A HERDEIRA ERA VÍTIMA OU GUERRILHEIRA? | Caso Patty Hearts #570
Em fevereiro de 1974, uma jovem de 19 anos foi sequestrada em Berkeley, Califórnia. Dois meses depois, câmeras de segurança a flagraram empunhando uma arma em um assalto a banco. Ela se tornou revolucionária ou foi vítima de lavagem cerebral? Um caso sobre manipulação, poder e a linha tênue entre vítima e cúmplice. #570
- Sequestro de Patty HearstInvasão do apartamento em Berkeley · Detenção em armário · Isolamento sensorial · Ameaças de morte · Abuso físico e psicológico
- Ataque Assembleia IraParticipação armada de Patty · Imagens de segurança · Rotura de 10 mil dólares · Manifestação de combatividade · Debate sobre voluntariedade
- Segurança OperacionalAdvogado FLee Bailey · Estratégia de defesa baseada em lavagem cerebral · Testemunho de Patty · Decisão judicial crucial do juiz Oliver Carter · Invocação da Quinta Emenda 42 vezes
- Responsabilidade PessoalDebate central do caso · Vítima versus cúmplice · Linha tênue entre os dois · Impacto de trauma na agência pessoal · Indagação sobre mente humana em extremos
- Dosimetria PenalCulpa por assalto a banco e uso de arma · Sentença máxima de 35 anos · Redução para 7 anos pelo juiz Carter · 21 meses de cumprimento efetivo · Tratamento mais severo que outros membros da SLA
- Incidente na loja Mel's Sporting GoodsRoubo de meias pelo William · Confronto com segurança · Decisão de Patty de ficar e atirar · Disparo contra a loja · Evidência de comprometimento voluntário
- Transformação PessoalRenomear para Tânia · Gravações de áudio radicais · Negação de lavagem cerebral · Identificação com ideologia revolucionária · Mudança de lealdade
- Simbionese Liberation Army (SLA)Fundação e ideologia · Liderança de Donald DeFreeze · Membros do grupo · Primeiro ato de violência contra Marcos Foster · Tática de sequestro para visibilidade
- Captura prisão PattyLocalização em apartamento de San Francisco · 18 de setembro de 1975 · Prisão com outros membros da SLA · Autodeclaração como guerrilheira urbana
- Trauma e ComportamentoOrigem do termo em 1973 · Fenômeno de refém se apegar ao captor · Popularização através do caso Patty · Debate sobre validade diagnóstica · Questionamento psiquiátrico da síndrome
- Violencia ArmadaCerco da polícia ao esconderijo · 9.000 disparos entre grupo e polícia · Morte de seis membros da SLA · Fuga de Patty, Emily e William · Cobertura de TV ao vivo
- LiteraturaLivro 'Every Secret Thing' de 1981 · Manutenção da versão de vítima · Defesa contra acusações de culpa · Descrição de abuso e tortura · Reivindicação de inocência
- Questoes AdministrativasUso de declarações posteriores como evidência · Direitos civis e registro criminal · Diferença entre comutação e perdão · Responsabilidade criminal em coerção · Direitos eleitorais após perdão
- Cobertura SensacionalistaCapa de Newsweek 7 vezes · Julgamento sensacional do século · Transmissão ao vivo de TV · Fotografia icônica com metralhadora · Interesse público nacional
- Relacionamentos FamiliaresCasamento com Bernard Lee Shaw · Duas filhas: Lydia e Gillian · Trabalho na empresa familiar · Carreira em filmes e televisão · Criação de buldogs franceses · Vida privada em Canerick
Patricia Campbell Hurst nasceu em 20 de fevereiro de 1954 em San Francisco, Califórnia. Ela era a terceira de cinco filhas de Randolph Pearson Hurst e Catherine Wood Campbell, mas pra vocês entenderem quem era a Patty, que era o seu apelido, é preciso entender de onde ela vinha. A Patty era neta de William Randolph Hurst, um dos magnatas da mídia mais poderosos e controversos da história americana. Ele construiu o maior império de jornais, revistas, cinejornais e produção de filmes do mundo.
O personagem Charles Foster Kane era uma referência clara a William, que inclusive tentou impedir o lançamento do filme usando toda a sua influência e rede de jornais, mas ele não conseguiu. Ele controlava revistas como a Cosmopolitan, Harper's Bazaar, Good Housekeeping, além de jornais em cidades como Chicago e Boston. Ele foi pioneiro do jornalismo amarelo, um estilo sensacionalista que priorizava vendas sobre a verdade. Suas reportagens sobre a Revolução Cubana, muitas vezes falsas,
A Pathy foi criada principalmente em Hillsborough, um subúrbio rico de São Francisco, e ela frequentou a Crystal Spring School for Girls, a Sacred Heart em Athens,
Tertão e a Santa Catalina School em Monterrey. Todas essas escolas são particulares e de elite. A adolescência da Pathy foi marcada por rebeldia. Ela brigava com freiras na escola católica, experimentou LSD e começou sua vida sexual aos 15 anos. Era uma jovem inquieta, buscando seu próprio caminho longe das expectativas da família. Foi na Crystal Springs School que a Pathy conheceu o Stephen Weed, um professor de matemática que acabou se tornando seu namorado e, mais tarde, seu noivo.
Quando Stephen recebeu uma bolsa de estudos na Universidade da Califórnia, em Berkeley, a Pathy foi com ele.
e como estudante do segundo ano cursando História da Arte. O casal morava junto no apartamento número 4, na rua Benvenil, 2603. Segundo Steven, em seu livro My Search for Patty Hearst, a vida deles era agradavelmente rotineira, com estudos, cinema, nos fins de semana, lavanderia e compras de supermercado. Ele disse que eles eram apenas duas pessoas apaixonadas e planejando se casar. A Patty era uma estudante universitária de 19 anos, politicamente desinteressada, vivendo uma vida comum de classe média alta com o seu noivo.
Em 1974, o casal estava no apartamento deles em Berkeley. Era mais ou menos 9 horas da noite, a Patty estava usando um roupão até que alguém bate na porta. Quando eles abriram a porta, um grupo de homens e mulheres armados invadiram o apartamento deles. Esse era um grupo radical chamado Symbionese Liberation Army. Eles agrediram o Steven brutalmente usando a coronha das armas. Um vizinho que ouviu tudo aquilo acontecendo, tentou ajudar, também foi espantado.
E aí, eles arrastaram a Patty para fora do apartamento e colocaram ela dentro de um porta-malas.
uma gritaria, várias pessoas saíram para a rua para ver o que estava acontecendo. Essas pessoas foram forçadas a se proteger e não puderam ajudar a Patty porque aquele grupo estava armado e eles começaram a disparar. Então, a Patty tinha sido sequestrada, né? Ela desapareceu junto com o grupo e esse acabou se tornando um dos casos mais estranhos do FBI. E assim, antes do sequestro acontecer, pouco se sabia sobre esse grupo, né?
E aí, eu vou falar um pouco sobre ele agora para vocês entenderem o que aconteceu depois do sequestro.
ou simplesmente SLA, era um grupo que tinha sido fundado em 1973 em Berkeley, na Califórnia, e era composto principalmente por membros de classe média. A ideologia era confusa e incoerente, uma mistura de radicalismo, de esquerda, anarquismo e extremismo revolucionário. O nome do grupo era uma adaptação do conceito de simbiose, sugerindo uma união revolucionária entre diferentes grupos oprimidos. O líder do grupo era Donald DeFriese, que era um ex-presidiário fugitivo que se autodenominava General Field Marshall Sink.
Escapado da prisão, ele se juntou a jovens brancos radicais de Berkeley. Além do Donald, o restante do grupo era composto por Joe Ramiro, Patricia Sotis, Nancy Ling Perry, que dividiam a liderança com o Donald, além de William e Emily Harris, Angela Atwood, Camilla Hall e Willie Wolfe. O lema deles era, morte é o inseto fascista que suga a vida do povo. Eles se viam como guerrilheiros urbanos em guerra contra o governo dos Estados Unidos e o sistema capitalista.
significativo. O grupo assassinou Marcus Foster, superintendente de escolas em Oakland, e eles também feriram o seu vice, Robert Blackburn. Marcus era o primeiro superintendente negro de Oakland e estava trabalhando para melhorar a educação na cidade. O SLA o considerou um fascista porque entenderam erroneamente que ele apoiava um plano de carteiras de identificação obrigatórias para estudantes. O Marcus havia inicialmente apoiado a ideia, mas depois retirou seu apoio.
Mesmo assim, o SLA o executou. Esse assassinato alienou o SLA da comunidade radical local. Mataram um líder negro
progressista não era exatamente a revolução que outros grupos de esquerda apoiavam. Mas, pro grupo, foi apenas o começo. O Joe Ramiro e o Russell Little foram presos pelo assassinato do Marcos. Pra conseguir libertá-los e também pra ganhar a visibilidade nacional, o grupo decidiu sequestrar alguém importante. Foi aí que eles tiveram a ideia de sequestrar a Patty. Três dias após o sequestro, o grupo enviou um comunicado a uma rádio de Berkeley anunciando que havia sequestrado a Patty.
Eles a declararam uma prisioneira de guerra. A demanda inicial era a libertação de Joe e Russell, mas o estado da Califórnia se recusou a libertá-los.
Então, a SLA mudou de estratégia. No dia 12 de fevereiro, uma rádio transmitiu uma gravação em que a Patty exigia que sua família distribuísse comida para os pobres em troca da sua libertação. A demanda inicial era de 70 dólares de comida para cada pessoa necessitada na Califórnia, uma operação que custaria cerca de 400 milhões de dólares. Randolph Hearst, o pai da Patty, obteve um empréstimo e organizou a doação imediata de 2 milhões de dólares em alimentos para os pobres da área da Bahia de San Francisco por um ano, através de um programa chamado People in Need.
As multidões eram muito maiores do que o esperado e pessoas ficaram feridas quando trabalhadores em pânico jogaram caixas de comida de caminhões em movimento. Mesmo assim, o SLA se recusou a liberar a Patti. Durante esse tempo, ela estava sendo mantida em cativeiro e segundo um depoimento que ela deu, eles mantinham ela com os braços amarrados e os olhos vendados dentro de um armário. Ela disse que o Donald já ameaçava de morte o tempo todo e ela só podia sair do armário no momento das refeições.
E ainda vendada, ela começou a participar das discussões políticas do grupo. Com o passar das semanas,
eles decidiram deixar uma lanterna com ela dentro do armário, pra que ela pudesse ler os tratados políticos do SLA, e eles queriam que ela memorizasse eles também. E ela disse que ficou presa ali por semanas. Ela disse que o Donald falou pra ela que o Conselho de Guerra tava discutindo se eles iriam mantê-la ou não, e que se eles decidissem não mantê-la com eles, ela seria morta. Então, era pra ela pensar nisso como uma possibilidade.
Ela disse que ela, então, acomodou os seus pensamentos pra coincidir com os deles. Durante o período de cativeiro, ela disse que foi abusada por dois membros,
o Willie Wolfe e o Donald DeFreeze. Segundo ela, o Willie alternava entre momentos de agressão e de gentileza, o que gerou interpretações contraditórias sobre a relação dos dois. Ela diz que foi mantida sob ameaça, que ela ficava trancada, então ela meio que perdeu a noção de tempo também, ela foi abusada. Não só abuso físico, mas psicológico também. Ela diz que foi isolada e privada sensorialmente. No dia 3 de abril de 1974, dois meses após ser sequestrada, a mídia divulgou um áudio,
onde ela dizia que ela tinha se juntado ao SLA. Ela disse que o seu nome agora era Tânia, que era uma homenagem à Tamara Banke, companheira do Che Guevara na Revolução Cubana. Na gravação, ela denunciou a sua família como os porcos Hurst, e ela disse que o seu noivo, Stephen Whitty, era um porco machista e sexista. As pessoas começaram a achar que ela tinha sido submetida a uma lavagem cerebral, mas ela disse que essa ideia era ridícula.
Até que 12 dias depois, no dia 15 de abril, câmeras de segurança do banco Ibernia, que fica no distrito Sunset de São Francisco,
Capturaram imagens que chocariam a América. A Patty estava lá empunhando uma carabina M1. Durante um assalto ao banco do SLA, ela gritou, eu sou Tânia, todos contra a parede. Durante o assalto, dois homens entraram no banco e foram baleados e feridos pelo SLA. Uma testemunha pensou que a Patty estava vários passos atrás dos outros quando correram para o carro de fuga, mas as câmeras mostraram claramente que ela estava armada, que ela participou e que ela deu ordens.
O banco foi roubado em 10 mil dólares. O procurador-geral dos Estados Unidos, William B. Saxby,
Patty era uma criminosa comum e não uma participante relutante no assalto ao banco. Com isso, um mandado de prisão foi emitido contra ela. A fotografia da Patty em pé, na frente da bandeira do SLA com uma metralhadora na mão, se tornou um dos símbolos mais duradouros do caso. A expressão em seu rosto era misteriosa e sujeita a muitas interpretações diferentes. Todo mundo olhava para aquela fotografia e se perguntava de qual lado ela está.
A imagem gerou um debate nacional que persiste até hoje. No dia 16 de maio, um mês após o assalto ao banco e Bernia,
e Emily Harris entraram na loja Mel's Sporting Goods em Inglewood, subúrbio de Los Angeles, para comprar suprimentos. Enquanto Emily pagava no caixa, William decidiu roubar um par de meias. Um guarda de segurança percebeu e tentou prendê-lo, colocando uma algema em seu pulso esquerdo. Houve uma luta e uma pistola calibre .38 caiu da cintura do William. Do outro lado da rua, Patty estava de vigia em uma van vermelha Volkswagen.
Quando viu o que estava acontecendo, ela pegou uma carabina semiautomática e começou a atirar na placa da loja. Os tiros racharam o concreto e quebraram a vitrine. Um deles rico chitiou e cortou a testa
da esposa do dono da loja, a senhora Hilt. Todos dentro da loja se abaixaram para se proteger. William e Emily fugiram e pularam na van com a Pathy que dirigia. Eles conseguiram escapar. Esse incidente foi crucial para a percepção pública do caso. No momento em que os dois estavam dentro da loja, a Pathy estava do lado de fora, na van, né? Ela tinha a chave da van, ela poderia ter entrado na van e saído dali, mas ela preferiu ficar, inclusive atirou contra a loja.
Ela decidiu ficar ali quando viu que os companheiros dela estavam em perigo, começou a atirar, inclusive
atirou primeiro com uma arma ela viu que eles não saíram da loja, então ela pega outra arma e começa a atirar de novo ela atirou várias vezes e por sorte não pegou em ninguém e aí ela conseguiu que ela queria que eles fossem soltos ali da loja então eles entram na van e ela sai dirigindo. Esse foi o momento que provou pra muitas pessoas que ela não era apenas uma vítima do grupo, mas sim parte do grupo, já que ela decidiu ficar e ajudar os dois companheiros ao invés de simplesmente entrar na van e fugir dali. Após esse incidente
Essa vã que eles estavam dirigindo foi abandonada em um local e a polícia encontrou essa vã e dentro tinha um ticket de estacionamento que tinha um endereço em Los Angeles. Mas quando eles chegaram lá, o SLA já tinha visto o que tinha acontecido na loja com o tiroteio e tudo mais, então eles já tinham fugido. Seis membros do SLA decidiram permanecer em Los Angeles, só que eles foram para outro esconderijo. No dia seguinte, 400 policiais do Departamento de Polícia de Los Angeles, a Patrulha Rodoviária da Califórnia, o FBI e o Corpo de Bombeiros de Los Angeles cercaram o bairro.
O esconderijo e toda essa operação que eles estavam fazendo estava sendo transmitida ao vivo na TV. Inclusive, nesse dia aconteceu um dos maiores tiroteios da história policial, porque o grupo, né, os membros que estavam lá decidiram não se render, eles decidiram lutar. Então, tanto o que eles dispararam quanto o que a polícia disparou contra eles foram cerca de 9 mil disparos. Seis membros do SLA foram mortos numa combinação de tiros com inalação de fumaça por conta das chamas que invadiram lá o local. E entre eles estavam.
Nancy Ling Perry, o Donald DeFries, Patricia Soadsake, Camilla Hall, Angela Atwood e o Willie Wolfe. A Patty, junto com a Emily e o William, que foi quem ela protegia lá na loja, não estavam nesse momento no esconderijo, então eles não foram mortos. Eles tinham visto toda a cobertura da TV no dia anterior, então eles conseguiram fugir. Inicialmente, muitas pessoas acharam que ela tinha morrido no tiroteio, mas não, ela conseguiu fugir e ficou foragida por mais de um ano.
Depois da morte desses seis membros do SLA, que inclusive eram membros bem importantes do grupo,
A Emily, o William e a Patty se sentiram isolados, né? Porque eles não tinham mais ninguém, então eles ficaram fugindo, cruzando o país, indo para vários lugares e eles iam sobrevivendo de pequenos roubos. Até que em 21 de abril de 1975, quatro membros do SLA decidiram assaltar um outro banco chamado Crooker, que fica em Carmichael, na Califórnia, e durante o assalto a Emily atirou em uma mulher chamada Mirna Lee Opsal, que era uma cliente do banco e ela estava fazendo depósito naquele momento, então ela faleceu no local.
A Mirna era mãe de quatro filhos, e depois, durante a fuga, quem dirigiu o carro de fuga foi a Pathy. Então, a polícia chegou à conclusão de que ela estava ciente dos disparos que aconteceram lá, mas ela nunca foi formalmente acusada de homicídio. E aí, finalmente, no dia 18 de setembro de 1975, a polícia consegue capturar a Pathy, que estava escondida em um apartamento em San Francisco. Ela foi presa junto com o Wendy Yoshimura, outro membro do SLA, e do William e da Emily.
Quando ela foi fechada na prisão, ela declarou sua ocupação como guerrilheira urbana.
Tinham se passado 19 meses desde o seu sequestro. Patty havia sido transformada de vítima de sequestro em fugitiva procurada por crimes graves. A questão que todo mundo queria saber era ela realmente havia se juntado ao grupo por vontade própria ou ela era uma vítima de lavagem cerebral. O julgamento da Patty começou em 4 de fevereiro de 1976, exatamente dois anos após ter sido sequestrada. O advogado de defesa dela foi o F. Lee Bailey, um advogado de Boston, Massachusetts, renomado por ter conquistado absolvições para o alegado estrangulado
do Salvador de Boston e para o médico Dr. Sam Shepard, acusado dessa ação de sua esposa. Bailey declarou que por 20 meses a Patty havia sido uma prisioneira de guerra cujas ações foram inteiramente governadas por seu desejo de permanecer viva. Ninguém contestava a presença dela no assalto ao banco Ibernia. A verdadeira tarefa do júri era decidir se ela havia agido voluntariamente ou não. Bailey esperava confinar o julgamento às circunstâncias do seu sequestro, aos maus tratos que ela sofreu e ao próprio assalto. O promotor James Brown Jr. estava igualmente determinado a estabelecer
que o comportamento da Patty antes e depois do assalto refletia sua participação voluntária no crime. E aí o juiz Oliver Carter tomou uma decisão crucial que prejudicou a estratégia da defesa. Ele permitiu que a promotoria introduzisse declarações e ações de Patty muito tempo depois do assalto ao Banco Ibernia, como evidência do seu estado mental no momento do assalto. Isso incluía gravações de áudio em que ela negava ser vítima de lavagem cerebral e declarava sua lealdade ao SLA. Então assim o júri ouviu a Patty dizer aos americanos em uma fita de áudio
ridícula. Contra suas próprias objeções pessoais, Bailey colocou Pat no banco de testemunhas. Ela descreveu seu sequestro como violento e que por quase dois meses, ela foi amarrada, vendada e confinada em um armário escuro, onde foi molestada por Willie Wolfe e Donald DeFries. Ela disse que o Donald a ameaçava constantemente de morte. Segundo seu testemunho, seus captores exigiam que ela parecesse entusiasmada durante o assalto e avisaram que ela pagaria com a sua vida por qualquer erro que acontecesse. Bailey forneceu fotografias mostrando que
membros do SLA, incluindo a Camilla Hall, apontaram armas pra Patty durante o assalto, sugerindo que ela estava sob coesão. Em referência ao tiroteio na Mel Sporting Goods e a sua decisão de não escapar, a Patty testemunhou que foi instruída durante todo o seu cativeiro sobre o que fazer em uma emergência. Ela disse que uma aula em particular tinha uma situação similar à detenção dos Harris pelo gerente da loja. Ela testemunhou, entre aspas, quando aconteceu eu nem pensei, eu só fiz.
E se eu não tivesse feito, e se eles tivessem conseguido fugir, eles teriam me matado. Durante o contra-interrogatório,
inúmeras perguntas dos promotores sobre suas ações após o assalto no banco, fazendo com que ela invocasse a quinta emenda 42 vezes, se recusando a responder para não se incriminar. O seu julgamento se tornou uma batalha de psiquiatras. O júri ouviu mais de 200 horas de testemunho psiquiátrico especializado. Até mesmo o juiz Carter pareceu adormecer durante as semanas de análise psiquiátrica que se seguiram. O advogado de defesa da Pathy, o Bailey, apresentou três especialistas psiquiátricos que testemunharam que o comportamento da Pathy foi resultado de lavagem cerebral
técnicas de persuasão coexertiva, semelhantes àquelas usadas por comunistas chineses em prisioneiros de guerra americanos durante a Guerra da Coreia. O comportamento dela foi diagnosticado como consistente com os traumas que ela havia sofrido. Um dos especialistas da defesa, Dr. Robert J. Lifton, professor de psiquiatria em Yale, era considerado um dos primeiros psiquiatras a realizar pesquisas extensas sobre psicologia de reforma do pensamento.
Ele testemunhou, entre aspas, é muito mais fácil quebrar as pessoas do que reconstruí-las. De fato, essa foi uma das verdadeiras lições
que aprendi com esse estudo contínuo. A mente é bastante frágil, ela pode ser quebrada. O governo chamou também seus próprios especialistas. O doutor Joel Ford, que havia testemunhado em mais de 200 casos criminais em todo o país, caracterizou a Patty como uma participante voluntária do SLA. Ele testemunhou que ela era uma pessoa forte, obstinada, independente, entediada, insatisfeita, em contato precário com sua família, não gostando deles até certo ponto, insatisfeita com o Steven, com quem ela estava há cerca de 3 anos no momento do sequestro. Ele disse que havia um vácuo,
algo faltando, uma emoção faltando, um senso de propósito na vida faltando, e que o SLA pareceu oferecer isso na superfície. Já o Dr. Harry Cozzell testemunhou como o segundo especialista do governo. Ele era médico licenciado com especialidade em psiquiatria e neurologia e havia sido diretor de um hospital estadual para criminosos sexuais. Dr. Harry foi eficaz durante o testemunho direto, revelando sua opinião de que Patty entrou voluntariamente no banco para roubá-lo. Ele disse que esse foi um ato de sua própria livre vontade.
de uma causa, e sua participação no assalto ao Ibernia havia sido um ato de livre-arbítrio. A maior crítica ao testemunho de Dr. Joel Ford foi que ele não tinha credenciais sólidas. O advogado de defesa da Pathy destacou o fato de que ele nunca havia publicado nada sobre lavagem cerebral ou persuasão coercitiva. Mas o Dr. Harry Cossel era de Harvard e tinha credenciais impecáveis. Em sua argumentação final, o promotor James Browning catalogou metodicamente cada ação que poderia indicar a simpatia da Pathy com o SLA. Desde os disparos na loja de artigos esportivos,
até a sua posse de um bracelete mexicano dado a ela por Willie Wolfe. O promotor achou incrível que ela não tivesse tentado escapar durante todo o tempo com o SLA. Já o argumento final da defesa do advogado dela, o Bailey, foi breve em comparação com o promotor. Ele disse entre aspas,
Houve conversas sobre ela morrer e ela queria sobreviver. No dia 20 de março de 1976, a Patty foi considerada culpada de assalto a banco e uso de arma de fogo na comissão de um crime. Ela recebeu a sentença máxima possível, que era de 35 anos de prisão, pendente de redução na audiência de sentença final. O juiz Carter mais tarde reduziu a sentença para 7 anos. Patty ficou chocada com o veredito. Muitos especialistas acreditavam que ela havia sido tratada mais duramente nos tribunais do que a maioria dos réus
sua família. Ela serviu 21 meses na prisão antes que sua sentença fosse comutada. Durante seu tempo na prisão, a Patty não recebeu medidas de segurança especiais lá, até que ela encontrou um rato morto na sua cama, no dia que o William e a Emily foram indiciados por sequestro. Os dois foram condenados por uma acusação simples de sequestro, em oposição ao sequestro por resgate, que é uma acusação bem mais grave, ou sequestro com lesão corporal, né?
Então, eles foram indiciados pelo sequestro da Patty e cada um recebeu uma sentença de 8 anos.
Em 29 de janeiro de 1979, como eu falei pra vocês, a sentença da Patty foi comutada. O presidente Jimmy Carter, que decidiu fazer isso, então ela passou um total de 21 meses na prisão. A pena original dela era de 7 anos, e o Carter disse que acreditava que ela tinha sido tratada mais duramente do que os outros membros do SLA, e que os eventos haviam começado após o sequestro, né? Então, depois que ela sai da prisão, na verdade, dois meses depois, ela acaba se casando com um policial chamado Bernard Lisch,
de San Francisco, que fazia parte da equipe de segurança da prisão que cuidava dela. Juntos tiveram duas filhas chamadas Lydia e Gillian. Depois de casar com a Pathy, o Bernard começou a trabalhar na empresa da família, né, da família dela, então ele trabalhou por três décadas como vice-presidente da segurança corporativa. Ele morreu em 2013, aos 68 anos, após uma batalha, né, contra o câncer. O casal estava junto há 34 anos, e aí, depois de tudo isso, a Pathy decidiu
escreveu um livro sobre o que ela passou durante aquele tempo. E no livro ela continua dando a mesma versão de que ela tinha sido realmente abusada, torturada e também passado por uma lavagem cerebral pelo grupo SLA. O livro se chama Every Secret Thing e foi lançado em 1981. Então, assim, apesar dela ter passado pouco tempo na prisão e a sentença dela ter sido comutada, continuava no registro dela. Depois que você tem o registro criminal, ele fica lá, então ela não podia votar. Ela não tinha plenos direitos civis, então...
o Jimmy Carter tinha comutado essa sentença, mas não tinha dado perdão a ela. Mas, durante anos, ele ficou pressionando o governo para que retirasse o registro criminal dela e dando, assim, o perdão total para ela. Ele disse que os anos se passaram, que ela se tornou uma boa esposa, uma boa mãe e que ela tinha levado uma vida exemplar desde que foi solta da prisão. O Carter já não era mais presidente quando ele fez esse pedido, né?
Então, ele fez o pedido ao governo Clinton. Então, em 20 de janeiro de 2001, horas antes de deixar o cargo, o presidente Bill Clinton
o perdão total a ela. Esse foi um dos 140 pedidos de perdão completo que ele assinou naquele dia, né? No seu último dia como presidente. Pra vocês entenderem, esse perdão é uma coisa que é importante e que é difícil de conseguir porque é um perdão completo pro crime que a pessoa cometeu. Então, assim, ela consegue ter os seus direitos civis novamente, consegue votar e até mesmo concorrer a cargos eletivos, por exemplo. Ela disse que ela não queria perdão porque isso implicaria em admitir a sua culpa e ela disse que ela não teve culpa. Ela mantinha
que todas as suas ações eram resultado de coerção e trauma. Desde sua libertação, ela levou uma vida relativamente normal e privada. Ela se envolveu em trabalhos de caridade para crianças com AIDS, para grupos de apoio e pacientes de Alzheimer. Também se tornou criadora de bulldogs franceses, com seus cães ganhando fitas vermelhas em competições. Nos anos 90, ela começou a atuar em filmes e televisão, depois de ser abordada pelo diretor de cinema John Waters.
Ela apareceu em quatro filmes dele, o Cry Baby, Serial Mom, Packer e Cecile B. Demented. Ela também atuou em Biodome,
em séries de televisão como Boston Common e Veronica Mars. Em 1988, ela estrelou o filme Patty Hearst, dirigido por Paul Schrader, que contou a história do seu sequestro e cativeiro. O filme permitiu que ela assumisse o controle de sua própria narrativa. Hoje, a Patty vive em Connecticut com suas duas filhas. A sua filha Lydia é uma modelo, atriz e personalidade de TV, casada com o comediante Chris Hardwick. E a Patty raramente dá entrevistas sobre sua aprovação, e ela decide manter a sua privacidade. Quando questionada, ela continua defendendo que foi uma vítima
sequestro, tortura, abuso e lavagem cerebral. Quanto aos outros membros do SLA, William e Emily foram presos em setembro de 75, condenados pelo sequestro da Patty. O William foi libertado em liberdade condicional em setembro de 2006 e a Emily em fevereiro de 2007. Depois disso, eles se divorciaram. A Kathleen Ann Soria, que usava o pseudônimo Sarah Jane Olson, foi acusada de colocar explosivos destinados a bombardear a polícia de Los Angeles, viveu como fugitiva por 21 anos, mudando seu nome e criando uma nova vida de classe média alta.
foi presa em 1999 e cumpriu 7 anos de uma sentença de 14 anos antes de ganhar a liberdade condicional em 2009. O Russell Little foi condenado pelo assassinato de Marcus Foster e sentenciado à prisão perpétua em 1975. Ele apelou, ganhou um novo julgamento em 1981, no qual ele foi absolvido. Já o Joseph Romero foi condenado pelo assassinato fatal de Marcus Foster e ele foi sentenciado à prisão perpétua em 1975 e continua cumprindo sua pena até hoje na Califórnia. Ele teve vários pedidos rejeitados de liberdade condicional e é o único
do SLA ainda preso. O caso da Patti se tornou um dos julgamentos mais sensacionais do século. Entre 74 e 76, ela apareceu na capa da revista Newsweek em sete ocasiões. Sua saga foi consagrada na história americana. O caso trouxe à tona questões importantes sobre coerção, livre-arbítrio e responsabilidade criminal. Também popularizou o conceito de Síndrome de Estocolmo, o fenômeno psicológico em que reféns desenvolvem sentimentos por seus captores.
O termo havia sido criado apenas um ano antes, em 73, após um assalto a banco em
como na Suécia, onde refém se apegaram aos seus sequestradores. Embora tenha sido amplamente usado pela imprensa para explicar o comportamento da Pathy, o termo nunca foi reconhecido como um diagnóstico médico oficial e permanece controverso entre psiquiatras e psicólogos. Mas, afinal, a Pathy era uma vítima do grupo SLA, uma vítima da Síndrome de Estocolmo, ou ela era, como a própria promotoria argumentou, uma jovem rebelde em busca de uma causa e que acabou encontrando um propósito, digamos assim,
grupo SLA. A maioria das pessoas acredita que a verdade não é nenhuma nem outra, mas está no meio dessas duas coisas. E até hoje permanece como uma das questões mais debatidas da história criminal americana. O que se sabe com certeza é que ela tinha 19 anos, ela foi sequestrada, ela foi abusada, mantida em cativeiro, mantida no escuro, torturada, ameaçada de morte e submetida a um abuso psicológico intenso. Nessas condições, dois meses depois, ela aparece em um assalto a banco, segurando uma arma. Se isso foi resultado de lavagem cerebral ou uma escolha
própria da Pathy, a gente nunca vai realmente saber, né, se é uma questão que permanece uma incógnita. Se a gente for pensar que ela realmente passou por uma lavagem cerebral e por muitos traumas e abusos, a gente começa a se perguntar o que acontece com a mente humana sob questões extremas. Eu acho que esse caso é um lembrete de que nem sempre a resposta pra um caso é simples. E que a linha entre ser vítima e cúmplice pode ser muito tênue e muito mais confusa do que a gente gostaria de acreditar. Então eu quero muito saber o que vocês
acham? Porque eu realmente acho muito confuso. Depois que ela foi absolvida, ela levou uma vida simples, uma vida normal com as filhas, ela se casou e tudo mais. Então, será que ela realmente não passou por uma lavagem cerebral e depois finalmente conseguiu sair de tudo isso e ter uma vida normal? Fora que antes ela também levava uma vida normal, né? Com o noivo dela em Berkeley. Então, o que vocês acham? Me conta aqui nos comentários.
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aproveite para avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.