Brasil tem até setembro para provar que não usa antibiótico em animais e voltar a exportar para UE
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Débora
Cássia
Cassiano Ribeiro
Fernando
Guilherme Muniz
- Exportação de carne para UEUso de antibióticos em animais · Monensina · União Europeia · Mercosul · Brasil
- Acordo Mercosul-UETarifa zero para frutas · Acordo comercial · Cooperação política · Vladimir André Müller · Apex Brasil
Agora a gente aciona o Fernando Andrade, que está em Bruxelas a convite da União Europeia para discutir o acordo entre Mercosul e a UE. Fernando, boa tarde.
Oi, boa tarde, Nadede, boa tarde, ouvintes.
Fernando, a gente tem acompanhado aí nos últimos dias algumas informações que preocupam o mercado brasileiro em relação ao tema da exportação de carne, né, alguns requisitos tem possibilidade da gente não poder mais exportar carne para esse mercado que é tão importante?
Sim, Nadège. Se até o dia 3 de setembro o Brasil não provar que não usa um determinado tipo de antibiótico na cadeia produtiva animal, o país sai da lista de parceiros que podem exportar para a União Europeia. O bloco suspendeu o Brasil no dia 12 de maio, coincidentemente 10 dias após a assinatura oficial do acordo entre Mercosul e União Europeia. E esse é um mercado que gira em torno de $28 bilhão de dólares ao ano. Esse é o montante de proteína animal que o Brasil exporta por ano para a União Europeia.
A gente tá falando de carne bovina, suína, aves, pescados, leite, até o mel entrou nessa história. E a regra da União Europeia é de 2019. Lá em 2019, o bloco decidiu banir o uso de antibióticos para o crescimento do animal, com o objetivo de evitar a resistência humana a esse tipo de antibiótico. E a discussão que envolve o Brasil É o uso da monensina, que a monensina como um aditivo para o crescimento do animal. Antes, aí quando eu tava no Brasil, já tinha conversado com Bruno Capuzzi, ele é pesquisador do INSPER Agro Global, para explicar o que que isso significa.
Ela é um modulador de fermentação animal, ela é para tratar questões gastrointestinais do animal, é uma substância veterinária, uso veterinário dela não tá proibido, ela é uma substância que a União Europeia usa, que a União Europeia autoriza utilizar. O que está proibido é o uso da monenzina como um suplemento alimentar, que ela também pode ser usada e ela é utilizada em alguns casos junto à alimentação para induzir o crescimento, para induzir a engorda do animal.
Então a monenzina veterinária não está proibida, mas a monenzina como um aditivo à alimentação está sim proibida. E era esse caso que o Brasil usa como suplemento alimentar.
Ou seja, Nadede, não é uma questão sanitária, é uma questão agora de protocolo. Basta provar que o animal não usou esse antibiótico desde o nascimento, mas não é um protocolo fácil. Quando o protocolo é de não uso, ele é mal, ele é bem, bem mais complicado. Para o porta-voz da direção-geral do comércio da Comissão Europeia, Olaf Guil, o Brasil, sendo o maior exportador de carne do mundo, sabia das regras e agora precisa correr.
Isso não é novidade, isso é conhecido há muito tempo, e o Brasil, como um dos principais exportadores globais de alimentos, está plenamente ciente disso. Mantemos um diálogo constante e construtivo com as autoridades brasileiras, e assim que houver comprovação de que os sistemas atendem aos requisitos estabelecidos, as exportações poderão ser retomadas. Bem, o Ministério da Agricultura do Brasil e a Direção-Geral da Saúde e Segurança Alimentar da Comissão Europeia já estão em negociações.
A União Europeia não é um mercado assim na média grande, ele é o terceiro maior mercado para carne brasileira, fica atrás de China e Estados Unidos. Mas é um mercado considerado premium que serve de vitrine para o Brasil. Você que morou muito tempo na Itália, você conhece a Bresaola?
Sim, sim, a Bresaola.
Bresaola, desculpe. Então a Bresaola tem uma questão muito importante. Estava falando com um produtor do norte da Itália porque a Bresaola ela é feita, é um embutido. Tanto é que eu falei presunto, tomei bronca, né? Não é presunto, Fernando. É uma iguaria, né? Tem 95% de carne brasileira. Ele tá preocupado porque nenhum outro país do Mercosul produz algo similar. Então ele não sabe agora como é que vai fazer para produzir a bresaola dele lá no norte da Itália, né, Dede?
É verdade, esse é um bom exemplo, né? Porque a bresaola mais comum é com uma carne seca de boi, mas também tem carne seca de cavalo. E o Brasil, por incrível que pareça, exporta carne de cavalo. A gente não consome, mas a gente exporta.
Sim, entrou nessa história também. É verdade, também tá nessa lista.
É verdade. Agora, o acordo está em vigor, né, Fernando? Entrou em vigor em maio, né, dia 1º. Então já batemos aí a marca de um mês, com alguns itens inclusive sendo exportados daqui para aí com tarifa zero, entre eles as frutas, né?
Frutas, olha só que interessante, porque um mês após então a conclusão desse acordo já tem fruta brasileira chegando aqui na Europa com tarifa zero. Eu conversei sobre isso com Vladimir André Müller, que é presidente da Apex Brasil.
A gente acabou participando já na semana passada de um embarque de um container de fruta lá do Vale de São Francisco, de uva no caso, já para a Europa. Isso significou que a gente dormiu na quinta-feira, né, com uma tarifa de 11 e nos acordamos na sexta-feira, que foi o dia 1º de maio, com uma tarifa zero.
Bom, a parte comercial do acordo, na verdade, já tá funcionando, tá em curso. Falta agora uma decisão de uma ação do Parlamento Europeu que contesta alguns pontos do acordo no Tribunal de Justiça do bloco. São pontos que envolvem mais uma, mais parte de cooperação, mais parte política, mas a comercial já tá em pleno vapor.
Bom, Fernando, um tema que sempre foi importante para a União Europeia, a questão da relação com a China, né? A gente tem um histórico de muitos atritos e vinha tendo um pouco de perspectiva mais positiva diante da necessidade de reforçar o multilateralismo por causa dos sarafaços sucessivos dos Estados Unidos, né? Então acaba que as outras forças econômicas entre países, entre nações, entre blocos estavam precisando se reforçar, já que não tá dando para contar muito com a previsibilidade vinda dos Estados Unidos. O que que a União Europeia tá pensando sobre a China agora?
Veja só, a União Europeia, primeiro com relação a Moscou, então ela não confia mais em Moscou, não confia, não quer mais depender do gás, da energia, enfim, da Rússia. Quando ela olha para os Estados Unidos, vê o quê? Vê imprevisibilidade, tarifa, tem um dia que não tem tarifa, no outro você acorda, tem tarifa. Tem também a preocupação com a doutrina moral que o presidente Donald Trump recentemente apresentou, com foco na América Latina.
E aí, quando eles olham para China, e a relação da América Latina e do Brasil com a China, eles estão sim preocupados com ampliação dos negócios chineses, a influência da China no Brasil. Então, o que que eles propõem a partir de agora? Mais negócios com o bloco, só que tem que ter uma pegada ambiental. Eu vi aqui um exemplo, conversei sobre isso com eurodeputados, com representantes da União Europeia, de, por exemplo, carros ou ônibus eletrificados.
Então a China vai oferecer um veículo bom, ela vai te entregar amanhã. E a União Europeia vai te oferecer um veículo também bom, só que ele não vai entregar amanhã, vai entregar depois de amanhã. Só que ele perguntou para a gente o seguinte: o que que eu vou fazer quando as baterias terminarem a sua vida útil? Aí a União Europeia propõe uma pegada ambiental. Eu vou fazer um projeto com vocês que é para poder tirar tudo que tem dentro da bateria, tira o lítio, tal, para poder reciclar.
Ou então a bateria baterias de ônibus, por exemplo, quando chega em 80% já tem que ser trocada. Aqui eles já fazem, eles colocam essa bateria num prédio público para gerar energia, para depois também reciclar. Ele pergunta para gente: e o que que a China vai oferecer com relação a reciclagem das baterias que vocês compram da China? Então, quer dizer, temos hoje duas possibilidades: China, um produto bom, um preço mais acessível; União Europeia, com preço um pouquinho maior, mas com pegada ambiental.
Então é isso que eles estão— eu pergunto assim, poxa, como é que a gente vai mudar o conceito de um Brasil que sempre corre atrás de preço? Aí um eurodeputado português falou assim, vocês vão ter que mudar a cultura para poder implementar isso no país. É uma questão de tempo, mas é mais uma possibilidade.
E sobre segurança, Fernando, tráfico internacional de drogas, porque o assunto do dia aqui no Brasil, você sabe, a entrada em vigor da classificação de facções criminosas de tráfico de drogas aqui no Brasil como organizações terroristas nos Estados Unidos, por aí. O que que tem dessa discussão de segurança e de tráfico?
Olha, hoje foi o tema segurança no seminário que eu tô cobrindo aqui. O que a gente sabe é o seguinte: existem vários tratados entre governos, entre governos da América Latina e da União Europeia. Inclusive, é um adido da Polícia Federal aqui em Bruxelas, onde eu tô. Isso é importante porque polícia conversa com polícia. PF conversa com a Europol. E aí a preocupação agora é com o aumento do envio não só da cocaína, só da cocaína, mas principalmente da pasta base de cocaína.
E o refino tem sido feito aqui na Europa. Muito entra pelos portos de Antuérpia e Rotterdam. Então o foco deles agora é o transporte e parar as embarcações, não deixar as embarcações pelo menos saírem dos portos da América Latina ou do Caribe. E aí vem a grande diferença, né, Dédia? Não é explodindo a lancha, eles falam, é seguindo o direito internacional. Então agora o diálogo, a gente, o diálogo com Estados Unidos agora não é mais com a polícia, que era antigamente, que era com o Departamento Antidrogas dos Estados Unidos, DEA, com a Polícia Federal.
Agora é algo que nem existe muito diálogo, né, porque é uma questão de Ministério da Defesa, de Pentágono, que estão dando as ordens agora. E os europeus fazem questão de frisar o seguinte, que O diálogo continua, e é entre polícias seguindo o direito internacional. Então sempre eles colocam isso em perspectiva, dizendo que, olha, nós temos diálogo, nós temos cooperação, e vamos seguir o direito internacional, diferentemente dessa mudança que houve com os Estados Unidos.
Perfeito, Fernando Andrade, importantíssimos esses assuntos agora mais do que nunca. Estamos muito ligados, né, à União Europeia através do Mercosul. Muito obrigada, Fernando, bom trabalho por aí.
Muito obrigado, boa tarde a todos.