A VIDA SEM CRACHÁ com Bianca Mosquera
Conheço a Bianca Mosquera há cerca de dez anos. Quando nos encontramos, ela estava na casa dos vinte e poucos anos, construindo uma carreira em Recursos Humanos e começando a se perguntar sobre o lugar que queria ocupar no mundo.
A vida andou bastante desde então.
Depois de 18 anos de carreira corporativa — oito na Mondelez e dez na Danone —, passando por diferentes funções, países e experiências, Bianca vive hoje em Amsterdã, é mãe da pequena Olivia e está justamente no meio de uma nova pergunta:
“Quem sou eu quando tiro o crachá?”
Essa talvez seja a questão que atravessa todo este diálogo.
A maternidade mexeu profundamente com suas prioridades, sua identidade e sua relação com o trabalho. Ao mesmo tempo, depois de tantos anos associada a grandes organizações e ao RH, Bianca começa a experimentar outros lugares: constrói sua marca pessoal, cria um podcast, estuda Inteligência Artificial, conversa sobre dinheiro com mulheres, interessa-se por processos de mudança e transformação nas organizações e, principalmente, permite-se ainda não saber exatamente onde tudo isso vai dar.
Vivemos uma época em que parece obrigatório ter respostas, posicionamento, especialidade e uma bio capaz de explicar em uma frase quem somos. Bianca está fazendo quase o movimento contrário: depois de uma longa trajetória profissional, começa a abrir espaço para descobrir o que existe para além da identidade construída pelo trabalho.
Falamos também sobre morar fora do Brasil, criar uma filha entre diferentes culturas e línguas, a falta de uma rede familiar por perto, dinheiro e autonomia, a relação dos europeus com o trabalho e o desafio de construir uma vida em que a carreira seja parte de quem somos — e não tudo o que somos.
Em determinado momento da conversa, voltamos à velha garagem da Vila Madalena, onde nos conhecemos. Bianca lembrou daquele espaço como um lugar onde pessoas de mundos diferentes se encontravam simplesmente para conversar, refletir e provocar umas às outras. Curiosamente, é algo parecido com o que ela própria começa a criar hoje em Amsterdã.
Talvez seja isso que mais interessa nesta conversa: acompanhar alguém durante a travessia, e não depois que tudo já virou uma história bem organizada.
Porque Bianca ainda está experimentando.
E talvez algumas das coisas mais interessantes que temos para oferecer aos outros não sejam nossas certezas, mas as perguntas que conquistamos o direito de fazer depois de realmente viver.
No final, chegamos a algo muito próximo daquilo em que acredito: escutamos a experiência dos outros não para copiá-la, mas para voltar à nossa própria vida com novas perguntas. Escutar, experimentar, perceber o que serve, abandonar o que não serve — e experimentar novamente.
Uma conversa sobre carreira, maternidade, identidade, dinheiro, inteligência artificial e mudança.
Mas, além disso, sobre a coragem de tirar o crachá e pergunta-se sobre si mesma.
— MAU & GePeTo
Instagram e LinkedIn da Bianca.
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