FOI A DISCOTECA COM OS AMIGOS E NÃO VOLTOU... | Caso Jorge Matute Johns #587
Era uma sexta-feira à noite no Chile, e Jorge tinha 23 anos, um sorriso fácil e a vida inteira pela frente. Saiu para uma balada com os amigos e nunca mais voltou. O que veio depois levaria mais de vinte anos para ser respondido — e quando a resposta chegou, os responsáveis já estavam mortos. #586
Gisberta Salsi Jr.
- Desaparecimento de Jorge MatuteInvestigação policial · Discoteca La Cucaracha · Teoria da surra · Uso de drogas · Caso não resolvido
- Impacto em filhos e famíliaLuta da mãe de Jorge · Consequências para os amigos
- Obstrucao de InvestigacoesDescarte de pistas · Pressão nos interrogatórios
- Reabertura do casoNovas evidências · Análise forense
- Documentário e reconhecimento tardioReação da família · Críticas ao documentário
A cidade de Concepción fica a cerca de 500 quilômetros ao sul de Santiago, às margens do rio Biobío. É a segunda maior cidade do Chile, tal da região homônima, com uma identidade própria que os concepcionenses chamam de penquista. Uma cultura de orgulho regional, de universidades, de música, de um jeito de ser que não se confunde com a capital.
A cidade tinha, nos anos 90, uma vida noturna intensa, alimentada por uma população jovem e universitária que atraía festas de música eletrônica para galpões afastados do centro, longe dos olhos dos bairros residenciais. Isso era parte do apelo e parte do perigo também. Em 1999, o Chile estava no final do governo de Eduardo Frei Ruiz Tagli, presidente da República desde 1994.
A democracia havia retornado ao país menos de uma década antes, após os anos da ditadura de Augusto Pinochet, e a polícia chilena ainda operava sob estruturas e práticas herdadas do período anterior. Investigar significava, muitas vezes, navegar entre corporativismos, egos e disputas de autoridade que tinham tanto a ver com política interna, quanto com a busca pela verdade.
Era nesse Chile que o Jorge vivia. Jorge Eduardo Matute Jones nasceu no dia 24 de fevereiro de 1976, no sanatório alemão de Concepción. Era filho de Jorge Matute Matute, sim, o sobrenome do pai repetia, e no Chile é comum herdar o sobrenome paterno de ambos os lados da família. Então, no caso, a mãe dele se chamava Maria Teresa Jones.
O seu pai nasceu em Valparaíso, no dia 1º de fevereiro de 1951. Ele estudou, passou no processo seletivo da ENAP em 1970 e trabalhou por 41 anos na refinaria. Se tornou dirigente sindical, presidente da Federação Nacional de Trabalhadores do Petróleo e militante da democracia cristã. Era um homem de convicções fortes, uma liderança regional, um rosto conhecido nos movimentos trabalhistas da região.
Já a mãe Maria nasceu no dia 20 de janeiro de 1947 e tinha uma história própria antes de se tornar a mãe do Jorge. Ela era enfermeira formada, tinha trabalhado na Força Aérea Chilena e gostava do que fazia. Quando ela se casou em 1972, ela pediu baixa. O marido queria uma mulher para casa e não uma enfermeira para os aviadores. Maria Tereza aceitou e reconstruiu sua vida em torno da família. Era ela o centro gravitacional daquela casa em São Pedro de La Paz.
O casal teve dois filhos. Alex, o mais velho, que cresceu, foi pra Santiago e se tornou advogado. E Jorge, que ficou em Concepción. Em casa, o nome do Jorge era simplesmente Jorge. Mas pros amigos, o seu apelido era Coque. Sem conotação alguma. Apenas a informalidade de quem é querido e presente. A família morava em Villa Spring Hill, um bairro tranquilo em São Pedro de La Paz, município contínuo à Concepción.
Uma vida de classe média estável e sem sobressaltos. O Jorge cresceu sendo o tipo de pessoa que torna o ambiente mais leve. Ele era magro, tinha 1,74m de altura, pele clara e olhos verdes que constratavam com o cabelo preto. Ele ria facilmente e, segundo quem o conheceu, ele tinha uma gargalhada fácil.
O tipo de presença que faz os outros se sentirem bem. Ele gostava de futebol, mas sua verdadeira paixão era a música. Ele estudou nos colégios sagrados Corações e Salesiano de Concepción. No Salesiano, em 93, com 17 anos, ele fundou, junto com dois colegas, o Marcelo Sepulveda e Gerardo Roa, uma banda chamada Reacion en Cadena. A banda nunca saiu dos ensaios para o palco, mas os três continuaram amigos desde o colégio. O Gerardo, em especial, se tornaria um dos amigos mais próximos do Jorge.
Em 94, Jorge ingressou em Biologia Marinha na Universidade Católica de La Santíssima Concepción. Mas ele não ficou. Ele fez novamente a proeba de aptitude acadêmica, que seria o equivalente ao vestibular chileno, e entrou em Engenharia Florestal na Universidade de Concepción. Ele estava no quinto ano do curso, em novembro de 99, e tinha uma namorada chamada Cintia Otarola.
Ele vivia uma rotina de estudante universitário sem nada de incomum. A sua família era unida, de classe média, sem histórico de conflitos ou de envolvimento com violência. O Jorge era, por todos os latos disponíveis, um jovem comum. O tipo que não dá motivo para ninguém imaginar que sua história se tornaria o maior enigma judicial de sua cidade por décadas.
Na sexta-feira, dia 19 de novembro de 1999, o Jorge saiu de casa pra ir em uma discoteca chamada La Cucaracha, em Talcahueno. Antes de sair, ele colocou por baixo da calça jeans azul escuro um traje de banho, que era uma coisa que ele sempre fazia, uma excentricidade que os amigos conheciam bem. Por cima, ele colocou uma camiseta branca e uma camisa azul celeste aberta, e ele usava sapatos pretos.
Junto dele estava um dos seus melhores amigos, o Gerardo, e também outras duas amigas, as irmãs Maria José e Maria Paz Maldonado. Essa discoteca que os amigos estavam indo naquela noite, lá com o Karate, ficava um pouco afastada da região urbana da cidade.
Em um trecho da estrada que leva ao aeroporto Carriel Sur, em San Pedro de La Paz. Então, como era mais afastado, era um local que você precisava ir de táxi ou de carro. Não tinha como você ir a pé. Naquela festa em especial, o local tinha dois eventos simultâneos acontecendo. Então, um deles era um desfile de moda. E o outro era uma festa de música eletrônica com entrada franca. E era pra essa festa que o Jorge e seus amigos estavam indo.
Era uma noite de muito movimento ali na discoteca, então as pessoas chegavam em grandes grupos, tinha muito álcool acontecendo ali, e a entrada e saída das pessoas não era controlada. E além disso, o Lacucaracha tinha um nome que era basicamente uma piada, e uma reputação que ao mesmo tempo que era popular também era ambígua. O local era frequentado por muitos jovens da região, mas também era frequentado por um público mais velho, né? Umas pessoas mais discretas.
Homens que mantinham a vida privada longe dos olhos do público. O dono da discoteca era o empresário e médico Bruno Betanzo. Ele administrava o local com a sua companheira, Carmen Sereno. Naquela noite, cerca de 300 pessoas frequentavam a mesma festa que o Jorge estava. Então, ele foi visto por várias pessoas na pista, no bar, conversando com outras pessoas. Naquela noite, também houve algumas brigas em partes separadas da discoteca.
Então, era uma coisa que acontecia com frequência ali, mas testemunhos disseram que o Jorge não estava envolvido em nenhuma dessas brigas. Ninguém viu ele brigar ou passando por alguma dificuldade, algum problema, nada. Apenas viram ele se divertindo, bebendo na festa com os amigos. Então, o que aconteceu naquela noite? Entre meia-noite e três e meia da manhã, nunca foi completamente reconstruído. Como tinham muitas pessoas no local, na festa, há testemunhos que são contraditórios. Então, algumas pessoas dizem que viram o Jorge...
conversando com um grupo de homens mais velhos, que inclusive não eram do seu círculo habitual. E aí, outras pessoas dizem que viram ele sozinho, dançando na pista. E outros disseram que viram ele indo pro banheiro por volta das duas da manhã e que depois disso ele não foi mais visto.
Nenhum desses testemunhos foi suficientemente consistente para que fosse acreditado em uma versão só, para que fosse usado como base sólida para a investigação que iria acontecer. Por volta das três e meia da manhã, então já era no sábado, dia 20, o Jorge foi visto por uma testemunha andando, acompanhado em direção ao estacionamento.
A testemunha disse que tinha alguém com ele ou que ele iria se encontrar com alguém lá fora. Então, essa parte é um pouco confusa. Não se sabe exatamente se ele estava com alguém mesmo naquele momento ou se ele encontrou alguém depois. Não tem como saber. E essa foi a última vez que ele foi visto. Depois daquele momento que ele foi visto indo para o estacionamento, não há mais nenhum registro de câmeras, de avistamentos, nenhum rastro, nenhuma testemunha confiável que tivesse visto alguma coisa depois disso.
O Jorge desapareceu entre a porta da balada até a entrada do estacionamento, o que era cerca de 50 metros. Uma curta distância que separaram a sua vida de tudo o que viria depois. O Gerardo procurou pelo amigo por toda a balada. Então, ele foi em todos os lugares procurar por ele. Começou a perguntar para as pessoas, para amigos, para as irmãs que tinham ido com eles. E ninguém tinha visto ele sair da balada com certeza. Ninguém tinha certeza absoluta se ele tinha saído ou não.
Então, ele procura pelo amigo, não encontra, e decide esperar até fechar a discoteca. Então, quando acaba, e ele ainda não tinha encontrado o amigo, ele decide ir até a casa dele pra perguntar se o Jorge tinha chegado. Então, quando ele chega, ele é avisado que não, que ele não tinha voltado pra casa. Então, ele decide ligar.
pros hospitais da cidade e também pra polícia, pra ver se, quem sabe, ele tava no hospital, se tinha acontecido alguma coisa. Mas não havia nenhuma notícia do Jorge. Então, no dia seguinte, a namorada dele, a Cintia, recebe uma ligação. Só que nessa ligação...
Estava sendo usado algum dispositivo eletrônico para alterar a voz. Então, a voz da pessoa que falava com ela estava distorcida. A voz estava completamente artificial e irreconhecível. Então, essa voz disse para a Cynthia que algo muito grave tinha acontecido com o George. Aquela era a primeira de muitas perturbações que aconteceriam nas semanas e nos meses seguintes ao desaparecimento dele.
Nas primeiras semanas, a família do Jorge recebeu ligações pedindo um resgate de 50 milhões de pesos. Eles recebiam ligações com pistas falsas, com armações, com ruídos. E isso aconteceria por muito tempo, né? Por mais de 20 anos. Mas antes de falar, né? O que aconteceu por todo esse tempo, eu quero falar pra vocês o que aconteceu logo depois que o Jorge desapareceu. Rapidamente, as autoridades foram avisadas. A família também fez vários alertas quase que imediatamente. Então, eles...
Faziam cartazes, o rosto do Jorge estampava. Muitos desses cartazes espalhados pela cidade, que continham todas as informações dele. Então, a altura, a cor dos olhos do cabelo, a descrição completa da roupa que ele usava. Absolutamente tudo. E a informação de que ele tinha sido visto pela última vez, na madrugada do dia 20.
no setor de Carriel Sur. Então, uma semana após o desaparecimento, no dia 26, o pai do Jorge foi pessoalmente à Corte de Apelações de Concepcion para pedir a designação de um ministro em visita para supervisionar a investigação. O pedido dele foi rejeitado. No dia 1º de dezembro, a família formalizou uma queixa-crime na Justiça de Concepcion pedindo que o caso fosse investigado como um desaparecimento suspeito. A juíza Flora Sepúlveda passou a conduzir o caso.
Ela fez perícias na Lacucaracha, interrogou o Bruno e a sua companheira e também três funcionários do local. A Polícia de Investigações do Chile designou o comissário Carlos Estuardo da Brigada de Investigações Criminais de Concepcion para apurar o caso. O Carlos tinha 38 anos e era um policial extremamente experiente, então ele já tinha ajudado a solucionar muitos casos antes dele decidir voltar para a sua cidade natal.
Muitos dos casos que ele tinha solucionado eram casos bem difíceis e como ele tinha crescido na região onde aconteceu o desaparecimento, ele conhecia muito bem o local. Então, ele conhecia as festas, os prostíbulos, os cabarets e até as redes de informantes. Ele era o tipo de investigador que conseguia construir uma relação de confiança mesmo com quem vivia nesse submundo urbano. Logo nos primeiros dias, o Carlos já descartou as brigas que aconteceram naquela noite como uma hipótese para o desaparecimento do Jorge.
O Jorge não havia participado de nenhuma das brigas, como eu falei pra vocês. E aí, ele conversou com os donos do estabelecimento e também com o segurança que ficava ali na porta da entrada e saída. Ele sondou uma possível participação dos seguranças e ele descobriu que todos eles tinham sido contratados recentemente. Então, pra ele, não fazia muito sentido que eles fossem tão leais aos donos a ponto de talvez encobrir alguma coisa.
Até que no início de dezembro de 99, dois informantes do Carlos trouxeram algo diferente para a investigação. Então, o homem que teve a identidade protegida era homossexual. Ele frequentava a Lacucaracha. Então, a declaração que ele deu foi uma declaração protegida. Ele relatou que era uma prática comum naquele ambiente que homens mais velhos e com mais recursos, vindos de diferentes cidades da região sul e até mesmo vindos de fora.
frequentassem baladas afastadas do centro de Concepcion em busca de jovens. O método que eles usavam era sempre o mesmo, então eles ofereciam pagar uma bebida para algum jovem, só que a bebida estava adulterada, com algum tipo de droga que anulava ali o consentimento da vítima. Em seguida, levavam o rapaz para algum outro lugar, e esse era um circuito estabelecido, com um conjunto de homens conhecidos por quem transitava naquele ambiente.
Um mês antes do desaparecimento do Jorge, um jovem tinha acordado completamente desorientado em Praia Branca, uma praia caminho de coronel. E ele não lembrava das últimas 24 horas. Ele disse que a única coisa que ele lembrava é que ele tinha aceitado uma bebida em Lakucaracha. Então, o que tinha acontecido com ele não era uma história isolada.
Aquilo acontecia e o Carlos sabia. Era uma coisa que o Carlos já conhecia e ele já conhecia outras histórias como aquela, né? Então, ele decidiu fazer uma lista ali, juntar uma lista de suspeitos. Ao todo foram 19 suspeitos, procedentes de Concepción, de Chilean, Temuco, Los Angeles e também de outros países.
Alguns organizavam festas privadas em sítios e outros ficavam nos estacionamentos das baladas esperando até que algum jovem que não tivesse dinheiro pro táxi aparecesse e aceitasse uma carona. Então, só pra vocês entenderem, os suspeitos eram esportistas, proprietários de fazendas, profissionais com famílias, então eram pessoas que jamais seriam consideradas pra um crime desse.
Mas o Carlos fez toda essa parte da investigação e organizou tudo em uma pasta azul. Uma pasta igual a pasta de escola mesmo. E em cima da pasta, ele colocou Horras de Parra, que é uma referência a uma droga que os seus informantes descreviam, mas em 99, na época, ele não conseguiu decifrar exatamente que droga era essa, né? A pasta foi apresentada à cadeia de comando.
Foi aí que a investigação tomou a direção errada. O comissário Héctor Arenas, que é chefe da Brigada de Localização de Pessoas, chegou de Santiago para assumir o caso. O Héctor era mais graduado. Ele tinha treinamento em inteligência e tinha sua própria teoria. Ele achava que o Jorge havia levado uma surra de um grupo de jovens que estavam na balada naquela noite e que o corpo havia sido escondido por eles depois. A pasta, né, honras de parra que foi entregada...
simplesmente foi descartada. Os policiais que Carlos havia infiltrado no ambiente noturno foram retirados e o Carlos foi afastado do caso. Por pouco tempo, ele chegou a ser interrogado como suspeito pelo próprio Héctor. Havia um registro policial que colocava o Carlos num motel próximo à La Cucaracha na mesma noite do desaparecimento do Jorge. Durante o interrogatório, Carlos revelou que ele estava nesse motel com uma mulher com quem ele mantinha um caso extra-conjugal. A informação foi verificada e Carlos foi descartado como suspeito.
Mas o dossiê que poderia ter resolvido o caso do Jorge em 10 dias foi simplesmente guardado em dependências da PDI e ficou lá por 15 anos fora do conhecimento de qualquer juiz. Então agora, com essa hipótese da surra guiando as investigações, o Héctor e sua equipe passaram meses construindo um caso contra um grupo de jovens que haviam estado na balada naquela noite.
A teoria do Hector era a seguinte. Ele achava que o Jorge tinha sido visto riscando um carro no estacionamento naquela noite. Uma briga teria começado. E aí, ele teria apanhado, né? Teria sido agredido por sete pessoas. Então, ele teria sido agredido até a morte. E depois, esses sete rapazes teriam carregado o corpo até Santa Juana. Que é uma estrada ali perto. E depois, eles teriam voltado pra balada. Pra começar outras brigas lá dentro. E dessa forma, desorientar possíveis testemunhas. Só que não tinha nada...
que realmente fosse muito forte para que eles seguissem essa versão específica. Não tinha nada sólido, né? Nenhuma testemunha que tivesse visto nada disso e também nada que ligasse esses sete jovens ao desaparecimento do Jorge. O que havia, de fato, eram contradições menores dentro dos depoimentos desses sete rapazes.
Eram horários que não batiam exatamente, versões ligeiramente diferentes do que cada um deles estaria fazendo, onde estaria em determinado horário. Para o Héctor, só essas pequenas contradições já era suficiente para que eles fossem considerados suspeitos. Para ele, eram indícios suficientes de que aqueles jovens escondiam algo. Em dezembro do ano seguinte de 2000, dois jovens, o Carlos Gajardo e a Gisela Miranda foram presos por suposta obstrução à justiça. Eles foram soltos no fim do mês pelo habeas corpus.
No dia 1º de janeiro de 2001, sete rapazes foram detidos pelo mesmo motivo. São eles Christian Herrera, Federico Romper, Oscar Arauz, Jorge Banados, Jaime Rojas, Carlos Alarcón e José Ignacio Del Rio. Então, esses sete foram presos. A imprensa batizou os sete rapazes como os sete de la cucaracha. Entre 4 e 5 de janeiro, todos foram formalmente processados. Já no dia 12, eles recuperaram a liberdade.
Mas aí, a família do Jorge e o Conselho de Defesa do Estado apelaram e a Corte Suprema reverteu a decisão no dia 30 de janeiro. Ou seja, os sete voltaram à detenção e no dia 20 de fevereiro eles tiveram a liberdade provisória. E aí, pulando para novembro daquele ano, a juíza Flora processou o Sete formalmente por obstrução à justiça. As declarações deles eram contraditórias em alguns pontos, mas essas contradições haviam sido, em parte, fabricadas pela pressão nos interrogatórios.
A teoria do Héctor se baseava em suposições e não em fatos, que, segundo a ministra Carola Rivas, disse anos depois, não tinham base factual verificável. As investigações posteriores revelaram que havia uma explicação bem simples para essas contradições nos depoimentos.
Os sete haviam sido submetidos a interrogatórios com pressão intensa e até agressão física. Pessoas que apanham e são ameaçadas mudam as suas versões. Mas isso não significa que eles mentiam sobre o crime, e sim que eles tinham medo. Mas só pra vocês entenderem, né, eu tô indo pelas teorias uma por uma, porque se eu for contar todas misturadas, vai ficar muito confuso. Mas essa teoria dos sete rapazes, a comprovação de que eles não foram os culpados e que eles não tinham nada a ver, só viria muito tempo depois.
Só em 2014, então, depois do corpo ter sido encontrado, depois de várias outras coisas acontecerem, e aí foi feita uma segunda autópsia nesse ano, e aí, só aí veio a revelação que não tinha nada a ver essa teoria, porque a teoria dizia que eles tinham batido tanto no Jorge que isso causou a sua morte. Mas aí, na segunda autópsia, eles viram que não tinha nenhum osso quebrado, nenhuma fratura, nenhum sinal físico no corpo que comprovasse essa teoria, ou seja...
A teoria do Héctor, que colocou sete rapazes na cadeia, não tinha base científica alguma. Para os sete, para as suas famílias, todos esses anos, até ter essa confirmação só em 2014, foi uma destruição lenta da vida deles. Eles passaram o início da vida adulta com o processo criminal nas costas, com a pressão das pessoas, acreditando que eles eram os culpados, porque publicamente eles estavam sendo acusados de envolvimento na morte de um colega.
E aí, com o tempo, as famílias foram se mudando. Alguns deles abandonaram os estudos, tiveram que gastar com advogados, porque foram muitos anos, até 2014, ter essa confirmação que realmente eles não tinham nada a ver. E aí, beleza, eles são inocentados, né? Mas aí...
Todos os anos que vieram antes e tudo que eles passaram, né? É uma coisa que não tem como recuperar. Em 2014, foi realizada a segunda autópsia do Jorge. E essa autópsia revelou que não havia ossos quebrados. As suas vidas foram marcadas de forma permanente por uma teoria que o Héctor criou.
E que no final foi comprovada que essa teoria do policial não tinha base nenhuma. E mesmo com essa comprovação, os anos que já tinham se passado e tudo que se certe passaram, né? Por conta da pressão pública, das acusações e tudo mais. Não tinha como voltar atrás, não tinha como recuperar. Em 2002, a investigação revelou um episódio ainda mais sombrio. O major dos caribineiros, André Zovalli.
havia produzido um informe que, no dia 23 de janeiro de 2002, foi entregue à juíza Flora, que cuidava do caso, liberando os sete jovens e apontando para o Bruno, o dono da La Cucaracha e os seus funcionários, como responsáveis pela morte do Jorge. O problema é que esse informe foi produzido com a ajuda dos pais de dois desses rapazes que tinham sido processados por obstrução à justiça. E aí, no dia 17 de setembro de 2002, foi ordenada a prisão do Andrés. A manipulação havia corrompido não apenas o processo,
mas qualquer possibilidade de usar aquelas conclusões de forma jurídica. Então, se havia interesse em proteger os verdadeiros responsáveis, ou se era simplesmente o reflexo de um sistema que havia se comprometido com uma teoria errada, mas que agora não conseguia recuar, essa resposta ficou enterrada. O Andrés morreu de câncer enquanto ele cumpria a pena, e a resposta para essas perguntas, se ele realmente sabia...
foram pro túmulo com ele. Então, todos esses segredos, né, que parecia que ele sabia, acabaram, como eu disse, sendo enterrados, mas ele não foi o único. Havia um padre chamado Andrés San Martín, então ele também se chama Andrés, mas é outra pessoa. E ele...
era da paróquia cujo território cobria exatamente onde a família do Jorge morava. Então, quando o Jorge desapareceu, esse padre estava lá. Então, ele falou com a família. Era natural que ele estivesse ali acompanhando tudo. Afinal, ele era o padre da comunidade deles e aí nos primeiros meses do desaparecimento, ele visitava muito a mãe do Jorge, a Maria Tereza. Ele acompanhava as audiências, ele se sentava ao lado dela, nas esperas, nos corredores dos tribunais, nas missas que ela organizava, pedindo notícias do filho.
E ao longo do tempo, ele foi conquistando uma posição de confiança que poucos tinham. Era alguém que a mãe do Jorge depositava esperança, não só espiritual, mas uma esperança concreta. O padre estava ali acompanhando o caso de dentro mesmo, então ele sabia detalhes que a maioria das pessoas não sabiam.
Detalhes que não eram públicos, né? Que só a família sabia por conta desse elo da família com o processo. E aí, pela confiança que tinham nele, ele acabava sabendo também. Então, em algum momento, naqueles primeiros anos do desaparecimento do Jorge, alguém entrou no confessionário e contou o que sabia. Pelo menos isso é o que o Andrés fala. No dia 24 de fevereiro de 2003, que inclusive teria sido o aniversário de 27 anos do Jorge, Andrés celebrou uma missa em sua paróquia. E aí, no meio da missa, ele falou uma coisa que deixou todo mundo em choque.
No meio da celebração diante dos fiéis, ele disse que ele sabia que o Jorge estava morto e enterrado. Nesse ponto, o corpo ainda não tinha sido encontrado. Mas o Andrés disse que ele sabia que o corpo tinha sido ocultado e que ele guardava esse segredo porque isso tinha sido revelado para ele através de uma confissão sacramental.
Ele não revelou o nome da pessoa que fez a confissão porque ele disse que não podia. As suas palavras exatas, que foram registradas pela imprensa e confirmadas, anos depois, é que ele sabia que o Jorge estava morto. Ele sabia onde o corpo estava, mas que essa revelação foi feita em confessionário e o que é dito dentro de um confessionário não sai de lá. O terremoto foi imediato. O arcebispo de Concepção, Monsenhor Antônio Moreno, saiu publicamente para conter os danos.
Ele afirmou que Andrés havia cometido um ato imprudente ao revelar que sabia da morte, mas que tecnicamente não havia violado o sigilo sacramental. Porque revelar que alguém está morto não é o mesmo que revelar o pecado que seria identificar o culpado. Pelo Código de Direito Canônico, a violação do sigilo sacramental implica excomunhão automática.
sem processo e sem apelação. Não há exceções previstas para casos de homicídio. A lei da igreja coloca esse sigilo acima de qualquer obrigação com a justiça secular. Para vocês terem ideia, o Andrés foi até o Vaticano pedir uma dispensa para poder falar o que ele sabia. Era pedir que a igreja abrisse uma exceção que nunca havia sido concedida em toda a sua história.
E a resposta foi não. Ele declarou a justiça ao longo dos anos, para a juíza Flora, para o ministro Juan Rubilar, para a ministra Carola Rivas, mas sempre sem revelar o nome. Em 2007, ele deixou o sacerdócio e se mudou para São Fernando, onde se tornou diretor de um colégio. A Maria Teresa Jones, a mãe do Jorge, que havia depositado no Andrés uma confiança enorme, declarou em entrevista que ele havia destruído sua vida, que ele havia ajudado muito.
mas que ao mesmo tempo havia criado uma incerteza que ela não conseguia superar. Mas aí tem uma terceira camada nessa história que é a mais perturbadora de todas. Em 2016, a ministra Carola Rivas concedeu uma entrevista em que revelou o que havia encontrado ao investigar fundo o papel de Andrés no caso.
Ela disse que em toda investigação não havia encontrado nenhum fato concreto que sustentasse a existência de uma confissão real. Ela disse que, na sua avaliação, o Andrés havia agido por protagonismo, que havia querido ser parte da história, que havia se inserido no caso de uma família em desespero e criado um mistério que talvez nunca tivesse existido, que a confissão, em suma, poderia ser uma invenção. Isso significa que existem duas versões igualmente perturbadoras.
Na primeira, um homem entrou num confessionário e confessou ao padre o que tinha feito com o Jorge. E esse segredo existe, é real, e vai morrer com o Andrés, né, que ouviu essa confissão. E na segunda versão, não houve confissão alguma. Houve um padre que frequentou uma família em luto, se tornou parte da tragédia mais midiática de Concepcioni, e um dia resolveu subir ao altar e anunciar que sabia de algo que talvez nunca soubesse. Num caso, ele é um homem preso entre Deus e a justiça.
No outro, ele é mais um nome numa lista longa de pessoas que, nesse caso, mentiram. E aí, a gente volta pra janeiro de 2004, então, quatro anos e dois meses após o desaparecimento do Jorge, a família anunciou uma recompensa de 20 milhões de pesos chilenos, o que equivale a 21.500 dólares na época, pra quem fornecesse informações sobre o paradeiro dele. Entre as dezenas de pistas que chegaram à família...
Uma teve um peso particular para o pai do Jorge. O jornalista Carlos Pinto, apresentador do programa Meia Culpa, e um dos rostos mais conhecidos do jornalismo policial chileno, recebeu um dia a visita de uma mulher em sua produtora. Ela havia escrito uma carta, não de forma convencional, mas através da psicografia. Uma prática em que médiuns entram em transe e escrevem sem controle consciente sobre o que colocam no papel.
O que estava escrito naquela carta dizia que Jorge havia sido morto por certas pessoas, num certo lugar, e que o corpo havia sido levado para outro local. O Carlos, que se define como cético, leu a carta e achou que havia algo ali que merecia ser verificado. Ele montou uma equipe, ligou para o pai, que ele não conhecia pessoalmente, e propôs que fossem juntos à Concepcion. O pai aceitou, e ele ia tudo. Chegando a La Cucaracha, com a médium, ela entrou no local, ficou parada por um momento, e disse entre aspas...
Jorge, estamos aqui. Viemos porque você me chamou e me disse que eu poderia ajudar. E então acrescentou. Eu não estou aqui, estou perto de Santa Juana. O Carlos olhava para o câmera. O câmera olhava para ele. Os pelos se arrepiavam. E Carlos admitiu que não era o tipo de pessoa a quem isso acontecia com facilidade.
Então, eles foram até a zona de Santa Juana. O pai entrou naquela dinâmica e disse em voz alta que pela primeira vez sentia o filho perto dele. Eles foram até um cemitério local, indicado pela médium, mas o funcionário não deixou que eles entrassem. Eles fizeram a entrevista com o pai do lado de fora. E foi nesse momento que a jornalista que acompanhava o Carlos mostrou a gravação no visor da câmera. Na gravação, junto à voz da médium, havia uma segunda voz que não estava lá quando eles gravaram, dizendo apenas, estou aqui.
O pai ouviu, Carlos ouviu e nunca houve explicação. Não havia nada no local. O pai estava tão decepcionado, tão magoado, que o Carlos disse mais tarde que por ele eles teriam aberto o cemitério inteiro. Dois anos depois, o corpo do Jorge finalmente é encontrado às margens do rio Biobio, a caminho de Santa Juana. No dia 10 de fevereiro de 2004, um trabalhador chamado Domingo Acosta fazia serviços de limpeza à margem do rio Biobio quando ele encontrou roupas e ossos enterrados a poucos centímetros.
do solo. Ele avisou os colegas sobre o que ele tinha achado, mas ele não avisou a polícia. Não se sabe porquê. E aí, dois dias depois, uma moradora da área encontrou um crânio próximo à calçada e ela, sim, avisou as autoridades. E aí, começaram a buscar ali no local e foi assim que encontraram
A calça jeans, as meias, o sapato, a camisa que ele usava. Incluindo o traje de banho que o Jorge usava, né? Que era uma coisa bem diferente que ele fazia. E que todo mundo sabia que ele fazia isso. E aí, a família fez o reconhecimento das roupas. E nesse ponto, já não havia mais dúvida. Quatro anos, dois meses e 23 dias depois do desaparecimento do Jorge. Finalmente, o corpo foi encontrado e confirmado que era ele, né? Através do DNA. O local onde os restos foram encontrados... ...
Era um local em que a polícia já tinha feito buscas anteriores. Ao menos, teoricamente, né? Então, o fato dos restos estarem ali por cinco anos, fáceis de encontrar, digamos assim, né? Eles não estavam super enterrados, então, estavam a poucos centímetros do solo, em uma área que, teoricamente, tinha sido varrida.
Não fazia muito sentido, né? Porque eles não tinham encontrado antes. Esses questionamentos, né? Nunca foram adequadamente respondidos. Então, provavelmente, ou as buscas foram superficiais demais para que eles tivessem deixado isso passar, ou esses restos foram depositados ali depois que eles já tinham feito as buscas, né? Então...
O que realmente aconteceu não dá pra saber. O Serviço Médico Legal determinou que a morte do Jorge havia sido causada por terceiros. Mas a causa específica da morte não pôde ser estabelecida ali naquele momento, porque os restos eram, em sua maioria, ossos, né? Então, já faziam muitos anos. Então, a análise forense em 2004 não conseguiu ir além da confirmação de que houve uma intervenção externa.
Agora, a pergunta sobre como o Jorge havia morrido, estava em aberto há mais de 10 anos. Somente no dia 30 de abril de 2005, 14 meses após eles terem encontrado os restos, que a família finalmente pôde fazer o sepultamento em Concepcion. Indo para 2007, o caso já estava encerrado pela segunda vez, quando um homem chamado Fabian Flores decidiu ir conversar com a polícia. O Fabian contou que ele trabalhava como bailarino em La Cucaracha, na época do desaparecimento do Jorge.
e que ele participou do crime, amando do seu chefe, do Bruno. A revelação provocou mais um terremoto público, então toda vez que parecia que era isso, que o caso estava encerrado, de repente voltava de novo, todo mundo falando sobre com uma nova informação que até então ninguém tinha ouvido falar.
E aí, chocando as pessoas e aí reabrindo o caso mais uma vez. A família do Jorge, que tinha enterrado ele dois anos antes, começou a ter esperança de que finalmente eles iam descobrir o que tinha acontecido. O Bruno, o dono da La Cucarate, que já tinha sido associado ao crime diversas vezes por muitos anos, mas sem provas que sustentassem uma conexão dele com o crime, voltou a ser o centro das atenções. Mas a esperança de finalmente descobrir o que tinha acontecido durou pouco, porque logo depois do Fabián...
e até a polícia com essa história. Em um interrogatório mais aprofundado, ele começou a se contradizer. Os detalhes que ele tinha fornecido não se confirmavam, as datas também não batiam, os locais não correspondiam e em pouco tempo ele admitiu ter prestado um falso testemunho. A investigação foi encerrada novamente e o Fabián não foi responsabilizado pelo falso testemunho, o que eu achei muito estranho. Simplesmente nada aconteceu com ele por ter ido até a polícia e inventado essa história.
E aí, quanto ao Bruno, a polícia continuou investigando ele de tempos em tempos. Até que em janeiro de 2014, novos elementos levaram à reabertura do caso mais uma vez. Em julho daquele ano, a ministra Carola Rivas assumiu a investigação. A quarta magistrada conduzia a investigação ao longo de 15 anos.
Em janeiro de 2014, os restos do Jorge são exumados e enviados para Santiago para que fizessem novos testes, basicamente porque ela queria uma nova análise forense. E aí, um laboratório da Universidade de Murcia, na Espanha, foi acionado para poder fazer esses testes porque ela queria testes específicos de análises toxicológicas nos ossos.
Essa era uma perícia diferente, uma perícia mais sofisticada, então era bem específica, né? Ela era capaz de detectar substâncias que em 2014, quando a primeira autópsia foi feita, eles não conseguiam. Em 2015, o resultado chegou. Foi encontrado o pentobarbital, que é um barbitúrico de uso clínico e veterinário. Em medicina humana, ele é utilizado para induzir coma em pacientes com lesão cerebral grave ou como agente em execuções por injeção letal em países que mantêm a pena capital. Em medicina veterinária, é o fármaco padrão para a eutanásia de animais.
Em 1999, no Chile, não estava disponível comercialmente em farmácias comuns. Ele era de uso restrito e controlado. Quem havia drogado Jorge com o pento barbital tinha acesso a uma substância que exigia alguma conexão com o mundo clínico ou veterinário. Não era...
Era algo que qualquer pessoa pudesse comprar facilmente. Em abril de 2015, ao revisar os arquivos policiais, a Carola finalmente encontrou aquela pasta Horras de Parra de Carlos Estuardo, 15 anos guardada em dependências da PDI, fora do conhecimento de qualquer juiz que havia conduzido o caso. Ela ficou muito intrigada, né, diante daquela pasta e depois que ela leu, ela ficou diante de algo perturbador.
As informações que Carlos havia reunido em dezembro de 1999, o ano em que o caso aconteceu, inclusive dez dias após o desaparecimento do Jorge, se encaixavam com perfeição nos laudos científicos que eles receberam agora, ali naquele momento, em 2015. A droga que Carlos havia chamado de Orras de Parra, sem conseguir identificar quimicamente em 1999, era exatamente o tipo de substância que os peritos encontrariam nos ossos de Jorge 15 anos depois.
No dia 7 de agosto de 2015, o Serviço Médico Legal certificou oficialmente intoxicação por pentobarbital com participação de terceiros de natureza homicida. O certificado de óbito do Jorge foi retificado naquela mesma data. Em outubro de 2015, os restos do Jorge foram finalmente sepultados de forma definitiva no cemitério Parque del Recuerdo de São Pedro de La Paz. Entre o desaparecimento e o enterro definitivo foram 16 anos.
Em maio do ano seguinte, 2016, o Laboratório de Criminalística da PDI ratificou o resultado e identificou ainda a presença de DOM, um derivado anfetamínico com efeitos alucinógenos e sedativos. Havia múltiplas substâncias. Essa combinação...
indicava que Jorge havia sido drogado de forma agressiva e deliberada, com substâncias que agiam em conjunto para abolir a consciência e a capacidade de resistência. Em março de 2018, Carola convocou a família do Jorge para uma reunião na Corte de Apelações de Concepcion. Era uma reunião que Maria Tereza havia esperado por quase 20 anos. A hipótese final, sustentada pelos dados científicos e pelos testemunhos coletados ao longo de quatro anos de investigação intensiva, era a seguinte.
Jorge havia sido drogado dentro de La Cucaracha com o pento barbital, introduzido em sua bebida sem o seu conhecimento, com o objetivo de que perdesse a consciência e fosse violentado. Havia, segundo uma linha de investigação, a suspeita de homens que frequentavam o local de forma discreta e buscavam encontros privados.
Os responsáveis não eram um grupo organizado ou uma rede criminosa com estrutura formal. O método que eles usavam era consistente. A bebida adulterada, a vítima perdendo a consciência e o transporte para fora da balada. A Carola identificou ao menos quatro outras vítimas de situações semelhantes no mesmo período. Jovens que haviam sido drogados em discotecas da região, que haviam acordado em locais desconhecidos com sinais de abuso e sem memória do que havia acontecido.
O padrão definitivamente existia. Havia sido relatado por testemunhas da PDI já em dezembro de 99 e havia sido ignorado por 15 anos. A hipótese é que no caso do Jorge, essa dose foi alta demais e ele não acordou. Ele morreu ainda na madrugada do dia 19 ou nas primeiras horas do dia 20, naquele sábado, em algum lugar que nunca foi identificado, o que explicaria também a autópsia que não mostrava...
Nada, né? Não mostrava nada nos ossos, nada que indicasse aquela teoria de que ele tinha apanhado até a morte, né? Então, isso explicaria por quê, né? Porque foi uma droga. Aparentemente, o Jorge não morreu nem dentro da La Cucaracha e nem no estacionamento. Foi em algum ponto, entre a saída da discoteca e ali naquela estrada, né? Ali do rio Biobio. Num percurso que o responsável ou os responsáveis fizeram ali na estrada até decidirem...
deixar o corpo ali semi-enterrado. E também há a hipótese de que eles tenham levado o corpo depois. Ou que estava lá o tempo todo e as buscas que fizeram não foram bem feitas, né? Lembra que eu falei pra vocês que quando foi feito esse documento, essa pasta azul, ele tinha identificado 19 suspeitos. Desses 19, agora havia 12. Desses 12, 7 haviam morrido, quando a Carola fez o balanço. E 5.
Tinham sido descartados por falta de provas. Então, ela até deu uma declaração que é bem difícil de acontecer nesses casos assim, porque ela disse que ela estava extremamente frustrada, que parecia que eles estavam caminhando ali para conseguir realmente encerrar o caso.
E que ela queria muito chegar pra família do Jorge com o nome. Mas que, infelizmente, ela não conseguiu, né? Os responsáveis ou o responsável pela morte do Jorge eram pessoas que nunca haviam sido interrogadas. Então, durante todo aquele tempo que a investigação tava olhando pra outros lados, né? Pra outras hipóteses, essas pessoas...
poderiam ter morrido já, né, nesse meio tempo. Então, pode ser que o assassinato seja um desses suspeitos, mas já esteja morto, como também pode ser que não seja. Em dezembro de 2018, a Carola decretou o sobrestamento temporário do caso. Então, não havia autores identificados e nem condenação, mas havia a causa da morte.
intoxicação por pentobarbital e homicídio. Mas ali, sem nenhum nome de quem havia cometido o crime. O sobreestamento temporário significa que o caso está suspenso, mas não encerrado. Se uma nova evidência surgiu, o caso pode ser reaberto. Então, é meio que uma porta ali para que isso possa acontecer. Mas, na prática, quando isso acontece, né? Essa porta que está ali entreaberta pela lei...
acaba levando a lugar nenhum. O pai do Jorge se candidatou à prefeitura de Concepciona em 2004, mesmo ano em que os restos do Jorge foram encontrados. Em 2010, ele recebeu o diagnóstico de câncer linfático e ele faleceu em 2011. Ele tinha 61 anos e ele tinha sido internado no mesmo mês que ele morreu, que foi em agosto, então alguns dias antes da sua morte, e ele morreu sem saber.
Quem cometeu o crime com o seu filho. O irmão do Jorge disse que o pai sempre foi batalhador. Que durante toda a sua vida ele trabalhou pelos trabalhadores. Mas que essa luta de descobrir o que realmente tinha acontecido com o seu filho. Foi uma luta que ele perdeu. Já a Maria Tereza, mãe do Jorge, ela era o rosto.
Assim que as pessoas viam quando se falava no caso dele. Era ela que ia público, né? Durante todos esses anos de luta da família. Então, era ela que sempre aparecia na imprensa, que viajava, que pressionava juízes, que ia pras audiências, que confiou naquele padre. Por quase 22 anos, ela nunca parou. E aí, saiu um documentário, né? Que foi produzido.
E tem na Netflix sobre esse caso. E ela se opôs completamente ao documentário. Ela não queria que ele fosse produzido. Porque ela disse que eles estariam lucrando com a morte do filho dela. E nessa época ela chegou a perder 15 quilos. Ela até chegou a ser hospitalizada em 2019. E em novembro de 2024. Ela fez uma reunião com o dono da produtora Fábula. Que estava fazendo o documentário. E ela questionou por que eles não esperaram. Até ela morrer para produzir o documentário. Segundo ela. O Juan de Dios Larin. Que é o dono da produtora. Teria chamado ela de covarde.
Mas ele negou essa acusação, disse que ele não tinha falado isso e que tinha um arcebispo presente que poderia confirmar isso, né? Que ele não havia dito. Já o irmão do Jorge, o Alex, ele virou advogado, como eu falei pra vocês. E ele também meio que é o porta-voz da família. Em 2022, ele disse que na intimidade da família, a sua mãe, o seu pai, que já não está mais vivo, sabiam quem eram os culpados. E em entrevistas recentes, ele declarou que há dois elementos específicos que ele considera promissores pra um eventual esclarecimento do caso.
Uma ligação telefônica que foi feita na madrugada do dia 20 de novembro de 99, a partir de um telefone público próximo à Laku Karatia, e um testemunho que ele próprio acompanhou e que não foi adequadamente investigado. Mas ele não forneceu mais detalhes. Ele continua trabalhando por conta própria, fora do processo judicial formal, com a persistência de quem perdeu o irmão e passou a vida adulta inteira vivendo com essa perda.
A cada 20 de novembro, ele vai ao cemitério visitar o Jorge com a mãe. O Gerardo, que era o melhor amigo do Jorge desde o colégio e que tava na Kukarati naquele dia, era uma das pessoas mais próximas do Jorge, era um amigo desde o colégio. Foi ele quem procurou pelo amigo dentro da La Kukarati quando percebeu que havia perdido o rastro dele. Foi ele quem esperou até a balada fechar. Foi ele que foi até a casa da família do Jorge de manhã.
Foi ele quem ligou pra polícia, foi ele quem ligou pro hospital. Até aí, ele fez o que qualquer amigo faria. Mas depois disso, ele desapareceu. Em 2014, 15 anos após o desaparecimento do Jorge, o Gerardo concedeu uma entrevista. E foi a única vez que ele falou publicamente sobre aquela noite. Ele disse que antes de entrar na balada, os dois beberam bastante. Ele disse que em determinado momento, o Jorge olhou pra ele e disse Não gostei da amiga. E que ali o grupo se desfez. E que tristemente, essa é uma história de bêbados.
A Maria Tereza respondeu ao mesmo programa naquela noite e disse que Gerardo está mentindo. Ela disse entre aspas, ele sabe o que aconteceu naquela noite. Porque ele ligou no dia seguinte às oito da manhã dizendo quando o Koki se recuperar, que me ligue. E acrescentou, o Gerardo jamais me acompanhou numa missa. Jamais me ajudou a buscar meu filho. Jamais se aproximou de nós. Acredito que um amigo de verdade teria buscado o amigo.
Se tivesse sido o contrário, se o Coque tivesse perdido Gerardo, eu teria obrigado ele a dar a cara e ajudar a família. Nos anos que se seguiram, enquanto a família percorria marchas, audiências e corredores de tribunais, o Gerardo não apareceu em nenhum desses lugares. Seus pais, que moravam perto da prefeitura de São Pedro de La Paz, também deixaram a cidade.
o Gerardo nunca foi acusado e nem indiciado. Em 2017, a ministra Carola realizou uma acariação, um confronto formal entre testemunhas, entre Gerardo e uma mulher chamada Maria Aide Cáceres, que havia recebido um telefonema dele na madrugada de 20 de novembro de 1999, quando ele contou que havia perdido o rastro do Jorge voltado para casa. O que saiu dessa acariação não foi divulgado publicamente.
Segundo relatos de 2013, o Gerardo trabalhava no ramo de tecnologia em Santiago. E ele nunca mais deu entrevistas sobre o caso. Já aqueles sete jovens detidos em janeiro de 2001 que eu falei pra vocês, foram todos inocentados em 2006. Mas eles haviam passado o início da vida adulta sob a suspeita pública de envolvimento na morte de um colega. Alguns precisaram deixar a cidade. Outros abandonaram estudos.
O Christian Arauz, irmão do Oscar e porta-voz dos sete durante anos, declarou em 2019, entre aspas, a gente não consegue dimensionar o que é ter vivido isso, o que significa ter passado por isso durante tantos anos. Os jovens que foram processados e submetidos a um julgamento social por uma mentira. Só quem viveu sabe. O Carlos Estuduarto, o investigador que havia chegado perto da resposta certa nos primeiros dez dias de investigação,
e que foi afastado do caso, concedeu entrevistas quando a ministra Carola confirmou publicamente que a pista das Orras de Parra era a pista correta. Ele estava em seu apartamento na Vila Spring Hill, o mesmo bairro onde Jorge havia crescido, quando 12 jornalistas foram bater na sua janela. Disse o que havia encontrado. O tempo havia passado e suspeitos estavam mortos. Nenhum acerto tardio resolve isso.
Já o André San Martin deixou o sacerdócio em 2007 e mora em San Fernando. Ele está casado e em entrevista concedida em 2016, ele disse que o segredo de confissão é até a morte. Ele também acrescentou que ele estava no lugar e na hora em que não deveria estar. Mas ele nunca revelou o nome. E nunca vai revelar. Ou pelo menos é o que ele diz.
Já o Carlos Pinto, jornalista do Minha Culpa, que levou o pai do Jorge até a zona de Santa Juana com uma médium, continuou sua carreira na TV. Anos depois, em entrevista, ele contou o episódio pela primeira vez em público. Ele disse que a médium havia indicado, perto de Santa Juana...
ao lado de um lugar com água, e que dois anos depois o corpo apareceu exatamente às margens do rio Biubiu, a caminho de Santa Juana, como ela havia dito. Não há como saber o que isso significa, mas o que se sabe é que naquele dia, em Santa Juana, enquanto a médium caminhava pela zona e não encontrava nada, o pai do Jorge disse em voz alta que pela primeira vez sentia o filho perto.
Dois anos depois, o corpo é encontrado exatamente ali. Já o Bruno, que é o dono da Laco Karate, como eu falei pra vocês, ele foi considerado suspeito várias vezes. Foi investigado também durante os anos. Ele viveu duas décadas mudando de cidade, sempre sendo, né...
conectado ao caso de alguma forma, sempre sendo interrogado, mas nunca sendo formalmente acusado até que em 2017, durante uma viagem no Egito, ele faleceu em um acidente de carro. Ele morreu sem ter o seu nome limpo e sem ter sido acusado realmente pelo caso ou por envolvimento, né? Se ele sabia de alguma coisa que ele nunca revelou.
Não tem como saber. O Fabian Flores, né? O bailarino, como eu falei pra vocês, ele mais tarde disse que tinha inventado a história, não foi responsabilizado e não encontrei nada que dissesse o que aconteceu com ele depois. O Andrés Ovalho, o major que forjou as provas, morreu de câncer na prisão. Já o Héctor Arenas, que eu acho que é uma das pessoas que...
mais incomodam nesse caso e que, na minha opinião, é o que mais deveria ser responsabilizado pela investigação que ele fez, porque quando ele chegou para investigar o caso, ele simplesmente ignorou tudo que tinha sido investigado antes dele, ignorou aquela pasta azul que anos mais tarde foi provado que tinha exatamente as informações necessárias, então estava tudo certo ali.
Ele criou a teoria da surra, que ele acreditava fielmente que era aquilo que tinha acontecido mesmo, sem provas concretas. Ele foi interrogado pela ministra Carola Rivas em 2016. Ele havia se aposentado e não houve consequências, né, pra ele. Ele simplesmente arquivou a pista certa, sem nem ter levado ela em consideração. E lá ela ficou por muitos anos. E pra mim é muito doido que ele não tenha sido responsabilizado pela investigação que ele fez e por ter simplesmente ignorado uma pista ali que teria mudado tudo.
Além disso, há cinco suspeitos de terem assassinado o Jorge, como eu falei pra vocês. Eles estão vivos, mas, né, faltam provas. O fato de eles terem sido descartados pela falta de provas não significa que eles são inocentes. Eles continuaram vivendo suas vidas e é bem possível que...
Eles saibam exatamente o que aconteceu. Ou que o próprio culpado esteja ali entre eles. Em abril desse ano, no dia 15. A Netflix lançou o documentário que eu citei para vocês. Que se chama Alguém Tem Que Saber. São oito episódios. A família do Jorge, como eu falei para vocês. Não autorizou e não aprovou esse documentário. No dia da estreia, o Alex, irmão do Jorge. Disse que há coisas que simplesmente não devem ser feitas. Que...
Eles não tinham aprovado que isso fosse feito e que mesmo assim, o documentário foi lançado. Ele disse que a saúde da mãe tinha piorado muito nas últimas semanas e que uma coisa dessa simplesmente não se faz com uma mãe que está viva. Inclusive, a Maria disse que ela só quer que deixem o filho dela descansar em paz.
Essa série altera nomes, comprimem personagens e segundo jornalistas que acompanharam o caso real, a série cria conexões entre eventos que, na investigação, não foram feitas. Esse ano, Jorge completaria 50 anos de idade. A justiça confirmou que ele foi assassinado, né, e que foi colocada uma substância em sua bebida. E até hoje, ninguém foi condenado.
Esse é um caso que tem muitas reviravoltas e que prova, assim como outros casos também, que um investigador, né, uma investigação sendo mal feita, ou quando eles focam muito em uma teoria e esquecem todo o resto, quanto isso pode prejudicar um caso, assim. Não só um caso, mas a vida das pessoas, a vida daqueles sete rapazes que depois foi comprovado que não tinham nada a ver com a morte dele, né, do Jorge. E também o fato de que, nos primeiros dias...
Eles já tinham essa lista dos suspeitos, que na época a maior parte deles estavam vivos e que se eles fossem interrogados...
e investigados na época em que o Jorge desapareceu, em 99, muito possivelmente, eles poderiam ter solucionado o caso, né? Hoje já é muito mais difícil, porque faz muito tempo. Então, esses primeiros dias de investigação, né? Não só nesse caso, como em todos, é extremamente importante. Então, assim, é um caso que deixa a gente com muita raiva, né? A forma como ele foi conduzido. Eu quero muito saber o que vocês acharam. Me contem aqui nos comentários. Não esquece do like, que me ajuda muito na divulgação do vídeo.
E é isso, pra mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveita pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.