Episódios de Economia

Por que as contas públicas preocupam?

31 de julho de 20268min
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Teco Medina compartilha que após despesas com juros, as contas públicas registraram rombo de R$1,32 trilhão – ou 10% do PIB – em 12 meses, até junho deste ano. Esse número é acompanhado pelas agências de classificação de risco para definição da nota de crédito dos países. Ouça.

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Participantes neste episódio2
T

Teco Medina

HostJornalista
C

Carlos Alberto Sardenberg

Co-hostJornalista
Assuntos4
  • Desequilíbrio das contas públicasDéficit do governo central · Dívida bruta do governo · Arcabouço fiscal · Meta de superávit
  • Política FiscalAumento de gastos públicos · Crescimento da receita · Despesas com Previdência · Despesas com pessoal
  • Arcabouço FiscalNecessidade de ajuste fiscal · Risco de recessão · Espiral viciosa
  • Juros e dívida públicaCusto dos juros da dívida · Taxa de juros · Dívida dobra a cada 6 anos
Transcrição10 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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TMTeco Medina

E aí, Teco, tudo bem?

CACarlos Alberto Sardenberg

Oi, Sardenberg, boa tarde! Boa tarde, Cássia! Boa tarde aos ouvintes! Tudo bem? Tudo certo, Teco.

TMTeco Medina

Até ontem e hoje saíram várias informações sobre as contas públicas. Saiu ontem informação sobre a dívida, hoje saiu sobre o déficit primário do mês de junho, também a dívida bruta do governo, dívida líquida. Enfim, há vários indicadores. Por exemplo, o déficit do governo central no mês de junho foi de R$47 bilhões. Em 12 meses até junho o déficit que foi de 100, praticamente 140 bilhões de reais. E acrescentando que a meta do governo para esse ano, pelo arcabouço fiscal, é um superávit, ou na pior das hipóteses, déficit zero. Estamos longe disso, né?

CACarlos Alberto Sardenberg

Olha, Sardenberg, estamos muito longe de qualquer coisa, viu? Me faltam substantivos, adjetivos, mas é um desastre. A política fiscal do governo é um desastre. Eu tenho impressão que daqui a 20, 30 anos a gente vai olhar para trás e falar que foi inacreditável. A gente tá vivendo 4 anos de contas públicas como se fosse uma pandemia, né, sem a pandemia. É basicamente isso. A receita do governo não para de crescer. Só para a gente ter uma ideia, né, cresceu 10% em termos reais acima da inflação no primeiro semestre, e ainda assim não foi suficiente.

As contas estão piorando, o déficit tá piorando, né, não só tá ruim como tá piorando. Ainda hoje, depois de 3 anos e meio ainda tá piorando. A dívida pública subiu 3 pontos percentuais em 5 meses esse ano. É um, é absurdo o que aconteceu. E não tem, não tem arrecadação, não tem economia que faça sentido, viu, Sardenberg? Porque nesse ritmo, só para a gente ter outra ideia de números, né, fora precatórios, fora, fora o que tem que pagar mesmo, né, nesse primeiro semestre a gente teve 58% de gasto acima com Previdência, acima da inflação. 10% de gasto com o pessoal acima da inflação, despesas, desculpa, despesas discricionárias 58%, previdência 10%, despesa com o pessoal 12%, tudo acima da inflação.

Então a gente tem uma economia que cresce, que arrecada mais, a gente tem carga tributária alta e ainda falta dinheiro, né? E sobre a pergunta inicial sobre o arcabouço, É, não tem como, né? O que vai acontecer vai ser que o governo vai continuar tirando um monte de despesa de dentro da conta para dizer que chegou na conta, né? Mas quando você olha a dívida, né, uma dívida que tá subindo 3 pontos percentuais num semestre indica que não tem, não tem previsão da gente ter equilíbrio nessa dívida, nem da trajetória dela ficar, dela parar onde tá, né?

Nesse ritmo a gente vai crescer 4, 5 pontos percentuais ao ano. E a gente já sabe onde vai, onde vai parar isso. É em todos os lugares, parou no mesmo lugar na história do Brasil também, né? Então é um desastre isso tudo. A gente vai pagar uma conta muito grande disso, não vai demorar, mas vai ser por muito tempo.

TMTeco Medina

Deixa eu te fazer uma pergunta, você que tá sempre ligado aí aos meios econômicos, mercado e tal. Tem muita gente dizendo o seguinte, que a situação das contas públicas é tão dramática, quer dizer, o déficit e sobretudo a dívida subindo, que vai chegar no ano que vem, 2027, seria inevitável um ajuste fiscal, um ajuste das contas públicas, de redução de despesa para enfim chegar a produzir algum tipo de superávit. Você tava comentando agora há pouco que a gente já sabe o resultado.

O resultado, se a gente olhar para o que aconteceu no governo Dilma, é recessão e inflação, né?

CACarlos Alberto Sardenberg

É, talvez a gente escape de ter inflação, né? Talvez a gente não escape de uma recessão, porque o problema é que a economia tá crescendo turbinada por um gasto do governo. A gente talvez faça um ajuste pela dor nessa, né, Berg? Porque vai chegar uma hora que não vai ter como. Mas a grande questão é que, dependendo de onde você fizer esse ajuste, né, não— o tamanho do ajuste tem que ser muito grande para a gente chegar num lugar razoável, né?

Por exemplo, como é que você corta de onde você tá? O que, quanto precisa ser cortado para a gente chegar num número que equilibra essa dívida? É muito grande esse número, né? E se você fizer esse ajuste, você provavelmente joga o país numa recessão. E ao fazer isso, você diminui a arrecadação. Portanto, você começa a entrar numa espiral viciosa, né? Que você começa a fazer déficit porque você não arrecada, você tem que cortar, e aí você não cresce.

Que é um pouco que a gente viveu no governo Dilma, literalmente isso. O problema é que a gente tá num patamar pior do que a gente tava no governo Dilma, tanto em dívida quanto em déficit e quanto em tamanho do gasto, né? E não há nenhuma sinalização, né? A gente, eu falei aqui sexta passada da participação do Ministro da Fazenda no Fórum da XP dizendo que tava tudo certo, né, que não tinha problema nenhum. Né? Você não vê o Lula preocupado com isso.

Aliás, na verdade, tem muito pouca gente no país preocupado com isso, né? E tirando os economistas, exatamente, que a gente, no final das contas, a gente parece que o maluco somos nós, né, que estamos olhando isso e estamos preocupados. Porque, de novo, não é só você fazer um déficit como o Brasil tem feito, é fazer um déficit com arrecadação crescendo 10% em termos reais ao ano. Isso, se você ficasse parado, Sardenberg, você estaria fazendo um superávit brutal.

Né, se você tivesse mantendo onde os gastos, onde eles estavam em qualquer período, se você tivesse mantido no ano passado esses gastos onde estavam, que já era no patamar muito, muito alto, você já não teria déficit esse ano. Então, se você tá fazendo um déficit depois de tudo que você tá arrecadando, é muito difícil você imaginar onde é que vai ser esse ajuste, né? E tem muita coisa que precisa ser combatida ali, né? Primeiro assim, tem muita gente que fala: a dívida não é um problema, vê o caso do Japão.

O Japão paga zero ao ano de juros, né? O problema da dívida, além do tamanho da dívida, é principalmente o quanto de juros você paga por ela, né? Então, numa dívida que você paga 15% ao ano, essa dívida dobra a cada 6 anos. Então estamos falando disso. Outra coisa que também precisa ser combatida, né? O ex-ministro Haddad falava que o problema do crescimento da dívida eram os juros. E os juros, na verdade, eles são muito mais consequência do que causa desse problema, né?

A gente, por ter um déficit que não cessa, por ter um gasto que só aumenta, a gente tem taxa de juros mais altas e não o contrário, né? Então tem uma série de confusões, uma série de, né, de tentam dar uma, jogar um pouco de fumaça aí nesse problema. Mas a questão simples é: o governo tá gastando muito dinheiro há muito tempo, desde do último ano do governo Bolsonaro e incluindo todos os do governo Lula, o tamanho de gasto do governo é assustador, assustador.

TMTeco Medina

Teco Medina, obrigado Teco, bom final de semana e até segunda.

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