Episódios de Como Você Fez Isso?

COMO TOMAR DECISÃO SOB PRESSÃO? | Guilherme Batilani #150

15 de julho de 20261h18min
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Como tomar decisão sob pressão sem se arrepender depois?

Neste episódio, Caio Carneiro recebe Guilherme Batilani, comunicador e autor dos livros Comunicação de Milhões e Por Que Você Fez Isso, para revelar por que a maioria das nossas escolhas está contaminada por vieses cognitivos, circunstâncias e uma quantidade absurda de sorte que a gente insiste em negar.

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Sobre o episódio:
Guilherme Batilani destrincha os 2 passos práticos para decidir melhor (analisar suas circunstâncias e procurar seus vieses), traz a hipótese da chuva de meteoros para explicar por que sorte e trabalho duro precisam andar juntos, questiona duramente a frase "não desista nunca" e explica por que a geração atual está mais ansiosa. Um episódio que mergulha em conceitos poderosos como o estado de flow, os tipos de sorte segundo Taleb, e por que autoconhecimento é a ferramenta principal para não perder a cabeça sob pressão.

O que você vai descobrir neste episódio:

  • Os 2 passos práticos para tomar melhores decisões: analisar suas circunstâncias e procurar seus vieses
  • Por que "não desista nunca" é uma frase perigosa (e quando desistir é a decisão mais inteligente)
  • A hipótese da chuva de meteoros: como aumentar a superfície de contato com a sorte
  • Por que a geração atual está mais ansiosa: consumimos vidas que não são possibilidades reais
  • Como o estado de flow é o antídoto científico contra ansiedade crônica

🎯 Conheça o convidado:
👉 Guilherme Batilani: @guilhermebatilani

Siga o Caio Carneiro:
Instagram: @caiocarneiro
CVFI: @comovcfezissopodcast

#GuilhermeBatilani #Decisão #Autoconhecimento #Vieses #Sorte #Flow #Podcast

Participantes neste episódio2
C

Caio Carneiro

HostJornalista
G

Guilherme Batilani

ConvidadoComunicador e autor
Assuntos8
  • Fadiga DecisóriaAnálise de circunstâncias · Identificação de vieses cognitivos · Sistema 1 e Sistema 2
  • Autocontrole: Inteligência EmocionalNecessidade de controle e antecipação · Diferença entre correlação e causalidade · Mecanismos para não perder a cabeça
  • Impacto das Redes SociaisComparação social e desejos impostos · Paradoxo da escolha · Geração ansiosa · Baixa sociabilidade
  • Importância de não desistirPerigo da frase 'não desista nunca' · Perfil e capacidade individual · Estatística e exceção
  • Estado de FlowDefinição de Flow · Atividades desafiadoras e prazerosas · Contemplação temporal
  • O Papel da Sorte no SucessoHipótese da chuva de meteoros · Tipos de sorte · Sorte e trabalho duro
  • Oposição e crescimentoTomada de decisão rápida · Ações intensas e frequentes
  • Imagem corporal e padrões de belezaEfeito halo · Capital erótico · Aparência como produto
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CCCaio Carneiro

Isso é um segredo, que é a melhor forma de tomar uma decisão sob pressão.

GBGuilherme Batilani

Como que você tá em relação a tudo? Senta e se pergunta. Esse é o passo número 1: analise as suas circunstâncias antes do processo de tomada de decisão. Passo número 2: procure os seus vieses. Será que não estou pensando nisso porque eu sou limitado a olhar de outra forma? Como cada um é capaz de enxergar de uma forma, a gente precisa aprender a o quanto a gente é limitado para enxergar como um todo. Você já tomou uma decisão e se arrependeu logo depois?

Sob pressão, nossa mente pode nos enganar mais do que imaginamos. Hoje você vai entender como os vieses influenciam nossas escolhas, porque até pessoas inteligentes erram ao decidir, e como decidir melhor nos momentos mais importantes. Nosso convidado é professor, comunicador e autor dos livros Comunicação de Milhões e Por que Você Fez Isso. Ele é Guilherme Batilani.

CCCaio Carneiro

Tomar decisão rápida, até quando rápido é bom e rápido não é bom.

GBGuilherme Batilani

Eu acho que tomar decisão rápida é muito importante, porque se você pensar demais você não faz nada.

CCCaio Carneiro

Fala, galera! Sejam todos muito bem-vindos a mais um super episódio do Como Você Fez Isso. Como vocês viram na nossa introdução, eu queria obviamente que a nossa plateia aqui recebesse esse convidado, que eu estou animadíssimo pelo papo com ele. Então eu recebo Guilherme Batilani. Palmas para o Guilherme, senhoras e senhores!

GBGuilherme Batilani

Valeu, viu, meu irmão?

CCCaio Carneiro

Obrigado pelo convite.

GBGuilherme Batilani

Bater um papo legal para caramba.

CCCaio Carneiro

Caramba, tive já um papo super agradável com você antes da gente apertar o play aqui. Eu tenho certeza que o papo vai ser muito legal. Deve ver que é um cara nota 1000 e que tem um conteúdo que, bicho, é direto e reto ali, né? Seu conteúdo eu gosto muito porque você fala o que tem que falar. Eu acho que você é bem assertivo nas suas colocações e você acaba trazendo a pessoa para uma realidade importante de de direcionamento. Eu sempre falo para todo mundo que o nosso podcast ele começa a partir de um como, né?

O como você fez isso. E o como que eu quero trazer para a gente começar a conversa: como tomar decisões certas sob pressão? Como decidir certo quando você, cara, tá no ambiente de estresse, pressão? Porque todo mundo fala assim, cara, tomar decisões é importante, tá, em ambientes, porque a vida é difícil, tem gente que tá passando por uma fase turbulenta, ou A pressão sempre vai cercar a vida adulta. Então, por onde que a gente começa esse papo?

Sabe o que que rola na cabeça da pessoa quando ela tá no momento de pressão? Quando eu sei que eu tô sobre pressão, então eu quero começar a jogar essa bomba fácil de responder, fácil de responder. Mas e aí, obviamente a gente vai navegar por um papo muito legal, mas qual você acredita que é a melhor forma de tomar uma decisão sob pressão?

GBGuilherme Batilani

Tá, eu acho que a primeira coisa é a gente conseguir, ou pelo menos aprender o máximo possível, a fazer uma leitura circunstancial de tudo que tá acontecendo na nossa vida, desde o passado até o presente. Porque o nosso comportamento, Caio, ele é fundamentalmente circunstancial. Vai ter momentos que você vai fazer determinadas coisas que no futuro você vai pensar e falar assim: o que que fez eu fazer aquilo? Porque não era para eu ter feito.

E em outras condições diferentes, por exemplo, você teria tomado outra decisão e e feito outra coisa completamente diferente, às vezes por uma única circunstância, uma única variável besta. Por exemplo, você tem um carro para vender, tá? E o seu carro vale R$200 mil. Se você tem R$10 milhões na conta e um cara te oferece por R$180 mil, você vai falar: olha, eu agradeço sua gentileza, mas eu não tô precisando de dinheiro. Meu carro vale R$200 mil.

Ou você paga R$200 mil, ou amizade é a mesma, você vai ficar sem meu carro e eu sem os seus R$180 mil. Se você tem uma dívida de R$180 mil e esse dinheiro do rapaz pode limpar o seu nome, você vai vender o seu carro por R$180 mil, apesar dele valer R$200 mil. Então, a circunstância mudou completamente a decisão. E é por isso que as decisões não são certas ou erradas, são respostas circunstanciais de um momento de vida. E uma outra coisa que eu falo é a gente aprender a entender os nossos vieses.

O que que é viés? Viés é tudo aquilo que a gente é incapaz de enxergar, porque ou a gente é só, só enxerga o que a gente conhece, ou porque a gente tá cego por emoção. Por exemplo, é, o Bruno Guimarães perdeu o pênalti, infelizmente, contra a Noruega. Nossa, você foi me relembrar, eu já tava bom, né? Tava divertido. Foi mal, desculpa, gente, eu não queria deixar esse clima de melancolia.

CCCaio Carneiro

Eu vi que eu não superei ainda.

GBGuilherme Batilani

E aí Quando o Bruno bateu o pênalti e perdeu, todo mundo vem à tona dizendo o que deveria ter feito. Mas pra gente pegar, por exemplo, pensar no Daniel Kahneman, quando escreveu o livro Rápido e Devagar, ele fala sobre o Sistema 1 e Sistema 2. O que o Sistema 1 vai falar pra gente? Deveria ter sido o Vini Jr., deveria ter sido outra pessoa. O que o Sistema 2 vai falar? Calma, vamos olhar os dados, ou vamos pelo menos questionar a nossa ignorância diante de um italiano que ganhou praticamente tudo no futebol.

Será que sei mais do que Carlo Ancelotti? Será que houve uma conversa anterior dentro do vestiário que eu não estou sabendo? Será que Vini Júnior também não poderia errar como qualquer outro jogador? Será que Bruno Guimarães não vinha fazendo uma excelente Copa do Mundo, por isso foi também um dos escolhidos? E a gente começa a olhar pelo Sistema 2, e eu até fiz uma brincadeira para ensinar o meu pai a usar o Sistema 2.

CCCaio Carneiro

Qual foi a brincadeira?

GBGuilherme Batilani

A brincadeira é o seguinte: toda conclusão que você chegar, que você tem certeza que tá certo, eu vou olhar para sua cara e falar assim: você põe R$10 mil na mesa do que você tá falando?

CCCaio Carneiro

Você banca?

GBGuilherme Batilani

Você banca R$10 mil? E aí um dia ele falou assim: mas você põe R$10 mil de volta? Eu falei: eu não, porque eu não tô afirmando nada. Quem tá afirmando é você. E no momento em que ele sente a dor da perda, da perda, da provável possibilidade dele tá errado, ele falou: não, me dá mais um tempo. Que aí eu vou investigar e eu afirmo se eu realmente estou falando certo, se eu tô falando alguma coisa que faz mais sentido. Então acho que pro processo de tomada de decisão ser uma coisa inteligente, você precisa saber as suas circunstâncias.

Você dormiu bem? Você tá bem alimentado? Você tá carente? Você tá numa fase de estresse crônico ou você tá tranquilo com os seus familiares? Você tá se relacionando com seus amigos? Em que momento você tá tomando sol, praticando esporte? Como que você tá em relação à sua saúde física e mental? Como que você tá em relação à sua vida social? Como que você tá em relação à sua vida financeira? Como que você tá em relação aos seus sonhos?

Como que você tá em relação a tudo? Senta e se pergunta. Esse é o passo número 1: analise as suas circunstâncias antes do processo de tomada de decisão. Passo número 2: procure os seus vieses. Será que não estou pensando nisso porque eu sou limitado a olhar de outra forma? Porque toda— por exemplo, vamos pensar uma estrada. A gente tá, a gente vai viajar E pensa só, tá? Você, o seu carro e a estrada. Cada ser humano que tá aqui nessa sala, eu e você, a gente vai viajar por um, por um, de uma maneira muito específica.

Se tiver algum biólogo aqui, o biólogo vai viajar olhando as plantas e os animais locais. Se tiver algum engenheiro, ele vai olhar pro asfalto procurando buraco e os problemas da estrutura, ou se as curvas estão certinhas. Se tiver um agricultor, ele vai ficar olhando como que tá a colheita do milho, da soja. O meu ponto é, é como cada um é capaz de enxergar de uma forma, a gente precisa aprender o quanto a gente é limitado para enxergar como um todo, entende?

E aí, aí vem a gente pedir a opinião de outras pessoas, e geralmente opinião que vai contrária a nossa, porque senão a gente entra no viés de confirmação, que é basicamente quando você procura elementos para confirmar aquilo que você escolheu acreditar. Então Enfim, o processo de tomada de decisão, ele perpassa por esses dois caminhos inteligentes: você olhar suas circunstâncias e procurar os seus vieses.

CCCaio Carneiro

Então, o único capaz de avaliar se a decisão foi acertada é quem tá lá no núcleo da circunstância, né? Porque eu de fora nem consigo avaliar: será que esse cara tomou uma boa decisão, uma má decisão? Eu não sei o bastidor da circunstância dele. Então, o único capaz de avaliar, ou não, ou alguém de fora consegue avaliar se uma decisão— até quando alguém vai dividir, pedir opinião, né, cara? Fica até difícil de você dar opinião.

Acho que todo mundo que tá ouvindo a gente talvez já esteve no lugar daquele amigo que vai tomar uma decisão e pede a sua opinião.

GBGuilherme Batilani

E é complicado, né?

CCCaio Carneiro

E é complicado até contribuir. Qual que é a sua visão quando tá nessa posição? Quando alguém divide uma decisão difícil, como não ser aquele amigo que, bicho, atrapalha? E como ser aquele orientador que realmente entende se— porque o lance da circunstância foi fenomenal, né? Você deu exemplo do pênalti do Bruno Guimarães. Depois eu fui olhar um pouco, ele, pô, o cara tinha levantado os últimos 3 pênaltis, tinha analisado o jeito que o goleiro se mexia e o estilo de cobrança da perna, do jeito que o Bruno batia.

Então probabilidade estatística rodaram um negócio. Então estatisticamente era aquela coisa, na hora eu não sabia, né? Na hora eu fui do time, pô, porque não foi o vermelho, né? Mas e quando a gente tá na figura do cara que contribui, sendo que nessa hora não tem certo e errado, e sim a circunstância de quem tá lá no núcleo da história?

GBGuilherme Batilani

Eu acho que a nossa função, como se a gente quiser de fato orientar as pessoas, é questionar o porquê que ela chegou àquela conclusão apenas. O meu trabalho hoje não é um trabalho de bater martelo e dizer o que que as pessoas deveriam fazer da vida. Elas são adultas, tanto quanto eu. Elas têm a história delas e eu não conheço melhor a história delas do que elas. Só que o meu trabalho é de questionar os vieses dela. Então, ah, eu acho que, por exemplo, eu estou num relacionamento tóxico em que o meu marido não é um bom marido.

Tudo bem, essa é uma conclusão muito forte. Me conta um pouco sobre o seu relacionamento com seu marido. E aí, se ela chegou a essa conclusão, a gente tem que concordar que ela tá numa fase específica da vida, que ela às vezes tá até com ranço do marido. Então ela começa a procurar elementos que confirmem o fato do marido dela ser um cara chato, ser um cara problemático, e ela odiar o marido dela. Às vezes eu posso mudar uma coisa muito simples, como fazer uma boa viagem em casal, e essa, e um ambiente novo pode mudar quase que completamente a perspectiva que ela tem sobre o marido, só porque eu mudei o ambiente.

Ou eu pelo menos levantar um questionamento do o que que te faz pensar que ele é tão ruim Sendo que existem outras pessoas que se comportam dessa forma, sendo que ele deu o seu melhor, mas você deu o melhor dele, mas ele parou de— você parou de procurar quando ele faz coisa boa porque você tá nesse viés de confirmação de que ele é ruim. Então, por exemplo, o cara vai lá, traz uma flor um dia, traz outra flor um dia, traz outra flor um dia, e ela: bacana, flor, bacana, flor, bacana, flor.

Aí o cara vai lá e deixa a toalha em cima da cama e ela já tá disputa, ela vai esquecer todas as flores que ele deu para se concentrar no quanto ela não aguenta mais conviver com um cara desorganizado. Então a minha função como orientador é só dizer: vamos procurar os seus vieses. O que que você tá sentindo? Por que que você tá sentindo? Será que isso não é resultado de um sentimento acumulado e não de uma coisa que realmente faz parte da convivência de vocês?

Entendeu? Bater o martelo é uma coisa muito perigosa, né? Porque a vida das pessoas que tá em jogo, você não pode. E tem muita gente que confia na gente de uma maneira quase que cega, né? Cara, eu tô com esse problema e como que eu resolvo? Aí você tem que trazer mais perguntas e não necessariamente uma resposta, né?

CCCaio Carneiro

Você é de acordo que, por exemplo, tomar decisão rápido, até quando rápido é bom e rápido não é bom?

GBGuilherme Batilani

Eu acho que tomar decisão rápida é muito importante, porque se você pensar demais, você não faz nada.

CCCaio Carneiro

Exato.

GBGuilherme Batilani

Se existe algum padrão entre pessoas que ascendem socialmente, é agressividade, né? O cara pega um negócio para fazer e ele faz. Então ele pensa, ah, o que que tem que fazer? Tem que postar vídeo? Foda-se, eu vou postar vídeo, sabe? Ah, o que que tem que fazer? Tem que subir no palco e dar aquela palestra? Dá o Mickey aí, vamos lá. Mas você tá pronto para palestra? Não tô, mas lá eu vejo o que que eu faço. Você sabe, esse conhecimento profundo.

Não, cara, mas deixa eu começar no raso, depois eu publico. Eu acho que é muito importante você tomar decisões rápido, porque se você não for agressivo, você não cresce. Por outro lado, determinadas decisões, elas precisam ser pensadas, porque senão você vai ficar um cachorro louco que não sabe nem o que tá fazendo. Então eu acho que o equilíbrio seria uma resposta saudável aí, né? Existem coisas que é essencial você ser agressivo, existem coisas que é essencial para você parar, pensar e ver o que que você vai fazer, entendeu?

CCCaio Carneiro

É porque tem alguns, acho que principalmente a internet pulveriza muito, né, aquela coisa, cara, e eu concordo com você. E como que você define essa agressividade? Que que é ser agressivo para crescer?

GBGuilherme Batilani

O que que é, qual que é essa agressividade no dia?

CCCaio Carneiro

Como que ela é traduzida em ações, essa agressividade?

GBGuilherme Batilani

Cara, vamos trazer para o meu trabalho, para o nosso trabalho, que é o mundo digital, por exemplo. Pra mim, agressividade é o cara abrir um perfil no Instagram e postar 5 Reels por dia durante 1 ano ininterruptamente. Tipo, isso pra mim é um negócio bizarro, eu pago muito pau pra quem faz isso, e isso é um cara agressivo. É um cara que, sei lá, ah, eu tenho que vender 10 águas por dia pra ganhar bem. Pô, vamos comprar 50 e ver no que que dá isso aqui.

Se eu conseguir vender só 10, beleza, eu volto lá no outro dia, mas eu vou tentar vender 50. E a pessoa faz o que ela pega pra fazer Ela faz muito, ela faz intensamente, entendeu? Eu acho que a agressividade tá aí, você pensar menos, fazer muito e fazer intensamente até você aguentar, entendeu? Tudo que eu me propus fazer na vida eu fiz de uma maneira um pouco intensa, e aí depois eu fui freando para eu continuar apaixonado pelo que eu faço.

Minha mãe dizia, né, tudo que você faz por hobby é uma delícia. Então comece intensamente até você se estabilizar de certa forma, e depois você faz no seu ritmo. Mas você começar devagar, como você vai colher resultados muito mais devagar também, te desanima. Você vai querer começar outra coisa e outra coisa e outra coisa. Você sempre foi um cara muito agressivo em tudo que você pegou para fazer, né?

CCCaio Carneiro

Ah, eu acredito que o sucesso é uma velocidade. Eu acredito que apenas aquelas decisões são bifurcações na vida. Fala assim, cara, agora é uma decisão Então, tipo, que pode me levar para lá ou para lá. Essa eu tendo a dar uma dirigida, eu tento dormir com ela, estressar a ideia, achar alguma maneira de destruir ela se eu não achei uma boa, engaveta ela e vê depois, né? Eu tento, eu tento comprar aquelas que são bifurcações assim.

E eu queria estressar uma palavra contigo, por exemplo, desistência. Não desista jamais. O que que você acha dessa expressão?

GBGuilherme Batilani

Não gosto dela não, cara, porque eu acho que ela foge da estatística, tá? Eu sou um cara muito apaixonado por números e eu gosto de analisar. Eu fiz faculdade de ciências sociais, né? E eu gosto de analisar o contexto social geralmente com número, tá? Porque se a gente analisa a sociedade do ponto de vista do indivíduo, a gente vai transformar exceção em regra. E a exceção, ela chama mais atenção por si só, porque ela é uma exceção.

Então, ah, eu tenho um amigo que era do nosso clube de futebol e hoje ele joga no Palmeiras. Ok, você tem um, sabe? Se a gente pegar o estado do Paraná inteiro, um ou dois caras hoje jogam no Palmeiras. A gente não pode transformar exceção em regra. E às vezes, se a gente insistir pra maioria das pessoas que elas não podem desistir nunca, e às vezes ela não tem perfil pra fazer aquilo. Imagina se alguém tivesse falado pra mim que eu não poderia nunca desistir de ser jogador da NBA.

Estaria... Eu fui um pouco longe pra ser didático, mas também eu fui professor de cursinho e eu fazia trabalho individual com alguns alunos e que eu via que tinha alguns que não tinham perfil pra passar em medicina numa universidade de ponta. E o disso...

CCCaio Carneiro

Mas quando diz perfil é capacidade.

GBGuilherme Batilani

Capacidade de QI mesmo, cara. Entendeu? O cara ia ficar 10 anos no cursinho para talvez passar, entendeu? A mesma lógica é eu jogar basquete.

CCCaio Carneiro

Como dá um feedback desse?

GBGuilherme Batilani

Cara, tem que ser honesto, cara. Igual eu sou no meu Instagram. Cara, talvez não vai dar. Eu acho mais inteligente, mais saudável você lidar com a possibilidade estatística de você só ser um número da média Tá? Ah, minha vida deu errado. Não, você só está na média. A de 99% deu errado, então você só tá na média, sabe? E o que é dar errado exatamente? Então eu diria para, se você não tem perfil, desista sim. Talvez possa ser a decisão mais inteligente que você pode.

Agora tenta outra coisa que esteja mais próximo do teu perfil, que enfim seja mais para você. Se você tenha algumas inclinações genéticas para fazer aquilo, algumas inclinações ambientais, você tem pessoas e um capital social que pode te ajudar a alavancar. Mas eu tenho muito medo do não desista nunca, especialmente num país que tem dificuldade financeira como o Brasil. Você ascender, você trocar de classe aqui, você sair da D para C, da C para B, é muito desafiador.

Isso é uma possibilidade? Ela é. Mas vamos falar em números. Quanto é essa possibilidade? Pessoas como como eu, no caso, que era um professor de cursinho, se tornar uma figura do tamanho que eu consegui chegar, a gente não tá falando apenas potencial e mérito, nós estamos falando de especialmente sorte envolvida nesse jogo, de estar no lugar certo, na hora certa, de ter pessoas certas me ajudando, de entrar no Instagram num momento em que o Instagram viralizava vídeos como viralizava lá atrás.

Então são coisas que se não fossem elas, e não tem nenhum mérito sobre mim nisso, eu não estaria aqui hoje. E eu gosto de falar isso pras pessoas pra, de certa forma, promover um pouco de paz. Falar, cara, calma, às vezes você é muito bom, você é qualificado, você trabalhou o suficiente, sim, mas não deu certo. E aí foi puro acaso, foi azar. Tem gente que é mais sortuda, tem gente que é mais azarada. E toca a tua vida e continua tentando. É a resposta que eu geralmente encontro pra confortar usando dado estatístico.

CCCaio Carneiro

Como você explica a sorte pras pessoas?

GBGuilherme Batilani

Muito boa essa pergunta, viu?

CCCaio Carneiro

Como você explica a sorte?

GBGuilherme Batilani

Tá, vamos lá. O dia que a gente nasce, Caio, lá no dia do nosso nascimento, assim, tem, sei lá, milhares de variáveis que a gente não controlou, que a gente não escolheu, que não tem nenhum mérito sobre nós. E essas variáveis vão tornar nossa vida mais fácil ou mais difícil. Por exemplo, a sua mãe ter se alimentado muito bem durante a gestação a cor de pele dela, se ela estudou numa boa universidade ou se ela não tem estudo, o hospital que você vai nascer, o ginecologista que vai tirar você, a cidade, o estado, o país, o idioma, o QI do seu pai, o QI da sua mãe, se você vai nascer num bairro violento, se você vai nascer num condomínio fechado, enfim, como nesse dia, só tô falando do dia 1 da sua vida, nesse dia vai ter milhares de variáveis que vão facilitar e milhares de variáveis que vão dificultar.

Você nascer filho de um pai alcoólatra que bate na sua mãe, você nascer filho de um pai que não teve estudo, de um pai problemático. Num país racista como o Brasil, você nascer negro, sua vida vai ser mais difícil. Então, se existem variáveis que vão tornar nossa vida mais fácil e mais difícil, como que a gente chama as variáveis que tornam nossa vida mais fácil?

CCCaio Carneiro

Sorte.

GBGuilherme Batilani

Sorte. E como que chama as que tornam nossa vida mais difícil? Azar, simplesmente não recai sobre nós mérito. Tem gente que nasce bonito, cara, eu tenho raiva dessas pessoas. Tem gente que nasce lindo assim, pessoa nem sabe.

CCCaio Carneiro

É uma variável incontrolável que contribui, que contribui muito para contribuir. Tem as variáveis incontroláveis que o cara de um limão faz uma limonada, tem muito também. Fala assim, cara, se eu tiro essa variável incontrolável teoricamente que atrapalhou ele, eu deixo de criar esse elemento que ele virou.

GBGuilherme Batilani

Total, total.

CCCaio Carneiro

Mas eu acredito também no fator sorte, sabia?

GBGuilherme Batilani

Você acredita? Sério, cara?

CCCaio Carneiro

Com toda certeza, cara. Eu acho que quando você nega isso, primeiro, acho que é de uma prepotência.

GBGuilherme Batilani

Também acho.

CCCaio Carneiro

Eu acho que, sabe, é como você não quer abrir mão de nenhum cantinho do seu troféu, cara. Eu geralmente, quando a pessoa não acredita que, cara, você não acredita que tem timing, você não acredita, você pode usar o nome que você quiser, timing, o que você quiser. Momento, o cara teve a bênção, o cara estava na hora certa, no lugar certo. Eu acredito muito nesse fator. Obviamente não acredito que apenas esse fator leva alguém, é como se fosse um acelerador disso.

GBGuilherme Batilani

Eu bato muito nessa tecla, eu digo que não é sorte ou trabalho duro, é sorte e trabalho duro. A gente tem um hábito muito grande em reduzir as coisas como um ou outro. Então, ou você é Lula, ou você é Bolsonaro, ou você é isso, ou você é aquilo. Por que não os dois? Então, Guilherme, você acha que você trabalhou duro para estar aí? Sim, acho, mas também acho que tive muita sorte para estar aqui hoje. E como que você— cara, perfeito.

No momento em que eu comecei a estudar profundamente a questão sorte, vou recomendar 3, 4 livros que são muito legais, que falam sobre esse assunto. Rápido e Devagar, do Kahneman, não tem como negar, leiam esse livro, um dos melhores livros que eu já li. O outro chama A Lógica do Cisne Negro, do Nassim Taleb. O outro chama O Andar do Bêbado, de Leonard Middelhau.

CCCaio Carneiro

Esse eu não conhecia.

GBGuilherme Batilani

Cara, é um livro maravilhoso. Esse livro mostra do ponto de vista estatístico e matemático o quanto da nossa vida é puro acaso.

CCCaio Carneiro

Que legal, cara.

GBGuilherme Batilani

Por isso que é O Andar do Bêbado, né?

CCCaio Carneiro

Entendi, entendi.

GBGuilherme Batilani

Muito bom. E o outro livro é Outliers, né? Que esse é super conhecido também. Acho que no momento em que eu comecei a procurar o elemento sorte na minha vida, Eu me tornei um cara mais humilde, ou seja, reconheço que sou um bom comunicador, mas também reconheço que existem milhares de comunicadores melhores do que eu que não estão aqui sentados contigo hoje. Reconheço que eu estudei, li bons livros, mas tem muita gente que leu melhores livros do que eu, leu mais do que eu, que não estão aqui hoje.

Reconheço que eu gravei vários vídeos, mas tem muita gente que gravou muito mais vídeo do que eu, que não tá aqui hoje. Então eu me torno uma pessoa mais humilde para saber dos meus, das minhas limitações, e eu me torno uma pessoa mais grata. E tipo, o universo, obrigado, obrigado, sei lá, obrigado, entendeu? Deus, universo, humanidade. E aí você quer contribuir mais para igreja, para comunidade, para escola, porque você tem esse senso de agradecimento, sabe?

Tipo, se a humanidade gostou de mim de graça, eu vou devolver, seja em formato de livro, seja em formato de aula gratuita, seja em formato do que for. Então você se torna uma pessoa mais humilde e mais grata com a vida, ao invés de você ficar: que na verdade, olha que eu acordei cedo. Tipo, nós estamos no Brasil, Caio, todo mundo aqui acorda cedo. Ah, eu vim de escola pública. Todo mundo aqui veio de escola pública. Ah, eu trabalhei duro.

Sim, quase todo mundo aqui no Brasil tem que trabalhar duro, senão não tem nem o que comer. Então esses argumentos, eles são argumentos muito superficiais pra você explicar a história de sucesso de alguém. Vamos lá, é importante pontuar isso. A história de um sucesso outlier, tá? Se, por exemplo, um promotor de justiça, um juiz que passou anos e anos estudando igual um camelo pra passar na prova, esse cara ouve eu falando isso, talvez ele fique bravo comigo.

Mas eu tô falando de alguém que saiu muito fora da caixa. E quanto mais ele sai fora da curva, mais existe sorte envolvida.

CCCaio Carneiro

Eu tô pensando enquanto você tá falando, tá vindo imagem de algumas pessoas, né? E realmente eu acredito nisso, né? Eu sou aquele cara que eu sempre fiz questão de dividir com as pessoas as variáveis que estavam no meu controle, que é o que eu consigo contribuir com alguém, pô. Eu consigo contribuir com você abrindo a minha caixa de ferramentas, as variáveis que eu controlei. As variáveis que eu não controlei, eu gosto de sempre trazer, porque eu acredito que é que nem onda, né?

Acho que quando você entende também o movimento da maré, não é que você sabe capturar a sorte, é que eu acho que você começa a ter um pouquinho de faro para timing, talvez, né? Um pouquinho de faro para timing. Por exemplo, muita gente na pandemia teve um timing que foi assim, o canal digital agora vai. Tem gente que, cara, desligou e nem olhou, e foi, cara, perdeu um puta de um timing, cara. Mas se temos por um lado pessoas que quando reconhece a sorte são gratas, são mais humildes, e eu me coloco aqui porque eu gosto de estar nesse lugar, na outra ponta da balança temos quem?

Temos o quê? Que tem gente que se perde também com esse papo, e o cara, meu, já larga a toalha ali, né? De um lado temos quando o cara reconhece a sorte e causa, né, isso causa gratidão e tal. E para quem ainda não venceu ou não chegou, não reconhece também.

GBGuilherme Batilani

É que assim, o próprio Taleb, ele fala que tem vários tipos de sorte.

CCCaio Carneiro

Exato, é isso.

GBGuilherme Batilani

Tem a sorte que é aleatória, que você tá andando na rua e você achar uma nota de R$200, sorte e aleatória. Existe a sorte social, que é, por exemplo, você é um virologista da USP, você tá ali no seu laboratório trabalhando há 20, 30 anos, Você ganha bem, você é um virologista da USP, mas do nada vem uma epidemia global, uma pandemia, e você se torna o principal pesquisador do país sobre aquele vírus. E aí, do dia para noite, todo mundo quer falar com você, sua vida muda completamente.

Existe a sorte por tentativa, que essa é a preferida, e essa é onde a gente conversa no Olho do Empreendedor. Ele fala que a sorte é uma chuva de meteoro. A todo momento fica caindo. Quanto mais você tenta, quanto mais você, quanto mais tentativas você tem, mais você aumenta a superfície de contato para o meteoro poder cair em cima de você. Muito boa essa, né? Então, se você ficar quietinho dentro do seu quarto, a sua superfície de contato é nada.

Se você tá igual um maluco saindo para rua todo dia, conversando com as pessoas, postando vídeo na internet, lendo mais, e vendendo alguma coisa e abrindo uma empresa, deu ruim, fecha, já abre outra empresa e vai para cima, a sua superfície de contato ela é muito alta. Então a qualquer momento, e às vezes isso pode, pode ser que isso leve anos, pode ser que isso leve meses, semanas, mas é muito mais provável que alguma coisa dê certo se você ficar igual maluco tentando.

Então para mim a hipótese da chuva de meteoro ela é uma hipótese que ela pode abraçar todo mundo.

CCCaio Carneiro

Entendeu?

GBGuilherme Batilani

E aí tem a sorte do cara que nasce herdeiro, da pessoa que nasce muito bonita, pessoa que nasce com QI muito alto.

CCCaio Carneiro

Eu vi um vídeo hoje falando sobre o porquê. Eu achei super interessante, não sei se é verídico não, mas foi uma tese interessante que o cara trouxe. Ele explicando por que que o Cristiano Ronaldo ele é mais popular que o Messi. Eu acredito que seja, se você pega número de Instagram, sobe o número absoluto, Cristiano acho que é o cara mais seguido hoje, quase 700 milhões de pessoas. Mestre tava 500 e pouco, Cristiano 600 e alto, Mestre 500 e pouco.

Ele falou, porque a história do Cristiano, as pessoas tendem a falar assim, eu prefiro essa porque essa é possível eu replicar, a do Mestre já não.

GBGuilherme Batilani

E eu acho isso um erro cognitivo muito grande.

CCCaio Carneiro

Eu queria sua visão sobre ela, né? Porque é o lance do cara que nasceu dom contra o trabalho duro, entende? Assim, cara, eu quero ser do trabalho duro porque aqui pelo menos é uma possibilidade para É uma possibilidade. O que que você acha disso? Por que que você—

GBGuilherme Batilani

eu acho que a lógica tá errada, porque por um motivo muito especial. Todos nós concordamos que o Messi é um alienígena do ponto de vista de talento, mas o Cristiano também é, também é. Se você olhar as fotos de criança do Cristiano Ronaldo, é sempre com troféu na mão. Ele já era promessa muito cedo, ele foi para Inglaterra jogar bola muito cedo, ele ganhou o primeiro, a primeira Bola de Ouro. E o Cristiano também é um talento.

O problema do Cristiano e o problema das pessoas enxergarem o talento do Cristiano é que existe um alienígena da mesma geração que ele. Mas olha de Marte e tira o Messi da jogada. Alguém tem coragem de dizer que o Cristiano não é talentoso?

CCCaio Carneiro

É verdade.

GBGuilherme Batilani

Então nós não estamos falando de um ser humano normal contra um talento. Nós estamos falando de um supertalento contra um cara que Você entende o meu ponto? Então não tem como o brasileiro médio falar, não, o Cristiano é tipo eu. Não é não, sabe? É tipo você se comparar ao LeBron James e falar, eu sou tipo LeBron. Você não é tipo LeBron, você não é tipo Kobe, você não é tipo ninguém. Todos os atletas que são de altíssimo nível, a gente conversava sobre isso ontem, Heitor, Eu falava, as pessoas assistem palestra do Michael Phelps e esquecem que ele calça 54, entendeu?

Que o cara abre os braços e tem, sei lá, 2,30 de envergadura. Quanto mais sorte envolvida num projeto, menos tem o que a gente aprender com ele. Muito provocativa essa frase, né? Então, tipo, os resultados que o Phelps tem, lógico que tem envolvimento muito direto com a disciplina, com o trabalho duro do cara. Mas a gente precisa obrigatoriamente olhar para a questão genética, porque não vai nascer outro nos próximos anos, talvez nas próximas décadas.

Então não dá para comparar Cristiano Ronaldo com, ah, ele é um trabalhador braçal.

CCCaio Carneiro

Porque é uma dualidade, né? É uma dualidade, né? A gente precisa pegar, geralmente histórias de sucesso nos inspiram, mas ao mesmo ponto não pode ludibriar. Por exemplo, eu sou o cara que eu concordo com você, e eu sempre fui aquela pessoa que sempre reforcei muito, falei assim, turma, cuidado com com uns exemplos? Porque assim, o cemitério das pessoas que não deram certo são silenciosas.

GBGuilherme Batilani

Ela não só não escreve livro e dá palestra, né? Você não escuta a história delas.

CCCaio Carneiro

Então assim, beleza, até pegando a referência de um cara que deu certo aqui, beleza, legal a gente pegar, né, se inspirar em pessoas que venceram. Mas e esse mar aqui de gente que então— e como trabalhar com isso, né? Como pegar uma história de um cara pegar? Porque tem o famoso passo de fé.

GBGuilherme Batilani

Sem fé a gente não faz nada, sem a recompensa futura.

CCCaio Carneiro

Pegar a história de um cara, pô, se esse cara pode, eu também posso. Aonde que entra nisso, se o cara pode, eu também posso?

GBGuilherme Batilani

Tá, eu acho que o primeiro ponto, a gente precisa procurar os elementos e as variáveis que ajudaram o cara, tá? Porque se esse cara ele é muito bonito e você não, então calma, que a chance de você ter o mesmo resultado que ele é mais baixa. Se o cara tem o QI muito alto e você não, calma, que a chance dele era mais alta.

CCCaio Carneiro

Só uma curiosidade, você falou de beleza duas vezes. Como você é um cara estudioso, tem alguma correlação tipo bonito com bem-sucedido?

GBGuilherme Batilani

Com certeza. Tem mesmo? Presente no livro chamado Capital Erótico. Sim, uma correlação direta assim. Pessoas que são mais bonitas ganham mais estatisticamente falando. E aí o universo das mulheres, ele essa alavancagem ela é mais alta, né? Mas também está presente no universo masculino também. Quem é bonito ganha mais, quem é bonito tem mais visibilidade. Vamos lá, você vai, vamos olhar o Instagram, por exemplo. A regra do Instagram, ele é uma máquina muito interessante de estudo antropológico, né?

CCCaio Carneiro

Para você deve ser tipo um banquete, né?

GBGuilherme Batilani

É Big Brother, Instagram, adoro ver essas coisas para isso. Você abre o seu Instagram Vamos lá, a lógica operada pelo Instagram é tempo de tela. Quanto mais tempo de tela uma pessoa consegue promover, mais o Instagram beneficia ela. Se o ser humano ama ver beleza, o fato de você ser bonito, você não precisa ter talento, você não precisa ter praticamente nada. Se você aparecer sendo uma beleza rara falando, oi gente, como é que vocês estão?

As pessoas em média vão ficar até o fim naquele vídeo. Beleza magnética, beleza magnética. E você geralmente paga mais caro por uma pessoa bonita, seja porque ela parece mais bem-sucedida, ou seja porque ela parece por si só mais cara. Se a pessoa é muito bonita e aparece na sua frente, você vai contratar ela. O efeito halo, o Kahneman fala disso também, né? O efeito halo que acontece em volta dela só pela beleza dela, no seu cérebro, lá no inconsciente, ou no consciente fala: essa pessoa é mais cara.

CCCaio Carneiro

Isso assim vem de fábrica no ser humano, não é eu que escolhi não, bicho, é o teu inconsciente vai decidir isso.

GBGuilherme Batilani

Efeito halo, viés de efeito halo é o nome disso. Não tem como você fugir disso. Por isso que muita gente fala: toma muito cuidado quando você achar que uma pessoa muito bonita é competente, porque é um viés, entendeu? Toma muito cuidado porque a gente tende a acreditar que pessoas mais bonitas são mais inteligentes. São mais competentes e elas chamam tudo, quando a pessoa é bonita, torna mais interessante. Por exemplo, a gente tá andando na rua aqui e a gente vê uma pista de skate.

A gente fala, legal, uma pista de skate, tem 6 skatistas andando ali e a gente passa reto. Num dia aleatório a gente passa mais devagar e tem uma menina linda andando de skate. Você vai parar, entendeu? Pelo menos vai passar com o carro mais devagar porque vai virar um evento uma pessoa bonita andando de skate. Vamos lá usar um exemplo masculino para ficar fácil de entender. O perfil Gabriel Medina não foi um sucesso à toa. Ele era o melhor surfista do mundo e ele é um cara muito bonito.

Nós também tivemos o Ítalo Ferreira, ele também foi o melhor do mundo. Por que que a figura Medina chamou mais atenção? O Ítalo é bonito também, mas a figura Gabriel é mais bonita. Isso, isso midiaticamente é um produto muito mais valioso. Portanto mais caro. Então por si só, você investir na sua aparência, você investir na sua, na moda, você investir na sua aparência, você não tá gastando, você tá tornando o seu produto mais caro, entendeu? Volta, viu, gente? Geralmente costuma voltar, tá?

CCCaio Carneiro

Por isso você, assim como eu, que não nasceu com esse turbo, tá? Não desista, vai ser um pouco mais difícil, tá? Mas não desista. Mas voltando para essa resposta, né, a pergunta era sobre, ah, e a pessoa que enxergou sorte, mas isso, isso, isso, a pessoa, por um lado temos aquele que reconhece sorte, como o cara que venceu reconhece sorte, ele tá numa posição mais grata e humilde, e o cara que não venceu e reconhece a sorte, qual que é os perigos de estar nesse campo?

GBGuilherme Batilani

Porque às vezes o cara, pô, eu não dei sorte, ah, já nasci assim, já era. Não, eu acho o seguinte, Você ter a consciência da existência da sorte torna você mais calmo, eu diria. Porque vamos lá, tudo que existe na nossa vida, Caio, aqui dá para ser um pouco mais dual, radical, que a gente tá falando do se eu posso ele também pode. É, é, não é tão simples. Eu acho que é o seguinte, quase tudo na nossa vida existem coisas que a gente controla e existem coisas que a gente não controla, tá?

Você postar, vamos lá, vamos trabalhar com números aqui de novo. Eu quero começar o meu perfil no Instagram e eu quero virar uma figura conhecida. Se eu postar um vídeo por mês no Instagram, existe uma possibilidade muito remota de eu viralizar, mas existe. Se eu postar 1000 vídeos por mês no meu Instagram, essa possibilidade ela é multiplicada por 1000. Isso é um fator que eu controlo, postar 1000 vídeos. Eu controlo viralizar?

Eu não controlo. Eu vou pegar, eu quero passar no vestibular, quero fazer medicina ou qualquer outro concurso. Eu fazer um concurso, eu tenho uma chance X de passar. Eu sair metralhando concurso pelo Brasil, eu tenho uma chance muito maior. Existem provas de concurso de vestibular ou concurso público que parece que são feitas para determinada pessoa, e é o dia de sorte da pessoa, ela é mais inclinada àquele conhecimento e a prova ajudou ela.

Existem outras provas que Aí parece que você fala, meu Deus, velho, o cara me odeia e essa prova não foi feita pra mim. Agora, se você prestar 30 dessas durante um ano, as chances aumentam. Então, o que que eu costumo falar pras pessoas nesse tipo de momento? Divida a vida em dois. O que que você controla e o que que você não controla? Ah, eu sou apaixonado pela Bianca. Beleza, manda flor, chama pra sair, leva pra um lugar legal, viaja junto, dá o seu melhor, seja uma pessoa gentil, amável, agradável, legal, divertida.

Boa Dica, ou seja, tudo que você consegue entregar, você controla se ela vai se apaixonar por você?

CCCaio Carneiro

Não.

GBGuilherme Batilani

Esse é o meu ponto. E aí, se ela não se apaixonar, se você não passar no concurso, se você não viralizar, calma, porque você deu o seu melhor. Agora, se você não deu o seu melhor, você tem todo o direito do mundo de se culpar, porque nesse caso a culpa foi sua. Agora, todo o resto que a gente não controla, Meu irmão, respira. Eu tenho certeza que o Bruno Guimarães se arrependeu, mas hoje ele tá, velho, eu chutei lá porque eu achei que ia entrar, porra.

Se eu soubesse que o goleiro ia cair lá, eu não chutava lá, velho, entendeu? Acho que o esporte ajuda muito a gente nesse aspecto. Você vai bater um pênalti, velho, vamos lá, você já tomou alguma decisão na vida, Caio, pensando essa é a pior decisão que eu posso tomar, essa é a coisa mais burra que eu posso fazer? Não. Quando a gente faz alguma coisa A gente acredita quase que cegamente que essa é a melhor decisão. Agora, se o goleiro caiu ali, meu brother, a culpa não foi sua, velho.

CCCaio Carneiro

Como um cara que estuda o comportamento humano, você acha hoje que a internet mais ajuda ou atrapalha?

GBGuilherme Batilani

Mais atrapalha. Acho que ela mais atrapalha. Vamos lá, a internet ajuda muito quem produz conteúdo. Nós somos os maiores beneficiados pela internet. Obrigado, Zuca, que mudou minha vida. Agora, os consumidores, especialmente os consumidores crônicos, né, que passam o dia inteiro consumindo. Tem um livro muito bom chamado Geração Ansiosa, do Jonathan Haidt. Muito bom, gente, recomendo muito esse livro.

CCCaio Carneiro

Geração Ansiosa.

GBGuilherme Batilani

Geração Ansiosa. Alguns países no mundo estão proibindo adolescente ter rede social também por causa desse livro. Os resultados dele são muito bons assim. E vamos lá, também tem um outro livro que eu amo, Caio, que chama O Paradoxo da Escolha. Que fala sobre o excesso de possibilidades que a gente tem, trava, deixa a gente ansioso, e quando a gente escolhe algo, a gente tem a sensação de que escolheu errado, tá? Qual que é a sociedade que a gente vive hoje?

Nunca a gente teve tanta opção disponível para gente, e a gente também fica o tempo todo se comparando com a vida dos outros. Não tem como você ver uma pessoa viajando num barco, aproveitando a vida, e você simplesmente tocar sua vida. Você vai se imaginar naquele barco, você vai pensar o que que ela fez para ter aquele barco, como ela está ali. Não tem— vamos lá, tudo que a gente vê, toda experiência visual do ser humano, de alguma forma nos afeta, tá?

De alguma forma. E os nossos desejos geralmente não são nossos. Os nossos desejos são empurrados para gente, somando ao nosso contexto e ao nosso ambiente. Tem um filme que eu amo que chama O Silêncio dos Inocentes. Filmaz. Filmaz. Ganhou muito Oscar esse filme. Filmaz. No trecho final do filme, eles estavam quase que encontrando o Buffalo Bill, que era o assassino em série, e eles precisavam descobrir de onde vinha, de qual cidade o Buffalo Bill vinha.

E eles procuraram o Dr. Lecter, que era o antigo psiquiatra do Buffalo Bill. E ele falou, pra mim é uma das frases, um dos momentos icônicos do filme, que ele falou assim: ele é da primeira cidade. Da cidade da primeira mocinha. E todo mundo ficou tipo, como é que você sabe que ela é da cidade da primeira mocinha? E a frase é, a gente só deseja aquilo que a gente vê. Ele passou muito tempo vendo ela até que ele desejou o suficiente pra se encorajar e ir lá matar ela.

E depois, sequencialmente, ele matou outras. Mas ele alimentou aquele desejo por muito tempo. Não tem como você ver alguma coisa e de alguma forma não desejar ela se aquilo não te causar repulsa. Óbvio. E aí, qual que é a problemática disso? Quanto mais a gente vê coisas, mais a gente deseja. E como a gente passa o dia inteiro vendo coisas de vidas que não são nossas, de pessoas que não são do nosso círculo social e não estão na nossa realidade, a gente começa a desejar coisas que não fazem parte e não são quase que nenhuma possibilidade de fazer da nossa vida.

Então a gente joga a nossa régua de expectativa lá no alto Isso estatisticamente é quase que improvável, porque se eu falar impossível eu vou arrumar briga com uma galera. É muito pouco provável de acontecer. E antigamente, sem as redes sociais, as nossas comparações eram com pessoas que faziam parte da nossa realidade. O nosso maior sonho era ter uma Hilux que um tio nosso tinha. É verdade, entende? O nosso maior sonho é um tio meu tem um jet ski velho Nossa, se eu tivesse um jet ski velho, minha vida ia ser incrível.

Agora, como a gente consome realidades que são tipo as mais destacadas pelo Instagram, a gente tende a acreditar que isso é possível e a minha vida é uma merda, enquanto que a de todo mundo é incrível menos a minha. Porque ninguém posta: tô nas Maldivas aqui, mas meu marido acabou de brigar comigo e a gente tá num puta clima merda aqui. Ninguém posta isso. É só foto do casal linda nas Maldivas. Ninguém— e é curioso, Caio, porque eu fui convivendo cada vez mais com gente rica, com gente isso, com gente aquilo.

Bicho, elas perdem feio assim para galera da obra que eu trabalhava quando eu era moleque novo, sabe? Os peão de fazenda que eu trabalhava junto, mas perde feio porque a régua dos cara é tão alta, mas tão alta, que a felicidade é quase que impossível de alcançar. Tem um— tô falando demais ou não?

CCCaio Carneiro

Não, tá maravilhoso.

GBGuilherme Batilani

Tem um livro que eu amo chamado Felicidade por Acaso, do Daniel Gilbert. O Gilbert, eu vou, ele demonstra com outro exemplo, mas eu vou demonstrar com o meu para ficar fácil. Vamos lá, supondo que eu tenho 30 anos de idade e eu nunca fui para praia, tá? Aí aos 30 eu tive a possibilidade de ir para praia pela primeira vez. Não é uma praia top, não é uma praia conhecida, não é uma praia badalada, não é nada, é só praia, tem areia e tem água.

Eu vou para praia, minha vida inteira eu vi filme da praia, meu Deus, a praia é um lugar incrível, tô feliz, tô realizado. De 0 a 10, a minha felicidade naquele momento, naquele dia, é 10. Então ir para uma praia é 10. No outro dia eu vou para a mesma praia e ali eu tô sentado na praia e vem alguém, me oferece uma caipirinha, eu aceito, que me deixa todo felizinho, me deixa todo animado, empolgado. Agora a minha experiência praia mais caipirinha é 10.

Mas ir apenas para praia sem caipirinha é 8. No outro dia eu vou para praia, eu pego uma caipirinha, do nada senta uma menina do meu lado linda e eu me apaixono por ela. Ela é maravilhosa e ela puxa assunto comigo e a gente se dá super bem. Agora minha experiência praia, caipirinha, menina é 10. Praia, caipirinha, 8. Praia, 6. Depois eu vou com os meus amigos para praia. E aí eu curto com os meus amigos, eu tomo caipirinha, eu conheço alguém, me apaixono e eu vou para praia.

Neste momento a experiência é 10. Praia, caipirinha, mulher, 8. Praia, caipirinha, 6. Praia, 4. E assim sucessivamente.

CCCaio Carneiro

Durante um tempo ir para praia já não vai ter a menor graça.

GBGuilherme Batilani

Depois de um ano ir para praia vai ser zero, vai ser só mais um dia. E esse é o principal perigo de você ter muito dinheiro ou de você ter muitas possibilidades, porque você joga a tua régua. Ó, eu só serei feliz com praia, amigos, caipirinha, mulher, música, gente bonita, gente famosa, gente isso, gente aquilo. E às vezes só ir pra praia, que antes era um evento incrível na sua vida, virou só um lazer que não tem graça e não desperta nada em você. Não sei nem porque eu cheguei nesse ponto, mas...

CCCaio Carneiro

Não, é porque a gente tá falando das redes sociais e eu acho incrível E aí a pergunta: com que óculos as pessoas têm que consumir as redes sociais? Qual que é o óculos que as pessoas têm que usar, que vestir?

GBGuilherme Batilani

A minha recomendação é você seguir as pessoas que te inspiram, que te orientam, e apenas as pessoas que fazem parte da sua vida, tá? Porque as que te orientam não ficam ostentando, elas estão te orientando, elas estão te entregando conteúdo, e você tá tornando o tempo de internet de aprendendo alguma coisa com ele. E você seguir só as pessoas que fazem parte da sua vida, do seu círculo social de verdade, você vai perceber que sua vida não é uma merda, que você só tá na média, entendeu?

Você só tá na média. E aí eu sempre falo, ah, é, pô, eu sinto que minha vida não deu certo. Eu falo, cara, pensa em 30 pessoas que estudaram com você na infância, quem tá melhor que você? Acho que tá tudo igual eu. Então o que que te faz pensar que sua vida tá uma merda? Então, ou a de todo mundo tá uma merda e você tá no bololô, ou a sua vida não é uma merda, a sua vida é só uma vida.

CCCaio Carneiro

Por que você acredita que a maioria das pessoas tem a tendência de menosprezar a circunstância que tem? Ou sabe o lance da grama do vizinho? Da onde vem a grama do vizinho, cara? Por que a grama do vizinho?

GBGuilherme Batilani

É porque a gente não sabe as dores de realidades que a gente não vive.

CCCaio Carneiro

A gente não sabe. Concorda?

GBGuilherme Batilani

Por exemplo, eu escolho fazer arquitetura na faculdade, e aí eu me formo em arquitetura e eu descubro que o mercado tá muito difícil de arquitetura, e eu não ganho dinheiro, eu tenho que ficar construindo projeto de graça. E meu Deus do céu, essas dores me fazem pensar que se eu tivesse feito direito, eu seria muito mais feliz, porque o meu vizinho que fez direito, esse cara não tem os meus problemas. E eu digo, não tem mesmo, ele não fez arquitetura, mas ele tem os problemas de quem fez direito.

Aí o cara vai lá, abre um escritório, ninguém bate na porta dele, as coisas não dão certo, ele financiou carro, ele financiou terno, ele financiou relógio e o bagulho não se paga e o nome vai pro Serasa. Ele, se eu tivesse feito medicina, aí eu estaria bem. Por quê? Porque ele não conhece. Aí você vai no cara que se formou agora, irmão, tô devendo 1 milhão em dívida estudantil pro pro meu pai, pro estado, pra qualquer, pro banco.

Eu não consigo pegar plantão, tô pegando plantão numa cidade a 150 km daqui. Então eu viajo 2 horas pra ganhar R$700, nem se paga porque eu gasto. Se eu tivesse, entendeu?

CCCaio Carneiro

Entendi.

GBGuilherme Batilani

Então a grama do vizinho parece muito mais verde porque a gente não conhece a realidade do vizinho. E geralmente é muito difícil a gente colocar as nossas fraquezas na mesa, né? Vizinho, vem cá, senta aqui, vamos conversar. Por que que sua grama tá verde? O cara não vai falar, olha, que na verdade eu roubei o esterco do outro vizinho. Ele não vai falar isso.

CCCaio Carneiro

A gente tava falando de pressão, e a maioria da pressão, vou dizer, existe pressão externa, aconteceu alguma circunstância que, cara, tá me pressionando. Mas a maioria das pressões, a gente meio que tem uma frase que fala que a maioria dos problemas que um ser humano pensa não vão acontecer, e nem existem, né? A maioria das preocupações que o indivíduo tem não vão acontecer. Geralmente a maioria das pessoas que acham que vão morrer de câncer não vão morrer de câncer, morrem de outra coisa.

E o cara sofre que vai morrer de câncer e o cara vai lá, tropeça, bate cabeça na guia e morre. E por que que o ser humano é tão eficiente em pensar em cenários que não existem? Porque isso, isso também tem tudo a ver com o nosso episódio, que cria essa pressão. E às vezes eu, por isso que eu gosto do seu trabalho, que você é aquele cara que fala assim Gente, calma. Primeira coisa, calma. Aí vira um alívio, né? O cara, calma aí, calma.

GBGuilherme Batilani

Pode falar agora, Gui. Mas por quê?

CCCaio Carneiro

Por que que o ser humano é tão bom em pensar em cenários catastróficos?

GBGuilherme Batilani

Porque do ponto de vista evolutivo, a gente ter a sensação de controle fez a gente chegar até aqui. Entendeu? O cara que pensava, pô, eu vou ficar esperando uma múltipla tropeçar e cair no meu pé, Eu vou depender da sorte ou eu vou acreditar que o mundo, sei lá, vai me ajudar? Esse cara não conseguiu passar os seus genes para frente. E o cara que ia atrás do mamute tentando controlar as coisas, ele conseguiu passar a genética para frente.

E o cara que pensava sobre possibilidades de dar ruim no futuro se planejava, tinha mais recurso, e conseguia passar a genética pra frente. Então, só do ponto de vista biológico, a gente já pode responder muito essa questão. O ser humano tem uma necessidade natural de querer controlar as coisas. E também essa necessidade natural de controlar joga pra gente uma necessidade natural de querer antecipar. Então, nesse mesmo livro do Felicidade por Acaso, o Gilbert, ele fala muito sobre isso.

Ele fala sobre essa necessidade intrínseca que a gente tem de querer achar que a gente, porra, tem alguma, tem alguma importância no mundo. Tem um estudo feito com idosos lá nos Estados Unidos que aparece nesse livro, que eles chegaram num grupo de idosos assim no asilo e falaram: ó, é o seguinte, vocês aqui, vocês são responsáveis por essa plantinha aqui, tá? Não deixa essa plantinha morrer, então cuidem dessa plantinha. Ok. Chegaram no outro grupo e falaram: ninguém depende de vocês, aproveitem a vida, Vão que vão.

O número de idosos que faleceram no grupinho 2 foi maior estatisticamente do que o grupo de idosos que faleceram no grupinho 1, porque a galera da plantinha pensava: não posso morrer não, bicho, aquela plantinha depende de mim, então eu preciso estar aqui, velho, preciso me cuidar, porque imagina se a plantinha morre? Se eu morro, a plantinha morre.

CCCaio Carneiro

Eu tenho que estar bem amanhã para regar ela, para regar ela.

GBGuilherme Batilani

Então a sensação de controle do mundo, ela faz parte da nossa natureza. A questão é que a gente precisa ter cabeça o suficiente pra entender que existem eventos que a gente não controla, entendeu? O que que eu acho que a gente controla num mundo tão diverso, com tantas possibilidades e que pode mudar a qualquer momento qualquer profissão? Você estudar muito, você manter bons relacionamentos, você cuidar da sua saúde, cuidar da sua cabeça, você tá sempre antenado no que que tá rolando, que você falou do timing lá, né?

Qual que é o movimento que tá acontecendo nos Estados Unidos e tá vindo pra cá? Qual que é o movimento tá rolando na Europa e tá vindo para cá, e como que eu posso antecipar os meus passos. De resto, não tem o que você possa fazer, velho.

CCCaio Carneiro

Hoje a turma tá mais ansiosa?

GBGuilherme Batilani

Muito mais ansiosa.

CCCaio Carneiro

Você acha que a gente tá numa tendência ainda de alta ou uma tendência de baixa?

GBGuilherme Batilani

Acho que de alta ainda, porque a gente na faculdade de ciências sociais, a gente aprendeu isso, né? A gente precisa de muitos anos para atestar se determinada coisa é boa ou ruim para a sociedade. Essa é uma resposta muito difícil, né? A internet, ela é boa ou ruim? Depende. Inclusive, a gente vai começar, tá saindo agora os estudos, né? O próprio livro que eu citei, Geração Ansiosa, já fala muito isso. Mas os resultados que o Instagram tá promovendo, a gente vai ter com dados mais concretos nos próximos 30 anos. E eu, e eu, tanto tempo assim, Ah, acredito que sim, cara.

CCCaio Carneiro

Tipo, pra ter dado concreto é tanto tempo assim de estudo?

GBGuilherme Batilani

Você precisa de muito tempo, porque você não sabe... Geralmente você vai fazer correlação que não implica causalidade. É só coincidência. Eu acho que as pessoas estão mais tristes porque estão usando o celular. Calma, isso pode ser uma correlação, mas ela não implica causalidade. Causalidade, a gente precisa de mais evidências, de mais números e de estudo randomizado, de estudo de universidades que fazem com grupos de estudo diferente, por aí vai.

Mas eu, dando um prognóstico que eu não deveria dar, mas aí é um chute mesmo, eu acho que consequentemente os casamentos vão despencar. Eu acho que a gente vai ter uma geração que as pessoas vão ser solteiras por mais tempo, ou a gente vai começar a se acostumar com pessoas de 40, 50 anos solteiras. A ansiedade crônica, isso já é uma realidade. A insegurança sobre o futuro também é uma realidade. O você pensar sobre problemas que não existem Também é uma realidade.

E isso é praticamente tudo fruto de baixa sociabilidade. Ou seja, a gente tá aqui e tá mexendo no celular. Juro, Caio, isso pra mim é loucura. Você tá numa mesa de boteco, você tá com seus amigos, com a sua turma, e você sacar o celular do bolso, pra mim é loucura. Você tá jogando a sua saúde mental fora. Como você ir pra academia, você falar, não, não vou treinar não, vou ficar aqui só. Tipo, usa isso aqui, é um instrumento de felicidade.

Um instrumento de saúde. E a principal correlação de uso de internet não é só o que você consome, é a baixa sociabilidade. Então as crianças, elas estão passando mais tempo conversando no celular e menos tempo conversando. Consequentemente, essas crianças também lidam muito mal com a rejeição, porque você sair pra rua, você ir pra balada tomar fora de mulher, você ir vender as coisinhas que sua mãe, ah, vai vender bolacha na rua, sabe?

Essas coisas que, essas rejeições que a gente vivia na nossa juventude, elas moldavam a nossa capacidade de lidar com a rejeição. Hoje em dia, o cara, ao invés de chegar na menina na balada, ele volta para casa e manda um direct para ela dizendo que ele viu ela na balada.

CCCaio Carneiro

Exatamente.

GBGuilherme Batilani

É muito, as pessoas não sabem lidar com a rejeição mais, porque parte da rejeição é a sociabilidade. Você conversar com o cara, o cara não encaixa tua cara, você tem que lidar com essa porra, velho. O cara não— ou até situações de estresse, né? O cara olha para sua cara e mexe com você, você tem que saber lidar com isso. E se na sua infância e adolescência você tava ocupado demais mexendo no celular, até sair na mão com os moleque na escola, pô, isso aí molda caráter também, velho.

Então essa sociabilidade ela não tem mais. E pô, esse é um dos principais, é como beber água. É um dos principais instrumentos para felicidade, para o ser humano ser humano.

CCCaio Carneiro

Nessa hora fica até pressão sendo algo relativo, né? Porque quando existe aquela conversa geracional, às vezes você vê aquela pergunta do cara de 60 anos olhando: ah, estou muito pressionado. O cara meio: bicho, né? Então pressão passa a ser uma coisa que até é subjetiva, né? Que pressão, né?

GBGuilherme Batilani

Então a pressão crônica ela é problemática. Que é tipo você viver em pobreza. Eu não sei se eu vou ter dinheiro para conta de energia mês que vem, eu não sei no outro mês, eu não sei no outro mês. Isso libera muito cortisol no seu sangue, você fica mais estressado, e aí pode vir depressão, ansiedade e todas as outras doenças. Mas a pressão controlada, a pressão em ambiente controlado, ela é maravilhosa, sabe? Eu vou para balada hoje, eu vou tomar 10 fora e eu volto para casa.

Isso é maravilhoso. Você ir para um campeonato de futebol, para um campeonato de judô, Se apanhar, isso é maravilhoso, sabe? Você: ah, eu tenho medo de falar em público. Então fala pra 5 pessoas, entendeu? Usa o estresse controlado a seu favor. Por exemplo, eu tenho medo de barata. Você não precisa pegar 4 baratas na mão e jogar na tua cara. Começa a ver barata, foto de barata, ambiente controlado. Viu uma barata lá, meu, tenta não sair do ambiente.

Chama alguém: ô, mata a barata ali, eu não vou nela não, mas mata ela ali. E começa a se habituar com aquilo. Porque é assim que se quebra trauma, é assim que você fica bom em alguma coisa, e é assim que você vai se soltando, entendeu? No estresse, na pressão de ambiente controlado.

CCCaio Carneiro

É, tem uma placa na entrada da Arena Arthur Ashe, que é onde rola o US Open, que tem escrito: pressure is a privilege. Pressão é um privilégio. Obviamente não é da pressão crônica do cara tá passando fome. Passar fome não é um privilégio.

GBGuilherme Batilani

Isso não é uma pressão de privilégio.

CCCaio Carneiro

Mas aquela pressão que de maneira intencional você se joga, você não é obrigado a competir aqui, né? Mas essa pressão é muito boa, essa frase, né? Pressão privilégio. Porque, cara, essa pressão ela te molda.

GBGuilherme Batilani

Seria pior se ninguém acreditasse em você, né? Aí eu não posso errar esse pênalti. Sua vida seria muito ruim se ninguém acreditasse que você é capaz de bater um pênalti, né? Então acho que a pressão é privilégio por isso também.

CCCaio Carneiro

Mas quando a gente fala de ansiedade, qual que é um mecanismo de de defesa que o ser humano tem? O estado presente que você acredita? É o cara se manter agora, se manter conectado? O que que você acredita que é um instrumento de mecanismo contra uma sociedade que empurra a gente para ansiedade? Como se a sociedade fosse um precipício. E hoje a gente tem uma sociedade que teoricamente ela, ela, né, hoje é tudo instantâneo, já é tudo rápido, é tudo conectado, é tudo. Então a gente, a geração quer acelerar os áudios, pô, coloca no vezes 2.

GBGuilherme Batilani

Para mim é loucura também, cara.

CCCaio Carneiro

Pula introdução vídeo, espera as coisas terminarem, né, espera as coisas acabarem, já vai para o final. Então é a geração do vezes 2. O que que você acredita que é um bom antídoto contra essa superaceleração?

GBGuilherme Batilani

Tem um livro muito bom chamado Flow, o autor chama Mihaly Csikszentmihalyi. Você já ouviu falar desse livro? Não, cara, eu tatuei Flow no meu peito por causa do livro.

CCCaio Carneiro

Você tem que me contar desse livro aí, cara.

GBGuilherme Batilani

Vamos lá, tá, o que que é Flow? Flow vem de fluição, de fluir, sabe? Quando você, por exemplo, a primeira marcha de um carro usa muito motor e usa muito combustível, porque ele tá fazendo força. A segunda marcha usa muito, mas menos do que a primeira. A terceira, idem. A quarta, idem. Na quinta marcha, o motor ele já tá andando sozinho, o carro já está em movimento, e o combustível é— a quantidade de combustível consumida é menor.

Isso, a quinta marcha é o flow, que é quando você não faz força mais e as coisas simplesmente acontecem.

CCCaio Carneiro

E é no momento que ele tá mais rápido, né? Que loucura, né?

GBGuilherme Batilani

Exatamente. E aí, vamos lá, o que que é a experiência flow? A experiência flow é basicamente quando você pega uma atividade e essa atividade ela é desafiadora para você, de modo que não seja desafiador demais para você não se sentir incompetente e ansioso, e nem desafiador demais de modo que você sinta tédio. É o ponto ideal. Eu digo no futsal que é, tá 1 a 0 para os cara, ou tá 1 a 0 para nós, entendeu? Vamos embora! Ou você acelera um pouco mais para empatar, ou se vira para manter 1 a 0.

CCCaio Carneiro

Exatamente, segura.

GBGuilherme Batilani

E aí tá desafiando, você precisa de você inteiro ali. Então, se tá 1 a 0 para os cara, tá 1 a 0 para você, Você tem que estar tão envolvido naquele jogo que qualquer erro seu custa perder o jogo. E aí você entra no— o Ayrton Senna usava muito essa expressão, né? O Ayrton Senna falava sobre o túnel. Quando eu entro num carro e eu acelero, o túnel é a definição perfeita de flow. Que é quando o mundo não existe mais à sua volta. Não existe nada.

Não existe pressão, não existe nada. A única coisa que existe naquele momento É você e o desafio. E o esporte promove muito isso, né? Um escalador, se ele não estiver em flow, ele cai. Um tenista, se não tiver em flow, ele erra. Um piloto, se ele não tiver em flow, ele bate. Então você precisa estar muito inserido. Só que se você promover atividades que você não dá conta, você vai se sentir impotente. Então essa é a atividade flow.

E aí o Mihaly, ele fala muito sobre a capacidade de contemplação temporal, que é você tá lá fazendo aquilo e nada mais importa que não seja você aproveitar aquele momento. Aí ele fala sobre o flow da alimentação, por exemplo, que é você vai pegar um prato de comida e é um crime você assistir TV ou fazer qualquer outra coisa que não seja comer, comer, sabe? As pessoas trabalharam Agricultores trabalharam, cozinheiros trabalharam, pessoas trabalharam para te entregar aquele prato de comida.

Então come. Ah, você vai conversar com a tua mãe? A única coisa que você tem que estar preocupado naquele momento é olhar no fundo do olho da sua mãe e escutar sua mãe. Você não tem que fazer mais nada, sabe? Ele fala do flow de sono também. Cara, você vai dormir? Joga o seu celular lá no outro cômodo, deita e dorme. Fique ali em estado presente total, porque a única forma de— a única não, mas é uma excelente forma de você quebrar sua ansiedade.

E você vai, você sabe disso, Caio, isso é muito viciante, velho. Ontem a gente foi numa escola de tênis de mesa jogar tênis de mesa. Ele joga, joga muito, e eu também joguei, joguei parte da minha infância. E no primeiro dia eu ganhei. Aí ontem O professor deu muito mais atenção pra mim, eu tinha ganhado no dia anterior, eu falei, véi, eu vou matar esse cara hoje, né? E ele começou a acertar umas bolas que eu falava, irmão, é melhor eu sair daqui, porque tá ficando feio.

E no momento, olha que curioso, né? No momento em que ele começou a ganhar praticamente todas, eu saí do flow, porque eu fiquei nervoso demais e me sentindo impotente. Mas nos momentos em que eu batia, e cara, eu nem sei se eu tava batendo certo na bolinha, Mas tava entrando todas na mesa, é uma experiência de, véi, eu só quero fazer isso. Me deixa aqui, não me tira daqui. E é nesse momento que você olha pro relógio e você fala, faz 3 horas que eu tô aqui?

Essa é a experiência flow e é uma das melhores possíveis pra você quebrar a sua ansiedade. Todos os dias, Caio, eu procuro alguma coisa pra fazer que me dá experiência flow. Entendeu? Não tá associada a dinheiro, tá geralmente associada a esporte.

CCCaio Carneiro

Acho que parece que o ser humano ele precisa de uma necessidade, de uma carga de flow no seu dia. Não dá para tudo a gente fazer em flow, não, não dá. Ia ser maravilhoso se a gente pudesse numa pista só ter túnel, mas não tem túnel na pista inteira. E você falou dos esportes, foi uma das grandes coisas que fez me apaixonar pelo jiu-jitsu, que é um esporte que eu encontrei Cara, eu não consigo pensar em mais nada com um cara de 110 kg na minha carótida, cara, que não arrancar minha cabeça ali.

GBGuilherme Batilani

É eu e ele, né?

CCCaio Carneiro

Um monstro. Eu consigo pensar, nossa, eu pensar em mais nada.

GBGuilherme Batilani

Você tá devendo para alguém, né?

CCCaio Carneiro

O que que eu tenho que fazer para sair daqui? Então é um estado de flow, eu não vejo o tempo passar, eu tô só ali. Então é assim, reduz o meu mundo àquele momento, presença absoluta, né? E a presença absoluta me dá uma limpeza, cara, parece uma uma faxina, parece que eu passo um VAP na minha cabeça.

GBGuilherme Batilani

Sim, sim.

CCCaio Carneiro

E eu saio com aquele— eu sinto que biologicamente, com certeza, quimicamente, eu saí alterado ali.

GBGuilherme Batilani

E não te dá vontade de fazer isso todos os dias?

CCCaio Carneiro

Demais.

GBGuilherme Batilani

Essa é a parada, porque se você fizer aquilo o dia inteiro, você vai sair do flow. Mas se você fizer no estresse crônico em que você precisa estar ali, senão o cara quebra o seu braço, Isso promove em você uma coisa tipo, é, isso é desafiador, mas eu sou foda, entendeu? Isso é desafiador, mas eu consigo. E aí você começa a bater nesse cara, aí você fala, irmão, eu sou um deus, velho, entendeu? Eu sou o cara. E aí você fala, não, manda outro, quero bater, eu quero bater em outro, quero bater no maior agora.

E você vai subindo, subindo, subindo. E nós não estamos falando de um esporte caro, inacessível. Às vezes as pessoas acham que experiência flow é você tá em, sei lá, tá em Mônaco jogando tênis. Nós não estamos falando disso, estamos falando de qualquer— você pode praticar flow botando um tênis e saindo correndo, sabe? Todo atleta maratonista, geralmente o flow ele entra lá no quilômetro 8, 10, né, que é quando o corpo já entendeu que ele não vai parar.

O corpo já até desistiu de falar vai para casa, né? Tá bom, quer correr, corre. E aí geralmente o cara começa a cansar lá no quilômetro 30, 32, que ele começa a fazer força de novo. Então o quilômetro 10 ao quilômetro 30 o cara nem pensa, velho, é flow. E aí se você tiver vontade, se você tiver, sei lá, se você se virar para começar a encontrar atividades na sua vida que te trazem flow, você vai ver que a vida vai ganhar um sentido e você vai querer se desafiar cada vez mais para você sentir cada vez mais forte, mais potente, mais incrível, mais tudo.

Eu tô em flow agora, faz desde a hora que eu cheguei aqui. Eu não tô pensando para falar, eu não quero que isso aqui acabe, sabe? Se ele tiver cansado, o problema é deles, entendeu? Eu tô felizão estando aqui, entendeu?

CCCaio Carneiro

Você falou muito de livro, eu tô vendo que tem um aqui do seu ladinho, né? Me fala um pouco desse.

GBGuilherme Batilani

Por que você fez isso? Presentão para você.

CCCaio Carneiro

Sério? Para mim?

GBGuilherme Batilani

Obrigado, irmão. Fiz uma dedicatória fofinha. Cara, Por Que Você Fez Isso é o meu livro. Foi mal, desculpa, eu— mas enfim, o livro ele conta a história de uma aluna minha chamada Ana. Não é Ana, mas eu intitulei como Ana, tá? Que ela foi moralmente correta a vida inteira e ela virou amante de um homem casado. E ela me procurou querendo entender o que que tava acontecendo com ela e se ela era culpada por isso, porque naturalmente ela tava se sentindo muito culpada, muito mal com isso.

E eu não tinha uma resposta fácil para dar na hora, né? Falei, me dá um tempo. E eu tava lendo um cara muito bom chamado Robert Sapolsky, ele escreveu Comporte-se Determinados, recomendo demais esse livro para todo mundo. E o Sapolsky, ele fala muito sobre o comportamento do ponto de vista neurobiológico. E como eu sou viciado em acaso, em circunstâncias, em aleatoriedade, eu juntei o que de fato ela controla do que que ela não controla, e se ela tinha livre-arbítrio no momento em que ela que ela escolheu.

Eu vou colocar em aspas porque o meu livro deixa muito bem claro que ela não escolheu, que as circunstâncias do momento, somadas às circunstâncias da história e da genética dela, fizeram ela se tornar amante de um cara, ainda que ela não tenha decidido isso. E que não é uma questão moral, é uma questão circunstancial.

CCCaio Carneiro

Só explica um pouquinho a diferença para gente de correlação, causalidade, qual que é a diferença.

GBGuilherme Batilani

Vamos lá, correlação e causalidade. Tem uma frase muito interessante do coincidência, é, tá, tem uma frase muito legal no Rápido e Devagar que é assim: ausência, ausência de, ausência de prova não é prova de ausência, tá? Ausência de evidência não é evidência de ausência, tá? Basicamente, não é porque algo não tem prova que aquilo não existe. Às vezes só não tem prova e a prova não foi descoberta ainda. A questão da correlação causalidade é o seguinte: no verão as pessoas consomem muito sorvete e elas também são muito—

CCCaio Carneiro

cerveja, né? Você ia falar cerveja?

GBGuilherme Batilani

No verão as pessoas bebem muito, muita cerveja gelada, tá? E elas também são muito atacadas por tubarão. Você acha que existe alguma causalidade entre tomar cerveja e ataque de tubarão?

CCCaio Carneiro

Cara, faz a menor ideia. Eu acho que não.

GBGuilherme Batilani

Não, a correlação é que é no verão e que por ser calor as pessoas bebem mais cerveja gelada ou sorvete. O que que as pessoas têm o hábito de fazer, Caio? Elas pegam coisas que são correlacionadas e constroem uma narrativa como se uma coisa implicasse causalidade, você entende? E geralmente quando as coisas têm correlação É muito fácil criar narrativa. Um outro exemplo, vamos pegar um exemplo do futebol, por exemplo, ou uma questão de sucesso, vai.

Se eu chegar num rapaz e perguntar para ele o que que você acha que implica o seu sucesso, ele vai ser totalmente capaz de contar para mim aquilo que ele fez e aquilo que ele é capaz de enxergar. E aí na história dele ele vai falar assim, ó, eu tentei algo por 18 anos E no meu 19º de tentativa eu dei certo. E aí ele vai me dizer: viu, se não fosse os meus 18 anos eu nunca teria dado certo. É, portanto foi o meu trabalho de 18 anos de tentativa que fez eu dar certo na 19ª tentativa.

E aí eu vou falar: existe correlação no que você tá falando, mas não existe causalidade no sentido direto da palavra. Porque se era uma questão de trabalho, por que que não deu certo no ano 17º? Por que que não deu certo no ano 11º? Porque você não virou um grande monstro do ano 17º para o ano 18º.

CCCaio Carneiro

Eu conheço um monte de bilionário que nunca quebrou para vencer. Exatamente, cara, nunca quebrei, não tem história triste.

GBGuilherme Batilani

Então, e aí quando a gente tem uma história sem tocar violino, as pessoas não se conectam tanto com a gente, né? A história com violino ela atinge mais. Mas enfim, no momento em que a gente aprende a questionar se essa correlação ela de fato está relacionada. Vai outro exemplo besta: o cara vai lá, o seu Zé vai no hospital e ele fala para médica: ô Maria, tudo bem, doutora? Tudo joia? Maria, eu tô com uma, com câncer aqui na barriga, eu acho que é o melão que eu comi.

E aí ela fala: ué, seu Zé, câncer e melão? Por quê? Não, porque eu venho comendo melão há um tempo e agora eu tô com câncer, menina. Então só pode ser o melão que eu tô comendo. Faz sentido o que ele tá falando, não é tão bizarro. Começou a comer melão, aí o câncer apareceu. Então a gente pode fazer uma correlação direta entre melão e câncer. Parece um pouco bizarro o que eu tô falando agora, mas todo santo dia as pessoas fazem correlação sem causalidade, né?

E o que que a doutora vai fazer? Calma, seu Zé, vamos estudar o histórico da sua família, vamos estudar, sei lá, o contexto, de fato, seu estilo de vida nos últimos meses. Tudo que tá acontecendo para ver qual que é a causalidade desse câncer, qual é a causalidade dessa dor de barriga, ou como qualquer outra coisa. Então a gente aprender, ah, foi o meu trabalho duro naquele momento que fez eu dar certo na vida, tá? Existe uma correlação entre você estar trabalhando duro e dar certo na vida, mas isso não necessariamente implica causalidade, porque trabalhar duro todo mundo estava trabalhando também, cara, que vai morrer trabalhando. Acordando às 5, dormindo 11, e não vai acontecer nada na vida dele.

CCCaio Carneiro

Por que você fez isso? O que a neurociência explica sobre amor, traição e as decisões que você acha que tomou?

GBGuilherme Batilani

Cara, é um livro que o cara tem que ter estômago para ler, tá? Sério? É um livro que fala sobre livre-arbítrio, né? Isso aí questiona tudo que a gente aprendeu na infância inteira. Mas acho que vocês vão gostar.

CCCaio Carneiro

Por que você fez isso? Combinou com o nosso podcast, né? Saindo como você fez isso, depois você lê o porquê você fez isso, tá, cara?

GBGuilherme Batilani

Legal, obrigado, meu irmão.

CCCaio Carneiro

Cara, gostei muito do nosso papo.

GBGuilherme Batilani

Eu também, cara.

CCCaio Carneiro

Nosso papo, papo inteligente. O cara inteligente traz de uma forma didática, lúcida e aplicável as suas problemáticas diárias, né? Eu quero terminar com duas perguntas. Uma é a tua mensagem final aí, que eu vou deixar por último. Mas a última pergunta relacionada à pressão, existe, você já deve ter alguém ido te procurar porque o cara perdia a cabeça. Essa expressão, perdi a cabeça. E as pessoas estão ouvindo a gente, né? Como não perder a cabeça, né?

O que que, e para você, O que significa perder a cabeça? Muita gente quando tá em situação de pressão perde a cabeça. E aí perder a cabeça talvez seja tomar uma decisão que não quis, falou algo que se arrependeu, foi para uma direção que percebeu que nem queria. Então qual que é a tua recomendação para as pessoas não perderem a cabeça? Tem gente que tá numa situação de pressão ou crônica ou propositiva, mas qual que é a tua recomendação para as pessoas não perderem a cabeça? Que muito do seu trabalho é porque as pessoas não enlouqueçam, né?

GBGuilherme Batilani

Para pessoa não perder a cabeça, né?

CCCaio Carneiro

Manter, falei assim, cara, calma.

GBGuilherme Batilani

Eu acho que boa parte das nossas dores, Caio, poderiam ser resolvidas com autoconhecimento. Autoconhecimento é uma ferramenta gigantesca para você não perder a cabeça. Porque, por exemplo, a pessoa tem uma genética mais esquentada, o pai dele era mais esquentado, ele aprendeu que ser esquentado tá tudo bem e tá tudo certo você explodir socialmente, quando não está, obviamente não está. Eu acho que no momento tudo é muito escalável, né, até a explosão.

Eu acho que a pessoa ter autoconhecimento suficiente para falar, cara, essa barreira aqui, essa linha aqui, é o momento que eu tô prestes a explodir ou cometer um erro. Ele precisa ter algum mecanismo, que seja um bom psicólogo para acompanhar, ou um bom esporte para praticar, ou alguma pessoa que ajuda ele a desabafar. Enfim, algum mecanismo que faça ele É sair daquela ocasião e voltar em outra circunstância. Então, e parece bobeira isso aí, cara, mas você acredita que uma noite mal dormida, uma noite mal dormida, já joga a sua capacidade de direção para 60 e poucos por cento da sua capacidade natural?

Uma noite mal dormida. Você dormir 2 horas e dirigir é a mesma coisa, ou pior, que você dormir bêbado, você dirigir bêbado. Uau, entendeu? E aí a pessoa fala: ah, eu explodi. E aí eu pergunto para pessoa: você dormiu quanto tempo noite passada? Sabe, você tomou sol nos últimos dias? Você se cuidou? Você, como que tá sua pressão crônica? Como que tá a sua vida? Porque existe uma resposta para isso, sabe? Às vezes correlação não implica causalidade, mas existe uma resposta que a gente precisa procurar.

E o meu livro, a função do livro é essa mesmo, Eu dou todas as circunstâncias da Ana, são mais de 200 páginas de circunstâncias da Ana, que não é para você gostar ou não gostar da Ana, é para você se colocar no lugar dela. Ah, quer dizer então que aquela vez que o meu pai não me deu parabéns quando eu ganhei um campeonato, isso reflete no meu eu de hoje? Reflete, como aconteceu no da Ana. Aquela vez que eu fiquei igual maluco tirando nota alta para minha mãe me dar um parabéns e ela meter um Porra, lógico, né?

Não fez mais que a sua obrigação. Isso reflete na minha necessidade de validação até hoje? Sim, isso reflete. Aquela vez que eu paquerei a menininha na infância e não tive o amor correspondido, e hoje talvez eu tenha traumas e medo de perder outra pessoa? Sim, isso faz parte da sua infância, da sua história, da sua genética, sua genética. E eu acho que esse autoconhecimento tem o poder de você tomar decisões melhores e não perder a cabeça, saber o momento que você costuma perder a cabeça e sair daquele ambiente nesse momento.

CCCaio Carneiro

Ana, lhe conhecerei, tá? Gui, mensagem final sua para toda a comunidade do Como Você Fez Isso, para a galera ali que chegou até o final, ouviu tudo isso, cabeça do cara tá fervendo. Deve ter saído com— porque eu falo, o bom no podcast é você sair daqui lembrando de 2 minutos só.

GBGuilherme Batilani

Ah, legal, legal.

CCCaio Carneiro

Um bom podcast, você vai, cara, você pegou 2 minutos para você, fala, cara, esses 2 minutos aqui é o putz.

GBGuilherme Batilani

Eu diria para as pessoas aprenderem de fato a controlar na vida, aprenderem de fato a separar na vida delas o que que ela controla e o que que não tá sobre o controle dela. Dá o seu melhor naquilo que você controla, mas vai, vai com garra, vai com tesão, vai intenso, vai agressivo. Dá o seu melhor em tudo que você faz na sua vida e tudo que você controla. E aquilo que você não controla, relaxa, brother, a culpa não é tua. Continua tentando na chuva de meteoro e só olha para o espelho e fala, velho, Você fez, meu. Deita e dorme, entendeu?

CCCaio Carneiro

Palmas para o Guilherme, senhoras e senhores! Gente, vou colocar na descrição aqui. Primeiro, se você não acompanha nas redes sociais, todas as redes sociais do Guilherme estão aqui embaixo. E também, e vou colocar o link do livro, tá? O link do livro para você adquirir, O Porquê Você Fez Isso e Você Quer Que Eu Seja Ana também, tá? Eu estou curioso para saber o que que você fez, Ana, tá? O link também do livro tá aqui, aqui abaixo. Na descrição do nosso episódio. Gui, obrigado, cara.

GBGuilherme Batilani

Obrigado, meu irmão. Obrigado pela presença, obrigado de verdade.

CCCaio Carneiro

Vai ter que voltar mais para a gente conversar mais vezes.

GBGuilherme Batilani

Eu amo, cara, eu amo, juro.

CCCaio Carneiro

Foi muito boa a conversa. Espero que a gente possa ter contribuído contigo para que você tome melhores decisões, para que você provocar também, para que você se conheça mais. Porque autoconhecimento, eu concordo com Gui, que é poder. A gente se conhecer é uma fortaleza de saber os nossos limites, as nossas nossas fraquezas, nossas vulnerabilidades, mas também as nossas fortalezas. E esse objetivo desse podcast é contribuir com seus objetivos.

Obrigado pela sua companhia, pela sua presença. Só faz um favor: primeiro, compartilha esse episódio nos seus grupos de WhatsApp de amigo, de família, com a galera, porque eu tenho certeza que tem alguém próximo a você que você não faz a menor ideia das circunstâncias dessa pessoa, mas esse episódio vai ajudar demais, tá bom? E vejo vocês na semana que vem. Fica com Deus, tchau!

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