Como a regulação da inteligência artificial pode mudar o futuro dos negócios
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Milton
Daniela Kleiner
- Regulação de IAAdaptação de produtos e comunicação · Inteligência Artificial
- Revolução tecnológicaEmpoderamento da ANPD · ECA Digital · Proteção de crianças e adolescentes · Verificação etária
- Comunicação e reputaçãoMeta e ferramentas de IA · Escaneamento de íris · ANPD · Valor social do produto
- Inovação em StartupsMercado brasileiro de IA · OpenAI · Fintechs · Agro americano
- Reação da sociedadeTransição de trabalhos · Direitos autorais e treinamento de dados · Geopolítica global · Soberania nacional
- Ambiente Organizacional e RegulaçãoAcompanhamento de mudanças · Time com intersecção · Produto com mitigação de risco · Mentalidade do CEO
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Olá, tudo bem com você? Seja muito bem-vinda, seja muito bem-vindo a mais um capítulo do Mundo Corporativo, que hoje se dedica a falar de tendências, regulação da tecnologia, gestão de reputação. A nossa convidada é a Danielle Kleiner, sócia fundadora da Alandar, uma consultoria de políticas públicas e comunicação. Danielle Kleiner, muito obrigado pela gentileza de ter aceitado o nosso convite. Um bom dia para você.
Bom dia a todos os ouvintes. Eu que agradeço a oportunidade de estar aqui. Sou muito sua fã e sua trajetória, então é uma honra contribuir um pouco com esse debate.
Muito obrigado, Daniela. E durante muito tempo, muitas empresas enxergavam o tema da regulação como um problema da turma do jurídico, do departamento jurídico, né? Em que momento, o que que mudou que hoje esse tema tem que ser olhado e já é visto como parte da estratégia do negócio?
Olha, o que a gente vê de tendência regulatória na tecnologia é a gente sair de um campo mais principiológico, né, de quais os princípios que a gente gostaria que guiassem a tecnologia, para entrar num campo de uma regulação mais na linha, que inclusive impacta diretamente produto, relatório de transparência, time de compliance, a parte de vendas. Então a gente vê que a regulação ela tá saindo desse primeiro momento em que a gente teve um entendimento da tecnologia mais principiológico Pra gente entrar em algo que realmente afeta o dia a dia das empresas.
Então, hoje eu vejo como primordial que as empresas entendam que a regulação, por exemplo, de inteligência artificial, que é algo que impacta todos os setores, não é algo de um setor específico, ela não é mais um problema só do jurídico. Porque dependendo da regulação, isso vai requerer adaptação do próprio produto e da forma como você vai oferecer esse produto, comunicar esse produto para os consumidores finais.
Aliás, eu costumo, quando olho para essas questões, né, o advogado ele pode olhar a lei. Agora você que vai ter que fazer a mudança de comportamento ou adaptação nos demais setores. Se isso não fizer, não adianta nada o setor jurídico atuar.
Exato. E muito do meu trabalho junto com os nossos clientes é conversar e traduzir a legislação para o time de produto para que os engenheiros nos digam o que que faz sentido, o que não faz sentido. Porque a minha formação original, eu sou advogada, apesar de que a minha trajetória toda foi na área de tecnologia. Então, claro, eu tenho uma noção de como que a regulação vai impactar o produto. Mas quando a gente pensa em produtos que estão sendo modificados e de uma forma muito avançada, como a IA, eu preciso sentar com os engenheiros e falar: olha, o regulador, né, essa figura fictícia que a gente cria, porque a gente sabe que no fim do dia são 513 deputados mais sociedade civil, mais todo mundo, né, participando desse processo, ele acha que a gente vai trazer mais transparência, por exemplo, um vídeo, né, feito por IA, se a gente tiver esse tipo específico de etiqueta.
Isso funciona na prática? Qual que é a sua visão? Ele vai falar, olha, isso aqui não funciona, isso aqui pode ser burlado. Na verdade, o que a gente tá discutindo, né, nos grupos mais avançados sobre esses temas entre a indústria, é que a gente precisa, na verdade, dessa tecnologia específica E aí o meu trabalho muito é tentar traduzir isso para o regulador, para ajudar a avançar uma regulação que ela não seja obsoleta no momento em que ela é publicada.
Você costuma dizer que esse ano de 2026 marca uma mudança na fase de regulação da tecnologia no Brasil.
Sim.
O que caracteriza essa mudança?
A gente vê primeiro o empoderamento da ANPD, que é a Agência Nacional de Proteção de Dados. Né, para cada vez mais se converter nesse órgão regulador do digital. Ela ganha um novo capítulo a partir da aprovação em dezembro do ano passado do ECA Digital, que é a nossa legislação que protege crianças e adolescentes no ambiente digital. Essa regulação, ela traz uma série de obrigações para as plataformas, mas também para o poder público, e ela coloca a ANPD no centro da implementação dessa regulação e da fiscalização dessa implementação.
Então, a ANPD, para quem não conhece, é uma agência que foi originalmente criada para zelar pela privacidade dos dados e a regulação de como os dados circulam, né, na sociedade. E ela teve a expansão dessa competência para agora cuidar da proteção de crianças e adolescentes, que envolve não só a questão de proteção de dados, mas design de produto. Então hoje eu tenho uma obrigação de que plataformas, né, de redes sociais, por exemplo, tenham controles parentais.
Os pais têm que ser, tem que ter habilidade de poder, por exemplo, selecionar as configurações mais protetivas para crianças e adolescentes, ter visibilidade de quanto tempo essa criança, esse adolescente está passando naquele aplicativo. Outra obrigação que a lei traz é de também Verificação etária, né? Então você, se você é um aplicativo para maiores de 18 anos, pela lei, né, pelo seu conteúdo ser inapropriado para menores de 18 anos, você tem que implementar um método de verificação etária para garantir que o público que vai acessar aquele conteúdo é realmente um público maior de 18 anos.
E quem que vai fiscalizar isso? Quem que vai dizer quais são os métodos de verificação etária que são mais seguros, menos seguros, recomendados ou não? É a Agência Nacional de Proteção de Dados, a ANPD. Então a gente vê aqui, a gente está caminhando para uma, exatamente o que eu falei antes, uma situação de que as empresas vão ter que se adaptar e acompanhar muito mais de perto o que que a ANPD vai dizer nesse campo.
Essas mudanças e essa questão que você chamou atenção desta tendência de uma mudança na regulação de tecnologia, ela tem, ela atinge ou deve preocupar empresas dos diversos setores, ou quando a gente fala disso nós só estamos falando das plataformas digitais?
O ECA Digital, por exemplo, ele tem um escopo bastante amplo. Não são só plataformas, é qualquer negócio que esteja no ambiente digital está sujeito ao ECA Digital. Se eu sou mercadinho de Piraporinha da Serra e eu vendo, por exemplo, cigarro ou bebida alcoólica online, eu vou precisar cumprir o ECA digital, porque esse é obviamente um tipo de produto que não pode estar disponível para menores de 18 anos. A diferença é que tem uma gradação de obrigações, né?
E a própria lei prevê que você não pode criar barreiras, né? Tem que ser proporcional a regulação ao tamanho do negócio e ao risco que ele oferece. Então essa proporcionalidade, o risco, a NPD vai calibrar e vai regular. Espera-se que, por exemplo, empresas maiores, redes sociais, vão ter uma carga regulatória maior. Mas todos os negócios que estão no ambiente digital têm que prestar atenção nisso.
Você já citou aqui a questão da inteligência artificial, do impacto que ela vem gerando hoje em todos os negócios. Muita gente, quando pensa inteligência artificial, pensa em ganho de produtividade. Agora, do ponto de vista da regulação, quais são as maiores preocupações que nós devemos ter?
Olha, são várias. E eu falo são várias porque a inteligência artificial, diferente de outras tecnologias, ela é uma tecnologia que vai mudar a forma como nós nos relacionamos, vai mudar a nossa economia e vai determinar a nova geopolítica global. Eu posso falar isso com muita tranquilidade. Vários especialistas vêm trazendo isso, né, e alertando para este fato. Por quê? Porque ela é uma tecnologia meio, ela não é uma tecnologia fim.
Quando a gente teve uma situação parecida com essa? Quando a gente criou a eletricidade, né? Então, quando a eletricidade foi criada mais de um século atrás, o que que os criadores queriam? Iluminar a casa das pessoas à noite, certo? Eles não imaginavam, muito possivelmente, que isso possibilitaria a Segunda Revolução Industrial. Então, quando a gente fala de, ah, A gente tem que estar preocupado, por exemplo, com a transição dos trabalhos que vão ser afetados por isso.
Muitas pessoas vão ter os seus trabalhos completamente transformados pela IA e a gente vai precisar trabalhar uma transição para essas pessoas, é formação delas. A gente tem uma questão também, é de, no caso legislativo, uma disputa em relação ao uso ou não de dados e direitos autorais para treinamento. Isso afeta qualquer empresa que faz que usa IA e que depende desses treinamentos de dados para poder realmente ter uma IA inteligente que fale português, porque isso pode trazer uma remuneração que pode não ser compatível com o tamanho da empresa, né?
Então a gente tem preocupações de vários âmbitos: geopolítico, de trabalho, de produtividade, de soberania nacional. A soberania não se ganha só com regulação. A Europa tá percebendo isso agora. A gente viu recentemente que a Europa, ela está dando alguns passos para trás em relação à regulação que ela fez da IA, porque ela percebeu que só regular não traz soberania. Você precisa produzir e criar a tecnologia para que você tenha algum nível de soberania. E o Brasil precisa estar atento também a esses movimentos.
É curioso porque nesse mesmo momento em que você vê a União Europeia mudando esse olhar ou tentando, eu vou usar a palavra, afrouxar, não é exatamente o mais preciso para essa questão, Mas olhando de uma maneira já diferente, a gente acompanha nos Estados Unidos uma intervenção maior nas empresas e na tecnologia de inteligência artificial, quase como um contraponto do que tá acontecendo na Europa. Isso é um sinal dessa indefinição ainda que nós temos de uma maneira geral em relação ao que é inteligência artificial nas nossas vidas?
Sim, é muito característico do setor de tecnologia que ele crie serviços e usos disruptivos, no sentido de que o direito à regulação ela tem que aprender a lidar com isso, né? E a IA traz isso numa proporção muito maior porque a gente não sabe todos os usos que ela tem. Então quando a gente fala numa regulação de IA, as pessoas pensam, ah, vamos supor, você quer regular carros automáticos, O carro, a gente sabe para que fim ele tem, é para levar uma pessoa de um lugar ao outro.
Então eu consigo imaginar os usos minimamente, quais são os riscos que existem, o que que eu preciso prever para mitigar esses riscos, para ter uma regulação ali minimamente que traga essa segurança. Aí, ah não, você consegue me dizer, Milton, quais são todos os usos que a gente pode fazer da IA? É impossível ainda. Então os países estão descobrindo e tentando entender Como que a gente traz mais segurança, que é necessário sim quando a gente fala do uso da inteligência artificial, mas ao mesmo tempo a gente não estrangule todas as possibilidades que ela tem de crescimento, né?
Vamos lá, diante até dessas dúvidas que se tem, né? Se você estivesse aí conversando, eu, quando você vai conversar com os presidentes das empresas, empresas médias, qual seria assim a providência que você recomendaria para que ele se preparasse para esse ambiente regulatório?
Eu acho que é importante acompanhar de perto essas mudanças e ter um time que tenha uma intersecção maior. É aquilo que você falou de não ficar isolado no jurídico, porque ao ficar isolado no jurídico a gente só vai conseguir fazer o compliance, a gente não vai conseguir fazer o preventivo, que é já pensar: se eu for lançar um produto novo, como eu já penso esse produto com a expressão que a gente usa na tecnologia, embedado, né, com já trazendo algumas das mitigações para eu evitar depois receber uma sanção da ANPD por descumprimento.
Então, como que a gente já vai pensando produtos que, com base na tendência regulatória, eu consigo mitigar o risco de eu ter que tirar esse produto do ar, eu tenho que fazer um grande investimento em reforma, que a gente sabe que acaba prejudicando muito o negócio?
Quando você conversa com esses executivos, qual é o erro mais comum que você percebe na forma como eles estão acompanhando essas mudanças?
No nível de CEO, o que eu mais percebo é que eles não acompanham a regulação.
Não acompanham?
Não acompanham. Então às vezes eu vou falar sobre a Lei de AI, eles sabem que existem, mas eles não sabem qual é o impacto disso no negócio, porque justamente acaba ficando na mão do jurídico, da área de relações governamentais. E eu acho que Isso é muito diferente, diferente, por exemplo, quando você vai em empresas como o Google. Eu acho que você já teve oportunidade de falar com o Fábio Coelho. Eu acho que ele é um bom exemplo do CEO nesse sentido.
Ele é muito informado sobre a regulação, ele vai saber te dizer exatamente qual é o impacto que a legislação de IA, se aprovada, vai ter no negócio dele, vai ter nos produtos dele. E isso faz parte da mentalidade dele de entender que isso é o coração da empresa, né? Dependendo de como essa regulação sair, pode realmente mudar muito como eles fazem o produto deles.
Quais são os temas regulatórios que merecem mais atenção desses líderes a partir de agora?
Eu diria o PL de Mercados Digitais. É um PL que busca um pouco emular o que foi feito na Europa, que é o chamado DMA, que é o Digital Markets Act, que vê a questão concorrencial entre esses mercados. Eu acho que isso é muito importante porque Ao designar, né, uma empresa como uma empresa que precisa ser olhada pelo CADE, isso pode trazer várias consequências também para o modelo de negócio. Esse é um PL que tá bem avançado na Câmara, ele já teve urgência aprovada, ele pode ser discutido ainda esse ano.
O outro projeto de lei é justamente que eu mencionei aqui, o PL de inteligência artificial, muito, que é um, vai ser um marco muito importante, tem chance também de ser discutido Não nesse semestre, mas dependendo dos resultados das eleições, talvez ainda esse ano, no fim do ano, por exemplo, quando o Legislativo retoma. E acompanhar também a regulação da ANPD em relação ao ECA Digital, porque isso, como eu falei, ele é amplo, né?
Não é só redes sociais, todo e qualquer serviço na internet vai precisar se adaptar minimamente ao ECA Digital.
Ouvindo você aqui, há, claro, decisões que são estratégicas de um país. Agora, ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme de oportunidades então nesse mercado para os empreendedores, para as startups nesse momento, para aqueles que pensam em inovação e tecnologia.
Totalmente. Eu acho que às vezes a gente tem um pouco, desculpa a expressão, síndrome de vira-lata, de pensar, a gente nunca vai ter um Google aqui, etc. Isso não é verdade. Se você olha os dados que são públicos, por exemplo, da OpenAI, o Brasil tem o segundo ou terceiro maior mercado de startups usando a API da OpenAI para criar sistemas de IA. Nós temos um mercado extremamente rico de empresas que estão criando e exportando IA.
Vou te dar um exemplo. Eu não sou meus clientes, é porque eu amo eles mesmo, tenho muito orgulho deles. A Soli Fintech. A Soli Fintech é uma empresa nascida em Araraquara, brasileira, é com DNA brasileiro, que importa IA para os agricultores. Hoje os agricultores americanos usam a IA da Soli Fintech no campo. O agro americano importa a nossa IA. A gente tem os nossos champions nacionais, setor de fintech, por exemplo. Temos setores muito fortes que podem se beneficiar muito produzindo IAs para os mais diversos campos da economia.
Bom, você é um exemplo de oportunidade, né, que foi encontrada no mercado. Você passou pela advocacia, pela Você viu pela Meta, pelo Twitter também, você esteve lá antes de criar a Landar. Quando você cria a Landar, você cria enxergando aí um mercado de atuação. Como é que funcionou isso? Quando é que você percebeu que havia espaço para desenvolver um projeto como esse?
Quando eu estive na Meta e no Twitter, eu trabalhei com muitas consultorias que são boas também. A gente tem boas consultorias no Brasil. Mas eu sentia falta, quando eu tava do outro lado do balcão, de ter uma consultoria que fosse especializada no tema de tecnologia, que esse fosse o DNA, que as pessoas tivessem uma formação nesse sentido, que acompanhasse muito de perto, que entendesse principalmente o impacto no produto e que pudesse me dar orientações mais úteis em termos de como que eu faço esse preventivo do produto.
Então foi essa oportunidade que eu enxerguei quando eu saí do Twitter. Eu e minha sócia, que eu conheci na Meta, Natália Paiva, a gente sentou para conversar sobre isso e a gente viu que havia oportunidade de criar essa consultoria especializada. E assim nasceu a Landar.
Você citou aqui a Natália Paiva, ela é outra sócia fundadora? É isso, do grupo, do grupo da Landar, né? Isso, tá. Não, perfeito. Era só para deixar claro aqui para os nossos ouvintes que estão nos acompanhando, até porque lá no início eu te apresentei como sócia fundadora Quem mais estava com você nesse projeto? Hoje, o que que é a Alandar? Qual é o trabalho específico que vocês estão realizando no dia a dia?
A Alandar, a gente é uma consultoria especializada em tecnologia, como eu falei. A gente faz tanto área de regulatório, políticas públicas, relações governamentais, como também a gente faz uma parte muito importante para as empresas, que é a comunicação estratégica e reputacional. Isso é uma parte que também É, hoje eu, naquilo que, naquela pergunta que você me fez dos CEOs, os CEOs são muito mais conscientes dessa parte reputacional e comunicação estratégica porque eles sabem que isso afeta muito o produto, o evaluation, como os consumidores percebem esse produto, etc.
Mas existe também uma comunicação que a gente faz para poder pautar o debate público de uma forma que seja interessante para empresa em termos de regulação. Então esse é um pouco o trabalho que a gente faz, a gente olha para reputação Claro, da empresa e como ela é percebida pelos consumidores, mas também pelos reguladores, por aqueles que têm a caneta na mão. A gente precisa explicar o produto. É aquilo que eu falei antes, o regulador ele não nasce sabendo, especialmente na tecnologia onde a gente tá lidando com produtos extremamente disruptivos.
Se a gente não souber explicar com clareza o valor social que esse produto cria para o Brasil, a gente corre o risco de acabar com uma regulação que vai prejudicar o negócio. Então Esse é um pouco o trabalho que a gente faz na Landar.
E aí, Daniela Kleiner, me ajuda a entender a relação direta que existe nesse trabalho com a reputação das empresas e dos profissionais.
Super. A gente vê muito na questão da tecnologia esse desentendimento, como eu falei, sobre como funciona o produto, o que pode levar a uma cobertura de imprensa que não corresponde ao que realmente está acontecendo. Então, eu acho que a gente pode pensar alguns exemplos aqui onde isso aconteceu. Então, deixa eu pensar mais especificamente.
Você pode me trazer exemplos até sem citar nomes de empresas, se houver ali alguma relação ética entre vocês, mas assim, exemplos para que a gente tenha uma noção clara do que que nós estamos conversando aqui com as pessoas, né? Porque reputação tem preço. Tem valor, né, muito grande hoje em dia.
Eu vou citar uma empresa que até deixou de operar no Brasil por questões regulatórias, para você ver como a reputação ela entra muito de linha de frente. A Tools for Humanity, esse é o nome da empresa, que é, enfim, é inglês. Eles criaram uma ferramenta cuja ideia é o seguinte: cada vez mais vai ser mais difícil distinguir quem é humano e quem é máquina na internet. E a gente vai chegar num ponto em que a IA vai ser tão boa em imitar os humanos que a gente já não vai conseguir dizer se ela é humana ou se ela é máquina.
Então a gente vai ter que fazer o inverso, a gente vai ter que comprovar quem é humano, porque quem é máquina a gente não vai conseguir mais. Então eu vou dar um exemplo simples: é quando a gente faz a proteção dos captchas de meio prova que você é humano mesmo. Hoje uma IA avançada já burla isso com muita facilidade. Então como que a gente vai garantir que os sites não sejam hackeados, que a gente não tenha fraudes fiscais, que a gente não sofra ainda mais com essas situações que já oneram muito o consumidor brasileiro.
A gente precisa desenvolver tecnologias que identifiquem quem é humano. É isso que a 4Humanity fez. Eles criaram uma tecnologia e eles pensaram muito sobre qual é a biometria humana que é mais difícil de burlar. E a mais difícil de burlar é a íris. A íris é algo que muito dificilmente mesmo uma IA mais avançada no futuro consiga burlar. E aí eles criaram um sistema que é o seguinte: a pessoa faz um escaneamento inicial da íris, em nenhum momento a empresa vai usar isso, isso é apenas para criar um código único que identifica a pessoa como um ser humano único.
Ele não identifica que é o Milton, que é a Daniela, ele não salva essa íris, esse material ele é descartado, e só o código, que é só o que o computador precisa ler, que essa identificação única desse ser humano único é o que é mantido. Acontece que houve um entendimento muito equivocado da empresa sobre esse produto, e o que saiu na imprensa é que essa empresa escaneava as íris para vender as íris da pessoa, o que não tinha nada a ver com o negócio dele.
E isso fez com que a ANPD fosse provocada a se manifestar, e a ANPD acabou dando uma decisão que acabou prejudicando muito um aspecto específico do negócio deles, em que eles foram obrigados a deixar de operar no país. Então essa é a importância de você fazer uma comunicação estratégica, anteceder, explicar o que é o seu produto, para que que ele serve, qual é o valor. Eu acho que o erro deles foi não ter conseguido mostrar qual é o valor que esse produto traz para a sociedade hoje, porque eu acho que tem muito valor, né, se você pensar em fraudes.
E esse também passou por uma falta de regulamentação nesse tema?
Não havia uma regulamentação. A ANPD no primeiro momento não achou nenhum problema, eles foram lá se apresentar, nisso eles fizeram muito bem. Mas depois, por toda repercussão que teve na imprensa, a ANPD foi muito pressionada a agir, né? Então por isso o problema da gente, essa questão da gente esclarecer bem o que é produto, comunicar bem para as pessoas como funciona, qual é o valor, para a gente evitar esse tipo tipo de situação.
Ou seja, comunicação é essencial então na proteção da sua reputação.
Exatamente, é essencial na proteção do próprio negócio, na verdade.
A gente já falou que você já trabalhou em várias empresas, muitas delas frequentemente estavam no centro dos debates públicos. O que que esses anos todos ensinaram sobre como lidar com pressão, com crise, com o escrutínio permanente pelo qual essas empresas passam?
O que eu mais aprendi é que quanto mais você trabalha preventivamente para criar um colchão reputacional, melhor. Que não significa que você não vai tropeçar, não vai sofrer quedas, não vai ter crítica, faz parte do jogo. Eu falo para encarar as críticas ao seu produto com muita naturalidade, porque afinal de contas isso é uma forma de diálogo também. É importante você ouvir também o que as pessoas têm a dizer, as críticas que existem.
E mais do que trabalhar reativamente, é trabalhar para entender, endereçar e comunicar isso de uma maneira melhor, né? Não ter medo das críticas e se preparar bem para responder e para conseguir endereçar essas ansiedades que a sociedade também tem em relação à tecnologia natural.
Daniel Kleiner, quero agradecer a sua gentileza de estar conosco e, claro, compartilhamento do seu conhecimento. Com os alertas todos que você fez aqui, aquelas pessoas que estão nos acompanhando no mundo corporativo. Muito obrigado e até uma nova oportunidade.
Eu que agradeço, Milton.
Bom dia.
Nós conversamos com a Daniele Kleiner, sócia fundadora da Alandar. Ela foi a nossa convidada no Mundo Corporativo de hoje. E essa entrevista completa fica à sua disposição no canal da CBN no YouTube, no Spotify, no podcast mais próximo do seu celular. Lá no meu blog, miltojung.com.br, Jung você escreve com J-U-N-G, você tem os destaques da nossa conversa, o vídeo e o espaço para deixar também a sua opinião. Colaboraram com o Mundo Corporativo: Carlos Greco, Letícia Valente, Débora Gonçalves e Rafael Guruja. Até um próximo capítulo do Mundo Corporativo.
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