Episódios de Economia

O que explica o aumento da inadimplência entre os idosos?

24 de setembro de 202610min
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Segundo o Serasa, 15,8 milhões de brasileiros com mais de 60 anos estão em situação de inadimplência. O dado representa um aumento de 132% em dez anos. Neste No Fim das Contas, Ana Leoni traça os motivos para esse cenário e explica a importância da família no planejamento financeiro da terceira idade.

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Participantes neste episódio2
A

Ana Leoni

HostJornalista
F

Fernando

HostJornalista
Assuntos4
  • O aumento da inadimplência entre idosos no Brasil e seus motivos15,8 milhões de idosos inadimplentes·crescimento de 132% em 10 anos·idosos chefiam mais de 20 milhões de lares·renda do aposentado sustenta familiares
  • Estratégias para uma aposentadoria com segurança financeira e planejamento familiardesafio da longevidade e idosos cuidando de idosos·reavaliação de gastos e fontes de renda·importância de planejar gastos com saúde·melhor herança é a independência financeira
  • A delicadeza de assumir dívidas na aposentadoria e o crédito consignadocessação da renda principal·depreciação do capital humano·crédito consignado como exemplo·crescimento de 157% do crédito consignado
  • O impacto social do endividamento e o isolamento familiar do idosoidoso como provedor da família·isolamento familiar por endividamento·solidão como fator de risco para idosos·perguntas cruciais antes de assumir dívidas
Transcrição15 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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ALAna Leoni

Olá, boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Tudo bem?

?Voz D

Tudo bem. Hoje a gente vai falar sobre a inadimplência entre a população idosa brasileira, porque vem crescendo bastante nos últimos anos. E bom, esse crescimento pode revelar coisas importantes a respeito da nossa estrutura. A Ana vai se debruçar sobre isso. Quanto esse endividamento cresceu, Ana? E o que é que tá por trás do crescimento do endividamento da população idosa no Brasil?

ALAna Leoni

Bom, Tati, esse é um dado que chama bastante atenção, principalmente porque a gente está falando de uma fase da vida em que as coisas deveriam estar mais tranquilas, né? E comprova que o planejamento financeiro ele não termina quando a pessoa se aposenta, quando ela para de trabalhar. Pelo contrário, é nessas horas, né, e é nessa fase que deve ser ainda mais importante ter clareza sobre a renda, sobre despesas, sobre o patrimônio e principalmente sobre as responsabilidades familiares que vão versar sobre esse idoso.

Então tem um dado do Serasa interessantíssimo e cruel de se encarar, que 15,8 milhões de brasileiros com mais de 60 anos estão inadimplentes. Isso representa um crescimento de 132% em 10 anos. É muito grande num período relativamente curto. Então existe também uma mudança importante do papel econômico dessa população. Então, mais de 20 milhões de lares brasileiros são chefiados por pessoas com mais de 60 anos e 68% desses idosos dividem a casa com outros familiares.

Então, o que que a gente está falando aqui, né? Que em muitos casos a renda do aposentado ela não sustenta apenas a própria pessoa, mas também filhos, netos e outros familiares, porque há uma junção de familiares em torno desse idoso, muitas vezes a depender do contexto familiar. Então, quando surge uma dificuldade financeira dentro da família, esse idoso acaba sendo aí o ponto focal e acaba assumindo dívidas ou recorrendo ao crédito para conseguir ajudar os familiares que estão no entorno deles.

E em muitos casos, depois da aposentadoria, em especial aquelas pessoas que se aposentam pelo INSS, o idoso conquista uma renda estável que ele nunca teve por muito tempo ao longo da vida, porque a gente sabe que você pode sair de um emprego, você pode pode ter dificuldade de empreender, você pode ter uma instabilidade maior de renda ao longo da vida e quando você se aposenta você tem uma recorrência de renda que se torna muitas vezes a estabilidade financeira, não só para aquela pessoa do ponto de vista da renda, mas também para família e para o entorno.

Então isso faz com que ele se torne aí arrimo de família muitas vezes. Então por isso que o planejamento financeiro nessa fase ela precisa considerar não apenas as necessidades individuais, que a gente sabe que nessa fase da vida as despesas e cuidados com a saúde pesam bastante no orçamento, mas também até onde é possível ajudar a família sem comprometer a própria segurança financeira, porque muitos desses idosos acabam ficando bastante vulneráveis financeiramente na aposentadoria por conta dessa forma de ajudar financeiramente netos, filhos e outros familiares, por exemplo.

FFernando

Agora, Ana, por que assumir essas dívidas que você fala pode ser especialmente delicado para quem já tá aposentado?

ALAna Leoni

Então, primeiro porque há uma— você cessa a sua renda, você só tem uma possibilidade de renda da aposentadoria prioritariamente. E o capital humano, ele também vai se depreciando ao longo do tempo, isso é fato. Por isso que a gente precisa aproveitar muito a nossa fase de maior vigor produtivo para a gente conseguir se estabilizar financeiramente. Então isso é importante a gente avaliar, porque existe uma diferença entre ajudar a família com recurso que foi planejado para isso, sem— e outro é comprometer a renda que deveria garantir a própria segurança financeira.

Então, por exemplo, qual é o perigo, né, Fernando? O crédito consignado é um desses exemplos, porque ele é um crédito fácil, porque ele tá atrelado diretamente ao benefício. Mas tem dados também no Serasa que o volume de créditos concedidos a aposentados e pensionistas do INSS cresceu 157% também nos últimos 10 anos. Então a gente tá falando de um montante aí de 3 pontos R$37 bilhões em 2025. Então, como as parcelas são descontadas diretamente do benefício, uma dívida que ela é assumida para resolver um problema muitas vezes de outra pessoa acaba comprometendo a renda mensal deste idoso.

E aí a gente tem uma questão que ela é menos financeira, mas até uma questão social importante, é que muitas vezes o idoso, para ele ter a família no entorno, ele acaba sendo esse provedor. E isso muitas vezes é muito Joel, mas alguns casos, infelizmente, a gente constata isso, é que quando ele deixa de ser o provedor, ou seja, ele entra num nível de endividamento alto, ele fica impossibilitado, primeiro, de se cuidar e também de ajudar os outros, ele acaba ficando num isolamento familiar importante.

E isso é a pior coisa que pode acontecer na fase adulta. A solidão é uma das coisas que mais mata os idosos, né? O abandono de alguma forma. Então, por isso que é tão perigoso, Fernando, Então, às vezes, assumir uma dívida ou emprestar dinheiro, a gente, antes de fazer isso, a gente precisa perguntar algumas coisas se fazer, né? A pergunta muito fundamental: isso cabe no orçamento? Há uma reserva para isso? Minha renda, ela vai ser suficiente para eu honrar com esse compromisso que eu estou fazendo para ajudar outro, mas também vai ser o suficiente para eu me manter?

Então, são perguntas importantes e difíceis de serem feitas, mas elas podem salvar aí uma parte significativa do bem-estar do idoso lá na frente.

?Voz D

Como é que a gente pode tentar se preparar para chegar nessa fase da vida com mais segurança financeira, até para ajudar a família se for o caso, né, Ana?

ALAna Leoni

É, eu acho que a gente, a questão da longevidade, Tati, ela tá trazendo um desafio muitas vezes de idosos cuidando de idosos. Então a gente tem pessoas de 70 anos que estão cuidando, sustentando pais de 90, e isso traz um desafio maior. E aí E aí não tem jeito, o planejamento, por mais apertado que o orçamento daquelas famílias seja, o planejamento ele é um instrumento que pode ajudar a não comprometer esse futuro. Então a recomendação é sempre fazer uma reavaliação de quanto se gasta, quais são as fontes de renda e as possíveis fontes de renda.

É muito importante se cuidar aí dos gastos com a saúde, porque esses são gastos que eles não têm limite, o céu é o limite para determinados tratamentos e determinadas necessidades que as pessoas têm. Então o importante é colocar a ajuda da família dentro desse planejamento, em vez de assumir compromissos financeiros de uma forma improvisada, que é o que acaba acontecendo muitas vezes. Então a pessoa ela precisa saber o quanto ela vai destinar para esse apoio, porque senão esse é uma referência circular, porque você ajuda e aí você depois vai precisar ser ajudado, e aí isso acaba tendo um entorno familiar bastante complicado.

Então é importante que para os mais jovens, esse é o recado até para os mais jovens, porque para os idosos muitas vezes é uma gestão ali de crise, né, a depender do nível de endividamento e do contexto familiar que aquele idoso tá vivendo. Mas o recado para os mais jovens é: avalie a situação da sua família. A gente sempre vai ter que ajudar de alguma forma. Não necessariamente o dinheiro resolve tudo, mas ele é um bom instrumento para resolver muita coisa, né.

Então o planejamento para isso, se seus pais são vivos e você vai ter que ajudar, comece a se planejar desde já. Se eles não precisarem dependendo desse recurso lá na frente, melhor. Se você vai precisar ajudar seus filhos por mais tempo, considere isso no planejamento também, porque afinal de contas a família também é um grande apoio que a gente precisa ter por perto. Mas costumo dar um recado e sempre falo: a melhor herança que a gente pode deixar para os nossos filhos é a nossa própria independência financeira.

Se a gente tiver dinheiro suficiente para a gente se manter com dignidade, sem depender dos filhos ou de outros parentes, é a melhor forma da gente também ter a autonomia de vida, não apenas financeira. Então eu acho que esse é um recado. Não é uma coisa simples, também não é fácil, mas o planejamento ele pode fazer com que isso seja um pouco menos penoso e menos complicado lá na frente.

?Voz D

Muito bem. Ana Leone conosco às terças e quintas em No Fim das Contas, falando sobre o nosso dinheiro. Obrigada, Ana. Um beijo para você, até a semana que vem.

ALAna Leoni

Um beijo, gente, e até semana que vem.

FFernando

Até na próxima!

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