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O CASO TIKTOK: A PERSEGUIÇÃO NA A46 | Caso Bukhari #621

27 de agosto de 202630min
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Uma influenciadora do TikTok com mais de 160 mil seguidores. A mãe dela, que mantinha há três anos um caso extraconjugal. E um rapaz de 21 anos, apaixonado, que se recusava a aceitar o fim. Na madrugada de um dia comum de fevereiro, essas três vidas colidiriam literalmente numa rodovia da Inglaterra.#621

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JGJaqueline Guerreiro

Oi, bonitas e bonitos. Tudo bom com vocês? Eu sou a Jaqueline Guerreiro e esse é o podcast Quinta Misteriosa. Aqui eu posto novos casos toda segunda e toda quinta. Aproveita pra me acompanhar nas redes sociais pra conteúdo extra de séries, filmes, livros e, é claro, true crime. E agora, bora começar o caso de hoje. Saqib Hussain nasceu em 2001 e cresceu em Banbury, a maior cidade do condado de Oxfordshire, no sul da Inglaterra.

Uma cidade histórica de mercado, com cerca de 60 mil habitantes, a pouco mais de 100 km a noroeste de Londres. Cerca de 1 hora de trem até a estação de Marylebone, na capital. Banbury tem uma comunidade muçulmana estabelecida havia décadas, com uma mesquita própria na cidade. Pouco se sabe publicamente sobre os pais de Saqib ou a sua criação. A pessoa mais próxima dele, ao que tudo indica, era sua irmã Sana. Os dois cresciam compartilhando praticamente tudo um com o outro.

O Saqib também tinha um melhor amigo de infância chamado Mohammed Hashim e Jaziruddin, também de Banbury e da mesma idade. Os dois cresceram juntos, foram colegas de escola, uma amizade em que um topa levar o outro de carro até outra cidade de madrugada sem fazer muitas perguntas. Do outro lado da história, nesse caso, a gente tem a Azraen Bukhari, uma mulher 25 anos mais velha que o Saqib. Ela era casada e morava em Stoke-on-Trent, cidade no centro-norte da Inglaterra, no condado de Staffordshire, mais próxima de Manchester e Birmingham do que de Londres.

Azraen tinha nascido no Paquistão e se mudado pro Reino Unido ainda bebê. Quando jovem, sonhava em ser comissária de bordo, mas os próprios pais a impediram de cursar faculdade. Então, ela se casa com um homem chamado Ali Raza. E as fontes divergem sobre a profissão dele. Em coberturas mais recentes, aparece como empresário, dono de um lava rápido e de uma lanchonete. Em outras publicações mais antigas, ele aparece como motorista de táxi.

De qualquer forma, eles tiveram dois filhos juntos. A Mahrek, a mais velha, e um menino mais novo. A Mahrek nasceu em 1999, em Nova York, nos Estados Unidos. As fontes não explicam o motivo dela nascer lá, já que os pais eram britânicos de origem paquistanesa. O que se sabe é que a família voltou pra Strook-on-Trent quando ela era pequena e foi lá que ela cresceu. Mãe e filha eram próximas, extremamente próximas. A julgar pelo que a própria Marrek mostrava ao mundo.

Desde 2017, ela vinha construindo uma carreira online sob o nome artístico MayBee. Ela postava conteúdo de maquiagem, moda e estilo de vida no YouTube e no TikTok, com parcerias pagas com marcas de roupa pequenas e médias. Ela estudou moda na Manchester Metropolitan University, mas largou o curso pra se dedicar à carreira digital em tempo integral. A família, segundo relatos posteriores, via aquilo com reservas. Mas ela seguiu em frente mesmo assim.

E construiu, ao longo dos anos seguintes, mais ou menos 160 mil seguidores. A Anne's Rain frequentemente aparecia nos vídeos da filha, dançando junto e participando ali do dia a dia em casa. Um dos vídeos mais lembrados pela imprensa britânica é um que tinha o título Tendo um relacionamento de elite com a sua mãe. O que elas mostravam ali na internet era uma proximidade que não era só pessoal, né. Fazia parte do próprio conteúdo que ela vendia pros seguidores.

Essa imagem de uma família super unida, quase inseparável. Então, agora a gente vai pra 2019, que foi o ano em que a Andreen conheceu o Saqib. Eles se conheceram por um aplicativo de bate-papo em vídeo. E aí, ele na época tinha 18 anos, mas ele mentiu pra ela que ele tinha 27. Já a Andreen tinha 43. Então, eles começam a conversar, trocam números de telefone e assim, eles começam a se falar basicamente todos os dias. E ela conta que ela ficou muito lisonjeada por alguém mais jovem ter ficado interessado nela.

E aí, essas conversas acabaram evoluindo até que os dois começam um relacionamento. E eles se encontravam em diversos lugares diferentes, entre Londres e Birmingham. Então, eles se viam em hotéis, restaurantes, casas de narguile. O primeiro encontro deles foi em um hotel, quando ele tinha 19 anos. E foi justamente no aniversário dele, nesse dia. E aí, esse relacionamento se estenderia ali por... 3 anos. Na época, o Saqib trabalhava em uma padaria.

E aí, ele gastava as próprias economias com ela. Então variava entre presentes e pedidos de comida online, roupas. Tem uma fonte que fala até que ele comprou um sapato da Dior pra ela e que ele gastou cerca de 2 a 3 mil libras com ela. Pra quem conhecia o Saqib, pra quem ele falava sobre esse relacionamento, não era um relacionamento qualquer, não era um caso pra ele. Ele tava completamente apaixonado. Ele falava dela o tempo todo e ele dava um de ver ela sempre que ele podia.

Pra ele, realmente era amor de verdade. Então, ele relatava tudo pra irmã dele. Como eu falei pra vocês, eles eram muito próximos. Então, a Sanna sabia de tudo, desde o início. Desde as conversas até o início desse relacionamento deles. E ela sabia dos altos e baixos também, porque os dois viviam terminando e voltando. Já do lado da Hansreen, era um segredo do marido e dos filhos. Só que a filha mais velha dela descobriu em 2021.

Mas a mãe dela já tava tendo esse caso há 2 anos. Segundo o relato da própria, Aunz Reen, ela que contou para filha dizendo que ela tava tendo um caso extraconjugal, mas que era apenas sexual, que não tinha nenhum tipo de sentimento envolvido. E aí a filha dela ficou furiosa e não conseguia acreditar no que ela tava ouvindo. Aunz Reen contaria depois que nem todos os encontros que ela tinha com o Saqib eram por vontade própria.

Então ela falou sobre um encontro específico que aconteceu em 2021 no hotel em Londres. Ela disse que nesse dia os dois tiveram relações, mas que ela não queria. Só que ela também não disse que ela foi forçada. Segundo ela, o medo de perder a família e a própria reputação dela em jogo era o que mantinha ela naquela relação, mesmo quando ela já não queria mais. E aí, no final de 2021, o Saqib deu um ultimato pra ela, dizendo que ela precisava escolher, era ele ou o marido dela.

E ela escolheu o marido e colocou um fim na relação. Não tem como ter certeza se a Amsreen contou pra filha dela sobre o relacionamento extraconjugal antes dele terminar ou depois, mas fato é que ela escolheu terminar de vez e O Saqib não conseguiu aceitar o término, ele não queria aceitar de jeito nenhum que ela não tinha escolhido ele. Segundo a irmã dele, a Sana, ele ficou arrasado, chorou muito. E ele achava que ele seria a escolha dela.

Então, ela termina com ele no final de 2021. E no início de 2022, as coisas começam a mudar. Porque todo aquele afeto, aquele amor que ele sentia começa meio que a virar uma coisa que ele usaria contra ela. Como eles ficaram 3 anos juntos, ele tinha muita coisa. Ele tinha fotos, vídeos, mensagens, todo tipo de prova, né, ameaçar a Anne's Rain, dizendo que contaria pro marido dela e pro filho, que eram os dois que não sabiam, né.

A filha mais velha era a única que sabia. E ele fazia essas ameaças pedindo que ela devolvesse pra ele todo o valor que ele tinha gastado com ela em 3 anos. Então, cerca de 3 mil euros. Numa mensagem, ele chegou a dizer que ele poderia acabar com o casamento dela e a reputação dela em um estalar de dedos. E ela chegou até a começar a chamar ele de psicótico. Segundo um levantamento telefônico que seria feito depois, entre agosto de 2021 e fevereiro de 2022, o Saqib tinha entrado em contato com a Aunzrin por mensagens e ligações 1.702 vezes.

Enquanto ela tinha retornado pra ele 214 vezes. Segundo a promotoria, o conteúdo das mensagens e ligações era frustração e raiva que ele sentia justamente por ela não estar correspondendo ele da forma como ele queria, não estar ligando de volta, respondendo as mensagens. Assim que a filha mais velha da Monroi, a Mahek, ficou sabendo das ameaças, ela disse pra mãe dela não se preocupar, que ela daria um jeito na situação, independente do que fosse, como fosse, ela daria um jeito.

E ela falou isso por uma mensagem de texto que ela trocou com a mãe. No dia 4 de janeiro, ela enviou uma outra mensagem pra mãe dizendo que ela arranjaria gente pra dar um jeito no Saqib. Foi essa frase que a promotoria usaria mais tarde como uma das peças centrais da acusação contra ela. Quando o Saqib tentou usar a própria Marrec a seu favor, né, pra ajudar ele na situação, pedindo pra que ela falasse com a mãe dela pra que a mãe voltasse a responder as mensagens dele, a forma como ela respondeu foi bem agressiva, inclusive repreendendo ele por ter levantado a voz com a mãe dela.

Então, só pra vocês entenderem, foi a partir desse momento que a Marrec começa a assumir toda essa negociação com o Saqib, trocando mensagens com ele, combinando como ela devolveria o dinheiro que ele tava pedindo. Com o tempo, o Saqib começou a pressionar cada vez mais as duas, porque ele queria que elas devolvessem o dinheiro. E aí, ele começou a ameaçar dizendo que se elas não devolvessem logo, ele apareceria na casa da família.

Então, nesse ponto, as ameaças, que eram um tipo de constrangimento pras duas, se transformam em algo pessoal, que elas trataram como um risco à própria família. Ainda naquele mês, a Mahek chegou a mandar pra ele uma mensagem em tom sombrio, dizendo lamentar que até o fim daquele ano ele não estaria mais por ali. Essa frase que o próprio promotor destacaria depois em tribunal como algo que ganharia peso diante do que aconteceria semanas mais tarde.

Segundo a promotoria, ela tinha um plano em mente e no dia 8 de fevereiro ela começou a executá-lo. A Mahak trouxe a primeira pessoa de fora da família para ajudá-la nessa situação, que era um conhecido chamado Hekan Karwan, inicialmente recrutado só para ajudar a negociar o valor em dinheiro com o Saqib. Foi esse primeiro passo de uma articulação que nos dias seguintes cresceria para incluir mais 6 pessoas. No dia 11 de fevereiro, o plano da Unsrin e da Mahrek era simples.

Elas iriam se encontrar com o Saqib no estacionamento de um supermercado Tesco, em Leicester, sob o pretexto de devolver o dinheiro que ele cobrava. E no processo, recuperar o celular dele, onde estavam guardadas as fotos e vídeos comprometedores. O Saqib pediu pro melhor amigo dele, o Mohamed, que levasse ele de Banbury até Leicester naquela noite. E riu quando outros amigos dos dois chegaram a comentar se aquele encontro não seria uma armadilha.

Ao chegar lá no estacionamento, o Saqib imediatamente notou que algo parecia errado. Câmeras de segurança mostraram depois o carro dos dois rapazes chegando, um Skoda Fabia, entrando no estacionamento e saindo poucos minutos depois, sem que nenhum dos dois descesse do veículo. Foi então que outros dois carros, um Audi TT com a Mahrek e a sua mãe, a Nusrin, dentro. E um Citroën Leon com outras pessoas do grupo que acabou se formando ao longo daquelas semanas, começaram a perseguir o carro do Saqib pela rodovia A46.

Dados de telemetria do Audi indicariam depois velocidades próximas a 160 km/h durante a perseguição. Dentro do carro já em movimento, o Saqib ligou pro serviço de emergência. Ele disse que homens usando balaclavos o perseguiam, tentando bater o carro dele pra fora da pista. E que ele achava que ia morrer. Segundos depois, ainda em ligação, veio um grito. O carro dele saiu da pista, bateu numa árvore no cruzamento conhecido localmente como Six Hills e pegou fogo.

O Saqib e o Mohamed morreram ali mesmo, na madrugada de 11 de fevereiro de 2022, pouco depois da meia-noite. A identificação dos corpos só foi possível através de registros odontológicos. O trabalho policial nesse caso foi muito rápido e quase cirúrgico. A polícia de Leicestershire usou o sistema de reconhecimento automático de placas, que é basicamente uma rede de câmeras espalhadas por rodovias e pontos fixos que fotografa cada veículo que passa e cruza aquela placa automaticamente com o banco de dados dos policiais.

Então, foi assim, a partir das imagens do estacionamento, que já tinha captado o Saqib e o Mohamed entrando e saindo, que os investigadores conseguiram rastrear os outros 2 carros que passaram pelo mesmo local minutos depois. Em poucas horas, eles sabiam a quem pertenciam os dois veículos. E cerca de 8 horas depois do acidente, câmeras corporais já registravam os policiais chegando à casa da Ansreen, em Stoke-on-Trent. No mesmo momento, a Natasha Akhtar, que é dona do Citroën Leon, o outro carro, foi presa no caminho de volta pra sua casa em Birmingham.

Os dois endereços, tanto o da Natasha quanto o da Ansreen, foram abordados quase que simultaneamente. A mais de 60 km um do outro. Enquanto o irmão mais novo da Marrec, que inclusive não fazia ideia de nada dessa história, ele não tava envolvido de forma nenhuma. Ele que atende a porta quando a polícia chega. E ele não sabia do que se tratava aquilo, por que os policiais estavam ali fazendo aquelas perguntas. Mas ele começa a responder da melhor forma que ele pode.

Os policiais estavam perguntando sobre a mãe dele, sobre o carro da mãe dele. E aí, ela aproveita, a Marrec aproveita que o irmão tinha atendido a porta e ela se afasta pra fazer uma ligação. Ela liga para o Raze Jamal e essa ligação dos dois dura exatamente 14 minutos. Segundo a promotoria, foi nessa ligação que os dois começaram a alinhar uma história, uma versão do que teria acontecido para conseguir enganar a polícia, depois que a Marrake soube, eles não sabem como, que a Natasha já tinha sido presa.

Essa primeira abordagem da polícia na casa da família, quando eles conversam com a Marrake, ela mente dizendo que ela e a mãe dela tinham passado a noite anterior em Nottingham. Os carros foram apreendidos nesse momento e a perícia dos carros ia exatamente contra o que ela tinha acabado de dizer pra polícia. No Citroën, a polícia conseguiu ver várias marcas de colisão, que era exatamente o que eles estavam procurando, né, o carro que bateu no carro do Saqib, causando todo o acidente.

E ali tinham essas marcas, que era uma prova física pra eles, né. Então ali eles já sabiam que com certeza aquele carro não estava em Nottingham. Tanto dentro do Citroën e do Audi, a polícia encontrou algumas coisas que eles achavam que estavam ali propositalmente. Tinha uma chave de roda e uma ferramenta de metal curva. Os investigadores acreditavam que não tava ali por acaso, que eles usariam aquelas ferramentas para fazer alguma coisa contra os dois, provavelmente no momento do estacionamento, algo assim.

Já que eles não desceram do carro, eles acabaram não usando, mas estavam dentro dos veículos. No dia 12 de fevereiro, por volta das 4:15 da tarde, a Aung San Suu Kyi e a sua filha foram interrogadas separadamente. Enquanto a Marrek manteve a sua versão de inocência, de não estar envolvida em nada disso, a mãe dela simplesmente respondia a todas as perguntas sem comentários. Não foi a confissão de ninguém envolvido que mostrou o motivo real por trás do crime, e sim as evidências, que eram muitas e que a polícia, os investigadores conseguiram muito rápido. 5 dos 8 suspeitos foram presos ainda em fevereiro, logo nos primeiros dias depois do acidente, enquanto os outros 3 que faltavam foram presos no mês seguinte.

Eram muitas pessoas envolvidas e a polícia precisava entender exatamente qual era a participação de cada uma delas no crime. Vasculhando a vida da Aunzrin e da Mahak, eles foram montando esse quebra-cabeça aos poucos. O que mais ajudou a polícia a conseguir entender tudo isso foi o histórico de comunicação entre todas as pessoas envolvidas, todas as conversas. Foi assim que eles descobriram como a Aunzrin e o Saqib se conheceram, como o relacionamento começou, quando ela decidiu contar pra filha.

Também viram as ameaças que ele começou a fazer de... Divulgar as fotos e vídeos e tal, e acabar com a família dela. Viram as ameaças bem graves que a Mahrek mandou pro Saqib, né, que eu já falei pra vocês. E assim, eles conseguiram ir montando tudo, eles foram vendo como elas começaram a colocar cada uma daquelas pessoas nesse esquema que elas montaram, e assim tudo foi fazendo sentido. Por exemplo, no meio de todas essas informações, a polícia viu que tinham dois números que apareciam muito ali nas ligações, que eram pro Jamal e pro Hakan.

Os dados de localização dos celulares deles colocavam eles justamente no local onde o acidente aconteceu, no momento em que o acidente aconteceu. Então, essa era uma prova mais que suficiente para que eles conseguissem realizar a prisão deles. Ao ser interrogada, segundo um dos investigadores, a Mahek não demonstrou quase remorso algum. Os 8 réus levados a julgamento eram a Aansreen, a sua filha Mahek, as duas que moravam em Stoke-on-Trent, aí tinha o Hekam, que é de Leicester, Um dos dois motoristas recrutados, que era o Jamal, de Lowborough.

O outro motorista, o Mohammed Patel, que era de Leicester. A Natasha, de Birmingham. O Sanaf, de Leicester. E o Amir, que é primo do Jamal, então ele também é de Leicester. As idades das pessoas envolvidas variavam entre 21 e 29 anos. Um grupo majoritariamente jovem, reunido por ligações de amizade e vizinhança em Leicester, não por qualquer histórico criminal em comum. A rapidez da resposta policial nesse caso contrastaria mais tarde com a lentidão do processo judicial que seguiria.

Entre a prisão dos 8 suspeitos e o veredito final, se passaram quase 19 meses. O primeiro julgamento começou em outubro de 2022. Mas em dezembro, o juiz dispensou o júri por conta do que ele descreveu como uma irregularidade interna do próprio júri, sem qualquer relação com a conduta dos réus ou das famílias das vítimas. Em 14 de dezembro, 6 dos 8 réus, a Marek, a Amsreen e a Natasha, o Mohammed Patel, o Amir e o Sanaf foram soltos sob condição de retornar quando o novo julgamento começasse.

Já o Hakan e o Jamal, os dois motoristas que efetivamente perseguiram o carro do Saqib, permaneceram presos. O julgamento inteiro precisou ser refeito do zero, com um júri novo marcado para abril do ano seguinte, 2023. Nesse julgamento, ficou estabelecido quem estava em cada um dos dois carros. Então, no Audi, iam o Hakan no volante, além da Mahak e da Aung Zin, que estavam no banco do passageiro, e o Mohammed também estava lá.

Já no outro carro, no City Leon iam o Jamal dirigindo, a dona do carro, a Natasha, além do Sanaf e do Amir. O Mohammed Patel teve um papel específico durante a perseguição. Ele segurou o próprio celular erguido dentro do Audi, permitindo que o Hakan, o culpado dirigindo, conseguisse falar por telefone com o Jamal, que dirigia o outro carro. Segundo o relato dele, foi nessa ligação que o Jamal disse pro Hakan que talvez precisasse bater no carro das vítimas.

O Hakan concordou no mesmo instante. A Alans Rink, que estava sentada ao lado do Rekan naquele momento, negou que qualquer palavra nesse sentido tivesse sido dita dentro do carro. O Rekan, por sua vez, foi acusado pela promotoria de ter limpado o interior do próprio veículo depois do crime, numa tentativa de remover vestígios de DNA, acusação que ele negou. O Jamal reconheceu em depoimento ter havido contato entre os carros na pista, mas negou qualquer intenção de causar mal ao Saqib.

Ele disse que seguiu com a perseguição porque estava tentando impedir que a chantagem continuasse. Um detalhe que chamou atenção durante os depoimentos foi que o Hakan afirmou ter sido informado por Mahrek de que era ela e não a sua mãe quem estava sendo chantageada com fotos falsas. Ou seja, pelo menos um dos réus recrutados para a ação nunca soube a verdadeira história por trás do plano, a de que na verdade não era a Mahrek que estava sendo ameaçada e sim a sua mãe, que estava vivendo um caso extraconjugal.

Foi o Hakan quem, a pedido da Mahrek, entrou em contato direto com o Saqib para negociar, chegando a se oferecer para facilitar o pagamento das 3.000 libras. Tanto a Mahrek quanto a Aung Sri tentaram, em momentos diferentes do processo, atribuir a responsabilidade pela perseguição ao comportamento do próprio carro das vítimas. A Aung Sri, inclusive, fez isso sob juramento, em depoimento direto no tribunal, durante o segundo julgamento, em maio de 2023.

Ela disse ter passado o trajeto com a cabeça baixa, descrevendo que o carro do Saqib, que ela chamou de carro prateado, como o veículo que estaria perturbando o carro que ela estava, e não o contrário. Já a Mahrek, por sua vez, deu essa versão num momento anterior. Numa entrevista à polícia, logo depois da prisão, ainda em fevereiro de 2022, e não sob juramento, mas em uma gravação registrada. Ela alegou que estava a caminho de Nottingham com a mãe e que foi desviada por obras na pista até Leicester, e que foi o próprio Skoda, o carro do Saqib, quem passou a persegui-la e a assediar o carro dela ao longo da A46, né, da rodovia.

Essa gravação foi exibida ao júri no primeiro julgamento, não como prova do que de fato aconteceu, mas como prova das mentiras que a Marek contava pra polícia. Ela mesma reconheceria isso depois, já sob juramento no segundo julgamento, admitindo ter contado à polícia uma série de mentiras. Embora tenha insistido, mesmo assim, que nunca teve intenção de causar mal ao Saqib. A Mahrek chegou a descrever o Saqib em uma das entrevistas policiais exibidas ao júri como um mentiroso psicótico capaz de manipular qualquer um.

A Aunty Raine, por sua vez, negou ter desejado a morte do Saqib, dizendo que ela só queria terminar a relação em bons termos com ele. A sua defesa tentou construir a narrativa de que ela era, ela mesma, vítima da situação, pressionada por um ex-parceiro obcecado e ameaçador. A promotoria rebateu argumentando que a resposta escolhida por Antrim e Marek de mobilizar 6 outras pessoas, 2 carros e uma perseguição em alta velocidade ia muito além de qualquer necessidade de autoproteção.

A promotoria também descreveu durante esse segundo julgamento a ligação de emergência que o Saqib fez como um momento-chave que revelou uma história de amor obsessão, extorsão e, por fim, assassinato a sangue frio. Aliás, foi justamente essa ligação que o Saqib fez pra emergência, dizendo que ele tava sendo perseguido, que foi o que convenceu a polícia, ainda nos primeiros minutos, de que aquilo não era um incidente de trânsito comum.

A Sana, que é a irmã do Saqib, deu um depoimento e contou em detalhes como tinha acontecido tudo. E ela disse que ela mesma tinha falado pro irmão não se envolver com uma mulher casada. Ela disse que chegou a conhecer a Ansreen uma vez, do lado de fora de um hotel. E relatou ter alertado o irmão que não era uma boa ideia ir dirigindo pra outra cidade pra receber esse dinheiro. Falando que ele tava se arriscando, que não parecia uma boa ideia e que poderiam fazer alguma coisa contra ele.

Ela disse que falou pra ele que alguém poderia estar esperando por ele pra agredi-lo no local. E aí, ela conta também que um dia antes da morte do Saqib, o pai dela, que também sabia da relação que ele tinha com uma mulher casada, pediu pra que a Sanna conversasse com o filho, porque ele já tava emburrado fazia 2 dias. A Sana contou que ela foi até o quarto do irmão para conversar com ele, que ele não quis conversa. Como eu falei para vocês, eles eram muito próximos, ele contava tudo para ela.

Só que nesse momento ele não queria conversar, então ela insistiu perguntando o que tinha acontecido, por que ele estava daquele jeito. E mais uma vez ele pediu para ela sair do quarto, que ele não queria conversa. E essa foi a última vez que os dois conversaram. O Ali Raza, que é o marido da Nasrin e pai da Mahak, escreveu uma declaração que foi lida no tribunal. Na declaração, ele dizia que ele não fazia ideia que a esposa tinha um caso extraconjugal e que ele só foi descobrir isso quando toda a história veio à tona.

O Mohammed Patel, que não é o Mohammed amigo do Saqib que tava no carro com ele, que faleceu no acidente. O Mohammed Patel, ele era uma das pessoas envolvidas na perseguição e era ele quem tava segurando o celular dentro do carro pra que eles pudessem se comunicar entre os dois carros que estavam perseguindo o Saqib. Ele foi o único absolvido de qualquer acusação no caso. O júri considerou a Mahrek e a sua mãe, Ansreen, culpadas de assassinato, assim como o Hakan e o Jamal, que eram os dois homens que dirigiam os carros.

Os outros três réus, que eram o Sanaf, o Amir, primo do Jamal, e a Natasha, foram considerados culpados de homicídio culposo. Na sentença, o juiz falou sobre a Mahrek ser uma pessoa completamente centrada em si mesma, com um senso de importância exagerado, e que parecia que ela estava alheia ao dano que ela que ela mesma causou. Ele observou ainda que se ela não tivesse largado a faculdade para virar TikToker, que ela provavelmente estaria com a sua vida inteira pela frente hoje.

Ele chamou o caso de um assassinato a sangue frio e citou uma frase que ficaria super conhecida nesse caso, a de que o TikTok e o Instagram estavam no centro de toda aquela situação. A Marek foi condenada à prisão perpétua com um mínimo de 31 anos e 8 meses antes de qualquer condicional. A sua mãe, Yasrin, recebeu pena similar em natureza, com mínimo de 26 anos e 9 meses. O Recanho e o Jamal foram condenados à prisão perpétua, o primeiro com uma pena de 26 anos e 10 meses e o segundo uma pena de 31 anos.

Vale uma explicação bem rápida aqui porque o sistema britânico funciona um pouco diferente. Lá, a prisão perpétua não significa necessariamente morrer na cadeia, significa que a pessoa fica sob sentença por tempo indeterminado, sem data de saída garantida. O que o juiz define na hora da sentença é um período mínimo obrigatório. Então esses anos que que eu citei é o que eles chamam de TRIED, que precisa ser cumprido antes que exista qualquer possibilidade de pedir a liberdade condicional.

Depois de cumprir esse mínimo de pena estabelecida pelo juiz, eles não vão ter uma soltura automática. Um conselho de condicional vai analisar o caso e decidir se a pessoa está apta a sair, podendo negar o pedido quantas vezes achar necessário. Já Sanaf e Amir foram sentenciados a 15 anos cada e a Natasha a 12 por homicídio culposo. Antes da sentença, as famílias das vítimas enviaram declarações do impacto. A família do Saqib disse estar marcada pra sempre, vivendo como pais a própria sentença perpétua por terem perdido o filho, que nunca vai conhecer os sobrinhos que ainda vão nascer e nem ver os irmãos se casarem.

E que passou 2 semanas num necrotério antes de poder voltar pra casa dentro de um caixão. Já os pais do Mohamed também se manifestaram sobre a perda do filho, um jovem que segundo eles cometeu um único erro de aceitar ajudar um amigo. E que ele pagou por isso com a própria vida. Diferente do Saqib, o Mohamed não tinha ligação direta nenhuma com o caso extraconjugal ou com o dinheiro que tava em disputa. Ele só tava ali porque ele topou levar o amigo até Leicester.

Já a Sanaa, irmã do Saqib, voltou a falar publicamente depois da sentença, descrevendo o vazio deixado na família e reforçando mais uma vez o quanto o irmão realmente se importava com o Anzrin. Esse era, segundo ela, um detalhe que pra família deles tornava a traição por trás do assassinato ainda mais difícil de aceitar. O Saqib não via a relação como um caso qualquer, ele via como algo sério. E ele foi morto justamente pela pessoa com quem ele tinha construído esse vínculo, né, ao longo de 3 anos.

Ao longo do julgamento, a Mahrek manteve uma postura confiante, trocava risadas com os outros réus nos intervalos e chegou a jogar Monopoly e Uno enquanto esperava o júri voltar com o veredito. Na hora da sentença, porém, a postura mudou. Chorou, visivelmente abalado, e mandou um beijo pro pai que tava presente na sala, dizendo que o amava. Em outubro de 2025, o Tribunal de Apelação analisou os recursos apresentados por Marrec e outros condenados no caso.

Após uma audiência que aconteceu no dia 17 de outubro, os juízes consideraram as penas originais desproporcionalmente altas, concluindo que o tribunal de primeira instância não tinha dado peso suficiente à juventude e imaturidade dos réus. E nem ao papel menor que alguns deles tiveram no crime. A pena da Marrec, então, foi reduzida de 31 anos e 8 meses pra 26 anos e 285 dias. A do Sanaf, do Amir e da Natasha também tiveram redução pequenas nas penas pelo mesmo motivo.

Os 3 condenados por homicídio culposo tentaram à parte contestar as próprias condenações, não só as penas, mas o veredito de culpa em si. Só que esse recurso foi negado. Quase um ano depois da redução concedida a Mahrek, em julho de 2026, a Anzuin tentou o mesmo caminho. Seus advogados argumentaram que a pena dela era manifestamente excessiva e pediram revisão ao Tribunal de Apelação. Dessa vez, o pedido foi negado. 3 juízes rejeitaram o recurso, mantendo a pena original, da Ms.

Reen. Hoje, ela e sua filha, Mahek, seguem cumprindo suas penas de prisão perpétua. O presídio onde elas cumprem pena não é divulgado publicamente. Essa é uma política padrão do Reino Unido pra presos de alto perfil. Já o Ali Raza, marido da Ms. Reen, não tem nenhuma confirmação pública se ele e ela seguem casados depois de tudo que aconteceu. E o filho mais novo do casal segue completamente fora do noticiário. Ele segue vivendo em Stoke-on-Trent e não deu entrevistas públicas relevantes sobre o processo, mantendo a mesma discrição que ele teve durante o julgamento.

O caso, batizado pela imprensa britânica de TikTok Murder, ganhou repercussão internacional, incluindo aparições em pelo menos 3 produções televisivas. Ele aparece em The Big Cases, da BBC. Ele também aparece em um episódio da série de true crime do YouTuber Ray William Johnson. E na série documental TikTok Murder Gone Viral, da ITV, exibida em janeiro de 2024. A Mahak e a Anzu se tornaram oficialmente o primeiro caso de mãe e filha condenadas por assassinato duplo na história do Reino Unido.

Apesar da condenação, os perfis da Mahak nas redes sociais continuaram ativos por um tempo, o que gerou um debate sobre a monetização de conteúdo ligado a criminosos condenados. Um correspondente da ITV até falou sobre o momento do veredito, onde mãe e filha estavam ali lado a lado. E aí, a Mahak ficou extremamente abalada ao ouvir a sentença, enquanto a mãe dela não expressou emoção nenhuma, ela só olhava fixamento para o juiz.

Esse documentário da ITV, eles tiveram acesso direto às famílias das vítimas e a policiais e jornalistas que cobriram o julgamento. A crítica britânica sobre a produção ficou um pouco dividida. O The Guardian, por exemplo, classificou a produção como bizarra. Já o jornal i, que é um irmão mais barato do Independent, descreveu a produção como uma história fascinante e terrivelmente mal contada. O Hakan e o Jamal, que eram os motoristas, seguem presos e eles não tiveram a pena deles Então assim, esse é um caso mais recente, mas como é um caso que envolve toda essa questão das redes sociais, dos conteúdos que eram publicados, né.

Então a Marrec tava tentando construir ali uma comunidade e tal, ela trabalhava como influenciadora e mostrava muito a mãe dela, a rotina delas. Então essa é toda a questão desse caso, do porquê ele ter ficado conhecido com esse nome, né. Por que que citam as redes sociais? Porque parecia que elas estavam com tanto medo que a reputação delas— isso é a minha visão do caso, tá? Parecia que elas estavam com tanto medo, a Marek principalmente, né, por ter se envolvido tanto dessa forma em uma coisa que não tinha nada a ver com ela, que era problema da mãe dela.

Mas ela se envolveu, envolveu outras pessoas, mentiu, né, para uma delas que era ela que tinha um caso com o Saqib, quando na verdade era a mãe dela. Então parecia que tinha esse medo muito grande da reputação delas online, né? Então Tipo assim, foi uma coisa horrível o que a mãe dela fez? Sim, ela, né, tinha um caso extraconjugal estando casada. Mas era uma coisa tão horrível assim, a ponto de você causar um acidente que matou duas pessoas pra que ninguém descobrisse e manchasse a sua reputação?

Pra mim é bizarro, né. Enfim, fazer essa comparação. Então essa é a visão que eu tive do caso. Mas eu quero saber a de vocês, então me contem aqui nos comentários. Então é isso, pra mais casos siga o podcast Quinta Misteriosa. E aproveite pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.