RECONHECER-SE CAPAZ com Joyce Menasce
Há pessoas que passam pela nossa vida tentando ensinar alguma coisa. E há aquelas que, de alguma maneira, mudam nossa relação com aprender.
Joyce Menasce — a Jó — pertence ao segundo grupo.
Antes desta conversa, pedi a alguns de seus ex-alunos e familiares que me contassem um pouco sobre a experiência de terem passado por sua casa. As palavras que apareceram foram curiosamente parecidas: mágica, milagre, carinho, disciplina, cuidado, transformação.
E havia uma imagem recorrente: uma mesa cercada de crianças e jovens de diferentes idades, escolas e séries, cada um estudando uma matéria diferente, enquanto Joyce circulava entre matemática, literatura, biologia, filosofia, angústias, provas, inseguranças — e, claro, alguma coisa gostosa para comer.
“Que mágica é essa?”, perguntei.
A resposta talvez seja muito mais simples — e mais profunda — do que qualquer método pedagógico.
Para Joyce, antes do conteúdo vem a pessoa. Antes de perguntar o que o aluno não sabe, é preciso entender o que está acontecendo com ele. Escutar. Descobrir onde surgiu a dificuldade, como ele se relaciona com a escola, com os professores, com os colegas e até onde se senta na sala de aula. O conteúdo, ela diz, vem depois.
E cada pessoa tem seu próprio tempo.
“Um 7 pode valer mais do que um 10”, diz Joyce. Porque educação não deveria ser uma competição baseada em uma régua única. “O foco não sou eu. O foco é você, é o seu tempo.”
Conversamos também sobre um desafio cada vez mais presente: nossa dependência das telas, da busca instantânea, do copiar e colar e, agora, da inteligência artificial. Joyce não rejeita o mundo digital. Mas insiste que ele seja ferramenta, e não substituto da capacidade de pensar. Seus alunos podem pesquisar, mas precisam reescrever com suas próprias palavras e depois explicar o que compreenderam.
Talvez aí esteja uma das provocações mais atuais desta conversa: quanto mais máquinas capazes de pensar, escrever e responder colocamos ao nosso redor, mais importante se torna preservar nossa própria capacidade de pensar, escrever, perguntar, compreender e criar.
Mas há ainda outra característica da Joyce que sempre me chamou atenção.
Ela acolhe — e coloca bordas.
Tem carinho, comida, conversa, histórias e afeto. Mas também tem disciplina, responsabilidade e um “não” quando o não precisa existir. Joyce não vê essas coisas como contraditórias. Pelo contrário: a borda também pode ser uma demonstração de amor.
Talvez por isso tantos alunos continuem ligados a ela décadas depois.
Minhas filhas passaram pela casa da Joyce. Hoje, muitos anos depois, consigo reconhecer nelas coisas que também foram cultivadas ali. E agora, prestes a me tornar avô, percebo algo ainda mais bonito: aquilo que alguém deposita na vida de outra pessoa pode atravessar gerações.
No final da conversa, Joyce resumiu seu jeito de ver a educação — e talvez a própria vida — em três palavras:
“Colaborar, compartilha. Não competir.”
Talvez a tal “mágica da Jó” esteja justamente aí. Não em tentar ensinar alguém a tirar 10. Mas em criar um lugar no qual uma pessoa possa descobrir que é capaz.
— MAU & GePeTo
NOSSO DIÁLOGO ANTERIOR EM NOV'2012
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