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O QUE REALMENTE ACONTECEU NO GINÁSIO? | Caso Kendrick Johnson #585

27 de abril de 202624min
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Na manhã de 11 de janeiro de 2013, estudantes da Lowndes High School encontraram um colega morto dentro de um tapete de ginástica. A polícia concluiu: acidente bizarro. Mas havia um problema — os ombros dele eram maiores do que a abertura do tapete. E os órgãos internos do corpo haviam sumido. #585

Participantes neste episódio1
G

Gisberta Salsi Jr.

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Assuntos1
  • Caso Kendrick JohnsonInvestigação da morte · Inconsistências nos laudos · História de Valdosta · Teorias de assassinato · Reabertura do caso
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Kendrick Lamar Johnson nasceu em 10 de outubro de 1995 em Valdosta, Georgia, e era o filho caçula de três irmãos. Então, ele tinha um irmão e uma irmã, e como ele era o mais novo, ele recebia um pouco mais de tolerância, ele fazia graça na hora certa, ele era o que todo mundo olhava com um misto de afeto e leveza, como acontece com a maioria dos caçulas. O pai deles, o Kenneth Johnson, era caminhoneiro, um homem de poucas palavras em público, mas que quando falava do filho, falava com a precisão de quem havia prestado atenção em cada detalhe.

A mãe, Jacqueline, falava menos. Sua marca eram os olhos quietos e as frases curtas. Os pais estavam separados, mas ambos eram bem presentes na vida do filho. O Kendrick jogava futebol americano e basquete e corria na equipe de atletismo. Sonhava jogar futebol americano profissionalmente. Ele queria usar a camisa dos Florida Gators na faculdade e chegar à NFL.

Amigos o descreviam como tranquilo e gentil. O pai dizia, às vezes o caçula da família olha para todo mundo, com o Kendrick era diferente, todo mundo olhava para ele. Ele nunca deu trabalho na escola, nunca gerou uma ligação de diretoria para casa. Então, quando o caso aconteceu, ele estava no segundo ano do ensino médio e tinha 17 anos, mas para entender o que aconteceria naquele mês de janeiro de 2013, é preciso entender um pouco da cidade que ele morava. Valdosta era uma cidade de pouco mais de 50 mil habitantes no extremo sul do estado da Georgia, a cerca de 70 quilômetros da fronteira com a...

Flórida. Um lugar onde a temperatura raramente cai abaixo do zero, onde as árvores de carvalho ficam cobertas de musgo espanhol e onde o futebol americano escolar é tratado com uma seriedade que outras cidades reservam para festas nacionais. A Lounge High School, escola do Kendrick, é uma das mais conhecidas do estado por seus times esportivos.

O Viking Pride, como chamam o espírito da escola, permeia o calendário inteiro. Para um jovem atlético como Kendrick, aquele ambiente era o centro do mundo. Mas Valdosta não era apenas a cidade dos jogos de futebol americano e das árvores cobertas de musgo. Em maio de 1918, uma série de linchamentos varreu o condado de Lounge e o condado vizinho de Brooks.

Tudo começou quando Sidney Johnson, um trabalhador negro, atirou e matou Hampton Smith, um fazendeiro branco conhecido por explicar seus empregados. Depois de matá-lo, Sidney fugiu e se escondeu em Valdosta. A polícia o encontrou e ele morreu num tiroteio. A multidão, frustrada por não ter podido linchá-lo, amarrou o corpo a um carro e o arrastou pelas ruas principais da cidade. Mas isso não bastou.

Ao longo de mais de uma semana, uma multidão de quase 300 homens saiu encaçada por qualquer pessoa negra que pudesse ter alguma conexão com o crime. Ou simplesmente pelo fato de ser negro. Pelo menos 11 pessoas foram mortas. Entre elas estava Hayes Turner, empregado que havia trabalhado para a mesma fazenda e que foi linchado sem julgamento.

Sua esposa, Mary Turner, estava grávida de oito meses. Quando ameaçou processar os assassinos do marido, a multidão foi até ela. Amarraram seus tornozelos a uma árvore com a cabeça para baixo. Atearam fogo em seu corpo, cortaram o bebê do ventre e esmagaram sua cabeça. Depois, fuzilaram o corpo da Mary. O jornal local, de propriedade branca, justificou dizendo Sua atitude e suas palavras enraiveceram a população. Ninguém foi preso, ninguém foi julgado. Mais de 500 moradores negros fugiram de Valdosta nas semanas seguintes.

Quando um marco histórico em homenagem a Mary foi finalmente erguido em 2010, 92 anos depois, numa estrada rural perto do local onde ela foi morta, alguém atirou uma bala no meio da placa, que foi substituída por uma cruz de aço. Na Praça Central de Valdosta, em frente ao tribunal, o monumento ao soldado confederado erguido em 1911 pelas Filhas Unidas da Confederação continua em pé em 2013.

E, inclusive, continua lá até hoje. É o tipo de detalhe que diz muito sobre uma cidade. Enquanto o marco da Mary precisou ser substituído depois de ser baleado, o monumento aos que lutaram para manter a escravidão nunca foi tocado. O Thomas A. Hélio, que é professor de História e Estudos Africanos da Valdosta State University, resumiu entre aspas.

Há uma longa história racista em Valdosta, que é amplamente ignorada por conveniência. Mesmo que a investigação tivesse sido conduzida de forma impecável, a falta de transparência e comunicação com a comunidade negra garantiria que a desconfiança prevalecesse. Então foi nesse contexto, nesse lugar, nessa cidade específica, com essa história bem específica, que o caso aconteceu. No dia 10 de janeiro de 2013, era uma quinta-feira, um dia comum, então o Kendrick foi para a escola normalmente.

Às 1h27 da tarde, as câmeras de segurança registraram o Kendrick andando rápido em direção ao antigo ginásio da escola. Era um espaço separado do ginásio principal da escola, então ele meio que era usado como armazenamento. Encostados na parede, enrolados verticalmente, estavam os tapetes de ginástica. Cada tapete tem quase 1,80m de altura e uma abertura no topo.

Kendrick simplesmente entrou naquela área e nunca mais saiu. À noite, o time de basquete e a banda marcial fizeram alguns treinos naquele mesmo ginásio e ninguém reportou ter visto ou ouvido nada. Por volta da meia-noite, a mãe do Kendrick liga para a polícia relatando o desaparecimento do filho, que foi para a escola e não voltou mais. E aí, a polícia pediu que ela aguardasse 24 horas.

Na manhã seguinte, era sexta-feira, por volta das 10h30, os estudantes chegam no ginásio para a aula de educação física. Alguém subiu nas arquibancadas e olhou para os tapetes que estavam encostados na parede e viu alguma coisa estranha. Dentro de um dos tapetes estava o corpo do Kendrick e ele estava de cabeça para baixo.

Ele tava descalço e tinha um par de tênis Nike dentro ali do tapete, junto com o corpo dele. E também foi encontrado um tênis Adidas, preto e branco, pra fora ali do tapete. E ele tava próximo a uma poça de sangue. Então, ali tinha um par do tênis Adidas e o segundo par tava mais ao lado, ali em frente aos outros tapetes.

O médico legista do condado de Lounsby, Watson, afirmaria mais tarde que não foi notificado sobre a morte por seis horas, apesar do estado da Georgia determinar contato imediato com o legista ao descobrir um corpo. Quando ele chegou, na cena, o corpo já tinha sido movido do local que foi encontrado.

O saco mortuário lacrado já tinha sido aberto quando ele chegou no local. Ele descreveria o clima investigativo ali na cena de mal a pior. A mãe do Kendrick, a Jacqueline, ela tinha ido até a escola naquela manhã de sexta-feira porque o filho não tinha voltado no dia anterior, na quinta, e ela sabia que aquilo era muito esquisito, que o Kendrick não fazia isso, então ela decidiu ir até a escola.

Uma policial encontrou ela no corredor da escola, abraçou ela e a filha que estava junto e comunicou o que tinha sido encontrado. Já o Kenneth, o pai, estava na estrada quando isso aconteceu, então ligaram para ele para informar que o filho foi encontrado morto. Ele disse que estava dirigindo o caminhão, estava trabalhando e que...

é a pior notícia que você pode receber quando você está sozinho. A Jacqueline não conseguia entender o que tinha acontecido. Ela disse que mandou o filho para a escola para ter educação e, de repente, ele volta morto. No dia 14 de janeiro de 2013, três dias após a descoberta do corpo, o Georgia Bureau Investigation, o GBI, equivalente a um departamento estadual de investigação criminal, realizou a autópsia oficial.

A conclusão foi que Kendrick morreu de asfixia posicional, modo da morte acidental. A hipótese era que ele havia se debruçado para dentro do tapete para pegar um tênis. Aí ele ficou preso de cabeça para baixo e morreu sufocado. No dia 2 de maio de 2013, a polícia do condado de Lounge encerrou formalmente a investigação.

E é aí que os problemas começam. Antes de qualquer alegação de assassinato, havia uma questão física que a família levantou desde o início e que nunca foi respondida de forma satisfatória. A abertura do tapete onde o Kendrick foi encontrado tinha 14 polegadas de diâmetro, cerca de 35 centímetros. Os ombros do Kendrick tinham cerca de 48 centímetros. Esses números não são alegações da família. Eles constam nos documentos oficiais da investigação e foram reconhecidos por uma juíza federal anos depois. A hipótese da polícia era que ele havia se debruçado pelo topo do tapete para pegar um tênis.

Só que o Kendrick tinha 1,77m na altura, o que seria compatível com a borda do tapete. Mas a pergunta que ninguém respondeu de forma direta era outra. Como um jovem com um ombro de 48cm entrou de cabeça para baixo dentro de uma abertura de 35cm? O Mitch Cradle, um detetive veterano de homicídios de Washington, D.C., foi levado até a cidade para examinar o caso. Ele disse que sentiu desde o início que havia um encobrimento. Apontou especificamente essa discrepância como um dos pontos que o legista havia ignorado ao concluir imediatamente que era um acidente.

A família acrescentou outra observação. Como atleta, o Kendrick saberia como inclinar o tapete para pegar um tênis caído, assim como outros alunos faziam. A ideia de que ele teria se enfiado de cabeça para dentro não correspondia ao que seus amigos relatavam ser a prática comum, caso isso acontecesse ali. E aí, insatisfeitos com os resultados da investigação oficial, a família contratou o Dr. William R. Anderson, da empresa Forensic Dementias, em Heathrow, na Flórida. No dia 15 de junho de 2013, cinco meses após a morte, o corpo foi exumado para uma segunda autópsia.

O William chegou a conclusões opostas às do GBI. Ele identificou hemorragia no lado direito do pescoço do Kendrick, na região da mandíbula, envolvendo os tecidos moles e a área do seio carotídeo, uma estrutura altamente sensível localizada na artéria carótida, cuja pressão pode causar perda de consciência ou parada cardíaca. Ele concluiu que esse dano era consistente com um golpe. Sua conclusão formal foi que a morte resultou de trauma por força contundente e não acidental.

E os achados, disse ele, não eram compatíveis com asfixia posicional, a causa declarada pelo DBI. Havia agora um conflito direto entre dois conjuntos de achados médicos. E a família tinha um advogado. Em outubro de 2013, Kenneth e Jacqueline anunciaram que haviam contratado Benjamin Crump, o mesmo advogado que havia representado a família de Trayvon Martin, o adolescente negro baleado na Flórida no ano anterior.

Com Benjamin, entraram com um processo civil de 100 milhões de dólares contra 38 pessoas. Entre elas, membros das forças policiais locais, funcionários da escola e dois colegas do Kendrick, filhos de um agente do FBI. A teoria da família era que esses dois estudantes haviam matado o Kendrick e que o pai deles havia usado sua influência para encobrir o crime. No mesmo mês, o procurador dos Estados Unidos para o Distrito Médio da Georgia, Michael Moore, anunciou a abertura de uma revisão federal formal. A investigação entrevistaria cerca de 100 pessoas ao longo de quase três anos.

Mas antes que qualquer investigação chegasse a uma conclusão, tinha mais um elemento. Quando o William abriu o corpo do Kendrick para realizar a segunda autópsia, ele encontrou algo que ele não esperava. Todos os órgãos internos, então o cérebro, os pulmões, o coração, o fígado e todos os demais órgãos, do abdômen até o crânio, tinham desaparecido. No lugar dos órgãos, estava tudo preenchido com um jornal.

William disse que não sabe, naquele momento, onde os órgãos estão, porque no momento que ele abriu o corpo para a segunda autópsia, eles já não estavam lá. A partir desse ponto, as versões oficiais divergem. O GBI afirmou que os órgãos foram colocados de volta no corpo após a autópsia e que depois o corpo foi enviado para o estabelecimento funerário nessas condições.

Já o Bill, que foi o legítima que fez a primeira autópsia, declarou que os órgãos não foram colocados de volta no corpo porque estavam decompostos. Dessa forma, esses órgãos foram descartados para que o corpo fosse liberado. A Harrington Funeral Home, que foi quem preparou o corpo para o enterro, afirmou...

que eles receberam o corpo sem os órgãos, então eles preencheram a cavidade com o jornal. Algo que o proprietário descreveu como uma prática padrão. O Verne Fountain, que é fundador de uma escola de embalsamamento no Missouri, disse que nunca ouviu falar nisso. A vice-presidente da Sociedade Americana de Embalsamadores declarou que o uso de jornal para esse fim não é uma prática comum de jeito nenhum. O presidente da Associação de Médicos Examinadores disse a mesma coisa.

A Jacqueline, mãe do Kendrick, falou sobre isso. Ela disse que era insuportável pensar que encheram o corpo dela com o jornal como se o filho dela fosse um lixo. Nesse ponto, o secretário do Estado da Georgia decide abrir uma investigação sobre o estabelecimento que preparou o corpo. A conclusão foi que a funerária não seguiu as melhores práticas e que outros materiais seriam mais aceitáveis do que o jornal. Mas o estabelecimento foi isento de qualquer violação de regras.

Mas a consequência dessa prática foi irreversível para o caso, porque eles precisavam dos órgãos do Kendrick para fazer a segunda autópsia da melhor forma possível. E esses órgãos poderiam ter fornecido várias informações que ajudariam muito no caso. Informações cruciais sobre a causa da morte do Kendrick, principalmente sobre aquela hemorragia que eu falei para vocês, que era no pescoço e foi identificada na segunda autópsia, e que nunca pôde ser analisada para que eles tivessem certeza absoluta.

do que tinha acontecido, né? Porque eles precisavam desses órgãos. Então, são perguntas que nunca tiveram respostas. E aí, tem outras questões, como, por exemplo, as câmeras de segurança da escola. A última vez que ele foi visto com vida, foi através dessas câmeras, como eu falei pra vocês, que ele é visto indo em direção ao ginásio. Em novembro de 2013, após uma ordem judicial, a CNN conseguiu o acesso a 290 horas de gravações e a 35 câmeras.

que cobriam toda a área do ginásio no dia da morte do Kendrick. Então, a CNN decidiu contratar um analista forense para examinar esse material. O analista identificou algumas lacunas nas câmeras, em específico duas dessas câmeras apresentavam uma lacuna de 1 hora e 5 minutos, que simplesmente tinha desaparecido. Enquanto o outro conjunto de câmeras tinha 2 horas e 10 minutos de imagens faltando, imagens que também desapareceram.

Para a família e os advogados do Kendrick, ali era uma evidência clara de adulteração. Para ele, segmentos cruciais dessas imagens haviam sido apagados para esconder o que realmente tinha acontecido. Mas aí teve uma análise subsequente que conseguiu explicar um pouco dessas lacunas que foram encontradas, porque várias dessas câmeras só eram ativadas quando havia movimento. Além disso, os relógios de diferentes sistemas não estavam sincronizados entre si.

Em alguns casos, a diferença era de 20 minutos, então criava essa ideia de lacunas, quando na verdade não havia lacuna alguma. Porém, havia um fato ali incontestável, que era a parte do ginásio onde ficavam todos aqueles tapetes enrolados verticalmente, que era num canto esquerdo, e ali não havia nenhuma câmera que pudesse pegar e filmar aquela parte específica. O que quer que tenha acontecido nessa parte específica daquele ginásio antigo?

Não foi gravado porque não tinha nenhuma câmera ali, então não havia gravação disso. E aí, agora eu volto a falar mais sobre os colegas do Kendrick, que a família apontou desde o início como possíveis suspeitos, e que eram dois irmãos filhos de um agente do FBI. Seus nomes são Brian e Brandon Bell, filhos do Rick Bell, um agente especial do FBI que trabalhava investigando agências policiais locais.

incluindo potencialmente aquelas envolvidas na investigação do caso do Kendrick. A teoria da família era bem específica. O Brian e o Kendrick tinham tido uma briga dentro do ônibus escolar um ano antes da morte do Kendrick. Nessa briga, o Kendrick foi quem levou a melhor. Então, para os advogados da família, isso...

criava ali uma motivação. A teoria dizia ainda que uma estudante teria traído o Kendrick para aquele ginásio onde os dois irmãos esperavam por ele. Lá, os irmãos o teriam agredido. Então, o Brian e o Brandon são brancos e eles negaram qualquer envolvimento no caso. O Brian, inclusive, disse para uma repórter que o Kendrick era um dos seus bons amigos. E aí, o Brandon acrescentou que ele e o irmão são inocentes.

O FBI fez uma análise de vídeo para tentar entender onde os irmãos estavam no momento da morte do Kendrick. E essa análise concluiu que os dois estavam em outras partes da escola no momento em que o Kendrick entrou no ginásio. O Brandon, inclusive, estava fora do campus a caminho de um torneio de luta livre em Macon. E o Brian foi filmado entrando em uma sala de aula do outro lado da escola.

Em agosto de 2014, o Arm Ferses Medical Examiner, um instituto de medicina legal das Forças Armadas dos Estados Unidos, um dos mais sofisticados do país, emitiu seu laudo. Causa da morte é asfixia posicional. Modo acidental, alinhado com o DBI, que fez a primeira autópsia.

Então agora havia três laudos dizendo acidente e um dizendo homicídio. Em julho de 2015, agentes federais executaram mandados de busca na residência da família Bell, em Jacksonville, na Flórida, no dormitório universitário do Brian e na casa da namorada dele. Computadores, celulares e outros equipamentos foram apreendidos. O Rick, pai deles, renunciou o seu cargo no FBI após a busca. Nenhum dos irmãos foi indiciado. O Michael havia identificado o Rick e os dois filhos como alvos formais de investigação.

uma designação que indica que o promotor acreditava ter evidências substanciais ligando a pessoa a um crime, mas nenhuma acusação foi apresentada. Em junho de 2016, o Departamento de Justiça encerrou a investigação federal sem apresentar acusações. Havia evidências insuficientes para provar, além de qualquer dúvida razoável, que alguém havia violado deliberadamente os direitos civis do Kendrick.

Havia ainda um agravante legal. Para um processo federal de direitos civis ser viável, o governo precisaria provar não apenas que alguém matou o Kendrick, mas que o fez motivado por animosidade racial. A procuradora interina Carol Randall disse lamentar não poder dar à família respostas mais definitivas.

No mesmo ano de 2016, o Armed Forces Medical Examiner emendou seu próprio laudo. A causa e o modo da morte foram alterados de acidental para indeterminados. A razão foi um documento médico que tinha chegado ao instituto registrando uma contusão no lado direito da mandíbula do Kendrick, que não constava nos registros originais.

A instituição mais sofisticada envolvida no caso havia mudado sua conclusão, e essa alteração nunca recebeu grande atenção pública. Em agosto do ano seguinte, em 2017, um juiz estadual determinou que a família deveria pagar mais de 292 mil dólares em honorários aos réus do processo civil, concluindo que não havia evidências para sustentar as acusações feitas contra os irmãos ou qualquer outro réu. A família retirou o processo. Em junho de 2018, o corpo do Kendrick foi exumado pela segunda vez.

O William realizou uma nova autópsia, a segunda, conduzida por ele, e os resultados foram os mesmos. Trauma por força contundente não acidental e nenhuma evidência compatível com asfixia posicional. O quadro de Laudos havia mudado, dois dizendo acidente, um dizendo indeterminado e dois dizendo homicídio. Em 10 de março de 2021, o xerife do condado de Lounds, o Ashley Polk, que não estava no cargo quando o Kendrick morreu,

anunciou a reabertura oficial do caso. Ashley havia passado anos tentando obter os arquivos da investigação federal, que só foram liberados após esforços da família, e do Marcus Coleman, que é um ativista comunitário que serve como porta-voz da família há mais de uma década. Ashley colocou 500 mil dólares do próprio bolso como recompensa por qualquer informação que levasse à prisão e condenação de alguém relacionado à morte do Kendrick. Ele disse, entre aspas, não estou acusando ninguém de nada, mas quero começar do zero e analisar tudo.

Então, durante 13 meses, Ashley e outros dois investigadores examinaram cerca de 17 caixas de arquivo de diversas agências diferentes, né? Porque o caso teve várias agências envolvidas, então tinham arquivos do FBI, do Departamento de Justiça e das forças policiais locais.

Um dos primeiros elementos que chegou a essa equipe foi uma gravação que parecia quase como uma confissão. Mas, após uma análise, foi determinada como falsa. Em janeiro de 2022, essa nova investigação foi encerrada. A conclusão do Ashley foi que não houve encobrimento, não houve homicídio e não houve conspiração. Ele disse que foi simplesmente um acidente trágico e bizarro. Ashley afirmou também que os irmãos Bell não são suspeitos e que a investigação original foi conduzida adequadamente.

Ao final do seu relatório, que teve 16 páginas, ele dizia que tinha certeza absoluta que não houve crime. Em setembro de 2023, 10 anos e meio após a morte do Kendrick, os seus pais entraram com um processo federal de 1 bilhão de dólares contra o FBI e o gabinete do xerife do Condado de Lounge. O processo alegava que as agências haviam fabricado informações falsas e citava também a discrepância entre a abertura dos tapetes e os ombros do Kendrick. O processo pedia ainda um julgamento por júri.

Em fevereiro de 2025, uma corte de apelações reverteu a rejeição anterior do caso e mandou que fosse reconsiderado. Em setembro daquele mesmo ano, a família apresentou o que eles chamaram de novas evidências. Fotos da autópsia mostrando marcas no corpo do Kendrick, que inclusive, obviamente eu nunca coloco essas fotos aqui pra vocês, mas vocês encontram essas fotos no Google.

Segundo os advogados da família, essas marcas pelo corpo dele eram marcas de sapatos. E também imagens de uma artéria carótida colapsada com sinais de hemorragia. Em março desse ano, 2026, 13 anos após a morte do Kendrick, uma juíza federal da Corte Distrital Federal do Distrito Norte da Georgia, rejeitou o processo de 1 bilhão de dólares.

As razões foram técnicas ilegais. O DBI é imune a processos sob a 11ª Emenda da Constituição Americana, que protege estados de certos tipos de ações civis federais. E o Condado de Lounge não foi notificado adequadamente dentro do prazo de 90 dias exigido.

Mas o que chamou atenção foi o que a juíza federal Sarah Garrity disse antes de rejeitar o caso. Ela reconheceu publicamente ter preocupações sobre as inconsistências entre os relatórios oficiais e as alegações da família. Ela, inclusive, as listou. A abertura do tapete era menor do que os ombros do Kentrick, o corpo havia sido movido antes da chegada do legista e os órgãos internos estavam faltando.

Ela disse que o tribunal expressa novamente sua preocupação com as inconsistências entre os vários relatórios oficiais sobre a morte de Kendrick e as alegações dos autores. Menos de 24 horas depois, Kenneth e Jacqueline, os pais do Kendrick, protocolaram um novo processo federal de 10 bilhões de dólares, dessa vez contra a própria corte, contra Sarah e contra a juíza-chefe Leigh Martin May, acusando-as de fazer parte de uma organização criminosa para encobrir o assassinato do filho.

A ação alega uma conspiração sobre a Lei Rico, uma legislação federal americana criada nos anos 70 para combater o crime organizado, que permite processar não apenas quem cometeu um crime, mas toda uma rede de pessoas que teriam agido em conjunto para cometê-lo. Normalmente usada contra máfias e cartéis, a lei foi invocada aqui para enquadrar juízes e autoridades estaduais como parte de uma organização criminosa dedicada a encobrir a morte do Kendrick.

Hoje, em 2026, os pais do Kendrick continuam lutando. O pai dele deixou uma mensagem dizendo que, independente de quem você seja, que cargo você ocupe, ou que influência você possa ter, se você participou do encobrimento da morte do Kendrick, você o fez por sua conta e risco.

Todo ano, a família realiza uma caminhada no aniversário da morte do Kendrick. Na caminhada que eles fizeram em janeiro do ano passado, 2025, a Jacqueline deu uma declaração dizendo que não estava certo o que aconteceu com o seu filho e que eles continuariam lutando até que a justiça pelo filho dela seja feita.

O Brian, que é um dos filhos daquele agente do FBI que eu citei pra vocês, tinha recebido uma bolsa pra uma universidade. Era uma bolsa esportiva na Florida State University, mas depois que ele e o irmão foram conectados ao caso, né, durante a investigação, eles retiraram a bolsa dele.

Já o Brandon estava matriculado na Valdosta State University em 2016. Já o pai deles, o Rick, ele deixou o FBI depois que a busca foi feita na casa dele. E apesar de tudo isso, nunca tiveram provas que realmente pudessem confirmar o envolvimento dos dois filhos dele.

E nem dele também, então nunca houve acusação por qualquer crime para nenhum dos três. A mãe deles, a Karen Bell, disse que ela espera muito que alguém seja honesto com a família do Kendrick, mas não parece que isso vai acontecer algum dia. Esse é um caso que polariza de maneiras profundas e previsíveis.

Para a família do Kendrick, para muitos membros da comunidade negra de Valdosta e para ativistas de direitos civis, as inconsistências documentadas apontam para algo que vai além de um acidente bizarro. Para as autoridades locais, estaduais e federais que investigaram o caso, e também para o xerife que voluntariamente investiu dinheiro próprio para reabrir o caso, as evidências simplesmente não sustentam a teoria de assassinato.

O que a gente pode afirmar com segurança é que realmente as inconsistências são reais. A conclusão oficial não explicou todas essas inconsistências de forma satisfatória. Inclusive, uma juíza federal reconheceu por escrito essas inconsistências. E que, ao mesmo tempo, nenhuma das múltiplas investigações encontrou provas suficientes para sustentar acusações criminais contra qualquer pessoa.

Até hoje, a morte do Kendrick é listada oficialmente como um acidente e permanece para muitos sem resposta. Então, eu postei um vídeo para vocês bem curtinho sobre esse caso e aí deu muitos comentários pedindo para que eu fizesse vídeo longo aqui para o canal porque é um caso onde muitas pessoas acreditam realmente que foi um acidente, já que...

As evidências apontam mais para isso, enquanto outros acreditam que realmente houve um crime e que ele foi assassinado. Então, é muito complicado assim, quando você tem os legistas fazendo os relatórios e aí cada um diz uma coisa. Então, para a gente que não é legista, que não é profissional na área e que não investigou o caso, é muito difícil...

saber para que lado ir, para que lado acreditar, quando cada relatório diz uma coisa. A família do Kendrick realmente acredita que ele foi assassinado e eles continuam buscando por justiça. Eu quero muito saber o que vocês acham que realmente aconteceu com o Kendrick naquele dia. Me conta aqui nos comentários e não esquece do like, que me ajuda muito na divulgação do vídeo. E é isso. Para mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveita para avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.