JOACHIM KROLL: O CANIBAL ALEMÃO #586
Uma menina de quatro anos some de um parque em Duisburg. A polícia bate de porta em porta. Um vizinho menciona o cano entupido do banheiro. Uma palavra muda tudo: tripas. O que a polícia encontra naquele apartamento vai sacudir a Alemanha. #586
Gisberta Salsi Jr.
- Crimes de Joaquim KrollCanibalismo · Assassinatos em série · Fugas de inocentes
- Desaparecimento de Pessoas
- Sistema policial na AlemanhaFalta de comunicação entre delegacias · Investigação de crimes não solucionados
- Julgamento de Joaquim KrollSentença e condenação · Impacto nas vítimas
Duisburg fica no coração do Vale do Ur, a maior conurbação industrial da Europa. Um aglomerado de cidades que cresceram uma sobre a outra ao longo do século XIX e início do século XX, alimentadas pelo carvão e pelo aço. Dortmund, Essen, Bakun, Duisburg, nomes que soavam como o rugido de uma usina. Cidades cujo crescimento industrial moldou bairros operários densos e pouco integrados.
Sem centros claros e sem praças com história. Blocos de apartamentos idênticos, ruas cinzentas, vidas paralelas que raramente se tocavam. No pós-segunda guerra mundial, a região foi reconstruída pelas potências aliadas e se tornou o motor do chamado Wittschaas von Dörr, o milagre econômico alemão.
Enquanto o país se reerguia das cinzas, o Ru voltava a produzir em escala industrial. Trabalhadores chegavam de toda parte. Da Alemanha Oriental, da Turquia, da Itália, da Polônia, bairros operários cresciam rápido, sem planejamento e sem coesão. Era um ambiente onde era possível ser invisível, onde um homem quieto, sem família e sem amigos, sem histórico de conflitos, podia viver décadas sem que ninguém soubesse seu nome de verdade.
E quando um corpo era encontrado num bosque ou num campo, a polícia muitas vezes investigava o caso de forma isolada, sem cruzar informações com as delegacias vizinhas. Era nesse ambiente que Marion Cattery crescia. Marion tinha quatro anos, morava com os pais num conjunto habitacional no bairro de Lahr, em Duisburg. Um daqueles blocos de concreto que multiplicavam as mesmas janelas por seis andares com escadas de uso coletivo e banheiros compartilhados entre os moradores do mesmo andar.
Marion era uma menina loira, pequena, com o tipo de confiança que tem as crianças que ainda não aprenderam a ter medo. Os pais diziam que ela era uma criança que sorria fácil e que aceitava doces de qualquer um. No sábado, 3 de julho de 1976, Marion foi brincar no parque próximo de casa. O sol estava forte e a rua era conhecida, os vizinhos eram os mesmos de sempre. Os pais não tinham por que se preocupar.
Só que mais tarde, a Marion não voltou, então a mãe dela começou a procurar pelas ruas, chamar o nome dela, foi até a casa dos vizinhos mais próximos, procurou pela filha no parque e nada. Então, à noite, ela decide ligar pra polícia. No dia seguinte, um grupo de policiais começou a percorrer o bairro, batendo de porta em porta, procurando pela garotinha que tinha desaparecido.
E foi durante essa busca que o morador apareceu no corredor e abordou um dos policiais. Ele disse que o cano do esgoto do banheiro compartilhado do andar estava entupido e que ele tinha perguntado para o vizinho do fundo se ele sabia o que poderia estar causando aquele bloqueio e o vizinho simplesmente respondeu, tripas.
Primeiro, ele pensou que aquilo fosse uma piada, mas com uma garotinha desaparecida e com aquela palavra que não saía da cabeça dele, ele decidiu ir até os agentes e contar o que o vizinho tinha falado. Os agentes subiram e o que eles encontraram no interior do vaso compartilhado não eram tripas de animais. Eles chamaram reforços, desligaram a água e retiraram tudo que estava ali, no cano. Em seguida, eles foram até o apartamento do vizinho, que disse que tinham tripas bloqueando o cano.
O vizinho Joaquin Crow abriu a porta e deixou que os policiais entrassem sem resistência. Na cozinha, as autoridades perceberam que tinha uma panela com água fervendo no fogão, então eles decidiram olhar dentro dessa panela e encontraram o que parecia ser uma mão pequena.
Depois, eles decidiram olhar no freezer, e foi lá que eles encontraram partes de um corpo embaladas, e aquelas partes pareciam ser de um corpo de uma criança. Joaquim foi preso imediatamente, inclusive, não deve ser assim que pronuncia o nome dele, né, porque é alemão, mas ele foi preso.
ele não se opôs, ele não resistiu, e ele confessou o assassinato da garotinha que tinha desaparecido, da Marion. E ao longo dos interrogatórios seguintes, ele foi revelando cada vez mais histórias perturbadoras, e a polícia percebeu que ele não tinha cometido só um assassinato, como eles pensavam. Na verdade, ele tinha cometido 13 assassinatos ao longo de 21 anos. Durante 21 anos, ninguém desconfiou dele, ele cometeu todos esses crimes que as autoridades não conseguiram.
perceber que eles estavam ligados, né, que era a mesma pessoa. Então, outros homens foram presos, foram julgados e até mortos pelos crimes que o Joaquim tinha cometido. Mas, afinal, quem era Joaquim? Joaquim George Crow nasceu em 17 de abril de 1933, em Hindenburg, uma cidade de Alta Silésia, que hoje pertence à Polônia e se chama Zabrisi. Era o sexto de nove filhos de um mineiro de carvão.
A família era pobre, a casa era pequena e a infância foi marcada pela guerra que se anunciava e depois explodiu ao redor deles. Joaquim frequentou a escola por apenas três anos. Sua escolaridade era muito baixa e apresentava limitação cognitiva apontada pelos peritos. Ele era uma criança que molhava a cama.
que apanhava dos colegas, que não conseguia acompanhar as aulas. A humilhação que ele sentia era constante. Durante a Segunda Guerra Mundial, o pai foi feito prisioneiro de guerra pelos soviéticos. Joaquim nunca mais o veria. Quando a guerra terminou, a família se mudou para a Renânia do Norte, Vestifália, fugindo da Silésia, que agora ficaria do lado polonês da fronteira. Era 1945. Joaquim tinha 12 anos e chegava a um lugar que não era o seu.
Sem seu pai, sem perspectiva e sem escolaridade. Quando adolescente, ele foi trabalhar numa fazenda. E ali ele começou a matar animais. Uma tarefa comum no ambiente rural, mas que em Joaquim despertou algo que ele descreveria muito mais tarde nos interrogatórios como uma sensação de poder que nunca havia experimentado antes. Ele matava os animais e depois abusava dos cadáveres.
Depois, ele começou a imaginar ele fazendo o mesmo, só que com pessoas. Segundo relatos biográficos do caso, foi depois da morte da mãe, em 1955, que Joaquim perdeu o único vínculo afetivo que o mantinha dentro de algum limite. Na época, ele tinha 21 anos. Ele estava sozinho e a fantasia que ele estava cultivando por anos iria acontecer quando ele encontrou a sua primeira vítima.
Imgard Strel tinha 19 anos, era loira, e naquele dia usava um conjunto todo verde. Sapatos, casaco e chale. Ela carregava também uma pasta com livros. Era uma jovem que havia fugido de um internato em Nira Zaksen. Em uma tarde, no dia 8 de fevereiro de 1955, ela caminhava numa estrada rural perto da cidade de Wallstead, no distrito de Wadendorf, quando Joaquim a abordou.
Depois de uns 120 metros caminhando juntos, Joaquim tentou beijá-la. Ela resistiu, então ele esfaqueou seu pescoço quatro vezes e depois a estrangulou. Quando ela parou de se mover, ele abusou dela e abriu seu abdômen com uma faca longa. Fazendo exatamente a mesma coisa que ele tinha aprendido a fazer na fazenda quando eviscerava porcos.
O corpo da Emergaard foi encontrado dias depois. Ele tinha escondido o corpo entre arbustos cobertos de neve. As margens de uma estrada próxima e quando o corpo foi encontrado, os peritos encontraram também uma grande quantidade de sêmen no corpo da vítima, nos cabelos, na cena. A polícia, diante daquele quadro, imaginou que eles poderiam estar lidando com vários agressores.
Porém, nenhum suspeito foi identificado, então o caso ficou em aberto. Pouco mais de um ano depois, no dia 3 de março de 1956, Erica Schuttler foi atacada pelo Joaquim e ela tinha só 13 anos. Ela estava em Kirchhellen, uma localidade que hoje integra a cidade de Bottrop. A Erica também foi estrangulada e violentada, e as fontes não têm muitas informações sobre a vida dela antes do ataque.
Quando ela nasceu, ou como se chamavam seus pais, ou o que ela estava fazendo lá, naquela localidade, naquele momento. A próxima vítima foi a Clara Frida Tesner, que nasceu no dia 5 de agosto de 1934. Na tarde do dia 16 de junho de 1959, a Clara era loira, ela tinha 24 anos, e ela estava em um trecho de Middle, à beira do rio Reno, numa área chamada Heinwiesen. Joaquim a abordou, ele pegou ela pelo braço, ela reagiu, e ele a golpeou na cabeça.
Os dois rolaram pra fora da estrada enquanto ele tentava despir a jovem, então no meio dessa briga ele a estrangulou. O corpo da Clara foi encontrado no dia seguinte por cinco meninos que estavam andando de bicicleta em uma mata próxima. Ela estava nua e tinha sido abusada, tinham partes das coxas e dos ombros que haviam sido cortadas e levadas pelo Joaquim pra sua casa, e essa foi a primeira vez que ele praticou canibalismo.
A polícia prendeu um homem chamado Gunter Kay pelo assassinato dela, porque ele tinha sido visto com ela na noite anterior em dois bares. Ele não conseguiu provar onde ele estava no momento do crime, então ele ficou preso por seis meses, até que uma investigação posterior o inocentou. Então, ele foi solto em abril de 1960.
Outras fontes associam um outro homem, um mecânico, que foi preso, e essas fontes acreditam que ele foi preso por conta desse mesmo crime. Mas, de qualquer forma, esses dois homens eram inocentes, porque quem havia cometido o crime era o Joaquim. Já a próxima vítima, Manuela Nott, tinha 17 anos. Era domingo, 26 de julho de 1959, quando ela estava em um parque urbano de Essen, e o Joaquim a abordou.
O que aconteceu com ela naquele bosque foi descoberto através das marcas deixadas no corpo dela. Estrangulamento, abuso após a morte, várias partes do corpo dela foram cortadas e levadas, então eram partes das suas nádegas e das coxas também, então essas partes foram cortadas precisamente e levadas pelo assassino. O corpo da Manoela foi encontrado nu entre os arbustos.
E ela não tinha marcas ou arranhões próximos da região íntima. Então, a polícia achou que, na verdade, poderia ser mais de um agressor. Havia seme no corpo, nos cabelos e no rosto da vítima. Seis meses depois do crime, no dia 13 de fevereiro de 1960...
Um homem chamado Horst Otto, que tinha 24 anos, foi até a delegacia e se entregou voluntariamente. Ele confessou o assassinato da Manoela e imediatamente foi preso. Mais tarde, ele retirou essa confissão, mas ele permaneceu detido. Em março de 1961, ele foi condenado a oito anos de prisão. Em novembro de 1962, essa pena foi reduzida para seis anos. Ao todo, ele cumpriu cinco anos. Ele foi solto em 12 de abril de 1965.
Mas ele não era o assassino da Manoela, então ele cumpriu essa pena por um crime que ele não cometeu. O porquê dele ter, né, confessado, a gente não sabe. Na segunda-feira, 23 de abril de 1962, uma garota de 13 anos, chamado Petra Guise, tinha saído com uma amiga pra ir numa festa popular.
Em algum momento daquela tarde, o Joaquim conseguiu separar ela do grupo de pessoas que ela estava. Então, provavelmente com alguma promessa, alguma distração, ele conseguiu tirar ela daquele local. Ele a levou para uma área de mata, ao norte de Dusberg. Joaquim a estrangulou com um lenço vermelho que ela usava naquele dia. Depois do crime, o Joaquim removeu as duas nádegas, seu antebraço esquerdo e uma mão. O corpo da Petra foi encontrado no dia seguinte, entre arbustos, e o vestido que ela usava tinha sido arrancado.
A polícia prendeu Vincent Kuhn, de 52 anos, fechado como pedófilo e réu em delitos menores. Ele foi julgado e condenado a 12 anos de prisão com tratamento psiquiátrico. Ele cumpriu seis anos da pena, atrás das grades, por um crime que ele não tinha cometido.
Poucos meses depois, no dia 4 de junho de 1962, uma garotinha de 13 anos chamada Mônica Tafel estava caminhando até a sua escola, quando Joaquim a avistou. Ele arrastou a um campo de centeio que ficava na beira do caminho. Lá ele fez exatamente o que ele já tinha feito com as outras vítimas. O corpo da Mônica foi encontrado alguns dias depois, no dia 11, por um helicóptero policial que fazia buscas em uma mata próxima.
Um homem chamado Walter Quicker, de 34 anos, foi preso como suspeito, através de depoimentos de algumas testemunhas. A polícia acabou soltando ele por falta de provas, mas os vizinhos dele tinham decidido que ele era, sim, o culpado. Eles começaram a espalhar rumores, deixaram de cumprimentá-lo.
Os comércios ali da região pararam de atendê-lo, a esposa dele decidiu deixá-lo. Jovens o perseguiam nas ruas até que no dia 5 de outubro de 1962, o Walter foi até um bosque em Valzum, o mesmo bosque que o corpo da Mônica tinha sido deixado pelo Joaquim. E lá o Walter se enfocou em uma árvore. A próxima vítima foi a Barbara Bruder, de 12 anos.
No dia 3 de setembro de 1962, ela saiu da sua casa pra ir até um playground. Ela provavelmente pegou um atalho por uma área arborizada. Ela nunca chegou ao destino e o seu corpo nunca foi encontrado. O Joaquim confessou o crime e disse que esperou por ela na mata. Mas sem provas materiais e sem o corpo da vítima, ele nunca foi formalmente acusado por esse assassinato. Ela continua desaparecida, então como não há provas, a polícia não sabe se ela tá viva.
e tá em algum outro lugar, se realmente foi o Joaquim. Não tem nada online sobre a sua família, sobre os seus pais ou o que aconteceu com eles, apenas o nome dela. O local que ela tava indo no dia nunca chegou, e a confissão do Joaquim, né?
Já o Herman Schmitz tinha 25 anos. No domingo 22 de agosto de 1965, ele estava em um ponto de namoro perto de um lago ao sul de Dusberg, dentro do seu Volkswagen, com a sua namorada chamada Marion Vinn. O Joaquim os avistou dentro do carro e ele se aproximou sem que eles vissem e furou o pneu do carro, o pneu dianteiro, usando uma faca.
O Herman saiu do carro pra ver o que tinha acontecido, e o Joaquim o esfaqueou no peito duas vezes. O Herman caiu e morreu imediatamente nos braços da namorada que tentava manter ele consciente. Depois, a Marion pisou fundo no acelerador, mesmo com o pneu furado, e ela começou a dirigir o carro, buzinando, sem parar. O Joaquim mal conseguiu desviar do carro, então ela conseguiu escapar, e alguns outros motoristas foram alertados, né, pelo barulho. Mas não havia rastro do agressor, a Marion conseguiu sobreviver.
mas ela não conseguiu reconhecer o Joaquim, e o Herman, o namorado dela, é a única vítima masculina conhecida do Joaquim. A próxima vítima foi a Ursula Rowling, ela tinha 20 anos e cabelos curtos. Na tarde de terça-feira, dia 13 de setembro de 1966, por volta das 7 da noite, ela deixou a sorveteria Capri, em Marl, onde havia passado uma hora e meia com o namorado Adolf Schickel.
Ela foi a pé por um parque a caminho da sua casa. O Joaquim chegou de trem de Dusburg e a encontrou no parque. Nos interrogatórios, ele descreveu o momento assim. Ele disse que viu uma mulher jovem, de cabelos curtos, falou com ela, agarrou-a pelo pescoço com o braço direito e a arrastou pra dentro dos arbustos. A estrangulou até que ela parou de se mover. Depois, abusou dela e tirou as roupas do seu corpo. Ele voltou pra estação de trem. Quando chegou em casa, ainda excitado, teve relações com a sua boneca inflável que ele guardava no seu apartamento.
O corpo da Úrsula foi encontrado dois dias depois, oculto entre os arbustos, da cintura para baixo o despido, as pernas abertas. A polícia prendeu o namorado dela, o Adolfi, que tinha sido a última pessoa a ser vista com ela. Ele foi interrogado por horas e depois ele foi solto por falta de provas, mas a comunidade não o soltou. Ele foi expulso de mar pela pressão pública. No dia 4 de janeiro de 67, ele se jogou no Rio Men e morreu inocente quatro meses depois da sua namorada.
A Elona Hark tinha 5 anos. Joaquim a sequestrou em Essen, mas existem poucos detalhes sobre esse caso. O que se sabe é que ele levou a menina de trem urbano até Uppertal, embarcou no ônibus, desceu em algum ponto numa área arborizada e caminhou cerca de 500 metros por vegetação densa até chegar a um córrego. Ali, Joaquim disse que queria experimentar uma coisa que nunca havia feito. Queria ver como alguém se afogava.
Ele a estrangulou, violentou e a afogou. A Gabrielle Putzman tinha 10 anos e foi a única criança que o Joaquim atacou e não conseguiu matar. Era 22 de junho de 1967 e ele estava morando temporariamente em Grafenwald, no norte de Boutrop.
Numa tarde, ele abordou Gabriela e a conduziu a um local afastado. Ele mostrou algumas fotos pornográficas pra ela. Ela ficou apavorada e tentou correr. O Joaquim começou a estrangulá-la, mas naquele momento, sirenes soaram ao redor. Era a troca de turno de uma mina de carvão próxima. E a área foi subitamente tomada por dezenas de mineiros se tornando do trabalho.
Joaquim largou a menina e desapareceu, sem que ninguém o visse. A Gabriele sobreviveu, mas seus pais nunca reportaram um incidente pra polícia, por medo, por vergonha, por não querer envolver a filha num processo. Só nove anos depois, após a prisão do Joaquim em 76, que Gabriele foi identificada como vítima sobrevivente, e o ataque foi registrado formalmente.
A próxima vítima foi a Maria Hettingen. Ela era aposentada e tinha 61 anos, a vítima mais velha do Joaquim. E a que menos se parecia com o seu padrão habitual de alvos jovens. No dia 12 de julho de 69, ela estava caminhando pela margem do lago Baldny, em Essen, no bairro de Werdning. O Joaquim havia viajado de trem de Dusberg até Essen e tomado um ônibus até Werdning, para um passeio à beira do lago. Ele encontrou a Maria numa das margens.
No interrogatório, ele descreveu o momento como ela simplesmente estava lá, ele sentiu uma espécie de formigamento pelo corpo, tentou falar com ela, ela recusou, ele a golpeou e os dois caíram entre arbustos. Ele a abusou e a estrangulou. O corpo dela foi encontrado no dia seguinte e não há registro do que aconteceu com sua família. Juta Ren tinha 13 anos e saía de uma estação de trem no caminho de casa no dia 21 de maio de 1970.
Joaquim a avistou provavelmente de dentro do trem. Ele desceu na mesma parada que ela e a seguiu pelo atalho pela mata que levava até sua casa. Ele a estrangulou e o seu corpo foi encontrado naquele trecho de floresta. No dia 9 de junho, Peter Shea foi preso. Ele era vizinho da Juta.
E segundo algumas fontes, tinha algum tipo de relação próxima com ela. Ele passou 15 meses na prisão antes de ser solto por falta de provas. Mas a soltura não foi o fim pra ele. Os vizinhos não o absolveram. Durante anos, ele foi perseguido. Espalhavam rumores, eram hostis, o isolavam. A pressão foi crescendo até que em 1976, depois de anos vivendo nessa condição, o Peter confessou o crime. Uma confissão falsa, arrancada não por violência policial, mas pelo peso insuportável de ser tratado como um monstro por quem o conhecia.
Semanas depois, ele foi preso. A Karen Topfer tinha 10 anos e ia caminhando a escola quando Joaquim a encontrou. Era 8 de maio de 1976, apenas dois meses antes dele ser preso. Ele fez exatamente o que já tinha feito com as outras vítimas. No julgamento, Joaquim não foi formalmente condenado por esse crime, porque os detalhes que ele forneceu não foram considerados convincentes o suficiente para uma condenação. E agora eu volto a falar sobre a Marion, a primeira menininha que eu falei no começo do vídeo.
Ela morava no bairro de Lahr, onde o Joaquim também vivia. Os moradores do prédio em que ela e o Joaquim moravam o conheciam como o tio Joaquim, um homem solitário que sempre tinha balas e brinquedos para oferecer para as crianças do bairro. As mães o viam como um homem inofensivo. Naquele 3 de julho de 76, quando a Marion desapareceu no parque, o Joaquim tinha levado ela para o seu apartamento.
Quando a polícia bateu na porta no dia seguinte, a sua mãozinha era aquela encontrada dentro da panela. Outras partes do corpo estavam embaladas na geladeira. Eram as suas entranhas que haviam entupido o cano do banheiro compartilhado do andar. A Marion era a décima quarta e última vítima conhecida do Joaquim. Mas pra entender como ele tinha matado 21 vítimas sem ser identificado, é preciso entender não apenas quem ele era, mas como era a Alemanha Ocidental nos anos 50, 60 e 70.
A polícia de cada cidade da região de Ruhr respondia pelos crimes ocorridos em sua jurisdição. Não tinha um sistema centralizado de cruzamento de informações entre as delegacias municipais. Um corpo encontrado em Essen não era automaticamente conectado a um corpo encontrado em Dusberg, mesmo que os dois apresentassem características idênticas. Vítimas jovens, estrangulamento e partes do corpo sendo cortadas. Cada caso era tratado como um caso isolado, investigado por uma equipe que não sabia o que as equipes vizinhas tinham encontrado.
Como havia outros assassinos operando na região na mesma época, qualquer investigação se tornava ainda mais turva. O Joaquim explorava essa falha no sistema de investigação da polícia de forma inconsciente, porque, como ficaria claro nos interrogatórios, ele não era um planejador, ele era impulsivo. Ele matava quando a compulsão chegava. Escolhia suas vítimas por oportunidade. Ele variava os locais por instinto. Depois ele voltava para casa, onde às vezes cozinhava restos das vítimas que ele tinha trazido com ele.
Havia também o fato de que ele não correspondia a nenhum perfil que os investigadores da época conseguissem identificar. Ele era um homem pequeno, quieto e aparentemente inofensivo. Trabalhava como faxineiro e atendente de sanitários nas indústrias, management e teasing. Ele não bebia, não brigava e não causava problemas.
Os vizinhos o descreviam como um homem que adorava crianças, sempre com balas no bolso, e sempre disposto a brincar. Ninguém o considerava suspeito de nada. Em seu apartamento, Joaquim vivia sozinho com uma coleção de bonecas infláveis. A polícia só veria o seu apartamento e esse quarto de bonecas infláveis em 1976.
Nos interrogatórios após a sua prisão, Joaquim surpreendeu os investigadores não pela resistência, mas pela ausência dela. Ele confessou tudo com uma calma desconcertante, como se estivesse descrevendo a rotina de qualquer outra pessoa. Ele deu datas, locais, detalhes que só o assassino poderia saber. Os investigadores, a princípio, céticos diante de tantas confissões, foram confirmando uma a uma. Os locais batiam, os detalhes também, os métodos batiam. O Joaquim havia matado pelo menos 13 pessoas ao longo de 21 anos.
Provavelmente mais, ele mesmo admitia incerteza sobre alguns episódios. Em um dos interrogatórios, os investigadores o levaram aos locais dos crimes para que ele reconstituísse as cenas. Ele cooperou, mostrou onde havia deixado os corpos, como havia abordado as vítimas e o que havia feito depois.
Os policiais que acompanharam as reconstituições descreveram um homem que falava sobre os assassinatos com a mesma indiferença que ele falaria sobre o trajeto até o trabalho. Quando perguntado por que comia carne humana, ele respondeu que era para economizar nas compras, porque a carne estava cara. Quando perguntado se sabia que seria liberado após uma operação que curaria seus impulsos, o Joaquim confirmou. Ele acreditava genuinamente que estava preso temporariamente, que os médicos fariam uma intervenção simples e ele voltaria para casa.
Mas é claro que ele não voltou. O seu julgamento começou em 4 de outubro de 1979 e se estendeu por 151 dias de audiências, um dos julgamentos mais longos da história da Alemanha ocidental até aquele momento. Sentados ao lado do Ministério Público, havia 14 familiares das vítimas que participaram formalmente do processo.
14 histórias de luto que o terminal precisaria ouvir, junto com as confissões do homem sentado no banco dos réus. O Ministério Público apresentou as confissões detalhadas do Joaquim à polícia, análises forenses que o ligavam aos locais dos crimes e os depoimentos de testemunhas que o haviam visto nas proximidades das vítimas. A defesa tentou o argumento da responsabilidade diminuída, o QI de 76, a limitação cognitiva e a incapacidade de compreender plenamente as consequências dos seus atos.
Mas o juiz Paul Schemen rejeitou esse argumento. Ele declarou Joaquim plenamente responsável por seus crimes. Eu proferi a sentença, acrescentou uma frase que resumia o que o tribunal havia concluído sobre aquele homem quieto, que usava óculos e tinha orelhas grandes. Ele nunca mais deveria ser devolvido à liberdade. Os psiquiatras que avaliaram Joaquim ao longo do processo encontraram sadismo sexual, pedofilia, necrofilia e canibalismo. Mas não psicose.
Não havia nenhum delírio, não havia ruptura com a realidade. Havia, segundo os especialistas, um homem que sabia que o que ele fazia estava errado, que suas ações eram ilegais, mas ele era incapaz de compreender o peso humano do que ele tinha feito. Para o Joaquim, as vítimas eram quase que abstrações.
obstáculos para um impulso que ele mesmo descrevia como um formigamento, que se manifestava em seu peito e só se resolvia quando a resistência da vítima cessava. Durante o julgamento, Joaquim continuou a falar sobre uma intervenção, uma cirurgia, que fariam nele e dessa forma ele seria curado. Ele perguntava sobre isso, ele acreditava e esperava que isso realmente acontecesse.
Então, durante o julgamento, o tribunal e os médicos não respondiam a essas questões. Então, o Joaquim aguardava. Ele foi condenado por oito assassinatos e uma tentativa de assassinato. Não pelo total de 14 assassinatos que ele tinha confessado, porque na maioria deles, eram casos mais antigos, não havia provas o suficiente para poder sustentar uma condenação formal.
A pena de morte havia sido abolida da América Ocidental em 1949. Então, em abril de 1962, Joaquim recebeu nove sentenças de prisão perpétua. Uma para cada crime que ele tinha cometido e tinha sido comprovado. O julgamento também expôs as falhas sistêmicas que permitiram que o Joaquim atuasse por todo esse tempo.
a falta de comunicação entre as delegacias, a ausência de um banco de dados centralizados em crimes sexuais e violentos, a tendência dos investigadores a sempre buscar um suspeito entre as pessoas conhecidas das vítimas, raramente considerando a possibilidade de um agressor fora desse círculo e até mesmo um serial killer. Como eu contei pra vocês, vários homens inocentes pagaram o preço pelos crimes que o Joaquim cometeu e a polícia foi incapaz de chegar até ele.
Então, muitos deles foram presos e cumpriram penas, mesmo sendo inocentes. Alguns deles tiraram a própria vida porque não aguentavam a pressão pública. Outro deles havia confessado um crime que ele não tinha cometido só pra ficar em paz. Então, tudo isso aconteceu porque o Joaquim tava solto. Nenhum desses homens conseguiu voltar a ter uma vida normal depois do que tinha acontecido com eles.
Após a sentença, o Joaquim foi levado a uma prisão de segurança máxima na Renânia. Então, por conta da notoriedade dele e do seu risco, né, entre outros detentos que poderiam se aproximar dele, poderiam machucá-lo, ele foi mantido isolado na prisão. Ele não conviveu com os outros detentos, então ele vivia sempre sozinho, sem poder conversar com ninguém e, segundo relatos...
Nos anos que se seguiram, ele continuava esperando por aquela cirurgia que iria curá-lo. Ele cooperou casionalmente com alguns investigadores que estavam revisitando casos não solucionados. Em alguns momentos, ele retratou algumas confissões que ele tinha feito no julgamento. Ele desenvolveu problemas cardíacos e foi internado no hospital do presídio. No dia 1º de julho de 1991, ele faleceu na penitenciária por um ataque cardíaco.
Ele tinha 58 anos e ele morreu esperando aquela operação que ele acreditava que existia e que em algum momento iria chegar. Após a sua morte, o seu cérebro foi examinado por cientistas, o que é uma prática bem comum com criminosos de perfil extremo, na esperança de que alguma estrutura neurológica explicasse o que nenhum interrogatório havia conseguido explicar.
Mas não há registro público do que essa análise encontrou. Em 1993, o artista belga Danny Devos criou um projeto artístico extenso sobre os crimes que o Joaquim cometeu. Ele visitou os locais dos assassinatos, reuniu recortes de jornais e documentos do período. Ele produziu obras que foram exibidas na Alemanha, na Bélgica e nos Países Baixos.
Era uma tentativa de confrontar o horror por meio da arte e de não deixar que os nomes das vítimas se dissolvessem completamente nos arquivos. Em 2004, o criminologista alemão Stephen Harbord publicou um livro que em tradução se chama Eu Precisava Destruí-las, baseado na sentença de 781 páginas, do julgamento do Joaquim, dos protocolos interrogatório e dos laudos forenses de entrevistas.
O título vinha das próprias palavras do Joaquim durante os depoimentos. Ele disse que sentia esse formigamento no peito, que ele queria se aproximar das mulheres, e que quando elas se recusavam, ele precisava destruí-las para conseguir o que ele queria. O livro é considerado até hoje a reconstituição mais completa do caso. Além do livro, existem dois documentários sobre o caso, o Killers Behind the Myth, no episódio Crow, de Dusberg Cannibal, e o documentário World's Most Evil Killers, temporada 1, episódio 16, Joaquim Crow, de 2017.
A região onde ele morava passou por décadas de desindustrialização após o colapso da indústria do carvão nos anos 80 e 90. Cidades como Dusburg e Essen ainda carregam as marcas dessa transição. Desemprego, imigração de jovens e bairros envelhecidos. O apartamento onde Joaquim vivia foi demolido anos depois da sua prisão. Os nomes das vítimas do Joaquim são lembrados nos registros criminais e em alguns memoriais locais.
Os nomes dos homens inocentes que foram destruídos pelos crimes dele aparecem nas notas de rodapé das investigações, nos parênteses dos relatórios policiais. São o rastro colateral de 21 anos de impunidade. Esse é o caso do canibal Joaquim. Eu tenho certeza que eu falei...
Tudo errado o nome das cidades e das vítimas. E eu peço desculpa porque é em alemão. Então, é muito difícil. E eu queria muito trazer esse caso pra vocês. Quero muito saber o que vocês acharam. Então, me conta aqui nos comentários. E é isso. Pra mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa. E aproveita pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir. E até o próximo caso. E aí