Escalada do conflito entre EUA e Irã pode pressionar inflação e juros, avalia economista
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Conversamos com você sobre as ameaças de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Promete retomar hoje o bloqueio naval do Irã. De acordo com a Marinha americana, interdição a todos os portos e terminais petrolíferos iranianos está prevista para começar às 5 da tarde, hora de Brasília. Trump declarou que os Estados Unidos se tornarão os guardiões do Estreito de Ormuz e cobrarão um pedágio de 20% sobre toda a carga transportada pela rota.
O fato é que a retomada dos ataques e as ameaças de líderes nos Estados Unidos e no Irã geram mais tensão na região e trazem forte impacto na economia global. Para conversar conosco sobre esse tema, nós convidamos o professor Rafael Chaves, que é professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV. Professor Rafael Chaves, obrigado pela sua gentileza de nos atender aqui no Jornal da CBN. Um bom dia para o senhor.
Bom dia, Milton Jung. É sempre um prazer estar conversando contigo e com toda a sua audiência.
Professor Rafael Chaves, primeiro impacto que se tem claramente é sempre no mercado de petróleo, e isso já ficou evidente. Há uma tendência disso se espalhar por outros setores da economia?
É, com certeza. Ali é uma rota comercial muito importante, os energéticos que passam por ali. E petróleo é uma, é uma commodity que afeta o preço básico da economia, né? Sobe gasolina, sobe diesel, sobe querosene de aviação. E essa energia movimenta a economia. Se você pensar em preço de frete, por exemplo, afeta de forma importante alimentos e equipamentos que têm que ser transportados dos centros de produções para os mercados consumidores.
Então, sem dúvida, vai ter um efeito na inflação. Só para dar um uma ideia de patamar de preço, se a gente volta lá em 2018 na greve dos caminhoneiros, os combustíveis aqui no Brasil, diesel, gasolina, eles negociavam num patamar de R$4. Hoje esse patamar já tá em torno de R$7, varia de região para região, mas o preço da energia subiu bastante. O mundo para crescer precisa de energia, e nesses momentos onde tem um gargalo ali no no estreito, esse preço aperta ainda mais.
E a expectativa, professor, é que a gente tenha a partir de hoje, além do gargalo, a questão dessa taxa que Donald Trump promete cobrar dos navios que passarem por lá, no valor de 20% do total da carga. Isso também deve somar aí um impacto significativo, né, Cássia?
É, com certeza, se tiver essa taxa, sim. Mas eu acho que a gente tem que olhar isso uma situação de guerra, né, e de desentendimento entre Estados Unidos e Irã. Então eles estão tentando chegar a bom termo, e de lado a lado, tanto Irã quanto Estados Unidos estão alegando o controle do estreito. O Trump, ele antes de ser político, ele sempre foi empresário, né, negociador. Então a impressão que eu tenho é que ele usa essas declarações muito mais como uma uma ferramenta de negociação e para dizer que o Irã não deve controlar ali o estreito, né?
Então ali são águas internacionais, né? Ninguém deveria controlar, deveria ter um acerto de um órgão multilateral, tipo Organização Mundial do Comércio, para fazer as regras. O problema é que a gente está numa situação atípica de guerra, Estados Unidos e Irã, e de lado a lado cada um tá puxando a brasa para o seu lado. Então eu não acredito que quando a guerra terminar a gente vá ter uma tarifa elevada dessas de forma permanente.
Mas claro que quando tem esse tipo de declaração, os preços, os preços eles se movimentam, as expectativas se formam. Então é para os próximos, para as próximas semanas a gente pode esperar o petróleo, tava olhando aqui de manhã, já tava próximo de $90. Então a gente pode esperar tempos mais difíceis no curto prazo.
Voltar aquele patamar dos $100 que foi superado no início do conflito?
Eu acho que pode sim, né? Commodity é muito volátil e se não houver um entendimento, né? O problema é que tá, é, cada dia tem uma notícia, né? A paz voltou, agora estamos em guerra, estamos em paz, estamos em guerra. Então os preços eles estão oscilando aí de acordo com a com a temperatura das negociações entre os dois países. Mas sim, Milton, se tiver uma guerra prolongada, a gente pode— não tem limite superior, o preço pode subir até mais, né?
Começar a acabar estoque estratégico. Como eu falei, o mundo para crescer precisa de energia, e a energia principal hoje que a gente consome é petróleo.
E aí a gente tá falando num cenário de inflação, como o senhor mencionou agora há pouco, Inclusive aqui no Brasil, em que recentemente nós tivemos até um índice favorável em relação aos últimos meses. Mas isso pode mudar rapidamente dependendo do que acontecer entre Estados Unidos e Irã.
Perfeito, Cássia. Já tá acontecendo há um tempo atrás, vamos colocar aqui 3 meses atrás, você via bancos centrais no Brasil, Fed, discutindo talvez uma redução de juros. Essa conversa tá ficando cada vez mais distante, né? Tá se falando agora em manutenção de juros, já tem diretor no Fed que fala inclusive em elevação, e aqui no Brasil também, porque isso acaba batendo na inflação. A inflação às vezes ela se manifesta de forma defasada, demora um pouco para bater no preço, mas vai, vai bater nos preços de forma generalizada.
Eu não tenho muita dúvida que o cenário de política monetária no mundo mudou para manutenção ou elevação. Eu acho que na medida em que, apesar da gente ter tido recentemente um IPCA um pouco melhor, o fato do preço da energia tá subindo tanto, incertezas relacionadas à guerra, e ainda tem as tarifas de comércio internacional que estão sendo discutidas, eu não tenho muita dúvida que a gente vai, vai ter pressão inflacionária. E não dá para contar com a possibilidade do Banco Central reduzir juros.
Todo mundo que é um juros menor. Eu acredito que os próprios executivos do Banco Central querem reduzir juros, só que não dá para fazer isso de forma irresponsável. A nossa inflação tá acima do teto da meta nos últimos 12 meses, então não tem espaço para essa redução.
Quer dizer, você trouxe aqui para nossa conversa porque são coisas que se somam. Nós estamos falando inicialmente do conflito Estados Unidos e Irã, impacto que isso tem na economia, principalmente em função do aumento do preço do petróleo, e claro causa instabilidade de bolsas, dólar também. Agora, você também tá trazendo para cá a questão das tarifas, que nós estamos aí às vésperas da determinação feita pelo governo americano, que também vão trazer um adicional, né, de preços nesse cenário. Por isso essa preocupação maior.
Com certeza, Milton, é o que a gente chamava de tempestade perfeita. Ontem eu vi um economista falando alinhamento das estrelas do mal, achei até engraçado, mas no fundo é uma coincidência, né, porque A gente tá tendo a subida do preço de energia. A gente aqui no Brasil tá indo para um cenário eleitoral onde eu não sei o que que tá acontecendo aqui com os economistas do Brasil, que a gente não discute o fiscal com a urgência que deveria discutir.
Todo mundo fala, não, mas no ano que vem resolve. Então assim, a nossa, a nossa conta fiscal tá muito frágil. Brasil aumentou em 10% a dívida PIB nos últimos 2, 3 anos, tá em 80% do PIB, sem perspectiva de melhorar gasto. Então fiscal dilacerado, preço da energia subindo demais e guerra comercial, com essa perspectiva de amanhã Estados Unidos talvez usar a Seção 301 para elevar em 25% a tarifa de alguns produtos importantes para Brasil.
Quando a gente soma tudo isso ao mesmo tempo e a nossa inflação já tá rodando acima do teto da meta, eu acho que que é algo que demandaria muita urgência de ser resolvido. Eu vejo o cenário inflacionário no Brasil com bastante preocupação. A inflação foi algo que perturbou. Quem já tem um pouquinho mais de idade sabe que na década de 80, no comecinho da década de 90, machucou muito os brasileiros. E a gente conseguiu, com o Plano Real, trazer de novo a inflação para um dígito no ano, né, algo menor do que 10% ao ano.
E a inflação tá caminhando já para próximo de de 6% ao ano, portanto bem acima da meta que é de 3% ao ano. Então é bastante preocupante. Eu não gostaria de ver o Brasil revisitar aqueles cenários de inflação mais elevada.
E professor, dá para pensar em alguma alternativa, mesmo que parcial, em termos de rota para o Estreito de Ormuz?
Isso já tá sendo feito, Cássia. Já tem o que o pessoal fala de capilaridade, né? Todo aquele petróleo da região, ele acaba escuando por algum lugar, vai ali pelo Mar Vermelho, às vezes vai por terra, sai por cima. Então os mercados eles se adaptam e se ajustam. Isso talvez foi bom você ter trazido esse ponto, é sempre que se você tem uma crise, em geral quando você supera ela você sai mais forte da crise. Então talvez isso já tá sendo feito, isso seja um legado positivo dessa crise.
As empresas, os mercados, eles vão aprender novas rotas, novos polos de oferta. Então tem esse lado positivo. Talvez os próximos investimentos já procurem olhar para contornar esse tipo de problema. O que vai acontecer não é que vai faltar o produto, que não vai ter petróleo, ele fica mais caro, né? Porque ali você tem a facilidade ali de pegar o estreito, a embarcação passa por ali muito próximo onde dos portos onde você tem a chegada do petróleo e de alguns derivados também.
E você sai ali de forma mais barata, né? Então o que vai ter é um custo um pouco mais elevado, mas já tem solução alternativa. Sobre solução alternativa, se a gente olha aqui para o mercado de gasolina no Brasil, por exemplo, a gente construiu ao longo da— conseguiu construir ao longo de décadas muitas alternativas, né? Hoje a gente tem etanol, carro flex, carro elétrico, gasolina. Então quando você constrói alternativas você consegue passar pela crise de forma mais tranquila.
Então a impressão que eu tenho é que já está, já estão sendo construídas alternativas para contornar a crise no Estreito do Ormuz. Ninguém quer ficar dependendo do humor de Irã e Estados Unidos e dessa guerra que termina, não termina, todo dia uma notícia nova. E quem tá fazendo negócio, quem tá comprando e vendendo combustível, não pode ficar à mercê de notícias quase que diárias sobre a evolução da guerra.
Professor Rafael Chaves, obrigado pela sua análise aqui no Jornal da CBN. Um bom dia.
Obrigado, Milton. Obrigado, Cássia. Todos os ouvintes, um bom dia para vocês.
Rafael Chaves é professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças, da FGV. Conversou com você agora.