O menino que engoliu o choro - Cris Guerra & Elton Caetano
Você já sentiu vontade de engolir o choro? No episódio de hoje, conversamos sobre sentimentos, vulnerabilidade e a importância de expressar nossas emoções, inspirados na obra de Cris Guerra. #AMaryConta #ExpressãoDeEmoções #PsicologiaInfantil #LiteraturaInfantil
- O luto como oportunidade de aprendizadoRepressão emocional · A importância de chorar · Dor física e emocional
- Lidar com a dor e o luto infantilSentimentos e vulnerabilidade · Expressão de emoções · Psicologia infantil · Literatura infantil · Cris Guerra
Tá na hora de dormir, mas antes a Mari conta uma história. Era uma vez, o menino que engoliu o choro. Vai começar mais uma partida importante do campeonato. Os times entram em campo. A torcida vibra. O estádio inteiro parece enlouquecer quando o menino pega na bola. O jogo começa e ele parte para o ataque. Passa por um adversário, escapa de uma falta, deixa o zagueiro para trás e segue em direção ao gol. Agora é só ele e o goleiro.
O menino prepara o chute, chuta, mas ele tropeça e cai. No momento em que ele cai, ele chora, chora muito. Então, de repente, a partida acaba. Menino, quantas vezes eu já falei para você não jogar futebol dentro de casa?— Agora engole esse choro, engole esse choro porque homem não chora. O menino já tinha ouvido aquela frase outras vezes, mas nunca tinha prestado atenção de verdade. Naquele momento, porém, ela ficou ecoando dentro dele.
Tentou engolir a saliva, engoliu em seco. Ficou tentando entender o que o pai queria dizer. Queria aprender logo aquele tal de engolir o choro. Como gostava de ver o pai orgulhoso, esforçou-se. Concentrou-se, treinou até conseguir e conseguiu! O menino passou a chorar apenas por dentro, sem que ninguém percebesse. Desde o dia em que o pai mandou que ele engolisse o choro, nenhuma lágrima foi capaz de escapar. Durante muito tempo, nenhuma gota daquela água salgada desceu pelo seu rosto.
O menino virou um mar por dentro. E o mar do menino fazia muito barulho. "Menino, vem comer!" A mãe imaginava que aquele barulho fosse fome e logo lhe preparou um lanche. O menino fazia o que tinha aprendido: engolia o lanche e engolia o choro. Mas o mar que existia dentro dele era revolto e imenso. Ali as emoções se misturavam em um maremoto sem fim. O menino sorria, mas já nem sabia por que sorria. Era um sorriso seco, meio bobo.
Incapaz de deixar escapar até mesmo a menor dor. Afinal, homem não chora. E assim as situações da vida iam fazendo o menino engolir sentimentos que se afogavam naquele profundo mar que carregava dentro de si. Um dia a irmãzinha chegou chorando. O que foi, maninha? A vovó se foi. Ela chorava muito, chorava, esvaziava a tristeza e depois de algum tempo ainda dizia: Ai, como alivia! Parecia que ela nem queria aprender a engolir o choro.
Deixava a dor entrar, depois deixava a dor sair e seguia sendo uma menina feliz. Às vezes um simples pé de mesa pode parecer muito malvado, mas também pode ensinar lições valiosas. Foi depois de bater o dedinho do pé que o menino finalmente chorou. Chorou pela dor do dedo, mas chorou também Por todas as outras dores que tinha guardado durante tanto tempo, reprimidas por anos de silêncio e de choro engolido. Mais tarde, já crescido, o menino compreendeu tudo o que aquela experiência lhe ensinou.
E sempre que tem oportunidade, faz questão de dividir esse aprendizado com quem precisa ouvi-lo. Ele olha para o pai e diz: "Pode chorar, pai, vai te fazer bem." Mm, que sono! Vamos dormir? Boa noite!