Episódios de Leitura de Ouvido

Silvia Schmidt - Isadora Imani Iara

02 de maio de 202630min
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“Isadora, Imani, Iara: uma roda a três vozes” é o poema polifônico, último lançamento de Silvia Schimidt (1962), professora, escritora, livreira, editora independente e curadora, nascida paulista e hoje residente no Maranhão, tendo já morado do Nordeste ao Sul do Brasil. É uma história nascida em 2005, escrita nas areias da praia de Moçambique, na Ilha de Santa Catarina, entre a autora Silvia e a sua prima, Isa, de 7 anos, num belo dia ensolarado. É um poema multifacetado e polifônico, com três vozes e olhares: Isadora é brasileira; Imani é afrodescendente e Iara é menina dos povos originários. O primeiro texto daquela tarde foi Isadora: uma pequena mestrinha, inspirada após o passeio. Para dar ao poema um tom genuíno, Silvia convidou a escritora Eva Potiguara (1966), para dar voz à Iara; e Juliana Sankofa (1990), para encontrar o tom afrodescendente de Imani. O livro é ilustrado por Eve Schwabe e publicado pelo Grupo Editorial Casa/Casa Kids, recebendo na capa o QR Code deste episódio exclusivo, que vai oportunizar que todos possam acessar gratuitamente a história em formato audio-livro, mas com esse toque cinematográfico que só o Leitura de Ouvido tem.

Participantes neste episódio2
D

Dayana Pasquim

Host
L

Lucas

HostFotógrafo
Assuntos4
  • Legado de Oscar SchmidtInfância e formação literária · Experiências de vida e viagens · Carreira como escritora, editora e curadora · Atuação no movimento Mulherio das Letras
  • Poema Diário de BordoEva Potiguara: voz de Iara e sua trajetória · Juliana Sankofa: voz de Imani e sua atuação · Vanessa Ratum: prólogo do livro
  • Podcast como Ferramenta de ComunicaçãoFormato e proposta do podcast · Produção de episódios bônus · Apoio e clube de ouvintes
  • Processo CriativoDesafio de dar voz às personagens · Estudo emocional e dramático do texto · Importância da trilha sonora e musicalização
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Bem-vindo à Leitura de Ouvido, o podcast que transforma linhas em ondas sonoras.

Eu sou o Lucas. Eu sou a Dayana. E o episódio de hoje é Isadora Imani Yara, de Silvia Schmidt. Um poema polifônico, último lançamento da escritora paulista, residente hoje no Maranhão, e é uma roda de três vozes. Esse episódio é bônus aqui do Leitura de Ouvido. E olha que legal, o livro vai ser impresso físico. E o QR Code, mandando para esse episódio que você está ouvindo, vai estar impresso junto lá no livro. Boa leitura.

Isadora, Imani e Iara. Uma roda de três vozes. De Silvia Schmidt.

Isadora, Imani e Yara, uma roda de três vozes, é um poema que começou a ser escrito nas areias da praia de Moçambique, na ilha de Santa Catarina, entre a autora Sílvia e a sua prima Isa, ali aos sete anos, em plena brincadeira em 2005, sob belo dia de sol.

Um poema que precisou buscar novas vozes para então, num verdadeiro caleidoscópio, tecer rico diálogo cultural com as manas Imani, afrodescendente, e Iara, a menina dos povos que aqui já estavam, os povos originários.

Somente assim, e no passar dos anos e das horas, esta roda de saberes e conhecimento diversos, em seus ritmos, cores, estilos e amores, sem deixar de lado suas perdas e dores, realmente aconteceu.

editando-se como paráfrase entre as autoras Silvia Schmidt, Juliana Sankofa e Eva Potiguara, para em 2025 ganhar uma casa, a Editorial Casa.

Uma roda e três vozes, que convida o leitor de todas as idades e culturas a também fazer parte. Participando do movimento na construção dos detalhes da música e cantos que as embalam nos seus territórios e em suas paisagens e moradas.

de modo a circular novas falas, novas formas de ver os mundos, através dos versos de outras prosas e outras palavras. Certeza que Isadora, Imani e Yara ficarão ainda mais alegres com a presença de você, leitor, que gosta de boas histórias, as inspiradas pelas crianças espontaneamente e com graça.

Vem, pega sua flauta, o seu tambor, o seu maraca. A roda em três vozes quer multiplicar-se. Convide seus amigos, seus priminhos, irmãos, vizinhos e coleguinhas. Com este belo livro em mãos, para a nova roda recomeçar, bora!

Isadora, Imani e Yara. Uma roda a três vozes. De Silvia Schmidt. Isadora me ensina, me ensina a ser melhor menina. Imani me ensina a bordar a vida sem ferir as mãos. A tocar minha pele sem os trovões da revolução. Yara cheirou, porã me ensina a ser cunhã moromboessara.

Roda, roda, roda. Nuvem que abre o céu azul e tudo brilha. Me ensina a desenhar corações na praia de areia fina? A ser melhor cantora bailarina? Sol, lua, estrela ou peixe em águas limpas?

Ensina-me a balançar os pés nas águas desconhecidas, que eu lhe ensino a força do abraço de Emanjá. Sabemos que em todo olhar já se viu sair o mar. Rio que abre a mata e tudo abraça, me ensina a criar outonos. Nas margens de areia fina, a serpotira mirim na primavera, prateada em águas limpas.

Me ensina a ser melhor, Isadora. Olhos de mel que a tudo cristaliza. E Mane, mostre-me todas as cores. Colora todos os enigmas. O outro é sempre o mais finge. Decifra-me e o mundo é o devoro. E Ara me ensina a ser moromba e Sara. Potiracunhã, olhos de tupã que todo mal consome. Canta, canta, canta.

Me ensina Isa a ser querida, como uma onda que vai e vem. Passos de saci-pererê curupira? Meus olhos, Ima, foram forjados por Ogum para suportar a violenta luminosidade das coisas. Deixa-me mostrar em qual pedaço de mundo meus pés caminham gingando, descobrindo aos poucos o jogo desta grande roda onde dançamos todas nós.

Me ensina Yara a ser guardiã como Guaraci pelas montanhas, louvando Curupira e Ayansan? Isadora me ensina a ser, num corpo em pele dourada, forte e decidida, mas agora, agora mesmo, ainda nessa vida?

Imani, mas se por acaso não for possível, ensina-me, no segundo que pode, a sua arte da vida. A minha é pintar, por meio das palavras, o sentimento que só eu sinto. Yara me ensina a ser guerreira destemida, forte e decidida, nesse instante de vida? Pula, pula, pula.

Me ensina, Isadora, a ser como você, uma sábia mestrinha, pés descalços e livre na praia do Moçambique. E mesmo longe do mar, Imani, explica-me o barulho das ondas, metamorfoseado em meus ouvidos. O mar fala tantas línguas, fala diferente para cada ser humano. O mar nos meus ouvidos tem um pouco de tudo, inclusive gemidos.

Me ensina, Yara, a ser como você. Uma sábia bruxinha, pés descalços e livres nas águas do Amazonas. Palmas, palmas, palmas. Sinos do vento atabaque, tambor em noite de magia. Felicidade, sorriso nos lábios, movimento de pura energia. Me ensina, Isa.

Ima, é difícil carregar o tambor no peito e percebê-lo inaudível. O vento que sobra coloca-me para ninar, deitada ao lado da noite. Pergunto-me, onde está Isa? Iara me ensina a desabrochar nos igarapés em noite de magia. Poesia na boca da lua jaci. Toré de pura energia.

Ensina, ensina, ensina! E esse foi Isadora, Imani e Ara de Silvia Schmidt.

É um livro infantil juvenil que traz um diferencial. Você percebeu que as três vozes que temos são de três meninas de origens diferentes. E eu vou explicar como é que isso acontece de uma forma viva e muito dinâmica, que é uma das marcas da produção da Silvia Schmidt.

A Silvia, ela fez um poema polifônico e está lançando então esse ano, e diz assim, que ela é professora, escritora, livreira, editora independente e curadora. A Silvia nasceu em São Paulo, mas ela reside hoje no Maranhão. Esse é um episódio bônus e eu tenho uma alegria muito grande, porque quando a gente começou a fazer os episódios bônus, eu conversei com a Sil.

que já é uma amiga de longa data e ela já, desde então, tinha a intenção de estar fazendo um episódio bônus aqui no Leitura de Ouvido. E o dia chegou, né? E é um projeto muito especial, porque ela, apesar de ter nascido ali no Sudeste, então ela já morou no Nordeste, já morou no Sul do Brasil e também fora do Brasil.

Essa história, Isadora Eman e Yara, Uma Roda de Três Vozes, nasceu em 2005 e foi escrita nas areias da praia de Moçambique, na ilha de Santa Catarina, entre a Silvia e a sua prima, a Isa, que na época tinha sete anos, era um belo dia ensolarado e elas estavam juntas na praia e surge essa ideia.

Primeiro, a Sil fecha um pequeno texto, um primeiro texto chamado Isadora, uma pequena mestrinha. E ele se torna esse poema agora multifacetado, polifônico, porque tem três vozes, três olhares. Isadora é a brasileira, Imani é a afrodescendente e Yara é a menina dos povos originários. E para dar ao poema um tom muito genuíno...

A Silvia foi também às origens. Ela convidou a escritora Eva Potiguara para dar voz à Yara e a Juliana Sankofa para encontrar o tom afrodescendente da Imani. O livro ainda é ilustrado e é lindo pela Yves Schwab e foi publicado pelo grupo editorial Casa Kids, recebendo então na capa o QR Code desse episódio exclusivo.

Vai oportunizar que todos possam acessar gratuitamente a história em formato de audiolivro, mas com esse toque cinematográfico que só o Leitura de Ouvido tem. O prólogo Diz a Dora e Maniara é assinado por Vanessa Ratum, que é amiga da Silva de longa data. E a Vanessa diz assim...

Junto com Isadora surgem Imani, de Juliana Sankofa, olhar da cultura afrodiaspórica, e Iara, no belo olhar de Eva Potiguara. Fez até uma rima aqui, né, Vanessa? Uma roda de conversa de três vozes. Isadora, Imani e Iara têm culturas e saberes diferentes, mas são iguais em seus corações e desejos. Anseiam pelo bem viver em comunhão com os povos e a natureza. É de uma beleza tão grande.

Então, fui buscar saber os bastidores dessa história em versos para revelar um pouco mais sobre ele. E, de quebra, a Silvia me contou um pouco mais sobre a sua família, essa priminha Isadora. Então, ela diz assim, ó. Com Isa, o texto se deu quando eu voltei dos três anos de estudos e relacionamentos fora do Brasil, nos idos de 2000 a 2004.

Ao retornar a Florianópolis, onde vivia desde os anos 89 e fui muito conhecida como professora de literatura, em volta de saudade e boas memórias ao lado da priminha Isadora, na praia de Moçambique, pude ver nela muito da cultura brasileira que ela graciosamente representava.

Natural, artística, amorosa e muito sábia, para tão pouca idade. Filha e neta de intelectuais, Isa tinha liberdade infanciativa e criativa. Olha que bonito, né? A gente coloca os prefixos nas palavras, você transforma aquilo.

A Silvia ainda diz, as questões de ilustração foi o quesito mais complexo, mas com a ajuda da fotografia, nós três, no caso ela, a Juliana e a Eva, foram selecionando imagens e em especial cenários de cada território para envolver as três vozes.

O texto é exigente, pois é cultura específica, língua inclusive de cada povo. Mas as crianças de hoje têm meios para pesquisar e avançar nesse sentido. E a Casa Kids Editora, ao revisar o texto, caprichou nas referências de repertório com tradução nas notas de rodapé. Gostei demais.

Na verdade, o que impacta nessa história e nas meninas é a possibilidade de trocas culturais das formas de vida, suas danças, seus instrumentos, brinquedos, meio ambiente, deixando de lado muitas questões que envolvem as crianças nas grandes cidades, como lugares de consumo, telas e grupos hegemônicos, um universo orgânico natural, uma coisa versus outra.

Uma questão festiva e amorosa, uma roda multicultural, é muito mais interessante e envolve pela originalidade de cada cultura. Quando a Sil me propôs fazer esse episódio bônus, primeiro que ela me lança um desafio, né? Eu tinha que fazer três vozes femininas, que, pra você que tá aí do outro lado, compreendesse e conseguisse sentir. Quando era a Isadora que tava falando,

quando era Imani e quando era Yara. E eu busquei estudar esse texto com essa forma emocional também e dramática para conseguir impor para cada uma das meninas na interlocução do texto essa diferença de timbre, de tom. Eu espero que eu tenha conseguido transparecer isso para você. Então, a Silchimite, além de autora, é a organizadora do projeto. E eu vou te apresentar agora um pouco mais da Eva e da Juliana.

que colaboraram escrevendo as personagens. Eva Potiguara, provavelmente você já ouviu o nome dela. A Eva Potiguara pertence ao povo Potiguara Sagi Jacu, em Bahia Formosa, no Rio Grande do Norte. Ela é graduada em Artes Visuais, tem mestrado e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A Eva é escritora, contadora de histórias e articuladora nacional do Mulherio das Letras Indígenas.

Ganhou o prêmio Jabuti em 2023 na categoria Fomento à Leitura e do prêmio Literatura de Mulheres Carolina Maria de Jesus, também em 2023, do Ministério da Cultura, na categoria Romance. E a Silvia conta assim.

Eva e eu nos conhecemos através do Mulherio das Letras. Fizemos lives e nos tornamos amigas de modo espontaneamente, por eu ter afinidade com o povo indígena das mantiqueiras. Me senti representada pelo olhar das manas do Mulherio das Letras Indígenas. Com Juliana, a mesma coisa. Eu a convidei para, em 2019, realizar uma mesa sobre literatura interseccional no Flipoços.

Ela aceitou e nos conhecemos. Era um conceito ainda pouco debatido. Foi excelente e muito importante para nós das letras, debater as questões de raça, classe e gênero a partir do decolonialismo. Ao convidá-las a fazer a paráfrase, aceitaram prontamente. E assim fui tecendo a obra, sem pressa.

Então, a Juliana, Juliana Cristina Costa, mas a gente, o nome de guerra, Juliana Sankofa, é pesquisadora, preta-ativista, escritora, tem uma atuação voltada para a literatura brasileira com autoria negra. Doutorando em estudos literários pela Universidade Federal de Uberlândia, desenvolve pesquisas sobre os romances de Miriam Alves, fundamentada no conceito de poética epistêmica, que é elaborado por ela, inclusive.

Sua trajetória é crítica literária, filosofia, práticas de letramento racial, tudo isso articulado e investigando as relações entre a estética, a epistemologia e a negritude. A Juliana iniciou sua carreira literária em 2014 na antologia Cadernos Negros e desde então tem textos publicados no Brasil e no exterior, o que consolida uma escrita bem comprometida com a memória, o corpo, a ancestralidade negra. E ela é certificada em estudos afro-latinos em Harvard.

Então, você pode perceber o quanto que envolvimento, estudo, engajamento e profundidade existe neste poema polifônico que a gente apresenta para vocês hoje. Eu vou explicitar agora a biografia da Silschmidt para que você compreenda como que isso entra um pouco mais no contexto e também conhecer essa escritora sensacional do Brasil contemporâneo.

A Sil nasceu em 1º de agosto de 1962, em São Paulo, capital, professora, escritora, livreira, editora independente e curadora. Você vai entender como ela é editora independente, eu vou explicar.

Ela é filha de um casal que veio do sul de Minas Gerais, na região montanhosa, de muita produção agrícola. A mãe se chamava Yolanda, era professora e foi secretária antes de se casar e ter quatro filhos, sendo que Silvia é a única mulher, a segunda na linha de sucessão. O pai Valdomiro de Carvalho, produtor rural, produtor familiar, junto de seus pais na roça, e depois em São Paulo foi comerciante e também estudante pré-técnico em mecânica.

Mas a curiosidade é que o pai Valdomiro investia tempo extra vendendo enciclopédias e foram os 16 volumes da Teltarus de A a Z os primeiros lidos da vida da Silvia Schmidt. Por quê? Vinda de uma família de classe média paulistana, ela lembra de não ter tido livros em casa na sua infância.

foi conhecer primeiro fotonovelas e novelas, assim que as televisões entraram nos lares que foi lá por volta de 1965 a 1969. Ela diz assim, Fui iniciada pelos olhos de vidro, e eu particularmente, uma menina curiosa, vivendo em cidade grande, mesmo na periferia, a primeira leitura visual foi através do programa do Chacrinha da TV Globo. Eu iria aprender as primeiras letras alguns anos depois, e não havia sequer sido alfabetizada.

Aí vem as reviravoltas da vida. Com 11 anos, a Sil e seus irmãos ficaram órfãos de mãe, que acabou falecendo de leucemia. Sobre ela, que era a única mulher, recaíram muitas responsabilidades para auxiliar o pai e a cuidar dos irmãos. No ano seguinte, foi que ela leu seu primeiro livro de ficção, Ficção, Memórias de um Cabo de Vassoura, um livro de 1969, de origem eslessa. Talvez você que está aí do outro lado já tenha ouvido falar ou tenha lido esse livro.

Ela conta como foi essa experiência. Aos 12 anos, tive meu primeiro encontro com a literatura de ficção e foi um arrebatamento. Mamãe havia falecido em 1973 e sua ausência, além de dolorida, era insubstituível, porque ela era referência de cultura, arte, artesania, voz e corpo da família.

Mamãe era mulher extremamente comunicativa, afetuosa, criativa. Não imaginava a falta que me faria. A Delta Larousse, lida de A a Z, grossa, pesada, empolheirada em seus filetes dourados, continuou sendo para mim também obra educadora amater. Olha que lindo isso! Não deixava de ir a ela cada dúvida. Assim como a TV nestes tempos no centro da sala de jantar, o mundo descrito em ordem alfabética e a cores.

Ela acrescenta que Memórias de um Cabo de Vassoura foi o meu encontro ontológico com a literatura simbólica, origens lessa e de ouro. Quanta emoção! Como pôde levar-me a tal lugar? Sôfrega foi a leitura realizada através daquele pequeno objeto chamado livro em meus 12 anos de idade. Indescritível, porque além de me ativar a imaginação, fazia-me companhia em dias de extrema solidão e excesso de responsabilidades domésticas. Eu a única filha mulher.

domesticada, só que não. Em seguida deste, a Silvia leu Éramos Seis, da Maria José Dupré. A gente falou dessa obra recentemente no Clube Leitura de Ouvido, nesse ano. Uma obra que, como a primeira, do Origines Lessa, trouxe pra Sil um espelhamento. É essa a ideia.

A leitura ganhou muita força em sua existência, isso somado ao diário de adolescência, que era tão importante para ter uma interlocução, compartilhamento, e assim foram se formando os traços da sua escritura. Silvia é nascida num contexto cultural lisérgico, que influenciou fortemente a contracultura dos anos 60, inclui arte psicodélica e música.

Por isso que ela se sente caleidoscópica. Se você seguir a Sil no Instagram, e eu recomendo fortemente que você faça isso, você vai perceber todas essas facetas que eu estou contando aqui. Ela diz assim, ó. Papai e mamãe se conheceram a caminho do carnaval das mantiqueiras, dos feriados para retorno à família.

Tiveram quatro filhos e eu sou a segunda. Não sinto apegada ao passado, mas em plenos anos 64, com o início da ditadura militar, saímos do centro da cidade onde vivíamos, em um pequeno apartamento, para a periferia da cidade. Tremembé e depois Jacanã, locais muito aprazíveis, mais de cultura popular e operária. Daí que eu digo que sou periférica e, ao mesmo tempo, bebo nas coisas do centro urbano com muita tranquilidade.

Das margens eu aprendi a conviver com o outro. No centro, a me ver e me sentir ativa, mais solitária, inclusive. No centro das cidades, somos ilhas.

Com as responsabilidades sobre si, por ser a figura feminina, a Silvia se obrigou rapidamente a retirar o foco da infância. Então, a família morou em muitos bairros da capital, Ayangabaú, Horto Florestal, Jasanã, Ayambi, até que foram para Curitiba, onde o pai se formaria aspirante a uma carreira militar nos anos de 70. Então, ela veio morar no Paraná também.

E diz sobre essa questão de retirar o foco da infância o seguinte. Maturidade chegou cedo e esforços redobrados para vencer etapas sem o apoio maternal. Penso terem sido marco em minha trajetória. Conviver com o lado masculino da família me ensinou a dialogar e a exigir justiça. Sim, meu lado político também se inicia aí, onde, como mulher, era mais cobrada e, por vezes, precisava mostrar as contradições.

Então, uma das coisas nessa questão vem desde a sua admiração por teatro, porque teve um momento que a Sil falou, eu quero ser atriz. Mas o pai proibiu a carreira dizendo, filha sua não faria teatro de rebolado. Então, o que acontece? Ela vai estudar letras, se forma em Lorena, São Paulo. Aí ela se especializa em comunicação e semiótica na PUC, São Paulo.

depois em Sociologia e Política na USP, e ainda faz um curso de Ontopsicologia em Santa Catarina. Por 16 anos, as aulas de literatura brasileira, ela deu em Santa Catarina, iniciou como professora ainda em São Paulo, no curso supletivo e pré-vestibulares conhecidos como um dos maiores sistemas educacionais da América Latina.

Ficou seis anos ali e depois foi de São Paulo para o sul do Brasil. E em Floripa ela se tornou muito conhecida como professora de literatura. E é lá em 2005 então que nasceu o embrião para essa história de hoje que a gente apresentou há pouco. Falando da questão do universo feminino, que é toda a pegada que a gente está nesse momento.

Da ilha de Florianópolis, a Silvia seguiu para a Inglaterra e depois passou uns anos nos Estados Unidos. Viveu fora do Brasil por três anos. Dessas intensas experiências, ela narrou nos seus romances Dutch Free, que publicou em 2014, e Made in Brasil, em 2019. E é Made in Brasil mesmo, não é Brasil com Z, é com S. Então ela quis já brincar no título.

Ao todo, ela tem mais de 11 livros lançados, incluindo dois libretos em poesias, um de contos, uma antologia. Eu destacaria Mil Pétalas Púrpuras, que é um livro de ensaios que ela realizou sobre a obra de oito escritoras, sobre uma perspectiva decolonial, interseccional. O livro foi lançado pela Elvete Binacional, saiu no Brasil e na Suíça em 2021. Eu tenho, na minha biblioteca, muitos dos livros da Sil, inclusive Mil Pétalas Púrpuras.

Por mais de duas décadas, a Silvia vive como nômade. Isso que é muito legal falar pra você, porque você já entendeu, né? Nasceu em São Paulo, morou em Flanienópolis, morou fora do Brasil, aí voltou pra cá, voltou pra Floripa de novo, mas quando eu conheci a Sil, ela morava em Minas Gerais, em Poços de Caldas.

E agora ela está no Maranhão, nos lençóis maranhenses. Então eu digo o seguinte, observando a produção cultural, o próprio lifestyle da Sil, que ela é nômade porque a bagagem é ela própria. É a sua sabedoria, as suas vivências. Depois que ela deixou Florianópolis, no ano de 2000,

Ela tem passado tempos em tempos em residências artísticas. E ela vai transformando os locais, vai transformando as pessoas por onde ela passa, sempre escrevendo e lendo muito. Em 2014, ela criou, então, agora que eu vou falar da questão dela ser editora, ela criou o Símbolo Digital, uma editora para livros eletrônicos.

Tanto em Isadora, Imana e Yara, que você conheceu hoje, quanto nas demais produções shemitianas, as mulheres são sua língua e o seu universo. Por isso, era natural que um movimento nacional, que você já deve ter ouvido falar, impulsionado pela escritora Maria Valéria Rezende, o Mulherio das Letras, do qual também eu faço parte,

tivesse destaque na carreira da Silvia. Foi assim que, em 2017, enquanto ela vivia numa residência artística em Poços de Caldas, quando eu a conheci em Minas Gerais, ela criou a Livraria Mulheril das Letras, que tinha o intuito de comercializar, distribuir as obras literárias das escritoras integrantes do movimento.

Mas aí, quando veio a pandemia, essa realidade se reconfigurou. Ela diz assim que a livraria, infelizmente, virou o estante do Mulherio, com código especial para elas, na Biblioteca Centenário em Poços de Caldas, onde eu estava quando a pandemia aconteceu e eu não senti que deveria continuar fomentando. Muitos livros foram para bibliotecas em Paraty e no Paraná. Caminhos por onde passei nos anos de 2020, 2021, 2022, criaram asas.

Então hoje você não vai mais encontrar no Instagram o perfil da Livraria Mulheril das Letras, mas quando ele estava ativo, eu pessoalmente, Diana, participei bastante. Sob o seu habitat natural de hoje, os lençóis maranhenses, né? Falar assim que fica descontraído.

Ela diz, sim, estou no Maranhão, pois há muito desenvolver imersões em sustentabilidade e encontrei aqui, na área dos lençóis, um lugar favorável para ficar, descansar e escrever. Gosto muito e o quesito clima aqui está bem mais equilibrado. Eu já estava sofrendo de ansiedades climáticas no sul. Florianópolis, visito e revisito sempre que posso. Fiz família, desfiz, hoje meu filho mora nos Estados Unidos, mas tenho amigas e primos e é também uma casa e uma possibilidade.

E ela fez uma observação bem legal, que me deixou bem motivada para realizar esse projeto juntas, que o desejo de ver essa roda entre as vozes se materializar demorou muito, desde os anos 2005, lá na praia de Moçambique.

Foi imensa, foi aberta, foi envolvente com as manas Imani e Yara, que senti vontade de recorrer à sua bela interpretação, Diana, e a de Lucas com a sua trilha sonora. É mágico ver isso musicalizado pela leitura de ouvido, dando às crianças ainda mais alternativas de vivências, e lhes agradeço demais. Nós que agradecemos.

De literatura infantil juvenil, já é o segundo livro da Sil. Ela tem o Lente de Aumento, que é protagonizado por um garotinho, o Daniel Ba, um menininho que ela conheceu em Poços de Caldas.

Foi nesse momento, então, que eu conheci a Sil, que a gente traçou uma amizade. Eu vim recebendo livros dela ao longo desses anos, lançado por ela mesma ou por editoras. E hoje a gente combina nesse episódio bônus especial, que eu fiquei muito feliz de realizar e apresentar para você. Falar que os estudos, essas informações e referências estão indo para os nossos apoiadores. E se você também quiser se tornar um apoiador... ...e o apoiador...

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que tem encontros mensais. Eu faço esse clube com os nossos apoiadores e conselheiros. Uma vez por mês, nós entramos numa sala de meet juntos, conversamos, eu faço as notas de rodapé ao vivo com a galera do clube e a gente conversa, troca ideias de forma muito profunda, estudos realmente em literatura. É um clube muito diferenciado.

Bem nesse clima aqui das notas de rodapé que você já bem conhece no nosso podcast Leitura de Ouvido, que transforma linhas em ondas sonoras. Então, apoia ou entra em contato no leituradeouvido.com. E Sil, muito obrigada. Eu desejo que esse livro toque no coração de muitas crianças.

Agora que você sabe de tudo isso, vale voltar e reouvir esse poema polifônico, essa roda de três vozes tão bonita, que vai com certeza mudar a infância e adolescência de muitas crianças. E a gente se vê na próxima leitura.

Direção e narração, Daiana Pasquim. Edição, artes de capa e trilha sonora de abertura, de Lucas Piasesc. Produção, Roca Studios. Avalie no Spotify e na Apple Podcasts. Siga pra não perder os próximos episódios. Inscreva-se em youtube.com.br leitura de ouvido. Siga no Instagram, leitura de ouvido. Fale com a gente no leituradeouvido.com. E a gente te vê na próxima leitura.