Perdas com exportações de maquinários podem passar de US$ 3 bilhões, afirma especialista
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Guilherme Muniz
Jackson Campos
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Muito bem, aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar um pouco mais aí sobre a repercussão dessas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. E o nosso contato é com Jackson Campos, que é especialista em comércio exterior e diretor da AGL Cargo. Jackson, muito bom dia, é um prazer tê-lo conosco aqui na CBN.
Bom dia, Galvão, é um prazer estar contigo e com a audiência.
Bom, a gente acompanhou ao longo do dia, ao longo desta quinta-feira, as repercussões. Muita gente falando aí que essas tarifas atingem 15%, 18% das exportações brasileiras. Qual que é o tamanho desse problema, hein, Jackson? É muito significativo mesmo para as nossas exportações, para nossa economia, ou é contornável?
Galvão, é preocupante, tá? Não é bom, é ruim. Então dá para resumir que é ruim. E a CNI, ela fala em 26% do que a gente exporta aqui do Brasil para lá, que dá mais ou menos 11 bilhões de dólares, tá? O governo, ele tem alguma diferença, ele usa uma outra, um outro método, porque tem alguns produtos que ele considera que já está ou isento ou já está regulado por outras regras que já vinham, né? Mas a gente tá falando aí de mais ou menos um quarto de todas as exportações que saem do Brasil e vão para os Estados Unidos. 11 bilhões de dólares é um volume interessante, que dá quase 60 bilhões de reais.
Agora, em que medida o Brasil pode se aproveitar, vamos dizer, não sei se eu posso usar esse termo, mas se aproveitar desta situação para buscar novos parceiros? Eu acredito que isso já vem acontecendo, queria que você falasse um pouco sobre isso. Em que medida essas exportações que serão reduzidas para os Estados Unidos podem ser direcionadas para outros parceiros, a China, por exemplo, que é nosso principal parceiro, União Europeia?
Em que medida o acordo Mercosul-União Europeia neste momento pode servir como uma válvula de escape?
Olha, Galvão, é possível, e a gente viu que isso aconteceu muito bem desde o primeiro anúncio do tarifácio, né? A primeira vez que foi anunciado, o Brasil correu buscar parceiros internacionais para escoar essa produção. E acelerou com o acordo do Mercosul com a União Europeia. O ponto é o seguinte: a gente tem dois tipos de produtos, né, que a gente exporta. Então tem os produtos que são manufaturados, né, que são máquinas, equipamentos, madeira para construção e outros produtos parecidos, assim como roupas e calçados que vão para os Estados Unidos.
E tem uns produtos que são do agronegócio. Esses do agronegócio, eles são muito mais fáceis de ser direcionados. Eles podem inclusive ser direcionados no meio do caminho. Em alguns casos dá para trocar o rótulo quando chega no um destino e vender para outro muito rápido. Agora, produtos que estão feitos especificamente para o mercado dos Estados Unidos, esses são muito difíceis de enviar para outro mercado, né? Então os produtos manufaturados, esses aí, eles sofrem muito.
E um deles que sofre demais são as máquinas e equipamentos, que esses sim são os maiores prejudicados nesse momento, com mais de 3 bilhões de dólares estimados. Estes realmente são muito difíceis porque eles são aquelas exportações feitas entre companhias, né, que são chamadas de intercompany, ou seja, empresas aqui que produzem aqui, mas que vendem para filiais ou matrizes nos Estados Unidos. Essas não podem ser direcionadas para lugar nenhum.
E aí isso faz com que a empresa ou repasse o preço, né, para o comprador nos Estados Unidos, ou pare de produzir e essa empresa lá nos Estados Unidos compre de outro lugar.
Os setores mais atingidos, além desse que você já citou, quais são, hein, Jackson? Calçados parece que é bem atingido, né?
Calçados, ele é atingido em quantidade, mas em volume ele não chega a 1 bilhão de dólares, tá? Os que são mais atingidos assim, o etanol, ele é bastante atingido, porque o etanol talvez seja o que tem mais, os Estados Unidos têm mais razão de reclamar, porque a gente tributa o etanol aqui e eles tributam menos lá. Mas o aço, papel, e os maquinários agrícolas, eles são bastante afetados, tá? Esses são os principais. Agora, pescados, por exemplo, são afetados, mas dá para direcionar.
O mel dá para direcionar. E a gente tem uma lista longa de produtos que ficaram extintos, né? É que ficaram extintos não, que ficaram nas exceções. Então a gente tinha até agora mais ou menos 1.600 produtos em exceção, agora eles adicionaram mais ou menos 400. A gente tem quase 2.000 produtos fora é do Tarifaço. Então tem bastante setora que vai sim ser atingido, mas a gente tem bastante gente fora também.
Em relação a essas alegações dos Estados Unidos que você cita, o governo americano acusa o Brasil de adotar práticas ilegais, cita também questões ambientais. Em que medida eles têm razão nessas questões, hein, Jackson?
Olha, Galvão, essa Seção 301, né, que é a seção da legislação que rege esse tema, ela não é para proteger a produção local lá, como existem para o milho e outros produtos. Ela é uma ferramenta exclusivamente de punição. E dá para a gente ver o nível de critério das exceções que eles colocaram, é que a dependência dos Estados Unidos, ela esvazia qualquer argumento de que a tarifa é baseada em injustiça comercial. Então, inclusive, a declaração do Marco Rubio hoje mostrou que o tema ele é totalmente político, né?
Dessas aí, que todas as alegações deles, que passam pelo Pix, passam por propriedade intelectual e outros assuntos, eu creio que os problemas que a gente enfrenta de corrupção aqui no Brasil, eles, esse sim é um fato que eles têm alguma razão. Né, e alguma coisa relacionada à propriedade intelectual que a nossa diplomacia tá conversando com eles e tem tentado melhorar, mas é algo que realmente demora. Mas não que chegue a atrapalhar as empresas dos Estados Unidos de atuarem aqui, né, é porque elas conseguem atuar normalmente, isso não faz com que elas deixem de atuar.
Agora, outros argumentos como Pix, como o desmatamento, que é ruim, estava ruim, mas tem melhorado, né, a OCDE mesmo já emitiu um parecer de que tem melhorado, esses argumentos eles são fracos, eles não se sustentam, né? E o fato do Marco Rubio ter trazido isso dizendo que o Lula não quis ser leal na hora de conversar leva o tom totalmente para o embate político, né? Deixa de fora a parte técnica.
Essa questão do Pix, acho que não precisa nem ser um grande especialista perceber que eles estão com uma inveja danada, né, de um sistema criado aqui no Brasil que é extremamente prático, funcional, e que obviamente, né, do ponto de vista econômico, tá entre aspas acaba prejudicando as empresas deles, as empresas de cartão de crédito, porque muitas vezes o consumidor acaba optando por fazer o Pix, tem lá um desconto no valor e acaba obviamente reduzindo a margem que vai para os cartões de crédito, não é, Jackson?
Então, exatamente isso, mas ao mesmo tempo não impede que essas empresas operem, né? Elas podem operar no ambiente do Pix normalmente, elas podem oferecer soluções. O ponto é que elas não foram tão eficientes quanto o Pix quanto o Banco Central foi na tecnologia, né? Porque o brasileiro gosta do Pix, ele é muito funcional, ele é muito rápido, ele é certeiro. A gente tem alguns problemas relacionados ao mecanismo, sim, mas eles são muito pequenos em relação à quantidade de transações que o brasileiro faz com Pix.
Agora, tem um ponto importante, tá, Galvão, que eu não vejo muita gente falando, que os Estados Unidos lançaram lá, o Banco Central americano lançou uma ferramenta que chama FedNow. Que é justamente um sistema parecido com o Pix, mas que não teve adesão lá. Por um lado, porque ele não é obrigatório os bancos aderirem aqui, e por outro, que lá existe ainda uma força muito grande das empresas de cartão de crédito evitando até que seja divulgado que ele existe.
Mas ele está em vigor e pode ser usado lá também. Ou seja, esse argumento também não é muito crível assim, até jogando ele de qualquer maneira, né? Porque eles têm essa tecnologia lá, ou seja, a gente ter ela aqui não deixa, não faz com que as empresas não possam operar, sabe?
A gente tá conversando aqui no CBN Madrugada com Jackson Campos, especialista em comércio exterior, diretor da AGL Cargo. Ô Jackson, essa redução das exportações para os Estados Unidos por conta desse aumento da tarifa, a gente tá falando aqui dos impactos para o setor exportador, dos impactos macroeconômicos, mas para a população em geral, para nosso ouvinte, o nosso ouvinte aqui pode pode ter algum impacto? Por exemplo, mercadorias, produtos que não serão exportados nesse primeiro momento e que ficariam aqui no país, com esse aumento da oferta, poderia haver uma redução do preço para o consumidor aqui no Brasil?
É difícil, Galvão, porque muitos dos produtos que não serão exportados, eles são caros para ser vendidos no mercado brasileiro. Primeiro porque a produção é feita num nível de qualidade tipo exportação, e depois porque o comprador paga em dólar. Então é muito mais fácil que a empresa não produza do que produzir e vender para o mercado brasileiro, né? E até possível, né, que alguma coisa já que já esteja produzida acabe no mercado nacional, mas esses produtos já estão voltados para o mercado de lá.
Então já tem rótulos, já tem embalagem, já tem uma porção de características do mercado de lá. Então, quando a gente fala de agronegócio, sim, esses produtos eles podem ser vendidos no mercado brasileiro, mas ao mesmo tempo a empresa que produz nem sempre continua produzindo, justamente porque o preço é muito diferente, né? Agora vamos pensar no seguinte: o Brasil ele é considerado muitas vezes o celeiro do mundo. Eu não concordo, tá?
Eu acho que a gente realmente exporta muito agronegócio, mas o nosso agronegócio ele não é só um produto sem nenhum beneficiamento. Ele tem muita tecnologia, né? A gente tem tecnologia no plantio, na pesquisa, na colheita, no armazenamento, etc. E os Estados Unidos estão acionando uma guerra tarifária com o maior parceiro deles aqui na América do Sul, enquanto o hemisfério oriental lá, né, o Estreito de Ormuz, todo Oriente Médio ele tá em pé de guerra e com a cadeia logística totalmente ameaçada, seja por causa do estreito de Hormuz em si, seja porque o frete internacional da China, isso é importante dizer, tá 4 vezes mais caro agora do que tava no começo do ano lá para os Estados Unidos.
Então a saída que os Estados Unidos tinha de pensar numa alternativa entre China, Índia e até um pouco da Europa, ele pode deixar de lado porque o Brasil acaba deixando de exportar para lá por causa de preço. Então assim, Por um lado, sim, respondendo a sua pergunta, alguns produtos podem ficar mais baratos, mas são poucos, não dá para contar com isso. E por outro, os Estados Unidos deixam de lado uma vantagem competitiva importante que eles teriam em relação ao mundo.
Bom, você me lembrou um aspecto interessante agora no início da sua resposta, essa história de que o produto que é exportado é melhor do que o produto que a gente consome aqui. É isso mesmo? Quer dizer, o café que vai lá para os Estados Unidos, a carne do hambúrguer que vai lá para os Estados Unidos, o suco aquele suco de laranja que vai para lá é de melhor qualidade do que aquele que a gente compra no nosso supermercado aqui, Jackson?
Normalmente, Galvão, as indústrias, principalmente as muito grandes, elas têm produto de todo tipo de qualidade, né? E a gente rotula o produto tipo exportação como sendo mais alto, da mais alta qualidade, porque ele é o produto que paga em dólar, né? Então o dólar estando R$5, por exemplo, hoje é possível você comprar muito mais coisas do Brasil do que o brasileiro consegue comprar com o mesmo dinheiro, né? Então esses produtos de alta qualidade normalmente eles estão disponíveis também para ser vendidos no Brasil, só que eles sairiam muito mais caros.
Então o produtor prefere exportá-lo. Então assim, dá para dizer de maneira muito razoável que sim, na maioria das vezes o produto de mais alta qualidade ele vai para fora, mas não necessariamente porque o produtor deixa no Brasil aquilo que não presta ou aquilo que não é bom. E sim por causa de preço mesmo. Então normalmente quem paga mais leva o melhor, né? E normalmente por causa do câmbio os produtos que vão para fora acabam pagando melhor, e aí por causa disso acabam recebendo um produto de mais qualidade.
O Jackson, aproveitando a sua participação conosco aqui, como é que você tá vendo essa questão aí das terras raras, dos minerais críticos? Já ouvi gente falando aí, né, que pode ser o novo pré-sal. O presidente Lula obviamente tem falado muito sobre essa questão e tem destacado o fato de que quer que o Brasil deixe de ser apenas um exportador, não apenas, mas que reduza a parcela de exportação de commodities. E por isso a gente sabe que lá no Congresso Nacional, na regulamentação das terras raras, minerais críticos, tem lá, né, um teto para se exportar a matéria-prima.
O objetivo é processar esses minerais, é transformar isso em tecnologia para que a gente possa vender produtos com maior valor agregado. Já que isso aí envolve uma tecnologia enorme de chips, de computadores, de celulares. Como é que você está vendo essa área? É realmente uma enorme possibilidade de o Brasil aumentar sua pauta de exportações agregando produtos com maior valor agregado, Jackson?
Olha, Galvão, de fato as terras raras, né, o nióbio e outros produtos ficaram de fora também dessa taxação dos Estados Unidos, porque eles sabem que esse é um suprimento importante para eles lá, para construção de veículos, para construção de chips, como você bem disse, celulares, etc. E eles contam com o Brasil para isso, porque o Brasil é o segundo maior produtor, né, que na verdade é o segundo maior mina de terras raras do mundo depois da China.
Então eles contam com o Brasil para isso, com certeza. E eu concordo que nós deveríamos sim é começar a exportar os produtos já manufaturados. O ponto é que nós não temos indústria para isso, né? Então a gente tem duas opções nesse momento: ou a gente não exporta e segura aí esses produtos aqui no Brasil, ou a gente exporta com o que tem, porque exporta como está, na verdade, né? Porque a gente não consegue da noite para o dia criar todo um polo industrial para manufaturar esses produtos e depois fazer a exportação.
O que nós temos que fazer, e isso é importante, um aspecto importante para o Congresso Nacional levar em conta, é justamente criar uma indústria, né, ou criar uma iniciativa de indústria que possa fazer isso no médio prazo, né. Então as terras raras não serão um assunto que vai acabar agora, né. Então a gente vai continuar exportando esses minérios por muito tempo. Então o importante seria não só limitar a exportação mas também criar uma iniciativa para que a gente possa produzir os materiais que os outros países produzem com essas terras raras aqui no Brasil, coisa que a gente ainda não tem feito, tá, Galvão?
Então eu vejo que sim, elas vão continuar no radar, mas a gente precisa criar alguma coisa para que a gente possa exportar ao mesmo tempo que a gente cria uma iniciativa para produzir aqui.
E para a gente fechar o nosso papo, Jackson Campos, especialista em comércio exterior. É uma questão que me intriga demais, eu vira e mexe eu falo aqui no CBN Madrugada, que é o fato de o Brasil ter uma economia consolidada. A gente tá oscilando aí entre as 10 maiores economias do mundo, a gente tem uma balança comercial nos últimos anos extremamente superavitária. Há 2 anos passou de 100 bilhões de dólares, depois caiu para 90, 70.
Ou seja, a gente, a gente tá vendendo muito mais do que comprando. Muito bom. Porém, a nossa pauta de exportações, como a gente a gente já destacou, ela tem ali praticamente metade, né, focada em commodities, tanto do agronegócio como de petróleo, como também as exportações de minério de ferro. O que fazer para a gente aumentar a nossa parcela de vendas externas? Eu sempre destaco aqui o Brasil, você vai saber ter esse dado aí muito melhor do que eu.
Acho que o Brasil tá em 1,2%, 1,3% do comércio internacional, quer dizer, a décima maior economia do mundo, tem pouco mais de 1% do comércio internacional. O que que falta é por parte do governo, por parte do Congresso, por parte da sociedade, né, das empresas, das indústrias? O que que falta para a gente acelerar essas vendas externas e ter uma maior participação no comércio exterior, Jackson?
Nos anos 80, né, e 90, a gente desindustrializou muito o Brasil, né? Então a gente começou o processo de desindustrialização e depois com a abertura do mercado e abertura para produto da China e da Ásia em si, nós nos tornamos um país importador de produtos manufaturados, né? Então, de fato, a gente, a gente ocupa uma posição muito baixa quando se fala em indústria do comércio exterior, né? A gente importar, exportar. E o Brasil facilitou muito o comércio exterior nos últimos anos.
Antigamente era muito difícil fazer uma importação, exportação. Hoje é muito rápido, tudo eletrônico, muito fácil. Né, apesar da gente ter alguns problemas ainda nos portos e armazéns. Ao mesmo tempo, Galvão, Estados Unidos e China, e junto com Índia, dominam mais de metade desse mercado. Então nós somos pequenos, mas os outros também são muito grandes, né. Então o que nós precisaríamos fazer nesse caso seria tentar competir com China e Índia, e principalmente aquela região da Ásia que muitas vezes também tem o que a gente chama de dumping, né, que é o trabalho forçado, que o Brasil também tá sendo investigado junto com outras 59 nações aí pelo ISAR lá dos Estados Unidos.
Então nós deveríamos voltar a industrializar o Brasil para que a gente pudesse produzir, mas hoje a gente vive um movimento diferente. Nós estamos importando muito mais, muitas empresas estão indo para o Paraguai e Uruguai para fazer triangulação para cá, né, produzindo lá e depois trazendo para cá. E ao mesmo tempo, o que tem ajudado para responder a sua pergunta, esses últimos anos nossa balança comercial é muito também o dólar tá alto, né.
Quanto mais o dólar tá mais a gente vai vender para fora e mais a gente vai ter uma balança superavitária. Então esses fatores, eles contribuem para isso.
Jackson Campos, especialista em comércio exterior e diretor da AGL Cargo. Jackson, obrigado pela participação conosco aqui no CBN Madrugada. Um grande abraço e até uma próxima oportunidade.
Foi um prazer, conte sempre comigo.