FOI DROGADA E ABUSADA POR MAIS DE 70 HOMENS EM 10 ANOS | Caso Gisèle Pelicot #578
Em 2020, um homem aposentado foi preso num supermercado enquanto filmava mulheres por baixo das saias. Um crime banal. Mas o que a polícia encontrou no computador dele revelaria uma década inteira de horrores — e transformaria o maior julgamento de estupro coletivo da história da França no símbolo de uma luta que ainda não acabou. #578
- Decisões sobre eleições e mandatoQuatro anos para decidir · Recusa de proteção de identidade · Insistência na exibição de vídeos · Apoio de advogados · Símbolo de luta
- Poder JudiciárioDominique: 20 anos sem condicional · Outros 50 réus condenados com variação de 3 a 15 anos · Seis deixaram tribunal livres por cumprimento de preventiva · Crimes específicos: abuso, drogas, produção de material íntimo · 19 de dezembro de 2024
- Plataformas DigitaisSite francês Coco (encontros anônimos) · Perfil 'Fétichiste 45' · Instruções aos agressores · Mensagens salvas · Identificação de carros
- O Papel da Fé e EspiritualidadeConfissão desde o início · Admissão de droga da esposa · Admissão de convite de homens · Admissão de filmagem · Auto-identificação como abusador
- Fotos e Vídeos de MenoresFotos de Carolina dormindo · Roupas íntimas não dela · Vídeos de noras no banheiro · Possível abuso de Carolina · Falta de provas conclusivas
- Identificação de AgressoresProfissões diversas: militar, bombeiro, motorista, banqueiro, jornalista · Idades entre 26 e 74 anos · Homens casados com filhos · Proximidade geográfica · 20 homens não identificados
- Legado e consequências do casoCidade de Mazan ficou conhecida pelo caso · Símbolo global de luta contra abuso sexual · Reforma legal na França · Debate sobre consentimento · Inspiração internacional
- Histórias Pessoais e de ViajantesRevelação para filhos · Gritos da filha · David recebendo ligação telefônica · Carolina convicta de abuso · Mudança de sobrenome
- Reforma TributáriaLacuna na legislação sobre consentimento · Votação quase unânime no Parlamento · Lei entrou em vigor em novembro de 2025 · Alinhamento com países europeus · Inspiração direta do caso
- Inadimplência e EndividamentoMulheres esperando fora do tribunal · Cartazes de apoio · Slogan 'a vergonha deve dar de lado' · Aplausos durante saída · Símbolo de luta feminista
- Rompimento FamiliarRelação mais dolorosa com Carolina · Silêncio de Gisèle sobre abuso de Carolina · Carolina corta relações com mãe · Distância de David · Proximidade com Floria
- Exibição de Vídeos em Audiência PúblicaProibição inicial do juiz · Recurso da imprensa · Apoio de advogados de Gisèle · Autorização em outubro · Jornalistas saíram da sala
- Sintomas Físicos e Psicológicos de GisèlePerda de peso · Lapsos de memória · Queda de cabelo · Infecções vaginais · Voz enrolada · Possível Alzheimer
- Defesa JuridicaArgumento de consentimento da esposa · Fetiche supostamente de Gisèle · Acusação de terem sido enganados · Negação de Dominique sobre consentimento · Confronto em sala
- Segurança OperacionalFilmagem de mulheres em 2010 · Multa de 100 euros · Repetição do crime em 2020 · Confisco de eletrônicos · Ponto de descoberta
Gisele Guillaume nasceu em 7 de dezembro de 1952, numa cidade alemã chamada Villinguem. Seu pai era militar do exército francês, cumprindo serviço nas forças de ocupação aliadas no pós-guerra. Quando ela tinha cinco anos, eles voltaram para a França, para o interior, perto da família materna camponeses do Vale do Lory. A infância da Gisele não foi fácil. Às nove anos, sua mãe morreu de tumor cerebral. O pai, viúvo, conseguiu um posto no Ministério da Guerra e se mudou com os filhos para Paris.
Ela chamava Gisele de gorda e dizia que ela parecia um cavalo de carroça. O irmão mais velho da Gisele morreu ainda jovem, de ataque cardíaco. Em poucos anos, ela havia perdido a mãe, enterrado o irmão, e crescido às margens de uma família que não era bem a dela. Foi em 1971, aos 18 anos, que Gisele conheceu Dominique Pellicot. Dominique nasceu em 27 de novembro de 1952, em Quincy-Soul-Senat, nos arredores de Paris. Ele é 10 dias mais velho que a Gisele. A família passou parte da infância Lucille Le Mans, no centro da França,
de reabilitação para prisioneiros. A infância do Dominique foi marcada por violência psicológica, física e sexual. O seu pai era brutal. Quando Dominique tinha 17 anos, a família acolheu pela assistente social uma criança chamada Nicole, portadora de deficiência intelectual. Dominique suspeitava que o pai abusava dela. Ele também tinha uma irmã chamada Ginette. Segundo ela, na família os filhos todos tiveram uma vida de sofrimento.
Dominique disse ter sido abusado por um enfermeiro no hospital quando ele tinha 9 anos. Na adolescência, afirmou ter sido forçado a assistir a um abuso coletivo.
Ele tinha que trabalhar aos 13 anos como aprendiz de eletricista e tinha de entregar 80% do seu salário ao pai. Quando ele finalmente terminou o certificado profissional aos 17 anos, ele saiu de casa e foi morar com a sua irmã Ginette, em Azeleferron, no Vale de Loire. Foi num café nessa cidade no verão de 1971 que ele viu uma jovem com óculos escuros grandes, estilo Jackie Kennedy. Ela vinha de Paris visitar o primo e se chamava Gisele.
Segundo ele, foi um amor fulminante. Eles passaram as noites daquele verão conversando.
ao amanhecer. Ela deixou um lenço de bolinhas amarelas com ele para que ele pudesse adormecer com o seu cheiro. Os dois se casaram em abril de 1973, em Azelle Ferron, a mesma cidade onde se conheceram. Com o tempo, Dominique tentou diferentes caminhos. O setor nuclear, o imobiliário, mas com sucesso apenas moderado, acumulando dívidas. Foi a carreira da Gisele que sustentou a família. Depois de anos de trabalhos temporários, ela ingressou na EDF, a empresa estatal francesa de energia elétrica, e construiu uma trajetória longa e sólida. Juntos, eles tiveram três filhos. David, nascido em
em 1973, Caroline em 1979 e Florian em 1986. A família morou em diferentes cidades na região de Paris ao longo das décadas. A Gisele era a âncora da família, a mãe presente e esposa dedicada. Já a Dominique preparava o jantar, buscava os filhos na saída das discotecas, ajudava nas tarefas escolares, os amigos dos filhos o adoravam. Mas os filhos sabiam que o pai era capaz de ter acessos de raiva violentos. O casamento atravessou crises sérias.
Na metade dos anos 80, a Gisele teve um caso de três anos com um colega de trabalho.
quando Florian, o filho mais novo, nasceu, o Dominique duvidou da paternidade. A separação veio em 1987, um ano depois do nascimento do filho, mas aí o casal se reconciliou. Em 1990, foi Dominique quem teve um caso. Ele foi morar com outra mulher por alguns meses, mas depois voltou. Em 2001, eles se divorciaram formalmente. Não por desamor, mas pra proteger o patrimônio da Gisele e dos credores do Dominique. Eles continuaram morando juntos como se nada tivesse mudado.
Em 2007, resolveram se casar de novo, com o regime matrimonial que blindava os bens dela. Em 2003, eles se aposentaram e foram
morar em Mazano, sul da França. Uma casa com jardim e piscina rodeada de lavandários e vinhedos. Gisele decidiu entrar pra um coral. Dominique se associou ao clube de tênis e saía pra pedalar pelas estradas provençais. No verão, os filhos e os sete netos vinham visitar. Era exatamente a aposentadoria tranquila que os dois imaginavam merecer. Mas uma coisa que a Gisele não sabia, ela não fazia ideia, é que três anos antes, o Dominique tava em Paris, né, a família tava em Paris, ele tava num supermercado e ele foi pego filmando as mulheres, né, por uma caneta que tinha uma câmera,
embaixo da saia delas. Ele foi detido, pagou uma multa de 100 euros pra evitar um processo judicial e ele nunca contou pra Gisele que isso tinha acontecido. Ela também não sabia que desde julho de 2011 o Dominique envenenava a sua comida e depois convidava homens pra ir até a casa deles, pra que eles abusassem da Gisele, então ele criou um esquema muito meticuloso. A Gisele havia recebido prescrição médica pra tomar Temesta, nome comercial de Lorazepam, que é um ansiolítico que deixava ela muito sonolenta,
Então, ela tomou a medicação por um tempo. O Dominique percebeu o efeito que causava nela. E aí, ele pediu para o seu médico o mesmo medicamento, alegando que era para ansiedade e por dificuldades financeiras. Então, o que ele fazia era... Ele amassava os comprimidos e ele colocava ou na comida, ou na bebida, ou na sobremesa da Gisele, sem que ela soubesse. Ele guardava o pó do medicamento amassado dentro de uma meia em uma caixa de sapatos antiga. Ninguém da família sabia que ele estava conseguindo esse remédio.
cerca de 780 comprimidos de Lorazepam, que ele amassava e deixava lá guardado na garagem. Esse remédio deixava a Gisele em um estado profundo de inconsciência. Ela ficava incapaz de se mover, de reagir ou sequer perceber o que estava acontecendo ao seu redor. Então, ela realmente apagava. E aí, quando isso acontecia, o Dominique abusava dela. Além de fazer isso com a esposa, ele frequentava um fórum chamado Coco, que é um site francês, onde as pessoas não precisam se identificar. É uma plataforma francesa de encontros,
então você não precisa colocar a sua identidade quando você se cadastra. E aí, através desse site, ele convidava as pessoas pra irem até a sua casa abusar da sua esposa. Nesse grupo que ele participava, ele usava o nome Asson et Seu, que é Sem Que Ela Saiba. O perfil dele se chamava Fetiche 45 e o nome dizia tudo. Então, os homens que entravam em contato com ele sabiam exatamente o que eles conseguiriam. Quando um homem entrava em contato com o Dominique demonstrando interesse, ele combinava e mandava instruções pra esses homens.
que eles não poderiam usar perfume, que quando eles chegassem na casa eles tinham que se despir antes de entrar no quarto, que eles tinham que lavar e aquecer as mãos. Eles também não podiam deixar qualquer sinal no corpo da Gisele, eles não podiam fazer barulho pra que ela não acordasse. Então eram instruções pra que no dia seguinte ela não fizesse ideia do que tinha acontecido. Como se isso não fosse horrível o bastante, o Dominique filmava os abusos e ele organizava tudo meticulosamente em um disco rígido numa pasta chamada Abusos.
com datas extremamente nojento. Obviamente, a Gisele começou a ter alguns efeitos físicos no seu corpo que ela não conseguia entender por que eles estavam acontecendo, de onde eles vinham. Ela começou a sofrer uma perda de peso e ela também sofria lapsos de memória, onde ela simplesmente não conseguia lembrar de várias coisas e isso começou a deixá-la assustada. Ela começou a ter perda de cabelo, a apresentar infecções ginecológicas que ela não entendia como ela tinha pego. Os filhos notavam que ela sempre estava com a voz meio enrolada,
bebido, ela começou a temer que ela estivesse com Alzheimer, porque ela tinha esses lápis de memória muito frequentes, que eram inexplicáveis pra ela. Ela até chegou a pensar que talvez ela estivesse com algum tumor cerebral. Ela consultou neurologistas, ginecologistas, e o Dominique sempre acompanhava ela nessas consultas, e quando ela tava explicando o que ela tava sentindo, o que tava acontecendo, ele sempre tentava minimizar o que ela dizia.
Depois que toda a verdade veio à tona, né, anos depois, os exames ginecológicos revelaram que ela tinha contraído quatro doenças sexualmente transmissíveis.
Um dos abusadores era soropositivo e abusou dela seis vezes, mas ela não contraiu o vírus. Havia vários sinais que, retrospecto, levantariam suspeitas. A Gisele narra tudo isso com angústia, porque ela tentava compreender o incompreensível. Uma vez, ela notou uma mancha amarela na calça dela, e ela chegou a perguntar pro marido se ele tava drogando ela, e ele começou a chorar. E aí, ela deixou passar. Outra vez, ele serviu uma cerveja pra ela, que ela percebeu que tava com uma cor diferente, tinha mudado a cor, tava meio esverdeada.
Ela tinha colocado um xarope de menta. Quando ela questionou ele sobre a cor da cerveja, ele simplesmente pegou o copo e despejou o conteúdo na pi e não falou mais nisso. Ela descobriu que ele tinha um e-mail com o endereço fetiche45 e também deixou passar. Ele sempre preparava o jantar, né? Então, ela viu que um dia ele tava fazendo purê de batatas e ele colocou o dela em um recipiente e o dele em outro. Então, ela achou que aquilo era apenas uma gentileza.
A Gisele percebeu que ela dormia profundamente todas as noites, mas ela acordava cansada e ela atribuía esse cansaço às caminhadas que ela fazia.
nada. Então, do ponto de vista dela, ela tava vivendo a melhor aposentadoria que ela poderia, que ela sempre sonhou no sul da França. Ela era feliz e amada pelo seu marido. Era o que ela pensava até que em 2020, um segurança viu o Dominique filmando embaixo da saia de mulheres, dentro do supermercado. A primeira vez que isso aconteceu, como eu contei pra vocês, foi em 2010. Então, ele pagou a fiança, ninguém ficou sabendo. E aí, aconteceu de novo em 2020. Ele foi detido, o seu celular e o seu computador foram confiscados,
e ele prometeu pra Gisele que ele ia fazer terapia e ela apoiou ele. Dois meses depois, os dois foram convocados pra comparecer à delegacia e a Gisele, um dia antes, arrumou as roupas do marido que ele usaria e aí ela falou pra ele não se preocupar que aquilo seria apenas uma formalidade. Eles chegaram na delegacia no dia 2 de novembro de 2020 e a Gisele acreditou que era apenas sobre o caso do supermercado. O delegado, Lohan Pijé, conduziu ela pra uma sala separada do marido e aí ele começou a fazer perguntas sobre o Dominique e ela disse que ela tava casada há quase 50 anos
que ele era um ótimo marido, muito atencioso. O delegado fazia perguntas sobre o caráter do Dominique e ele perguntou se alguma vez eles já haviam trocado de parceiros. E ela disse que não, jamais deixaria outro homem tocar nela. E é nesse ponto que o delegado avisa que ele vai mostrar pra ela alguns vídeos e algumas fotos que não a deixariam feliz. Então ela vê uma mulher com uma cinta liga de lado, sendo abusada. E ela disse que a pele do rosto da mulher tava mole, a boca tava frouxa, parecia uma boneca de pano.
quem era a mulher e quem era o homem abusando da mulher. Ali mesmo, o delegado explica que a mulher era ela, que os vídeos foram feitos no quarto dela, né? Foram filmados lá. E que, ao todo, 52 homens haviam abusado dela. Ela conta que o cérebro dela desligou naquele momento. Ela simplesmente ficou em choque, sem reação. E o delegado disse que seria bom se ela chamasse alguém pra ficar com ela. Então, ela chama uma amiga. E, nesse meio tempo, Dominique é detido.
O delegado conta que ele ficou oito noites sem dormir antes de revelar pra Gisele o que eles tinham
descoberto. Nos dias seguintes, enquanto tentava absorver o que tinha visto, eles perceberam que era muito pior do que parecia, porque não era só o Dominique que abusava da esposa. Ele deixava que outros homens abusassem dela. Homens que ela não conhecia, que ela nunca tinha visto antes, que iam até a casa dela. E depois do abuso, voltavam para suas famílias, para suas esposas, como se nada tivesse acontecido. E além de tudo isso, o Dominique era extremamente meticuloso, então ele organizava tudo, com nomes, com datas,
os vídeos dava pra ver o rosto desses homens. Os fóruns que ele usava pra recrutar esses homens tinham as mensagens trocadas entre eles, salvas. E muitos desses homens simplesmente dirigiam o próprio carro até a casa da Gisele. Dessa forma, a polícia conseguiu identificá-los pelas placas das câmeras de segurança. E assim, eles foram identificando, um por um. A Gisele conta que, além do horror de descobrir o que tinha acontecido com ela, ela precisava contar pros filhos por que o pai dele estava preso. Porque, a princípio, era por filmar mulheres no supermercado.
a polícia descobre que era milhões de vezes pior que isso, né? Então, ela conta que ela precisava contar pros filhos que por quase 10 anos ela havia sido abusada e que o pai deles permitiu que tudo isso acontecesse. E ela conta que ela nunca vai esquecer os gritos da filha na sala quando ela contou. O David, um dos filhos da Gisele, ele já era casado, tinha esposa e filhos. Então, ele tava na cozinha quando o telefone tocou. A conversa no telefone durou 5 minutos.
No dia seguinte, ele pegou um trem. No caminho, ele foi buscar o irmão mais novo. A Caroline também foi chamada.
todos foram até a cidade, né, até a delegacia pra falar com a polícia. Esse caso, gente, vai ficando cada vez pior. É extremamente nojento tudo que esse homem fez, porque além das coisas horrendas que ele fez com a esposa, a polícia também encontrou, naquele disco rígido, fotos da Caroline, da filha dele, dormindo, sendo fotografada sem saber e usando roupas íntimas que não eram dela. A polícia também encontrou vídeos das duas noras do Dominique sendo filmadas no banheiro sem que elas soubessem. A Caroline, né, a filha ficou convicta
tinha sido abusada pelo pai. Com as provas que a polícia tinha, não tinha como saber se isso realmente tinha acontecido. Os materiais não eram suficientes pra confirmar isso e o Dominique negou que tinha abusado da filha. Mas a Caroline não tava convencida, ela não queria nem ter o sobrenome do pai mais, então ela decidiu mudar de sobrenome. Ela adotou o sobrenome da Ariane, que era uma mistura dos nomes dos dois irmãos. O impacto que isso causou na vida dos filhos foi devastador, porque os filhos não faziam ideia do que a mãe passava, do que eles poderiam ter passado também, né?
E foram anos da vida deles construídos em volta desse homem, né? Do pai deles, que era amado não só por eles, mas pelos amigos deles também. Depois que eles ficaram adultos e se casaram, tiveram suas famílias, eles sempre passavam os verões na casa dos pais. Então, foi uma coisa horrível que destruiria qualquer família, né? E aí, depois que tudo isso foi descoberto, a Gisele entrou com um pedido de divórcio e o único contato que ela tinha com o Dominique era através da justiça.
decisão que ninguém esperava e ela tomou essa decisão através da sua equipe jurídica. Ela decidiu que ela queria que o caso fosse público. Ela sabia que o caso poderia acontecer em portas fechadas, que a justiça poderia proteger o seu endereço, o endereço e os nomes dos abusadores, o nome dela e tudo mais, mas ela não queria isso. Ela queria que fosse tudo aberto ao público. Ela não queria poupar nenhum dos abusadores, mas ela sabia que fazendo isso ela não poderia poupar a si mesma, que o seu nome também seria revelado. Ela escreveu um livro de memórias e nele
ela explica que ela levou quatro anos pra tomar essa decisão. Ela disse que por quatro anos ela não queria ser vista, ela não queria que o seu nome fosse publicado pela imprensa. Mas ela conta que ao longo dos anos ela foi retomando a confiança em si mesma e aí ela tomou essa decisão não só por ela, mas por todas as mulheres que não tiveram chance de falar. Ou que talvez nunca tivessem a oportunidade de falar. Então, ela conta que se talvez ela fosse 20 anos mais jovem, ela provavelmente teria aceitado fazer o julgamento de portas fechadas.
Que provavelmente ela teria temido todos os olhares que todas as mulheres da sua geração são obrigadas a lidar. Ao longo de dois anos, a polícia identificou 72 homens que haviam participado dos crimes. Esses homens não tinham passagem pela polícia, não eram criminosos conhecidos. Não pertenciam a nenhuma rede organizada de abuso. Eram homens comuns, que viviam vidas comuns. Um militar, um bombeiro, um motorista de caminhão. Um funcionário público, um banqueiro, um enfermeiro. Um jornalista, um carpinteiro, um bombeiro.
A maioria desses homens eram casados. Muitos tinham filhos, tinham netos. Muitos viviam na cidade de Mazã, onde a Gisele morava. Outros em cidades próximas, num radar de 50 quilômetros no máximo. Alguns moravam a poucos quilômetros da casa dela. Frequentavam o mesmo supermercado que ela, a mesma padaria. Talvez tivessem cruzado com ela em algum momento. Os homens tinham entre 26 e 74 anos quando cometeram os crimes.
que ela conhecia, que tinha 40 e poucos anos, que era casado, que tinha filhos, que vinha até sua casa, abusava dela e ela, sem saber, dava oi pra ele na padaria. As mensagens trocadas entre os abusadores e o Dominique, eles faziam perguntas muito práticas. Qual era o endereço? Que horas eles poderiam ir? O que eles não podiam fazer? Alguns negociavam os termos com o Dominique, outros perguntavam se havia risco dela acordar. Quando chegavam à casa, eles seguiam a risca as instruções que o Dominique dava pra eles e depois eles iam embora.
A polícia conseguiu identificar a identidade de 52. Dois deles morreram antes do julgamento e os outros 50 foram levados ao banco dos réus, ao lado do Dominique. Ao todo, foram 51 acusados, contando com o Dominique, e aquele era o maior caso de abuso coletivo da história da França. 20 homens que apareceram nos vídeos nunca foram identificados e continuaram livres. O tribunal abriu as portas no dia 2 de setembro de 2024 e a Gisele entrava pela porta da frente. Todos os dias, do lado de fora, muitas mulheres,
Esperavam por ela, apoiando ela. Elas erguiam cartazes que diziam a vergonha deveria mudar de lado, que acabou se tornando um símbolo do caso. O processo durou três meses e meio e eles tiveram que adaptar a sala de julgamento porque eram muitos advogados, né? Dos acusados, muitos acusados. Então, pra conseguir comportar todos eles. Eram 51 réus e cerca de 60 advogados de defesa. A Gisele compareceu quase todos os dias. Sentada ao lado dos seus advogados, ela tomava notas.
vídeos dos abusos eram exibidos numa tela e agora ela sentava ali a poucos metros dos abusadores. Os filhos também estavam lá presentes, eles chegavam separados da mãe. A relação com ela ainda carregava o peso dos anos anteriores e a estratégia da defesa de praticamente todos os acusados era de que eles acreditavam que a Gisele tinha consentido. Segundo eles, o Dominique dizia que aquele era um fetiche da Gisele ser abusada enquanto dormia.
Eles diziam que foram enganados tanto quanto ela e que o consentimento do Dominique
Mas o Dominique, no banco dos réus, desmentiu todos eles, dizendo que cada um sabia exatamente o que estava fazendo quando entrava no quarto. No dia 19 de novembro, a Gisele tomou a palavra pela última vez. Ela olhou para os acusados e disse que para ela, aquele julgamento era uma covardia. Ela disse que não tinha outra forma de descrever o que estava acontecendo ali e ela perguntou por que aqueles homens não denunciaram para a polícia quando eles chegaram lá e viram o estado que ela estava. Ela disse que quando você entra num quarto e vê uma pessoa imóvel,
Ela disse que nunca perdoaria o marido e que a sociedade precisava mudar. Alguns advogados de defesa atacaram ela diretamente, insinuando cumplicidade e perguntando por que ainda usava o sobrenome Pelicô depois do divórcio. E a Gisele respondeu sem perder a compostura. Ela disse que os netos carregavam esse nome também. E agora ele seria associado a ela e não ao seu ex-marido. Nos dias anteriores, seus filhos também haviam deposto.
O David e o Florian pediram punição severa e disseram que o pai estava morto pra eles. David olhou diretamente pra Dominique e disse
Com seu neto. Já a Caroline foi a última a falar. Ela acreditava ter sido drogada e abusada pelo pai. Quando ele negou novamente, ela gritou na sala, você vai morrer numa mentira. Quanto aos vídeos, foi a Gisele quem insistiu que fossem exibidos em audiência pública. Seus advogados disseram que era necessário para que ninguém pudesse dizer depois que não sabia o que era abuso. O juiz havia proibido inicialmente, a imprensa recorreu.
A Gisele e seus advogados apoiaram o recurso, então em outubro a exibição foi autorizada. Dominique havia confessado desde o início. Que tinha drogado a esposa, convidado os homens, filmado tudo.
negou nada. Em setembro, quando ele tomou a palavra pela última vez, ele disse, eu sou um abusador, como todos os outros nessa sala. Havia jornalistas que precisaram sair quando os vídeos foram exibidos, mas a Gisele permaneceu. Do lado de fora, todos os dias, mulheres a esperavam. Mulheres que não se conheciam, que haviam viajado de outras cidades e quando ela saía, elas aplaudiam. Em seu livro, Gisele disse, por quatro anos eu havia fugido dos abraços das pessoas que me amavam.
Eu não queria compaixão de ninguém, me apoiava só na minha própria força. Mas aquela multidão estava farta do esquecimento. Aquela multidão me salvou.
Dia 19 de dezembro de 2024, o tribunal proferiu as sentenças. Dominique Pelicot foi condenado à pena máxima prevista pelo direito francês. 20 anos de reclusão sem direito a condicional antes de cumprir dois terços da pena. O tribunal considerou culpado de todos os crimes pelos quais havia sido acusado. Abuso agravado, administração de substâncias sem consentimento, produção e distribuição de imagens íntimas de Caroline e de suas noras.
Ele tinha 72 anos. Os outros 50 réus foram condenados. Todos eles saíram do tribunal com uma condenação.
abaixo do que o Ministério Público havia pedido para a maioria. Seis deles deixaram o tribunal livres naquele dia, por já terem cumprido seu tempo em prisão preventiva. Do lado de fora, quando os primeiros vereditos chegaram, a multidão aplaudiu. Mas à medida que as penas foram sendo anunciadas, o tom mudou. As mulheres gritavam, vergonha, justiça. Ativistas que haviam acompanhado cada sessão disseram se sentir humilhadas pelas penas que consideravam insuficientes.
Os filhos da Gisele também expressaram decepção. Dentro do tribunal, a Gisele ouviu cada nome, cada pena e cada decisão.
A Cabeça. Quando terminou, saiu sem expressão visível. Do lado de fora, ela falou à imprensa. Disse que pensava nos netos, que tinha lutado por eles. Disse que queria que todas as mulheres vítimas de abuso soubessem que compartilhavam a mesma luta. Ela disse, vocês me deram a força de voltar todos os dias. Ela não pediu compaixão, não celebrou. Falou como alguém que havia feito o que havia decidido fazer e que agora olhava pra frente.
O caso da Gisele reabriu um debate que a França havia adiado por anos. A legislação francesa sobre abuso não exigia até então que a ausência de consentimento fosse elemento explícito.
da definição legal do crime. O caso da Gisele tornou essa lacuna impossível de ignorar. Em outubro de 2025, o parlamento francês aprovou, com votação quase unânime no Senado, a favor de uma reforma no Código Penal que inseriu o consentimento como elemento central da definição de abuso. A lei entrou em vigor em novembro. A França se alinhou, finalmente, à maioria dos países europeus. A reforma foi diretamente inspirada pelo caso da Gisele.
Em junho de 2025, Florian representou a mãe numa cerimônia em Caen, na Normandia, onde ela recebeu o prêmio Liberdade,
10 mil jovens de 84 países por seu compromisso na luta contra o abuso sexual. Gisele não pôde comparecer pessoalmente. Um dos condenados havia recorrido da sentença e ela optou por não ir. Diante de 4 mil jovens e 25 veteranos americanos da Segunda Guerra, o Florian subiu ao palco. Ele disse que esse prêmio toca profundamente a sua mãe. Obrigado em nome dela. Mamãe, eu te amo. Infelizmente, o julgamento não uniu a família. Ele desfez o que restava dela.
A Gisele disse não acreditem que uma tragédia promove a união de uma família. A relação dela com a Caroline foi a mais dolorosa.
havia encontrado nos arquivos de Dominique fotos da Caroline dormindo. Caroline estava convicta de que tinha sido drogada e abusada pelo pai. Ela e os irmãos imploraram a Dominique que contasse a verdade, mas ele negou. A Caroline esperava que a mãe usasse sua influência pra pressionar uma confissão. A Gisele, sem prova e sem uma confissão, respondeu que não podia confirmar publicamente o que havia acontecido. Pra Caroline, esse silêncio foi um abandono.
E ela disse que isso ela nunca poderá perdoar. Após o julgamento, ela decidiu cortar relações com a mãe. Caroline publicou dois livros expondo seu tormento e acusações contra o seu pai. Um deles se chama
E o segundo livro ainda não tem tradução em português ou inglês, mas nele ela detalha o seu trauma, fotos dela dormindo e falhas na investigação. Em março desse ano, mãe e filha marcharam juntas pelo Dia Internacional da Mulher. Aos poucos, elas começaram um processo lento de reaproximação, mas a ferida permanece aberta. Com o David, o filho mais velho, a distância tem outra dimensão. A Gisele declarou ao The Guardian que os dois não se falam há mais de um ano.
Já o Cassula é o mais próximo da Gisele. Ele publicou um TikTok que gerou polêmica porque as pessoas disseram que ele estava fazendo business
O livro, escrito em parceria com a jornalista Judith Perignon, foi lançado simultaneamente em 22 idiomas no dia 17 de fevereiro. Nele, ela conta pela primeira vez a sua versão e tenta alcançar os filhos que ela perdeu no caminho. No dia 20, ela lançou uma edição britânica num evento no Royal Festival Hall em Londres. Três dias depois, ela e o seu namorado foram recebidos pela rainha Camila em audiência.
O Jean Lope, namorado da Gisele, é comissário de bordo aposentado da Air France e viúvo. Os dois se conheceram durante o período que antecedeu o julgamento. Ele acompanhou grande parte das audiências, discretamente separado da equipe dela para não atrair atenção. Então ninguém sabia. Ela disse que eles se conheceram e se apaixonaram e que não poderiam ter antecipado isso. Ela disse que eles estão muito felizes, são apaixonados como adolescentes e quando se tem 73 anos, nada está perdido, tudo ainda é possível. No dia 22 de fevereiro desse ano, o Fantástico exibiu
uma entrevista da Gisele, né, pro público brasileiro. Ela disse que o seu maior desafio após a condenação havia sido ela mesma, porque ela precisava aprender a confiar nas pessoas de novo. Ela também falou sobre os sinais que ela tinha ignorado, que foi os que eu contei pra vocês, sobre a cerveja, sobre a mancha na calça. Ela disse que sobre as perguntas que ela fez e ficou sem resposta, ela falou também sobre os homens que não foram identificados pela polícia, né, que não conseguiram chegar à identidade deles e que eles estão por aí, livres.
na prisão, porque ela tinha perguntas a fazer não por ele, mas por ela. Ela disse que precisa de algumas respostas e que ela quer falar pra ele que hoje ela é uma mulher feliz. Que ela tá em paz, que ela tá serena, que ela confia e ama de novo. Que ela está em pé e sempre estará em pé. Enquanto isso, existem algumas investigações paralelas ao caso da Gisele, que podem colocar o Dominique no centro de outros crimes. Quando ele foi preso em 2010, o DNA dele foi coletado e o DNA dele bate com uma cena de crime de 1999, em uma tentativa de abuso contra uma jovem agente imobilista.
imobiliária no subúrbio de Paris. Quando ele foi confrontado sobre essa evidência, né, dos vestígios que foram encontrados e que bate com o DNA dele, ele admitiu que ele esteve no local, mas que ele não cometeu o crime. Essa descoberta leva a uma segunda linha de investigação sobre um crime que aconteceu com uma outra agente imobiliária que foi morta. Seu nome era Sophie Normy e em dezembro de 91 ela tava mostrando um apartamento pra um homem e aí ela foi abusada e morta e nunca encontraram o culpado. Ele usava um nome falso e dessa forma nunca conseguiram descobrir quem era ele.
da Sophie e o caso de 99 são marcantes. O mesmo perfil das vítimas, o modo de abordagem, o uso de éter. Em novembro do ano passado, a justiça francesa autorizou isso uma ação do corpo da Sophie para buscar material genético. O Dominique continua negando qualquer envolvimento. A Gisele soube de tudo isso por telefone ainda durante a prisão preventiva do Dominique em outubro de 2022. Ela contou que cada palavra que o policial pronunciou para ela naquele dia terminou de destruir sua vida.
Ele falou sobre casos antigos não solucionados e de uma tentativa de violação, mas também de um assassinato.
Onde o Dominique pode ser o autor dos crimes. O nome da cidade onde a Gisele morava, né? Aposentada, vivendo uma vida tranquila, né? Em Mazã. Foi parar em todos os jornais, porque esse caso realmente se tornou gigantesco. E vocês pediram muito pra que eu falasse dele. E eu disse que eu ia esperar o julgamento e tal. Porque quando ele explodiu, eram pequenas informações. E eu queria esperar, eu queria trazer o caso completo pra vocês.
E essa cidade que ela morava é uma cidade extremamente bonita. Que tem muitos vinhedos.
mas ela não ficou conhecida por isso. Ficou conhecida pelo caso da Gisele que morava em uma casa linda, com piscina, né, curtindo a sua aposentadoria sem nem imaginar o que tava acontecendo ali dentro. Então, o nome que ficou nesse caso não foi o nome da cidade em que ele aconteceu e nem o nome do Dominique, e sim o nome da Gisele. Quero muito saber o que vocês acharam, vocês pediram muito esse caso, então me conta aqui nos comentários.
E é isso, pra mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveita pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.