EP. 07 — A periferia reprograma a tecnologia: WhatsApp, pirataria e contracultura digital
O cyberpunk imaginou megacorporações controlando tudo, mas também mostrou outra coisa: pessoas comuns hackeando a função original da tecnologia.
Neste episódio, discutimos como a periferia brasileira transformou ferramentas corporativas em redes alternativas de comunicação, cultura e sobrevivência. Do impacto do WhatsApp contra o monopólio das teles até a circulação paralela de música, vídeos e inteligência artificial, exploramos como populações periféricas remodelam tecnologias fora dos planos do Vale do Silício.
Porque enquanto as empresas pensam produtos, a precariedade obriga as pessoas a reinventarem funções.
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- Periferia reprogramando tecnologiaContracultura digital e resistência tecnológica · Reaproveitamento de tecnologia e circuitos improvisados · Transformação de ferramentas corporativas em redes alternativas · Inovação periférica invisível para grandes plataformas
- WhatsApp vs SMSMonopólio das telecomunicações e cobrança abusiva de SMS · Surgimento do WhatsApp como alternativa · Prejuízos das operadoras com a popularização do WhatsApp · Popularidade do WhatsApp no Brasil e Índia
- Comportamento do Consumidor e TecnologiaCrítica ao futurismo como braço do capitalismo tecnológico · Tecnologia moldada pela escassez e precariedade · Exemplos de IAs desenvolvidas na Índia para línguas locais · Distribuição marginal de cultura fora dos grandes streamings
- Importância geopolítica de inteligência artificialAcesso a IAs gratuitas e alternativas · IAs chinesas como alternativas mais baratas · Uso básico de IA pela maioria das pessoas
A tecnologia prometeu te libertar, mas entregou ansiedade digital, monopólio cultural e econômico. E esse podcast é a chave que decodifica a imaginação por trás das máquinas e abre caminhos para novas visões de futuro. Você tem a chave, é hora de quebrar esse algoritmo.
A gente sempre fala de distopias como essas megas corporações que ocupam tudo e criam uma classe oprimida e usa tecnologia para hierarquizar as pessoas. Só que, ocasionalmente, a gente esquece o outro lado que existe em distopias e de ficção como Cyberpunk, que é o que acontece embaixo das grandes empresas. As pessoas reaproveitando tecnologia velha.
as redes clandestinas, os circuitos improvisados, as soluções que nunca estão no plano original das empresas de tecnologia. Porque as distopias, como o Cyberpunk, imaginam megacorporações controlando tudo sim, mas também mostra a contracultura, a resistência. Uma população transformando qualquer ferramenta em alguma outra coisa.
E talvez o Brasil tenha alguns exemplos disso, de que a periferia não é totalmente apática, não é totalmente passiva de ser controlada por uma grande corporação. Esse jogo também significa que as pessoas periféricas estão tentando utilizar a tecnologia de alguma maneira e, às vezes, criando dinâmicas que sobrepõem as dinâmicas das grandes corporações.
A grande pergunta é o que acontece quando a periferia começa a reprogramar a função original da própria tecnologia? A gente tem vários exemplos sobre isso, não temos? Mas eu quero contar um que é muito emblemático. Se você já passou dos 30 anos de idade... ...
ou talvez menos, não sei, eu perdi as contas, né, porque eu estou chegando nos 40. Você lembra que entre 2000 e 2015, por aí, o Brasil passava por um grande monopólio ali.
de empresas de telecomunicações, né? Então tinha algumas operadoras de telefonia celular e elas cobravam por tudo, por minuto que você utilizava, por distância que você utilizava e por SMS para mandar uma mensagem de texto, uma mensagenzinha simples, assim, que não tinha imagem, não tinha nada, né? Porque eu acho que a maior parte dos celulares nem tinha tecnologia para mandar vídeos, imagens e todo tipo de coisa. Então vai dar esse celular, essas mensagenzinhas simples.
você tinha que pagar. A gente ia comprar pacote de 30, 50 ou 100 mensagens no mês. Porque imagina, 100 mensagens no mês, sendo que cada uma delas tinha menos caracteres que um tweet, né? Para quem não se lembra, o Twitter, ele nasceu com 120 caracteres, exatamente porque eram mais ou menos caracteres que você mandava numa mensagem de texto como SMS.
E eu lembro que nessa época, às vezes esse pacote se eu precisasse, se eu estivesse passando por alguma situação de emergência, ou mesmo quisesse trocar uma ideia, bater papo com alguma pessoa mais íntima, esse pacote acabava no mesmo dia. E as empresas faturavam muito com isso.
Para vocês terem uma ideia, a previsão entre 2007 e 2008 de faturamento com SMS passava de 60 bilhões de dólares. Era uma indústria muito, muito, muito rentável para essas empresas. E, obviamente, aqui no Brasil elas tinham um lobby muito grande. A Natal não estava nem aí para nada uma dessas coisas. Era extremamente abusivo. E a população simplesmente estava à mercê desse tipo de...
de controle, desse tipo de controle de informação, efetivamente. Até que a internet foi se tornando mais presente na vida das pessoas, então ao invés de comprar pacote de SMS, a gente comprava pacote de internet, de dados, para poder acessar, assistir vídeo e tudo mais. Eis então que surge um programinha, um aplicativo que revolucionou toda a comunicação, chamado WhatsApp.
Ele foi lançado ali em 2009 mesmo e se tornou uma alternativa a essa cobrança abusiva de SMS. Eu lembro que em 2015 as empresas começaram a querer processar o WhatsApp. Essas empresas que faturavam bilhões com SMS simplesmente estavam tendo prejuízos homéricos, prejuízos impensáveis, inimagináveis, porque simplesmente as pessoas começaram a utilizar o WhatsApp para mandar mensagens.
as pessoas mais pobres, ninguém mais queria comprar pacote de dados, não fazia sentido comprar pacote de dados, era mais legal você chegar, por exemplo, no seu trabalho e acessar a internet, a rede do seu trabalho, ou comprar um pacote de internet, acessar a rede da sua escola, da sua casa, de algum lugar que estivesse, acho que na época das escolas nem tinham tanto acesso a...
a tecnologia que eu me lembro, assim, na minha cidade, no interior de São Paulo. Eu sei que simplesmente era muito mais fácil você mandar mensagem WhatsApp, e assim, as empresas tiveram prejuízos exorbitantes. Olha só, se o Brasil tivesse o pensamento que criou o Pix naquela época, hoje nós não estávamos na mão da meta, né, que domina os principais programas de mensagem no mundo. Mas se naquela época o Brasil tivesse pensado...
Ao invés de se dobrar aos lobbies dessas operadoras que começaram a pressionar a Anatel, começaram a tentar criar alternativas, até mesmo começaram a cobrar a utilização do WhatsApp, tiveram todas as estratégias para cobrar, enquanto a própria comunidade fala não, não quero mais utilizar esse programa que paga, vou utilizar uma forma alternativa de mandar mensagem.
Tanto que até hoje, para quem não sabe, nos Estados Unidos, que é o país que originou o WhatsApp, ele não é tão popular, ele é muito popular aqui no Brasil e na Índia, que são os países mais emergentes que as pessoas utilizaram formas alternativas de mandar mensagem. Lá nos Estados Unidos, a SMS, se eu não me engano, já era gratuito e até hoje...
é muito utilizado por pessoas, tanto que o Messenger do Google mesmo, que reconfigura essa forma de mandar SMS, hoje é um programa muito mais elaborado, ele é quase um WhatsApp, ele não pega no Brasil e a população se acostumou com o WhatsApp e a gente voltou nesse ciclo, nesse comportamento que nasce da comunidade, nasce da periferia das pessoas que, ah, não quero utilizar essa alternativa paga, privada, vou utilizar o WhatsApp.
ela foi comprada pela meta, esse mega monopólio das empresas dos Estados Unidos. Mas isso significa que, às vezes, o comportamento contracultural da periferia, ele também reconfigura a tecnologia. E, assim, eu acho que eu vou fazer vários episódios falando sobre isso, porque isso se manifesta na música, na arte, na televisão, sempre tem uma alternativa.
as grandes corporações, principalmente quando a gente vem no sul global, onde as tecnologias são lançadas para serem consumidas em dólar e a gente, nem todo mundo aqui vai ficar comprando, pagando. Por exemplo, inteligência artificial. O Brasil inteiro não está pagando os planos mensais para utilizar o chat, EPT, essas coisas.
buscando alternativas gratuitas e por isso que fora dos principais radares existem outras alternativas acontecendo como as próprias IAs chinesas que são mais baratas, o Qen o DeepSeek que é gratuito na verdade, você tem um resultado razoável com eles, até porque a utilização da maior parte das pessoas
Não é essa a utilização mais elaborada. A galera está fazendo uma besteirinha ou outra com inteligência artificial ou uma ou outra pessoa que tenta construir uma coisa mais elaborada com ela. O fato é que existe uma arrogância histórica nas empresas de tecnologia. A ideia de que a inovação sempre desce verticalmente, como se alguém no escritório lá da Califórnia inventasse o futuro e o resto do planeta...
apenas aprendesse a consumir. Por isso que, para mim, na minha percepção, a maior parte do que a galera chama de futurismo, inovação, é um braço do capitalismo tecnológico. É só o estudo de hábitos de consumo dentro da ótica capitalista de consumo, de criação de tecnologia vertical que vem de cima.
A gente tem que olhar para a experiência de consumo de tecnologia, que vem de baixo também, que é uma experiência que vai trabalhar com a escassez, que vai remodelar a utilização dos aplicativos, que vai utilizar coisas obsoletas e construir coisas novas, e construir coisas que ainda não estão pensando, ainda não são pensadas no radar.
dessas grandes empresas. E se o Brasil, se os países emergentes tivessem, eu acho que a Índia tem o pensamento de olhar muito para o que é construído na própria comunidade. Por exemplo, hoje em dia existem algumas IA sendo construídas dentro da Índia para corresponder e para representar os 22, não sei se é dialeto, línguas ou formas diferentes de falar o índio, que é a língua indiana e tal.
variações dessa linguagem estão sendo trazidas de dentro da comunidade. Então acho que o Brasil pode olhar pra dentro da nossa experiência, assim como foi o consumo do WhatsApp, pra remodelar a forma que a gente tá utilizando a tecnologia. Porque sim, ela não, ela nem sempre é utilizada da maneira que é feita no radar.
Não é só porque o YouTube é o maior canal de distribuição de vídeos do mundo, e no Brasil ele chega a 140 milhões e tal, o que significa de usuários, o que não significa que são 140 milhões de CPFs, de pessoas, de indivíduos, o que não significa que existem outras maneiras de fazer os vídeos circularem. A gente vai falar disso no próximo episódio, porque a gente tem toda uma...
Uma distribuição marginal de cultura. Falando de música e de vídeos. Que não parte da experiência dos grandes streamings. A purataria está aí exatamente. Porque mostra que a gente tem. Uma outra forma de consumir isso. Eu vou deixar aqui o convite para vocês. Acompanharem essa conversa lá no nosso canal do WhatsApp. Entre na Periferia do Futuro. O link está na descrição. Porque lá a gente estica a conversa. Que eu comecei aqui no podcast.
Tem mais alguns áudios que eu vou mandar lá com algumas outras informações sobre esse episódio. Tem texto, tem imagem, tem uma programação semanal toda para a gente continuar o debate. É para eu escutar vocês também e deixem os comentários aqui, que os melhores comentários vão ser fixados lá no canal também, para que a galera saiba do que vocês estão pensando em relação a esse assunto.
Talvez a parte mais importante de tudo isso é que a periferia não está apenas consumindo tecnologia, ela está alterando o comportamento dela. O vale do silício pensa produto, mas quem vive na precariedade pensa função. A empresa lança uma ferramenta com finalidade específica, a população vai lá e redefine.
essa finalidade completamente. As grandes plataformas dependem da capacidade de prever comportamento humano. Existe uma ameaça silenciosa em populações que constantemente reinventam o uso das ferramentas fora do padrão esperado por conta disso. Talvez tanta inovação periférica possa parecer invisível durante anos.
Exatamente porque não estão sendo mensuradas nesses radares dessas grandes plataformas e nesses grandes estudiosos que só ficam olhando verticalmente para a tecnologia a partir da dinâmica consumista do Vale do Silício.
Dá para mapear completamente o áudio que circula offline, não dá para calcular perfeitamente o alcance simbólico de um remix espalhado pelo WhatsApp, não dá para rastrear integralmente as redes de compartilhamento construídas em comunidades locais e talvez exista uma forma de autonomia escondida nessa capacidade.
A pergunta que eu comecei esse programa, então, muda de tamanho. O futuro da tecnologia não depende apenas de quem cria plataformas. Talvez dependa também de quem consegue distorcer essas plataformas e até servirem a outras realidades. No fim das contas, a periferia brasileira nunca tenha esperado uma autorização para participar da tecnologia. Ela simplesmente entra e faz do jeito dela.
Mesmo assim, é importante a gente estar de olho, porque o futuro não é neutro. E nesse podcast, a gente está contando quem está fazendo parte dele e quem está sendo deixado de fora. Não deixe de acompanhar. Toda semana tem episódio inédito aqui no Prompt Não Autorizado. Até mais.