Oscar Wilde - O Filho da Estrela (conto de fadas)
O conto de fadas "O filho da estrela” ou "O Menino-Estrela”, originalmente em inglês: The Star-Child, de Oscar Wilde (1854-1900), foi publicado pela primeira vez em 1891 e é uma história de formação. Isso significa que vamos seguir o aparecimento de o filho da estrela desde bebê, em todo o seu crescimento, até o fim de sua vida. Após uma estrela cadente, o menino é encontrado no meio da floresta por dois lenhadores, criado pela família de um deles. O conto inicia com toques de fábula, com os animais reclamando do frio e da neve, inclusive, dizendo que “a culpa é do governo”. Reside aí uma das críticas sociais de Wilde, somado à da pobreza - material e de espírito, pois mesmo com o filho da estrela crescendo junto ao filho do lenhador, recebendo acolhimento, alimento e carinho, ele se tornou mal. “A beleza fez dele perverso”. O bebê portava um colar de âmbar e um manto com tecido de ouro, este remete à nobreza e riqueza, àquele, traz proteção e considerada uma "pedra da sorte" que afasta energias negativas e atrai prosperidade. Quem se apresenta como sendo sua mãe, em meados da narrativa, é uma mendiga. O menino é soberbo e cruel com ela e por isso, acometido por uma maldição e perde toda a sua formosura; irá vagar por três anos pelo mundo em busca de sua progenitora. Boa leitura!
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- O Filho da EstrelaApresentação do conto de Oscar Wilde · Crítica social e pobreza · A beleza como fonte de perversidade · A busca pela mãe e redenção · Simbolismo do âmbar e do ouro · A maldição e a transformação do protagonista · A lebre como símbolo de renascimento · O leproso e a repetição de ações · A descoberta da verdadeira identidade dos pais · O governo do Filho da Estrela e seu legado
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De Oscar Wilde. Tradução, Luciana Salgado. Para a senhorita Margot Tennant. Uma vez, dois pobres lenhadores estavam caminhando para casa através de uma grande floresta de pinheiros. Era inverno e uma noite de frio cortante. A neve estendia-se espessa sobre o solo e sobre os galhos das árvores.
A geada fazia os raminhos estalarem por todos os lados enquanto eles passavam. E ao chegarem à corrente da montanha, ela estava suspensa no ar, imóvel, pois o rei do gelo a havia beijado. Fazia tanto frio que mesmo os animais e os pássaros quietude tomar.
Urgh! rosnou o lobo, enquanto mancava pelos arbustos com o rabo entre as pernas. Este tempo está perfeitamente monstruoso. Por que o governo não olha para isso? Wet, wet, wet! gorjearam os pintarroxos verdes. A velha terra está morta e eles a deitaram sobre uma mortalha branca.
A terra vai se casar e esse é seu vestido nupcial, sussurraram as rolinhas entre si. Seus pezinhos rosados estavam completamente enregelados, mas acharam que era dever delas extrair uma visão romântica da situação. Desatino, rosnou o lobo. Eu disse a vocês que é tudo culpa do governo, e se não me acreditarem, comerei vocês.
O lobo tinha um pensamento absolutamente prático e nunca lhe faltava um com o argumento. Bem, de minha parte, disse o pica-pau, um filósofo nato. Não dou a mínima para uma teoria atômica de explicações. Se uma coisa é assim, assim é. E no presente momento está terrivelmente frio.
Terrivelmente frio com certeza estava. Os pequenos esquilos que vivem dentro da árvore de abeto ficavam um esfregando o nariz no nariz do outro para manterem-se aquecidos.
Os coelhos enrolavam-se em suas tocas e não arriscavam sequer olhar para fora da porta. As únicas que pareciam aproveitar eram as grandes corujas de chifres. Suas penas estavam completamente duras com a geada, mas elas não se importavam. E girando os enormes olhos amarelos, chamavam umas às outras através da floresta. Tui, tu, tui, tui. Que frio delicioso está fazendo!
Os linhadores continuaram avançando, soprando vigorosamente sobre os dedos, pisando os torrões de areia com as enormes botas com ferro nas solas. Por uma vez, eles mergulharam numa violenta nevada e emergiram tão brancos como ficam os moedores de trigo quando as pedras estão moendo.
E por uma vez deslizaram sobre o gelo duro e liso, onde a água do pântano havia congelado. Os feixes caíram dos fardos e eles tiveram que recolhê-los e amarrá-los juntos novamente. Doutra feita, pensaram haver perdido o caminho e grande terror apoderou-se deles, pois sabiam que a neve é cruel com aqueles que dormem em seus braços.
Mas eles confiaram no bom São Martim, que zela por todos os viajantes, e reorientaram seus passos e seguiram cautelosamente. Por fim, alcançaram a entrada da floresta e viram ao longe, no vale abaixo dele, as luzes do vilarejo em que moravam. Ficaram tão exultantes por terem se livrado, que riram alto, e a terra apareceu-lhes como uma flor de prata e a lua como uma flor de ouro.
Porém, depois de rirem, eles ficaram tristes, pois se lembraram da sua pobreza, e um disse ao outro, Por que nos alegramos sabendo que isso é para os ricos e não para aqueles como nós? Seria melhor se tivéssemos morrido de frio na floresta, ou que alguma fera selvagem tivesse caído sobre nós e nos matado.
Verdade, respondeu o companheiro. Muito é dado a alguns e pouco é dado a outros. A injustiça parcelou o mundo e não existe divisão absolutamente igual, exceto a da tristeza. Mas enquanto eles lamentavam a miséria um com o outro, aconteceu uma coisa estranha.
Do céu caiu uma estrela muito brilhante e bonita. Ela deslizou do céu, oblíqua, passando pelas outras estrelas em seu curso, e enquanto eles olhavam admirados, pareceu-lhes que ela mergulhava atrás de um grupo de salgueiros que se erguiam junto a um pequeno aprisco, a não mais que um arremesso de distância.
Ora, existe um pote de ouro para quem quer que eu encontre. Eles exclamaram e puseram-se a correr, tão ansiosos estavam pelo ouro. E um deles correu mais rápido que o companheiro, deixando-o para trás. Ele forçou passagem através do salgueiro, saindo pelo outro lado. E veja, existia mesmo uma coisa dourada repousando na neve.
Então, ele acelerou em direção àquilo, inclinou-se e tocou-o. Era um manto de tecido de ouro, feito cuidadosamente com estrelas e coberto com muitas pregas. Ele gritou para o companheiro, dizendo haver encontrado o tesouro caído do céu. E quando o companheiro chegou, sentaram-se na neve e soltaram as pregas do manto para poderem repartir as peças de ouro. Mas veja!
Não havia ouro algum, nem prata, na verdade. Não havia nenhum tipo de tesouro. Apenas uma criancinha adormecida. Um disse ao outro, Este é um fim amargo para nossas esperanças. Não temos nem um pouco de sorte? Pois de que serve uma criança a um homem? Vamos deixá-la aqui e seguir nosso caminho, visto que somos homens pobres e temos nossas próprias crianças de quem não devemos tirar o pão para dar a outra.
Mas o companheiro respondeu, não, é perverso deixar a criança para perecer aqui na neve, mesmo eu sendo tão pobre quanto tu e ter bocas para alimentar, apesar de haver muito pouco na panela, ainda assim a levarei comigo para casa. A minha esposa cuidará dela. Assim, pegou a criança afetuosamente, envolveu o manto ao redor para protegê-la do frio cortante e tomou o caminho colina abaixo para o vilarejo.
O companheiro estava muito admirado com a tolice e a docilidade de seu coração. E quando chegaram ao vilarejo, o companheiro disse-lhe, Tu tens a criança, portanto dê-me o manto, pois nós o encontramos e devemos dividi-lo. Mas ele respondeu, Não, porque o manto não é nem meu nem teu, é da criança apenas. Desejou-lhe boa sorte, foi para casa e bateu.
Quando sua esposa abriu a porta e viu que o marido havia retornado a salvo, pôs os braços ao redor do pescoço dele e beijou-o. Tirou das costas dele o fardo de feixes, escovou a neve das botas e mandou que entrasse. Mas ele disse a ela, Encontrei algo na floresta e trouxe-lhe para que tu cuides dele. E não se moveu do limiar da porta.
O que é? Ela exclamou. Mostre-me, pois a casa está vazia e nós temos necessidade de muitas coisas. Ele puxou o manto e mostrou-lhe a criança adormecida. Por Deus, bom homem! Ela murmurou. Não temos nossos próprios filhos para que tu necessites trazer-nos uma criança trocada para sentar-se junto à lareira? E quem sabe, se ela não nos trará má sorte e comeremos sustentá-la?
Estava furiosa com ele. Não, esta é o filho da estrela. Ele respondeu e contou-lhe a estranha maneira como a encontraram. Mas ela não ficou satisfeita. Zombou dele e disse com raiva. Nossos filhos carecem de pão e devemos alimentar a criança de outro. Quem cuidará de nós? Quem nos dará comida?
Não, Deus cuida até dos pardais e os alimenta, ele respondeu. Os pardais não morrem de fome no inverno? Perguntou. E não é inverno agora? O homem não respondeu nada e não se moveu do limiar da porta. Um vento cortante entrou pela porta vindo da floresta e fez a mulher estremecer com um calafrio, disse a ele. Não vais fechar a porta? Está entrando um vento cortante na casa e eu estou com frio.
Em uma casa em que o coração está empedernido, não entra sempre um vento cortante? Perguntou. A mulher não respondeu, apenas arrastou-se para perto do fogo.
Depois de um tempo, ela se voltou e olhou-o com os olhos repletos de lágrimas. Ele entrou rapidamente e colocou a criança nos braços dela. Ela a beijou, deitou-a na caminha em que seu filho mais novo dormia. Pela manhã, o lenhador pegou o curioso manto de ouro e guardou-o em uma arca grande. A corrente de âmbar que estava ao redor do pescoço da criança, a esposa tirou e pôs na arca também.
Assim, o filho da estrela cresceu junto com os filhos do lenhador. Sentou-se à mesma mesa com eles e foi seu companheiro de brincadeiras. A cada ano ele se tornava mais belo de se ver, e todos os que viviam no vilarejo encheram-se de espanto, pois enquanto eram todos morenos de cabelos negros, ele era branco e delicado como uma placa de mármore, e seus cachos eram como anéis de narciso.
Os lábios eram como pétalas de flores vermelhas, os olhos como violetas em um rio de água pura. E seu corpo era como Narciso em um campo em que nenhum carpineiro havia entrado.
Contudo, a beleza fez dele perverso. Ele cresceu orgulhoso, cruel e egoísta. Aos filhos do lenhador e às outras crianças do vilarejo, ele menosprezava, dizendo serem de ascendência inferior, enquanto ele era nobre, enviado das estrelas, e fez-se líder deles, a quem chamava de servos.
Não tinha nenhuma piedade dos pobres ou dos cegos, mutilados ou aflitos de alguma forma. Ao contrário, atirava-lhes pedras e os punha para fora, na estrada, mandando que esmolassem o pão em outra parte, de modo que apenas os proscritos voltavam ao vilarejo para mendigar.
Na verdade, ele era apaixonado pela beleza e zombava dos fracos e dos feios, ridicularizando-os. A si mesmo ele amava e, no verão, quando os ventos sossegavam, deitava-se ao lado da nascente no pomar do clérigo e admirava sua maravilhosa face, rindo com o prazer que lhe dava a própria formosura. Com frequência, o lenhador e a esposa o repreendiam, dizendo
Nós não o tratamos como tu tratas as pessoas que foram abandonadas e não tem ninguém para socorrê-las. Por que és tão cruel com aqueles que necessitam de piedade?
Com frequência, o velho padre mandava buscá-lo e procurava ensinar o amor pelos seres vivos, dizendo-lhe, As moscas são tuas irmãs, não lhes cause dano. Os pássaros silvestres que passeiam pela floresta têm a própria liberdade. Não os aprisione para teu prazer. Deus fez a cobra de vidro e a toupeira, e cada um tem seu lugar. Quem és para trazeres dor ao mundo de Deus? Até o gado dos campos louvam a ele.
Mas o filho da estrela não prestava atenção às palavras dele, apenas fazia uma carranca e zombava, voltando para os companheiros a quem liderava. Os companheiros o seguiam, pois ele era belo, tinha pés rápidos, sabia dançar, tocar flauta e compor músicas. E para onde quer que o filho da estrela os guiasse, eles seguiam. E o que quer que o filho da estrela ordenasse que fizessem, eles faziam.
Quando ele perfurou com uma vara pontiaguda os olhos escuros da toupeira, eles riram. E quando atirou pedras no leproso, riram também. E todas as coisas ele os comandava, e ficaram com o coração empedernido, como o dele. E eis que um dia passou pelo vilarejo uma pobre mendiga.
Seus trajes estavam puídos e esfarrapados. Os pés sangravam devido à estrada dura pela qual ela viajara e encontrava-se em péssimas condições. Fatigada, sentou-se sob um castanheiro para descansar. Porém, o filho da estrela a viu e disse aos companheiros, Vejam, lá está aquela mendiga imunda sentada sob a árvore bela e viçosa. Venham, vamos tirá-la daqui, pois é feia e repulsiva.
Então eles se aproximaram e atiraram-lhe pedras, zombando. Ela o mirou aterrorizada, mas manteve os olhos fixos nele. Quando o lenhador, que estava rachando lenha em uma clareira próxima, viu o que o filho da estrela estava fazendo, correu e repreendeu, dizendo-lhe, Certamente tu és duro de coração e não conhece misericórdia, pois que mal esta pobre mulher fez a ti para que a trates dessa maneira?
O filho da estrela ficou vermelho de raiva, bateu o pé no chão e disse, Quem és para que questiones o que faço? Não sou teu filho para obedecer as tuas ordens. Falas a verdade, respondeu o lenhador. Ainda assim demonstrei misericórdia ao encontrá-lo na floresta.
Quando a mulher ouviu essas palavras, deu um grito alto e caiu no chão desmaiada. O lenhador a carregou até sua casa e a esposa cuidou dela. Ao recobrar-se do desmaio que havia cometido, eles puseram comida e bebida diante dela, oferecendo-lhe conforto. Contudo, ela não comeu nem bebeu, apenas falou o lenhador. Tu dissestes que aquela criança tinha sido encontrada na floresta? Isso não foi há dez anos atrás?
O lenhador respondeu, sim, foi na floresta que eu a encontrei. Isso foi há dez anos atrás. E quais sinais tu encontrastes com ele? Clamou. Não trazia uma corrente de âmbar no pescoço? Não estava envolta em um manto de tecido de ouro bordado com estrelas?
— Verdade — respondeu o lenhador. — Aconteceu exatamente como tu dizes. E ele retirou o manto e a corrente de âmbar da arca em que repousavam e mostrou-os a ela. Ao vê-los, ela chorou de contentamento e disse — Ele é meu filhinho que perdi na floresta. — Rogo-te que mandes buscá-lo imediatamente, pois a sua procura tem vagado pelo mundo todo.
Então o lenhador e sua esposa saíram, chamaram pelo filho da estrela e disseram-lhe, Entra na casa e lá encontrarás tua mãe que espera por ti. Ele correu para dentro cheio de espanto e alegria, mas quando viu quem esperava lá, riu com desprezo, dizendo,
Cadê? Onde está minha mãe? Pois não vejo ninguém aqui além desta vil mendiga. A mulher respondeu. Eu sou tua mãe. Estás louca por dizeres isso? Gritou com raiva o filho da estrela. Não sou teu filho, pois és uma mendiga feia e esfarrapada. Portanto, saia daqui e não me deixes nunca mais ver tua face imunda.
— Não! Tu és de verdade, meu filhinho, o que perdi na floresta! — exclamou, caindo de joelhos. Envolveu-o com os braços. — Ladrões roubaram-te de mim e depois te abandonaram para que morresses! — murmurou.
Mas eu te reconheci assim que vi, e também aos sinais eu reconheci, o manto tecido de ouro e a corrente de âmbar. Portanto, rogo-te que me acompanhes, pois pelo mundo inteiro tenho procurado por ti. Vem comigo, meu filho, porque preciso do teu amor. Porém, o filho da estrela não se moveu do lugar, mas bateu a porta de seu coração contra ela. Não se escutava nenhum som, exceto o de uma mulher chorando de dor.
Por fim, ele falou com ela, e sua voz era dura e amarga. — Se em verdade é sincera, és minha mãe? — disse. — Seria melhor que tivesse te mantido longe, e não vir aqui para trazer-me vergonha, visto que eu pensava ser filho de alguma estrela, e não o filho de uma mendiga, como dizes que sou. Por isso saias daqui, e não permitas que eu a veja novamente. — Ai de mim, meu filho! — lamentou-se.
Não vais me beijar antes que eu parta, pois sofri muito para encontrar-te. Não, disse o filho da estrela. Pois és muito repulsiva de se ver, e eu preferia beijar uma serpente ou um sapo em vez de ti.
Assim, a mulher ergueu-se e enveredou pela floresta, chorando amargamente. Quando o filho da estrela viu que ela já tinha ido, alegrou-se e correu de volta para seus companheiros para brincar com eles. Mas quando eles o viram chegando, zombaram dele, dizendo...
— Quê? Tu és horrendo como sapo e repugnante como a serpente. Vai embora daqui, pois não vamos permitir que brinques conosco. E o puseram para fora do jardim. O filho da estrela franziu o senho e disse a si mesmo. — O que eles estão dizendo? Irei até a nascente da água e ela dirá sobre minha beleza. Então ele foi até a nascente da água, olhou dentro dela e vejam.
Sua face era igual a de um sapo e seu corpo tinha escamas como o de uma serpente. Ele afundou-se na relva chorando e disse a si mesmo, Certamente isso recaiu sobre mim por causa de meu pecado, pois reneguei minha mãe e mandei-a embora. Fui soberbo e cruel com ela, por isso irei procurá-la por todo o mundo. Não descansarei enquanto não a encontrar. A felinha do lenhador veio até ele, pôs as mãos sobre os ombros dele e disse,
Por que te perturbas por teres perdido tua formosura? Fique conosco e nós não zombaremos de você. E ele disse a ela, Não, fui cruel com minha mãe e como punição aconteceu-me essa desgraça. Portanto, devo ir-me daqui e vagar pelo mundo até encontrá-la e ela me dar seu perdão.
Então ele correu para a floresta e gritou para que sua mãe viesse até ele, mas não obteve resposta. Durante o dia todo chamou por ela e quando o sol se pôs, deitou-se em uma cama de folhas para dormir. Os pássaros e os animais fugiam dele por lembrarem-se das crueldades e ele ficou sozinho, exceto pela presença de um sapo que o observava e de uma vagarosa serpente que rastejava mais além.
Pela manhã, ele se levantou, apanhou das árvores algumas bagas amargas e as comeu, tomando seu caminho através da grande floresta, chorando compulsivamente. A todos o que encontra, perguntava se por acaso não haviam visto a mãe dele. Disse a toupeira, Tu podes ir para debaixo da terra, diga-me, viste minha mãe por lá? E a toupeira respondeu, Tu cegaste meus olhos, como poderia saber?
Disse ao Pintarroxo, Tu podes voar sobre o topo das árvores altas e avistar o mundo todo. Diga-me, viste minha mãe? E o Pintarroxo respondeu, Tu cortaste minhas asas por diversão. Como poderia voar? E para o pequeno esquilo, que vive na árvore de abeto e estava solitário, ele disse, Onde está minha mãe? E o esquilo respondeu, Tu mataste minha mãe. Procuras a tua para matá-la também?
O filho da estrela chorou, curvou a cabeça, rezando para que o Deus de todas as coisas o perdoasse, e foi indo pela floresta procurando pela mendiga.
No terceiro dia, ele chegou ao outro lado da floresta e desceu pela planície. Ao passar pelos vilarejos, as crianças zombavam dele e atiravam-lhe pedras. Os aldeões não permitiam sequer que ele dormisse no estábulo para que não passasse doenças para o milho armazenado, de tão horrendo que era olhar para ele. Empregados puseram-no para fora e não havia ninguém que se compadecesse dele.
Em nenhum lugar pôde ouvir notícias sobre a mendiga que era sua mãe, apesar de ter vagado ao longo de três anos pelo mundo. Com frequência, tinha a impressão de vê-la na estrada à sua frente. Chamava por ela, correndo atrás, até que os pedregulhos afiados fizessem os pés sangrarem. Mas não conseguia alcançá-la, e aquele que morava à beira da estrada negava um tê-la visto, ou alguém parecido com ela, e escaneciam de seu sofrimento.
Ao longo de três anos ele vagou pelo mundo, e no mundo não havia nenhum amor, nenhuma bondade e nem caridade para com ele. Porém, foi um mundo semelhante a esse que ele fizera para si mesmo nos dias de sua grande soberba. Numa noite, ele chegou aos portões de uma cidade fortemente morada, que ficava ao lado de um rio, e fatigado com os pés feridos como estavam, tentou entrar nela.
No entanto, os soldados que estavam de guarda puseram as alabardas cruzadas em frente à entrada e disseram asperamente, O que queres nesta cidade? Procuro por minha mãe, respondeu, e rogo para que permitas que passe, pois pode ser que ela esteja nesta cidade.
Mas zombaram dele. Um dos guardas, sacudindo a barba negra, baixou o escudo e gritou. — Em verdade, tua mãe não ficará feliz quando te ver, pois és o mais horroroso que o sapo do brejo ou que a serpente que rasteja no pântano. Vai-te daqui, tua mãe não mora nesta cidade. E o outro, que segurava uma bandeira amarela nas mãos, disse a ele. — Quem é tua mãe? E por que a estás procurando? Ele respondeu.
Minha mãe é uma mendiga igual a mim, e eu a tratei perversamente. Rogo-te que me permitas passar, porque, se acaso ela estiver se demorando nessa cidade, preciso que ela me dê seu perdão. Mas eles não permitiram, e cutucaram-no com suas lanças.
Enquanto ele retornava chorando, alguém com armadura encrustada de flores de ouro e cujo elmo ostentava um leão alado, chegou e perguntou aos soldados quem era aquele que procurava entrar. E eles lhe disseram. É um mendigo, filho de uma mendiga, e nós o mandamos embora. Não! exclamou, rindo. Vamos vender essa coisa horrorosa como escravo, e seu preço deverá ser o mesmo que o de uma garrafa de vinho doce.
Um velho de aparência perversa que estava passando por ali disse alto. Eu o comprarei por esse preço. E, depois de pago o valor, tomou o filho da estrela pelas mãos e o levou para dentro da cidade.
Depois de terem passado por várias ruas, chegaram até uma portinha que estava num muro coberto por árvores de romã. O velho tocou a porta com um anel de jaspe lapidado e ela abriu. Eles desceram cinco degraus de bronze junto a um jardim repleto de papoulas negras e vasos verdes de barro queimado.
O velho tirou do turbante um lenço de seda desenhado e vendou os olhos do filho da estrela, conduzindo-o adiante. Quando o lenço foi retirado de seus olhos, o filho da estrela encontrou-se em uma masmorra iluminada por uma lanterna de chifre.
O velho pôs à sua frente um pedaço de pão embolorado em uma tábua, dizendo, Coma! E um pouco de água salobra em um copo, dizendo, Beba! Depois do menino ter comido e bebido, o velho saiu, trancando a porta atrás de si e cruzando-a com uma corrente de ferro. No dia seguinte, o velho, que era de fato o mais astuto dos feiticeiros da Líbia e tinha aprendido sua arte com uma pessoa que morava nas tumbas do Nilo, foi até ele e disse com uma carranca,
Em uma floresta próxima à cidade dos Girars, existem três moedas de ouro. Uma é de ouro branco, a segunda é de ouro amarelo e a terceira é ouro vermelho. Hoje tu deves me trazer a moeda de ouro branco e se tu não a trouxeres, darei em ti cem chicotadas.
Vai-te rapidamente, e ao pôr do sol esperarei por ti na porta do jardim. Curdes para que tragas o ouro branco, ou sofrerás dano, pois tu és meu escravo, e eu o comprei pelo preço de uma garrafa de vinho doce. O velho vendou os olhos do filho da estrela com um lenço de seda desenhado, conduziu-o pela casa através do jardim de papolas, e subiu-os cinco degraus de bronze. Tendo aberto a pequena porta com um anel, pôs o menino na rua.
O filho da estrela saiu pelo portão da cidade e foi até a floresta da qual o feiticeiro havia falado. Ora, aquela floresta era muito bonita de se ver por fora, parecendo repleta de pássaros cantantes e flores docemente perfumadas. E o filho da estrela entrou alegremente.
Contudo, a beleza trazia pouco benefício, pois por onde quer que ele fosse, espinhos e ásperas roseiras bravas saltavam do solo e o cercavam. O tigas ruins o picavam e os cardos espinhosos furavam-no como facas, causando-lhe doloroso sofrimento. Em parte alguma ele pôde encontrar a moeda de ouro branco da qual o feiticeiro havia falado, ainda que tivesse procurado por ela do amanhecer até a noite e da noite até o nascer do sol.
Ao alvorecer, ele voltou o rosto em direção de casa, chorando amargamente, pois sabia o destino reservado a ele.
Mas, ao alcançar os arredores da floresta, escutou ouvir de uma moita um grito de dor. Esquecendo sua própria tristeza, correu de volta àquele lugar e viu uma pequena lebre presa em uma armadilha, deixada ali por algum caçador. O filho da estrela sentiu pena e a libertou, dizendo-lhe, Eu mesmo não passo de um escravo, mas ainda assim eu te dou liberdade. E a lebre respondeu, dizendo,
Certamente tu me deste a liberdade, e o que devo dar-te em retribuição? O filho da estrela disse a ela, Estou procurando por uma moeda de ouro branco, mas não a encontro em parte alguma, e se eu não a levar para meu mestre, ele me baterá. Venha comigo, disse a lebre. Eu o guiarei até ela, pois sei onde está escondida e com que propósito.
Então o filho da estrela foi com a lebre e, veja, na fenda de um carvalho, ele viu a moeda de ouro que estava procurando. Ficou repleto de contentamento. Agarrou-a e disse à lebre. — O serviço que lhe prestei, tu me retornaste várias vezes, e a bondade que demonstrei para contigo, tu me devolveste cem vezes em dobro. — Não, respondeu a lebre, da maneira que tu me trataste, eu o tratei.
correndo para longe agilmente, e o filho da estrela partiu em direção à cidade.
Ora, no portão da cidade estava sentado um leproso. Sobre a face pendia um capuz de linho cinza, e pela abertura seus olhos cintilavam como carvão em brasa. Quando ele viu o filho da estrela vindo, golpeou uma tigela de madeira, retineu um sino e chamou alto por ele, dizendo Dê-me uma moeda de dinheiro, ou morrerei de fome. Eles me expulsaram da cidade, e não há ninguém que se compadeça de mim.
Ai de mim, lamentou-se o filho da estrela. Tenho apenas uma moeda de dinheiro em minha bolsa, e se eu não a levar, meu mestre, ele me baterá, pois sou seu escravo. Mas o leproso implorou, suplicou, até que o filho da estrela se compadecesse e desse a ele a moeda de ouro. Ao chegar na casa do feiticeiro, este abriu a porta, trouxe-o para dentro e disse,
Tens a moeda de ouro branco? E o filho da estrela respondeu. Não a tenho. Então o feiticeiro pulou sobre ele e o espancou. À sua frente pôs uma tábua vazia e disse. Coma. E um copo vazio dizendo. Beba. E o arremessou de volta à masmorra.
Na manhã seguinte, o feiticeiro veio até ele e disse, Se hoje não trouxeres a moeda de ouro amarelo, eu certamente te manterei como meu escravo e te darei trezentas chicotadas.
Assim, o filho da estrela foi à floresta e durante todo o dia procurou pela moeda de ouro amarelo, mas não a encontrou em parte alguma. Ao pôr do sol, ele sentou-se e começou a chorar. E enquanto chorava, a pequena lebre veio até ele, a mesma que ele havia resgatado da armadilha. Disse-lhe a lebre, — Por que está chorando? E o que procuras na floresta?
O filho da estrela respondeu, Procuro por uma moeda de ouro amarelo que está escondida por aqui, e se eu não a encontrar, meu mestre me baterá e me manterá como seu escravo. Siga-me, exclamou a lebre, e correu pela floresta até chegar a uma lagoa. No fundo da lagoa, a moeda de ouro amarelo repousava. Como posso agradecê-la, disse o filho da estrela, pois veja, esta é a segunda vez que me socorre.
Não, foste tu que te apiedaste de mim primeiro, disse a lebre e correu para longe agilmente. O filho da estrela pegou a moeda de ouro amarelo, pôs em sua bolsa e correu para a cidade. Mas o leproso viu chegando, correu ao seu encontro, ajoelhou-se no chão e lamentou. Dê-me uma moeda de ouro ou morrerei de fome. O filho da estrela disse-lhe.
Tenho em minha bolsa apenas uma moeda de ouro amarelo, e se não a levar ao meu mestre, ele me baterá e me manterá como seu escravo. Mas o leproso implorou dolorosamente. Então o filho da estrela compadeceu-se e deu-lhe a moeda de ouro amarelo. Ao chegar na casa do feiticeiro, este abriu a porta, trouxe-o para dentro e disse, Tens a moeda de ouro amarelo?
E o filho da estrela respondeu, não a tenho. Então o feiticeiro pulou sobre ele, o espancou, acorrentou-o e arremessou de volta à masmorra. Na manhã seguinte o feiticeiro veio até ele e disse, se hoje tu me trouxeres a moeda de ouro vermelho, eu o libertarei. Mas se não me trouxeres, com certeza eu o matarei.
Assim, o filho da estrela foi à floresta e durante todo o dia procurou pela moeda de ouro vermelho, mas não a encontrou em parte alguma. Ao pôr do sol, ele sentou-se e começou a chorar. Enquanto chorava, a pequena lebre veio até ele. E a lebre lhe disse.
A moeda de ouro vermelho que tu procuras está na caverna atrás de ti. Por isso não chores mais e alegra-te. Como poderei recompensá-la? exclamou o filho da estrela. Pois veja, essa é a terceira vez que me socorres. Não, foste tu que te apiedaste de mim primeiro, disse a lebre e correu para longe agilmente.
O filho da estrela entrou na caverna e no canto mais afastado encontrou a moeda de ouro vermelho. Então a colocou em sua bolsa e correu para a cidade. Ao ver que ele estava vindo, o leproso ficou em pé no meio da estrada, chamando o alto, dizendo, Dê-me uma moeda de ouro vermelho ou morrerei de fome.
E o filho da estrela compadeceu-se dele novamente e deu-lhe a moeda de ouro vermelho, dizendo, Tua necessidade é maior que a minha. Ainda assim, seu coração estava pesado, pois sabia ouvir o destino que o esperava. Mas veja, assim que passou pelos portões da cidade, os guardas se inclinaram e fizeram reverência a ele, dizendo, Como nosso senhor é belo!
Uma multidão de pessoas o seguiu, clamando alto. Certamente não existe ninguém tão belo em todo o mundo. Então o filho da estrela chorou e disse a si mesmo. Estão zombando de mim, fazendo pouco da minha desgraça.
E tão grande era a multidão de pessoas que ele perdeu a direção do caminho e por fim encontrou-se numa grande praça onde estava o palácio do rei. O portão do palácio se abriu e sacerdotes e altos oficiais da cidade correram à frente para encontrá-lo. Eles inclinaram-se diante dele, dizendo, Tu és o Senhor pelo qual temos esperado, o Filho do nosso rei.
O filho da estrela respondeu-lhes dizendo, Não sou o filho do rei, sou filho de uma pobre mendiga. E como podes dizer que sou belo, se eu sei que sou horrível de se ver? Então aquele, que tem a armadura encrustada de flores de ouro, e em cujo elmo ostentava um leão alado, ergueu o escudo e clamou, Como pode, meu senhor, dizer que não é belo? O filho da estrela olhou, e veja.
Sua face está igual ao que costumava ser. Sua formosura havia lhe retornado e ele viu em seus olhos algo que não tinha visto antes. Os sacerdotes e altos oficiais ajoelharam-se e disseram, Há muito tempo estava profetizado que neste dia viria aquele que nos governaria. Por isso, permita nosso Senhor tomar esta coroa e este cetro e ser nosso rei, na sua justiça e misericórdia.
Mas ele disse-lhes, não sou digno, pois reneguei minha mãe que me encontrou, e não devo descansar até que a encontre e receba seu perdão. Por isso, deixem-me ir, pois devo vagar novamente pelo mundo, e não posso me demorar aqui, embora me ofereçais a coroa e o cetro.
Enquanto falava, virou a face em direção à rua que conduzia ao portão da cidade. E veja! No meio da multidão que comprimiu os soldados, ele viu a mendiga que era sua mãe. E ao lado dela estava o leproso que tinha se sentado na estrada.
Um grito de alegria irrompeu de seus lábios e ele correu para eles. Ajoelhando-se, beijou as feridas dos pés de sua mãe e as molhou com suas lágrimas. Ele curvou a cabeça na poeira, soluçando como alguém cujo coração partisse e disse Mãe, eu a reneguei na hora de minha soberba. Aceita-me na hora de minha humildade. Mãe, eu te dei ódio. Tu me deste amor. Mãe, eu te rejeitei. Aceita agora teu filho.
Mas a mendiga não respondeu uma palavra. Estendeu as mãos e abraçou os pés brancos do leproso, dizendo Três vezes te dei minha misericórdia. Pede a minha mãe que fale comigo ao menos uma vez. Mas o leproso não respondeu uma palavra. Soluçou novamente e disse Mãe, meu sofrimento é maior do que posso suportar. Dê-me teu perdão e deixe-me voltar para a floresta.
A mendiga pôs a mão na cabeça dele, dizendo, Levante. E o leproso também pôs a mão na cabeça dele, dizendo, Levante. Ele pôs-se em pé, olhou para eles e, veja, eram o rei e a rainha. E a rainha disse a ele, Este é teu pai, a quem socorrestes? E o rei disse, Esta é a tua mãe, cujos pés tu lavaste com lágrimas.
Eles envolveram-lhe o pescoço e o beijaram. Trouxeram-no ao palácio e o vestiram com belos trajes. Puseram a coroa sobre sua cabeça e o cetro em sua mão. E sobre a cidade que ficava ao lado de um rio ele governou e foi-se ao Senhor. Muita justiça e misericórdia lhe demonstrou para com todos. E baniu o feiticeiro maligno.
Ao lenhador e sua esposa, ele enviou ricos presentes, e aos filhos deles concedeu altas honrarias. Não permitiu a ninguém ser cruel com os animais ou com os bichos, ao contrário, ensinou o amor, a bondade e a caridade. Aos pobres ele deu pão, e aos que estavam despidos ele deu vestimentas, e havia paz e abundância no país.
Porém, ele não governou por muito tempo. Tão grande tinha sido o seu sofrimento e tão amargo o fogo de suas provações, que depois de passados três anos, ele morreu. E aquele que o sucedeu governou com crueldade. E esse foi O Filho da Estrela, de Oscar Wilde.
E aquele que o sucedeu governou com crueldade. É claro que mesmo num conto de fadas, vindo de Oscar Wilde, sempre vai ter a crítica social. Essa questão cíclica da alma humana má vai aparecer. Ele está sempre mostrando pra gente o lado mágico, o lado bonito e ao mesmo tempo esse lado difícil da convivência com o ser humano. Os seres humanos maus.
Bom, esse texto sai em 1891. E eu entendo, entendi essa história, Lucas, como uma história de formação. O que isso significa? Que a gente vai seguir o crescimento, desde o aparecimento do Filho da Estrela como bebê, até o seu crescimento, até o fim da sua vida. É verdade. Então, é uma história de formação. Porque a gente vê essa transformação. É um arco muito bem de transformação mesmo que a gente tem nesse menino.
Começa dessa forma meio mística, primeiro com muita fábula, porque tem os animais todos conversando, reclamando do frio, avaliando o cenário, falando que a neve é como se fosse a morte de certa forma. Tem a topeira, o pinta roxa, a esquilo, a coruja e o lobo que fala que a culpa toda é do governo.
É, é igual a gente, quando chove aqui, né, a gente fala que, olha, o prefeito mandou chuva de novo. É, o nosso prefeito mandou a chuva, o nosso prefeito não sei o que, né. E tá em outra cidade, tem buraco, ó, o nosso prefeito não veio arrumar o buraco. É, muito engraçado. E lembrou o foguete notável, né, também, as falas dos animais conversando, e no foguete notável tinha até objetos, né, que conversavam.
É, é sempre dando essa vida, né? É conto de fada, né? O Wilde, ele foi muito feliz em fazer, porque a gente vê o quanto ele se dedica em detalhes pras narrativas de cenário, de local, né? Quando ele chega na cidade ali, né? Que tem o Muro de Romã e tem as escadas que descem de bronze, né? Já que você falou do Muro de Romã, eu vou puxar aqui, então, algo bem simbólico.
Tem muito símbolo nesse texto. Pode começar com esse que eu completo. Vamos começar com o das romãs. Porque o texto faz parte de uma coletânea, de uma antologia do Oscar Wilde, que é a House of Pomegranates, que é a casa das romãs.
E nessa antologia tinha quatro contos de fada. Tinha o The Young King, que é o Jovem Rei. The Birthday of the Infanta, que é o aniversário de Infanta. The Fishman and His Soul, o Pescador e Sua Alma. E esse aqui que é o The Star Child.
O Menino Estrela ou o Filho da Estrela. Isso, o Filho da Estrela. Eu prefiro até o nome O Filho da Estrela. É mais interessante pra mim. Eu achei mais místico. Mas acho que o Menino Estrela ficou mais famoso por esse nome. Mas enfim. Aí você falou das romãs, né? No muro.
E, na verdade, as romãs estão nesses quatro contos. Nesses quatro contos é falado, ter essa simbologia do romã, ele não chega a focar, né? Não é essencial para a história evoluir, mas ele vai... Aparece. É, aparece, ele vai deixando essas notas, porque a romã é muito significativa na história.
É que tem muito significado dependendo do contexto e do ponto de vista, né? Mas é que na história, a romã, ela representa a luxúria bastante e a beleza também, né? A luxúria, a beleza, essa tentação. Até...
Eu achei que seria, assim, muito próximo do que a gente fala da maçã proibida, né? O fruto proibido. Nesse caso, ela representa essa beleza e a decadência mesmo, essa procura por luxúria, né? E ela tá presente em todos os contos.
Esses quatro, que legal. Isso, vou deixar no gancho pro leitor de ouvido bem atento, nos cobrar daqui a pouco mais. Augusto dos Anjos tem algo parecido com tamarindos. Eu já peguei isso na leitura do livro dele, eu e outras poesias, e eu quero um dia produzir só os tamarindos do Augusto dos Anjos aqui no podcast. Você mencionou do local, né? Era logo antes dele entrar na masmorra lá do feiticeiro que eles encontram, né? Exato.
Então é num lugar muito específico também, que ela representa mesmo essa decadência, porque depois ali ele desce cinco degraus, né, e vai pra essa masmorra, aí fica preso. É, muito bom essa correlação. E tem a questão mística, porque ele, o menino aparece após uma estrela cadente que corta o céu, né.
E a gente tem as críticas sociais porque a gente tem muita pobreza nesse texto. Primeiro, não só dos dois lenhadores que estão preocupados em alimentar seus próprios filhos, mas tem a pobreza de espírito também. Porque mesmo com o filho da estrela crescendo junto ao filho do lenhador, recebeu acolhimento, o mesmo alimento, recebeu carinho, ele se tornou mal.
Então, a beleza fez dele perverso. Ele cresceu orgulhoso, cruel e egoísta. Tá isso no texto, né? Sim. E, mais que isso, se tornou líder de outras crianças aqui no que chamava de servos. Então, ele era, tipo, o dono da bola, né? E ele que mandava em tudo ali e meio que conjuminava que as outras crianças também fossem maldosas. Tanto é que viraram contra ele depois, quando ele perde toda a sua formosura. É, foco em beleza, né? Fala muito da feiura das pessoas, enfim.
Continuando abrindo os símbolos, então o bebê portava um colar de âmbar e um manto de tecido de ouro. Significados, então, né? O colar de âmbar, ele traz proteção, é considerado uma pedra de sorte que afasta energias negativas e atrai prosperidade. Quando o lenhador resolve acolher, pra ele, apesar de difícil, né? A gente pode imaginar que ele entendeu como uma bênção, né? Recebeu o menino na casa dele.
O âmbar, como colar, como acessório, é terapêutico e holístico. Ele é utilizado como analgésico e anti-inflamatório natural. Olha que legal, quando o corpo, em contato com o calor do corpo, ele solta o ácido sucínico, que alivia dores como de dente, de cólica, de bebê, e também equilíbrio energético ele proporciona. E para os adultos ele protege contra energias negativas, colar de âmbar. Aham, é interessante.
E daí o tecido de ouro, né? Desde a Idade Média, reis, nobres, sempre usaram como símbolo de status, riqueza e poder. Isso tudo nos leva a pensar que o menino tinha uma origem rica, né? Sim. Mas aí, quando ele tem apresentado como sendo sua mãe aquela mendiga, ele é soberbo e cruel com ela. E eu entendo que ele sofreu uma maldição.
Porque ele perde toda sua formosura e ele ficou três anos vagando em busca dessa mãe, em busca de resgatar a pessoa que ele era, né? Sim. Na verdade, é uma busca por origens o que acontece aqui, não só pra reencontrar a mãe, e aí que tem essa pegada, né, com esse momento que a gente tá, porque no final ali ele faz uma declaração muito intensa pra mãe, né, como um filho pedindo perdão de uma forma muito forte, né?
E a gente está nesse momento ali do dia das mais... Em grande parte dos países. Na Europa não, é em outra data. Mas é legal a gente falar, né? Porque muitos brasileiros escutam. Sim. E...
O feiticeiro é da Líbia, esse que escraviza o garoto. Também interessante falar isso. Mas aí tem outro símbolo. Porque ele só consegue fechar esse ciclo quando ele interage com uma lebre. E eu fui buscar no inglês original, Lucas, porque eu trabalhei com uma edição bilingue.
E é realmente hair que está escrito lá. H-A-R. Isso, que significa renascimento, o símbolo da lebre. Então, além disso tudo, renascimento em contextos históricos, que é o caso aqui do menino.
Além disso tudo, a gente tem efeitos de repetição no conto, porque a tradução trabalhou com IVEJA, e no original em inglês é ENLO, o END de E e LO, L-I-O, com uma exclamação, né? Que normalmente é traduzido como IES ou IESQUE, só que aqui ele é traduzido como IVEJA, que ficou bem legal no texto. É repetido algumas vezes.
E também é repetido algumas ações. O pedido dele buscar três moedas, a presença sempre do leproso na entrada da cidade, essa interação com a lebre, todo esse efeito cíclico significa para nós, leitores, a rotina da passagem do tempo, de uma forma simbólica. Daí, de novo, o reforço de que é uma história, um conto de fadas de formação. Sim.
Porque o tempo passa até que o menino, a gente tem até o fim da vida dele, né? Que ele morre adolescente, né? Mas é o fim da vida dele. Então é cíclico e é de formação. Eu tava pensando no inverno, né? Quando eles chegaram com o bebê na casa, a gente não consegue cuidar. A gente tem os nossos e tá no inverno. E parece que é algo colocado como fábula ali, né? Algo fictício, mas se você for pensar na época...
As famílias perdiam crianças pelo inverno. Exatamente. A mulher falou, a casa está vazia e temos necessidades de muitas coisas. É, então, era algo mais real, né, pra aquela época. Claro que não, talvez não em grandes centros, mas no interior, né, enfim, regiões mais pobres, ainda era real você perder filhos pelo inverno, né. Era real, e o Wilde coloca um lenhador como encontrando a criança, né.
E ele tem esse gesto tão nobre de altruísmo, né? De recolher. Então, tipo, ele brinca com pobreza e riqueza material e de coração o tempo inteiro no texto. Sim. Né? Porque esse lenhador era de uma riqueza humana imensa. Porque mesmo com todo paupérrimo assim.
E o lenhador traz o aquecimento, o fogo, né? Isso. Também simboliza. É, o símbolo, né? Enfim, a madeira que aquece, né? Que é o trabalho dele. E, é, então só pra fechar aqui os temas que são compartilhados entre os outros contos dessa coletânea. No Jovem Rei tem um personagem principal que busca beleza, mesmo que signifique sacrificar os outros, colocar os outros em risco.
No Aniversário da Infanta, a beleza é tratada de uma forma mais superficial, mas também é um tema muito central da história. No Pescador e Sua Alma, ele narra uma jornada de obsessão à estética.
Então, e aqui no Filho da Estrela, né, a gente tem essa rejeição à feiura, né, as pessoas feias, fala. A pobreza, a feiura. Isso, pobreza, que também é o que o nosso protagonista prega ali no início e depois muda.
É isso mesmo. E essa mudança dele é com o sofrimento, quando ele fica feio também, ou seja, ele se coloca no lugar, né, porque a pele dele fica como de um sapo, né, então é tudo muito interessante. A gente nem falou, nem chegou a tocar nisso, né, o sapo e a cobra, né. O sapo é outro símbolo, são outros dois símbolos. O sapo e a cobra também. Porque a cobra se rasteja, ela vai ao fundo, né, é a que está sempre no chão.
Isso aí, então tá aí o Filho da Estrela de Oscar Wilde, cheio de simbolismos, história feita pra criança, mas a gente vê que não é tão pra criança assim, é pra todo mundo. É, e quando o assunto é Oscar Wilde, e até tem uma coisa recente aqui, vou falar, que correlaciona a biografia dele, que a gente não vai abrir toda ela aqui, a gente já fez isso em outros episódios, embora eu fiquei me penalizando, Lucas, a última vez que trouxemos foi o Rochinol e a Rosa.
Foi em junho de 23. A gente tá fazendo quase 3 anos sem Oscar Wilde no podcast. Eu não acreditei quando fui buscar as notas. Sim, faz muito tempo. É, então é uma polêmica que você me passou também. É, a do Cravo Verde. Isso, que na verdade é uma das apoiadoras do podcast Alina lá de Portugal. Ela compartilhou com a gente porque...
Na biografia do Oscar Wilde, né? A gente não vai entrar, mas vamos falar sobre esse contexto. É, isso eu quero explicar. Então, em 1892, Wilde pediu para os seus amigos usarem um cravo verde, como se fosse um código secreto queer, né? No lançamento da peça Lady Windermar, Fence. Sim. E...
Eles usavam na lapela do terno como um sinal de reconhecimento entre os homens homossexuais num tempo em que a homoafetividade era totalmente legal, né? E ele escolheu... Ilegal. Ilegal. Eu falei ilegal? Eu ouvi ilegal, mas tá bom. Ilegal.
Então, a ideia de artificialidade, junto com o dandismo, né? Que ele é o dande, né? O super dande que a gente tem na história. Que daí, pro Brasil, a gente traz pro João do Rio. A gente já falou disso aqui. O cravo verde não existe, né? Porque não existe verde. É, ele é feito de plástico.
Ele é feito de plástico, ou ele é feito de tecido. Plástico não, não sei do que era feito na época, né? Ele chamava aqui que era questão artística, né? A arte pela arte simbolizava o amor pelo artificial também, né? Um pilar da filosofia estética que o Wilde defendia.
E o que aconteceu foi que o partido extremista, que é super contra o homossexualismo, decidiu usar, em vez de usar o cravo vermelho, né? No dia 25 de abril, pra participar da comemoração normalmente, eles não quiseram usar o cravo vermelho e usaram verde, justamente pra mostrar essa oposição e que eles são contra, né? E era uma flor bem bonita, uma flor feita de tecido por uma francesa.
Sim, e mal sabiam eles que o verde, o cravo verde, é um símbolo do homossexualismo, né? Instituído pelo Oscar Wilde. Desde o fim do século XIX. Que virou uma zoação nas redes sociais, porque todo mundo...
começaram a perceber isso, né? E esse feitiço aí acabou virando contra o feiticeiro, não é pra dizer assim. Notícia fresquinha. Isso aí. E essa notícia veio de uma das nossas apoiadoras e a gente tem um novo apoiador, o Luiz Carlos, que, na verdade, acho que eu vou deixar o áudio dele, que é o depoimento dele, que é mais interessante do que eu ficar contando aqui, né? Isso, solta aí.
Bom dia, Diana. Bom dia, Lucas. Do meu bisavô até a última geração nascida, deve ter uns 5 ou 6, não, 7 ou 8 Lucas na família. Então o nome Lucas sempre é um nome bem-vindo ao nosso convívio aqui. Outro detalhe que eu quero dizer para você, eu sou deficiente visual total. Então eu quero te dizer que talvez eu seja o primeiro leitor de ouvido aqui do grupo, que é genuinamente leitor de ouvido. A minha leitura ocorre pela audição.
Uma vez que eu fiquei cego adulto, não aprendi braile. E eu sou o Luiz Carlos, um leitor de ouvido genuíno, original. E parabéns você. Interpreta muito bem os poemas, as poesias.
Eu fiquei tão emocionada, Lucas, porque a gente sempre comenta aqui que a gente muda a vida das pessoas, a gente faz a diferença com o nosso trabalho. E ao ouvir dele, que ele é o genuíno leitor de ouvido, ele só lê a partir do podcast, eu fiquei assim, muito feliz e comovida.
A gente já teve outras pessoas dando esse depoimento de ter ajudado deficientes visuais a voltar a ler, né? E ter mais praticidade na leitura com o podcast aqui. Mas esse é o primeiro apoiador deficiente visual que a gente tem aqui no Leitura de Ouvido. Então é um orgulho muito grande. E a gente tem a sensação de que está fazendo... A coisa é certa. É, a coisa é certa. O trabalho chegar a essas pessoas que...
precisam, né, e que também sentem vontade de ser leitores assíduos. Sim, inclusive ele vai participar do Clube Leitura de Ouvido nessa próxima semana, sobre Emily Dickinson. Ai, gente, tá tão legal. E sabe quem voltou a apoiar também? É Fabiana Maria Landiva.
Ah, bem-vindo aí novamente. Fabiana, ela que era apoiadora, parou por um tempo e agora voltou. Então a gente agradece muito o seu apoio novamente. Participe do Clube Leitura também, do Clube Leitura de Ouvido, que acontece aí mensalmente. E do nosso grupo no WhatsApp, né? Essas são as recompensas que os nossos apoiadores recebem junto com o clube, junto com o grupo de WhatsApp.
Eles também entram nos nossos créditos finais, todo episódio. E também recebem o estudo aprofundado, análise, junto com arte de capa, junto com uma mensagem nossa por e-mail. Vai para todos os nossos apoiadores toda sexta-feira. Então, sem falhar, uma, né? Tem uma sexta-feira só no ano, né? Que não tem episódio. Entre Natal e Ano Novo e no último a gente teve um bônus. É, na verdade, no último ano teve. Mas geralmente é só uma sexta-feira que não tem. O resto, todas...
Todas têm o episódio do Leitura de Ouvido aqui fresquinho. E vamos para os nossos apoiadores, que são eles. Adriano Sanique Padilha. Agnaldo Ângelo Silveira Rebouças. Alberto Alpire. Amanda Bertazzi Brandão. Ankle Lima. Ana Carolina Vieira Ferreira Araújo. Ana Cláudia Chaguru Lopes. Antony Cruz.
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Direção e narração, Daiana Pasquim. Edição, artes de capa e trilha sonora de apertura, de Lucas Piasesc. Produção, Roca Studios. Avalie no Spotify e na Apple Podcasts. Siga pra não perder os próximos episódios. Inscreva-se em youtube.com.br leitura de ouvido. Siga no Instagram, leitura de ouvido. Fale com a gente no leituradeouvido.com. E a gente te vê na próxima leitura.