PRECONCEITO E NEGLIGÊNCIA: O CASO NORA DALMASSO #576
Em novembro de 2006, Nora Dalmasso foi encontrada estrangulada em sua casa em Río Cuarto, Argentina. Quase 20 anos depois, há DNA do suspeito na cena do crime — e ainda assim, ninguém foi condenado. #576
- Morte de Personalidades NotáveisEstrangulamento · Cena do crime · Autopsia · Causa da morte · Contexto familiar
- Acusação contra Marcelo (marido)Contratação de executor · Torneio de golfe em Punta del Este · Tese do voo particular · Julgamento de 4 meses · Absolvição por unanimidade
- Acusação contra Facundo (filho)Investigação por 5 anos e meio · Homofobia · Tese absurda do fiscal · Exposição midiática · Inocentação em 2012 · Trauma e Comportamento
- Descoberta do DNA de Roberto BárzolaDNA no cinto do roupão · Fio de pelo · Validação pelo FBI · Trabalhador na casa · Compatibilidade genética
- Prescrição do crime15 anos prazo legal · Delito sexual com morte · Prescrição em 2021 · Argumentação defesa Roberto · Câmara criminal declara prescrição
- Cobertura SensacionalistaCriminalização da vítima · Publicação de fotos da autopsia · Venda de fotos pela polícia · Listas de supostos amantes · Perseguição jornalística · Ernesto Vaca Narvaja
- Depoimentos e ImpedimentosTestemunha 6 vezes · Descrição do piso molhado · Condomínio próximo · Presença madrugada crime · Contradições registros
- Relatório FBI ignoradoEmpresa americana de ex-agentes · Recomendação de DNA · Apontamento de Roberto · Pedido negado · Arquivo do caso
- Impacto Emocional na FamiliaValentina nos EUA durante crime · Descoberta via ligação · Facundo suspeito aos 19 anos · Exposição contínua · Luto e acusação simultâneos
- Processo contra três fiscaisRavier negligência · Daniel Mirales incompetência · Luis Pesarro erro investigativo · Destituição se condenados · Prazo maio 2025
- ImpeachmentDenúncia formal familiar · Três fiscais julgados · Mal desempenho e negligência · Primeira vez histórica · Sentença até 28 maio 2025
- Investigação inicial falhaContaminação da cena do crime · 23 pessoas na casa · Câmeras inoperantes · Falta de protocolo · Negligência pericial
- Negligência dos fiscaisRavier (2006-2015) · Daniel Mirales (2015-2017) · Luis Pesarro (2017-2022) · Ignorância de evidências · Perseguição a inocentes
- Acusação de Gastón Arate (pintor)Detenção injusta · Testemunhas problemáticas · Corrupção policial · Propina de Daniel · Liberação posterior
- Identidade e AutoestimaInstalador de pisos · 26 anos na época do crime · Morador de Rio Cuarto · Sem antecedentes criminais · Vida comum pós-crime
Raquel Dalmasso nasceu em 17 de janeiro de 1955, em Rio Quarto, no interior da província de Córdoba. Rio Quarto fica 200 quilômetros ao sul da cidade de Córdoba, a cerca de 700 quilômetros de Buenos Aires, sete horas de estrada da capital federal. As margens do rio que lhe dá o nome nos limites entre a Pampa Úmida e as primeiras elevações da Serra dos Comitíngones, a cidade tem cerca de 200 mil habitantes. Segundo a maior cidade da província de Córdoba, é um polo agrícola, universitário e comercial, que funciona como capital informal do interior.
ter elites consolidadas, clubes sociais e bairros fechados. Pequena o suficiente para que todo mundo se conheça. Nora era filha de Delia Grassi, conhecida por todos como Nené, matriarca de uma das famílias mais tradicionais e influentes da cidade. Os Grassi construíram ao longo de gerações um império discreto e sólido. A Serviços Sociales Grassi, fundada em 1891, reunia uma cadeia de farmácias, uma funerária, um serviço de emergências médicas e campos nas redondezas da cidade.
Era uma família de posses, mas também de comprometimento com a comunidade. E a Nora herdou esse espírito.
Ela cresceu com um irmão Juan e uma irmã que, anos antes do crime, havia se afastado da família e se mudado para Buenos Aires. Não se sabe muito sobre o pai deles. O que se sabe é que a figura central da família era Nené, uma mulher forte e de instinto aguçado. Sua filha Nora era uma mulher marcante, esbelta, de olhos claros, presença inconfundível nas reuniões sociais de Rio Quarto. Trabalhava como designer de interiores e tinha uma boutique no centro da cidade.
Era essa boutique, aliás, que estava no centro do encontro que mudaria toda a sua vida.
Em seguida, Marcelo partiu para a Espanha para fazer especialização em traumatologia e ao retornar por pressão da família, o casal acaba voltando a Rio Quarto. Foi lá que nasce a segunda filha do casal, a mais nova.
A mesma generosidade que marcava os graças e definia a Nora. A empresa da sua família integrava uma sociedade que oferecia 40 bolsas de estudo a pessoas de baixa renda para completar o ensino fundamental e médio. A Nora participava ativamente do Rotary Local e da Afulic, Fundação de Pesquisa contra o Câncer. O seu marido, Marcelo, se consolidou como um dos médicos traumatologistas mais respeitados de Rio Quarto. Era um homem ativo socialmente, frequentador do clube Urucuré e também apaixonado por golfe.
o afastavam da família por longos períodos. Com as primeiras economias do casal, eles saíram de um apartamento no centro e se instalaram no exclusivo bairro fechado de Vila Golf. Foi na casa do Vila Golf que a Nora projetou um jardim que era especial para todos da família. Ela cuidava pessoalmente das plantas. A vida da família era tranquila e feliz. Os filhos estudaram no Colégio San Ignacio de Loyola, um dos melhores da cidade, e de orientação católica.
A Valentina cresceu jogando golfe com o pai no clube. Já o Facundo se voltou para os livros, preferia a atividade intelectual ao esporte,
que envolvia estudo. Já a Nora era o centro afetivo da família. Conhecida carinhosamente como Norita, no seu círculo íntimo, ela tinha uma rede vasta de amizades entre as mulheres do bairro. Ela fazia parte de um grupo informal chamado as Congressistas, ela e sete amigas que saíam juntas quando os maridos viajavam a congressos. Ela era uma presença constante em eventos sociais, fiel às suas raízes filantrópicas e à vida comunitária de Rio Quarto.
Quem a conhecia de perto dizia que era a Nora quem segurava a família. Ela era a mais tranquila e a que amortecia os cantos.
Sempre presente, mas sempre com o trabalho puxando para um lado. Os anos foram passando e a casa deles em Vila Golfo foi ficando mais silenciosa. O Facundo foi para Córdoba para estudar Direito e a Valentina, aos 16 anos, embarcou para um intercâmbio nos Estados Unidos. No dia 24 de novembro de 2006, era uma sexta-feira, a Nora foi almoçar com a mãe dela e depois ela voltou para casa e aproveitou a piscina sozinha, já que os filhos não estavam em casa. E o marido tinha viajado para o Uruguai para um campeonato de golfe.
O jantar foi regado a champanhe e a Nora disse uma frase que ninguém esqueceria. Ela disse, não me perturbem por todo fim de semana. Por volta da 1h30 da manhã, o grupo todo decidiu ir pra casa da Rosário, que também morava no Vila Golf, pra fumar. Córdoba tinha aprovado uma lei antifumo, por isso que elas foram pra casa da Rosário. E aí, elas beberam mais umas taças e cerca de uma hora depois, a Nora foi pra sua casa. Desde sexta-noite, o Marcelo tentava falar com a esposa, mas ele não conseguia.
O celular dela, o telefone fixo da casa e ela não atendia. Ele imaginou que talvez ela tivesse ido pra casa de campo de uma de suas amigas e que ela estivesse sem sinal, alguma coisa do tipo. E aí, no domingo, ele ganha o torneio de golfe e ele ainda não tinha conseguido falar com ela. Foi nesse ponto que ele começou a se preocupar de verdade, então ele começou a entrar em contato com pessoas próximas pra que eles pudessem tentar ir até a casa, tentar localizá-la.
Então, ele faz essa ligação pra pessoas de confiança e aí, quando eles estavam próximos da Ponte La Barra,
O celular do Daniel Lacasse tocou. O Daniel era amigo do Marcelo, ele era advogado e tinha ido nessa viagem de golfe junto com ele no fim de semana. Vários amigos tinham ido. E o Daniel, embora estivesse junto, não jogava golfe. Quem tinha aberto a ligação pra ele era sua namorada Silvia Magalhães. E ele tava dirigindo no momento, então ele para o carro, atende e ela pede pra ele se afastar. Então, ele sai do carro pra falar com ela.
E quando ele volta, ele fala pro Marcelo pra abraçar ele, porque a Norita foi encontrada morta.
foi um vizinho, como eu falei pra vocês, o Marcelo tinha pedido, né, pra pessoas de confiança checarem a casa e esse vizinho foi até lá pra ver se tava tudo bem. Ele encontrou o corpo da Nora em cima da cama da Valentina. Ela tava seminua e tinha sido estrangulada com o cinto do próprio roupão. A autópsia determinaria a causa da morte como asfixia e havia sinais de atividade sexual, mas não tinha nenhum sinal de luta, o que levou à hipótese inicial de que ela tivesse tido um encontro com alguém e que esse encontro foi consentido
em morte, mas isso foi contestado logo depois. A cena do crime foi gravemente comprometida porque muitas pessoas entraram na casa, entraram no quarto, cerca de 23 pessoas circularam pela casa, incluindo o padre da família. Outra coisa que é importante citar é que o bairro, que era um bairro de classe alta, tinha câmeras, mas as câmeras não funcionavam, então o trabalho da perícia já começou muito difícil, sem as imagens das câmeras e em uma cena completamente contaminada.
O fiscal responsável pela investigação inicial foi o Javier de Santo. Mas antes que ele pudesse montar qualquer
teoria coerente sobre o crime, sobre o que tinha acontecido, a imprensa já tinha tomado um lado, a imprensa não tava falando sobre o que tinha acontecido, né, quem tinha matado a Nora, e sim sobre o que a Nora tinha feito. Nos primeiros dias após o crime, as câmeras invadiram o bairro Vila Golf, então eles montavam acampamentos na rua, e aí o nome da Nora já tava em todos os jornais, já tava na imprensa, mas eles não falavam sobre ela como vítima de um crime, falavam sobre ela
como a suspeita da própria morte. Como eu falei pra vocês, a Valentina tava nos Estados Unidos fazendo intercâmbio, então ela volta dos Estados Unidos, dela e o irmão, pra poder ir até o cemitério, visitar o túmulo da mãe. Pra vocês entenderem como a imprensa tava muito em cima desse caso, tinha fotógrafos lá. Tem um documentário na Netflix chamado Las Mil Muertes de Nora Damasco, e tem um trecho de vídeo que foi feito nesse dia, que aparece no documentário, que é os dois irmãos ali lutando naquele momento tão difícil, entre lágrimas tentando falar pras pessoas recuarem,
um pouco, né? Pra eles terem um pouco de privacidade. Eles tentam ali ter um momento de privacidade pra poder visitar o túmulo da mãe morta e as câmeras não recuam. Ao mesmo tempo que isso acontecia, começaram a surgir listas sobre supostos amantes da Nora. Essas listas foram publicadas, republicadas e as pessoas começaram a falar muito sobre a vida amorosa da Nora. E as coisas que as pessoas falavam eram teorias e eles falavam como se aquilo fosse fato. Alguém chegou a vender camisetas escrito
com Norita. Outra coisa extremamente absurda nesse caso é que tiraram fotos da autópsia da Nora e essas fotos foram parar na TV em horário nobre. Anos depois, um jornalista iria confirmar que tinha um policial que vendia essas fotos pra imprensa em troca de dinheiro. O Fecundo e a Valentina tiveram que ver a foto do corpo exposto da mãe publicada no país inteiro. A família não tinha nem como permanecer em silêncio com tudo isso acontecendo e antes mesmo que o Marcelo, né, o marido pudesse falar alguma coisa sobre isso, outro homem já tinha tomado a frente. Esse homem era o advogado
advogado, amigo do Marcelo Daniel Lacasse, então ele virou o rosto da família pra imprensa. Ele nunca foi nomeado porta-voz oficial da família, ele dizia até que ele falava por conta própria. Era ele que falava com os jornalistas, que sugeria pistas e quem pautava a narrativa. Nos corredores dos tribunais de Rio Quarto, as pessoas sussurravam o apelido dele entre dentes, que era Monge Negro. Dez dias após o crime, no dia 5 de março, o Marcelo convocou uma coletiva de imprensa ao lado do seu filho Facundo em um hotel. Essa foi a primeira vez que ele falou e suas palavras ficariam
marcadas pra sempre. Então, sobre a possibilidade de ter sido um crime encomendado, ele disse que isso era ridículo, porque ele jamais mandaria matar a mulher que ele amava. Ao se referir sobre o comportamento da Nora naqueles últimos dias de vida, ele disse que ele e a família perdoam, que se ela se equivocou naqueles últimos dias, ela está perdoada por eles, que ele não vai julgá-la e quem pode julgá-la é Deus. Essa frase acabou virando combustível pra quem já desconfiava dele, né? Começaram a achar que ele estava muito frio. Agora, pra quem defendia
o Marcelo começaram a ver ali um homem destruído. Parecia que ele tava tentando ser generoso e pra Argentina inteira o caso era um espetáculo. Nesse mesmo dia o Marcelo disse que ele contava com o apoio da polícia, do Javier, responsável pela investigação inicial e do governador pra que o caso fosse até o fim. O Javier tava ali apoiando o Marcelo publicamente e a investigação ali já tava começando a ruir. O Daniel, o advogado também tava presente, só que ele tava nos bastidores fazendo o que ele fazia de melhor que era falar. Em fevereiro do ano seguinte,
Javier prendeu o Gaston Zarate, que era um pintor que tinha feito várias reformas ali na casa. A imprensa o apelidou de bode expiatório. A comunidade de Rio Quarto não aceitou essa versão e eles fizeram até um protesto. O que veio à tona depois explicaria muito sobre como a investigação chegou até esse pintor. O Daniel, advogado, tinha pagado a hospedagem dos policiais vindos de Córdoba, os mesmos que conduziram a investigação que resultou na prisão do pintor, do Gaston.
Rio Quarto. Um concierge identificou o Daniel em uma câmera oculta. Os policiais foram investigados por receber propina. Daniel, o pagador, nunca foi chamado pra depor. A causa foi arquivada por dúvida insuperável. Com o tempo, Marcelo foi percebendo que o amigo jogava um jogo próprio, então ele cortou relações. Ele disse entre aspas. Naquele momento, era meu amigo, mas agora não. O Daniel nunca foi indiciado, por isso que ele fez, e o nome dele aparece 39 vezes na requisitória do fiscal, e em nenhuma delas aparece como réu. Depois dessas descobertas, o Gaston foi solto.
ele foi formalmente inocentado. Seu DNA não era compatível com as evidências. Os dois testemunhos que embasaram a sua prisão vinham de um jovem de 19 anos com discernimento de uma criança e de outro rapaz com deficiência cognitiva severa. Agora, com o Gaston descartado, Javier virou a mira para dentro da família. A polícia tinha encontrado um DNA no cinto do roupão. Esse DNA indicava um homem da linhagem Macaron. Como o Marcelo estava em Punta del Este no torneio, a conclusão foi apontar para o filho deles, para o Facundo.
ele foi formalmente acusado. A tese do Javier, né, que estava investigando, era grotesca. Ele sugeriu uma perversão no vínculo mãe e filho. Ele levantou a hipótese de que Facundo teria viajado mais de 200 quilômetros de Córdoba até Rio Quarto pra abusar da sua mãe e depois matá-la. Motivado, segundo o fiscal, pelo fato de a mãe não aceitar sua orientação sexual. Até aquele momento, a família não sabia que Facundo era gay. Eles descobriram isso pela mídia.
Quando a notícia veio a público, Marcelo entrou em colapso. Ele disse pra um amigo no telefone
Esse amigo foi imediatamente até a casa dele em Vila Golf. Já o Facundo, do outro lado, soube da acusação enquanto ainda chorava pela morte da mãe. Não houve transição. Em um instante, ele passou de filho em luto a suspeito de ter violado e assassinado a própria mãe. Então, ele ficou assim, sendo investigado, sem poder sair do país e sendo exposto. Isso aconteceu por cinco anos e meio, até ser inocentado em 2012. Ele esteve a ponto de ser preso em 2007, contido apenas pela pressão dos seus advogados. Anos depois, ele diria, entre aspas,
Javier arruinou a minha juventude. A minha acusação teve uma clara motivação preconceituosa. Como um ato de homofobia, pensaram que por minha sexualidade havia algo errado. Queriam me prender por ser gay. Como se isso já não fosse absurdo bastante, durante todos esses anos da investigação e depois que o caso aconteceu, a mídia não recuava. Eles não paravam, eles seguiam o Facundo pra cima e pra baixo, tirando foto, filmando. Ele era seguido o tempo todo, eles instalavam câmeras ocultas e eles ficavam chamando a família pra entrevista.
e quando a família dizia que não queria fazer, eles começavam a ver isso como uma suspeita. Cada silêncio da família era lido como culpa. O Javier, né, que é esse fiscal, ele fez uma investigação extremamente doida, porque além do Facundo, ele tinha outros acusados ao mesmo tempo. O Gaston e o advogado Rafael Magnasco, que virou um suspeito dele apenas por ser apontado como possível amante da Nora, anos depois ele foi inocentado. Então, em determinado momento, o Javier tinha esses três acusados
simultâneos. O Javier finalmente se afastou do caso em 2015, após o Observatório de Direitos Humanos de Rio Quarto começar a questionar publicamente a sua atuação no caso e colocar em dúvida a sua imparcialidade. Ao sair do caso, ele ainda tentou se defender, dizendo que em nome da transparência, ele se via na obrigação de deixar o caso. Ele ficou nove anos à frente de uma investigação que ele não trouxe nenhum resultado, onde ele acusou três pessoas inocentes e onde ele ignorou completamente um relatório do FBI. Depois que ele saiu,
quem assumiu a investigação foi o Daniel Mirales. A gestão do Javier ficou marcada por uma perseguição aos inocentes, que foram acusados, né, e que eram os mais vulneráveis, enquanto a do Daniel ficaria marcada por uma teoria ainda mais delirante. Para o Daniel, o marido, o Marcelo, era o culpado do crime, e a teoria dele era que ele tinha pegado um avião particular, lá de onde ele estava no Uruguai, voado até em casa. Ele teria ido para casa, tido relações com a esposa, matado ela, depois voltado a tempo de competir,
ganhar o campeonato no domingo. Ele teria conseguido fazer tudo isso sem que ninguém visse e sem deixar nenhuma prova. O advogado da família disse que isso era fisicamente impossível e que mesmo assim o Marcelo foi acusado. O Daniel acabou sendo afastado em 2017 a pedidos dos advogados do Marcelo. As últimas palavras dele foram uma sentença que tentava justificar tudo isso. Ele dizia que havia muito DNA do Marcelo presente na cena.
Não importava que ele não tivesse conseguido prova nenhuma de que o Marcelo tinha feito esse deslocamento até a casa.
Então, ele sai do caso e quem assume, né, a terceira pessoa a assumir, foi o Luiz Pizarro. Bem mais cuidadoso do que os antecessores, ele percebeu que essa teoria não fazia sentido nenhum. Pra ele, era claro que a teoria era insustentável, então ele mudou um pouco a visão dessa teoria, e ao invés de falar que o Marcelo foi lá sozinho, sem ninguém ver e cometeu o crime, ele disse que o Marcelo era, na verdade, o mandante. Em 2018, ele agravou a acusação e, em 2019, elevou o caso ao julgamento. A identidade desse suposto executor, né, que ele teria mandado,
O julgamento do Marcelo começou no dia 14 de março de 2022 e durou quatro meses. Foram 39 audiências, 71 testemunhos presenciais, o que é menos de um quarto dos mais de 300 previstos. A acusação era homicídio qualificado pelo vínculo, por frieza e por encomenda remunerada. A tese era que o Marcelo havia contratado um executor para matar a Nora enquanto ele disputava um torneio de golfe em Punta del Este. O Facundo, o filho que na época trabalhava fora da Argentina, voltou ao país para acompanhar o pai.
imprensa. Estou angustiado de ter que enfrentar como família a pena do banco dos réus, sendo que o verdadeiro assassino está solto e satisfeito por saber que não poderá ser julgado. Tanto ele quanto a Valentina foram ouvidos como testemunhas da defesa. A Valentina entrou na sala com a voz firme, mas quebrou várias vezes durante o depoimento. Uma frase que ela disse que marcou muito foi que a família era muito unida e que isso os destruiu.
Sobre o pai, ela disse Tudo o que disseram foi criado pelos meios de comunicação. O Facundo foi mais direto ainda, ele disse. Faz 15 anos que o assassino
e não dá solto. Do outro lado, como testemunha da acusação, estava um dos suspeitos anteriores, o advogado que havia sido apontado como suposto amante da Nora e depois inocentado. Ele entrou na sala do júri e apontou para Marcelo dizendo, o verdadeiro homicida está sentado naquele banco. Após quatro meses, chegou o dia dos argumentos finais. A audiência começou com um acidente quando um dos jurados teve um ataque de pânico e precisou ser substituído.
O Júlio Rivera, o fiscal responsável por sustentar a acusação diante do júri, falou por quase três horas.
Marcelo. Ele disse, entre aspas, não posso sustentar que foi um executor quem a matou. Como sou um fiscal honesto, vou pedir a absolvição de Marcelo. Seria irresponsável, oportunista e covarde acusá-lo. Quando Marcelo ouviu isso, ele começou a chorar, o Facundo e a Valentina ao lado dele na sala também. O Marcelo teve direito às últimas palavras antes do veredito. Ele disse, sou inocente e agradeço a todos que me acompanharam.
O júri popular o absolveu por unanimidade. Um mês depois, a sentença escrita reconheceu que Nora foi vítima de violência de gênero. Era a única verdade que o processo havia conseguido,
estabelecer em 16 anos. O julgamento do pai foi apenas o capítulo mais recente de uma vida que pra Facundo e Valentina nunca conseguiu separar o luto da suspeita. A Valentina tinha 16 anos quando o caso aconteceu, ela tava nos Estados Unidos fazendo intercâmbio e através de uma ligação feita pelo pai que ela descobriu que a mãe tava morta. Toi entrou direto num país que já tinha escolhido a narrativa do caso. Já o Facundo tinha 19 anos e era um estudante de direito. Em menos de 6 meses ele passou de filho em luto pra suspeito
O assassinato da própria mãe. Como eu falei pra vocês, ele foi investigado por 5 anos e meio. Ele esteve a ponto de ser preso e ele tinha muito medo de falar sobre a mãe e falar sobre o caso, porque ele achava que tudo que ele dissesse podia ser usado contra o pai dele, né? Que foi acusado depois dele. Quando a Netflix lançou o documentário sobre esse caso ano passado, foi a primeira vez que os filhos, né? Da Nora decidiram falar publicamente sobre tudo que eles passaram.
Então, ali eles estavam falando não como suspeitos, não como filhos do acusado, mas sim como filhos da Nora.
disseram que eles foram as principais vítimas do caso. Já faziam 16 anos que o caso tinha acontecido e ninguém tinha sido condenado. E enquanto a justiça errava, a imprensa amplificava cada erro. Nesse ponto, é muito importante eu ressaltar o quanto a imprensa foi horrível na vida deles, porque o crime tinha acabado de acontecer. Eles publicavam o que eles bem entendiam, teoria, eles publicavam como se fosse verdade. Quando a polícia tinha ali alguma coisa que podia ajudar na investigação, uma nova hipótese pra investigação,
Então, toda essa parte da imprensa foi muito, muito cruel com a família. E no epicentro dessa cobertura local estava Hernan Vaca Narraba, o diretor da revista El Sur de Rio Quarto. Ao contrário do que boa parte da imprensa nacional fez, que foi cobrir o caso. Como um turista de escândalo, né, quando aconteceu, o Hernan cobria em profundidade. Então, no jornal eles publicavam absolutamente tudo e ele tinha uma pessoa que ele tinha certeza que era a culpada, que no caso era o Marcelo.
E aí, o mais doido é que ele escreveu dois livros falando sobre isso. Ele publicou ao longo dos anos vários artigos investigativos que falavam sobre a intimidade da família. Então, é aí que está o problema nesse trabalho investigativo. Porque ele não estava só investigando um caso, né? Fazendo esse trabalho de investigação jornalística. Ele ultrapassava tudo isso e divulgava coisas que não tinham nada a ver. E que ele não tinha o direito de fazer isso, sabe? Então, por exemplo, foi ele que publicou a orientação sexual do Facundo.
formal, né, que foi feita depois, então ele publicou isso como se fizesse alguma diferença pro caso. Falando sobre a Valentina também, não foi diferente, ele publicou o número do celular dela e um cartão postal que ela teria enviado dos Estados Unidos, então ele não tinha limites realmente do que ele publicava, ele não tava nem aí, e aí a família processou ele, esse processo correu por mais de 15 anos e ele nunca recuava. Nem quando a justiça condenou ele, ele recuou e realmente falou, né, que ele tava errado, que ele foi longe demais,
Então, no documentário, ele ainda aparece falando sobre a tese dele como se ela fosse verdadeira e ainda batendo nessa tecla. Então, ele continua achando que tudo que ele fez está certo e que o Marcelo é o culpado. Então, ele aparece até inconformado. Mas isso só aconteceria depois, né? Então, antes disso tudo acontecer, o que faltava na investigação era apenas alguém olhar para uma coisa que estava ali o tempo todo. O Pablo Jávega assumiu o caso e foi o primeiro a olhar para toda a investigação com um olhar novo.
Ele chegou com uma abordagem radicalmente diferente. Ao invés de começar a perseguir hipóteses, que era basicamente o que os outros já tinham feito antes dele, ele decidiu pegar todos os arquivos do caso e revisar tudo. Ao todo, eram mais de 7 mil páginas distribuídas em mais de 30 volumes. Além de revisar tudo isso, ele decidiu pedir novas amostras de DNA para várias pessoas que tinham circulado ali na casa da família antes do crime.
Então, em setembro de 2023, ele ordenou as novas perícias. Os resultados chegaram em 2024.
um DNA que foi encontrado no cinto do roubão da Nora. O mesmo objeto usado para estrangulá-la. Aquele DNA era compatível com um homem chamado Roberto Barzola, de 45 anos. Um field pelo público que também foi encontrado na cena, também foi comprovado que pertencia a ele. O resultado foi comprovado pelo FBI, que validou a coincidência genética. Mas, afinal, quem era esse homem? Roberto Carlos Barzola nasceu em 8 de janeiro de 1980, em Rio Quarto.
Na época do crime, ele tinha 26 anos e trabalhava como instalador e ilustrador de pisos
de madeira. Ele foi contratado por um carpinteiro chamado Walter Gonzalez, que realizava obras na casa da família naquela mesma semana de novembro de 2006. Ou seja, ele não era alguém de fora, era alguém que havia estado naquela casa naqueles dias e naqueles cômodos. Ele declarou como testemunha seis vezes ao longo da investigação. Em 2022, voltou à sala de audiências durante o julgamento do Marcelo, dessa vez diante do júri popular.
Ele descreveu sua relação com Nora como a frase que deveria ter parado tudo. Ele disse entre aspas,
pelo pó de serragem. E então, ele contou o que ele fez no dia do crime. Ele disse que naquela manhã havia tentado trabalhar num condomínio próximo antes de ir pra casa da Nora, mas que ele não pôde usar sua máquina porque o piso da casa tava molhado pela chuva da noite anterior. Depois, ele foi até a casa da Nora pra trabalhar. Ele disse que chegou na porta, mas não tocou o interfone. Ele ficou esperando até o patrão aparecer.
Só que o patrão não apareceu, e aí ele foi embora. Ninguém achou estranho. Quando o investigador Pablo e a sua equipe revisaram os depoimentos anos depois, eles cruzaram a história do condomínio com os registros.
Então, o Pablo foi direto, ele disse entre aspas.
às quatro e às dez da manhã. Isso estava nos autos do caso o tempo todo. Nenhum fiscal tinha enxergado. E tem mais. Em 2007, cinco meses após o crime, a família contratou uma empresa americana formada por ex-agentes do FBI para fazer uma revisão independente da investigação. O relatório apontou diretamente para Roberto como suspeito e recomendou a coleta do DNA. O advogado da família fez o mesmo pedido formalmente à justiça. Então, o fiscal Geraldo de Córdoba admitiu anos depois de ter recebido o documento e que o Javier tinha conhecimento daquele conteúdo. Mas o relatório
incorporado ao processo e o pedido da coleta de DNA foi negado. Enquanto isso, os anos foram passando, Roberto seguiu sua vida, se casou, teve filhos, se tornou avô, deixou o trabalho com pisos e passou a trabalhar como caminhoneiro, transportando grãos pelo interior da Argentina. Ele continuou morando em Rio Quarto e sem antecedentes criminais, segundo seus advogados. Por quase duas décadas, foi apenas uma testemunha esquecida no processo que perseguiu as pessoas erradas.
Até que em 2023, quando Pablo ordenou um novo rastreamento genético em larga escala, o nome voltou
a lista, né, o nome do Roberto. Ele era a 39ª pessoa a ter o DNA coletado. A compatibilidade de DNA dele apareceu no cinto do roupão oito vezes, além do pelo público encontrado no corpo da Nora. A testemunha esquecida havia se tornado agora o principal suspeito do caso. O mais doido é que as provas pra chegar até ele nunca precisaram ser construídas. Elas estavam ali na investigação do caso desde o primeiro dia. Roberto foi formalmente acusado no final de 2024, 18 anos após o crime. E imediatamente a sua defesa fez o que a matemática parecia
Então, eles pediram o encerramento do caso por prescrição. O Código Penal Argentino estabelece que o delito de abuso sexual com acesso carnal seguido de morte prescreve em 15 anos. Como o crime tinha acontecido em 2006, o crime já tinha prescrito. Em outubro de 2025, a Câmara Criminal Correcional e de Acusação de Segunda Nominação do Rio Quarto declarou a ação penal extinta por prescrição. Considerou que os períodos em que Marcelo e Facundo foram investigados não podiam ser contados como suspensão do prazo.
Mas o investigador não recuou. Com um relatório de 357 páginas detalhando provas, testemunhos e laudos periciais, ele pediu a elevação a julgamento de qualquer forma. Seja em processo penal ordinário, seja no chamado julgamento pela verdade, mecanismo utilizado quando o crime já não pode ser punido penalmente, mas ainda pode ser investigado para reconstruir oficialmente o que aconteceu. A resolução sobre a prescrição ainda está pendente no Tribunal Superior da Justiça de Córdoba, mas enquanto o destino do Roberto seguia em aberto,
começou a tomar forma, dessa vez contra os próprios responsáveis pela investigação. Em novembro de 2025, a família apresentou uma denúncia formal pedindo o impeachment dos três primeiros fiscais do caso. O Javier, que conduziu a investigação de 2006 a 2015, o Daniel, que assumiu em seguida por cerca de um ano, e Luiz, que ficou até 2022. A acusação da família era de mau desempenho e negligência grave. Em dezembro de 2025, o tribunal responsável por julgar magistrados e funcionários judiciais da província admitiu por unanimidade os três pedidos.
Esse era um fato inédito. Nunca antes, três funcionários judiciais haviam sido levados a um julgamento político pela mesma causa. Em 24 de fevereiro desse ano, o fiscal-geral Juan Manuel Delgado formalizou a acusação, um documento de mais de 70 páginas. A tese central é que, com elementos suficientes para suspeitar do Roberto desde o início, os três fiscais o ignoraram sistematicamente enquanto se voltavam contra a família. O relatório dos ex-agentes do FBI de 2007, os pedidos da família para que o DNA do Roberto fosse coletado,
no próprio depoimento dele, tudo foi descartado. O processo tem prazo, então a sentença deve ser proferida até dia 28 de maio desse ano. Se não for cumprido, cai. Os três continuam em suas funções durante o julgamento. Nenhum pediu licença. Se condenados, serão destituídos. Paralelamente, a questão da prescrição do crime pode chegar à Suprema Corte. O Pablo acredita que o argumento de que a negligência dos fiscais anteriores funcionou como um obstáculo deliberado à investigação pode ser acolhido pelos tribunais, o que permitiria rever essa prescrição
do caso. A família também estuda recorrer a instâncias internacionais. Enquanto isso, o Roberto continua livre. E aí, eu fico com muita raiva nesse ponto, porque como assim ele tá livre, né? Eles têm agora a prova, a prova do DNA, a prova do pelo. Foi ele, tem tudo que eles investigaram na época, as coisas que ele falou, tipo, tá ali, mais claro do que nunca. Mas aí o crime prescreveu, o que é um absurdo. Eu odeio isso, eu acho que nenhum crime deveria prescrever jamais, especialmente
em crimes de homicídio, porque agora que eles têm ali a prova e ele poderia finalmente ser julgado, prescreveu. Então, ele segue livre, né? Esperando pra ver o que vai acontecer. Então, a gente não sabe até hoje, no momento que eu tô gravando esse vídeo, se eles vão conseguir fazer alguma coisa sobre isso ou não. Então, nesse ponto, existem duas batalhas judiciais acontecendo ao mesmo tempo, sem desfecho. A primeira é essa que eu citei pra vocês agora, né?
A família e o investigador, o Pablo, lutando juntos pra que eles consigam levar o caso
frente, né, que não se encerre por ali porque o crime prescreveu, pra que de alguma forma o culpado seja julgado e pague pelo que ele fez. Como eu falei pra vocês, a prescrição pode ser revertida caso o Tribunal Superior ou a Suprema Corte entendam que a negligência deliberada dos fiscais anteriores funcionou como um obstáculo à justiça. Seria uma decisão sem precedentes no direito argentino, mas é uma aposta, pode acontecer. E a segunda, o Juan, né, o fiscal que formalizou a acusação
contra os três fiscais anteriores que poderiam ter solucionado o caso, mas foram incompetentes. Então, assim, pra vocês entenderem essa parte, os três têm de 5 a 10 dias pra ter uma defesa, com audiência marcada e sentença obrigatória até dia 28 de maio desse ano. Se eles forem condenados, eles serão destituídos. O cenário perfeito seria se a Suprema Corte decidisse que realmente o descaso dos fiscais foi algo maior do que o crime ter, né, já prescrito. Então, dessa forma, o Roberto
levado o julgamento. Nesse caso, as mesmas falhas que garantiram a impunidade dele por todos esses anos, seria o motivo a levar ele finalmente, né, pro banco dos réus. Mas, nada disso aconteceu ainda, resta aguardar o desfecho desse caso, que como eu falei pra vocês, vai acontecer esse ano. Se a justiça chegar, vai ser esse ano, mas assim, é muito doido pra mim pensar que tava lá o tempo todo, e que três fiscais não conseguiram ver o que tava bem na frente deles. Esse é um caso muito absurdo, porque fala sobre descaso,
na investigação, tudo o que fizeram com essa família que tava, né, lidando com uma perda horrível, um caso de assassinato, e aí, de repente, todo mundo da família, né, virou suspeito do caso, que é absurdo. E agora que eles têm uma pessoa, né, pra culpar e que tem provas, né, com o DNA, o crime prescreveu. É muito doido pra mim ver todos esses erros cometidos justamente pelas pessoas que deveriam ter solucionado o caso, né? Toda essa negligência, isso também é um crime.
Mas nesse caso, ninguém vai a julgamento por ter cometido esse crime contra a Nora. Quero muito saber o que vocês acharam. Me conta aqui nos comentários. Assim que tiver atualizações, eu trago pra vocês. Mas esse é um caso que me deixa com muita raiva. Tenho documentário na Netflix pra vocês assistirem e ficarem com mais raiva ainda. E é isso. Pra mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveite pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.