Episódios de bienal

Ep 4. Depois do fim

08 de maio de 202615min
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A morte pode mudar os caminhos de uma história, mas não necessariamente encerrá-la. Essa é uma das discussões do quarto episódio do podcast Em obras, coprodução do UOL com a Fundação Bienal de São Paulo, que aproxima um relato pessoal de perda à obra 'Someone's Child', do artista francês Pol Taburet. O episódio parte da história da jornalista Milly Lacombe, que relembra a morte repentina da ex-mulher e o impacto devastador do luto em sua vida. A experiência íntima abre caminho para um tema mais amplo: como a finitude reorganiza o sentido das relações e da própria existência. Na instalação apresentada na última edição da Bienal, Taburet sugere um espaço em que vida e morte não se opõem, mas coexistem. Em comum, as duas narrativas apontam para a noção de ciclo, em que o fim não elimina o que veio antes, mas se incorpora a ele.
Participantes neste episódio3
X

Xênia França

HostCantora
M

Milly Lacombe

ConvidadoJornalista
P

Pol Taburet

ConvidadoArtista
Assuntos4
  • Morte e LutoImpacto da morte repentina · Diferença entre luto de pai e ex-mulher · Processo de aceitação e reinvenção · Milly Lacombe · Roberta
  • Arte e FinitudeObra 'Someone's Child' de Pol Taburet · Coexistência de vida e morte na arte · Ciclo de vida e morte · Pol Taburet
  • Inspirações Brasileiras na Obra de Pol TaburetResidência em Salvador · Banda tocando na rua · Pôr do sol no Porto da Barra · Pantanal Mato Grossense · Ciclo de seca e vida no Pantanal
  • Injustiça Social como HorrorHorror da injustiça social · Desumanização para justificar violência · Luta contra a injustiça
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Na arte contemporânea, é comum que as obras toquem em temas do cotidiano, histórias de vida, acontecimentos políticos, questões do nosso tempo. Se a arte visual é uma linguagem, é natural que ela também seja espaço para novos olhares sobre passado e presente.

Por isso, em grandes exposições como a Bienal, surgem assuntos como meio ambiente, fronteiras e relações familiares. São maneiras de discutir e revisitar temas que fazem parte da nossa vida.

Hoje eu vou te apresentar mais um desses cruzamentos, começando pela história de uma pessoa que é muito conhecida por nos ajudar a pensar questões do nosso tempo, a jornalista Milly Lacombe. Uma história sobre algo que todos nós, cedo ou tarde, vamos enfrentar. A morte. Depois eu te mostro como esse tema e a memória da Milly tem tudo a ver com uma obra da 36ª Bienal de São Paulo.

Para isso, a gente precisa voltar 15 anos no tempo. É 2011, dia de festa. Roberta, que era ex-namorada de Millie e uma de suas melhores amigas, ia completar 40 anos. Ela nunca foi de grandes celebrações, mas dessa vez decidiu fazer diferente. Preparou uma festa enorme, muitos amigos confirmados. Música, drinks, vontade de casa cheia.

Antes de começar a arrumação final, Roberta fez algo que gostava muito. Saiu para correr no parque. Na volta, receberia o buffet, os equipamentos de som e organizaria os últimos detalhes. Mas foi nesse intervalo, entre a corrida e a festa, que tudo mudou.

Eu lembro, era uma sexta-feira à noite, estava em casa e alguém me ligou e falou que a gente não estava conseguindo achar a Roberta. Essa é a jornalista Milly Lacombe, lembrando do momento em que a vida virou de ponta cabeça. O instante em que ela soube que havia algo errado com a mulher com quem tinha vivido uma história de cinco anos.

Eu falei, a Roberta de novo vai dar essas corridas longas. Que saco! Eu fiquei ligando e ela não atendia, não atendia. E uma coisa foi me invadindo, assim, de desespero. Mas eu tentava eu mesma negociar comigo, assim. Não aconteceu nada, imagina. Calma, não aconteceu nada. E aí, depois de uma hora, assim, eu recebi um telefonema da irmã dela. E aquela... Eu nunca vou esquecer a voz. Eu nunca vou esquecer. A Roberta faleceu, ela falou.

Roberta tinha sido atropelada. De uma hora para outra, Milly e Lacombe teve que assimilar que não ia mais encontrar uma das pessoas mais importantes da sua vida. Aquilo não fez nenhum sentido para mim. Quando essa notícia me foi dada, eu lembro que eu peguei meu celular e eu atirei na parede, assim, eu nem ouvi o final. Eu nem ouvi mais o que a irmã dela falou. E eu caí no chão de joelhos e eu comecei a berrar, berrar, berrar. Eu só berrava, eu não sei quanto tempo eu fiquei berrando.

Não era a primeira vez que Millie perdia alguém tão importante. Ela já tinha perdido o pai, mas lidou de maneira diferente nesse contexto.

Meu pai morreu quando eu tinha 32 anos, mas o luto que eu vivi com a morte do meu pai não foi um luto devastador, porque eu sempre soube que ele ia embora, ele nunca ligou para o corpo, ele foi um cara que viveu sempre na cabeça. Vem uma tristeza colossal, devastadora, a gente chora, chora, chora, chora, chora, e a gente se põe de pé e a saudade que fica e a gente segue a vida honrando aquela história, aquela relação.

Com Roberta foi diferente. O luto veio inteiro, sem aviso, sem preparo. E aí eu entrei num buraco, assim. Um buraco. Eu saía na rua, olhava as pessoas andando e falava como que essas pessoas estão andando e rindo? Elas não sabem que a Roberta morreu? Como é que a vida continua? O sol está nascendo? O sol não deveria nascer. E toda vez que a minha mulher ria no telefone com alguém, eu queria quebrar a casa inteira.

Millie só conseguia enxergar morte à sua volta, e o caminho para aceitar que o sol continuaria nascendo e que a vida seguiria foi longo. E essa travessia e a força interna que faz com que a gente seja capaz de reinventar o desejo de viver é exatamente o que nos leva de volta às artes visuais, porque é um tema que interessa muito ao artista francês Paul Tabourri.

Ele apresentou na Bienal a obra Someone's Child, ou numa tradução livre, Criança de Alguém. Chegando na instalação, boa parte do chão foi coberta por uma areia preta, no centro, um relevo, como se fossem duas pequenas montanhas emergindo desse terreno escuro. Nas extremidades da sala, bases também pretas, e sobre elas, estátuas de homens tocando cornetas.

O artista conta que a obra foi feita com uma terra escura, tão escura que parece que foi queimada, como os restos de um incêndio mesmo. E que debaixo dessa terra tinha uma escultura que lembrava um animal, mas com uma forma indecifrável. Um cenário de morte, mas com uma pista de vida.

Bem-vindas e bem-vindos ao quarto episódio da segunda temporada do podcast Em Obras, da Fundação Bienal de São Paulo, em parceria com o UOL. Eu sou a cantora Xênia França e hoje eu vou abordar com vocês a força da relação entre morte e vida, finitude e esperança. Episódio 4, Depois do Fim.

Esse é o tema dos trabalhos de Paul Taburre, porque é assim que ele enxerga o cotidiano. Uma imagem que descreve bem esse olhar que ele tem para o mundo é aquela florzinha que nasce no meio do azulejo rachado, de uma casa abandonada, sabe? Aquele broto de vida que surge onde parecia que tudo já estava morto.

E aquele bicho de forma estranha que ele colocou na obra da Bienal também tem esse simbolismo. Olhando, ele parece ter duas montanhas onduladas. Não dá para saber muito bem do que se trata, mas para o Paul, ele é a representação de um animal grávido, ou seja... Nesse espaço onde a morte e a vida estão coexistindo.

Vida e morte coexistem nesse espaço. E tem outro elemento interessante dessa instalação que você pode experienciar daí, que é a trilha sonora. Repara nesses sons entrecortados.

Paul estava querendo recriar o que um bebê ouve quando está dentro da barriga da mãe. Essa profusão de conversas e ruídos é mais ou menos como ele imaginou que um bebê escuta e se comunica com o mundo dentro do útero materno.

Na instalação da Bienal, como eu disse, tem seres que lembram homens tocando trombetas, apoiados em suportes que saem da parede ou estão apoiados no chão. Isso tem a ver com uma experiência que Paul passou no Brasil. Quando chegava do aeroporto e se deslocava pela cidade, ficava impressionado com os urubus empoleirados em estruturas de metal. Foi aí que teve a ideia de colocar esses homens presos a um anteparo.

Eu não estava falando português lá. Quando eu saí, eu estava falando inglês e francês. E eu não conheciam tantos pessoas que estavam falando inglês em Salvador. Então, eu e eu também, meus pensamentos dentro da residência, em um país em que eu nunca vi, em um continente em que eu nunca vi.

Os trompetes que aparecem na instalação foram inspirados na Bahia. O artista fez uma residência em Salvador e logo no seu primeiro dia encontrou uma banda tocando na rua. Ele não falava uma palavra de português, não tinha achado ninguém que falasse inglês para conversar, então o som dos instrumentos é que grudou na memória. As visitas ao Brasil foram marcantes na trajetória do artista.

e aparecem em diversos trabalhos em outras exposições. Um exemplo é um pôr do sol, que Paulo assistiu no Porto da Barra, uma das praias mais amadas da capital baiana.

As cores do céu, dramáticas, o marcaram e estão presentes na obra Home Sweet Joe, em que um homem negro aparece com a boca cheia de objetos dourados. O fundo do cenário tem as cores do céu de Salvador. Outra inspiração brasileira que aparece na obra da Bienal é o Pantanal Mato Grossense. Mas o que chamou a atenção de Polo não foram os bichos exóticos que atraem a maioria dos turistas.

E depois o ciclo de seco vem e todos os criaturas morrem. E o urubu, por exemplo, e todos os animais, os animais, os animais, os animais, os animais, os animais. Paul acha interessante como nas épocas de seca os animais morrem e suas carcaças servem de alimento para outros seres, criando assim um ciclo de vida permanente. É um jeito diferente de admirar as relações, mas muito real. Vida e morte não são opostos, são parte de um mesmo ciclo.

Milly Lacombe passou por um processo de compreensão parecido depois que Roberta morreu. Aceita. Aceita. Vamos daqui. Vamos daqui com tudo que a vida tem para entregar para a gente. Todo esplendor e todo horror. Vamos seguir a partir daqui. Porque aceitar o esplendor é também aceitar o horror. Por um tempo, Milly se boicotou.

Eu parei de existir. Eu não me importaria de morrer, sabe? Eu comecei a fazer coisas assim, atravessar a rua sem olhar. O que vai acontecer? Eu vou morrer? E aí? Ela morreu? Então, se eu morrer, eu vou encontrar com ela de novo?

O que foi trazendo aos poucos de volta a vontade dela de viver foi a presença acolhedora de quem estava no entorno. Amigos que vinham visitar, um professor de yoga que aparecia sem avisar. E o começo desse processo veio do comentário de uma amiga que cuidava de seus cachorros. E a Naira chegou um dia e falou assim, Mili, Mili, ficar bem quando tudo está bem é a coisa mais fácil do mundo.

O grande desafio é ficar bem quando as coisas não estão boas. E aquilo bateu em mim, sabe? Aos poucos, Mili foi repensando a vida e também achando uma outra maneira de viver o amor que sentia por Roberta. E eu pensei, bom, então talvez eu esteja amando errado, assim. Porque eu não sei onde ela tá. Mas tenho que parar de fazer essa pergunta.

É só continuar amando. Amar é você é continuar dedicando o seu amor a essa pessoa mesmo sem saber onde ela está. Então hoje, quando o Corinthians entra em campo, ela está lá. Sabe, quando alguém toca uma música que ela gostava, ela está lá. Ou quando eu ouço no carro uma música que ela tocava no violão. Ela está lá. E se um dia eu encontrar com ela, encontrei.

E com esse olhar mais apaziguado para as dores da vida, Millie conseguiu conciliar a vida e a morte de um jeito parecido com o que o artista Taburé faz em suas obras. Quando eu aceitei, o esplendor ficou mais bonito.

E o horror ficou menos feio. A morte está dentro da vida. A gente planta. A gente planta sementes, a gente planta pessoas. A gente planta. E a gente vai a uma corrida de bastão. Você não termina alguma coisa. Você continua.

Tem outro ponto curioso em que Millie e Paul pensam de forma parecida. Depois de refletirem profundamente sobre o significado da vida e o lugar da morte nela, chegaram a uma conclusão semelhante sobre qual o verdadeiro horror da nossa atualidade. E não é o fim das coisas, que afinal de contas é parte inseparável da existência na Terra.

Mas aí tem um outro horror, que é o horror da injustiça social. Esse não deveria existir. Não deveríamos ver isso. Isso não é aceitável. Então, lutar contra isso é a nossa obrigação. A capacidade da espécie humana de destruir é algo que deixa Mille Lacombe indignada. E esse assunto é exatamente a pauta dos novos trabalhos de Paul Taburre. Ele chama de pesquisa sobre presas e predadores.

Então, esse comportamento me interessou também como o homem pode caçar o homem também. Em especial, como homens podem caçar outros homens. Porque se você quiser caçar um homem, você tem que o dehumanizar, e mudar sua forma, e o fazer como um animal, e é algo que você encontra no meu trabalho também.

E com sua pesquisa, entendeu que o primeiro passo para a normalização da caça humana é justamente desumanizar aquela pessoa e deixá-la parecida com um animal. Paul e Millie trabalham para que a gente possa ver a vida e morte de um jeito, devastação e injustiça de outro.

Muito obrigada por nos ouvirem até aqui. No próximo episódio, a gente vai falar de diferentes formas de se relacionar em sociedade e com a natureza. Também sobre as oportunidades que podem surgir quando a gente ilumina outros saberes. Até lá!

A segunda temporada de Em Obras tem narração de Xênia França. A pesquisa, reportagem e roteiro são de Laura Mim. O tratamento de roteiro é de Laura Kapelusznik. Coordenação de Ligia Carriel e Laura Kapelusznik. Produção executiva de Ligia Carriel. O desenho de som e montagem são de Mariana Romano. Gravação e supervisão de som de João Pedro Pinheiro. Trilha sonora da Epidemic Sound.

A arte é de Yasmin Ayumi. A gerência geral é de Irineu Machado. A supervisão é de Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. O podcast é uma coprodução do UOL com a Fundação Bienal de São Paulo.

Esta temporada do podcast Em Obras é um projeto realizado com os recursos do Fomento Cult SP PROAC, Programa do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas.

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