Episódios de Economia

Adiamento do ultimato favorece estratégia de Lula para conter inflação, afirma Gilberto Braga

08 de abril de 202614min
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O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã torna factível a proposta do governo de subsidiar o preço dos combustíveis, afirma Gilberto Braga. Segundo o economista, a perspectiva de negociação entre Washington e Teerã fará com que o preço do petróleo caia no mercado internacional.

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Participantes neste episódio2
P

Paulo Galvão

Hostjornalista
G

Gilberto Braga

ConvidadoEconomista
Assuntos4
  • Relacionamentos FamiliaresSaque do FGTS · Dívidas e crédito
  • Subsídio ao DieselProposta de subsídio · Impacto na inflação
  • Desempenho EconômicoGuerra e petróleo · Impacto econômico do cessar-fogo
  • TikTok educação e finançasImportância da educação financeira
Transcrição42 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

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Muito bem, nosso contato semanal com o professor economista Gilberto Braga, CBN, valorizando seu bolso. Gilberto, muito bom dia, tudo bem por aí? Bom dia, Paulo Dalvão, tudo bem com você?

Tudo ótimo. Bom, a gente tem dois assuntos importantíssimos hoje. A gente vai falar aí dessa tentativa do governo de tratar da questão do endividamento familiar. Muita gente com dívidas, o governo está estudando aí algumas propostas. Mas antes, Gilberto, eu queria que você falasse um pouco da situação aí da guerra. Felizmente tivemos um acordo, pelo menos por mais duas semanas, um cessar-fogo.

possibilidade de passagem dos navios pelo estreito de Hormuz, algo muito importante, não só evidentemente do ponto de vista humano, para a questão da guerra, mas econômico também.

Com certeza. Eu acho que essas duas semanas significam, do ponto de vista de suprimento de petróleo, um refresco para o mundo, na medida em que navios de todas as bandeiras poderão usar o streito. Então as rotas são reabertas, há uma reconexão de todo o fluxo. Isso é bom para os países do Golfo, de uma forma geral, que vão poder desovar a produção que está super estocada.

e durante duas semanas você tem vários navios ali na região, navios petroleiros, que poderão carregar o produto e sim de alguma maneira aliviar a questão internacional. Então do ponto de vista econômico isso vai trazer algum alívio, como também a perspectiva de uma negociação deve fazer o preço do barril cair, enquanto são duas semanas de um processo de conversação diplomática.

e essa possibilidade de que de alguma forma ambos os lados cederam embora exista uma certa dúvida sobre quem é que tá dando as cartas quem é que tá direcionando acho que ambos os lados tem pontos fortes e fracos nesse processo né mas eu acho que para economia de uma forma geral é uma boa notícia né Govão a questão humanitária você já mencionou e para o bolso faz bem também

Ah, sim. Excelente. O governo está, de alguma forma, tentando atuar para reduzir o imposto sobre os combustíveis, principalmente na questão do diesel, porque, eu estava vendo os dados aqui, né, Gilberto, 60% dos produtos brasileiros são transportados hoje no Brasil via caminhão, via estrada.

Então, não há dúvida nenhuma que o aumento do preço do combustível tem um impacto geral na economia, nos preços de vários produtos e na inflação e, consequentemente, na possibilidade ou não de realmente existir uma trajetória de queda da Selic, né? Porque, por enquanto, tivemos uma queda só de 0,25, de 15 para 14,75, para que se inicie realmente uma trajetória, a gente necessita de mais uma agora no final do mês, né?

Eu acho que você já disse tudo. Eu acho que existir uma perspectiva de queda do petróleo, inclusive, torna factível essa proposta que o governo está costurando.

de subsidiar o preço do combustível. Então seja o queroseno de aviação, seja a questão do diesel que alimenta toda a nossa maria logística, porque se o preço internacional cai, o valor do preço interno começa a ficar mais próximo do preço que você vai poder importar. Porque a grande dificuldade hoje é que o preço lá fora é mais caro do que o preço convertido que você vende aqui dentro.

Então a maioria das empresas do setor não aderiu, fora a Petrobras e algumas empresas menores, as grandes empresas de marca.

que operam com Shell, com Ipiranga, elas não vão aderir, porque significaria vender com prejuízo, mesmo com todo o subsídio. Se o preço cai, automaticamente você torna mais viável essa equação e pode ser que a coisa mude de figura, seja através da própria política ainda temporária de subsídio do governo federal, seja através dos próprios preços relativos internacionais.

Bom, professor Gilberto Braga, vamos para o nosso segundo assunto aqui, que é importantíssimo e mexe demais com o bolso das nossas ouvintes, os nossos ouvintes, tem muita gente endividada e o governo, de alguma forma, está estudando. O ministro da Fazenda, Dário Durigam, afirmou.

que o governo está estudando a possibilidade de saque de parte do FGTS para quitar dívidas e umas outras ideias. Como é que você está vendo, está enxergando essas propostas ainda, por enquanto, em estudo?

É, na verdade, nessa última terça havia a expectativa de que o governo já ia soltar o pacote, pelo menos foi assim que o dia iniciou, não é o dia passado, mas a coisa parece que ainda está sendo formatada, não ficou pronta, existem alguns detalhes, apesar do ministro da Fazenda.

o atual Dário Lurilã já ter confirmado que vai usar o fundo de garantia e que essa avaliação tá bastante avançada dentro do governo e o que tá se estudando aí são os detalhes, a característica, a preocupação que se você esvazia demais o fundo, isso pode faltar dinheiro para habitação.

e qual é o tamanho, quanto tempo de dívida, quanto de comprometimento, se vai ter alguma coisa com relação ao saldo ou não. Então essas questões todas, elas precisam ser costuradas. O que está por trás disso é que hoje você tem 80% das famílias com dívida e dentre esses endividados mais de 50% com atraso nas prestações.

E aí começa a entrar aquela linha do crédito do cheque especial, do cartão de crédito, do rotativo, do crédito consignado. E o governo já colocou no foco essas duas principais contas, o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito.

E o que não se sabe ainda é qual é o tamanho disso, ou seja, para quem vai ser os elegíveis. Nessa terça se falou que quem ganha até três salários mínimos ou até três salários mínimos de dívida, existe aí uma dúvida com relação a esse parâmetro.

mas o três salários mínimos aparentemente é um parâmetro que vai estar de alguma forma contemplado. E a ideia é que você tenha algo que seja mais fácil do que o programa lançado no ano passado, que foi um bom programa.

que de fato foi efetivo, mas a adesão não foi aquilo tudo que o governo esperava. E mais, o endividamento cresceu. A percepção das pessoas é de que a vida piorou do ponto de vista econômico. E isso é muito ruim para o governo, sobretudo no ano eleitoral, há seis meses de um pleito majoritário. Então, isso tudo gera muita especulação e o governo espera que isso possa ser algo que venha reverter a aprovação do governo.

E a questão econômica voltou à palpa, né, Galvão? Ah, sim. Esse aspecto eleitoral realmente não tem dúvida nenhuma de que há uma tentativa de melhorar os dados da aprovação do presidente Lula. Agora, eu vou fazer aqui o advogado diabo, né, Gilberto?

que é a nossa função também. Obviamente que para quem está endividado pode vir aí uma boa notícia. Agora, quem é que vai pagar essa conta? Tem dinheiro para isso? O governo está contando as moedinhas para fechar o arcabouço, para fechar as contas públicas, dívida bruta subindo 10 pontos percentuais nos últimos 4, 5 anos. Então, acho que isso é um...

É uma preocupação. O governo vai tirar de onde esse dinheiro? Ou os bancos realmente vão aceitar receber menos? Com quem vai ficar essa conta aí? Pois é, o governo está tentando usar dinheiro esquecido nos bancos.

Eu só não sei a quem pertence esse dinheiro, mas de qualquer maneira seria assim, se a pessoa não foi buscar até hoje, depois de tantos adiamentos e tantas oportunidades, como se dissesse, perdeu ou está perdido, então o que a gente faz com esse dinheiro? Vamos pagar a dívida dos outros. Então, quem não foi buscar, está arriscada a ser uma das fontes de financiamento.

para essa nova rodada de bondades que o governo vai dar. Então, não se tem ainda noção, mas os bancos entrariam de alguma forma com alguma coisa, ou com alguma contrapartida.

E aí o governo está estudando também quais seriam essas contras partidas e o que o governo tem para oferecer para o credor em termos de algum alívio tributário, se é que é possível a gente falar disso. Então, indiretamente, se vier sob a forma de alguma renúncia fiscal, quem paga é o conjunto da população, que seria o dinheiro, e teoricamente seria arrecadado e que beneficiaria a sociedade como um todo.

A outra questão que você não colocou, e aí eu vou fazer o papel de advogado do diabo para te devolver, Galvão, é se você não acha que a turma está endividada, não vai limpar o nome e vai se endividar de novo. Então, a gente sempre diz que precisa de um programa de educação financeira, de melhorar a renda das pessoas.

Não adianta nada, se há um ano atrás você deu e boa parte que estão endividados eram as pessoas que entraram no ano passado e já estão com o nome sujo, com o CPF manchado de novo, é alguma coisa paliativa, né? Porque a gente precisa de uma solução que seja definitiva.

Concordo plenamente e acho que isso devia acontecer desde a tenra idade, na escola. Acho que é importantíssimo que haja educação financeira para a garotada, para que essas pessoas realmente saibam.

exatamente como lidar com o dinheiro, principalmente num país com juros estratosféricos, como a gente tem aqui no Brasil, porque a gente fala de Selic 14,75 e tal, mas os juros, por exemplo, do rotativo do cartão de crédito, o governo federal já adotou algumas medidas nos últimos anos para limitar esse endividamento, mas ainda assim...

vira uma bola de neve. Então, é muito importante que as pessoas tenham noção de como utilizar o seu dinheiro para não ficar nessa rotatividade. Resolve o problema hoje, mas amanhã já começa outro. Você levanta um ponto importantíssimo.

É, eu acho que é uma questão de educação, educação financeira, ela é ausente, mas a gente tem aqui uma sensação de que a situação está tão difícil e com os juros no patamar que está, a possibilidade de você limpar a hora, digamos assim, botar o nariz para fora da água, respirar um pouquinho e afundar novamente é muito grande.

Então, eu acho que a gente está adiante de uma situação muito complexa do ponto de vista financeiro, político. A aprovação do governo, eu acho que não vai melhorar com isso.

até porque você está falando de pessoas que já não estão mais dando credibilidade, ou pelo menos não estão reconhecendo o valor, pelo menos as pesquisas sugerem isso, para os programas sociais, isso já virou, digamos assim, direito adquirido, está pago, já votei, não vou votar de novo por causa disso, então apesar da efetividade dos programas e da melhoria de renda que ocorreram nesses...

em todas essas iniciativas, elas não melhoraram a percepção da aprovação do governo. E eu não sei se há seis meses das eleições isso não vai ficar muito marcado, ou seja, quem puder vai usar, mas eu não sei se é isso que vai fazer o voto mudar ou as pessoas começarem a achar que o governo fez uma boa gestão.

Então o governo está sem uma marca, sem uma identidade do ponto de vista econômico e a sensação de que as pessoas quando vão ao mercado e veem o que estão gastando para comprar o alimento é de que a vida está mais cara. Então isso é difícil de você reverter, até porque a dívida se dá na maioria das pessoas porque são perdulárias ou são descontroladas.

elas se dão, elas se dão por uma questão de necessidade. E aí se você não dá renda, é difícil você melhorar isso. A dívida, você menorar a dívida, tirar os juros, dar um desconto de 80% como vem sendo cogitado, é importante, é bacana, mas não é isso que vai resolver tudo.

Muito bem, professor economista Gilberto Braga, sempre valorizando o seu bolso, ouvinte CBN, aqui no CBN Madrugada. Gilberto, mais uma vez, muitíssimo obrigado, uma ótima semana para você e até a próxima. Forte abraço a todos, até semana que vem.

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