Episódios de Economia

Como a IA passou a se tornar uma decisão estratégica das empresas

20 de junho de 202625min
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No Mundo Corporativo, Mílton Jung entrevista Ricardo Mucci, presidente da Cisco Brasil. Ele fala sobre os impactos da IA na estratégia das empresas, no mercado de trabalho e na segurança digital.

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Participantes neste episódio2
M

Milton Jung

HostJornalista
R

Ricardo Mucci

ConvidadoPresidente da Cisco Brasil
Assuntos7
  • IA e segurança digitalPreocupação com imagem e perda de receita · Proteção contra sequestro de informações · Uso de IA para análise de vulnerabilidades · IA para prevenção e detecção de ataques em tempo real · Supervisão humana e questões éticas em IA
  • Valorização da empresa e estratégiaIA como diferencial competitivo · IA nativa e essencial para o crescimento · Cibersegurança como preocupação estratégica · IA generativa vs. IA agêntica
  • Futuro do TrabalhoIA como ferramenta de fortalecimento profissional · AI Workforce Consortium · Treinamento e capacitação para o mercado futuro · IA como copiloto no dia a dia
  • Papel da Cisco na infraestrutura de IACisco como backbone de redes globais · Preparação de infraestrutura para IA agêntica · Infraestrutura de cibersegurança · IA contra-ataque em cibersegurança · Gestão e governança de IA
  • Instalação Definitiva da Sinovac no BrasilBrasil na vanguarda da utilização de IA · Casos de uso em saúde · Casos de uso em educação · Casos de uso em mineração e petróleo · Maturidade da IA nas organizações brasileiras
  • Erros na aceleração digitalFalta de infraestrutura robusta · Visão departamental da IA · Infraestrutura de rede híbrida e complexa · Falta de integração entre rede e segurança
  • Custo e Modelos de IAAumento de custos operacionais com IA · Consumo de GPUs e impacto na cadeia de suprimentos · Racionalização do uso de tokens · Infraestrutura híbrida (nuvem e data center próprio) · TCO (Total Cost of Ownership)
Transcrição33 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

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MJMilton Jung

Olá, tudo bem com você? Seja muito bem-vinda, seja muito bem-vindo a mais um capítulo do Mundo Corporativo, que hoje se dedica a falar sobre transformação digital e sistemas de inteligência artificial para as empresas. Nosso convidado é Ricardo Muti, presidente da Cisco Brasil. Ricardo, muito obrigado pela sua gentileza de ter aceitado o nosso convite aqui no Mundo Corporativo. Um bom dia.

RMRicardo Mucci

Bom dia, Milton. Obrigado pela oportunidade, uma honra estar aqui com você conversando e discutindo sobre um tema tão importante. Bom, se os ouvintes também, espero que todos tenham bom proveito aqui desse bate-papo.

MJMilton Jung

Falei em transformação digital, durante muito tempo se imaginava o tema da transformação digital como compra de tecnologia. De verdade é algo muito mais amplo, há uma questão até cultural que passa por isso. O que as empresas que realmente se transformaram digitalmente fizeram ou estão fazendo?

RMRicardo Mucci

Excelente pergunta. Do ponto de vista prático, existe um modelo de modernização da indústria, das empresas, de uma forma ampla e plena ao longo de décadas, né? Agora, sem dúvida nenhuma, os últimos 5 anos trazem um modelo de exponencialização dessa transformação digital de uma forma muito mais ampla. Obviamente que houve ali uma questão de uma aceleração por conta do momento pandêmico, né, da digitalização das empresas, Mas agora, com o advento da inteligência artificial e a migração de uma inteligência artificial que sai do modelo de chatbots ou até do modelo generativo, aonde você tem uma consulta e resposta, o Copilot, para o modelo de agêntica, isso traz uma revolução estratégica nas companhias.

Você sabe, Milton, que numa recente pesquisa aí de uma das quatro Big Four, das quatro grandes aí na área de consultoria, citam que os CEOs agora passam a ter duas grandes preocupações elencadas ao seu crescimento de receita. O primeiro delas relacionado à tecnologia aplicada ao seu negócio, em especial a parte de IA, ou seja, IA deixa de ser algo adicional, um luxo, e passa a ser algo nativo, essencial para o crescimento daquela companhia.

E o outro ponto crítico, pasme, é a questão ligada à cibersegurança. Cibersegurança agora para esses CEOs deixa de ser uma relação única e exclusiva ligada à imagem, mas também a uma potencial perda de receita. Então é emocionante e é obviamente preocupante aí para alguns lados de algumas empresas, questão de como a AI e a cibersegurança passam a influenciar no seu negócio, mas por outro lado, um caminho amplo e vasto também de crescimento e de transformação.

MJMilton Jung

Qual é o trabalho ou qual é o papel da Cisco nesse ecossistema?

RMRicardo Mucci

Bom, a Cisco é uma empresa que na sua origem construiu todo o backbone, todas as redes de telecomunicações de internet do mundo. Mais de 80% de um tráfego de internet do mundo passa por algum tipo de solução ou equipamento da Cisco. Hoje em dia, a Cisco faz parte dos backbones de grandes operadoras. 90% dos data centers de grandes bancos, indústrias, varejo, mercados de mineração do país hoje utilizam tecnologia Cisco no seu data center.

E o papel que a gente passa a exercer agora em cima das corporações é justamente preparar essas companhias justamente para essa nova visão de infraestrutura ou para suportar essa infraestrutura de ar que tá por vir. Você sabe que até então os modelos de quanto é utilizado, quanto viria de carga produtiva em cima de redes, ele é algo mensurável. Havia uma tendência, inclusive com o advento dos streamers, né, que a gente vê com uma grande potencialização de uso de banda de rede, aí ainda assim existia uma uma potencial visão de medição de quanto seria isso, uma previsibilidade.

A verdade, Milton, que quando a gente olha agora para o contexto de AI, em especial AI agêntica, aonde dois agentes sem toque humano passam a interagir, troca de informações, consultas e inferências sem consulta humana, isso traz uma visão de crescimento exponencial da rede que nós não temos uma visão ainda plena e absoluta de que vai ser. Então o papel nosso aqui da Cisco é justamente preparar essas infraestruturas em primeiro lugar, para que elas suportem essa visão, esse crescimento.

Segundo lugar de tudo isso: criar uma infraestrutura de cibersegurança ampla, plena e absoluta. E aí ela pode ser usada para muitas coisas boas, né, Milton, mas também para muita coisa ruim. Os maus elementos têm utilizado a carga de A como elemento fundamental na visão de ataques, descobertas de falhas de segurança em aplicações e soluções que não eram dispostas ou não eram tão vistas anteriormente. Então, capacitar as companhias, habilitá-las para que eles tenham ali capacidade de IA também contra-ataque é o outro fundamento importante que nós estamos colocando.

E por final, mas não menos importante, fazer a gestão, a governança de tudo isso em uma visão de plataforma única, robusta e também com a utilização de IA.

MJMilton Jung

Você falou de empresas que aceleraram esse processo de digitalização e boa parte das empresas foi levada a isso? No período da pandemia. Pergunto a você até pela experiência que vocês têm atuando com os diferentes setores da economia. Quais foram os erros que devem servir de alerta de uma maneira geral para as empresas quando passam por esse processo de aceleração digital?

RMRicardo Mucci

Bom, primeiro ponto que eu acho, não sei se pode, óbvio, uma questão de erro, mas tem uma questão de percepção na construção e alguns bloqueadores, vamos dizer, no crescimento dessa infraestrutura. De novo, o primeiro deles é ter uma infraestrutura robusta para isso. Segundo ponto que eu acho que vale a pena ressaltar, e a gente viu isso um pouco na época da pandemia, porque da noite para o dia passou-se a ter que fazer um trabalho de forma remota, mas é ter a visão da construção da sua infraestrutura de rede.

E essa infraestrutura de rede hoje é uma infraestrutura híbrida, complexa, distinta. Eu costumo dizer que não existe aplicação na nuvem, não existe nuvem se não existe rede. A rede é o fundamento elementar de tudo. A infraestrutura é necessária para tudo. Então, acho que o ponto de inflexão de antes, que tem sido algo um pouco mais discutido agora, é esta camada de infraestrutura de rede fundida, fundida com a parte de segurança.

O outro ponto importante, de novo, é trazer a visão de concepção e construção da sua IA para um modelo mais estratégico da corporação. A gente viu nos últimos anos, em especial, uma construção de soluções de IA em níveis departamentais. E óbvio, ganhos de produtividade foram alcançados, aumentos de receita em alguns casos para questões pontuais. Mas agora parte da visão da construção para esse crescimento, para essa transformação, saca a visão daí do departamento e leva a questão da construção daí para o modelo de estratégia da companhia como algo fundamental, discutida e detalhada em nível de board da companhia.

Então, o grande ponto de mudança, eu acho, de crescimento é justamente sair desse mundo departamental, levar a discussão para um nível estratégico da companhia e construindo isso já em cima de alicerces robustos, em especial na parte de cibersegurança.

MJMilton Jung

Alguma aplicação de IA que você já tem acompanhado, que você viu recentemente e passou com aquela ideia: "Cara, isso aqui vai transformar o negócio"?

RMRicardo Mucci

Olha, eu acho que a gente tem vários casos de uso hoje sendo aplicados no dia a dia. Um ponto importante, viu Milton, é a gente às vezes tem um pouquinho da síndrome do cachorro vira-lata aqui no Brasil, né, e eu sou muito orgulhoso de ser brasileiro, sou filho da educação pública no Brasil e sou orgulhoso do que a gente faz aqui. Claro que nós temos problemas, eu também não vejo o Brasil, por exemplo, como exponencial criador de tecnologias de chips, por exemplo, para tecnologias como IA.

Por outra forma, olhando de um cenário bem mais otimista, o copo cheio dessa história, o Brasil hoje tá na vanguarda na utilização de IA. Nós, do ponto de vista do mundo, somos mais capacitados e temos muito mais casos de uso, estamos mais avançados na adoção da tecnologia de IA que outros países gigantes do mundo. Isso é muito interessante. Vou pegar um exemplo aqui de discussão que a gente tava batendo papo esses dias, né? Hoje nós temos casos de uso de empresas que nós apoiamos e aceleramos e levamos toda a parte de cibersegurança no que tange à questão de melhoria no atendimento da saúde.

Então você vê o seguinte: uma pessoa chega no ponto de atendimento, toda a parte de captura das informações vitais dela são feitas ali de forma oral, capturados pela IA já, toda a visão de anamnese daquela Chegada do paciente, encaminhamento para o médico já com todo um relatório de potenciais problemas ou casos de saúde, inclusive recomendações médicas ou de exames para aquele médico já sair acelerando o seu atendimento. Veja, no final do dia quem vai assinar o negócio é o médico, sempre vai ser assim, né?

Esse é um ponto da capacidade humana que a gente não pode perder. Mas é um caso de uso, acho espetacular, porque você começa a exponencializar o atendimento. Pega um país tal qual um sistema de saúde amplo e absoluto como é o nosso, que é muito bom, mas que existe uma fila muito grande no atendimento, conforme a gente pode acelerar isso, em especial consultas com especialistas, isso é um grande avanço. E a gente acha, eu acredito que o Brasil tem avançado bem nisso, enfim, esse é um dos casos de uso.

Tem casos de uso na educação, tem casos de uso na mineração, tem caso de uso, exploração de petróleo, óleo, enfim, tem vários casos aí.

MJMilton Jung

Tem estudo da Cisco que mostra que um grupo pequeno de empresas tem resultados muito superiores quando aplica inteligência artificial. O que que essas organizações entenderam antes das demais?

RMRicardo Mucci

Eu acredito que eu volto um pouquinho na retórica que eu tava aqui anteriormente, é aplicação da visão da IA em modelo estratégico da companhia e não modelo mais departamental. Empresas essas que começam a estruturar a sua visão e tem como parte da estratégia de crescimento a implementação e a tecnologia e com a IA abordada, discutida, amplamente colocada na discussão, são aquelas que avançam mais. Você sabe que tem visto casos interessantes aqui, eu não vou citar o cliente especial, mas eu vi aqui, por exemplo, e tenho visto agora, por exemplo, ascensão de CIOs, diretores ou vice-presidentes de tecnologias, a posições de CEOs, de presidentes de empresa, ou seja, A tecnologia com a IA passa a ser algo tão fundamental nas companhias e nas organizações que ela assume um papel tão estratégico que posições que eram lideradas ali na área de tecnologia passam a liderar a corporação de uma forma um pouco mais ampla e absoluta, né?

A gente viu um caso recente aqui no Brasil, 2 anos atrás, de um grande agente financeiro, né, uma instituição, um banco fazendo essa movimentação, pegando o seu CIO e transformando ele no CEO da companhia. Então, empresas que têm colocado a estratégia da companhia caminhando de forma conjunta com a tecnologia e a IA têm avançado de forma mais robusta e ampla nessa questão de avanço.

MJMilton Jung

E qual é o nível de amadurecimento desse tema dentro das organizações aqui no Brasil?

RMRicardo Mucci

Você sabe que hoje 66% das companhias do Brasil, um estudo recente que nós fizemos, já tem ali uma implementação, um início ou uma maturidade boa de utilização da IA dentro das suas estruturas. Então, de novo, o Brasil, ele caminha assim na vanguarda na autorização desse negócio, está à frente de outros países, tem desenvolvido muita coisa boa. Quando a gente sobe na camada de aplicação, casos de uso seletos— eu tive agora em Nova York na semana do Brasil Week, e é emocionante ver a quantidade de startups, de empresas desenvolvendo soluções em cima de IA.

Gerando valor no mercado e gente nova, viu, Milton? Tem uma meninada boa aí de 30, 40 anos, um startup já faturando aí seus milhões de reais por ano e é algo muito interessante, né? E quem sabe alguns unicórnios acontecendo daqui para frente. Mas é isso, do ponto de vista prático, a utilização de AI nas companhias tem crescido, algumas ainda em nível departamental, mas a gente já vê uma visão de crescimento muito forte para parte de estratégia da companhia. Resta saber o quanto o custo disso gera o benefício.

MJMilton Jung

E como é que se faz esse cálculo?

RMRicardo Mucci

É importante, sabe que uma das discussões que a gente coloca hoje em dia e muito do que a gente escuta dos clientes é o seguinte: olha, é um caminho sem volta, o uso da IA não é luxo, o uso da IA é algo necessário, é vital para o meu negócio. Agora, eu tenho tido aumentos em escalas grandiosas os meus custos do ponto de vista de operação e de uso dessas tecnologias. É fato, né? Bom, a gente vive aí um crescimento muito grande do consumo de GPUs, que são os processadores especializados nessas cargas de IA, uma dominância quase que plena e absoluta de um único fabricante do mundo desse tipo de tecnologia, que já impacta inclusive o setor de tecnologia de uma forma ampla, principalmente na parte de memórias, aumentando custos de memórias, enfim, uma cadeia de suplência sendo afetada por isso.

Agora, quando a gente olha essa capacidade de GPUs e o consumo disso, o custo disso, muitos clientes começam a entender que existe uma necessidade de racionalização ou melhor uso inteligente dessa tecnologia. Hoje a gente fala do uso de tokens, né, que são as chamadas de de uma forma mais racional e eficiente. Tem uma brincadeira muito grande que a gente faz assim: não dê bom dia para IA, porque na hora que você der bom dia para ela, ela vai te responder, você vai consumir um token ali, né?

Então o ponto é como você construir sua infraestrutura ou usar essa infraestrutura de forma sábia e eficaz. E muitos clientes nossos, principalmente os grandes clientes, viu, Milton, tem já feito uma visão de mescla híbrida, ou seja, consome GPUs na nuvem com os hyperscalers do mercado, mas alguns já começam a construir a sua própria infraestrutura de IA dentro dos seus data centers para tentar fazer uma melhor visão de TCO, de custos versus retorno para uso dessa tecnologia.

MJMilton Jung

E aí eu estou vendo aqui que a gente está falando de ter uma definição muito clara da estratégia que a empresa tem, até para saber como fazer esse uso mais eficiente, e também da infraestrutura que está sendo oferecida por aquela empresa para que possa sustentar todo esse trabalho de inteligência artificial. Voltando a um tema que você já tinha chamado atenção logo no início dessa nossa conversa, que é como trabalhar essa infraestrutura, ter capacidade para isso também faz parte do investimento.

Quem achar que só investe no agente e deixa de investir na infraestrutura vai acabar enfrentando algum tipo de barreira.

RMRicardo Mucci

Sem dúvida nenhuma. Eu vou dizer para você o seguinte, que é um, de fato existe uma questão de de uso, de investimento necessário. Cisco colocou aí a visão dos resultados da companhia no Q3, foi divulgado agora há um mês atrás, foi recorde de receita da companhia justamente por crescimento exponencial de aquisição de infraestrutura para essa parte de IA. Ou seja, não tem muito como fugir disso, até porque quem não o fizer, Milton, no final do dia vai ficar para trás e pode morrer.

Então, tomar a decisão de não fazer nada é a pior decisão possível. Então, precisa sim, as empresas precisam olhar isso com carinho, fazer sua visão, fazer seus TCOs. Nós da Cisco temos toda a parte da infraestrutura de criação do data center do nosso cliente, da modernização desse data center do cliente. Existem tecnologias de nuvem, eu digo que não é ou um ou outro, é um e outro. É um ou outro, um e outro, desculpa, olhando esse cenário e construção de um modelo híbrido na utilização dessas tecnologias.

MJMilton Jung

Qual é hoje a principal preocupação das empresas quando falamos em AI e segurança digital?

RMRicardo Mucci

Primeiro, imagem, né? Externalização, problema de imagem que pode acontecer com essas companhias. O outro ponto importante nessa questão é como me proteger, porque hoje a questão da visão é a relação do prejuízo que pode acontecer E o prejuízo ele vai acontecer de um lado por questões de, por exemplo, sequestro de informações, aonde essas empresas depois precisam pagar uma fortuna para poder ter seus dados de volta. Existe hoje uma questão muito importante na parte de utilização de IA para essa questão de proteção.

Existe um projeto inclusive da Antropic chamado Cloud Mythos, que é um projeto aonde essa IA foi desenvolvida justamente para análise de vulnerabilidade das plataformas globais de tecnologia. São 11 empresas que participam desse grupo, a Cisco é uma delas, que tá utilizando a SLLM justamente para analisar vulnerabilidades. Então, é parte das companhias hoje olham essa visão com preocupação porque justamente é o impacto na companhia na frente, ele pode ser de imagem, ele pode ser de sequestro de dados e ter que pagar uma fortuna para isso, para fazer recovery, e posteriormente também perda de receita que pode acontecer caso ele seja atacado.

MJMilton Jung

E eu penso muito, até pegando um exemplo que você já comentou conosco aqui, à medida que você começa a colocar agente de IA conversando com agente de IA e a participação do ser humano perde, ou pelo menos a observação do ser humano fica de lado, e se isso não pode gerar uma insegurança digital para as empresas quando você simplesmente entrega todo esse processo para os agentes.

RMRicardo Mucci

Você sabe que, se me permitir aqui, uma questão de uma contextualização um pouco distinta dessa, Milton. Vou pegar aqui um exemplo de um analista de segurança cibernética, né, que trabalhava ali na companhia. Aquele profissional, ele no momento comum do dia a dia, quando sofria um ataque, geralmente ele sabia que estava sofrendo um ataque depois que sofreu o ataque. Então, a partir dali, ele começa a fazer a correlação de informações de várias fontes distintas para tentar entender de onde veio aquele ataque.

Depois ele começa a tentar entender como é que ele vai mitigar aquele ataque e resolver o problema. O advento da IA e dos agentes da IA trazem a capacidade de que ele pode fazer a gestão disso de uma forma muito mais ampla, a prevenção daquele ataque, a percepção do ataque em tempo real e a tomada de decisão em tempo real mediante um ataque acontecendo. Então aquele profissional que outrora ficava correndo atrás do apagar um fogo passa agora a ser um gestor de visão futura de como é que ele se prepara melhor para aquilo utilizando os agentes de IA.

E veja, os agentes de IA, eles vão atuar de uma forma dinâmica para melhorar, para agilizar, para trazer produtividade, para fazer negócio, mas sempre com uma visão de supervisão humana. Essa é a nossa visão de concepção quando a gente constrói plataforma. A visão da Cisco hoje, inclusive lançamos agora uma nova visão chamada Cisco Secure AI, que é justamente dar a visibilidade, controle em tempo real, a visão humana do que um agente está fazendo.

Se ele está acessando a base correta, se ele é ele mesmo, se não está tendo uma questão de roubo da sua identidade, se ele não está alucinando, se ele está acessando uma base de contexto correta. Então ter a visão do humano observando isso é algo importante. Fora as questões éticas também, né Milton? A gente precisa garantir que ali as questões éticas estejam muito bem e de compliance aportadas em cima desses LLMs.

MJMilton Jung

Ricardo, muitas pessoas temem inclusive perder espaço para inteligência artificial, mas você já está mostrando para nós que há profissionais que tendem a ganhar relevância nesse novo cenário.

RMRicardo Mucci

Sem dúvida nenhuma. Um ponto importante, a Cisco agora lançou um negócio, um consórcio na verdade, chama AI Workforce Consortium. Esse consórcio foi criado pela Cisco junto com outros grandes players do mercado: Google, Microsoft, Accenture, enfim, outras empresas, com foco na área de tecnologia da informação e posições acessórias ali a esse time de tecnologia da informação, como jurídico, contas a pagar, receber, financeiro. Justamente olhando e observando qual é a visão de treinamento, como preparar essas pessoas para esse mercado de trabalho futuro usando a IA.

Você sabe que, base dessas informações, a gente fez uma pesquisa interna na Cisco. Os maiores utilizadores de tecnologia de IA dentro da Cisco hoje não são as pessoas que estão ali no meio da carreira, são os mais jovens e, pasmem Milton, os mais antigos, pessoas com mais de 20 anos de companhia. E aqui tem sido uma base de referência de criação do contexto de utilização por, o conceito de manada, mas por exemplo, dando exemplo para os outros.

Então parte da visão do consórcio e todo o arcabouço criado ali por ele é justamente entender como é que a gente treina essa força de trabalho para que as pessoas possam evoluir e crescer na utilização das suas tarefas usando IA. A IA vai fortalecer o uso. Vai perder o trabalho, Milton, possivelmente não aquela pessoa que não saiba nada de IA ou que não conhece o negócio, mas vai perder para aquela pessoa que esteja utilizando melhor as plataformas de IA para usar o seu dia a dia, para serem copilotos no seu dia a dia e na execução dos seus trabalhos.

MJMilton Jung

E eu sei que o tema da educação é um tema muito grato para você. Aliás, você em determinado momento aqui dessa nossa conversa já chamou atenção que você é filho do ensino público. Exato. Curso técnico, ou seja, começa a sua carreira por aí. Quando você percebeu que a educação ela era fundamental na sua transformação profissional?

RMRicardo Mucci

Então deixa eu voltar um pouquinho mais atrás, na década de 70, quando eu nasci. Eu sou filho de uma docente, de uma professora. Minha mãe foi professora de escola pública do ensino municipal da cidade de São Paulo e nasci numa um bairro simples aqui de São Paulo, da Zona Norte de São Paulo, no Jaçanã, eternizado ali pela música, né? E nós morávamos num conjunto habitacional, eu sou gêmeo, eu tenho um irmão gêmeo e mais um irmão mais novo, e nós morávamos ali, e minha mãe, professora, falava assim: olha, só tem uma coisa que vai mudar sua vida, é a educação.

E sempre foi muito rígida, muito forte ali nessa questão. Então isso pra mim, desde a minha da minha adolescência, da minha infância, sempre foi uma questão de conceituação muito forte da educação. E aí depois, quando eu cheguei ali no segundo grau, meus 15 anos, eu passei ali no vestibulinho num colégio chamado Professor Horácio Augusto da Silveira, uma ETE, uma Escola Técnica Estadual, conhecida ali na época como Industrial.

E ali eu comecei minha jornada de educação na parte de eletrônica, eu fui fazer eletrônica ali naquele colégio. E graças àquela educação pública ali, meu primeiro ano no colégio técnico, eu consegui meu primeiro emprego, um estágio na Faído Olivetti, trabalhando dentro de uma área de automação bancária. Olivetti fabricava máquinas, calculadoras, e tinha uma área de serviços muito forte na área de automação bancária, dando manutenção em terminais.

Lembra dos terminais bancários, aqueles monitores de fósforo verde na época ainda?

MJMilton Jung

Ou seja, já se falava em transformação digital lá, né?

RMRicardo Mucci

Sim, sim, né? Então comecei trabalhando ali e foi ali que eu entrei na área de tecnologia. Então passaram-se ali mais de 30 anos, né, desde aquele meu primeiro emprego. Completei 30 anos o ano passado de carreira e nunca mais larguei a área de tecnologia, né. Dali eu passei por outras grandes empresas, corporações, trabalhei na Telefônica, Vivo, depois fiquei alguns anos na IBM, que foi uma baita de uma escola. Passei por outras empresas de tecnologia, como Oracle, até de chegar aqui na Cisco para liderar, em princípio, ali a área de setor público da companhia e depois alçado à presidência.

MJMilton Jung

Ricardo Monte, muito obrigado pela sua experiência compartilhada com os nossos ouvintes aqui no Mundo Corporativo. Muito obrigado e até uma nova oportunidade.

RMRicardo Mucci

Muito obrigado pela oportunidade, é um prazer estar contigo. Conte comigo sempre, um abraço a todos aí.

MJMilton Jung

Muito obrigado. Ricardo Monte, presidente da Cisco Brasil, foi o nosso convidado no Mundo Corporativo. Essa entrevista completa você tem à sua disposição no canal da CBN no YouTube, no site cbn.com.br, tá no Spotify também, ou no podcast mais próximo do seu celular. Lá no meu blog, miltonjung.com.br, Jung você escreve com J-U-N-G, você tem os destaques desse nosso bate-papo, tem o vídeo à sua disposição e também o espaço para deixar a sua Opinião.

Colaboraram com este Mundo Corporativo: Carlos Greco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gobiotti. Até o próximo capítulo do Mundo Corporativo.

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