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QUEM MATOU OS BORDEN? | Caso Lizzie Borden #620

24 de agosto de 202631min
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Numa manhã de verão, dentro de uma casa numa cidade pequena dos Estados Unidos, uma família tradicional se viu no centro de uma tragédia que chocaria o país inteiro. A investigação levaria a suspeitas dentro da própria casa — e o desfecho segue gerando debate mais de cem anos depois. #620

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JGJaqueline Guerreiro

Oi, bonitas e bonitos. Tudo bom com vocês? Eu sou a Jaqueline Guerreiro e esse é o podcast Quinta Misteriosa. Aqui eu posto novos casos toda segunda e toda quinta. Aproveita pra me acompanhar nas redes sociais pra conteúdo extra de séries, filmes, livros e, é claro, true crime. E agora, bora começar o caso de hoje. Andrew Jackson Borden nasceu em Fall River, Massachusetts, em 13 de setembro de 1822. Filho de Abraham Bowen Borden e Phoebe Davenport.

Ele fazia parte da 8ª geração de uma família tradicional da cidade que, apesar do sobrenome respeitado, Ele cresceu em condições modestas e passou por dificuldades financeiras quando jovem. Foi só na vida adulta que o Andrew prosperou. Ele fabricou e vendeu móveis e caixões antes de migrar pro mercado imobiliário, tornando-se incorporador de propriedades comerciais. Ele chegou a ser diretor de 3 fábricas Tastays, presidente do Union Savings Bank e diretor do Durfee Safe Deposit and Trust Co.

Em 25 de dezembro de 1845, ele se casou com Sarah Anthony Morse. Ele tinha 23 anos e ela, 22. A Sarah nasceu no dia 19 de setembro de 1823 em Somerset, Massachusetts, cidade vizinha a Fall River. Era filha de Anthony Morse e Rhoda Morrison. Juntos, o Andrew e a Sarah tiveram 3 filhas: Emma Lenora, nascida em 1851. A Alice Esther, nascida em 1856, que morreu ainda bebê, aos 22 meses, de hidrocefalia. E a Lizzie Andrew, a mais nova, nascida em 19 de julho de 1860.

A Sarah morreu no dia 26 de março de 1863, meses antes de completar 40 anos. Oficialmente, a causa da morte foi congestão uterina e doença na espinha. 2 anos depois, em 2 de junho de 1865, Andrew se casa novamente com a Abby Durfee Gray, uma mulher de 37 anos, então considerada solteirona para os padrões da época. Não houve filhos dessa segunda união. Corria entre conhecidos da família o boato de que Andrew teria se casado com a Abby não por afeto e sim por conveniência.

Ele precisava de alguém pra cuidar da casa e ajudar a criar as duas meninas. Então, a relação da Abby com as enteadas nunca foi próxima. A Lizzie e a Emma se recusavam a chamá-la de mãe. Pra elas, ela sempre foi a Mrs. Borden. Mas também não existe registro documental de abuso ou maus-tratos, apesar de mais uma pessoa ouvida anos depois descrever-se a relação entre as duas partes da casa como fria e distante. A Emma tinha 12 anos quando a sua mãe Sarah morreu, e a Lizzie ainda não tinha completado 3.

Então, na prática, Emma acabou ajudando a criar a irmã mais nova nos anos seguintes, com o apoio do avô paterno, da segunda esposa dele e de uma tia chamada Lurana, que morava ao lado. As duas cresceriam próximas, um vínculo que se manteria mesmo depois de adultas, morando sob o mesmo teto. O Andrew, apesar de ser um homem rico que tinha investido com sucesso em bancos, fazendas de algodão e imóveis, ele era mão de vaca. Ele criava galinhas e ele mesmo ia vender os ovos numa cesta para os próprios sócios do negócio.

Uma cena que os vizinhos comentavam como prova de que ele preferia economizar trocados a manter as aparências. Além disso, ele se recusava a instalar água encanada na casa da família. As filhas cresceram usando pinico e balde no próprio quarto. Em 1887, o Andrew compra uma casa para a irmã da Abby, um gesto que a Liz e a Emma interpretaram como favoritismo e ameaça à própria herança. Segundo o relato que circulou depois entre conhecidos da família, a Lizzie teria reclamado tão abertamente da diferença de tratamento que o pai acabou comprando em compensação um imóvel de valor equivalente para as duas filhas.

Havia ainda um boato rolando ali na família que o tio John Morse teria contado para as meninas, para Lizzie, para Emma, que o pai delas tava planejando deixar praticamente toda a herança para Abby e não para as filhas, e que ela receberia uma pequena parte só da herança. Não há registros de que esse testamento tenha chegado a ser redigido ou formalizado, mas é um fato que é super citado pelos historiadores como mais uma coisa que tava acontecendo ali na família para aumentar ainda mais a tensão existente ali dentro.

Outro incômodo na família era o fato de que o Andrew decidiu morar mais perto do centro da cidade e não em The Hill, um bairro mais elegante onde moravam as famílias mais bem posicionadas de Fall River. Então o centro da cidade era basicamente uma área menos nobre. Então isso também incomodava as meninas porque elas estavam bem cientes da posição social que elas ocupavam e elas não entendiam por que elas não moravam no outro bairro que era bem melhor e faria mais sentido para elas.

Outro fato é que nem a Lizzie e nem a Emma se casaram, então elas continuavam morando com o pai e a madrasta na vida adulta, levando uma vida socialmente ativa, que era o esperado de uma família abastada como a delas em Fall River. A Lizzie, por exemplo, era membro ativo da Central Congregational Church, onde ela dava aulas na escola dominical, e ela também ocupava um outro cargo de secretária tesoureira da Christian Endeavor Society, além de participar da União Cristã pela Temperança e da liga antipobreza Fruit and Flower.

Então os anos foram se passando e a família seguia essa mesma linha onde por fora eles mostravam ser uma família abastada que vivia bem, mas por dentro tinham muitas tensões acontecendo na família. Foi nesse cenário que chegou o verão de 1892, que foi registrado como um dos mais quentes de Fall River. Em agosto daquele ano havia 5 pessoas na casa da família que ficava na Second Street. Então além do pai, o Andrew, a madrasta Abby e a Lizzie, a filha mais nova.

Também estava ali a empregada Bridget Sullivan. E temporariamente, o John Vinnicum Morse, irmão da falecida Sarah e tio materno das meninas, da Emma e da Lizzie. Ele tinha chegado na noite anterior, sem aviso prévio, pra tratar de negócios com o Andrew. Já a filha mais velha, a Emma, não estava em casa. Já faziam alguns dias, ela estava hospedada em Farhaven. Era quinta-feira, 4 de agosto de 1892. Então, o Andrew toma o café da manhã e ele sai pra sua ronda diária de negócios, pouco depois das 8.

O Andrew, o John, saiu logo em seguida pra ver alguns parentes que moravam do outro lado da cidade. Então ficaram na casa a Abby, a Lizzy e a Bridgette. Mas aquela não era uma manhã como qualquer outra. Porque 2 dias antes, no dia 2 de agosto, eles tinham jantado um peixe-espada arrequentado. E como eu falei pra vocês, tava muito quente, um verão muito quente. Então eles passaram mal. O Andrew, a Abby e a Bridgette passaram mal depois do jantar.

Tanto que no dia seguinte, a Abby, que mal saía de casa, precisou ir até um médico. Que era inclusive o médico da família, chamado Seabury Bowen. E aí, ela foi até o médico pra dizer que ela tinha passado mal e que ela temia que ela estava sendo envenenada. Mas ele atribuiu apenas ao mal-estar da comida e do calor. Ele acreditava que eles tinham comido um peixe que tava estragado. Então era por isso que ela tinha passado mal. E mesmo assim, ele decide acompanhar ela de volta até a casa da família.

E ele também queria examinar o Andrew. Quando eles chegam na casa, o Andrew fica extremamente irritado. Porque pra ele, a Abby tava gastando dinheiro à toa. Então não fazia sentido. Fazia sentido ter chamado um médico na visão dele. E ele manda o médico embora. Então aí, na quinta-feira, mesmo com essa desconfiança e com mal-estar, a rotina seguiu normal. O Andrew tomou café da manhã, saiu pra trabalhar. E aí, em casa, a Abby subiu pro quarto que o John tava hospedado pra arrumar a cama dele, dar uma arrumada no quarto.

Enquanto a Bridget começou a lavar as janelas, todas as janelas da casa, tanto por fora quanto por dentro. Essa era uma tarefa que dava pra ela, sem que naquele momento ela percebesse, uma visão privilegiada de todos os cômodos da casa. Por volta do meio-dia, o Andrew volta pra casa, porque ele ainda tava se sentindo mal, tava com aquele mal-estar. Então ele volta pra descansar um pouco, então ele se deita. Então ele estava na sala, deitado no sofá.

E quem encontraria o corpo dele já morto era a Lizzie. Isso aconteceu pouco tempo depois. Então logo que ela encontra o corpo do pai, ela começa a gritar pra Bridget que o pai dela tava morto. Ao lado da casa da família morava uma viúva chamada Adelaide Churchill. Ela era filha do ex-prefeito da cidade, viúva há 13 anos. E ela morava naquela casa já fazia duas décadas. Então ela tinha acabado de voltar pra casa, tinha feito algumas compras.

E ela disse que ela conseguia ver da janela da cozinha da sua casa a Lizzy parada do lado de fora da casa dela, com uma expressão estranha. Vendo que aquilo era meio estranho, ela vai até a Lizzy. E aí, ela conta aflita pra Adelaide que o seu pai tava morto, alguém tinha matado seu pai. Então, imediatamente, ela avisa a polícia. O corpo do Andrew tava caído ali no sofá da sala, na mesma posição que ele dormia. E o rosto dele ficou tão desfigurado dos golpes que mal dava pra reconhecer que era ele.

Só meia hora depois que eles lembraram que tinha uma terceira pessoa na casa, né. A Abby e ninguém sabia onde ela tava. Dessa forma, a Bridget e a Adelaide sobem para procurar por ela no segundo andar e encontram ela no quarto de hóspedes, no quarto do John. Encontram o corpo dela no chão, ela tava com os braços para cima e ela tinha levado muitos golpes na cabeça, assim como o marido, como o Andrew. Mas a diferença era que o sangue em volta dela já tinha coagulado, enquanto o sangue do Andrew era fresco.

Foi esse detalhe que foi notado pelo médico da família que levaria a perícia a concluir que a Abby tinha sido morta bem antes que o Andrew, provavelmente entre 9 3:30 da manhã, então mais de uma hora antes da morte do Andrew. Ao todo, os dois receberam 29 golpes, sendo 18 apenas na Abby. Segundo os médicos, os ferimentos eram compatíveis com algum instrumento cortante e pesado, como por exemplo um machado de cabo curto, embora eles não tivessem encontrado a arma do crime ali próxima dos corpos.

Nas primeiras horas, a polícia trabalhou com a hipótese mais óbvia do que Parecia que tinha acontecido naquela casa. Eles achavam que alguém tinha entrado, provavelmente um assaltante teria matado o casal e depois fugido. Mas conforme a investigação começou, eles perceberam que não havia sinais de arrombamento, nada havia sido levado, e as portas, como era uma coisa de costume da família, sempre ficavam trancadas, mesmo durante o dia.

Essa teoria do intruso começou a perder força ainda na tarde do dia 4. A polícia decidiu não vasculhar o quarto da Lizy num primeiro momento, porque depois de encontrar o corpo do pai dela, ela não tava passando bem. A Emma foi avisada por um telegrama do que tinha acontecido e ela volta às pressas para cidade. Só dois dias depois das mortes, no dia seis, quando eles já estavam se preparando para o funeral do Andrew e da Abby, que a casa foi realmente vasculhada por completo.

Foi feita uma inspeção completa na casa e o prefeito John Coughlin, né, o prefeito de Fall River, nesse dia ele fala publicamente que a Lizzy tinha se tornado suspeita. O funeral que aconteceria naquele sábado nem chegou a ser completo como eles tinham planejado por conta disso. No cemitério, quando o caixão tava pronto para ser baixado, a polícia chega dizendo que eles precisariam fazer uma segunda autópsia nas vítimas. Segundo registros da autópsia, os corpos foram levados de volta, as cabeças do Andrew e da Abby foram removidas, a pele retirada e moldes de gesso feitos dos crânios para exame mais detalhado dos ferimentos.

Por razões nunca esclarecidas, a cabeça do Andrew não voltou a ser sepultada junto ao resto do corpo. A partir daí, a imprensa passou a reconstruir os dias anteriores ao crime, e foi assim que eles descobriram que o Eli Ben que conhecia um balconista numa farmácia da cidade, tinha contado para a polícia que uma mulher que ele reconheceria como a Lizzie foi até a loja no dia anterior aos assassinatos tentando comprar ácido prússico, um veneno letal, alegando precisar dele para dar acabamento numa capa de pele de foca.

Sem receita médica, o farmacêutico recusou a venda. Um dia depois do funeral, a Lizzie foi flagrada destruindo um vestido no fogão da cozinha. Ela disse para uma amiga chamada Alice Russell, que presenciou a cena e tentou impedi-la, que aquela peça estava manchada de tinta velha. A Bridget já tinha contado à polícia que a Lizzie usava um carro azul na manhã do crime. E a polícia suspeitou que era o mesmo que a Alice viu sendo queimado.

O episódio bastou pra que a amizade entre Lizzie, Emma e Alice se rompesse de forma definitiva. Ainda havia um detalhe sem explicação. A Lizzie havia contado pra polícia, ainda no dia 4, que a Abby tinha saído de casa depois de receber um bilhete de uma amiga doente pedindo que fosse visitá-la. Só que nem o bilhete, e nem a amiga, nem quem teria entregado essa mensagem foram encontrados. Apesar de uma recompensa de $500 oferecida por qualquer informação relacionada a isso.

A Lizzie chegaria a sugerir que o bilhete tinha sido queimado no fogão cozinha, o único fogo aceso na casa naquele dia. No porão da casa, a polícia encontrou um machado com a lâmina limpa e o cabo quebrado, além de um balde com panos manchados. A Lizzie teria dito que os panos eram do seu ciclo menstrual. Um químico da Universidade de Harvard chamado para examinar dois machados e duas machadinhas recolhidos na casa não encontrou vestígio algum de sangue em nenhuma das peças.

Em meio a tudo isso, o médico da família, Sebrae, saiu em defesa pública de Lizzie, disse à imprensa não acreditar que uma mulher gentil e refinada, em sã consciência, fosse capaz capaz de desferir um golpe daquela natureza e ainda permanecer no local para contemplar o próprio crime. Mas a opinião pública de Fall River já ia em outra direção. No dia 9 de agosto, a Lizzy foi levada a um inquérito conduzido pelo promotor Rosie Achnalton perante o magistrado Josiah Blaisdell.

Durante o interrogatório de cerca de 4 horas sem advogado presente, ela deu respostas confusas e contraditórias, chegou a evitar perguntas que teriam sido favoráveis à própria defesa. A Lizzy deu pelo menos 3 versões diferentes de onde ela estava no momento em que o pai dela foi morto. Primeiro, ela disse estava no celeiro do quintal, no sótão, procurando chumbo para fazer pesos de pesca. Depois ela disse que na verdade ela tinha ido até lá para procurar por um pedaço de ferro para consertar a tela da porta.

Em outro momento ela mencionou que ela passou parte da manhã passando roupa e engomando lenços na sala de jantar. Ela também alternou entre duas versões, dizendo que ela tinha ouvido um barulho estranho quando ela tinha voltado para casa, vindo de dentro da casa, antes de encontrar o corpo do pai dela. E depois ela disse que não tinha ouvido nada e que foi uma surpresa ter encontrado corpo. O médico da família tinha receitado para ela morfina nos dias anteriores para que ela pudesse acalmar os nervos.

Esse mesmo médico depois reconheceria em depoimento que o fato dela ter usado morfina poderia ser uma explicação para confusão dela dos fatos, né, do que realmente teria acontecido naquela manhã. Isso explicaria toda a confusão. 2 dias depois, no dia 11, a Lizzie foi presa, formalmente acusada de homicídio. No dia seguinte à prisão, ela se declarou inocente. Aí ela foi transferida para prisão de Taunton, que fica a cerca de 13 km de Fall River, onde ela ficaria confinada em uma ela, que não tinha nem 3 metros, enquanto ela esperaria, né, pelo seu julgamento.

No dia 17 de agosto, 13 dias depois do crime, os corpos do Andrew e da Abby foram sepultados sem a presença da Lizzie, depois de terem ficado guardados num túmulo de espera no cemitério. E aí, quanto a Emma, né, a irmã mais velha, ela desde o primeiro dia disse que acreditava na inocência da irmã. Ela se tornou a defensora da sua desde o começo. Então ela defendeu a irmã publicamente desde sempre. E aí, como não foi encontrado nenhum testamento, embora eles acreditassem que existia um, a fortuna toda do Andrew ficou para Emma.

Inclusive foi usando esse dinheiro da fortuna que ela bancaria a defesa da Lizzie. A Emma visitava a irmã regularmente na prisão de Townton, e a esposa do xerife era quem ficava encarregada pela ala feminina. Então era ela que ia lá abrir a porta da cela da Lizzie para que ela visse a irmã, e ela até deixava as duas ficarem caminhando pelos corredores da prisão. O tio delas, o John Morse, que tinha chegado na casa um dia antes do crime acontecer, foi brevemente considerado suspeito porque para eles era muito estranho ele ter chegado um dia antes das mortes e ele ter chegado sem ter avisado a família.

Mas ele nunca foi formalmente indiciado. No dia 22 de agosto, a Lizzie volta para Fall River para sua audiência preliminar. No final, o mesmo juiz do inquérito, chamado Josiah Blaisdell, declarou a Lizzie provavelmente culpada e determinou que o caso fosse levado para um júri de Enquanto isso, a opinião pública se dividia em linhas de classe e gênero. Em cidades operárias como Tanton, Bedford e Fall River, as pessoas imaginavam que uma mulher na posição, na classe social da Lizzie, acabaria recebendo um tratamento privilegiado à justiça.

Ao mesmo tempo, várias mulheres, como até as que faziam parte daquele grupo que a Lizzie também estava, chamado a União Cristã Feminina pela Temperança, ficavam do lado da Lizzie, defendendo que uma mulher educada e cristã como ela jamais seria capaz de cometer um crime daqueles. E aí, um episódio que aconteceu em outubro ajudou a inclinar essa balança um pouco mais a favor da Lizzie. Um repórter do New York Herald chamado Henry Trickey publicou uma reportagem alegando que a empregada Bridget tinha sido presa com um cúmplice e que eles faziam parte de uma conspiração muito maior por trás desses assassinatos.

Porém, essa história era inventada do início ao fim. Quando veio à tona que essa história toda se tratava de uma fraude jornalística, o efeito causado foi o oposto do pretendido. Ao invés de reforçar suspeitas contra a família, na verdade fez o público começar a desconfiar tanto da imprensa quanto da condução que a polícia dava para investigação do caso, reforçando na visão de muitos uma imagem da Alice como vítima de um processo desonesto.

Esse repórter acabou sendo indiciado por adulteração de testemunhas, e antes que ele pudesse responder por essa acusação, ele fugiu para o Canadá. O júri de acusação começou a ouvir as provas no dia 7 de novembro. E logo na primeira rodada, eles se recusaram a indiciar a Lizzie. O promotor reconvocou o grupo e apresentou um novo depoimento, que era o da Alice, a amiga da Lizzie. Ela relatou em detalhes o momento em que ela estava com a Lizzie e o vestido queimado e tudo mais.

E por conta desse depoimento, o júri se convenceu. Então, no dia 2 de dezembro de 1892, a Lizzie foi indiciada por 2 homicídios. Mas o julgamento dela só começaria 6 meses depois, em 5 de junho de 1893. O julgamento começou no tribunal de New Bedford e se estenderia por semanas. Ao todo, 3 juízes presidiram o caso: o Caleb Blodgett, Justin DeWitt e Albert Mason. Já a acusação ficou a cargo do promotor Hosea Knowlton, que era mais experiente.

Só que aí ele tava doente, então durante o processo ele recebeu o apoio do William Moody. Além disso, a defesa da Lizzie reunia o advogado da família chamado Andrew Jennings e o George Robinson, que era ex-governador de Massachusetts. O caso virou uma sensação nacional antes mesmo de começar, então eles precisaram instalar instalar uma cabine telegráfica logo ali ao lado da porta do tribunal, porque eram muitos jornalistas. Eles ficavam se revezando para quem ficaria dentro do tribunal.

Então eles revezavam e eles iam narrando tudo que acontecia lá dentro. Então desde expressões da Liz e trocas de roupa dela, tudo era visto e narrado ali como se fosse um grande espetáculo. Só que antes mesmo do júri ouvir a primeira testemunha, acusação acabou perdendo duas batalhas que definiriam todo o rumo do processo. Os juízes decidiram excluir o depoimento dado pela Liz no inquérito sobre o entendimento de que ela havia sido na prática uma prisioneira no momento que ela testemunhou, sem advogado e sem ser avisada do seu direito de permanecer calada.

Logo em seguida, também excluíram o depoimento daquele farmacêutico sobre a tal tentativa dela de comprar o ácido, considerando que a promotoria não tinha conseguido apresentar uma relação direta entre aquele episódio e a causa real da morte das duas vítimas, que no caso não foi por ácido, né, foi por golpes de uma arma branca. Na abertura do caso, no dia 6 de junho, o Muri ficou falando por 2 horas sobre a brutalidade dos golpes.

Ele tinha sobre a mesa um estojo que tinha dois crânios, que eram os crânios das vítimas. Eles tinham sido guardados como provas desde aquele momento em que a polícia chega no final do funeral e fala que eles precisam pegar os corpos de volta. Então os crânios foram guardados, só que não tava assim visível para todo mundo, ele tava sob um estojo ali na mesa. E aí ele foi manusear o vestido azul que a Lizzy tava usando, e no momento que ele ergue o vestido, os crânios ficam à vista.

Então foi um choque para todo mundo, ninguém esperava ver os crânios ali. E foi um choque tão grande para Lizzie, que ela desmaiou no meio do tribunal, ela precisou ser reanimada. E aí, sem o depoimento da Lizzie do inquérito e sem o depoimento do ácido, sobrou para acusação um conjunto de provas físicas, que era tipo vestido, essas coisas. Mas nenhuma delas era uma conexão muito clara e muito direta com o caso. A Brigitte tava lá como testemunha e ela relatou toda aquela manhã tudo que tinha acontecido dentro da casa, mas ela não conseguiu situar a Lizzie em nenhuma das duas cenas do crime, nem no quarto de hóspedes no segundo andar e nem na sala.

Além disso, nenhum sangue foi encontrado nas roupas ou no corpo da Lizzy. A própria polícia também se contradisse quando eles falaram sobre o machado. Um policial testemunhou que o cabo que tava quebrado tinha sido encontrado junto à lâmina, enquanto outro policial falou que não estava junto. A Brigitte afirmou que a Lizzy usava naquele dia um vestido azul claro com umas estampas azul marinho, uma peça que ela mesma entregaria para a polícia dias depois do crime.

E o vestido tava intacto, com apenas uma única mísera mancha de sangue na barra do vestido. E é o mesmo vestido que foi manuseado lá no tribunal no momento que os crânios foram expostos. Esse era o vestido que a Lizzy usava no dia do crime. Agora, o vestido que a Alice, amiga dela, viu ela queimando era outro vestido, que era de algodão e tava manchado de tinta, segundo a Lizzy. Enquanto o vestido azul era um vestido de seda. A acusação tentaria convencer o júri que essa distinção era conveniente demais.

Então, a teoria deles era que, na verdade, o vestido queimado, o vestido que a Alice viu e que estaria manchado de tinta, era o vestido que a Lizzy usou no momento do crime. E o vestido azul, o que ela entregou para a polícia, ela teria trocado colocado ele depois. Mas aí a defesa argumentou que seria impossível que ela conseguisse assassinar duas pessoas, trocar de roupa, limpar a cena do crime, limpar ela mesma, tirar todos os vestígios e fazer tudo isso sem que a Bridget notasse.

Lembrando que a Bridget limpava as janelas, então ela tinha uma visão da casa de vários cômodos enquanto ela limpava. E para eles era muito estranho que tudo isso tivesse acontecido e ela não tivesse visto nada. No nono dia de julgamento veio um momento super chocante, que foi quando eles mostraram os crânios dessa vez, porque eles queriam mostrar, né? Da outra vez foi o momento que não era para aparecer ainda, mas nesse dia, no nono dia, eles iriam mostrar os crânios porque era a prova física mais concreta que eles tinham.

A Lizzie foi autorizada a deixar a sala nesse momento, já que ela tinha desmaiado da outra vez, enquanto o médico legista dava ali o seu depoimento. A defesa também tinha suas próprias testemunhas. Dois deles eram moradores da região que alegaram terem visto um homem estranho andando aos redores da casa dos Borden um dia antes do crime, inclusive a noite anterior ao do crime. Além disso, um médico da vizinhança também alegou ter visto um jovem pálido e mal vestido andando pela calçada ali da rua da casa dos Borden por volta das 10:30 da manhã, que era o horário estimado em que os crimes aconteceram.

Nenhum desses suspeitos foi indiciado. O George, um dos advogados, também aproveitou para explorar outros depoimentos, por exemplo o da vizinha, que disse se lembrar exatamente da roupa que a Lizzie usava quando ela viu a Lizzie pela janela da cozinha dela e quando ela foi até a casa dos Borden, que era o vestido azul claro. Logo depois da Lizzie ficar em choque quando ela encontrou o corpo do pai. A vizinha Adelaide disse que ela não conseguia se lembrar de ter visto nenhuma mancha no vestido da Lizzie.

E o advogado ficou insistindo até que ela falasse que realmente um vestido claro daquele, se tivesse uma mancha de sangue, ela teria visto. Esse era justamente o argumento que a defesa precisava. Se não tinha sangue visível, e naquele vestido o sangue teria aparecido, então o vestido que a Lizzie usava não poderia ser o mesmo da pessoa que cometeu os assassinatos. Já nos argumentos finais, o advogado dela também falou que como ela morava naquela casa e ela era uma mulher, não faz sentido que fosse estranha a presença dela dentro da própria casa, que era exatamente onde se esperava que ela estivesse naquela manhã.

Ele chegou a lembrar os jurados, em sua maioria homens, homens que eram casados, que eram pais, que a relação da Lizzy com o pai era uma relação boa e que o pai dela usava um único anel no dedo, e quem tinha dado esse anel para ele tinha sido justamente a Lizzy, que isso demonstrava o afeto entre eles. Já o outro advogado dela de defesa, o Andrew, foi mais direto dizendo que não havia prova nenhuma que ligasse ela ao crime, não havia nenhuma gota de sangue e nenhuma arma que ligasse ela diretamente ao crime que aconteceu na casa.

A Emma, irmã mais velha, também foi uma testemunha que falou sobre como a sua irmã era e a descreveu sendo uma pessoa super gentil, de bom caráter. Negou qualquer hostilidade generalizada entre a família e a madrasta e confirmou a versão de que o vestido queimado estava realmente manchado de tinta e não de sangue. Ela disse que o vestido tava muito manchado, estava arruinado, e por isso foi queimado, porque ele tava muito manchado de tarefas domésticas.

Já a Lizzie nunca depôs em sua própria defesa. Inclusive, durante todo o julgamento, as únicas palavras que ela disse antes do júri sair pra deliberar foi que ela era inocente, que ela deixava o restante na palavra dos advogados. Antes de mandar o júri deliberar, o juiz Justin Dewey leu as instruções finais em nome dos 3 magistrados. Ele reforçou o argumento da defesa de que a prova era inteiramente circunstancial e descartou como normais as contradições de Lizzie diante da polícia logo após o crime.

Disse aos jurados que uma simples suspeita, mesmo forte, não bastaria pra justificar uma condenação. Historiadores notariam, décadas depois, um detalhe pouco divulgado na época. O juiz Justin Dewey devia a própria cadeira de juiz da Suprema Corte em Massachusetts a uma indicação feita ainda em 1886 pelo então governador do estado, George Robinson. Que no caso, era o mesmo advogado que agora defendia Lizzie. Um jornal da época chegaria a comentar que se estivesse na posição de advogado de defesa fazendo o argumento final, o juiz não teria conseguido demonstrar de forma mais completa a fragilidade da prova circunstancial apresentada pela acusação.

O júri se retirou para deliberar em 20 de junho de 1893 e levou pouco menos de uma hora, cerca de 40 minutos, segundo relatos de jornais da época. Versões posteriores citam até 90 minutos para que eles voltassem com o veredito de inocente. A sala vibrou. A Lizzie, segundo testemunhas presentes, quase desmaiou de alívio. E depois disso, ninguém mais foi formalmente acusado pelos assassinatos de Andrew e Abby. Ao longo dos anos, diferentes teorias tentariam preencher esse vazio, desde a hipótese de que Lizzie estaria protegendo a própria irmã Emma, até relatos não comprovados sobre um suposto assassino de aluguel visto fugindo de Fall River naquele mesmo dia.

Nenhuma dessas versões foi investigada a fundo pela promotoria ou pela própria defesa na época, e nenhuma chegou perto de ser comprovada. Depois do julgamento, com a herança do pai, a Lizzie e a Emma compraram ainda em 1893 uma mansão vitoriana no bairro nobre de Hill, que era o endereço que elas sempre quiseram morar, e batizaram a mansão de Maplecroft. A Lizzie passou a assinar como Lisbeth A. De Bording. Mas a sua vida em Fall River nunca voltou ao normal.

Mesmo absolvida, ela foi socialmente evitada pela cidade pelo resto da vida. Em 1897, o seu nome volta pros jornais. A loja de artigos finos Tilden Turber, em Providence, emitiu um mandado de prisão contra ela por furto de duas pinturas em porcelana. Segundo o relato de um dos funcionários da loja, a Lizzie teria escondido as peças sob o casaco de pele de foca que ela usava. Só que esse caso só veio à tona meses depois, quando uma mulher foi até a loja pra levar as peças pra serem restauradas.

E aí ela contou que ela tinha ganhado aquelas peças da Lizzie. Apesar disso, nenhuma acusação formal foi registrada. Eles resolveram esse roubo de forma privada. Provavelmente com ajuda do advogado do Andrew. Mas a repercussão nos jornais foi imediata. E foi justamente nesse período que a Lizzie começou a se interessar por peças de teatro. Então ela começou a frequentar muito teatro. E também começou a se aproximar dos atores.

Em 1904, ela conheceu a atriz Nancy O'Neill. E pelos 2 anos seguintes, as duas se tornaram inseparáveis. Muito, muito próximas. Que segundo boatos que também nunca foram confirmados, a relação delas seria romântica. A proximidade entre as duas, segundo especulações posteriores, teria sido estopim para uma briga entre as irmãs, entre a Lizzie e a Emma. Em 1905, depois de uma discussão ligada a uma festa que a Lizzie deu em homenagem à Nancy, a Emma decidiu deixar a mansão que elas compraram juntas de vez.

Rumores da época chegaram a especular que depois dessa separação das entre as irmãs. Revelações bombásticas iriam surgir, mas isso nunca aconteceu. Depois dessa briga entre as irmãs, elas nunca mais falaram. A Lizzie morreu em 1º de junho de 1927, aos 66 anos, de pneumonia, depois de complicações de uma cirurgia de vesícula que acabou se estendendo por meses. Já a Emma, que vivia de forma reclusa em Newmarket, em New Hampshire, morreria apenas 9 dias depois da irmã devido a uma queda na escada dos fundos da casa que ela morava.

A Lizzie já tinha planejado o próprio funeral e até deixado uma lista as pessoas deveriam convidar. Mas quando esses convidados chegaram, eles foram informados que a cerimônia já tinha acontecido na noite anterior, que tinha sido tudo em segredo, e poucos detalhes sobre isso chegaram até a imprensa. A Lizzy foi sepultada no mesmo local em que o seu pai e a madrasta. Inclusive, a lápide dela fica ao lado da do pai. A Emma também foi sepultada lá, o que as pessoas falam que é uma ironia da relação das duas, que tinham brigado e nunca mais falaram, e acabaram morrendo com poucos dias de diferença e sendo enterradas lado a lado.

O testamento da Lizzie, que foi divulgado depois, revelaria que ela deixou $30 mil para uma entidade de resgate animal que ela mesma ajudou a fundar. Um gesto que surpreendeu a cidade, porque tinham rumores de que a Lizzie era muito cruel com animais quando ela era jovem. Então as pessoas ficaram muito chocadas com isso. O restante da fortuna foi dividido entre mais de 20 pessoas, amigos, familiares, colegas, empregados. A Emma fez um testamento bem parecido, deixando boa parte da sua fortuna de $450 mil para instituições de caridade.

E a morte do Andrew e da Abby continuam sem solução até hoje. Os historiadores que revisitaram o processo ao longo dos anos apontaram que várias provas, né, circunstanciais que a acusação tinha, hoje analisando essas provas fora daquele ambiente do julgamento da época, elas são consideradas por muitos especialistas super insistentes, muito mais do que pareceu na época. As duas casas ligadas ao caso, né, em Fall River, continuam de pé até hoje.

Inclusive viraram atração turística. Então a casa dos Borden virou meio que uma pousada barra museu, que as pessoas podem se hospedar. E lá também tem tour histórico sobre o caso. E a mansão que as irmãs compraram e apelidaram de Maplecroft, que ficava também na mesma cidade, né, em Fall Oliver foi adquirida pelos mesmos donos da primeira casa que fizeram, né, transformaram a casa em museu. Em 2018, eles compraram a mansão com planos de ser também uma pousada, como se ela fosse uma pousada complementar à primeira.

E aí entrou pandemia, eles tinham que mover muitas coisas na prefeitura para conseguir fazer isso acontecer, e o imóvel já voltou ao mercado mais de uma vez. O caso da Lizzie Borden virou uma matéria-prima do conhecimento já há muitos anos. Foi tema de filmes mudos, peças de teatro, romances, séries de TV, enfim, muitas coisas. E eu decidi contar esse caso para vocês especificamente agora porque esse mês vai estrear uma série sobre esse caso na Netflix, que é a série Monstros, do Ryan Murphy, que já teve outras temporadas com o Ed Gein, o Jeffrey Dahmer, os irmãos Menendez.

E agora vai entrar a 4ª temporada, que vai ser a primeira que vai ter como protagonista uma mulher, né? E vai contar a história da Lizzie Borden. Então eu sabia que vocês iam me pedir quando estreasse. Já antes de vocês pedirem, eu já fui, já fiz. A série vai estrear mês que vem e eu tô muito ansiosa só para assistir. Eu gosto muito das produções do Ryan Murphy e com certeza vai dar o que falar, né, como sempre. E eu quero muito saber o que vocês acharam desse caso.

É um caso muito famoso que eu até não sei como que eu não tinha contado para vocês ainda. Então me conta aqui nos comentários, não esquece do like que me ajuda muito na divulgação do vídeo. Então é isso, para mais casos siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveite para avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até próximo caso.