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ELE DAVA OS RESTOS PARA OS PORCOS! | Caso Robert Pickton #581

07 de abril de 202642min
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Essa é a história de muitas mulheres. A maioria delas foi assassinada. Menos uma. Uma delas sobreviveu. Foi até a polícia. Contou tudo. A polícia tinha a faca, as algemas, as roupas dele — e deixou tudo na gaveta por sete anos. Nesse tempo, o DNA de pelo menos 33 mulheres seria encontrado na fazenda dele. Esta é a história do maior fracasso policial da história do Canadá — e das mulheres que o sistema decidiu que não precisavam de proteção. #581

Participantes neste episódio1
G

Gisberta Salsi Jr.

Host
Assuntos1
  • Prisão de Robert Pickton - Fevereiro 2002Vítimas do Robert Pickton · Falhas da polícia · Investigação forense · Impacto nas famílias · Genocídio de mulheres indígenas
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Robert William Pickton nasceu em 24 de outubro de 1949, em Port Coquitlam, na Colúmbia Britânica. Filho de Leonard e Louise, criadores de porcos. A família vivia no número 953 da Dominion Avenue. Eles tinham 14 acres de terra, a 27 quilômetros de Vancouver. O pai do Robert era ausente e violento. A mãe, descrita por vizinhos como excêntrica e fria, priorizava o trabalho da fazenda acima de qualquer coisa, inclusive da higiene dos filhos.

A irmã mais velha foi mandada para morar com parentes na cidade porque os pais achavam que uma fazenda de porcos não era ambiente adequado para uma menina. Já o Robert e o irmão mais novo, David, ficaram na fazenda. Os dois iam para a escola com roupas impregnadas de esterco. Os colegas os chamavam de Stinky Pig. No ônibus escolar, precisavam sentar separados dos outros.

O Robert foi colocado em turma de educação especial depois de reprovar o segundo ano. Ele abandonou a escola em 1963. Quando tinha por volta de 11 anos, ele comprou um leitão com o próprio dinheiro do bolso. Aquele animal era o único amigo que ele tinha. Um dia ele voltou para casa e o leitão tinha desaparecido. A mãe disse que ele havia sido abatido. Em 1978 e 1979, os pais morreram em sequência.

O Robert e seu irmão David herdaram a propriedade. Na virada dos anos 80 para os anos 90, o crescimento imobiliário de Vancouver chegou até Port Coctelan e os irmãos venderam partes da terra para construtoras e embolsaram mais de 5 milhões de dólares canadenses. Com dinheiro e sem nenhum controle externo, a fazenda foi se transformando. Em 1996, os irmãos fundaram a Pig Palace Good Time Society.

Uma organização sem fins lucrativos registrada formalmente no governo canadense com a finalidade declarada de organizar, coordenar e gerenciar eventos especiais em nome de grupos merecedores. Mas, na prática, era um clube noturno improvisado no antigo matadouro na propriedade. As festas chegavam a reunir duas mil pessoas.

integrantes do Hell Angels, políticos locais, trabalhadores e uma rotatividade constante de mulheres trazidas do Downton East Side com promessas de dinheiro e drogas. O Robert usava uma van escura com vidros fumê para circular pelo bairro. Ele oferecia dinheiro, drogas, álcool. Convidava as mulheres para irem até a fazenda.

A gente consegue entender melhor esse caso quando a gente fala sobre o lugar onde tudo acontecia, né? Onde o Robert ia buscar suas vítimas. O Downton East Side de Vancouver não é só um bairro pobre. É o resultado de décadas de políticas que falharam em sequência. O despejo de pacientes psiquiátricos das instituições nos anos 70, sem rede de apoio comunitária. O colapso da habitação social nos anos 80. A crise do crack nos anos 90. Um bairro onde a maioria dos moradores é de povos indígenas.

Muitos deles sobreviventes ou descendentes de sobreviventes das escolas residenciais. O sistema colonial que durante décadas arrancou crianças indígenas de suas famílias e as forçou a abandonar língua, cultura e identidade. As mulheres que trabalhavam nas ruas do Downtown Eastside eram na maior parte indígenas ou em situação de vulnerabilidade extrema. Com vício em drogas, sem moradia, com histórias de violência doméstica, com filhos tirados pelo serviço de proteção à criança.

Desde 1978, mulheres começaram a desaparecer nesse bairro. Em 1991, um perfil geográfico elaborado por um investigador da polícia de Vancouver concluiu que havia um assadino em série operando na área. A chefia da polícia descartou o relatório, classificando-o como impreciso e inflamatório. O assadino continua solta, matando-o por mais de uma década.

Então agora eu vou falar de algumas vítimas do Robert. Vocês vão entender durante o vídeo que foram muitas. Nem todas foram identificadas. E nem todas chegaram a ter os seus casos levados a tribunal pra que o Robert respondesse pelos crimes. Como eram muitas vítimas, o juiz preferiu pegar as que eles tinham mais conteúdo, mais investigação, pra que o Robert respondesse por esses crimes. Então é...

dessas mulheres que eu vou falar agora. Vocês vão perceber durante o vídeo que a razão pela qual o Robert ficou solto por tanto tempo, mesmo com várias coisas apontando para ele, não foi só incompetência policial. Foi uma decisão sistêmica e repetida de que várias vítimas não mereciam o tempo da investigação. Vítimas que não mereciam esse empenho da polícia para realmente investigar todos esses casos.

A Marnie Lee Anne Frey nasceu em 30 de agosto de 1973 em Campable River, uma cidade costeira na ilha de Vancouver. Ela cresceu com o seu pai Rick, pescador comercial, e a madrasta Lynn. Ela passava os fins de semana pescando e acompanhando o pai nas águas ao redor da ilha. A Marnie amava os animais. Na adolescência, ela abandonou a escola e aos 18 anos saiu de casa.

Aos 19, era mãe. Sua filha Brittany nasceu e ficou com os avós em Campbell River porque a Marnie se mudou para Vancouver. Naquele mesmo ano, ela se casou com um homem para evitar que ele fosse deportado. Um gesto de generosidade que não durou. O casamento terminou. Vancouver, nos anos 90, tinha um bairro que engolia as pessoas que chegavam sem rede de apoio. A heroína que ela já usava desde Campbell veio com força. Pagar pelo vício significava trabalhar nas ruas. E essas ruas levavam para a Downtown Eastside.

Mas a Marnie ligava pra casa quase todo dia. Ela perguntava pela filha Britney. Pedia que cuidassem dela. Dizia que não queria que a filha seguisse o mesmo caminho que ela. Em 30 de agosto de 1997, a Marnie completou 24 anos. Ela ligou pra família, conversou com o pai, com a madrasta e perguntou pela filha, que tinha 5 anos.

Havia um pacote que chegaria para ela pelo correio, com presentes do pai, comida caseira da madrasta, um desenho que a Britney havia feito para ela. Mas ninguém nunca mais ouviu falar da Marne depois daquele dia. O pacote foi parar num terminal de ônibus. Jamais foi retirado. A madrasta da Marne registrou o desaparecimento dela com a polícia montada real do Canadá, a Força Policial Federal do país, ainda em setembro. A polícia disse para ligar de volta em alguns dias.

Então ela ligou em outubro, ligou em novembro, e depois disso foi pessoalmente à delegacia procurar notícias.

O boletim de ocorrência oficial só foi aberto em dezembro, quase quatro meses depois do último contato que ela teve com a Marnie. Em março do ano seguinte, em 98, a Lynn voltou a Vancouver e foi até Downtown Eastside. Uma prostituta que conhecia a Marnie disse que ela provavelmente estava morta, que alguém a havia levado para aquele triturador. A Lynn não entendeu o que aquilo significava, mas nunca esqueceu. Ela e o pai da Marnie criaram a sua filha Britney em Campbell River.

esperando por notícias de que a Marnie voltaria. Já a próxima vítima, Georgina Faith Pappin, nasceu em 11 de março de 1964, em Edmonton, e cresceu dispersa pelo sistema de acolhimento. Ela e os irmãos foram separados ainda crianças e distribuídos por uma dúzia de casas adotivas e instituições.

Ela pertencia à nação Creed Enoch, próxima a Edmonton. Ela era dançarina e carregava com orgulho a identidade e a tradição indígena da sua família. Ela fugiu da casa adotiva aos 12 anos de idade. Dois anos depois, ela estava em Las Vegas, onde deu à luz a Christina, sua filha mais velha e a primeira de sete filhos.

A Georgina sabia que não tinha condições de criar a menina, então a deixou com os avós paternos. Disse que sabia que sua filha teria uma vida melhor assim. Mesmo distante, ela ligava com regularidade. A Cristina foi visitá-la em Mission, na Colômbia Britânica, quando tinha 12 anos. Estavam planejando que ela passasse o verão de 1999 com a mãe. A Georgina voltou ao Canadá, teve outros seis filhos. Ela adorava jogar cartas e assar biscoitos.

A sua irmã, Cynthia Cardinal, descreveria anos depois que a Georgina era encantadora e expansiva. Era uma mulher bonita, com filhos bonitos e amava a cultura e a família. Em fevereiro de 99, a Georgina deu à luz a gêmeos, os seus filhos mais novos dos sete que ela teve.

Ela tinha 35 anos e um mês depois ela desapareceu. A irmã dela ficou sabendo da sua morte em setembro de 2002, quando ela leu que a sua irmã tinha morrido. Antes disso, ninguém da família da Georgina tinha sido notificado, então eles não faziam ideia. A próxima vítima, Brenda Ann Wolfe, nasceu em 20 de outubro de 1968 e cresceu em Calgary, em Saskatchewan.

Ela cresceu com a família do pai enquanto a mãe lutava contra o alcoolismo. E foi com a família do pai que ela sofreu os abusos que a mãe só descobriria depois. Na escola, a Brenda era campeã de badminton. Em 1991, concluiu a certificação de cabeleireira. Ela era talentosa, trabalhadora, conhecida pela voz suave e pela disposição de proteger os mais vulneráveis ao redor. Ela tinha duas filhas, a Angel e a Destiny.

Uma vivia em Alberta e a outra em Ontário. Em 1996, fugindo de um companheiro violento, a Brenda foi para Vancouver. Lá, ela trabalhou como garçonete em segurança no Balmoral Hotel, no coração de Downtown Westside. A Brenda lutava contra a dependência química há anos. Havia buscado tratamento quando as filhas nasceram, mas o vício era difícil de romper.

Então, em Vancouver, sem rede de apoio e sob ameaça de um companheiro extremamente violento, as condições de vida da Brenda pioraram. No Natal de 1999, ela gastou o último dinheiro que ela tinha comprando presentes para as filhas. Depois, ela foi ao serviço social pedir auxílio emergencial para comprar comida e esse pedido dela está registrado. Até que nos primeiros meses do ano 2000, ela parou de dar notícias.

Em 25 de abril do mesmo ano, ou seja, quatro meses depois do desaparecimento, que as autoridades registram oficialmente que ela era uma pessoa desaparecida. Uma ação civil movida pelas filhas dela anos mais tarde diria que os investigadores sequer foram até o último endereço da Brenda para verificar se ela estava lá, para verificar se ela estava bem.

A próxima vítima é a Andrea Julesberry. Ela nasceu em 6 de novembro de 1978 em Victoria, capital da Colômbia Britânica. Uma cidade de uma ilha separada de Vancouver por um estreito de mar. Pra chegar ao continente é preciso pegar um ferry. É como se fosse um outro mundo. Ela cresceu numa família com um irmão e uma irmã com quem era muito próxima. Na escola Craig Flower, ela adorava esportes e teatro. Aos 16 anos ela fugiu de casa.

Foi pra Downtown Eastside, Vancouver, com um namorado 20 anos mais velho e ela teve uma filha com ele.

Quando o companheiro foi preso, o Serviço de Proteção à Criança retirou a sua filha. As fontes não registram para onde ela foi. Mesmo à distância, Andrea mantinha contato frequente com a sua família em Victoria por telefone. No momento do seu desaparecimento, ela estava num programa de metadona, um sinal de que ela tentava sair das ruas. Ela desapareceu em junho de 2001 e tinha 22 anos.

Já a Serena Botsway nasceu em 20 de agosto de 1971. O seu pai morreu de overdose no Downtown Eastside de Vancouver. A mãe se casou novamente e mais tarde tirou a própria vida. Às 4 anos, Serena e dois irmãos mais novos foram para uma família adotiva em Surrey. Os pais adotivos eram Bert e Anna Dryers, que criaram as crianças com estrutura, afeto e rotina. A Serena chamava os Dryers de pai e mãe. Aprendeu a falar holandês com a mãe.

Ganhou uma viagem à Holanda num concurso escolar. Ela lia bem desde o primeiro ano. Levava ursinhos de pelúcia e bonecas Barbie pra onde ela fosse. Mas havia algo quebrado antes que pudesse ser consertado. A sua mãe adotiva, Anna, diria anos depois que na época não tinha um nome pra o que eles observavam. A impulsividade, hiperatividade, a memória falha. Ela disse que a Serena fazia o que vinha na cabeça. E quando perguntavam por quê, ela dizia que não havia acontecido.

Aos 17 anos, o comportamento dela ficou difícil demais de gerenciar com os outros filhos adotivos na casa.

Então, os seus pais pediram que ela saísse. Uma decisão que os marcou pelo resto da vida. A Serena foi para uma casa de acolhimento, onde conheceu adolescentes das ruas. Uma vez por mês, os seus pais adotivos faziam o caminho de Surrey até Downtown Eastside para poder ver a Serena e levavam ela para jantar. Ela pedia bife, mas lutava para mastigar porque havia perdido quase todos os dentes. Ela ligava quase todo dia durante 13 anos.

Até que em meados dos anos 90, alguém a espancou até deixá-la em coma. Os seus pais adotivos ficaram na beira da cama no hospital até ela voltar. E ela voltou. Ela se batizou duas vezes, uma como católica com os pais adotivos e outra como cristã evangélica no Downtown Eastside. Ela participou de marchas pedindo investigação pelos desaparecimentos das mulheres do bairro.

Escreveu um poema sobre as colegas que iam sumindo. Ele dizia, entre aspas, Quando vocês desapareciam a cada ano, lutávamos tanto para encontrá-las. Vocês eram parte do plano de Deus. Ele provavelmente levou a maioria de vocês para casa, mas deixou para nós um espaço muito vazio. Em julho de 2001, a Serena foi até a casa dos seus pais adotivos, dos Dreyers, para visitá-los.

Ela prometeu que ela voltaria a visitá-los em agosto, quando ela completaria 30 anos de idade. Então, a Anna estava até planejando um jantar para ela. A última vez que a Siona ligou para eles foi antes do dia 1º de agosto de 2001. Quando ela parou de dar notícias, os Dreyers ligaram para hospitais para saber se ela tinha dado entrada. Foram até a polícia, mas ninguém sabia do seu paradeiro.

A próxima vítima, Mona Lee Wilson, nasceu em 13 de janeiro de 1975, em Kelowna, na Colômbia Britânica. Ela era a caçula de sete irmãos. Ela pertencia à Primeira Nação OUTS em Rocky Mountain House, Alberta, uma das centenas de comunidades indígenas reconhecidas pelo governo canadense, cada uma com território, cultura e governo próprios. A sua infância foi um pesadelo que não deveria ter acontecido.

A mãe da Mona a levou pra Vancouver quando ela ainda era pequena, separando-a de alguns dos seus irmãos. Na nova cidade, a mãe começou a namorar e esse namorado abusava da Mona o tempo todo. Uma vizinha idosa a encontrou sangrando num corredor de apartamento e chamou as autoridades. A mãe e o namorado foram presos.

O sistema de proteção à criança a colocou numa casa de acolhimento de emergência em Langley, que era a fazenda da família Gorley. A Mona tinha oito anos quando chegou lá. A fazenda era uma propriedade grande, que tinha galinhas, patos, perus e outras criaturas. Para uma criança que havia crescido num apartamento de pesadelo, aquilo era outro mundo. E ali, ela foi feliz. O Greg Gorley, seu irmão adotivo, a descreveria décadas depois, dizendo que ela era uma alegria em pessoa, que ela era muito teimosa e sempre em volta de animais e bebês.

Segundo ele, ela era absolutamente incrível e teria sido a melhor mãe do mundo. A Mona dormia com pintinhos no bolso do pijama. A família precisava verificar a cama dela todo dia antes de apagar a luz. Às vezes, encontravam três ou quatro pintinhos escondidos debaixo do cobertor. A família Garley tentou adotar a Mona por anos, mas o governo não permitiu. Quando ela tinha 16 anos, as autoridades a mandaram embora para viver sozinha.

O governo deu a ela um cheque e um endereço no Downtown Eastside de Vancouver, o bairro mais pobre do Canadá, o epicentro do tráfico e da prostituição, onde adultos experientes não sobreviviam sem uma rede de apoio. E a Mona, depois que foi mandada pra lá, não tinha nenhuma rede de apoio, então, ainda adolescente, ela já estava nas ruas. Ela tinha dependência química, ela se prostituía pra poder sobreviver. Em algum momento, ela acabou perdendo o contato com seus irmãos biológicos.

A irmã dela, Lisa, disse que a única coisa que a Mona queria era encontrar a sua família. E os anos seguintes da vida dela foram pouco documentados. Em 2001, ela tinha 26 anos e era frequentemente vista com um companheiro limpando parabrisas de carros em uma esquina na Commercial Drive. Era um jeito de juntar dinheiro e ela foi vista pela última vez no dia 23 de novembro de 2001. No dia 30 daquele mês, o seu companheiro foi até a polícia para registrar o desaparecimento.

Quando ele chegou na delegacia, ele disse algo que deveria ter mudado absolutamente tudo sobre esse caso. Ele disse que tinha visto a Mona entrar em um carro com um homem chamado Willie Picton. O que o companheiro dela não sabia e que só seria descoberto anos depois durante as audiências, é que a polícia também tinha visto esse momento em que ela entrou no carro dele.

Agentes que faziam vigilância na área viram o momento em que a Mona entrou dentro do carro, que inclusive tinha mais um homem lá dentro, e saiu dali com eles. A polícia tinha testemunhas oculares, a polícia tinha um nome dado pelo companheiro da Mona.

dela, já havia anos que várias pessoas deram dicas sobre o Willie Picton, dizendo que tinham visto alguma coisa, que as mulheres desapareciam, que as mulheres iam até a fazenda dele. Então, tinham vários tipos de denúncias que apontavam pra ele ir pra fazenda. Mesmo assim, levou mais de um mês pra que o mandado fosse executado.

E quando esse mandado chegou, ele não era um mandado para a busca de pessoa desaparecida, e sim para a posse legal de armas. O Greg perguntaria anos depois por que que levou tantos anos para que eles fossem até a fazenda do Hobbit para investigar. Quem era aquele outro homem que foi visto dentro do carro que levou a Mona? Ninguém jamais conseguiu responder essas duas perguntas de forma satisfatória.

A Mona nunca voltou pra casa e nunca conseguiu encontrar a sua irmã Lisa. A Mona foi a última vítima do Robert, mas a busca só aconteceu em 2002 na fazenda, como eu falei, por posse ilegal de armas. E foi naquele mês de fevereiro, quando eles fizeram a busca, que eles encontraram um item pessoal da vítima anterior, da Serena. E foi só nesse ponto que o rumo das investigações mudaria.

Aquele era o objeto que detonaria a maior investigação forense do Canadá. Aquelas mulheres tinham sido simplesmente esquecidas, né? Pelas autoridades. A Serena nunca chegou a completar 30 anos. A Morni, a Brenda e a Georgina nunca mais viram os seus filhos. A Andrea nunca saiu do programa de Metadona. A Mona nunca conseguiu reencontrar sua irmã. Eu contei pra vocês a história de seis mulheres, né? Seis vítimas.

Mas havia muitas outras. Ao todo foi encontrado DNA ou restos humanos de 33 vítimas. 33 mulheres. Tudo isso lá na fazenda do Robert. Mas afinal, por que a polícia demorou tanto pra ir até lá, né? Essa foi a pergunta que eu mais me fiz durante todo esse caso. Eles tiveram várias chances de descobrir o que o Robert estava fazendo. De chegar nele por muito tempo. Mas isso não aconteceu.

Pra vocês terem uma ideia, em 1998, o Bill Hickstocks, que era um funcionário da empresa de sucata dos irmãos, né? Do Robert e do irmão dele. Ele foi até a polícia porque ele disse que tinha visto bolsas, documentos, pertences de mulheres. Tudo isso espalhado pelo trailer do Robert. Ele falou sobre as festas que o Robert dava na fazenda, sobre mulheres que iam até lá e depois desapareciam.

Ele chegou a mencionar especificamente o nome do Robert quando ele citou os casos de desaparecimento de mulheres em Downtown Eastside, que eram muitas mulheres desaparecendo. Então, ele falou especificamente sobre essa suspeita que ele tinha do Robert. Ao todo, ele deu cinco entrevistas para a polícia. A última delas foi gravada. A detetive Laurie Shanherr, da polícia de Vancouver, fez um relatório com todas essas entrevistas dadas pelo Bill.

Então, ela pegou todas as informações que ele passou, escreveu esse relatório super detalhado, que era basicamente o que eles poderiam usar para fazer uma busca detalhada na fazenda. Então, ela fez esse documento, ele subiu na hierarquia, e lá ele ficou. Ninguém fez absolutamente nada. E aí, em junho de 99, a polícia recebe uma denúncia anônima falando que o Robert tinha um freezer repleto de carne humana dentro da fazenda.

E aí, o investigador vai até lá, conversa com ele, o Robert nega tudo, fala que é tudo mentira. E, inclusive, diz que se a polícia quiser vistoriar a fazenda, ele deixa. Mas essa busca nunca aconteceu, embora ele tenha deixado, né? Um inquérito posterior revelaria uma série de razões do porquê isso não aconteceu.

a unidade de crimes concluiu que a investigação não tinha validade e a encerrou. A oficial que assumiu o caso em 99 nunca foi informada de todas essas coisas que tinham acontecido antes. Já havia um histórico acumulado ali e ela não sabia. Além disso, havia um conflito de jurisdição crônico. A polícia de Vancouver entendia que a fazenda ficava localizada em um local que era responsabilidade da polícia montada real do Canadá, que fica em Conquitlam.

Enquanto a polícia montada real do Canadá entendia que as mulheres que estavam desaparecendo eram casos de responsabilidade de Vancouver. Nenhuma das forças se comunicava adequadamente e uma achava que a responsabilidade era da outra. Mas no meio de todas essas vítimas, né? Mais de 30 mulheres, havia uma sobrevivente.

A Wendy Lynn Esteter tinha 30 anos e trabalhava nas ruas do Downtown Eastside, Vancouver. Na noite de 22 de março de 1997, ela aceitou ir com um homem que ela conhecia como Willie até uma fazenda em Portcott, em Tlama, 27 quilômetros dali. Ele ofereceu dinheiro e drogas.

Já na fazenda, dentro do trailer, ele colocou uma algema no pulso esquerdo dela e esfaqueou o abdômen dela três vezes. De alguma forma, a Wendy conseguiu tomar a faca, cortou o pescoço do homem, ele cai, ela sai do trailer sem roupa e ela começou a descer o caminho de terra sangrando até que ela desmaiou na sarjeta. Um casal que passava por ali viu ela e chamou uma ambulância.

A Wendy foi levada para o hospital e ela tinha ferimentos que perfuraram o seu pulmão. O homem que tinha feito isso com ela foi para o mesmo hospital por conta própria, com ferimentos graves no pescoço. Na sala de emergência, a equipe médica encontrou no bolso dele a chave da algema que ainda estava presa no pulso da Wendy. O homem, obviamente, era o Robert William Picton. Ele tinha 47 anos e era o criador de porcos de Port Coquitlam.

O Robert foi preso no dia 8 de abril de 1997, acusado de tentativa de homicídio, agressão agravada e confinamento ilegal. Ele pagou uma fiança de 2 mil dólares canadenses e foi solto. No dia 27 de janeiro do ano seguinte, os promotores arquivaram todas as acusações.

A justificativa deles era que a Wendy era viciada em drogas e considerada instável demais para depor de forma convincente perante um júri. Porém, as roupas e as botas de borracha que o Robert usava naquela noite foram apreendidas pela polícia e guardadas num depósito. Esses itens permaneceram lá por sete anos, sem nenhum exame de DNA. A Wendy havia escapado da fazenda em 1997. Ela foi à polícia e contou tudo.

Mas, como eu falei pra vocês, foi tudo arquivado. Enquanto isso, a Lynn Frey, que é a madraça da Marnie, uma das vítimas que tinha desaparecido dois anos antes, continuava aparecendo nas delegacias. Outros familiares faziam o mesmo. As denúncias começavam a se acumular. E a polícia simplesmente não fazia nada. Em 2000 e 2001, as mulheres continuavam desaparecendo numa decadência sem precedentes. A lista oficial de desaparecidas já chegava a 63 nomes. A chefia da polícia continuava negando.

A prisão do Robert Picton não veio de nenhuma das dezenas de denúncias acumuladas ao longo de anos. Veio, como eu disse pra vocês, de uma denúncia sobre armas ilegais. Em 5 de fevereiro de 2002, oficiais executaram o mandado de busca por armas no trailer do Robert. Lá encontraram armas de fogo não registradas. Os dois irmãos foram presos.

O Robert pagou fiança e foi solto, mas ficou sob vigilância policial. Mas o que os policiais viram durante a busca na propriedade foi muito além de armas ilegais. Eles encontraram roupas femininas, documentos de identidade, um inalador de asma que estava com o nome da Serena, uma das vítimas que estava desaparecida. A data da última prescrição carimbada na etiqueta da farmácia era de 19 de julho de 2001. Lá também encontraram o rosário que pertencia à Mona e seu par de tênis.

Com base nessas coisas que eles encontraram lá, eles conseguiram um segundo mandado, dessa vez para a investigação das mulheres desaparecidas. A fazenda foi isolada. Amostras de sangue recolhidas num motorhome na propriedade foram identificadas como sendo da Mona. No dia 22 de fevereiro de 2002, o Robert foi preso de novo, só que dessa vez acusado de dois homicídios, o da Serena e da Mona, as duas últimas vítimas.

Mas o que a polícia encontrou naquele mês de fevereiro foi apenas o começo. Nos meses seguintes, a fazenda se tornaria o maior e mais complexo local de crime da história do Canadá. No auge das buscas, 102 peritos forenses trabalhavam simultaneamente nos 14 acres da propriedade. Dois tapetes rolantes de 15 metros foram instalados para peneirar o solo. Mais de 235 mil itens foram apreendidos. Foram tiradas mais de 40 mil fotografias.

Os trabalhos se estenderam por 21 meses, com um custo estimado em 70 milhões de dólares canadenses. No trailer do Robert foi encontrado um revólver calibre .22 com um objeto sexual encaixado no cano, alegadamente usado como um silenciador artesanal. Também encontraram óculos de visão noturna, dois pares de algemas forradas de pelúcia, uma seringa com um líquido azulado e fitas cassetes que revelavam o que o Robert ensinava aos conhecidos.

Um amigo dele chamado Scott Chubb explicou para os investigadores que o Robert tinha dito para ele que a melhor maneira de matar uma prostituta viciada em heroína era injetando fluido de para-brisa. Em outra gravação, um associado descrevia como o Robert tinha contado para ele que algemava as mulheres, as matava por estrangulamento ou tiro, esvaziava os corpos e dava para os porcos.

Depois surgiria informação mais perturbadora. O governo da Colômbia Britânica confirmou que Robert havia misturado carne humana com carne de porco vendida ao público. A Autoridade de Saúde Provincial emitiu um alerta para que as pessoas que haviam comprado carne da fazenda devolvessem os produtos para análise. Em março de 2004, o médico sanitarista provincial Perry Kendall anunciou que não era possível descartar que restos humanos tivessem contaminado a carne processada na fazenda.

A operação do Robert não era licenciada e ele não vendia em lojas, mas cerca de 40 amigos e vizinhos haviam recebido carne em churrascadas ou simplesmente levado as carnes para casa. A autoridade de saúde pediu que as pessoas devolvessem qualquer produto ainda congelado. O risco de contaminação foi avaliado como baixo, mas a possibilidade nunca pôde ser descartada completamente.

No final da investigação, DNA ou restos de 33 mulheres haviam sido identificados na propriedade. Os restos da Marnie, um fragmento do maxilar direito e quatro dentes. Fragmentos de ossos da mão da Georgina. A mandíbula da Brenda. Os crânios da Serena e da Andrea. O crânio cortado ao meio, as mãos e os pés da Mona. Além delas, outros 80 perfis de DNA não identificados foram encontrados. Metade femininos e metade masculinos.

Na noite de 22 de fevereiro de 2002, algumas horas depois de ser acusado pelos dois homicídios, o Robert passou por 11 horas de interrogatório que foram feitas pelo sargento Bill Ford. Inicialmente, o Robert negou qualquer envolvimento. Ele não queria falar nada. E aí, conforme as horas passaram, ele mudou. De repente, pareceu uma mudança muito calculada quando ele disse que ele poderia falar sobre os crimes.

se a polícia parasse de escavar a fazenda. A polícia não parou, e aí eles resolveram colocar um agente disfarçado na mesma cela do Robert, como parte da operação Project Even Handed. Então, ele foi colocado lá, e ele conversava com o Robert, e gravava as conversas.

O Robert acreditava que ele tava conversando com outro detento, né? Ele não fazia ideia. E ele também não sabia que ele tava sendo gravado em vídeo. Então, ele conversava sobre qualquer outro assunto. E aí, pouco a pouco, ele começou a falar. E aí, ele admitiu ter matado 49 mulheres. Que o que ele queria mesmo era chegar no número 50. Ele falou o grande 5-0, rindo. E aí, ele disse que ele planejava parar por um tempo quando chegasse no número 50. E depois voltar e atingir o número de 75 vítimas.

Ele disse que usava uma usina de processamento de resíduos animais para descartar os corpos. E ele também disse com muita satisfação que ele tinha enganado os investigadores. Quando o assunto dos dois foi a prisão dele, ele disse que ele só foi preso porque ele começou a ficar descuidado com o tempo. Ele até disse, não é irritante, eu queria fazer mais uma para chegar a 50 redondo.

Essas gravações permaneceram sob sigilo judicial por anos. Era uma ordem do tribunal para que não fosse divulgado enquanto o processo ainda estivesse correndo. Os vídeos só foram para o público em 2010, depois que o Supremo Tribunal do Canadá confirmou a condenação do Robert.

E aqui também é bom citar que gravar uma pessoa sem que ela saiba é ilegal em muitos países e às vezes nem pode ser usado como prova. Mas no Canadá é legal se você tiver um pedido aprovado pelo juiz. Outro detalhe é que essas gravações de vídeo que foram feitas na cela não foram usadas como prova formal de culpa no julgamento do Robert.

Os promotores classificaram as falas dele como declarações e não confissões, porque o Robert tinha acabado de ser preso e ele ainda não tinha conversado com o advogado. No Canadá, declarações feitas nesses termos têm restrições de uso. Mesmo não podendo usar dessa forma, o conteúdo foi usado no tribunal para poder mostrar...

para os jurados, para a família das vítimas, o que ele falou. Então, basicamente, foi usado para dar contexto. O julgamento do Robert Picton começou no dia 30 de janeiro de 2007 no Tribunal Superior da Colômbia Britânica, em New Westminster, e foi o julgamento mais longo da história criminal do Canadá. O Robert tinha sido acusado formalmente de 27 homicídios.

Para não sobrecarregar o júri, um julgamento com 27 acusações poderia durar dois anos e aumentar o risco de nulidade. O juiz James Williams determinou que seriam julgadas primeiro as seis acusações com as evidências mais sólidas, que eram as vítimas Serena Abstoway, Mona Wilson, Andrea Josbury, Brenda Wolfe, Georgina Papin e Marnie Frey, que foram justamente todas as vítimas que eu contei para vocês.

As outras 21 seriam julgadas numa segunda etapa. O Robert se declarou inocente de todas as 27 acusações de homilídio em primeiro grau. Durante 10 meses, 98 testemunhas de acusação e 30 de defesa depuseram. Mais de 600 mil peças de evidência laboratorial foram apresentadas ao júri. Além de 40 mil fotografias da cena do crime e um interrogatório gravado com mais de 20 horas de duração.

O júri ouviu sobre a vida das seis vítimas citadas. Não apenas sobre como morreram, mas sobre quem foram. A Elaine Allen, que trabalhava no WISH, que é a Women's Information Safe House, um centro de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade no Downtown Eastside, conhecia pessoalmente cinco das seis vítimas e descreveu cada uma delas para o tribunal. Ela disse que a Andrea era jovem e falava com muito cuidado escolhendo cada palavra.

Georgina era expansiva e iluminava qualquer ambiente. A Seruína tinha muita opinião e conseguia dominar as conversas. Mona tinha um companheiro controlador que a mandava para as ruas. A Brenda era conhecida no bairro como a maior protetora dos vulneráveis. No dia 9 de dezembro de 2007, após deliberar por 10 dias, o júri retornou com o veredito do inocente das seis acusações de homicídio em primeiro grau.

mas culpado das seis acusações de homicídio em segundo grau. A distinção entre homicídio de primeiro e segundo grau no Canadá gira em torno de premeditação. Dessa forma, os jurados não ficaram convencidos, além de qualquer dúvida razoável, de que o Robert tinha de fato planejado todos aqueles assassinatos com antecedência, mesmo ele tendo algemas, armas e métodos elaborados de descarte dos corpos.

No dia 11 de dezembro, quando ele ia receber a sentença, 18 declarações de impacto foram lidas. O Robert ficou em pé, de mãos juntas, e ele ficava balançando a cabeça. A Lynn Frey leu em voz alta a carta escrita pela Britney pra ele. Na época, a Britney tava com 15 anos, ela é filha da Marnie.

E enquanto a avó lia, ela lia olhando diretamente pro Robert. Na carta ela perguntava Por que você machucou a minha mãe e todas as outras mulheres? Eu tenho que passar todos os dias me perguntando Como seria se a minha mãe ainda estivesse aqui? Quando você a tirou de mim foi como arrancar o meu coração. A mãe da Andrea disse que sua filha era uma menina adorável e criativa E que ela acabou em pedaços num freezer.

A irmã da Mona disse que ele tirou muito dela e que aquilo não parecia justo. A irmã da Georgina disse que ele merecia ouvir toda a dor que ele causou a todas as famílias das vítimas, mesmo que ele não sentisse nada. Então, o juiz James Williams leu a sentença, que foi...

de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional por no mínimo de 25 anos, que é a pena máxima para o miscígio em segundo grau no Canadá. Obviamente, o Robert recorreu ao Tribunal de Apelações da Colômbia Britânica e aí ele perdeu. Então, ele recorreu ao Tribunal do Canadá e perdeu também. Das 21 acusações restantes, uma delas tinha sido descartada pelo juiz antes mesmo do julgamento terminar, porque ele considerou que faltavam evidências e aí as outras 20...

vítimas que, como eu falei pra vocês, ele escolheu pegar as vítimas que tinha mais informação pra levar ao tribunal e aí eles iam continuar depois a investigação das outras. Mas como ele pegou prisão perpétua, ele decidiu arquivar esses outros 20 casos. Então ele fez isso não porque havia dúvida.

se ele tinha cometido aqueles 20 crimes adicionais ou não. Não havia dúvidas, né, sobre a culpa dele. Mas sim, porque ele já tinha recebido uma sentença de prisão perpétua. Era a pena máxima que ele podia pegar naquele contexto. Então, segundo o julgamento, não daria uma pena maior. Ele já tinha recebido a pena maior.

Muitas famílias e mulheres também que se revoltaram com o caso passaram anos pedindo que aqueles 20 casos não fossem arquivados. Elas faziam isso pedindo pra que as famílias pudessem ver o caso indo pra frente, pudessem falar da mesma forma que as outras famílias conseguiram falar no julgamento. Mas o pedido foi negado e por mais que eu entenda...

o fato de que ele não poderia pegar uma pena maior do que ele já tinha. Então, para o tribunal, isso não tinha porquê ter mais um julgamento. Num caso dessa magnitude, com tantas vítimas, eu acho que tinha que ter tido, sim, um segundo julgamento com as outras vítimas, para justamente as famílias poderem ter esse fechamento, né? Então, é quase como se eles tirassem esse fechamento das famílias. E não tem como...

não pensar que não importa, sabe? Ah, não importa pra sentença, mas aquelas vítimas importam. Então, eu acho que não deveria ter sido arquivado, né? É uma opinião minha. E aí, em setembro de 2010, o governo da Colômbia Britânica instaurou a comissão de inquérito sobre mulheres desaparecidas, presidida pelo ex-procurador-geral Wally Opao.

Durante dois anos, a comissão ouviu mais de 300 testemunhos e examinou cada decisão tomada, ou não tomada, pela polícia de Vancouver e pela RCMP. O relatório final, que foi entregue em novembro de 2012, foi devastador. Wally concluiu que a polícia falhou de forma flagrante e sistemática em proteger as mulheres de Downtown Eastside. As falhas eram estruturais.

Conflitos de jurisdição entre a polícia de Vancouver e a polícia RCMP. Ausência da liderança, descoordenação entre unidades. Mas, além de tudo isso, também eram culturais, né? Então, racismo, misoginia, classismo haviam moldado as decisões investigativas ao longo de décadas.

A detetive Laurie Shanher, que tinha escrito relatórios recomendando busca na fazenda desde 1998, testemunhou que seus superiores repetidamente bloquearam o avanço das investigações. A denúncia de 99 sobre o freezer cheio de carne humana, que gerou uma entrevista com Robert, mas nenhuma busca, ficou registrada como um dos momentos mais inexplicáveis do caso.

O relatório concluiu que se a investigação tivesse sido conduzida adequadamente, o Robert poderia ter sido detido muitos anos antes e dezenas de mulheres poderiam estar vivas. A comissão fez 63 recomendações. As famílias das vítimas, em grande parte, boicotaram a comissão. Argumentaram que o formato não permitia responsabilizar adequadamente os policiais individuais que haviam tomado essas decisões, e que uma comissão presídida por um ex-promotor não era o fórum adequado para julgar essas falhas do sistema judicial.

E o caso do Robert Picton não aconteceu isolado. Mulheres indígenas no Canadá têm 12 vezes mais probabilidade de serem assassinadas ou de desaparecer do que qualquer outro grupo demográfico no país. São 16 vezes mais propensas a serem mortas do que mulheres brancas não indígenas. Entre 2001 e 2015, representaram quase 25% de todas as vítimas femininas de homicídio no Canadá.

sendo que elas são menos de 5% da população feminina total. Em 2016, depois de décadas de pressão de famílias, ativistas e organizações indígenas, o governo federal instaurou o Inquérito Nacional sobre Mulheres e Meninas Indígenas Desaparecidas e Assassinadas. Durante dois anos e meio, a comissão ouviu mais de 2.380 familiares, sobreviventes e especialistas.

O relatório final, publicado em junho de 2019, com mais de 1.200 páginas, concluiu que as mortes e desaparecimentos de mulheres indígenas no Canadá constituem um genocídio racial, uma crise séculos em construção, resultado de violações sistemáticas e deliberadas dos direitos humanos e indígenas. Em 2024, cinco anos após a publicação do relatório, as comissárias originais alertaram que o progresso em relação às 231 recomendações era mínimo.

O Robert Pickton morreu no dia 31 de maio de 2024, aos 74 anos. Ele estava cumprindo a sua pena na Penitenciária Federal de Segurança Máxima Port Cartier, no Quebec, desde 2018. Doze dias antes da sua morte, enquanto a medicação era distribuída na ala onde ele estava alojado, o detento Martin Cheris se trancou com o Robert num quarto da área comum. Os guardas tentaram entrar, mas não conseguiram. O Martin espancou o Robert duas vezes nesse período em que os guardas estavam tentando entrar ali no quarto.

A administração chegou a soltar gás ali dentro para ver se o Martin iria recuar, o que funcionou só por alguns segundos. Antes de sair, o Martin pegou uma vassoura, quebrou o cabo e enfiou na cara do Robert enquanto ele ainda estava caído no chão. Depois de ser espancado duas vezes ali dentro daquele quarto, o Robert nunca recuperou a consciência. Ele foi levado para um hospital, ficou internado em terapia intensiva, mas faleceu 12 dias depois.

Foi feita uma investigação posterior que mostrou que os detentos tinham acesso a vassouras, rodos, sem supervisão. Eles ficavam em armários que não eram trancados, então a recomendação foi justamente essa, que eles agora trancassem os armários que têm objetos que podem ser transformados em armas.

Em setembro de 2025, Martin foi até o tribunal e ele se declarou culpado de um suicídio em primeiro grau. Ele disse que o Robert continuava falando sobre os crimes que ele cometeu o tempo todo. No dia do ataque, ele teria dito para outro detento que ele gostaria de cannibalizar.

o filho de uma das vítimas. Nesse momento, o Martin disse perdi o controle, excelência. É lamentável, mas aconteceu e eu não tenho remorso. Ele também disse que matou o Robert pelas vítimas. Ele disse que sabe que não deve, né, cometer justiça com as próprias mãos, mas que ele fez isso pelas vítimas e não por ele. Por conta desse crime, o Martin foi condenado à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional por 25 anos, que foi a mesma pena que o Robert tinha recebido.

O promotor informou ao tribunal que não haveria declarações de impacto naquele dia. O irmão do Martin, David, que estava presente, disse que ele não queria falar. As famílias das vítimas do Robert receberam a notícia de que ele havia sido morto. E...

A maioria delas comemorou, dizendo que agora, com ele morto, finalmente eles podem seguir em frente, podem se curar. Alguns até disseram que pra eles, ele já tava morto há muito tempo. E que agora as pessoas podiam esquecer dele e parar de falar dele. A filha da Marnie, a Britney, que tinha 5 anos quando a mãe desapareceu, moveu ações contra várias pessoas. Contra o Robert, o irmão dele. Contra a coroa, contra a polícia de Vancouver. E a RCMP também.

A Angel Wolf, que é filha da Brenda, se tornou advogada de causas juvenis e porta-voz pública sobre o fracasso do sistema que permitiu a morte da mãe dela. Em 2014, os filhos das vítimas chegaram a um acordo judicial com a polícia de Vancouver, a RCMP e a Coroa. O acordo foi de 50 mil dólares canadenses por criança, sem admissão de culpa por nenhuma das partes. Mulheres sem filhos menores não foram contempladas. Ao saber disso, a Angel disse, como você coloca preço na mãe de alguém?

Agora, falando sobre o David, o irmão do Robert, há uma pergunta que o caso nunca respondeu completamente, que era o que o David sabia. Ele morava na mesma fazenda e, mesmo assim, nunca foi formalmente acusado de nada relacionado aos crimes. Durante o julgamento, no entanto, um oficial testemunhou que a polícia acreditava que o David controlava o Robert e que o Robert era mentalmente diminuído e David era o cérebro dos dois.

Foi o David que, em 1999, pediu para os investigadores que esperassem o fim da temporada de chuvas antes de entrevistar o irmão. E aí a polícia concordou e esperou meses. Em 1991, ele agrediu sexualmente uma mulher numa obra em Burnaby. Em 92, foi condenado criminalmente por isso, pagou multa de mil dólares canadenses e cumpriu 30 dias de liberdade condicional. Décadas depois, a mesma vítima entrou com uma ação civil e recebeu 45 mil dólares.

As famílias das vítimas incluíram o David em várias ações civis, acusando-o de saber o que acontecia na fazenda e de encobrir os crimes. O David nega e as ações continuam em andamento. Depois da morte do Robert em 2024, o David não fez declarações públicas. Ele vive a cerca de um quilômetro da fazenda, onde os crimes aconteceram, numa segunda propriedade da família. A menos de dois quilômetros do terreno, onde um dia ficou a fazenda que eles moravam e que foi demolida.

Em 2023, a RCMP anunciou planos de descartar as 14 mil peças de evidência do julgamento de 2007. Familiares e advogados de vítimas se opuseram em carta aberta, argumentando que o caso ainda não está encerrado, que outros suspeitos podem um dia ser identificados. Destruir essas evidências, uma das advogadas disse que seria pagar essas mulheres uma segunda vez.

Em 2025, um processo movido pela família da Sarah DeVryce, que é uma das 20 mulheres cujas acusações foram arquivadas em 2010, chegou ao Tribunal Superior da Colômbia Britânica. A ação alega que a polícia falhou em protegê-la, e o caso está em andamento. Sobre esse caso, tem bastante material para vocês...

lerem, então tem um livro chamado On the Farm, Robert William Pickton and the Tragic Story of Vancouver's Missing Women, que é considerada a obra mais completa desse caso. Tem a The Pig Farm, de 2011, que é um documentário disponível no Prime Video.

Tem uma série documental chamada Sasha Reed and the Midnight Order, da Hulu, que aqui no Brasil está disponível pelo Disney+, que basicamente acompanhou uma equipe de investigadoras que tentou impedir o descarte das evidências. E tem um podcast chamado Robert Pickton, The Final Chapter, que é do Canadian True Crime 2024, que revisitou o caso após a morte do Robert e levantou questões sobre possíveis cúmplices que nunca foram identificados.

O terreno onde ficava a fazenda que foi demolida, né? Onde ele cometia todos esses crimes, hoje permanece vazio. As 14 mil evidências que eles queriam descartar ainda não foram descartadas. Elas estão sob disputa judicial. 20 das 27 acusações nunca foram a julgamento. Como eu falei pra vocês, o DNA de 33 mulheres foi encontrado na fazenda e mais de 80 perfis genéticos de homens e mulheres. Esses perfis não identificados jamais foram reconhecidos. Pra muitas famílias, o caso ainda não foi encerrado.

Não porque o Robert ainda esteja vivo, né? Como eu falei pra vocês, ele já morreu. Mas porque suas filhas, irmãs e mães nunca tiveram uma resposta. O nome do Robert é muito citado em livros de história criminal do Canadá, por ser um dos piores crimes que já aconteceu lá. Então, o nome dele é muito citado, mas os nomes que deveriam ser mais citados ainda são os das vítimas, que como eu falei pra vocês, muitas.

Nem foram pra julgamento. Eu quero muito saber o que vocês acharam desse caso e a opinião de vocês sobre isso que eu acabei de falar. Sobre todos esses casos terem sido simplesmente arquivados porque não dava pra ele ter uma pena maior. Então, ele não foi a julgamento por aqueles crimes que ele cometeu.

Então, é uma coisa que me deixa muito brava nesse caso. E eu quero saber o que vocês acham. Então, me conta a opinião de vocês. E é isso. Para mais casos, siga o podcast Quinta Misteriosa e aproveita para avaliar em cinco estrelas se você gostou. Obrigada por ouvir e até o próximo caso.

ELE DAVA OS RESTOS PARA OS PORCOS! | Caso Robert Pickton #581 | Castnews Index — Castnews Index