Episódios de Como Você Fez Isso?

COMO FUNCIONA O NEGÓCIO POR TRÁS DO FUTEBOL? | Flávio Augusto #146

17 de junho de 202651min
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Flávio Augusto revela os bastidores da compra, crescimento e venda do Orlando City, fala sobre empreendedorismo, sport business, vendas, marketing, investimentos e a mentalidade necessária para construir negócios de alto valor. Uma aula sobre visão, coragem, gestão empresarial e criação de riqueza.

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Participantes neste episódio2
C

Caio Carneiro

HostJornalista
F

Flávio Augusto

ConvidadoEmpreendedor
Assuntos14
  • Sport Business nos Estados Unidos vs. BrasilCultura esportiva americana · Universidades e bolsas esportivas · Plataforma de marketing universitário · Diferença de investimento em esportes · Grandes ligas esportivas americanas
  • Campeonato Brasileiro de FutebolVenda do Orlando City · Valor da transação · Comparativo com Neymar
  • Mercado de executivos de futebolOrlando City · Empreendedorismo no esporte · Vendas e marketing esportivo · Investimentos em clubes · Mentalidade para negócios de alto valor
  • Resiliência e Pilares do EmpreendedorismoVisão de crescimento do futebol nos EUA · Coragem para investir · Competência em vendas e gestão · Criação de identidade para a cidade
  • Inter Miami e Orlando CityMédia de público · Venda antecipada de ingressos · Time de vendas B2C e B2B · Patrocinadores · Receita por jogo
  • Estratégia de Compra e VendaMomento ideal para venda (negócio bem) · Venda como antecipação de ganhos futuros · Comprar tempo através da venda · Destinos de uma empresa: quebrar, herdar ou vender · Foco no equity vs. lucro
  • Expansão da Copa do MundoUsar a Copa para vender mais · Promoções e envolvimento da equipe · Gamificação de vendas · Comparação com Black Friday
  • O futebol como indústria do entretenimentoVisão de liga americana (single entity) · Donos de clubes como donos da liga · Contratação de Messi · Elevação do patamar da liga
  • Investimentos BrasilRecomendação de dominar o Brasil primeiro · Necessidade de alto capital para entrar nos EUA · Diferenças culturais e de mercado
  • Major League Soccer (MLS) hojeCrescimento contínuo do futebol nos EUA · Diferença técnica vs. business · Mercado americano como principal
  • Preparação para a Copa do MundoMissão com empresários · Acompanhamento da seleção brasileira · Branding e posicionamento de empresas · Patrocínio da Copa do Mundo
  • Política prevalecendo sobre futebolSoccer como esporte mais praticado · Barreiras genéticas em outros esportes · Custo e acessibilidade do futebol
  • Papel dos Executivos e Legado no ClubeAusência de cobrança da torcida · Recepção da torcida após derrota · Aprendizado como acionista da liga
  • O incidente no Cristo Redentor e a lição sobre trabalho em equipeCabeça de trabalho vs. torcedor · Dinâmica de patrocínio · Comercialização de assets · Organização de show/espetáculo
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Voz A:Galeras, sejam todos muito bem-vindos a um super Como Você Fez Isso especial Copa do Mundo. Eu tô aqui nos Estados Unidos, nos países que está sediando essa Copa do Mundo. Essa Copa do Mundo é realizada na América do Norte. Eu estou pela primeira vez entrevistando ele, Flávio Augusto da Silva, agora como embaixador da Copa do Mundo, né, da CBF, junto com a seleção brasileira. Que você estranhou quando eu falei que era a primeira vez, né?

Flávio Augusto:É porque a primeira vez foi 7 anos atrás aqui em Orlando mesmo, né?

Voz A:Verdade, primeira vez que eu te entrevistei foi aqui em Orlando. Foi aqui em Orlando. Estamos em Orlando, estamos acompanhando a seleção brasileira, estamos até próximo aeroporto. Então se as pessoas ouvirem aqui alguns aviões, está movimentado Estados Unidos. E pela primeira vez entrevisto você, Flávio, o embaixador da CBF. Eu queria um pouco Queria que você contasse para turma que tá acompanhando você, você é um cara que produz muito conteúdo dentro de geração de valor para contribuir com as pessoas que estão atrás dos seus projetos, planos, objetivos. Conta um pouco desse projeto junto à CBF para a gente navegar um pouco nessa história.

Flávio Augusto:Então, nós estamos nessa missão com um grupo de empresário acompanhando a seleção brasileira. Vamos assistir aos 3 primeiros jogos É da Copa, e se o Brasil chegar longe, e espero que chegue, vamos até o final. E a gente tá acompanhando esse grupo de empresários que nós trouxemos aqui, um grupo muito especial, se aproximando da seleção brasileira. Até porque, se você analisar, Caio, é, o futebol fez parte do branding, do posicionamento das minhas empresas desde quando eu investi na Copa, na Campeonato Carioca, depois Campeonato Paulista. Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, e até eu me tornar— é o avião aí passando— até eu me tornar patrocinador da Copa do Mundo pela WiseUp. 2014, a gente foi patrocinador da Copa. Então a gente tá revivendo. Tô lembrando também do meu tempo de Cartola, não é?

Voz A:Porque tá sendo bom, tá sendo bom, tá sendo super legal.

Flávio Augusto:Desde 2021, quando eu vim de Orlando City, eu me despedi do futebol. Então nesse projeto aqui, durante a Copa do Mundo, a gente tá fazendo um flashback dessa época de Cartola. Tá sendo muito legal. Aliás, a gente tá gravando aqui um pouco antes. Daqui a 4 dias tem uma visita no Orlando City. Depois de 5 anos, é a primeira vez que eu retorno lá.

Voz A:Recentemente saiu uma matéria das maiores transações do futebol no Brasil.

Flávio Augusto:Isso.

Voz A:E você tava em primeiro lugar, se eu não me engano, você com a transação do Orlando City. Segundo, acho que era o Neymar.

Flávio Augusto:O Neymar.

Voz A:Quando você viu aquela matéria ali, o que que vem assim na sua cabeça?

Flávio Augusto:Esse é um número que desde 2021 já era o maior, né? Assim, foi a maior transação do futebol feita por um brasileiro, não é? Ou seja, essa transação foi de 2,1 bi de reais, foi feita em 2021, e desde então não houve ainda uma transação feita por um brasileiro dessa categoria, né? Então é muito bacana, muito legal ter essa marca. Temos ainda essa marca aí que o futebol deixou, né?

Voz A:Quando você vem assistir, a gente tava junto no primeiro jogo da seleção, vamos acompanhar toda essa fase de grupo e obviamente acompanhar o Brasil, mas quando você entra no estádio, tua cabeça é de trabalho ou você consegue virar com uma cabeça de torcedor? Você fica pensando, por exemplo, na dinâmica de patrocínio, em quantas pessoas, se tá tendo, sabe, os assets que estão sendo comercializados naqueles dias, você tem essa cabeça?

Flávio Augusto:É tudo de uma vez. É divertido, tem cálculo, a gente faz conta, a gente olha, a gente observa como a dinâmica do show tá acontecendo, né? Que para mim é como organizar um show, né? A gente fazia isso toda semana, todo final de semana a gente tinha evento com média de 30 mil, 33 mil pessoas no primeiro ano por jogo, né? Então a minha cabeça tá sempre pensando no jogo, no futebol, no espetáculo, no patrocínio, no business. E no caso aqui da Copa, a gente também torce para o Brasil, né? A gente torce e sofre um pouco ali vendo o jogo, né? Como todo torcedor.

Voz A:E para o empresário, empreendedor, que, cara, meu negócio não tem nada a ver com Copa do Mundo, como transformar um período que muita gente reclama, muita gente também aproveita a oportunidade para para crescer. Como que você sempre enxergou Copa do Mundo? É momento onde, cara, não tem o que fazer, a venda vai cair, não pode aceitar? Como que você sempre trabalhou em Copa do Mundo?

Flávio Augusto:Primeiro, é inútil a pessoa querer lutar contra uma Copa do Mundo. É igual tentar lutar contra o Carnaval, o São João lá no Nordeste. Tem jeito, cara, é cultural. Todo mundo vai abraçar, a mídia inteira vai falar: "Ah, não se distraia!" Cara, se distrair nesse momento é tentar ir contra a Copa do Mundo. Isso é tentar se distrair. Você tem que usar a Copa do Mundo para vender mais, tem que fazer promoção, tem que envolver a equipe, tem que meter um telão lá na tua empresa e todo mundo assistir junto, você entendeu? Então é o contrário, você tem que aproveitar esse momento, é igual uma Black Friday. Você tem que aproveitar esse movimento, essa energia natural que as pessoas têm, envolver todo mundo nisso para vender mais. Eu lembro que primeiro, lá na escola, quando eu tava ainda liderando ali no campo de batalha, a primeira coisa que a gente fazia era botar todo mundo para assistir junto. Feriado, nada disso, cara. Ah, o jogo é meio-dia, sei lá, o jogo é 2 da tarde, então 2 da tarde tem um telão na empresa, festa, pipoca, festa, música tocando, e aí a empresa inteira para para assistir o jogo. Antes do jogo trabalha, depois do jogo trabalha, durante o jogo assiste junto. Time de vendas, a gente fazia bolão, sabe o bolão que a gente fez aqui, né, cara? A gente fazia um bolão e botava um monte de prêmios. E o detalhe era o seguinte: cada venda que o cara fizesse naquele dia era um palpite que ele podia dar. Gamificamos o bolão. Então o cara fez 3 vendas, ele podia dar 3 palpites. Quanto mais palpites, mais chance de ganhar. Então, ou seja, no dia do jogo do Brasil era o dia que a gente tinha chance de vender mais porque tinha o bolão, o bolão do Flavião. Lembra do bolão do Faustão? A gente fazia o bolão do Flavião. E aí, enfim, isso é o quê? É usar a energia da Copa do Mundo para você vender mais. Agora, o cara fica tentando lutar contra a Copa do Mundo, vai perder, cara, vai perder, não tem jeito. Agora, se você usar a energia da Copa, você pode usar essa energia para vender mais.

Voz A:Quando você fala de energia, né, o que que são dinâmicas que dentro do business, do sport business, porque assim, o sport business nos Estados Unidos é muito forte, né? Por sinal, primeiro jogo da Copa do Mundo coincidiu com os playoffs da a gente vê com o Sport Business dos Estados Unidos. É, por que que essa extração de valor do negócio em si, os americanos estão na nossa frente lá no país? Por que que eles estão?

Flávio Augusto:Primeiro, o esporte está envolvido na cultura americana de diversas formas, de diversas maneiras. Eu vou te dar um exemplo: a universidade americana, ela é um evento muito importante para uma família americana entrar numa boa universidade americano. E o detalhe, aqui nos Estados Unidos a universidade, mesmo a pública, ela é paga. E não só ela paga, como ela é muito cara também, ela não é barata. Então assim, um ano numa universidade boa aqui custa $80.000 por ano, cara. Uma família de classe média não consegue pagar isso. Então eles vão pegar empréstimo, todo mundo se esforça, faz economia a vida toda, o filho trabalha como garçom para pagar um pedaço. É uma função o cara poder se formar numa boa universidade americana. Só que tem um detalhe: todas as universidades usam o esporte como plataforma de marketing.

Voz A:Calma aí, todas as escolas usam?

Flávio Augusto:Todas as universidades usam o esporte como uma plataforma de marketing.

Voz A:Em que sentido?

Flávio Augusto:O time de futebol americano da universidade tal foi campeão. A liga universitária é muito forte, é televisionada, passa nos Estados Unidos inteiro em rede nacional o campeonato entre as universidades.

Voz A:O draft, né, do colegial.

Flávio Augusto:Exato. Então o que acontece? Tem muita audiência, rola muita grana para a universidade, então a universidade quer ter os melhores atletas. Então o que ela faz? Ela oferece bolsa para os atletas. Então há uma disputa pelos melhores jogadores de futebol, de vôlei, de natação, de tênis, de golfe. Futebol americano, de baseball, de soccer, que é o nosso futebol. São trocentas modalidades. Todas as modalidades olímpicas estão na universidade. Ou seja, se o cara não é tão, não é um aluno tão brilhante assim para ser aceito numa boa universidade, mas é um baita atleta, ele não só tem mais chance de entrar numa boa universidade como tem chance de entrar sem pagar. Então essa dinâmica do Sport Business movimenta toda a economia americana. Então o que que acontece? Desde pequeno, desde 8, 9 anos de idade, o que que os pais fazem com os filhos? Vai praticar esporte. Então, por exemplo, o cara vai lá, vai pagar $1.000, $1.500 por ano para praticar um esporte qualquer. Então, quando você bota teu filho para praticar esporte, primeiro, pai e filho se aproxima, segundo, saúde, terceiro, se afasta de porcaria, de drogas e várias coisas. Quarto, é um investimento que vai se transformar em bolsa no futuro. Então a quantidade de crianças praticando esporte é enorme, a quantidade de pais apoiando o esporte é enorme. Eu sempre me perguntei por que que Estados Unidos ganha muita medalha. Eu sempre achei, pô, deve ser porque o governo— governo nada, cara. Quem investe são os pais. Os pais, mas investe por quê? Porque quer ganhar bolsa. Então toda essa lógica movimenta toda a sociedade americana em torno do esporte. Isso é herdado pelo esporte profissional. Aqui você tem, no Brasil você só tem o futebol, os outros esportes são bem segunda linha em termos matemáticos e econômicos. Você não tem um mercado de vôlei, por mais que vôlei seja um esporte importante no Brasil, você não tem um mercado tão grande quanto o futebol. Aí você vai para outras modalidades, a mesma coisa. Aqui nos Estados Unidos não. Grandes ligas você tem futebol americano, beisebol, basquete, futebol, que é o nosso, o soccer, que é o nosso futebol, e o hóquei, que ainda é uma grande liga nos Estados Unidos, hóquei no gelo. Você tem 5 grandes ligas nos Estados Unidos. Então toda movimentação em torno de liga, em torno do sports business, tá, incruado dentro da cultura americana desde a universidade. Aí, por conta disso, você vai ter high schools também com ligas fortes, porque o moleque vai jogando no ensino médio, que é high school, e aí as universidades já vão escolhendo os melhores para dar bolsa na faculdade. É toda uma economia em torno do esporte nos Estados Unidos. Desde o sonhar muito, pensar que isso é possível no Brasil, é muito distante do Brasil, é muito É anos-luz de distância do Brasil. Não existe essa cultura no Brasil, não existe nada disso no Brasil. Entendeu? Ah, um dia pode acontecer? Pode, não é impossível. Daqui uns 3.500 anos, talvez, até essa cultura se formar. Mas é muito distante, a distância é muito grande. É uma coisa que levaria muitos anos até essa cultura se formar. Isso existe nos Estados Unidos há mais de um século, né? Nas Olimpíadas, difícil, né? Porque para para pensar, cada pai investe $1.500 por ano durante 10 anos. Vou gastar $15.000 para economizar 300 e ainda fico perto do meu filho e ainda é bom para a saúde dele. Autoestima, por aí vai. É uma cultura, né? Isso envolve a sociedade toda. Eu lembro que eu aprendi sobre isso, Caio, sendo pai de atleta aqui nos Estados Unidos. Meu filho jogava futebol aqui e eu levava ele, e eu ficava na beira do campo vendo ele jogando e olhando isso tudo e pesquisando. E essa análise toda que eu fiz é que me fez comprar um clube de futebol aqui.

Voz A:Que que eu empreender com futebol te ensinou, que você vai levar para sempre com você para qualquer outro negócio que você faça?

Flávio Augusto:Com toda franqueza, não vou dizer nem que foi o futebol. Empreender no modelo americano de esporte, por acaso foi o futebol, e quase foi basquete também. Eu cheguei a fazer uma proposta para comprar um time da NBA em 2015. Eu tinha um cheque de 800 milhões de dólares com sócio um grande banco brasileiro, e fiz essa proposta, e o dono do clube negou. Então quase a gente teve um clube de futebol, quer dizer, clube de futebol nós tivemos, mas quase a gente teve também o basquete junto, né, um clube da NBA fazendo parte de um grande grupo. E a gente ia comprar uma emissora de televisão, uma de rádio, ia fazer um grande grupo de mídia e esporte na nossa região, né. Acabou não dando certo esse projeto porque o dono diretor do clube da NBA não quis vender, não topou a nossa proposta, e acabou não avançando. Mas o que eu aprendi e que trago comigo até hoje, que inclusive acabou dando origem à Mentoring League Society, é a visão de liga americana, a visão de single entity, a visão de donos de clubes serem os próprios donos da liga e terem suas atividades alinhadas. Isso eu trago para mim até hoje. É um exemplo que eu gosto de dar. Eu cheguei a participar em 2021 das tratativas, das discussões sobre a contratação do Messi na Liga, né? E eu não era o clube que tava contratando o Messi, mas por que que eu tinha que participar dessa discussão? Porque uma contratação de um jogador dessa categoria, o Messi é um gênio na minha avaliação, é alguém pode discordar, mas eu, na minha visão, é o maior jogador de todos os tempos, na minha visão, não é? E enfim, a contratação de um jogador dessa magnitude na MLS obviamente eleva a liga para um outro patamar de visibilidade, de importância, de potencial econômico, tudo que representa, né, um jogador dessa categoria na liga. Então ter o Messi na Liga não era interesse só do jogo, do clube no qual ele jogar, ele iria jogar. Isso eleva o patamar da Liga como um todo. Então todos os clubes toparam pagar uma parte do salário do jogador, do Messi, né? Isso no Brasil seria impensável. O Palmeiras, que você é um bom palmeirense, jamais pagaria salário do jogador do Corinthians, mas na Liga Americana. Isso não só é aceitável como foi apoiado, porque isso levou a liga para um outro patamar. Ou seja, as pessoas não têm uma visão só de dono do clube, ela é dona da liga, né? Eu era dono do Orlando, mas eu também era acionista da liga como um todo, né? Então, quando você fala assim, esse single interest, esse jeito alinhado, alinhado de todo mundo pensar em um objetivo em comum, Isso eu trago não só até hoje, como nós montamos um negócio que você é fundador e sócio, que é a Mentoring League Society, que tem esse conceito que a gente importou aqui dos Estados Unidos.

Voz A:E operando um clube, tem alguma coisa que você pega da operação do lance de dia a dia, o jeito que você viu o marketing, a produção de, sabe?

Flávio Augusto:Cara, bom, primeiro a gente inaugurou Acho que dá até para mostrar a imagem enquanto a gente fala. A gente inaugurou o primeiro jogo com 62.500 torcedores. 62.500 torcedores, cara, é muita gente, cara, muita gente. E nesse ano nós tivemos uma média de mais de 33 mil torcedores por jogo. Nós fomos a segunda maior média de público dos Estados Unidos. E tivemos uma média de público maior do que qualquer clube brasileiro naquele ano. Nenhum clube brasileiro, nem o Corinthians, nem o Palmeiras, nem o Flamengo, tiveram essa média naquele ano. Mas como que a gente conseguiu isso? Um clube que nem existia. Eu acho que uma das coisas que eu vi operando o clube, Caio, foi que nós inauguramos o primeiro jogo, não só tivemos os 62.500 torcedores no primeiro jogo, como antes de chutar a bola, antes do primeiro apito, do primeiro chute, do primeiro passe, não só a gente tinha 62.500 torcedores naquele jogo, como a gente tinha vendido antecipadamente 70% dos ingressos do ano inteiro, de todos os nossos jogos. Como? Time de vendas, já ouviu falar nisso? Time de vendas, meu querido. Time de vendas, e a gente vendeu. Em vez de vender avulso, a gente vendeu o pacote completo, e era gerando lead, era time ligando. A gente tinha 28 jogadores e 76 vendedores. A gente tinha mais vendedor que jogador de futebol. Na realidade, a gente era um time de venda que jogava bola. A gente era uma empresa de venda que jogava futebol. Então a gente vendia. Então a gente tinha o nosso time B2C, a gente vende os ingressos. E antes de começar, a gente vendeu antecipadamente 70% de todos os ingressos do ano inteiro. E a gente não vendeu mais porque não quis, porque a gente queria deixar um slot para vender pacotes turísticos, para vender avulso, e aumentava isso, aumentaria o nosso ticket médio. Aquele ingresso na porta, aquele ingresso na porta, tinha um pouquinho ali para vender. Cara, a gente operou o primeiro ano com mais de 95% de ocupação. Absurdo isso, nenhum clube tem, raramente no mundo. Eu lembro que na época o Barcelona tinha, Real Madrid tinha, porque assim, Barcelona, aquele Barcelona de 2013, cara, começa, era estádio lotados com mais de 80 mil pessoas, o Camp Nou lá lotado, eles eram sold out, completamente sold out. Mas então essa venda antecipada foi uma coisa que a gente fez, nosso time B2C fazia essa venda. E a gente tinha um time B2B que vendia patrocínio, e nós tínhamos 52 patrocinadores. Tínhamos um time de 8 a 10 grandes patrocinadores. Disney era nosso patrocinador, Audi, Ford, McDonald's, grande. A gente tinha grandes patrocinadores, tinha entre 8 e 10 patrocinadores, grandes patrocinadores, e outros eram PMEs, empresas pequenas e médias, empresas locais. Que a gente também vendia o patrocínio. Então nós inauguramos com 52 patrocinadores e 70% dos ingressos vendidos. Foi um case de venda muito forte e obviamente a gente alavancava muito, né, nossa receita. Então um jogo nosso, por exemplo, a gente faturava por jogo ali alguma coisa perto de ingresso. Vou pegar aqui 1 milhão e meio de dólares vezes 5, 7 milhões e meio, 8 milhões de reais de renda de ingresso. Era a maior renda, botava aí mais 1 milhão de dólares de comida e bebida, pode botar aí 12, 13 milhões de reais de receita por jogo. E se você for vendo o Brasil, nenhum clube no Brasil até hoje tem essa média de receita de ingresso mais comida e bebida durante um jogo, né? E a comida e bebida era nossa, tá? Era nosso, né? Então a gente faturava bastante por jogo.

Voz A:Você perguntar que, desculpa, não, essa era a maior receita, o ingresso do clube inteiro? Sim.

Flávio Augusto:Não, não, não, não. Aí tinha direito de televisão, você tinha, você tinha patrocínio, era uma receita bem interessante. Ingresso era uma receita interessante também porque tinha jogo toda semana, né? A gente jogava toda semana, de 15 em 15 dias em casa, né? Um jogo em casa, um jogo fora. Então, 2 a 3 jogos por mês a gente fazia essa receita.

Voz A:Qual que era a parte chata de ser dono de um clube de futebol?

Flávio Augusto:Aquilo que ninguém conta. Achei nada chato, cara. Achei tudo legal, achei tudo divertido, achei bacana. Enfim, a torcida Não tinha cobrança. A gente ganhava, eles estavam felizes. A gente perdia, eles vinham me consolar, cara. De vez em quando: "Ah, tá tudo bem, cara, fica firme, não desanima não, vai dar certo, no próximo vai." Que beleza, hein? Que beleza, né? Eu lembro que uma vez a gente fez um jogo em Nova York e a gente perdeu 3x0, cara. E a torcida tinha viajado em peso para esse jogo, né? E aí quando a gente tava voltando para o hotel Eu tava eu do lado do CEO, o Alexandre Leitão, que hoje é CEO do Grêmio, o técnico do lado, atrás o Kaká sentava, e a equipe, né. E quando ele tava chegando no hotel, cara, tinha uns 300, 400 torcedores na porta do hotel, né. E aí quando o ônibus foi se aproximando, onde foi se aproximando Quando eu olhei, virei para o Alexandre, brinquei, né, com uma frase muito comum no Brasil, né? Eu falei: Alexandre, eu acho que o amor acabou. E aí eu pedi para o Kaká ir para o fundo do ônibus para sair por último, e eu e o Alexandre saímos na frente, depois o técnico, para sentir o clima, né? E a gente achou ali que o pessoal ia reclamar porque a gente perdeu de 3 a 0. Nada, cara, batendo palma, tirando foto. Entendeu, cara? Eu fiquei como 8 anos como dono do clube. Foi um prazer muito grande, foi muito legal, não tem paixão, foi divertido. Aprendi muita coisa sendo acionista da Liga, eu aprendi muita coisa também. E foi uma jornada bem legal, até da construção, da fundação, da construção até a venda do clube. Foi muito bacana.

Voz A:Olhando hoje o futebol nos Estados Unidos Major League Soccer hoje nos Estados Unidos, ela é o que você imaginou que ela seria? Ela é mais? Ela é menos?

Flávio Augusto:Ela é exatamente o que eu imaginei. Essa era a projeção, por isso que alguém comprou, por isso que a gente vende, né? Você vende futuro, né? E você vê que os Estados Unidos ganhou, estreou contra o Paraguai, que não é um time fraco, ganhou de 4 a 1, meteu 4 gols na estreia. Não é fácil a estreia, todo mundo nervoso. Estranho em casa, estranho em casa, não é? Brasil jogou em casa em 2014, não é fácil, mas enfim, tá, tá. O futebol nos Estados Unidos tá, continua crescendo. É óbvio, para chegar no nível de futebol técnico, nível de futebol brasileiro, precisa de uns 30 anos ainda. Agora, no nível do business, tá muito à frente do futebol brasileiro, tá bem à frente. Bem à frente. Temos de business, em termos de negócio, o negócio futebol, o business football, tá muito à frente do Brasil, mas já tava naquela época. Agora, na qualidade do futebol em campo, brasileiro não se compara. Embora a gente percebe na Copa que essa diferença tem diminuído, né, Copa após Copa. Não tem mais cachorro morto, não tá fácil, né? Mas assim, os Estados Unidos, sem dúvida alguma, nos próximos 20, 30 anos, vai ser uma das principais ligas do mundo por um motivo muito simples: tá no maior mercado do mundo, no lugar que tem mais grana no mundo é Estados Unidos. Você vê naquele jogo do Brasil, faturou mais de 300 milhões de reais no jogo só de ingresso e comida e bebida.

Voz A:Mas tu acha que tem várias ligas também? É um É um ponto nos Estados Unidos que eles dividem muito atenção no Brasil? É difícil você ter uma liga— divide atenção em termos de público e de público, de foco ali do país praticantes?

Flávio Augusto:Não, não, o maior número de praticantes, os esportes que tem o maior número de praticante dos EUA é o soccer, é o futebol. Sim senhor! Já naquela época já era hoje continua sendo, e é fácil de explicar: o basquete O cara não tem 1,98m, é um cara que não dá para jogar. Geneticamente ele tá fora. Eu tenho 1,86m, eu não sirvo para jogar basquete. Então você tem uma barreira genética. Futebol americano, todo ano alguma criança tem concussion, contusão, é cabeça com cabeça. Grande parte dos pais não querem que os filhos joguem, que é perigoso. O beisebol é chato para caramba, é chato para caraca, cara. Eu uma vez já tentei assistir, cara, não entendi nada. No meio do jogo eu falei: ah, acho que agora tô entendendo. Quando eu achei que eu entendi, o jogo acabou. Falei: quem ganhou? É muito chato, cara. A nova geração não gosta de beisebol, entendeu? Então qual é o esporte mais democrático? Se o cara é alto, é baixinho, ele joga. O Messi tem quanto, 1,70m? Até menos de 1,70m. Ou seja, o cara é baixinho, joga. Esse cara é alto, joga. Se o cara tem grana, joga. Se o cara não tem grana, é no máximo uma chuteirinha. É barato, a bola é barata, entendeu? Vai jogar beisebol, tem um taco de beisebol, tem equipamento, tem capacete. É mais caro jogar. E você tem barreiras genéticas, você tem uma série de pontos. Então, por isso que aqui nos Estados Unidos o esporte mais praticado é o futebol, é o soccer. Já naquela época e hoje, cara, tudo isso que eu tô falando é um flashback para mim, porque todos esses dados, cara, eu tenho na ponta da língua, porque foi isso que me definiu comprar um clube de futebol nos Estados Unidos. 2012, eu fiz esse estudo todo em 2012, que definiram a minha entrada, eu fazer ali um cheque de 120 milhões de dólares, que foi meu investimento para começar o clube, né.

Voz A:Bom, e bom que você traz isso. O que que você acredita que é preciso o empreendedor ter para tirar as economias dele, investir no negócio? O que que ele precisa ter?

Flávio Augusto:Coragem, né? Muita coragem, né? Antes da coragem, ele precisa ter a visão, a convicção, o desejo e a decisão dele.

Voz A:Tirado dele, às vezes, que ele juntou ali a vida inteira.

Flávio Augusto:É, não é fácil, né? E principalmente porque 80% das empresas quebram. Antes de completarem 10 anos. Segundo IBGE, é um dado brutal no Brasil. Começa com visão. Eu tive uma visão. Minha visão foi que o futebol nos Estados Unidos estava em crescimento. Eu tava certíssimo. Tanto é que eu comprei por X, vendi por Y, e hoje já tá Z, entendeu? Ou seja, é uma uma tendência que se confirmou naquela visão. Mas aí, cara, não adianta nada você ter a visão e não ter coragem. Você tem que ter coragem para fazer o check, tem que ter coragem. Eu lembro que eu e a Luciana discutindo o assunto, a Luciana me perguntou qual o pior que pode acontecer. Dá tudo errado, o clube fechar, a gente perder 120 milhões de dólares. Aí ela: só isso? "Ah, então vamos!" "Ah, tudo bem!" Era uma fração do meu patrimônio, não é? E eu tinha uma visão, acreditava que iria crescer. E o terceiro pilar da visão e coragem tem que ter competência, porque na hora de executar você precisa ser competente, né? A gente tinha 76 vendedores, inauguramos com 62.500 torcedores e 70% vendidos. Nada disso foi espontâneo, é a nossa competência de vendas, nossa estratégia, nosso marketing, nosso lançamento, o momento, a maneira como a gente envolveu a cidade. A cidade tinha orgulho do clube, pô. O nome era Orlando City. Ou seja, a gente criou um argumento de criação de identidade para uma cidade que se sentia Mickey Mouse, uma cidade em que um personagem de uma empresa privada era mais famoso do que a cidade. Então Orlando tinha um buraco, um gap de identidade. O Orlando City preencheu esse gap e a gente conseguiu capturar essa dor da cidade. E, cara, isso explica o fenômeno que foi o Orlando City até a sua inauguração, até hoje. É um clube super bem frequentado, é um clube super bem cotado dentro da liga, né?

Voz A:Você falou que quando você conversou com a Luciana e você se decidiu essa fração, que exercício você acredita que uma pessoa pode fazer para decidir qual fração do bolso, do capital que ela tem, investir no negócio? Você vê que é muito—

Flávio Augusto:depende da fase da vida.

Voz A:Exatamente.

Flávio Augusto:Eu tenho duas coisas para falar sobre isso.

Voz A:Desde que você decidiu que assim, até essa fração eu vou ou você ia um pouquinho mais? Ou não?

Flávio Augusto:O que que acontece, Caio? Eu dei muito all-in na minha vida, cara. Eu quando comecei minha primeira empresa, a Wise Up, não é que eu dei 100% do que eu tinha, eu dei 500% do que eu tinha. Eu me alavanquei para caramba no cheque especial, 12% de juros ao mês. Ah, esse cara é louco! Não, cara, louco era continuar onde eu tava. Então, no fundo, Quando você não tem nada a perder, quando você entende que você não tem nada a perder, ou você é mais ousado para sair daquele lugar que você está, ou você vai ficar ali para o resto da sua vida. E eu tinha essa consciência plena, você entendeu? Então eu dei muito "all in" na minha vida, muito "all in". Cara, no Orlando, no Orlando eu não dei "all in". Não foi a minha, foi uma fração da minha, foi uma fração do meu patrimônio, entendeu? Ou seja, eu não tinha, eu entendi que se alguma coisa desse errado ali, eu aprendi, eu tive experiência, eu vivi uma coisa que eu estava a fim de viver, que eu queria viver, que eu estava com vontade de viver, só que ao mesmo tempo a visão que eu tinha era que ia crescer muito, que a liga estava em crescimento e eu tinha exemplo da NBA e das outras ligas, sabe? E ao mesmo tempo eu tinha competência, eu sabia vender, eu sabia gerir, eu tinha uma competência de gestão e negócios para fazer. E por último, eu estava disposto a pagar o preço, trabalhar, fazer o que tivesse que acontecer, fazer o que tivesse que fazer para fazer acontecer, você entendeu? Então essa pegada é o que eu acho que define, entendeu? Não tem uma matemática, não tem um método, entendeu? Eu enxerguei, tava a fim de fazer, era capaz de fazer. Se desse errado, tava disposto a perder, não ia me machucar, entendeu? Óbvio que 120 milhões de dólares era muito dinheiro e ainda é muito dinheiro, mas eu tava disposto, entendeu?

Voz A:Cara, não sei qual a diferença do passo de fé para imprudência.

Flávio Augusto:Falou: "O cara tá dando um passo de fé aí, tá dando uma imprudência." Eu acho que não foi nem um passo de fé e nem uma imprudência. Eu acho que o passo de fé— fé é você acreditar naquilo que você não vê. Não era fé, eu tava vendo, eu tive uma visão, eu sabia que eu era capaz de fazer, todas as características necessárias para eu dar certo eu tinha, eu sabia vender, eu sabia gerir. Eu fiz as análises, ou seja, não era fé. Fé é quando você acredita em alguma coisa que você não vê. A fé é a certeza daquilo que você espera e daquilo que você não vê. Eu via! A fé é maior do que o que eu fiz. O que eu fiz não exigiu fé. Exigiu só eu enxergar, pagar e trabalhar. Fé é quando você espera que alguma coisa que não depende de você aconteça. Aquele lado dependia de mim, né? Então, ou seja, não vejo que não foi nem passo de fé e nem prudência, nenhum dos dois. Foi uma visão, coragem, competência. É assim que eu vejo, entendeu?

Voz A:Empreender fora do teu país foi uma novidade para você?

Flávio Augusto:Isso foi uma novidade, foi a primeira vez que— não, mais ou menos, né? Eu tinha, eu já tinha assim Eu tinha franquias fora do Brasil, né? Tinha na China, tinha no México, na Colômbia, na Argentina e no próprio Estados Unidos. Ali não, tava criando e investindo num negócio meu diretamente, né? Foi a primeira vez.

Voz A:Você viu alguma diferença, principalmente no começo? Cara, não sabia que jogar War assim é bem diferente, é bem diferente.

Flávio Augusto:É, vi bastante diferença. É que também, apesar da diferença, eu entrei muito por cima, né, cara?

Voz A:Você disse um negócio de prestígio.

Flávio Augusto:Muito prestígio, né, cara? Assim, os americanos valorizam o sucesso, né? Valorizam muito sucesso. Então fui muito bem tratado, muito prestigiado. Em 2015, que foi esse ano que a gente inaugurou, saiu aqui a lista das 50 personalidades mais poderosas de Orlando. O primeiro lugar obviamente foi o prefeito de Orlando, segundo lugar fui eu, terceiro lugar foi o dono do Orlando Magic, quarto lugar o presidente da Disney. Imagina o impacto que a gente estava criando aqui nessa cidade. Eu tenho essa revista lá até hoje em casa, o impacto que a gente estava criando na cidade, né? Então a gente começou assim, o brasileiro que e realizou o maior negócio da Flórida.

Voz A:Mas para um empreendedor não num negócio de quem tá por cima, o que que você vê que para ele é diferente empreender nos Estados Unidos? A cultura, a língua, montar equipe?

Flávio Augusto:É, mas a língua, mas cara, no final das contas eu acho que os fundamentos são os mesmos, né? Você vai ter que vender, vai ter que liderar, você vai ter que ter uma creche de adultos, Você entendeu? Tu vai ter que investir em marketing, vai ter concorrência. É como se fosse o seguinte: jogar futebol no Brasil é igual jogar futebol nos Estados Unidos. Talvez nos Estados Unidos você vai ter que correr mais, no Brasil vai ter que ter mais habilidade, entendeu? Mas no final das contas, os fundamentos, na minha visão, são muito parecidos. Os fundamentos são muito parecidos, né? Nos Estados Unidos tem menos burocracia, você tem acesso a mais crédito, Você tem alguma diferença, mas por outro lado mão de obra mais cara também, tem mais concorrência. Enfim, tem as suas diferenças, né? Mas aqui no clube, cara, foi uma, para mim foi uma delícia assim, foi uma experiência sensacional.

Voz A:Você falou aqui os americanos valorizam sucesso, valorizam. No Brasil você acha que não?

Flávio Augusto:Eu acho que existe uma parcela da população que valoriza o sucesso sim no Brasil. Mas existe uma grande parcela da população que o sucesso é uma ofensa, desperta inveja, desperta instintos muito primitivos, entendeu? Talvez alimentado por ideologias políticas ou até equívocos religiosos na interpretação do que as pessoas pensam ser pecado, como se dinheiro fosse um pecado. Então, penso que uma linha do voto de pobreza, mais uma linha político-ideológica e mais uma linha de uma inveja pessoal, o sucesso seja menos celebrado e ele acabe eventualmente sendo objeto de ofensa. A pessoa se sente ofendida pelo sucesso. Aqui nos Estados Unidos é bem menos, né? Esse grupo existe também. Ele também existe, esse grupo, mas existe um pensamento majoritário onde o sucesso é celebrado e é reconhecido. Então, eu como latino-americano, como brasileiro, sempre me senti muito prestigiado nos Estados Unidos. Até hoje, aqui nos Estados Unidos, a forma como o americano me trata é bem prestigiado, com bastante prestígio.

Voz A:Estados Unidos é a primeira divisão do mundo, assim, né? Você pensa nos Estados Unidos, você fala: "Competição, é o mercado gigantesco." Em que momento para alguém que tá no Brasil, você acredita que é a hora do cara começar a olhar para outro mercado?

Flávio Augusto:Cara, eu não recomendo o cara não olhar para fora antes de faturar 500 milhões no ano, entendeu? É, então eu acho que o Brasil, por incrível que pareça, apesar de todas as suas contradições, É o lugar do mundo que eu mais gosto de empreender. Eu já tive negócio, já empreendi, já passei por vários países, Estados Unidos com mais profundidade, mas eu vou falar, o Brasil, apesar das suas contradições e da sua imensa quantidade de problemas, tem muita oportunidade para empreender porque tem muito problema, entendeu? Então eu acho que um cara que tem um negócio no Brasil, tá crescendo, tá expandindo, ele antes de pensar em Estados Unidos, ele tem que dominar o Brasil. Até porque para entrar nos Estados Unidos, eu recomendo que entre com muito capital, entre por cima, com muito capital, com muita estrutura, porque para você ser muito mais reconhecido nos Estados Unidos, entendeu? Então às vezes eu acho que o cara se ilude um pouco, ah, vou para os Estados Unidos que lá é isso, aquilo, e ele não tá ainda bem estruturado, não tem tanto capital, vai para os Estados Unidos e não consegue ter uma estrutura boa, e aí desvia o foco dele do Brasil, para de crescer no Brasil. Não vale a pena. Arrebenta no Brasil, pensa na expansão depois, mas primeiro arrebenta no Brasil. A grande parte de empresários brasileiros que vieram para os Estados Unidos deram errado e voltaram. Ou com a mão na frente ou atrás. Então, por isso que eu recomendo, o cara tem que vir muito forte para cá. Então não dá por certo no Brasil, não dá muito certo no Brasil antes de vir para cá.

Voz A:Você lembra, ó, estamos em junho, você lembra o mês da sua venda do Lancet?

Flávio Augusto:Foi julho.

Voz A:Foi julho, eu sabia que era perto do—

Flávio Augusto:daqui a mais ou menos 2 semanas completa 5 anos. A venda.

Voz A:5 anos.

Flávio Augusto:5 anos.

Voz A:Você passou por um momento que acredito que é o momento de maior reconhecimento de um negócio, é a sua venda. Isso é reconhecimento público do seu valor.

Flávio Augusto:É quando o mercado te valoriza a ponto de te pagar, né? É o elogio de adulto, você sabe como é que funciona, né?

Voz A:Com a carteira. E que dica final para turma, para as pessoas que querem vender o seu negócio? Porque às vezes, obviamente, eu acho que é um segundo nível, né? Tem gente que acha que vendeu o negócio, tem gente que tem muito apegado ao negócio. Mas se a gente sentar para um cara tá construindo um negócio vitorioso, para o cara que um dia tá trabalhando para receber uma baita de uma oferta no negócio dele, sabe? Poder receber uma oferta para muita gente é um sonho. Aí ele vai decidir se ele quer ou não. Mas qual que é a sua recomendação? Vai completar 5 anos que você vendeu Orlando City, voltando aqui para a Copa, frequentando o ambiente do futebol, resgatando essas histórias.

Flávio Augusto:Vamos fazer uma visita lá no clube, né?

Voz A:Vamos fazer uma visita no clube daqui alguns dias. Que dicas você tem que dar para todo mundo que está em casa para conseguir chegar nesse lugar?

Flávio Augusto:Bom, primeiro lugar é entender que a venda de uma empresa Se o negócio tá dando errado, ele não tá vendendo a empresa, ele tá rifando a empresa dele, ele tá entregando a empresa dele por qualquer, por um pirulito, uma mariola, uma maria mole, para poder, para poder pelo menos sair com algum no bolso, entendeu, cara? Isso não é venda, né? E é importante entender que o momento da venda de uma empresa é quando ela tá muito bem. Entendeu, cara? A empresa tem que estar muito bem para ela vender. Então assim, às vezes, cara, o cara acha assim, o negócio deu errado, eu vou vender o negócio. Não, cara, ninguém vai querer comprar essa porcaria, entendeu, cara? O negócio tem que dar certo para vender. Então vamos entender que venda de empresa é quando o negócio tá muito bem. Aí, cara, o negócio, aí o mercado vai te pagar. E mãe caiu. Dá um copo d'água para esse menino aqui, cara. Sabe por que eu tô te falando isso, cara? Eu lembro quando eu vendi a Wise Up, a gente vendeu, a gente vendeu, cara, por 500 milhões de dólares em 2013. Eu lembro que até alguns meses depois da venda, algumas pessoas me perguntavam assim: pô, tu vendeu a WhatsApp, né? Ela tava indo tão bem, né? Que o cara acha que se vendeu é porque alguma coisa deu errado. Então, a primeira coisa, o cara tem que entender que a venda é no up, é no momento de alta. 2, a venda é no momento de alta que pode subir mais, porque por isso que alguém vai pagar. O cara me pagou 2 bi e 100. Por quê? Porque ele entendeu assim: eu vou pagar 2 bi e 100, daqui a pouco vai valer 3, daqui a pouco vai valer 4.

Voz A:Esse cara ganhando dinheiro com essa decisão, né?

Flávio Augusto:O valor do Orlando com certeza tá maior do que quando eu vendi. Aí alguma pessoa: mas por que vendeu, cara? Eu vendi porque a gente ia ter Copa e eu tinha, tava vendendo um futuro para o cara. Eu vendi 2021, já sabia que ia ter Copa em 2026, eu tava vendendo o futuro. Você, quando vende uma empresa, você vende futuro. E outro ponto, o investidor precisa entender qual é o seu tamanho. Eu sei qual é o meu tamanho como investidor. Por exemplo, eu não compro empresas começando, empresas do zero. Eu fui convidado várias vezes para fazer parte do Shark Tank. Eu gosto para caramba do programa, acho um programa muito legal. Mas não é o meu perfil de investidor. Não quero comprar empresas pequenas. As empresas que geralmente vão ser oferecidas no Shark Tank estão fora da minha tese de investimento. A minha tese de investimento são empresas acima de 4 a 5 milhões de lucro por ano. Esse é o tamanho que eu gosto, que eu consigo ajudar esse cara a sair de 4, 5 milhões por ano para ir para 20, 30, 40, 50. Então é 10 vezes o investimento. O cara ganha, fundador ganha, eu ganho e tá tudo certo. Agora, eu não quero levar uma empresa até ter 1 bilhão de lucro, né? Muitos anos. Eu prefiro vendo e vou para outro negócio. Então eu tenho uma tese que eu saio do A e leva para o B. Quando eu chego no B, aqui é minha hora de vender. Ah, mas ele pode ir para o C, cara. Mas vai ter um outro investidor que tem uma outra tese que vai, que leva do B para o C. Eu não, eu levo do A A para o B. Essa é minha tese de investimento, é isso que eu domino. Aqui é minha zona de segurança e eu opero nessa zona de segurança. Então é importante eu, o empresário, o investidor, entender qual é o seu tamanho, qual é a sua tese de investimento. É entre o A e o B, é entre o A e o C. Eu sei qual é a minha. Então eu lembro que desde o início eu abri, eu entrei no Orlando para ficar 7 anos. Essa era a minha meta desde o início. Acabei ficando 8, atrasou um pouquinho por conta da pandemia, mas foi ali mais ou menos na mesma, na mesma.

Voz A:E para alguém que quer trilhar esse mesmo caminho, qual que é a tua recomendação para esse cara? O cara que quer vender o negócio dele bem porque ele tá indo bem, ele quer vender, ele quer sair.

Flávio Augusto:Tem que ser quando ele tá bem. Segundo, o cara precisa entender que quando ele vende o seu negócio ele antecipa todo o ganho futuro para valor presente. Então, aquele dinheiro é uma antecipação do futuro, só que tu antecipa e materializa aquele dinheiro no presente, você traz do futuro para o presente e ganha o futuro de brinde. Por exemplo, eu vendi a Wise Up, eu peguei o futuro e trouxe para o valor presente, peguei essa grana, depois eu abri o Orlando City, Antecipei o futuro, eu tenho dois futuros já, só que eu tenho um terceiro futuro. Qual é o meu terceiro futuro? O que eu estou vivendo hoje. Esse presente que eu vivo hoje é o futuro do meu passado.

Voz A:Você já sacou esse dinheiro.

Flávio Augusto:Eu já saquei essa grana duas vezes já.

Voz A:Você está produzindo.

Flávio Augusto:É, eu já saquei esse dinheiro duas vezes, agora estou pagando de novo. Então é como se eu estou tendo a minha terceira vida na mesma vida. Então, ou seja, se tempo é o recurso finito e mais valioso que temos, e que a gente não é possível comprar, quando você antecipa futuro e vende o seu negócio, tu tá comprando tempo. Então agora nós temos um negócio que é o maior negócio que eu já fiz.

Voz A:Muito bom esse conceito, é maravilhoso, é filosoficamente é poderoso, é muito poderoso.

Flávio Augusto:Assim, eu tenho 54 anos, sei lá, cara, eu quando lembro da minha, do início da Wise Up, é como se fosse na era paleozoica, sei lá, uma coisa lá atrás, mas ao mesmo tempo foi ontem. Então são vidas que você vai vivendo, como se fossem novas dimensões da sua vida que tu entra e que você pode viver. Talvez a física quântica nos explique isso melhor do que eu estou conseguindo aqui, não é? Mas de alguma maneira, hoje, com toda a experiência que eu angariei nesse tempo todo, o capital que eu tenho, o know-how que eu tenho, os sócios que eu tenho, hoje a Mentor in League Society é o maior negócio que eu já fiz em toda a minha vida. A Mentor in League Society, em termos de valor de mercado, hoje ela já vale mais do que todos os negócios que eu já fiz antes na minha vida toda. E obviamente, quando a gente projeta o futuro, logo logo, ali em 2028, a gente deve fazer alguma coisa, um IPO, quem sabe, não é? Porque levamos 2 anos para faturar o primeiro bi na Mentor in League Society. Record, né? Nunca faturei o primeiro bilhão na empresa tão rapidamente. Mas isso é o fruto do quê? De toda experiência acumulada, de tudo que eu aprendi, de tudo que a gente fez. E aí, se a gente for fazer um IPO lá em 2028, por exemplo, nós vamos antecipar o futuro pela terceira vez.

Voz A:Muito bom, hein? Legal, né? Muito bom. Você terminou com uma filosofia, uma provocação para todo mundo: comprar tempo. Ou seja, busque Fazer o seu negócio dar certo, que você vai ter a possibilidade de comprar tempo executando.

Flávio Augusto:Vender a empresa significa comprar tempo. E sem contar com o fato de que se tu não vende a sua empresa, ou ela vai ser herdada pelo teu filho, logo você terá que morrer para isso acontecer, não recomendo, ou tu vai quebrar. Porque qualquer empresa, Caio, só tem 3 possíveis destinos: ou ela quebra, ou ela é herdada, ou ela é vendida. Acabou. Pode pensar aí, galera que tá assistindo, reflete aí. Só existem 3 possíveis destinos. Alguém falou assim: ah, você pode dar. Não, dar é sucessão também. Ah, ela pode fazer uma fusão. Uma fusão é uma venda, é uma transação de M&A, é uma venda. É uma venda com pagamento de ações, é troca de ações. Então toda empresa só tem 3 possíveis destinos: ou ela quebra, ou ela é herdada, ou ela é vendida. Pô, quebrar não é um bom negócio. Você morrer para ser herdado também não recomendo. Então vender um negócio é o ápice do sucesso do empreendedor. É quando você antecipa o futuro para o valor presente. Esse é o ápice. Então a recomendação, quem quer trilhar esse caminho, é começar a enxergar a coisa pela ótica do equity, pela ótica ficar do valor do negócio e não somente de quanto de lucro um negócio pode gerar. Eu costumo dizer que o lucro é a gorjeta do empresário, porque a grande produção de riqueza tá no equity.

Voz A:Então assim, a gente já pode fechar, cara, que fica para um próximo episódio aí, o próximo assunto, o próximo assunto.

Flávio Augusto:Ficamos aqui com futebol.

Voz A:Muito bom, hein?

Flávio Augusto:Pô, foi nossa primeira entrevista, foi aqui em Orlando. E uma entrevista às 10:40 da noite aqui, que para mim é 10:40 da madrugada, é o podcast mais tarde que eu já gravei na minha vida. Aí, cara, eu tô só aquecendo, meu, eu tô chegando no meu prime time aqui.

Voz A:Tem certeza que você em casa, assim como eu, pegou muito ensaio. Então algumas recomendações: primeiro, se inscreva no nosso canal para você não perder um só episódio. Se você está vendo ou ouvindo alguma plataforma também no streaming, também acompanha o Como Você Fez Isso. Nós super felizes pela sua companhia. O Como Você Fez Isso configurando entre os maiores podcasts do Brasil graças à sua audiência. Então muito obrigado, a gente faz com muito carinho esse conteúdo para que ajude você a trilhar um caminho mais vencedor, você realizar seus sonhos, planos e projetos. É o nosso objetivo aqui no Como Você Fez Isso. Por isso especial de Copa, fora do nosso cenário, no lugar diferente, lugar gostoso, acompanhando a CBF, Seleção Brasileira, aqui na Copa da América do Norte, e trazendo conteúdo relevante para você. E hoje, obrigado, Flávio, foi maravilhoso, tá? Valeu a todo mundo, uma semana maravilhosa para vocês. Vamos, Brasil! Fica com Deus e tchau!