Episódios de Quinta Misteriosa

O CASO PERTURBADOR DE MARK KILROY E O CULTO DE MATAMOROS #590

15 de maio de 202626min
0:00 / 26:28

Em março de 1989, Mark Kilroy, estudante americano de 21 anos, cruza a fronteira com o México para curtir o feriado universitário. Seus amigos voltam sem ele. O que a polícia vai encontrar um mês depois, num rancho nos arredores de Matamoros, vai chocar os dois países e revelar um culto que operava há anos nas sombras.

Participantes neste episódio1
G

Gisberta Salsi Jr.

Host
Assuntos7
  • O culto de Matamoros e Adolfo ConstanzoAdolfo de Jesus Constanzo · Palomayombe · Rancho Santa Helena · Sacrifícios humanos · Tráfico de drogas
  • O desaparecimento de Mark KilroyMark Kilroy · Spring Break · Matamoros · Fronteira EUA-México
  • A vida e crimes de Adolfo ConstanzoAdolfo de Jesus Constanzo · Palomayombe · Miami · Cidade do México · Cartel do Golfo
  • A investigação e descoberta dos corposRancho Santa Helena · Corpos mutilados · Mark Kilroy · José Luiz Garcia
  • O fim de Adolfo Constanzo e a prisão de Sarah AldreteAdolfo de Jesus Constanzo · Sarah Aldrete Vila Real · Cidade do México · Suicídio ritualístico
  • Sarah Aldrete e o cultoSarah Aldrete Vila Real · Matamoros · Sacerdotisa · La Narco Satânica
  • Legado e consequências do casoFundação Mark Kilroy · Prevenção ao uso de drogas · Cooperação EUA-México · Cartéis mexicanos
Transcrição70 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Mark James Kilroy nasceu em 5 de março de 1968, em Chicago, Illinois. Quando ainda era criança, a família se mudou para Santa Fe, uma cidade pequena nos arredores de Houston, no Texas. Era o tipo de cidade pequena onde todo mundo se conhecia. Ruas tranquilas, escola pública, futebol americano, nas sextas-feiras à noite. O pai do Mark James Kilroy era engenheiro químico. A mãe, Helen, trabalhava como paramédica voluntária.

Eles eram católicos, praticantes e frequentavam regularmente a igreja Nossa Senhora de Lourdes, na cidade vizinha de Hitchcock. A família era unida e Mark tinha um irmão mais novo chamado Kidd. Na escola, Mark se destacou tanto nos estudos quanto nos esportes. Ele praticou baseball, basquete, golfe, ele foi escoteiro também. E no ensino médio, terminou em 14º lugar numa turma de 210 alunos e fez parte do conselho estudantil. Depois da formatura, em 1986, ele entrou para a faculdade.

passou por duas instituições antes de se estabilizar na Universidade do Texas, em Austin, onde cursava o terceiro ano de uma graduação em Ciências da Saúde, o caminho obrigatório nos Estados Unidos para quem quer entrar na faculdade de Medicina. Ele tinha 21 anos e o seu sonho era ser médico. Seus melhores amigos eram os mesmos do ensino médio, todos ex-colegas de basquete e beisebol. O Bradley Moore estudava na Universidade Texas A&M, o Bill Huddleston estava no mesmo campus do Mark, já o Brent Marching cursava o Alvin Community College, perto de casa.

os quatro mantiveram a amizade forte, mesmo depois de seguirem caminhos diferentes. Toda vez que podiam, se reuniam. No início de março de 1989, com as provas do semestre encerradas, os quatro combinaram de passar o feriado universitário juntos, o período que os americanos chamam de Spring Break.

quando os estudantes de todo o país viajam para as praias, cidades da fronteira em busca de sol, festa e liberdade temporária. Os quatro amigos escolheram South Padre Island, uma ilha no extremo sul do Texas, a poucos quilômetros da fronteira com o México. O Bradley terminou os exames mais cedo e foi da Texas AM até Austin para buscar o Mark Eubill. Os três, então, seguiram para Santa Fe para pegar o Brent. Assim, os quatro estavam juntos, embarcando numa viagem de nove horas até o sul do Texas, chegando à ilha quase meia-noite. Eles estavam super animados.

Nos primeiros dias, a rotina deles era super tranquila. Eles iam para a praia de manhã, voltavam para o hotel, almoçavam, à tarde iam para a praia mais um pouco. Na ilha, havia shows, concursos e transmissões ao vivo para todo o país. Na noite do dia 14 de março, os quatro amigos decidiram cruzar a fronteira a pé até Matamoros, cidade mexicana do outro lado da ponte.

Não era algo incomum durante o Spring Break. Milhares de jovens americanos faziam exatamente a mesma coisa. Mata Moros era conhecida pelos bares baratos, música alta e pelas leis mais permissivas para consumo de álcool. Do lado americano, a lei proibia o consumo de álcool para menores de 21 anos. Já para o lado mexicano, a fronteira abria para um mundo diferente. Cerveja barata, sem fila, sem documento e sem idade mínima fiscalizada.

Milhares de estudantes faziam essa travessia durante a primavera quase como um ritual de passagem.

Ali, em Matamoros, tinha toda uma economia construída em cima disso. Bares, restaurantes e hotéis, e uma rotina ali tão estabelecida que ninguém questionava. Naquela noite, a rua Álvaro Obregon, que era uma das suas principais ali, estava tomada, pra vocês terem ideia, por aproximadamente 15 mil jovens. As calçadas, os bares, as festas lotadas de gente, então os quatro amigos decidiram ir primeiro pra um bar chamado Los Sombreros.

Depois foram pro London Pub, que foi rebatizado ali no feriado como Hard Rock Café.

Por volta das duas da manhã, os quatro amigos decidiram começar ali a retornar o caminho pra fronteira. O Mark parou na calçada ali pra se despedir de uma garota que ele tinha conhecido ali nas festas. E aí, ele desapareceu. Os três amigos esperaram por ele e aí começaram a procurar por ele.

nos bares, nas calçadas próximas da fronteira, nas ruas. Mas aí, os estabelecimentos começaram a fechar e as ruas a esvaziar e o Mark não aparecia. Às quatro e meia da manhã, os amigos decidem atravessar para Brownsville. E aí, eles ficam esperando de carro, acreditando que o Mark já teria atravessado antes deles. Mas o Mark não estava lá. Então, eles esperam um pouco e depois retornam para o hotel, imaginando que talvez ele já estivesse no hotel ou tivesse voltado com outra pessoa.

Quando a manhã chegou e o Mark ainda não tinha aparecido, eles decidiram ligar pra família dele e aí avisar as autoridades. E a partir desse ponto, o desaparecimento do Mark passa a ser investigado oficialmente. Os pais do Mark, o James e a Helen começaram a fazer buscas por ele imediatamente. Eles distribuíram 20 mil panfletos no Vale do Rio Grande.

dos dois lados da fronteira. Eles ofereceram uma recompensa de 15 mil dólares por informações. Empresários de Brandsville ajudaram com mais 10 mil dólares. A imprensa local cobria o caso. A imprensa nacional também começou a cobrir o caso. E o desaparecimento do Mark ganhou uma atenção política em comum em casos de desaparecimento. Por um motivo bem específico, que era o tio do Mark, chamado Ken Kilroy. Ele trabalhava no serviço de alfândega americano em Los Angeles.

Então, essa ligação colocou uma pressão direta nas autoridades mexicanas para encontrar o Mark. Nas semanas que se seguiram, os pais do Mark não pararam. Eles se reuniram com senadores, prefeitos dos dois lados da fronteira, com o governador do Texas. O caso foi ao ar no programa America's Most Wanted e mesmo assim, mesmo com todas as buscas.

não tinha absolutamente nada. No dia 1º de abril, um carro furou o bloqueio policial que liga Matamoros à Reynosa. Os policiais que estavam ali na estrada, ao invés de ligarem a sirene, eles decidiram seguir aquele carro com o veículo policial descaracterizado. O carro foi direto para o rancho Santa Helena, nos arredores da cidade.

Os policiais encontraram maconha, pontas de charuto, velas, garrafas vazias. Mas por algum motivo naquele dia eles não fizeram a busca mais a fundo. Eles identificaram o motorista do carro como o Serafim Hernandes Garcia, sobrinho de um dos líderes do tráfico local. Oito dias depois, no dia 9 de abril, eles retornaram ao rancho agora com reforços e realizaram prisões. O Serafim, o seu tio Hélio Hernandes Rivera, o zelador do rancho Domingo Reyes e mais dois homens foram detidos.

Eles estavam extremamente calmos nesse momento. E aí, eles chegaram até a dizer que eles estavam protegidos e que as balas não os atingiriam. E aí, eles foram levados. E no interrogatório, essa calma deles começou a mudar. Tudo começou com o zelador Domingo reconhecendo...

uma foto do Mark dizendo que ele tinha visto o Mark no rancho, que ele estava amarrado e machucado e que ele teria dado água para ele. Depois ele disse que viu outros homens chegarem e levarem o Mark para dentro da cabana e depois disso ele não o viu mais. Nesse ponto, a polícia decide interrogar os detidos separadamente. Foi nesse momento que o Serafim, o motorista do carro que tinha furado o bloqueio policial na estrada, começou a falar.

Ele confessou que várias pessoas haviam sido mortas no rancho ao longo dos meses.

por ordem de um líder que acreditava que sacrifícios humanos dava proteção espiritual para eles ali no tráfico. O Serafim chegou a indicar onde esses corpos estariam enterrados. Então, segundo os depoimentos, na noite do dia 13 para o dia 14 de março de 1989, o líder realizou um ritual no rancho para garantir a passagem segura de 800 quilos de maconha para os Estados Unidos.

Uma vítima foi sacrificada, mas pro líder era pouco, precisava de mais. Ele achou que a pessoa não tinha sofrido o suficiente e pediu que eles trouxessem mais uma pessoa pra ter o efeito desejado. Então ele ordenou que os seus seguidores saíssem à procura de mais uma pessoa. Naquela mesma noite, a rua Bregon estava tomada por jovens, muitos americanos que estavam ali nas férias, né? E um deles era o Mark. Os seguidores o identificaram sozinho na calçada, exatamente no momento que ele se separou dos amigos pra se despedir da garota que ele tinha conhecido mais cedo.

O Mark também esperava pelo Bill. Então, naquele momento que ele tava ali sozinho, eles se aproximaram, ele não deu muita bola, mas ele já tava cansado, tinha muita gente. Ele tinha bebido também. Então, somando tudo isso, foi fácil pra que eles conseguissem tirar o Mark daquela multidão sem serem notados.

Dois homens colocaram o Mark à força dentro de uma caminhonete e aí, em algum momento, eles param essa caminhonete num beco. O Mark consegue sair da caminhonete e começa a fugir. Ele foi recapturado por um segundo veículo e aí ele foi amarrado e levado até o rancho. O Mark foi mantido por cerca de 12 horas em cativeiro antes de ser morto por um golpe de facão na nuca. Depois da morte, amputaram as suas pernas até os joelhos.

Eles retiraram o cérebro e a coluna vertebral. O cérebro foi colocado num caldeirão e fervido no próprio sangue do Mark, junto com restos humanos e de animais. Com o fragmento da coluna, foi feito um alfinete de gravata que o líder passou a usar. Os seus restos foram enterrados em uma vala rasa, junto com outras vítimas.

O carregamento seguiu viagem e para o líder era mais um ritual que tinha sido completado. No Rancho Santa Helena, cerca de 20 quilômetros a oeste de Matamoros, os policiais primeiro voltaram à cabana. O cheiro que tinha lá era insuportável, tão forte que os agentes recuaram ao abrir a porta. Dentro havia um altar manchado de sangue, velas consumidas, garrafas de cachaça vazias, um facão, um martelo e um caldeirão de ferro.

No caldeirão, misturados com sangue seco, havia cabelo humano, terra, resto de animais, havia cérebro humano sendo servidos. E mais tarde, os detidos explicariam às autoridades o que aquilo significava. Beber essa mistura, eles acreditavam que os tornava invencíveis. Invencíveis pra polícia e imune às balas. Por isso que eles falaram que eles estavam...

bem e não aconteceria nada com eles no momento que eles foram detidos. Os policiais voltaram ao terreno aberto do rancho e começaram a cavar. As valas estavam espalhadas pela propriedade, algumas numa área de terra abatida e outras próximas a um pomar. Eles encontraram o corpo do Mark quase um mês depois do seu desaparecimento. Além do Mark, foram encontrados ao menos outros 14 corpos enterrados em valas rasas, todos mutilados.

A maioria foi identificada. Alguns não foram até hoje. As investigações apontavam para um único nome, para o líder do grupo, o Adolfo de Jesus Constanzo. Adolfo nasceu em 1º de novembro de 1962, em Miami, na Flórida. Sua mãe, Délia Aurora Gonzalez Del Valle, era imigrante cubana e tinha apenas 15 anos quando ele nasceu.

Ao longo da vida, Adélia teria três filhos de três pais diferentes. O pai biológico do Adolfo morreu quando ele ainda era bebê. Adélia levou o filho para Porto Rico e logo depois se casou pela segunda vez. A família viveu ali por alguns anos antes de retornar definitivamente para Miami em 72, quando Adolfo tinha 10 anos.

O segundo padrasto também morreu pouco depois da volta, então Adélia se casaria uma terceira vez. A família vivia num ciclo de instabilidade, novos maridos, novas casas, novas cidades, e Adolfo cresceu nesse ambiente de ausências e recomeços constantes. Para o mundo de fora, a família parecia seguir um caminho convencional. Adolfo foi batizado católico e chegou a ser coroinha na igreja. Um menino bem comportado, de aparência normal, frequentando a missa com a mãe. Mas havia uma camada oculta naquela casa.

Adélia praticava uma religião chamada Palomayombe, que havia aprendido ainda em Cuba e que continuou cultivando nos Estados Unidos, longe dos olhos dos vizinhos. Para entender o que aconteceu depois, é primeiro entender o que é essa religião. O Palomayombe tem raízes nos povos Bakongo e Bantu da África Central, especialmente na região que hoje corresponde à República do Congo e à República Democrática do Congo.

O nome vem do idioma Kikongo. Pala significa pau ou madeira, referência aos objetos sagrados feitos de madeira usados nos situais. E Mayombe é o nome de uma região florestal no Congo de onde muitos dos africanos escravizados eram originários. A religião chegou às Américas pelo tráfico transatlântico de escravos.

Em Cuba, onde se desenvolveu com mais força, ganhou influências do catolicismo e do espiritismo, criando uma tradição própria. Tem semelhanças com religiões afro-brasileiras, como a Umbanda, o Candomblé de Angola e a Quimbanda. Todas compartilham raízes nos cultos do Congo.

No centro do palo Mayombe está uma crença fundamental. Todas as coisas, pessoas, plantas, animais, pedras, rios, possuem um espírito ou energia vital. Os praticantes, chamados de paleiros ou paleiras, buscam estabelecer conexão com esses espíritos para obter orientação, proteção e poder. O objeto mais importante da prática é o niganga, um caldeirão de ferro que serve de morada para um espírito dos mortos.

O Naganga contém ossos humanos, paus, terra de cemitério e outros elementos sagrados. Acredita-se que o espírito que habita o caldeirão serve ao praticante, executando suas ordens. Os Nagangas, preparados com intenção de cura, são abençoados. Os preparados para causar danos são mantidos sem esse ritual.

É uma religião legítima, com milhares de praticantes no mundo, que inclui valores éticos e morais e uma visão de mundo complexa sobre a relação entre vivos e mortos. O que Adolfo Constanzo fez foi uma distorção violenta e criminal dessa tradição, uma apropriação que misturou elementos do Palo Maiombe com sua própria lógica de domínio e destruição. A mãe do Adolfo tinha passagem pela polícia por furtos, vandalismo e negligência infantil.

Segundo relatos da época, era conhecida no bairro por deixar rastros de rituais nas casas que alugavam.

Segundo relatos biográficos sobre o caso, quando Adolfo ainda era bebê, Délio teria levado a um sacerdote haitiano de Palo Mayombe, que declarou que ele era um escolhido. A mãe levou a sério essa crença e, ao longo da infância de Adolfo, o expôs às práticas da religião. De volta a Miami, Adolfo acompanhava a mãe em pequenos crimes. Era um aluno medíocre, teve dificuldades para se formar no ensino médio e abandonou a faculdade depois de um semestre.

Ele frequentava bares gays de Miami na adolescência e seu mundo girava em torno das ruas e das práticas que aprendia com a mãe.

Aos 14 anos, tornou-se aprendiz de um feiticeiro local em Little Havana que atendia traficantes supersticiosos. E isso foi decisivo. Adolfo aprendeu que havia um mercado, e um mercado lucrativo para quem oferecesse proteção espiritual a pessoas que viviam fora da lei. Aos 18 anos, foi iniciado formalmente no Palo Maiombe pela própria mãe. Começou a roubar ossos de cemitérios para construir seu próprio niganga. E ele já sabia o que queria fazer.

Em 1983, uma oportunidade de trabalho como modelo levou Adolfo ao México pela primeira vez. Ele passou seu tempo livre lendo Tarot para Desconhecidos na Zona Rosa, bairro boêmio da cidade do México, conhecido pela vida noturna e pela comunidade LGBTQIA+, da capital. Foi ali que ele começou a recrutar seus primeiros seguidores.

Dois deles, o Martín Quintana Rodrigues e o Omar Orell Choa, se tornaram seus amantes e discípulos mais próximos. Adolfo o seduziu com carisma e com a promessa de um poder espiritual que eles nunca haviam encontrado antes. Ele voltou a Miami, mas logo decidiu que o futuro estava no México. Em meados de 84, ele se mudou definitivamente para a cidade do México. Compartilhava apartamento com Martín e Omar numa dinâmica que misturava relacionamento afetivo e hierarquia religiosa. E foi aí que a sua reputação começou a crescer.

O modelo de negócios era claro. Adolfo oferecia essas cerimônias de proteção espiritual para traficantes, policiais corruptos e empresários que viviam em territórios perigosos. Muitas pessoas supersticiosas acreditavam que a magia poderia protegê-las da polícia e dos seus rivais. E eles pagavam bem por isso. As cerimônias envolviam sacrifícios de animais e os valores variavam. Um galo era cerca de 6 dólares, mas um filhote de leão poderia ser até mais de 3 mil dólares.

Um único cliente acumulou uma conta de 40 mil dólares em três anos. O Adolfo tinha mais de 30 clientes que eram regulares. Entre eles, segundo as investigações, tinham policiais e funcionários que abriam as portas do crime organizado mexicano. Com esse dinheiro, ele comprou um apartamento de 60 mil dólares na capital. Ele também tinha vários carros de luxo e, aos 25 anos, havia construído um império espiritual paralelo ao submundo do crime organizado. Mas não era o suficiente para ele e ele queria mais.

Ele começou a acreditar e a convencer os seus clientes que os rituais ficavam mais poderosos se usassem com ossos humanos no Naganga. Então, ele começou a ir aos cemitérios à noite para roubar restos mortais. Com o tempo, ele concluiu que ossos de mortos não bastavam.

O espírito seria muito mais forte se eles matassem uma pessoa durante o ritual. E não era apenas matar, tinha que matar com sofrimento. As primeiras vítimas eram pessoas das margens da cidade. Prostitutas, sem tetos, pequenos criminosos. Pessoas que não eram investigadas a fundo.

Os corpos apareciam mutilados em vários lugares diferentes da capital. E como a maioria das vítimas vinham dessas camadas vulneráveis, né, da população, esses casos não atraíam atenção suficiente pra que uma investigação realmente grande e séria acontecesse. Pelo menos 23 vítimas foram documentadas, mas a polícia acredita que o número pode ser muito maior.

O cliente mais famoso do Adolfo era a família Causada, líderes de um dos cartéis mais poderosos do México na época. E a relação com a família começou da mesma forma de sempre, com o Adolfo oferecendo esses serviços de proteção espiritual. E a família pagava e era bem generosa. Então, com o tempo, eles começaram a acreditar que todo o sucesso do cartel eram justamente por conta dos rituais. Então, o Adolfo passou a exigir que ele se tornasse um dos sócios.

A família recusou e a resposta do Adolfo foi metódica. Sete membros da família causada desapareceram em sequência. Quando os corpos foram encontrados, sempre estava faltando alguma coisa. Então, faltando os dedos, o cérebro, orelhas, testículos. Em um dos casos, a coluna vertebral havia sido removida. O recado estava dado e, a partir dali, ninguém mais recusou nada que o Adolfo falasse. Foi nesse contexto que ele encontrou o seu parceiro mais importante. E o ambiente mais propício para o que viria depois.

Matamoros não era uma cidade qualquer para o narcotráfico. Era o coração de uma das organizações criminosas mais antigas do México, que era o Cartel do Golfo, que tinha sido fundado muitos anos antes, com uma operação de contrabando de bebidas alcoólicas durante a lei seca americana e que nos anos 80 tinha se tornado uma das maiores máquinas de tráfico de drogas do continente.

O Juan Garcia Ábrego, que é sobrinho do fundador, era o homem que comandava a expansão naquela época. Ele havia firmado um acordo histórico com o cartel de Cali na Colômbia, passando a controlar o transporte de cocaína pela fronteira norte do México, em troca de 50% de cada carregamento. Metamoros era o ponto de passagem e a fronteira com Brownsville era a porta.

Nesse ambiente, a superstição e o crime coexistiam. Traficantes que moviam toneladas de maconha e cocaína acreditavam totalmente nessa proteção espiritual. Eles pagavam por rituais, limpezas, promessas de invisibilidade diante da polícia. E era um mercado que o Adolfo já conhecia da cidade do México. Mas em Matamoros, com a intensidade do tráfico e a pressão constante da fronteira, esse mercado era ainda mais fértil. Ele então formou uma aliança com os irmãos Hernandes, uma família de traficantes de Matamoros que controlava o tráfico na fronteira do Texas.

Os Hernandes eram supersticiosos e acreditavam genuinamente no poder de proteção dos espíritos. Ou seja, eles acreditavam 100% nos situais que o Adolfo fazia. Para eles, ter o padrinho ao lado era uma vantagem espiritual. Foi nesse período que o Adolfo conheceu a Sarah Aldrete Vila Real. A Sarah nasceu em 6 de setembro de 1964, em Matamoros. Ela cresceu entre os dois lados da fronteira. Parte da educação básica, ela cursou em Brownsville, no Texas.

Ela estudava educação física no Texas Southmost College, com uma bolsa de dança.

dava aulas de tênis para crianças no tempo livre e era descrita pelos colegas como amigável, estudiosa e uma aluna modelo. Era alta, loira, de olhos claros. Tinha interesse em religiões alternativas e havia tido contato com práticas de santeria, mas não era o perfil que alguém associaria a um culto criminoso. O encontro do Adolfo com ela não foi por acaso.

Em 30 de julho de 1987, o Adolfo manobrou seu Mercedes novo para quase colidir com o carro da Sarah numa rua de Matamoros. Ele desceu e se desculpou com charme e elegância. Ele notou que o aniversário dela coincidia com o da própria mãe, e ali começou a amizade, cuidadosamente encenada por ele. Nos meses seguintes, a Sarah foi sendo gradualmente introduzida ao círculo do Adolfo, ao ritual e à ideologia do culto. Ele a nomeou sua sacerdotisa, a madrinha, título paralelo ao seu de padrinho.

Enquanto frequentava as aulas em Brownsville e dava aulas de tênis, a Sarah cruzava a fronteira regularmente para Matamoros, onde participava dos situais do Adolfo, supervisionava os seguidores e, segundo as investigações, recrutava novas pessoas para o grupo. Eram dois mundos completamente separados e sustentados pela mesma pessoa.

Em 1988, o grupo se mudou para o Rancho Santa Helena. Dali, o Adolfo coordenava tanto os situais quanto o transporte de grandes quantidades de maconha e cocaína para os Estados Unidos. Então, quando aconteceu a notícia da descoberta do corpo do Mark e das outras vítimas, isso explodiu dos dois lados da fronteira. Rádios mexicanas chegaram a transmitir rumores de que o culto buscava crianças para o sacrifício, que era falso. Mas causou pânico o suficiente para que pais na região retirassem os filhos das escolas por dias. Nos Estados Unidos, o caso dominava os noticiários.

A Helen, mãe do Mark, falou a uma multidão de mais de mil pessoas numa missa em memória do filho em Brownsville. Ela pediu que rezassem pelos assassinos do filho, que alguém entrasse em seus corações e os fizesse compreender o que haviam feito. Era um ato de fé que contrastava brutalmente com a crueldade do que havia acontecido. Mas Mark não foi a primeira vítima encontrada no rancho, nem a única com família que esperava uma resposta.

Três semanas antes do desaparecimento do Mark, no dia 25 de fevereiro de 1989, um menino de 14 anos chamado José Luiz Garcia havia sumido de uma fazenda a dois quilômetros do Rancho Santa Helena. Seu pai, Isidoro e sua mãe, Ericada, eram agricultores evangélicos da região. Não houve coletiva de imprensa por José Luiz. Não houve recompensa e nem senadores pressionando autoridades.

Quando os corpos foram encontrados no rancho, a irmã do José Luiz foi a uma funerária em Matamoros identificar os restos. Ela reconheceu o irmão pela camisa cinza e verde, que era a sua favorita. A família não tinha dinheiro nem para providenciar o translado do corpo. Foi a Erika Ada quem deu ao Texas Monthly num relato sem amargura nem ironia, a frase que resumia tudo. Ela disse entre aspas.

Se não fosse pelo menino americano, nenhum dos outros, incluindo o meu filho, teria sido encontrado jamais. O homem responsável por tudo isso já não estava mais em Matamoros. Adolfo havia fugido antes da operação policial, porque ele sabia que a prisão de Serafim era o começo do fim. Ele saiu de Matamoros com um grupo pequeno de seguidores.

A Sara, o Martim, o Omar e Álvaro de Leon Valdes, conhecido como El Dubi, pistoleiro da família Hernandes. Todos eles foram juntos para a cidade do México, passando de apartamento em apartamento entre discípulos que os abrigavam. Do lado americano, a Agência Federal de Combate ao Tráfico de Drogas havia alertado as autoridades mexicanas de que Adolfo poderia tentar fugir para Miami, onde a sua mãe vivia. Então, o cerco estava fechando.

No dia 6 de maio de 1989, um vizinho ligou pra polícia reclamando de barulho vindo num apartamento na capital. Quando os policiais chegaram e cercaram o prédio, o Adolfo compreendeu que havia chegado ao fim. Enquanto o Adolfo tava lá dentro queimando dinheiro, a Sarah jogou um bilhete pra fora da janela pedindo que resgatassem ela porque ela tava sendo mantida ali em cárcere. Ela dizia que ela era refém do que tava acontecendo ali e o Adolfo sabendo...

que a polícia já tava cercando ali o local, ele mandou que o L. Dub atirasse nele e no Martin, que era o seu amante mais próximo. Então, o L. Dub obedeceu. O Adolfo morreu aos 26 anos naquele apartamento que ele tava escondido nos últimos dias. Antes de ser preso, ele escolheu a própria morte. Já a Sarah foi detida no mesmo dia, junto com o L. Dub e o Omar. Os demais seguidores foram capturados nas semanas seguintes. A Sarah foi julgada no México e sempre se declarou vítima.

Ela disse que o Adolfo tinha manipulado ela e que ela não sabia da extensão dos crimes. Que ela foi torturada durante os interrogatórios para confessar. Ela até escreveu um livro autobiográfico dentro da prisão, em que ela mantém essa mesma versão. As investigações contrariam a narrativa, mas existem evidências. Ela havia supervisionado o grupo, participado de rituais e tinha conhecimento direto dos assassinos. Em 1994, ela foi condenada a 62 anos de prisão por homicídio, profanação de cadáveres e outros crimes.

Essa pena foi posteriormente reduzida a 50 anos. Caso ela cumpra toda a sua sentença, ela vai ser libertada em 2040 aos 76 anos. Ela passou por vários presídios diferentes. Ao longo dos anos, ela se tornou escritora e deu oficinas de literatura e teatro para outras detentas. Ela é descrita por quem a conheceu como respeitada, carismática e temida.

Em 2023, ela até foi tema de uma série documental da HBO chamada La Narco Satânica, ao qual ela deu diversas entrevistas mantendo sua inocência. Hoje, ela ainda cumpre pena no México e quanto aos outros que foram presos, os membros da família Hernandes e os outros membros do culto foram julgados separadamente. E as penas variam de acordo com a participação de cada um deles.

O L. Duby, que foi quem atirou no Adolfo, né? Pela ordem dele. Protagonizou um dos casos mais absurdos da história judicial mexicana. Preso desde 1989, ele cumpriu muitos anos sem ter realmente um julgamento e uma sentença. Ele chegou a passar mais de 34 anos atrás das grades dessa forma.

Segundo as últimas informações que eu encontrei sobre ele, em 2024 ele seguia preso, aguardando uma sentença formal, um julgamento definitivo. Em entrevistas concedidas na prisão, ele disse que ainda ouvia a voz do Adolfo à noite. A família do Mark criou em 1989 a Fundação Mark Kilroy, dedicada à prevenção do uso de drogas e à violência entre jovens.

Os pais do Mark passaram anos viajando pelo Texas falando em igrejas, escolas e comunidades comunitárias. Eles transformaram a morte do filho numa causa. O dinheiro arrecadado foi inteiramente destinado à fundação, incluindo os direitos do livro que o James escreveu sobre o caso.

Já a investigação do Rancho Santa Helena teve consequências políticas duradouras. A investigação expôs a complicidade de policiais mexicanos com o tráfico. Inclusive, alguns dos 30 clientes regulares do Adolfo eram agentes federais. Também levantou questões sobre a cooperação entre México e Estados Unidos no combate ao narcotráfico. E chamou atenção internacional para as práticas de grupos criminosos que misturavam tráfico de drogas com rituais violentos. Um fenômeno que se tornaria mais visível nas décadas seguintes.

Ao longo dos anos, a Sarah concedeu entrevistas em que ela variou entre assumir alguma responsabilidade e reiterar que havia sido manipulada. Em algumas declarações, ela disse que tinha se convertido ao cristianismo na prisão e não há conformação pública de sua situação atual. O Rancho Santa Helena deixou de existir como propriedade ativa. A região de Matamoros continua sendo, nas décadas seguintes, um dos corredores mais violentos do narcotráfico mexicano.

Falco de guerras entre cartéis que fariam o caso do Adolfo parecer, em números brutos, quase que modesto.

O Naganga, encontrado no rancho, foi analisado por peritos e depois destruído. O cérebro humano dentro dele foi identificado como sendo do Mark. A mãe dele, a Helen, faleceu em 2014 aos 70 anos, e o pai dele continuou o trabalho da fundação até falecer em 2024 aos 81. A fundação Mark Kilroy continua ativa, concedendo bolsas de estudo a jovens do Texas e mantendo programas de prevenção ao uso de drogas.

Quero muito saber o que vocês acharam desse caso, me conta aqui nos comentários. Não esquece do like que me ajuda muito na divulgação do vídeo. E é isso, para mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveite para avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.

O CASO PERTURBADOR DE MARK KILROY E O CULTO DE MATAMOROS #590 | Castnews Index — Castnews Index