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FOI TORTURADA POR 14 ADOLESCENTES QUE SAÍRAM IMPUNES | Caso Gisberta #582

13 de abril de 202629min
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Gisberta era uma brasileira, que fugiu da violência em São Paulo para construir uma nova vida em Portugal. No Porto, ela era conhecida como "a diva" — loira, exuberante, cheia de personalidade. Mas a vida foi retirando tudo dela, pouco a pouco. E quando não tinha mais nada, o impensável aconteceu dentro de um prédio abandonado no centro da cidade. #582

Participantes neste episódio1
G

Gisberta Salsi Jr.

Narrador
Assuntos3
  • Vida de GisbertaIdentidade de gênero · Violência contra pessoas trans · Carreira artística · Saúde e HIV · Apoio social
  • Assassinato de GisbertaAgressões por adolescentes · Investigação policial · Julgamento dos agressores · Reação da sociedade · Transfobia na mídia
  • Legado e consequências do casoMudanças legislativas · Movimento LGBT em Portugal · Memória de Gisberta
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Gisberta Salsi Jr. nasceu em São Paulo no dia 5 de setembro de 1960. Era a caçula de oito filhos de Angelina Mouros Salsi e Gisberto Salsi. Quando nasceu, ela foi registrada com o nome do pai. Então, era Gisberto Salsi Jr. Um nome masculino para uma criança que desde muito cedo sabia que era menina. A sua irmã Jacine, 12 anos mais velha, guardou na memória que Gisberta sempre foi de pele mimosa, muito branca, gostava de dançar.

e preferia a companhia das meninas. Jacine dizia que considerava a Gisberta sua bonequinha de brinquedo. As outras duas irmãs também encaravam isso com carinho. Já os quatro irmãos e o pai, não. O irmão Domingos a descreveria como uma criança muito alegre e brincalhona que criava pato, criava galinha, corria atrás das galinhas, que pegava as roupas das irmãs, colocava e ficava dançando.

Gisberta aprendeu cedo onde era seguro ser quem era e onde não era. Em casa, ela optava por roupas mais neutras, para não provocar conflito com o pai. Mas fora de casa, com as amigas, ela se permitia mais. A sua mãe Angelina, percebendo que aquela criança era diferente do que o registro de nascimento dizia, em determinado momento, decidiu levá-la a um médico. A resposta foi que o comportamento se devia a mimos em excesso. Gisberta cresceu carregando essa contradição, livre em alguns espaços contida em outros.

Só aos 14 anos, após a morte do seu pai, ela disse à mãe o que guardava tanto tempo, que ela ia ser mulher. Gisberta era uma mulher trans. Eram os anos 1970 no Brasil, e o caminho à frente seria muito mais difícil do que qualquer adolescente deveria enfrentar. São Paulo vivia uma onda de violência brutal contra pessoas trans.

As notícias vinham de toda a cidade. Do bairro da Casa Verde, da periferia, do centro, travestis estavam sendo assassinadas. A imprensa mal cobria. A polícia, menos ainda. Aos 18 anos, Giberto decidiu partir para Paris. As razões eram múltiplas. A violência acrescente contra pessoas trans em São Paulo, o assassinato de um amigo próximo e, segundo o irmão Domingos, um grupo de dança francês que havia passado pelo Brasil, levou ela junto.

O irmão ressaltou anos mais tarde que ela não tinha estudo suficiente para conseguir trabalho convencional. A dança era o caminho possível e foi por ele que ela atravessou o Atlântico e foi para Paris. Domingos também disse algo que carregava o peso de uma família inteira, tentando conciliar amor e religião. Ele disse entre aspas.

Uma coisa é ser o que Gis era. E uma coisa é o contrário do que Deus fala. Então, mesmo assim, eu amava Gis. Só não amava o que Gis era. Cisberta partiu em busca de segurança e de uma vida melhor. Passou dois anos na França, depois visitou outras cidades europeias e acabou chegando ao Porto em 1980. A cidade onde passaria o resto da vida e onde construiria uma identidade nova.

Xisberta voltou para o Brasil para fazer tratamento hormonal e colocar implantes de silicone. Quando retornou a Portugal, onde conseguiu um visto de residência, já vivia plenamente como a mulher que sempre soube que era. Ela começou a se apresentar em bares como artista transformista. O primeiro palco foi o Invictus, nas galerias do Hotel Malaposta, espaço que havia sido o Qt, um dos primeiros bares gays de Porto. De lá, Xisberta passou por outros palcos, o Bustos, o Sindicato. Nos shows, adorava imitar Marilyn Monroe. Era conhecida como a Diva.

Loira, vistosa, de salto alto e maquiagem impecável. De dia, ela gostava de tomar café com as amigas pela cidade e de passear com os seus cachorros. Ela tinha dois Yorkshire, então um chamava Leandro e a outra Carolina. Ela mantinha laços com a família, então ela sempre visitava o Brasil e às vezes ficava pouco tempo, às vezes ficava dois meses na casa da mãe Angelina.

Em novembro de 93, a Gisberta decidiu levar a mãe até Porto pra conhecer a cidade que ela escolheu como seu lar, e as duas passeavam todas as tardes. E, de fato, tinha muito pra conhecer em Porto, e a vida noturna gay de Porto entre 1980 e 1990 era pequena, mas muito intensa. Era basicamente um circuito muito pequeno ali em Porto, e a Gisberta era uma das figuras mais reconhecidas dentro dele.

Ela havia começado no transformismo quase por brincadeira, porque ela fez uma apresentação em um aniversário, e ali ela percebeu que ela tinha palco. Um amigo dela, chamado Roberto Figueirinhas, disse que se lembra de quando ela entrou no Invictus pela primeira vez, e ele também era transformista. Ele atuava lá, e aí ele disse que ela chegou, então ele viu aquela loira alta usando botas texanas, e sabia que ela era brasileira.

Gisberta passava de um palco pra outro e em todos ela encantava o público. Além de Marilyn Monroe, nos shows ela cantava Fafá de Belém, Vanusa e Daniela Mercury. Mas infelizmente a vida artística não pagava todas as contas da Gisberta, então além de se apresentar nos palcos, pra complementar a renda, Gisberta trabalhava como profissional do sexo na rua de Santa Catarina.

Era uma equação comum para mulheres trans na época e continuou sendo por muitos anos, enquanto a saúde permitiu. Então, em 1996, ela recebeu o diagnóstico de HIV positivo e aí tudo mudou. A doença foi avançando em silêncio nos primeiros anos, mas depois de um tempo foi impossível de ignorar.

Com o tempo vieram outros diagnósticos como tuberculose pulmonar, pneumonia e candidíase laríngea. Era um acúmulo que corroía o corpo e a disposição. Os sinais físicos acabaram afastando os clientes e a Gisbert não conseguia nenhum trabalho comum porque na sua certidão tinha um nome masculino. Então agora, sem a principal fonte de renda, ela decidiu tentar fazer um tratamento em um hospital. Então ela ficou lá por 22 dias. Ela ficou lá internada por esse tempo e depois ficou uma semana em uma comunidade terapêutica.

Mas ela saiu antes do término do tratamento, e aí teve um enfermeiro que cuidou dela nesse período. Seu nome é Nuno Câmara Lima, e ele disse que ele acredita que a Gisberta sempre recusou esse tratamento para o HIV, desde o início do diagnóstico, porque ela tinha consciência da própria decadência. E talvez já houvesse ali algum desapego.

uma tristeza e ela manteve essa decisão até o fim. Com a saúde cada vez pior, as fontes de renda foram desaparecendo uma a uma. Então, ela perdeu a moradia e passou por alguns conjuntos habitacionais populares e passou por algumas casas que eram cada vez mais precárias. Quem conhecia a Gisberta dos tempos de glória agora mal conseguiam reconhecê-la porque ela tava andando com o cabelo bem curtinho, as roupas rasgadas e sem maquiagem, sem salto, bem diferente da imagem que as pessoas tinham dela.

Além disso, ela estava com o visto de residência expirado. Então, ela estava ilegalmente no país. Ela não tinha conseguido renovar o seu visto. Então, nesse ponto da vida, ela decidiu construir uma barraca dentro de um prédio abandonado. O edifício ficava na Avenida Fernão de Magalhães, no centro de Porto. E era o único abrigo que ela tinha. Os cães que ela tinha e que ela tanto amava, um dia fugiram quando ela abriu a porta e foram atropelados. O que foi um grande golpe pra ela. Então, ela se afastou das pessoas por um tempo.

Durante o dia, ela costumava visitar alguns centros de apoio, como migalhas de amor. E o espaço pessoa, então lá ela podia comer, tomar banho e conversar com as pessoas que estavam lá. Ela mostrava fotos da família, fotos de si mesma quando era mais jovem. E geralmente ela chegava por volta de meia-noite e depois voltava pra sua barraca.

Segundo o Nuno, os técnicos sempre tentavam convencer a Gisberta de conhecer o local onde ela estava abrigada, mas ela nunca deixou. Eles queriam conhecer as condições que ela estava vivendo, e o Nuno disse que ele acredita que por ela ter uma personalidade muito forte, e por provavelmente vergonha, ela nunca quis que eles fossem até lá, né? Nunca deixou.

No final de 2005, três adolescentes, o Fernando, o Ivo e o Flávio, decidiram fazer grafite em um prédio abandonado. Esse prédio era conhecido na vizinhança como Pão de Açúcar. Era um esqueleto de concreto que deveria ter se tornado um centro comercial, mas a obra ficou embargada por anos e aí ficou abandonado. E era lá que a Diasberta morava. Então era ali naquele local que parecia uma caverna, não tinha luz, não tinha água.

E tinha um poço e era ali que ela vivia. Um dos três adolescentes, o Fernando, ele tinha 14 anos. E desde criança, ele conhecia a Gisberta. A mãe dele era trabalhadora sexual e ele ficava em casa com a babá. Então, a casa dele e da mãe dele era frequentada por outras trabalhadoras, né? Ali de Porto. E uma delas era a Gisberta. Então, ele conheceu ela com seis anos de idade. E, obviamente, nunca esqueceu dela.

E aí, quando eles estavam, ele e os amigos, se reunindo pra fazer grafite lá no prédio abandonado, ele chegou até a barraca e reconheceu a Gisberta ali. Então, ele apresentou ela pros seus amigos e assim eles começaram a fazer visitas frequentes a ela. Ela contou sobre os problemas de saúde, sobre a AIDS, sobre as dores que ela sentia.

Os três adolescentes se sensibilizaram e passaram a levar comida pra Gisberta. Eles chegaram até a cozinhar arroz pra ela dentro do edifício abandonado. E por algumas semanas eles foram os únicos que apareceram, só os três, pra visitar ela. Só que aí isso mudou depois de um tempo. Isso aconteceu quando eles contaram pra alguns colegas da escola Augusto César Pires de Lima. E também pra colegas da oficina de São José, que havia uma pessoa diferente morando naquele edifício que eles frequentavam.

Eles disseram que era um homem que tinha mamas e que, de fato, parecia uma mulher. Quando eles falaram sobre a Gisberta para esses colegas, foi mais com uma curiosidade. E depois disso, mais 11 adolescentes queriam conhecê-la e é preciso falar sobre eles, né? Quem eram eles.

Então, ao todo, juntando com os três primeiros adolescentes, eram 14 adolescentes que foram falar com a Gisberta. E desses 14, 11 moravam ou frequentavam a oficina de São José, que é uma instituição tutelada pela Igreja Católica. Desde o início do século, esse local acolhia menores encaminhados pela segurança social e pelos tribunais.

Então eram adolescentes em situação de risco, órfãos, jovens arrancados, a pré-margiridade, como descreveu a própria instituição, e o regime lá dentro era severo, quase militar. Havia punições físicas entre os próprios alunos e uma cultura de violência replicada em cadeia.

quem tinha alguma autoridade sobre quem não tinha. Havia também abusos entre os alunos, atos cometidos por monitores contra adolescentes e relatos de menores vítimas de prostituição. Tudo isso viria à tona meses depois. Por enquanto, o Pão de Açúcar havia se tornado um ponto de encontro de rapazes que combinavam entre si de dar porrada na G. No dia 15 de fevereiro de 2006, os 14 rapazes com idades entre 12 e 16 anos combinaram de se encontrar no prédio.

Um deles entrou e gritou pra Gisberta pra que ela se levantasse. Ela saiu da barraca e respondeu que não tinha pra onde ir. Foi Flávio quem pegou uma pedra e a atirou na direção da Gisberta, acertando na região frontal e parietal esquerda do seu crânio. Ela caiu sangrando. Quando conseguiu se levantar, David deu uma rasteira nela, derrubando-a novamente.

Os demais adolescentes se jogaram sobre ela com chutes e paus. Gisberta gritava de dor. O grupo fugiu com medo dos seguranças do estacionamento próximo. No dia seguinte, 16 de fevereiro, foram Fernando, Ivo e Flávio que voltaram. Eles encontraram Gisberta deitada no colchão, tremendo, com sangue seco na cabeça, incapaz de se levantar. Eles perguntaram se ela precisava de ajuda. Ela pediu um cigarro e que a deixassem em paz.

Os três foram para as aulas e logo foram substituídos por seis outros do grupo. José Antônio ordenou a José Alexandre que tirasse as roupas da Gisberta, mas ele se recusou. Disse que ela cheirava mal e tinha AIDS. Então José Antônio se juntou a Jorge Ismael e os dois passaram a tirar pedras na Gisberta e bater com paus nos seus joelhos e pernas. Gisberta gritava. O grupo fugiu por alguns instantes, voltou e ordenou que ela se levantasse e ela disse que não conseguia. Então bateram nela novamente com chutes e usaram paus.

No chão, sem conseguir se defender pelo número de agressores e pela fraqueza do corpo, Gisberta se encolheu e se cobriu com o cobertor, gritando que não fizessem aquilo. Antes de irem embora, os agressores destruíram a barraca onde ela dormia. Ao longo dos dias, as agressões foram além dos espanhamentos. Gisberta foi queimada com cigarros e os agressores também a violentaram com pedaços de madeira. No dia 18, às duas e meia, Gisberta estava do lado de fora da barraca, deitada de lado sobre um cobertor. Apenas a cabeça estava descoberta.

David, um dos seis que voltaram ao prédio no outro dia, ordenou que ela se levantasse. Ela respondeu que não conseguia, que estava muito mal. Então, ele a chutou. Os investigadores registrariam depois que, durante as agressões, a vítima chorava convulsivamente de dor. David pegou uma viga de madeira de 1,5m de comprimento e 20cm de diâmetro e jogou sobre o corpo dela.

acertando na altura do estômago. O golpe, concluíram os investigadores, causou grande sofrimento. No dia 19, quando parte do grupo voltou ao prédio, encontraram Gisberta deitada no chão de camisola, nua da cintura para baixo e completamente imóvel. Chamaram pelo seu nome, mas ela não conseguia falar. Ela deixou escapar apenas um gemido muito baixo. Um dos rapazes tocou nas suas pernas com um pau e ela não se mexeu. No dia 21, outro grupo voltou. Gisberta estava do lado de fora da barraca, deitada sobre as pedras, com as pernas encolhidas.

Em suas pernas tinham arranhões e equimoses. Ainda nua da cintura pra baixo, não respondeu as perguntas. O seu rosto estava pálido. Um dos rapazes aproximou uma chama de um isqueiro à boca da Gisbert e não viu sinais de respiração. Então, eles concluíram que ela estava morta. Naquele mesmo dia, avisaram os outros membros do grupo. Pra eles, o caso estava resolvido, mas ainda havia o corpo. Então, eles marcaram para o dia seguinte. Eles pensaram em enterrá-la, mas não tinham ferramentas.

Além disso, segundo o coletivo de juízes, registraria depois. Os jovens disseram que tiveram a intenção de dar um funeral à Gisberta, mas desistiram porque precisavam ir às aulas. Eles cogitaram até a fogo ao corpo da Gisberta, mas pensaram que a fumaça poderia chamar a atenção dos seguranças que trabalhavam no estacionamento próximo.

Foi então que eles decidiram pelo poço que havia ali dentro, que era fundo suficiente para esconder o que eles tinham feito. Era um poço onde faziam as necessidades para um balde e era onde tinha restos de comida. Eles também combinaram de recolher todos os paus que eles usaram para agredir a Gisberta e jogar no poço.

Às oito e meia da manhã do dia 22 de fevereiro de 2006, o Ivo colocou uma luva de lã em uma mão e entregou a outra luva para José Alexandre e aí o Fernando protegeu as mãos com uma sacola plástica. Eles enrolaram o corpo de Gisberta em cobertores e arrastaram até o poço, que era cerca de 100 metros.

A linha d'água estava aproximadamente 10 metros de profundidade, então eles jogaram o corpo da Gisbert ali. O grupo avisou aos demais que estava tudo resolvido, que eles tinham se livrado do corpo. Essa informação chegou até Flávio, e foi ele que, quando voltou para a escola, procurou a direção e a professora de turma na aula de formação cívica para contar tudo o que eles tinham feito, porque ele não aguentava mais guardar aquele segredo.

A professora confirmaria depois, em depoimento no tribunal, que tanto o Flávio quanto o Ivo chegaram muito pálidos aquele dia na aula. Quando o Fernando também confirmou o que tinha acontecido, ele chorou muito. A professora e a direção alertaram imediatamente a Polícia de Segurança Pública.

Além disso, a divisão de investigação criminal, os bombeiros, a polícia judiciária e um perito do Instituto Médico Legal chegaram no local. Quem deu a localização exata de onde o corpo da Gisberta estava, dentro do posto onde ele ficava, para as autoridades poderem achar, foi o Flávio. Os agentes seguiram suas indicações e resgataram o corpo da Gisberta às 6h50. A investigação de um incídio começou imediatamente e levou cerca de seis meses.

No local do crime, as autoridades apreenderam os pertences da Gisberta, que foram abandonados lá. Entre eles, tinha um cobertor amarelo, jornal, um suéter azul de tricô, preservativos e embalagens vazias, um sapato preto, um pente, caneta delineadora, dois batons comprimidos, uma prescrição médica do hospital Joaquim, que foi onde ela ficou internada por alguns dias, que eu contei pra vocês. E também uma carteirinha da Associação da Cidade, que é a instituição que a Gisberta...

Ia lá, ela e mais mil sem tetos do porto pra poder comer. E o número da carteirinha dela era 132. Então ela ia lá todas as noites pra jantar. E aí, quando eles começaram a investigação, os técnicos das associações de apoio que conheciam a Gisberta, que conversavam com ela e sabiam que ela não tava em uma situação boa, eles foram tomados por um sentimento de responsabilidade pelo que tinha acontecido com ela, porque eles a conheciam.

Eles tinham ideia, né, mais ou menos do que ela tava vivendo. E eles também sabiam onde ela vivia, por mais que ela nunca tivesse deixado eles irem até lá. E aí, quando a autópsia do corpo foi feita, ela confirmou que os dias de agressões anteriores já anunciavam. Então, como ela foi espanhada várias vezes, ela tinha lesões por todo o corpo.

Na cabeça, pescoço, membros superiores, membros inferiores, laringe, traqueia, abdômen, intestino, rins, múltiplas equimoses, infiltrações hemorrágicas e escuriações por todo o corpo. Mas a verdadeira causa da morte registrada pelo perito foi afogamento. Isso significa que no momento em que eles jogaram a Gisberta dentro do poço, ela ainda estava viva. E essa conclusão mudaria todo o rumo do processo criminal.

Quando a notícia chegou à imprensa portuguesa, o que se viu naquelas notícias, né, em todos os jornais, foi uma negação sistemática da identidade da Gisberta. Então, por muitas semanas, os veículos simplesmente se recusavam a colocar uma foto da Gisberta. Se recusavam a se referir a ela como Gisberta. Então, eles falavam Gisberto.

um travesti, um homem do sexo masculino, que chamavam ela de sem abrigo. Então, sempre se referiam a ela, sempre no masculino. Pelo seu nome de registro, como se a sua real identidade não existisse. Quando a identidade trans dela era mencionada, ela era confundida com a sua orientação sexual, que não tinha nada a ver. Então, quando associações LGBT começaram a se manifestar, eles não foram ouvidos.

foi necessária uma campanha ativa das associações de defesa aos direitos LGBT pra que os jornais e a TV recebessem fotos dela e publicassem essas fotos e se referissem a ela no feminino. Foi só assim que a Gisberta ganhou um rosto na imprensa portuguesa e passou com o tempo a ser tratada com um pouco mais de dignidade.

No Brasil, a família soube da sua morte pela internet, porque ela mantinha contato com a família, mas às vezes ela ficava semanas, meses sem entrar em contato. E sempre que eles conversavam com ela, ela dizia que estava bem, que ela estava dançando em uma boata, então eles não tinham ideia da situação real que ela estava vivendo. Tanto que um ou dois anos antes da Gisberta morrer, ela fez uma visita ao Brasil, ela visitou a família, foi à praia com eles. E a sua irmã, Jacine, disse que ela estava bem, que ela estava normal. Eles não perceberam nada de anormal ali naquela visita.

Já a mãe dela, Angelina, que já era idosa, se preocupava muito com a caçula, mas não tinha nada que ela pudesse fazer ou como saber realmente como a vida da filha estava do outro lado do Atlântico. E aí, a última notícia real da Gisberta veio em dezembro de 2005, então alguns meses antes da sua morte. Uma amiga da Gisberta ligou para uma das irmãs dela, para a Glória, e disse que ela não estava bem, que ela estava vivendo em situação de risco. Então, a Glória conseguiu falar com ela e pediu que ela...

saísse de Porto, voltasse para o Brasil. A Gisberta disse que não, que ela não queria voltar e aí dois meses depois ela faleceu. A família dela não foi até o Porto, eles acompanharam tudo sobre o caso através das notícias, tudo à distância pela internet e pelo que os jornais brasileiros publicavam.

A mãe dela, Angelina, até chegou a ter uma advogada representante no processo, que anunciou que pediria uma indenização aos autores do crime, mas o pedido jamais foi apreciado porque ele foi apresentado depois do prazo. Enquanto isso, em Portugal, a polícia judiciária continuava a investigação. Os 14 rapazes foram identificados rapidamente por conta da confissão do Flávio. Então, com essa confissão, eles tinham tudo o que eles precisavam.

Dos 14, apenas o Vitor Santos, que tinha 16 anos, idade suficiente para responder criminalmente, ele também foi o único detido preventivamente. Semanas depois, ele foi solto pelo Terminal de Instrução Criminal do Porto, diante das dúvidas sobre o seu grau de envolvimento no crime. Os demais eram todos menores de 16 anos.

Por conta disso, eles ficaram sob medidas cautelares e aguardaram o processo no Tribunal de Família e Menores. Já a Diocese do Porto, que tutelava a oficina de José, realizou o inquérito interno e declarou a instituição isenta de responsabilidades. Essa decisão gerou indignação das associações LGBT e de ativistas, que há semanas organizavam vigílias em frente ao prédio e também organizavam manifestações por todo o país. O Corpo da Gisberta foi translado para o Brasil graças ao apoio de ativistas e amigos.

O julgamento dos 13 menores de idade começou no dia 3 de julho de 2006 e aconteceu de portas fechadas. O tribunal declarou que a publicidade das audiências prejudicaria os menores, o equilíbrio psicológico deles e também poderia comprometer a coleta de provas.

Então, apenas a sentença dele seria pública, com acesso restrito a famílias e apenas três jornalistas. A perícia médica reiterou no julgamento a conclusão da autópsia. Xberta morreu por afogamento. E as lesões infligidas pelos rapazes não eram por si só suficientes para causar a morte. Essa conclusão técnica, combinada com a legislação de proteção a menores em Portugal, estreitou drasticamente as possibilidades de condenação. Nas alegações finais, em 24 de julho, o Ministério Público abandonou a acusação inicial de omissão de qualificado.

A nova acusação era de ofensas à integridade física qualificadas, agravadas pelo resultado de morte. Apenas três menores foram acusados de ocultação de cadáver. Em 1º de agosto de 2006, na única audiência pública do processo, o coletivo de juízes leu a sentença. Os 13 menores foram condenados a medidas que variaram entre 11 e 13 meses de internação em centros educativos. Dois deles, acusados apenas de omissão de auxílio, receberam acompanhamento educativo por 12 meses.

A sentença reconheceu que os rapazes agiram com desprezo pela vida humana, mas afirmou que não havia prova de que o crime tivesse sido motivado pela identidade de gênero da vítima. Um dos juízes descreveu o ocorrido como uma brincadeira de mau gosto de crianças que fugiu do controle. Ao final, a família recebeu um documento oficial enviado de Portugal com as informações da autópsia e o resultado do julgamento.

A Jacine, uma das irmãs da Gisberta, quando chegou o documento e ela leu o que estava escrito ali, ela ficou extremamente revoltada. Disse que achou aquilo fim da picada, porque ali dizia que não foram os 14 meninos que mataram a Gisberta, e sim a água do poço. Mas o processo se arrastaria ainda nos tribunais.

Um dos menores foi condenado a 13 meses e ele recorreu pedindo que os seis meses de internamento cautelar já cumpridos fossem retirados dessa pena de 13 meses. O Tribunal da Relação do Porto mandou reapreciar. E aí o caso chegou ao Supremo Tribunal de Justiça, que fixou jurisprudência, dizendo que o internamento cautelar não desconta o internamento tutelar. Então ele teria que cumprir, sim, os 13 meses. A família ainda levou o caso ao Tribunal Constitucional e foi negado novamente. Já o julgamento do Vitor Santos, o único...

que tinha 16 anos, só aconteceu em 2008. Quase dois anos após a sentença dos menores. Então, ele, como eu falei pra vocês, foi o único, né? Que era o mais velho, então ele foi julgado como adulto. O Ministério Público tinha pedido apenas seis meses de acompanhamento a uma instituição de apoio a sem-abrigo. Mas o juiz, João Grilo, decidiu aplicar o máximo de pena que ele podia pra aquele crime. Que, no caso, foram oito meses de prisão preventiva, descontando dois meses e cinco dias de preventiva já cumpridos.

O juiz disse que os testemunhos dos colegas do Vitor revelaram uma memória seletiva. Eles lembravam de tudo o que tinha acontecido em fevereiro de 2006, menos da participação do Vitor. A lei portuguesa de proteção à infância vedava a identificação de menores de idade, então o julgamento dele também ocorreu de portas fechadas. Porém, os autos do processo, parcialmente acessados ao longo dos meses pela imprensa, continham depoimentos de familiares, laudos periciais e detalhes que inevitavelmente chegaram aos jornais.

Foi assim que alguns fragmentos vieram a público. Então, por exemplo, que a mãe do José Antônio descreveu como um rapaz afável, sempre bem comportado, e que os peritos encontraram nele falhas na expressividade emocional e dificuldades em lidar com sentimentos. Que o Fernando voltou para a casa da mãe quando terminou de cumprir a medida. E que ela confirmou ao tribunal que o filho sempre havia lidado bem com as diferenças de Gisberta, mas que ele nunca tinha contado para ela que havia reencontrado Gisberta no prédio abandonado.

Ela só notou que às vezes faltava comida em casa. Disse que ele nunca conseguiu dar uma explicação pra ela sobre o que tinha acontecido com a comida. Os demais voltaram pras suas casas, pras suas famílias e pras suas vidas. Entre julho e setembro de 2007, todos os condenados estavam em liberdade. Os primeiros nomes que apareceram nos autos e na cobertura jornalística foram de Fernando, Flávio, Ivo, David, José Antônio, José Alexandre e Jorge Ismael. Esses nomes podem ou não corresponder às identidades reais dos envolvidos.

A proteção legal garantiu que mesmo décadas depois, os responsáveis pela morte de Gisberta permaneçam, em sua maioria, anônimos. O julgamento não encerrou o caso. A morte de Gisberta acelerou o debate sobre transfobia já em curso em Portugal antes de 2006, culminando na criminalização explícita em 2023, retroativa em aspectos de crime de ódio.

À medida que as investigações avançavam, o que acontecia dentro da oficina de São José também foi vindo à tona. A investigação paralela da Polícia Judiciária expôs abusos sexuais por monitores, maus-tratos e desvios de fundos na oficina tutelada pela Diocese do Porto, que após inquérito interno declarou a instituição isenta, gerando revolta em ativistas.

Técnicas que trabalhavam no local e haviam denunciado os abusos internamente foram afastadas antes que o caso viesse a público. Durante a fase mais crítica do julgamento, o diretor Germano Costa tirou a própria vida sob o peso das pressões. Em 2010, a oficina de José fechou as portas de forma definitiva. A morte de Gisberta gerou um debate público que Portugal não tinha tido antes sobre transfobia.

A Marcha do Orgulho do Porto nasceu em julho de 2006, com a primeira edição realizada na Praça 24 de Agosto, um lugar escolhido em memória de Gisberta na semana em que o julgamento dos menores começava. Ativistas saíram às ruas com fotos dela e cartazes com os dizeres Sou transexual e não quero ser assassinada.

Nos anos seguintes, o Legislativo português criou leis voltadas para a igualdade de gênero, garantindo a pessoas trans maior acesso à justiça, à educação e ao emprego. Desde 2011, é possível retirar documentos com apenas um parecer médico, sem necessidade de cirurgias. Foi aprovada também a concessão de asilo a transexuais estrangeiros em risco de perseguição. Portugal se tornou referência internacional no tema. A palavra transfobia entrou definitivamente no lexo nacional português. O caso inspirou artistas.

Um ano após a morte, o poeta português Alberto Pimenta publicou Indulgência Plenária, em homenagem à Gisberta. Em 2007, o músico Pedro Abrunhosa compôs balada de Gisberta, incluída no álbum Luz, e Maria Bethânia gravou a canção, utilizando-a para encerrar o primeiro ato do seu show Amor, Festa, Devoção, em 2009. Em 2008, a TVI de Portugal exibiu um documentário sobre o caso.

Em 2013, o escritor Eduardo Gaspar criou um monólogo teatral com a atriz Rita Ribeiro, que esgotou o teatro rápido. Em 2016, a ação pela identidade declarou o ano como o ano de esberta, marcando os 10 anos da morte dela. Cartazes com a sua imagem foram espalhados por Lisboa. No Porto, uma exposição de obras foi realizada no Maus Hábitos e um debate sobre invisibilidade e transfobia aconteceu na Confraria Vermelha, a Livraria de Mulheres.

Foi também nesse ano que o cineasta brasileiro Tiago Carvalhans dedicou a ela o curta-metragem A Giz, vencedor de três quiquitos no Festival de Gramado. Em 2017, a Associação Plano abriu o Centro Giz, espaço de apoio à população LGBTI com o nome de Gizberta. Em 2018, o ator Luiz Lobianco levou a história para os palcos brasileiros no monólogo Gizberta, com texto de Rafael Souza Ribeiro e direção de Renato Carreira, encenado também no Porto e em Lisboa.

No mesmo ano, o escritor Afonso Reis Cabral publicou o romance Pão de Açúcar, que parte do caso para inventar a perspectiva de um dos rapazes. Em maio de 2024, após anos de petições rejeitadas, a Câmara Municipal do Porto aprovou por unanimidade que uma rua da freguesia do Bonfim passasse a se chamar Rua Gisberta Salsi Júnior. O presidente da Câmara, Rui Moreira, disse que a decisão tinha o significado de a cidade reconhecer os seus pecados.

Uma minissérie documental foi feita com quatro episódios, chamada Gisberta, Vida e Morte, com coprodução entre a produtora brasileira Ultravioleta e a portuguesa Wolf Entertainment. Ela foi anunciada com previsão de estreia durante a Europride 2025 em Lisboa, com depoimentos de familiares, de amigos e dos próprios adolescentes que hoje são adultos.

Mas até agora, em março de 2026, quando eu estou gravando esse vídeo, não havia confirmação de que a estreia havia ocorrido, conforme planejado. O pão de açúcar, como os portuñenses chamavam o edifício abandonado, onde a Gisberta viveu e morreu, foi demolido em 2024, quase duas décadas após o crime. No lugar do esqueleto de concreto, que ficou de pé por 30 anos, uma construtora começou a erguer o empreendimento Fernão Magalhães, com duas torres de 25 andares, 334 apartamentos, escritórios e espaços comerciais.

A memória de Gisberta não foi demolida com o prédio. A cidade que não soube protegê-la em vida deu seu nome a uma rua, criou leis em sua homenagem e todos os anos para em fevereiro pra lembrar. É pouco, mas 20 anos depois é o que ficou. Comparando a vários outros casos que eu conto pra vocês onde as vítimas são...

Basicamente esquecidas, né? Onde ninguém fala sobre... Onde não há justiça. Esse é um caso onde, pelo menos... Mesmo depois de 20 anos, ainda há essas coisas pra mostrar que ela não foi esquecida. Como muitas outras, né? Que foram. Então, eu quero muito saber o que vocês acharam desse caso. Então, me conta aqui nos comentários. É um caso extremamente triste. Ainda mais quando a gente para pra pensar que... Os culpados eram menores de idade. E eram vários, né? Ao todo eram 14.

E além disso, pensar que durante todos aqueles dias que ela tava toda machucada, ela tava lá sozinha, sem a ajuda de ninguém. Então é horrível pensar em tudo que ela passou. Quero saber muito a opinião de vocês. Não esquece do like, que me ajuda muito na divulgação do vídeo. E é isso. Pra mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveita pra avaliar em 5 estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.

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