O CASO CANDELA SOL RODRÍGUEZ #593
A Argentina parou por nove dias em agosto de 2011. Uma menina de onze anos havia desaparecido perto de casa, em Hurlingham, enquanto esperava as amigas na calçada. Dois mil policiais vasculharam o bairro. Celebridades lançaram campanhas. Dias depois, o país inteiro descobriu que a verdade era mais sombria do que qualquer pessoa havia imaginado. #593
- Desaparecimento de PessoasRotina da Candela no dia 22 de agosto de 2011 · Saída para a reunião dos escoteiros · Sequestro na rua Coraceiros com Bustamante · Testemunhas e a inação da vizinhança · Atraso e preocupação das amigas · Desespero da mãe e registro do desaparecimento
- Caso Candela Sol RodríguezDesaparecimento de Candela Sol Rodríguez · Investigação policial inicial · Buscas e mobilização social · Descoberta do corpo e autópsia · Acusações de tortura e provas plantadas · Nulidade do processo e soltura de suspeitos · Comissão especial e recomendações · Reconstrução da investigação · Operação contra tráfico e delação · Hipótese de vingança contra o pai · Primeiro julgamento e condenações · Segundo julgamento e absolvições · Renúncia da mãe como querelante · Impunidade e falta de mandantes
- Crime OrganizadoPirataria do asfalto · Tráfico de drogas · Policiamento corrupto e informantes · Miguel Ángel Vilaba (Mameluco) · Héctor Moreira (Topo)
- Impacto da Cobertura MidiáticaMobilização policial e expansão das buscas · Cobertura da imprensa e pressão pública · Marchas organizadas pela mãe · Recompensa anunciada · Campanha '48 Horas por Candela'
- Contexto social e familiarDescrição do bairro e da comunidade · Família de Candela Sol Rodríguez · O pai, Alfredo Rodrigues (Joancho) · A mãe, Carola · Vida cotidiana e rotina familiar
- O Resgate e a Morte de CandelaLigação de resgate para a família
Candela Sol Rodrigues Labrador nasceu em 16 de novembro de 1999 em Hurlingham, município da Grande Buenos Aires. O nome do meio dela não era Enfeite, só descrevia exatamente quem ela era. Uma criança luminosa em meio a uma família que vivia na fronteira instável entre a legalidade e o crime organizado que dominava a periferia oeste da província de Buenos Aires.
Herlingham fica a cerca de 17 quilômetros do centro de Buenos Aires. É uma região de classe trabalhadora, com ruas estreitas, casas modestas coladas umas nas outras, apartamentos pequenos onde famílias inteiras se apertam em dois ou três cômodos. As calçadas são irregulares, quebradas em alguns pontos, levantadas por raízes de árvores em outros. Os terrenos baldios acumulam lixo que ninguém recolhe. Os bares de esquina abrem cedo e fecham tarde, sempre com os mesmos homens sentados nas mesmas mesas e bebendo as mesmas cervejas.
É exatamente o tipo de lugar onde todo mundo se conhece. Onde os vizinhos sabem quem tá preso e quem acabou de sair. Onde se ouve o que não se deve ouvir e se aprende rápido a não fazer perguntas. Onde crianças brincam na rua até escurecer porque dentro dos apartamentos não tem espaço. Onde mulheres penduram roupa em varais que cruzam de janela em janela. Onde o som do ônibus na avenida principal mistura com música alta vindo de alguma casa, com o cachorro latindo e gente gritando. A Vila Tessê e o bairro onde a Candela morava era parte desse universo.
Ruas com nomes de batalhas e generais que ninguém lembra. Comércio pequeno, padaria na esquina, mercadinho de bairro, escola pública com grade alta, posto de saúde sempre lotado. Em cada quarteirão, alguém conhece alguém que conhece alguém envolvido com alguma coisa. A Candela cresceu nesse mundo sem perceber o peso dele. Na Escola de Educação Geral Básica, número 28, carteiro Bruno Ramírez, ela era a aluna escolhida para carregar a bandeira argentina nas formações oficiais.
Não era uma honra pequena. A de extinção era reservada para as melhores alunas em desempenho acadêmico e comportamento exemplar. Candela levava a responsabilidade a sério. Nas segundas de manhã, quando a escola inteira se reunia no pátio para o momento cívico, era ela quem segurava a bandeira azul e branca enquanto o hino nacional tocava. Ela gostava de estar no centro das atenções. Participava de aulas de teatro, dança e tango que a escola oferecia nas tardes de quinta-feira.
Professores lembram dela como uma garota extrovertida, talentosa, sempre disposta a subir no palco improvisado do ginásio para apresentações. Quando havia festa de fim de ano, dia das mães, dia dos pais, ela sempre estava lá. Ensaiava em casa, na frente do espelho, pedia para a mãe assistir, queria ser vista. Nas tardes de segunda, ela frequentava o grupo de escoteiros da paróquia São Paulo Apóstolo. Ia com as amigas do bairro e usava um lenço azul no pescoço.
Aprendia nós, cantava as músicas e participava dos jogos. Ela gostava especialmente das atividades ao ar livre, das caminhadas pelos arredores de Herlingham.
das fogueiras que faziam no terreno da paróquia quando o padre autorizava. Candela era vaidosa. Todos que a conheciam diziam isso. Ela prestava atenção nas roupas, ela queria estar bem vestida, bem penteada, bem apresentada. Pedia pra mãe comprar determinada blusa que tinha visto na vitrine ou alguma calça que uma amiga tinha. Quando ganhava roupa nova, experimentava em casa várias vezes. Combinava com diferentes sapatos, girava na frente do espelho pra ver como ela ficava.
Ela dividia o apartamento pequeno com a mãe, Carola, e dois irmãos. O pai, Alfredo Rodrigues, conhecido como Joancho, estava preso. Candela escrevia várias cartas pra ele, cartas decoradas, com a letra bem caprichada, dizendo que ela estava com saudade e não via a hora que o pai voltasse pra casa. Ela contava sobre a escola, sobre as aulas que ela estava fazendo, sobre os escuteiros, as danças, e sempre enfeitava o nome dela com corações nas cartas.
Ela também ajudava muito em casa, então ela cuidava da avó quando a mãe dela precisava trabalhar. Ela arrumava o quarto sem que pedissem, sem reclamar. Ela lavava a louça quando a mãe dela estava atrasada. Por todos os relatos, a Candela era uma menina muito responsável, uma menina muito boa e muito amada. Em agosto de 2011, ela tinha 11 anos de idade e ela estava naquela transição entre infância e começo da adolescência.
Ela ainda brincava com boneca às vezes, mas ela já tava prestando atenção em música e moda, em como se arrumar, ela percebeu que o corpo dela tava mudando, e aí a mãe dela comprava roupa nova pra ela e dava três meses, a roupa já não servia porque ela tava crescendo muito rápido. Basicamente ela era uma criança que ia pra escola de manhã, pros escoteiros à tarde.
que escrevia cartas pro pai na prisão e que ajudava a mãe dela em casa. A sua mãe, Carola, tinha três filhos, então a Candela era do meio e ela tinha outros dois irmãos, um mais velho e um mais novo. O mais novo tinha sete, ela onze e o mais velho quatorze. Então a mãe dela cuidava dos três e criava ele sozinha enquanto o pai tava preso.
O apartamento dela era pequeno, mas bem organizado. Então, tinha uma sala que também servia de cozinha. Tinha dois quartos e um banheiro bem pequeno. Mesmo trabalhando fora, o apartamento sempre estava super limpo e organizado. Era uma rotina repetitiva, exaustiva. Mas era a rotina de muitas mulheres ali da cidade.
A Carola conheceu o pai das crianças, o Joancho, muitos anos antes. E eles se mudaram várias vezes, moraram em vários lugares, mas sempre nos mesmos bairros. Que era ali na região de Hurlingham e San Martín. Então, era sempre ali naquela região. Esse apartamento que eles moravam, o Joancho tinha conseguido em uma negociação com o proprietário do imóvel, aparentemente. Nunca ficou muito claro como isso foi feito. Não havia nenhum contrato registrado em cartório. Não havia nada que comprovasse compra e venda. Mas...
Era ali que eles moravam. Era um acordo verbal, basicamente, né? Uma coisa muito comum em áreas de periferia, onde as pessoas não gastam dinheiro com isso. Então, não tinham documentos, nada. Mas era tudo basicamente falado, né? Então, às vezes, a palavra ali valia muito mais. Então, o John conseguiu a quantia que precisava, pagou pelo apartamento, conseguiu as chaves, e a partir daquele momento, o apartamento era deles, independente do que outra pessoa falasse.
A Carola, a mãe, ela não fazia muitas perguntas. Ela sabia que o Joncho tinha antecedentes. Que ele conhecia muita gente envolvida em crime. Mas ela preferia não saber de todas essas coisas. Nessa época, o Joncho estava preso por pirataria do asfalto. Que é um termo que a gente não usa para falar sobre assaltos de caminhões de carga. Então ela sabia disso, mas ela não tinha ideia da extensão dos problemas que o Joncho tinha acumulado.
Ele não era um ladrão que parava caminhões na estrada sozinho. Na verdade, ele fazia parte de crime organizado. A pirataria do asfalto funcionava com informação privilegiada. Alguém de dentro da empresa ia passar informações sobre rotas, horários, o que tinha na carga. E assim, a quadria esperava num lugar certo, na hora certa.
roubava a carga, né, parava o motorista, roubava a carga, vendia para um receptor e aí dividia o dinheiro. Então, o Jones estava envolvido nisso e as fontes não detalham exatamente qual era o papel dele dentro desse crime organizado. Então, a gente não sabe se era ele que abordava os motoristas, se era ele que conseguia essas informações, se era ele que cuidava...
da venda depois. O que se sabe é que ele foi preso em junho de 2010 por conta disso, né? Mas essa não era a única causa contra ele. Havia outras duas causas abertas. Ele era basicamente um réu primário. Ele nunca tinha sido condenado antes. Mas, definitivamente, ele não era desconhecido no sistema judicial. Então, em agosto de 2011, ele já estava preso há 11 meses. Então, ele estava cumprindo a pena e aguardando o seu julgamento. Ele recebia as cartas que a filha mandava e guardava todas elas.
O João Antio conhecia bastante gente, ele meio que transitava entre as facções criminosas, que operavam ali na região, mas isso só ficaria claro bem depois da investigação. Então ele conhecia gente envolvida em roubo de carga, em tráfico de drogas, ele conhecia policiais corruptos, informantes, receptores, conhecia todo tipo de gente que habitava ali entre a lei e o crime na periferia de Buenos Aires.
Mesmo com tudo isso, a Carola não tinha ideia de que os seus filhos poderiam estar em perigo. Então, no dia 21 de agosto de 2011, eles estavam comemorando o dia do Ninho, que eu acredito que seria algo muito parecido com o dia das crianças. É uma tradição celebrada em todo o terceiro domingo de agosto. É um dia de reunir as crianças, é um dia de entregar presentes para as crianças. Então, tem comida, tem festa.
tem fotos. É um dia pras crianças e pra, né, ter novas memórias boas com elas. Naquele dia de ninhos, eles foram pra casa da mãe da Carola, chamada Victoria, que morava ali a poucas quadras de distância. Inclusive, ela visitava a filha praticamente todos os dias. Então, ela levava comida, ajudava com as crianças, cuidava dos netos quando a Carola precisava. As irmãs da Carola, Sabrina e Betiana também moravam ali na região.
E a Betiana era uma presença constante ali, então ela aparecia no apartamento da irmã sem avisar, então elas ficavam conversando, tomando mate juntas, enquanto as crianças brincavam. Então naquele dia, a Carola levou os três filhos até a casa da mãe, que estava cheia, então as irmãs estavam lá, os primos.
Em todos os lugares da casa tinham pessoas. Então, no quintal, na cozinha, panelas no fogão, crianças correndo e brincando, adultos conversando. Dependendo de quem conta a história, eles diziam algumas massas diferentes, mas basicamente eles fizeram várias massas. Todo mundo comeu, tinha molhos diferentes, tinha pão.
E logo depois veio a sobremesa, a Victoria tinha comprado sorvete pra Candela, que ela gostava muito. Então tinha sorvete de creme, de chocolate, de doce de leite. E a Candela comeu duas tigelas. O padrinho da Candela também apareceu e ele levou um presente pra ela. Ele não comprou um presente, um brinquedo nem nada. Ele deu dinheiro pra ela, 75 pesos argentinos. E ele falou pra ela comprar calçadinhas que ela queria. A Candela ficou radiante, ficou muito feliz. Então ela pegou o dinheiro, contou, guardou. Depois decidiu...
pra mãe guardar, pra ter certeza que ficaria bem guardado, que aí no meio da semana elas iriam fazer a compra. Alguém sugeriu que a família tirasse uma foto, então a Candela aparece nessa foto segurando uma garrafa de refrigerante, e ela parecia feliz, sorrindo, e um céu cinza atrás. Céu de inverno, né? Então a família também incluía a Maria Alejandra Romagnoli, que é prima da Carola, então ela era dona de um buffet de um pequeno supermercado ali no bairro.
Ela tinha conseguido estabelecer um negócio próprio, que era uma coisa extremamente rara na região. O buffet funcionava em um ponto comercial pequeno, mas super bem localizado, então ela vendia marmitas, salgados, doces. O seu supermercado ao lado vendia coisas básicas, então produtos de limpeza, cigarro, bebidas, enfim. Não era fortuna, mas era pelo menos uma renda estável.
Até que em julho daquele ano, a Maria Alejandro sofreu um pesadelo. Ela e o primo do seu marido foram sequestrados quando eles saíam do banco, onde eles tinham sacado dinheiro do seguro de um carro. Então, eles foram sequestrados e eles exigiram 30 mil pesos para o resgate. A família toda se reuniu, eles juntaram o dinheiro e conseguiram pagar esse resgate e eles libertaram a Maria.
E aí, isso não foi investigado. Então, ela foi libertada dois dias depois. E não foi investigado a fundo. A polícia não fez nada sobre isso. Não teve nenhuma prisão. Nada. Era o tipo de crime que era muito comum ali na região. Quando ela voltou pra casa, todo mundo agradeceu que ela tinha voltado, que ela tava bem. Eles disseram que tinha sido sorte, porque poderia ter sido algo bem pior.
E realmente poderia, eles não faziam ideia que aquilo ia acontecer de novo. Na segunda-feira, 22 de agosto, tava no auge do inverno, então a temperatura tava abaixo de 10 graus. Extremamente frio. A Carol acordou cedo, preparou o café da manhã, então a Candela se sentou na mesa pequena pra tomar chá com pão com manteiga. E ela e a mãe ficaram conversando sobre as coisas que ela tinha pra fazer durante a semana. Então naquela tarde ela tinha os escoteiros.
A aula de teatro na quinta-feira, ela tinha prova de matemática na sexta, então a mãe lembrou ela que ela precisava estudar.
E aí, a Candela começou a se arrumar pra ir pra escola. Então, tava muito frio. Ela colocou uma roupa bem quentinha. Ela tava pronta, foi pra escola. Voltou pra casa, almoçou com a família. E às três e meia, ela saiu de novo. Então, ela desceu as escadas do prédio. Foi pra calçada da rua Coraceiros, com a Bustamante. E ela ia esperar pelas suas amigas ali. Elas tinham combinado de se encontrar juntas. Pra poder ir, né? Pra reunião dos escoteiros.
Que aconteceria na paróquia São Paulo Apóstolo. Então, era uma rotina delas, de toda segunda.
A sua mãe, Carola, ficou no apartamento, porque ela tinha várias coisas pra fazer. Ela tinha que lavar a louça, cozinhar, lavar roupa. Então, tarefas normais, tarefas comuns. E como era a rotina pra Candela sempre ir na segunda-feira pra reunião dos escoteiros, não era uma coisa que ela se preocupava, porque a filha sempre fazia isso e sempre voltava. Mas naquela segunda-feira, a Candela não chegou pra reunião.
Testemunhas que estavam na rua viram o que aconteceu, mas eles só diriam o que eles viram semanas depois, quando a investigação finalmente tinha começado, quando alguém foi de porta em porta perguntando se alguém tinha visto a menina. Então a pessoa disse que uma caminhonete Ford, que é com esse porte preta, parou na esquina. Três homens desceram e eles foram direto na candela. Eles agarraram a menina que gritava para que eles soltassem ela, e aí eles colocaram ela dentro do carro.
Tudo foi muito rápido, eles saíram com o carro e todo mundo que viu o que tinha acontecido ficou meio que paralisado, meio em choque, porque a gente precisa visualizar o bairro que eles moravam onde várias coisas assim aconteciam. Então, várias pessoas pensaram que podia ser um pai que tinha ido buscar filha que não era pra estar na rua, ou algum tio, ou alguma briga de família, alguma coisa assim.
Então, a maioria das pessoas pensaram que estava acontecendo ali alguma coisa de família e que não era pra ninguém se meter. E algumas pessoas até pensaram em ligar pra polícia, mas ninguém ligou. Ali onde eles moravam, ficar se metendo na vida dos outros, ficar chamando a polícia, enfim, qualquer coisa nesse sentido podia ser algo muito perigoso. Então, pra maioria das pessoas era melhor fingir não ter visto, ficar quieto, não se meter.
15 minutos depois, às 3h45 da tarde As amiguinhas da Candela vão até o apartamento dela Tocam a campainha A Carola atendeu e as meninas disseram que elas estavam preocupadas Porque elas tinham combinado de se encontrar ali na esquina Só que a Candela não tinha aparecido Então elas perguntaram se ela ainda estava em casa Elas já estavam atrasadas, precisavam ir pra reunião Então a Carola já ficou desesperada Desceu as escadas correndo Começou a procurar pela rua, perguntar pras pessoas A gritar pelo nome da Candela A CIDADE NO BRASIL
Ela procurou em todos os lugares ali próximos do apartamento. Perguntou pra todo mundo que tava ali, mas ninguém tinha visto nada. Então as horas começam a passar. De repente, quatro, cinco, seis da tarde, e ela ainda não tinha voltado pra casa. O celular dela tava desligado, então a Carola começou a ligar pra todas as amiguinhas dela. E ninguém tinha visto ela, ninguém sabia pra onde ela tinha ido. Ela decidiu ligar até pra paróquia, e o padre disse que a...
quando ela nunca tinha chegado pra reunião naquele dia. Às sete e meia, a Carola vai até a delegacia pra registrar o desaparecimento da filha. Ela sabia que cada minuto que se passava diminuía as chances de encontrar a filha dela, então nesse ponto ela já tava desesperada. Quando ela chegou, a delegacia tava quase vazia, tinha um homem ali atrás do balcão, ela começou a explicar pra ele tudo o que tinha acontecido, ele parecia não...
Tá dando muita atenção pra ela, então ela disse que a filha já tava desaparecida há quatro horas. O celular tava desligado, ela não voltou pra casa, ela tinha que ter ido pra reunião e não foi. Mas aquele policial parecia não tá tratando aquilo com a urgência necessária. O policial perguntou se ela tinha certeza que a filha não tinha ido visitar uma amiga, se a filha não tava na casa do pai ou se a filha não tava na casa de um namorado.
Ela disse que tinha certeza absoluta, o pai tava preso, a filha tinha só 11 anos, não tinha nenhum namorado e ela já tinha ligado pras amigas dela.
A Carola tentou mostrar pra aquele policial que ela sentia que tinha alguma coisa muito errada, mas ele disse pra ela ir pra casa, que crianças de 11 anos saem de casa e voltam depois, e que se ela não tivesse voltado até amanhã do dia seguinte, era pra ela voltar ali na delegacia. Mas a Carola insistiu, disse que não, que ele precisava naquele momento já registrar o desaparecimento, então ele pegou uma folha, começou a fazer perguntas, começou a anotar as respostas sem pressa alguma.
A Carola saiu da delegacia às dez e meia da noite, então ela ficou três horas lá, e ela sai com o papel na mão, registrando ali o desaparecimento da filha. Apesar daquele registro, né, burocrático ali, na mão dela, que provava que ela tinha ido até a delegacia, nada foi feito. Eles não começaram as buscas, não tinha nenhuma investigação que tinha sido iniciada, absolutamente nada.
Amanhã seguinte chega sem nenhuma notícia da Candela, então a Carola não tinha conseguido dormir, ela ficou a noite inteira sentada do lado do telefone esperando que ele tocasse, que alguém ligasse dizendo que tinha alguma informação sobre a filha, esperando que a filha aparecesse, talvez do nada, dizendo que tinha se perdido ou que tinha ficado na casa de uma amiga, qualquer coisa, mas nada disso aconteceu.
E a polícia começou a se mover nesse ponto, não parecia que era porque eles queriam, e sim por pressão, porque saíram algumas notícias sobre o desaparecimento. Então, saiu uma notícia no jornal, uma pequena matéria sobre isso. Saiu no jornal, então, já que as pessoas estavam falando sobre a menina desaparecida, aí eles começaram a investigar. Então, eles mobilizaram alguns agentes, montaram ali uma operação de busca.
E começaram a bater de porta em porta com uma foto da Candela perguntando se alguém tinha visto a criança. No dia 24, eles expandiram as buscas. Então, nesse ponto, eles saem ali da região e começam a procurar em outras regiões, outros bairros, em terrenos baldios, em partidos vizinhos, em casas abandonadas, em córregos. Helicópteros começaram a sobrevoar as regiões, começaram a usar cães farejadores também. Mergulhadores estavam procurando nos rios e, nesse ponto, tinham mais de 2 mil agentes envolvidos na busca.
Foi realmente uma operação massiva, então tinha muita gente envolvida. A imprensa estava fazendo toda a cobertura também, que inclusive ia ficando cada vez maior conforme os dias passavam, só que desde o início...
Parecia que estava tudo muito estranho. Tinham várias pistas concretas sobre o desaparecimento que eram simplesmente ignoradas. Várias testemunhas que tinham visto a caminhonete, tinham visto aqueles três homens levando a menina. E eles demoravam dias para contar o que eles tinham visto. Essas pessoas demoravam dias para serem ouvidas formalmente. Tinham várias casas suspeitas que também demoraram dias para serem vistoriadas. Então, depoimentos também se perdiam, informações...
Não chegavam onde precisavam. Parecia que era como se tivesse alguém deliberadamente sabotando a investigação. Quatro dias após o desaparecimento, a Carola organizou uma marcha. Centenas de pessoas foram às ruas da Vila Tessay e de Hurlingham, na região ali onde eles moravam. E eles foram às ruas carregando velas, fotos da Candela, carregavam faixas pedindo informações. A Carola liderava a marcha com uma foto enorme da filha. Ela chorava, implorava, gritava o nome da filha.
A marcha percorreu as ruas principais e parou em frente à prefeitura, depois em frente à delegacia. Em dado momento, a Carola parou em frente a uma câmera de TV e disse que ela tinha certeza que a filha estaria olhando aquela imagem. Ela disse que sabia que as pessoas que pegaram sua filha também estariam vendo aquela imagem. Disse que eles sabiam quem ela era e que ela iria conseguir resgatar sua filha.
Naquele mesmo dia, o Ricardo Casal, ministro da Justiça e Segurança da província de Buenos Aires, anunciou uma recompensa de 100 mil pesos argentinos para quem tivesse informações que levassem a localização da Candela. Era uma quantia significativa, para vocês terem ideia, na época, um salário mínimo era 3 mil pesos. Ele estava oferecendo 100 mil.
A notícia da recompensa se espalhou rapidamente, então nos jornais, nas rádios, todo mundo começou a falar sobre isso. E em poucas horas, o caso da Candela se tornou nacional. A Carol deu muitas entrevistas pra jornais, pra TV, rádio, qualquer veículo que quisesse ouvi-la, implorando pra que entregassem sua filha. Ela dizia que tinha perdoado a pessoa que tinha feito isso, que ela não ia nem fazer nenhum tipo de denúncia, ela só queria a filha de volta.
No sexto dia do desaparecimento da Candela, a Carola foi mais uma vez pra rua, organizou uma segunda marcha dessa vez, com várias pessoas a mais. Mais câmeras, mais cartazes, mais gente envolvida, dizendo que os sequestradores estavam cercados e que o tempo deles tinha terminado e ela só queria a filha de volta. E ela disse isso porque realmente tinha muita...
Muitos policiais buscando helicópteros. A operação nesse ponto era gigante, então realmente tinham policiais por toda a parte. Então, a mídia da Argentina estava cobrindo o caso sem parar. Então, essas pessoas realmente estavam ficando sem tempo. Mas a Candela continuava desaparecida. Os programas de TV estavam dedicando horas da programação para falar sobre o caso. Agora, não só a Carola estava dando entrevistas, como os professores da Candela.
os amiguinhos dela, qualquer pessoa que conhecesse ela estava dando entrevista sobre o caso, então todo mundo nesse ponto já conhecia o caso e sabia que a menina estava desaparecida. A foto dela estampava todos os jornais, em todos os lugares, não tinha como não ter ouvido falar. Até que sete dias após o sequestro, na noite do dia 28, a Betiana, irmã da Carola, estava em casa quando o telefone tocou. Ela atendeu e era uma voz masculina do outro lado, que era fria, calculada e falava sem pressa.
A voz dizia, até que ela não devolva o dinheiro, ela não vai ver a filha nunca mais. Que ela pergunte ao marido onde ele deixou a grana. A ligação foi muito rápida, durou apenas alguns segundos. Betiana ficou em choque. Gravou mentalmente cada palavra, cada sílaba. Ela estava tremendo e ligou imediatamente para a Carola. Contou palavra por palavra.
A Carola não conseguia entender. Que dinheiro, que grana. O João Antio tava preso havia mais de um ano. Não tinha dinheiro nenhum. A família não tinha dinheiro. Eles viviam apertados. Eles mal conseguiam pagar aluguel e comida. Então, que dinheiro é esse que os sequestradores estavam falando? A Carola ligou pra polícia, reportou a chamada, e a polícia disse que ia investigar e pediu pra que ela mantesse a calma.
Disseram que era um bom sinal, significava que Candela estava viva. Que eles queriam dinheiro e que ia ter uma negociação que eles iam trazê-la de volta. Só que a família não tinha esse dinheiro pra dar. Então, no dia 29 de agosto, no oitavo dia, a Carola organizou outra marcha. Ela estava desesperada. Ela gritou pras câmeras, já falta pouco, Candi, já estou chegando. Eu te amo, filho, eles não vão conseguir vencer a gente.
No dia seguinte, artistas famosos da Argentina se reuniram na Fundação Ernesto Sábato para lançar uma campanha chamada 48 Horas por Candela. O Ricardo Darim estava lá. O Guilherme Franchella estava lá. Os rostos mais conhecidos do cinema e da TV Argentina estavam todos lá, diante das câmeras, todos pedindo e suplicando que devolvessem a menina.
A Carola estava ao lado dele segurando uma foto da filha. Os olhos vermelhos de tanto chorar. O corpo tremendo de exaustão e medo. Nove dias sem dormir direito. Nove dias vivendo esse pesadelo sem fim. A campanha foi transmitida ao vivo e viralizou nas redes sociais. Entrou no Trending Topics do Twitter. Foi compartilhada milhares de vezes no Facebook. O país inteiro estava acompanhando.
Até que na manhã de 31 de agosto de 2011, duas cartoneiras caminhavam pela via marginal da autopista del Oeste, a rodovia que corta o oeste da Grande Buenos Aires. Eram mulheres que catavam material reciclável para vender. Elas viram uma sacola de lixo preto no acostamento, do tipo usado em condomínios.
Abriram e dentro havia outra sacola. Elas abriram a segunda sacola e dentro havia uma terceira. Quando elas abriram essa terceira, viram o corpo de uma criança. Chamaram a polícia imediatamente. A polícia isolou a área, chamou a perícia, o Instituto Médico Legal, as autoridades e a imprensa. A Carola também foi chamada, ela chegou ao local ainda naquela tarde e levada por agentes. Dezenas de câmeras de TV estavam posicionadas.
O governador Daniel Scioli estava presente. O ministro Ricardo Casal também. A Betiana estava ao lado de Carola quando os peritos abriram as sacolas e expuseram o rosto. A Carola reconheceu a filha. Testemunhas que estavam no local descreveram o grito da Carola como o som mais devastador que já tinham ouvido. Ela caiu de joelhos e os policiais a seguraram e a ampararam. As câmeras de televisão transmitiram a cena ao vivo e a Argentina inteira assistiu.
Candela tinha apenas 11 anos e o corpo foi encontrado a cerca de 30 quarteirões da sua casa.
O corpo foi levado ao Instituto Médico Legal da província de Buenos Aires. A autópsia determinou que a causa da morte foi asfixia mecânica. Ela foi asfixiada por alguém que a segurou por trás, tapando o nariz e a boca. Havia marcas nos tecidos do rosto e do pescoço que indicavam pressão extrema. O exame também constatou sinais de abuso. Candela havia sido violentada pouco antes de morrer.
A morte ocorreu entre a noite do dia 29 de agosto e a madrugada do dia 30, dois dias antes do corpo ser encontrado e sete dias depois do sequestro. Isso significava que durante vários dias, enquanto a Argentina inteira procurava por ela, enquanto a sua mãe fazia marchas e implorava pela vida da filha, enquanto artistas famosos lançavam campanhas, a Candela estava viva em algum cativeiro. Nos últimos dois dias, enquanto a Carola ainda tinha esperança, o país ainda rezava, a Candela já estava morta.
O Marcelo Tavolaro era o fiscal do caso. Desde os primeiros dias, a investigação dele tomou um rumo caótico, contraditório. Aos olhos de muitos observadores, parecia deliberadamente desviado. Boatos circulavam pela mídia argentina. Candela teria ligado para a mãe do cativeiro. Teria dito onde estava. A polícia rastreou a origem da chamada e montou o operativo, fez alerta geral, cercou a casa, arrombou a porta.
Não era Candela. Era uma menina da mesma idade que tinha ligado para um número errado por conta de uma aposta com o irmão. Tempo perdido e recursos desperdiçados. No dia 1º de setembro, um dia após a descoberta do corpo, a polícia realizou uma busca na casa da rua Quirnan 992, em Vila Tessei, com base em informações fornecidas por uma testemunha anônima. A casa era cor-de-rosa, térrea, com um pequeno jardim na frente.
Os peritos entraram, fizeram a perícia e colheram amostras. O DNA da Candela estava ali, em diferentes ambientes. Era uma evidência concreta e incontestável. Em algum momento, a Candela esteve naquela casa. A polícia prendeu a dona do imóvel, chamada Gladys Mabel Cabreira.
Ela era depiladora e disse que estava em processo de aluguel, que ela não morava lá, não sabia de nada. Prenderam o marido dela também, o Ramon Nestor Altamirano, carpinteiro. Ele disse que a esposa tinha pedido para ele cuidar do cachorro da família enquanto a casa estivesse vazia. Ele disse que ia lá para alimentar o animal e só. Não sabia de nada.
No dia 7 de setembro, prenderam Hugo Elbi e o Bermudes. Uma testemunha anônima apontou ele como autor material do crime. O Hugo morava perto da casa da Carola. Era conhecido no bairro e tinha antecedentes criminais, mas declarou inocente. No dia 12 de setembro, prenderam Alberto Fabián Spindola, pedreiro.
Dias depois, Alberto denunciou que a polícia tinha torturado ele, forçado ele a incriminar outras pessoas, o ameaçado de morte se ele não falasse o que eles queriam ouvir. Com base no testemunho do Alberto, testemunho que ele retrataria dias depois, dizendo que foi forçado, a polícia prendeu Guilherme, Sebastião Lopes e Gabriel Fabián Gomes, um fretista e um verdureiro. Ambos negaram o envolvimento.
No dia 25 de setembro, a polícia prendeu Hector Moreira, conhecido como o Topo. A suspeita era demandante intelectual. A motivação é acerto de contas contra Joancho. A alegação era que Joancho tinha deletado o Topo para a polícia. No dia 10 de outubro, o juiz decretou prisão preventiva de sete suspeitos. O Hugo, Aglades, Ramon, Hector, Alberto, Guilherme e Gabriel. E ainda ordenou a captura do oitavo suspeito, Leonardo Daniel Jara, que foi preso nove dias depois.
E aí a polícia anunciou que o caso estava resolvido, as pessoas comemoraram, o governador deu entrevista dizendo que a justiça foi feita e parecia que era isso, que eles tinham conseguido solucionar. Até que no dia 17 de abril de 2012, na Câmara da Apelação de Moron, houve uma decisão devastadora. Nulidade parcial do processo.
Isso significa que todos que foram detidos, todas as pessoas que estavam presas, foram soltas. Foram oito meses de investigação praticamente jogados no lixo. O motivo para isso foi porque o processo estava contaminado. Tem várias pessoas que deram testemunhos, que depois disseram que foram testemunhos forçados. Todos sob tortura, provas que foram plantadas, procedimentos irregulares.
E violações graves ao devido processo legal. O juiz, que estava responsável pelo caso, foi afastado. O fiscal Marcelo Tavolaro também foi afastado da investigação. A polícia civil foi afastada das buscas. Então, assim, um caso gigantesco, que o país inteiro ficou sabendo, que estava na mídia todos os dias, que teve muita cobertura, famosos também, enfim, todo mundo conhecia o caso, como eu falei pra vocês.
E aí as oito pessoas são soltas e, obviamente, isso virou um escândalo nacional. A Argentina assistia enquanto todos eles eram soltos por irregularidades processuais. A Carola deu uma entrevista dizendo que a justiça da Argentina era uma vergonha. Que a própria polícia tinha sabotado a investigação de propósito. Que eles estavam querendo proteger alguém e que se eles tivessem feito o trabalho direito, a sua filha estaria viva.
O Senado da Província de Buenos Aires tinha montado uma comissão especial. A Comissão Especial de Acompanhamento para o Esclarecimento do Crime de Candela Sol Rodrigues. Essa comissão foi formada em março de 2012 e eles entrevistaram todo mundo. Funcionários judiciais, policiais, jornalistas, advogados, peritos, testemunhas, a Carola. Em agosto daquele ano, eles divulgaram o resultado.
A recomendação ao governador Daniel Scioli era clara. Exonerar toda a cúpula da polícia. Reformular completamente a política de segurança da província. E ainda eles tinham uma recomendação adicional. O julgamento político do fiscal Marcelo Tavolaro, do fiscal-geral de Moron e do juiz de garantias que conduziu a investigação inicial.
O relatório deixou claro o que muitos já suspeitavam. O caso revelou uma cumplicidade profunda entre forças policiais e crime organizado na periferia oeste de Buenos Aires. Revelou uma corrupção sistêmica, uma sabotagem deliberada de investigação criminal. Mas todas essas revelações não trouxeram a Candela de volta. E mais que isso, ninguém estava preso pelo assassinato dela.
Depois do colapso de abril de 2012, o caso foi assumido por um novo fiscal, o Mário Ferrario. Ele pegou um processo que estava contaminado com evidências comprometidas, testemunhas retratadas, uma investigação que tinha sido, nas palavras dos próprios juízes, deliberadamente desviada. E ele passou anos reconstruindo todo esse processo que foi mal feito, que tinha coisas faltando, então ele precisou, basicamente, pegar todas as evidências, tudo, uma por uma.
organizar todas elas, cruzar escutas telefônicas, refazer as perícias de DNA, ele também conseguiu identificar testemunhas que não tinham sido ouvidas. Ele eliminou contradições e montou cronologias. Em 2016, cinco anos após o assassinato da Candela, o Mário pediu a abertura de julgamento oral e público contra o Hugo Elbi Bermúdez, o Leonardo Daniel Jara e o Gabriel Fabián Gomes.
Então, agora que ele tinha refeito toda a investigação, a gente vai tentar entender o que aconteceu naquele dia 11. A Polícia Federal Argentina organizou uma série de operações coordenadas contra a organização de tráfico que controlava todo o município de São Martim, que tinha como chefe, o Miguel Ángel Vilaba, que tinha como apelido Mameluco. Mameluco era um dos narcotraficantes mais poderosos da Grande Buenos Aires.
Ele controlava bunkers de distribuição de cocaína em San Martín. E também nos arredores, então ele comandava toda uma rede de vendedores. Ele tinha conexões políticas que garantiam proteção para ele. Ele pagava policiais, políticos, juízes. A operação dele funcionava há anos, sem nenhuma interferência.
No dia 11 de agosto de 2011, a Operação Federal estourou tudo. Bunkers foram descobertos, então toneladas de cocaínas foram apreendidas, vendedores presos, a organização desmantelada e o mameluco preso. Alguém tinha entregado a localização exata dos bunkers, ou seja, alguém tinha vendido o mameluco. O submundo do crime organizado começou a investigar quem foi o delator, quem traiu e, principalmente, quem ia pagar.
E aí que eles levantam o nome do Héctor Moreira, né? Conhecido como Topo. Ele era exatamente o tipo de personagem que prosperava, né? Entre a lei e o crime organizado. Sendo um informante profissional. Então, ele vendia informações pra polícia. Mas ele também vendia informações pros criminosos. Então, ele jogava dos dois lados. Ele era útil pra todo mundo, mas não era confiável pra ninguém. Na investigação, eles descobriram que o Topo tinha conexões profundas.
Ele conhecia gente na Polícia Federal, na Polícia Civil, no Serviço Penitenciário e em várias organizações criminosas em San Martín, em Hurlingham e também nos arredores. Segundo a hipótese que os juízes adotariam anos depois no primeiro julgamento, foi o Topo quem entregou os bunkers do Mameluco para a Polícia Federal. Mas depois da prisão, o Topo fez algo que selaria o destino da Candela. Ele convenceu o Mameluco ou pessoas ligadas a ele que estavam soltas de que...
Não tinha sido ele quem tinha entregado o nome do mameluco pra Polícia Federal. O culpado, segundo o topo, era o Alfredo Joancho Rodrigues, o pai da Candela. Ele disse que era ele que tava vendendo informações de dentro da cadeia pra polícia. Que ele tinha recebido dinheiro pra entregar o mameluco. Que era por isso que a Operação Federal sabia exatamente onde atacar. Mas essa acusação era completamente falsa. O pai da Candela, né, o Joancho, não tinha...
Falar do nada. Ele tava preso, cumprindo pena por pirataria do asfalto. Ele não tinha recebido dinheiro nenhum. Ele não tinha passado informação nenhuma. E ele não tinha nenhum envolvimento com o mameluco. Mas a mentira que o Topo contou foi acreditada. E a fúria que essa mentira desencadeou foi enorme. Foi aí que eles tomaram uma decisão. Eles iriam sequestrar a filha do Joancho. Que pra eles era quem tinha contado a localização pra polícia.
Depois, eles iriam forçar ele a devolver o dinheiro que ele supostamente teria ganhado. E assim, eles dariam uma lição nele para mostrar que traição tem consequência. O plano era simples. Um sequestro rápido, eles iriam pedir o resgate. Pegariam o dinheiro, devolveriam a criança e o Joancho aprenderia a lição. Ali, eles queriam deixar claro para todo mundo que um delator paga o preço. Mas aí, não foi exatamente isso que aconteceu, né?
Segundo os promotores, no dia em que eles sequestraram a Candela, eles pegaram uma caminhonete que era a sobrinha do topo. Então, era a caminhonete que foi vista por testemunhas e aí essa caminhonete para ali na esquina onde a Candela esperava pelas amigas. Aquele veículo era usado regularmente pelo Sérgio Chazarreta, que era policial civil e companheiro da sobrinha do topo.
O carro para e três homens desceram do carro, como as testemunhas alegaram, né? Desses três homens, só um foi identificado completamente, que foi o Daniel Leonardo Jara, e os outros dois nunca confirmaram a identidade. Eles pegaram a menina, colocaram dentro do carro e saíram rapidamente do local. Os investigadores concluíram que a Candela conhecia pelo menos um dos três sequestradores.
O comportamento dela demonstrava isso, porque no momento em que o carro parou naquela esquina, ela não tentou correr. Ela não gritou imediatamente, não pediu ajuda logo que os homens desceram do carro. Então, parecia que ela conhecia algum deles, então ela não ficou alarmada imediatamente. Só quando eles pegaram ela e começaram a forçar ela pra entrar dentro do carro que ela começou a pedir ajuda.
E aí depois ela foi mantida primeiro em uma casa no bairro Costa Esperanza, em San Martín. E depois foi transferida para aquela casa rosa em Vila Tesei. Aquele mesmo imóvel que a polícia encontraria o DNA dela meses depois. O Daniel foi apontado como responsável por fazer a guarda dela durante o sequestro. Então era ele que ficava com ela no cativeiro, foi ele que fez aquela chamada, isso foi confirmado pela polícia. E não há testemunho sobre o que aconteceu naqueles nove dias que ela ficou em cativeiro. E os sequestradores nunca falaram.
Uma coisa que se sabe é que esse dinheiro exigido pelos sequestradores pra devolver a menina era um dinheiro que não existia. Como eu falei pra vocês, o João não tinha feito nada disso, então esse dinheiro que eles imaginavam que ele tinha recebido não existia. A família não tinha esses 30 mil pesos argentinos que eles exigiram pra entregar a Candela no resgate.
Também tem uma escuta telefônica que foi registrada, que tá nos autos do processo e é de uma ligação que aconteceu durante o sequestro, quando o João Ancho ligou da prisão pra Carola, dizendo que ela devia contar tudo pra polícia, absolutamente tudo, que não era pra ela esconder nada.
Enquanto isso, os sequestradores se viram com uma criança em cativeiro há dias, esperando por um resgate que não existia. A Argentina inteira procurando pela menina, helicópteros e policiais por toda parte. A polícia batendo de porta em porta o rosto dela nos jornais. E aí...
Naquele momento, acredito que eles decidiram, ali no dia 29 de agosto, que eles não deixariam a Candela viver. Ou seja, todo mundo estava acompanhando. E aí, entre a madrugada do dia 29 para o dia 30 de agosto, o Hugo Elbi e o Bermúdez abusou da Candela e depois asfixou até a morte.
O corpo foi colocado em sacolas plásticas e abandonado na autopista de Loeste. Então, essa foi a reconstrução feita através das investigações e aí o julgamento começou. No dia 6 de fevereiro de 2017, quase seis anos após a morte dela. No banco dos réus estavam Hugo, Leonardo e Gabriel. Durante sete meses de audiência, a promotoria apresentou todas as evidências que eles conseguiram ao longo dos anos.
como o DNA da Candela naquela casa cor-de-rosa, que vinculava o Hugo, estando no mesmo lugar onde ela foi mantida em cativeiro. As perícias de áudio que confirmavam que quem fez aquela ligação pra irmã da Carola foi o Leonardo. Testemunhas colocavam o Hugo queimando evidências na casa da sua ex-companheira.
Dias após o corpo ter sido encontrado, o Hugo e o Leonardo se declararam inocentes, disseram que eles não tinham nada a ver com o caso, e negaram qualquer participação no crime. No dia 8 de fevereiro de 2017, a Carola prestou depoimento. Ela acusou a polícia de ter encoberto o crime desde o início. Ela disse que a investigação inicial foi deliberadamente desviada, que pessoas que deveriam ter sido presas imediatamente foram protegidas.
que sua filha poderia ter sido encontrada com vida se eles tivessem feito o trabalho direito. O Joanjo também testemunhou dizendo que ele não sabia por que tinham matado sua filha, que ele não tinha nenhuma inimizade que justificasse uma coisa daquelas, que ele simplesmente não conseguia entender. Em 20 de setembro daquele ano, saiu o veredito. Hugo foi condenado à prisão perpétua como coautor do crime, deprivação ilegal de liberdade, seguido de morte.
O Leonardo foi condenado à prisão perpétua pelo mesmo crime. O Gabriel, que foi considerado participante secundário do sequestro, foi condenado a quatro anos de prisão. A Carola estava na sala segurando uma foto enorme da filha e quando ela ouviu, prisão perpétua, ela chorou. Hugo tapou o rosto com as mãos.
Quando a secretária do tribunal leu a pena do Gabriel, a filha dele, que estava na sala com o bebê no colo, gritou mentiroso, diga a verdade. O Joancho, que estava presente também, ele estava usando óculos escuros, ele ouviu a sentença e depois ele falou com o jornalista que ainda faltavam responsáveis para serem julgados.
Nos fundamentos da sentença, que somavam mais de 200 páginas, os juízes escreveram uma frase que definiria o caso para sempre. O coração desse crime estava no não dito, no oculto. Havia uma organização criminosa por trás do Hugo e do Leonardo. Havia mandantes. Havia pessoas que haviam ordenado o sequestro. E essas pessoas não estavam sendo julgadas naquele tribunal. A juíza Raquel René Lafourcade disse publicamente.
Tenho experiência, e o que está oculto nesse caso é muito maior do que o que foi revelado. Em junho de 2020, a Câmara de Cassação confirmou as penas de prisão perpétua para Hugo e Leonardo e os quatro anos para o Gabriel. Em julho de 2023, a Suprema Corte da Província de Buenos Aires rejeitou o recurso extraordinário da defesa de Hugo, tornando sua condenação definitiva e recorrível. O primeiro julgamento havia condenado os executores. Agora faltava julgar quem havia ordenado o sequestro.
O fiscal Mário Ferraro identificou quatro suspeitos de terem organizado o crime. O Miguel Angel Mamelucco Vilauba, o ex-policial Sérgio Chazarreta, o informante Héctor, o Topo Moreira e o carpinteiro Ramon. Em 2022, um juiz de garantias de Moron aceitou a denúncia e enviou os quatro a julgamento oral. O julgamento começaria em 2024. O Miguel, nessa época, já cumpriu uma pena separada de 27 anos de prisão por narcotráfico e liderança da organização criminosa.
Tinha sido condenado em maio de 2017 e estava preso no complexo penitenciário de Ezeiza, onde vivia em isolamento como preso de alto risco. Ele acompanhou o segundo julgamento por videochamada de dentro da prisão. Então, em março de 2024, no meio do segundo julgamento, a Carola tomou uma decisão que chocou a Argentina. Ela renunciou à condição de Querelante, a vítima que participa ativamente do processo judicial.
Numa carta pública assinada também pelos seus advogados, Carola acusou os fiscais do caso de apresentarem provas contaminadas, de terem desviado a investigação desde o início e de militar ativamente contra a própria família da vítima. Então, em trechos da carta, ela fala Durante todo este calvário que tivemos que suportar,
como se fosse um peso extra a cruz que carregamos, a atitude dos fiscais que, longe de nos dar esperanças de encontrar justiça, o único que fizeram foi nos submergir na escuridão e nos produzir ainda mais dor, dirigindo seus ataques contra nossa família. Apresentaram provas contaminadas, militaram a causa da suspeita sobre nossa família para encobrir sua ação negligente e cheio de legalidades durante todo o processo que levaram ao fatal desfecho por ter desviado a investigação.
O resultado foi não ter podido encontrar tempo e convida a minha filha. Dou um passo ao lado porque não vou encontrar justiça. A renúncia da Carola foi interpretada por muitos como uma declaração de que ela não acreditava que o segundo julgamento revelaria a verdade completa sobre quem havia ordenado o assassinato da sua filha. Em maio de 2024, o Tribunal Criminal absolveu os quatro acusados de serem os mandantes.
Os juízes concluíram que a hipótese da promotoria, a vingança de Miguel contra o pai de Candela por uma suposta delação, estava cheia de irregularidades. As evidências eram incongruentes e os testemunhos não se sustentavam. Basicamente, não havia prova suficiente para condenar. O Miguel, ao saber da absolvição pela videochamada, disse que entendia a dor da mãe da Candela, que ele também já tinha sido sequestrado duas vezes, e que ele odiava sequestradores e que ele era inocente.
A investigação sobre os mandantes do assassinato de Candela foi encerrada sem uma condenação. Quem ordenou o sequestro da menina de 11 anos nunca foi punido. O Hugo Elbi Vermudes, que está cumprindo prisão perpétua, deu uma entrevista na cadeia em 2019, dizendo que ele era inocente e que a polícia prendeu bodes expiatórios. Ele disse que o caso tinha gente grande envolvida e que os verdadeiros culpados nunca foram tocados.
Já o Leonardo, que também cumpre prisão perpétua, nunca confessou. Além disso, ele nunca revelou quem eram os outros dois homens que participaram do sequestro. Já o Gabriel, que recebeu a menor pena de todas, né, que eram só quatro anos, ele cumpriu a pena. O mameluco segue preso, então ele tá cumprindo uma pena de 27 anos, por tráfico de drogas e liderança de organização criminosa.
Sobre o caso da Candela, ele foi absolvido. Já o Topo, o Héctor, ele foi absolvido no segundo julgamento e está em liberdade. Ele nunca foi punido pelo seu possível papel como mandante, como mandante intelectual do sequestro. Já o Sérgio, um ex-policial cuja companheira era dona do carro que foi usado no sequestro, foi absolvido e está em liberdade.
Já o Ramon, o carpinteiro, onde encontraram o DNA da Candela dentro da casa, foi absolvido e continua vivendo no mesmo bairro, na mesma casa. Já a Gladys, dona da casa Rosa, ela cumpriu seis meses de prisão, mas aí ela foi desvinculada do caso.
E a sua situação processual está arquivada. Ela mora na mesma casa. Ela só pintou a casa que antes era rosa, de vermelho. A Carola nunca parou de falar sobre a filha. Em 2025, ela deu uma entrevista dizendo que ela ainda espera que alguém fale. Que alguém conte o que aconteceu. Que o Leonardo sequestrou a sua filha com outras duas pessoas que não foram identificadas. Que os fiscais também não sabem ou não querem saber quem são.
E é bem fácil de encontrar várias entrevistas dela online. Porque ela já falou muitas vezes sobre o caso e sobre o fato dela nunca ter...
sentido que a justiça foi feita pela sua filha. Já o Joancho, né, o pai da Candela, ele cumpriu a pena de pirataria do asfalto, e aí ele foi solto. E sobre o caso da sua filha, ele disse apenas que faltaram responsáveis. O caso da Candela é muito doido, porque dois homens foram condenados de executar crime, né, de ter sequestrado ela. Mas o restante, até hoje ninguém sabe. Ninguém sabe quem eram aqueles outros dois homens.
que ajudaram no momento do sequestro, né? Ninguém sabe quem realmente mandou que isso acontecesse. Quem foi o mandante? Ninguém nunca foi condenado por ter ordenado que ela fosse sequestrada, né? Então, tem muitas pessoas aí soltas. É um caso com muita impunidade. Eu quero muito saber o que vocês acharam. Me conta aqui nos comentários. Não esquece do like, me ajuda muito na divulgação do vídeo.
Para mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveita para avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.