Episódios de Economia

EUA tendem a confirmar a imposição de novas tarifas, avalia Gilberto Braga

03 de junho de 202616min
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O Brasil tem 45 dias para tentar reverter a criação de novas tarifas de importação pelos Estados Unidos, mas o governo de Donald Trump tende a confirmar a medida, afirma Gilberto Braga. Segundo o economista, a atuação brasileira, agora, envolve aspectos econômicos, diplomáticos e políticos.

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Participantes neste episódio2
P

Paulo Henrique Galvão

Host
G

Gilberto Braga

ConvidadoEconomista
Assuntos4
  • Tarifas de ImportacaoProposta de sobretaxa de 25% · USTR (United States Trade Representative) · Donald Trump · Lula · Calendário da proposta · Audiência pública · Entrada em vigor em 15 de julho de 2026
  • Tarifas Americanas BrasilBalança comercial Brasil-EUA · Superávit dos EUA em bens e serviços · Produtos excluídos da sobretaxa · Setores afetados · Diversificação de mercados
  • Justificativas da GuerraLei de comércio de 1974 · Combate ao desmatamento · Discussão sobre etanol · Pirataria e direito de propriedade intelectual · Combate à corrupção · Decisões do STF sobre Big Techs
  • Polarização PolíticaReação do governo brasileiro · Posicionamento de Flávio Bolsonaro · Narrativa de Eduardo Bolsonaro · Politização da questão
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?Voz B

CBN Valorizando o Seu Bolso com Gilberto Braga.

?Voz C

Muito bem, aqui no CBN Madrugada, espaço para o nosso papo semanal com o professor e economista Gilberto Braga. CBN valorizando seu bolso. Gilberto, muito bom dia, tudo bem por aí?

?Voz B

Bom dia, tudo tranquilo comigo e com você, Paulo Henrique Galvão?

?Voz C

Mais ou menos, né, Gilberto? A gente tava aqui já meio que esquecendo das tarifas do Trump, aí o Ministro da Fazenda já deu indicativo aí de que o negócio poderia voltar e não deu outra, né? O Trump anunciou essa semana tarifas. Queria que você falasse um pouco do impacto dessa medida, o tamanho dessa decisão aí dos Estados Unidos para nossa economia, Gilberto?

?Voz B

Bom, para quem não tá por dentro, né, houve um relatório de um escritório de representação comercial inglês, aí, USTRA, que fixou, recomendou uma sobretaxa, né, uma tarifa de 25% sobre produtos e mercadorias brasileiras vendidas para os Estados Unidos. É um pouco diferente daquilo que aconteceu no ano passado, Galvão, porque no ano passado era quase que indiscriminado. Depois houve aquela flexibilização, a justiça considerou as medidas ilegais para todo mundo.

Mas há um ano atrás, precisamente em julho do ano passado, o presidente Donald Trump tinha pedido para essa agência de representação comercial fazer um estudo aprofundado. E eles entregaram relatório agora e foi uma grande surpresa, para não dizer que foi uma, algo que, uma bofetada na cara do governo brasileiro. Porque existia também, além desse estudo desse escritório, uma espécie de uma negociação, um grupo bilateral que tinha sido combinada entre o presidente Donald Trump e o presidente Lula, Galvão.

E eles estavam negociando, e uma das condições que na última visita, recente visita do Lula lá à Casa Branca, era no sentido de que esse relatório dessa agência de investigação americana não fosse revelado e não trouxesse qualquer consequência. E aparentemente tem aí uma certa confusão, paralelismo, ou seja, algo superposto, que a negociação não acabou. A tal da comissão, grupo bilateral, continua conversando, mas esse escritório de representação comercial, o STR, né, em português, ele apresentou o seu relatório que diz que há práticas irreparáveis que de alguma maneira acabam com, que prejudicam a economia americana.

E por conta disso, eles podem sobretaxar a economia brasileira. Então, resumindo, é uma proposta. Essa proposta tem um calendário. Nessa terça-feira foi apresentado aí o relatório. Ele fica um mês inteiro, até o dia 30 de junho, em discussão aberta. As pessoas podem se manifestar, mandar os seus comentários, as suas críticas, sugestões, apoios. E certamente o Brasil vai atuar. Depois, no dia 6 de julho, existe uma audiência pública com os responsáveis por esse relatório, e ali eles irão fazer uma espécie de coletânea de tudo que foi colocado, prós e a favor, e vão referendar o relatório ou não.

A tendência é que seja referendado, e uma vez confirmado, entraria em vigor no dia 15 de julho de 2026, Galvão. Então existe ainda aí cerca de 45 dias pela frente para o governo tentar, seja politicamente, diplomaticamente, economicamente, reverter essa decisão. E o curioso, né, é que alguns produtos que no ano passado foram fortemente sobretaxados ficaram de fora dessa lista. De acordo com os dados oficiais divulgados nesse último dia pelo Ministério da Indústria, Comércio e Exterior, apenas 21% da pauta de exportações brasileiras para os Estados Unidos sofrerão essa sobretaxa, se ela for de fato confirmada.

O que significa dizer que a maioria dos produtos— e aí tá o café, a carne bovina, os chás, o suco de laranja, as frutas in natura, cereais, sementes, peças automotivas, aeronaves e peças de reposição para aviões, produtos químicos, farmacêuticos, fertilizantes. Isso tudo não entrou na lista, por isso tem, são 75 páginas, só para a gente ter uma noção, de exclusão de produtos brasileiros que não serão sobretaxados por esse relatório. Mas é algo incômodo, né, Galvão?

?Voz C

Ah, muito. E eu queria saber de você se realmente eles têm razão para toda essa grita, porque tô dando uma olhada aqui, eles afirmam, acusam o Brasil de adotarem práticas que oneram ou restringem o comércio com os Estados Unidos. Só que se a gente pega os dados dos últimos 10 anos, por exemplo, Os Estados Unidos têm um superávit na balança comercial, se a gente pensar só em bens, de 90 bilhões de dólares. Ou seja, o Brasil está comprando muito mais dos Estados Unidos do que os Estados Unidos comprando do Brasil.

Eles estão com superávit de 90 bilhões de dólares nos últimos 10 anos. Se a gente incluir os serviços, né, questão de turismo, de royalties, esse superávit dos Estados Unidos sobe para 257 bilhões de dólares. Ou seja, com toda essa vantagem no comércio bilateral, os Estados Unidos têm razão em fazer esse tipo de reivindicação, alegando inclusive desmatamento ilegal, combate à corrupção por parte do Brasil?

?Voz B

Gilberto, bom, economicamente não existe nenhuma dúvida de que o Brasil, ele compra mais do que vende para os Estados Unidos. Então a balança comercial é favorável para eles, né? Se a gente imagina aquela balança de feira de dois pratos, de um lado tá o Brasil, do outro lado tá os Estados Unidos, fica mais pesado do lado deles e mais leve do nosso lado. Então não é muito por aí. Entretanto, essa, esse relatório é baseado numa tal lei de comércio lá da década de 70, mais precisamente de 1974.

E lá eles podem efetivamente, de acordo com a legislação de lá, ou seja, é a lei americana, tomar medidas de retaliação, de alguma maneira de criar restrições a qualquer coisa que prejudique a economia americana. E aí existe uma certa confusão, porque como você mencionou, Galvão, Eles pegam questões de natureza que não são necessariamente de comércio, né, de economia, e misturam nisso tudo. E aí eles dizem: olha, o Brasil não combate o desmatamento, então a gente vai aqui criticar por causa disso.

Isso aí prejudica a economia indiretamente do mundo como um todo, porque não se preservam as matérias-primas, os biomas, e etc. Existe uma discussão sobre etanol, que o Brasil favoreceria alguns outros países, dá tratamento diferente e não permite que os Estados Unidos tenham o mesmo tratamento. Diz que o Brasil dá um tratamento especial para Índia e para o México e combate o PIX. O que que tá por trás disso? Existem bandeiras de cartão de crédito, débito, que são conhecidíssimas e muito utilizadas no mercado brasileiro, que são com sede nos Estados Unidos ou com controle acionário norte-americano.

Então, isso é um aspecto. Eles falam da pirataria com relação ao direito de propriedade intelectual, em relação a marcas e patentes, falsificações, especificamente esse comércio de rua, comércio aí das ruas populares pelo Brasil afora, que fazem cópias descaradas de produtos cujas patentes são controladas pelos norte-americanos. Falam também do combate à corrupção, que seria fraco no Brasil, que seria um país com alto grau de corrupção, e as ações de mediação, de remediar ou de combater, de evitar, de punir, seriam muito fracas na visão americana.

E por último, eles reclamam até de decisões do Supremo Tribunal Federal que de alguma maneira impuseram restrições ao funcionamento de Big Techs, ou seja, dessas grandes redes de internet americana. Que foram, por decisões judiciais, obrigados a tirar postagens, restringir, seguir decisões impositivas de natureza jurídica da legislação brasileira, e que para eles é isso atrapalha os negócios americanos. Então existe uma grande confusão qualitativa que justifica a punição, ou justificaria que medidas econômicas sejam adotadas, Galvão.

?Voz C

É, não, ainda que de certa forma, em alguma medida, eles tenham razão em alguns desses aspectos, o que nos parece é que é muita intromissão em assuntos domésticos brasileiros. E talvez aí a utilização desse tipo de alegação como subterfúgio para colocar ainda mais vantagem para o lado deles nessa relação bilateral, não é, Gilberto?

?Voz B

É, isso é complicado. E isso chega no momento que a gente não pode desassociar de polarização política, né? Existem obviamente aqui dois candidatos que disputam, né, um pré-candidato, para ser mais exato, que é Flávio Bolsonaro. O presidente Lula também é candidato à reeleição, vai ser confirmado pelo PT. E então, se a gente tem uma polarização ideológica nesse discurso, então a reação do governo brasileiro oficialmente soltou uma nota na terça-feira, foi no sentido de responsabilizar a família Bolsonaro e de tentar colar no seu opositor essas potenciais medidas que seriam confirmadas no mês que vem, e de maneira a desgastar a imagem do Flávio Bolsonaro.

E por outro lado, Flávio Bolsonaro dizendo que é incompetência do governo, que o presidente foi lá, tirou retrato lá com o presidente americano e no final não evitou a sobretaxa. E ele também divulgou que teria feito um pedido para que as medidas não fossem adotadas, assim como o presidente Lula diz que também vai ligar para o presidente Donald Trump, para tentar reverter esse relatório do Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos.

?Voz C

É engraçado, Gilberto, desculpa te interromper, é que o discurso do Flávio agora é exatamente o oposto do irmão, o Eduardo Bolsonaro, porque nas primeiras tarifas ali, o Eduardo Bolsonaro trouxe para ele, para a família Bolsonaro ali, a motivação, como se isso fosse um bem. E aí quando perceberam que a coisa era ruim para nossa economia, ruim para o Brasil, ruim do ponto de vista político. Agora eles vêm com outra narrativa, né?

?Voz B

É, na verdade, é a politização dessa questão. Se for confirmado, quem vai pagar é o povo brasileiro. Alguns setores serão bastante afetados, né? As áreas mais prejudicadas da economia, algumas, alguns setores de máquinas, equipamentos que vendem produtos para os Estados Unidos, sobretudo médias e pequenas empresas. Os produtores de madeira, né, de compensados, esquadrias de madeira, toda área de papel, celulose, toda a indústria de calçados, a indústria moveleira, né, o Brasil exporta muitos móveis, seja de madeiras ou mistos, né, para os Estados Unidos, e toda a parte de peixes e crustáceos, né, de pescados de uma forma geral, seriam afetados.

Então esses setores, essas economias, os trabalhadores desses segmentos serão bastante prejudicados. Agora, o que a gente tem que lembrar, o Galvão, é que no ano passado a gente teve muita criatividade e as perdas acabaram que foram muito menores daquelas que se imaginavam quando a gente conversava aqui na coluna e os especialistas davam palpite. Então o Brasil conseguiu diversificar, abrir novos mercados, vendeu para China, para Índia, para outros países.

Então eu acho que, apesar de ser uma notícia ruim, ninguém quer, eu acho que tem ainda um processo de negociação, mas existe também a possibilidade de abertura de novos mercados para esses setores que serão afetados caso a medida seja confirmada.

?Voz C

Muito bem, professor economista Gilberto Braga, sempre valorizando o seu bolso, ouvinte CBN. Gilberto, desejar para você uma ótima semana, aliás, um ótimo mês de junho, porque devo avisá-lo e aos nossos ouvintes e às nossas ouvintes que nas próximas semanas Clausson Dutra estará tomando conta aqui do CBN Madrugada. Estarei em férias e volto no mês de julho, combinado?

?Voz B

Paulo Henrique, você vai para os Estados Unidos, para o México, para o Canadá assistir a Copa?

?Voz C

Olha, Gilberto, eu vou te dizer que eu gostaria muito, viu? Eu tinha muita vontade. Sabe que eu tenho 57 anos de idade e não assisti uma Copa do Mundo Ainda eu tava meio que me programando, justamente é, programei as férias para esse mês de junho porque eu tinha vontade de assistir a Copa. Só que aconteceu, né, os jogos do Brasil todos nos Estados Unidos, e eu me recuso simplesmente a pagar, sei lá, R$2.000, R$3.000, se eu for com a minha namorada para os Estados Unidos, para tirar um visto para chegar lá nos Estados Unidos, né?

E o clima lá também não tá muito bom não, né? Então se os jogos do Brasil fossem no México, no Canadá, esses primeiros jogos que dá para a gente programar Eu acho que eu estaria lá, mas como não aconteceu isso, vou assistir no conforto do meu lar.

?Voz B

Eu acho que com R$2.000, R$3.000 dá para comprar uma bela TV dessas de tela gigantesca para gritar gol em casa, né? Exatamente. Boas férias para você, amigo. Tudo de bom e vamos para frente, né? Brasil nas cabeças.

?Voz C

É isso aí. Até a próxima então. Tchau, tchau.

?Voz B

Um abraço. Tchau, tchau.

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