Nos dias seguintes ao desaparecimento da Paige, o irmão dela chamado Craig, que é um cirurgião plástico em Seattle, se mudou com a família dele para dentro da casa da Paige em Grand Junction para cuidar dos sobrinhos sem precisar arrancá-los da rotina. A esposa dele, chamada Kelly, contaria depois de um momento difícil naquele período. A Jess perguntando se ela sabia o que tinha acontecido com a sua mãe e ela sem saber o que responder.

Passado esse período inicial, os três acabaram indo morar com o pai deles, com o Rob, que já vivia na Costa Leste. Essa mudança foi confirmada por mais de uma fonte, embora sem detalhe oficial de quando exatamente isso aconteceu. As crianças cresceram protegidas na medida do possível da cobertura mais pesada do caso, especialmente da parte sobre a vida dupla da mãe. Hoje, os três, que já são adultos, evitam deliberadamente qualquer exposição pública.

A casa onde a Paige criou os filhos mudou de mãos ao longo dos anos e os moradores mais antigos do bairro ainda associam o endereço à história, mesmo depois de quase 20 anos. O caso recebeu muita cobertura da mídia. Em 2008, antes mesmo do corpo da Paige ser encontrado, o 48 Hours da CBS dedicou um episódio inteiro ao caso. Durante os anos, o interesse só cresceu. O pai da Paige, o Frank, que foi uma das pessoas que mais pressionava a investigação do caso e que falou sobre o caso muitas vezes com a imprensa, não viveu pra ver o fim de todo o processo.

Ele morreu em dezembro de de 2019, aos 76 anos, durante a recuperação de um procedimento médico. 4 anos depois de ouvir o veredito de culpado contra Lester. Mas antes da apelação final de 2023. No julgamento de 2016, enquanto a Suzy descrevia em detalhes a dor de perder a sua filha, o Frank fez questão de corrigir o tempo verbal de quem falava dela no passado. Ele insistiu que a filha dele sempre seria a Paige, que ela nunca foi a Paige.

Então, a Suzy, né, a mãe da Paige, segue viva hoje, morando de forma discreta no Colorado. Quero muito saber a opinião de vocês sobre esse caso. Então me conta aqui nos comentários. Esse caso encerra essa Semana Misteriosa de comemoração aos 4 milhões. Então é óbvio que eu quero muito saber a opinião de vocês. Se vocês gostaram, me conta aqui nos comentários. Não esquece do like, me ajuda muito na divulgação do vídeo. Então é isso.

Pra mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa. E aproveita pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.

ELA LEVAVA UMA VIDA DUPLA... ATÉ DESAPARECER | Caso Paige Birgfeld #622 | Castnews Index — Castnews Index