COMO MUDAR A HISTÓRIA DA SUA FAMILIA? | Rodrigo Silva
Como ser o pai que Deus quer que você seja? Neste episódio especial de Dia dos Pais, Caio Carneiro recebe Rodrigo Silva, arqueólogo bíblico e teólogo, com participação de Fabi Carneiro, para uma conversa profunda sobre paternidade a partir da história de Abraão, o pai da fé.🟪 Quer participar da plateia?Preencha esse formulário e boa sorte!
- História de Ló e Abraão· ReligiaoAbraão como exemplo, não marionete·Erros de Abraão e suas consequências·A misericórdia de Deus com os imperfeitos·Amar a Deus acima de tudo
- Infância e padrões familiares· SociedadePaternidade a partir de Abraão·Abraão, o pai da fé·Ciclos e feridas geracionais·O que Deus espera de um pai
- Impacto familiar e trauma· SociedadeO impacto da figura paterna distorcida·A necessidade de perdoar para se libertar·A diferença entre amar e gostar·A pedagogia da oposição
- Corrosão silenciosa da fé· ReligiaoFé que admite perguntas·Abraão em Ur e Padã-Aram·Lech lecha: ir por si mesmo·Diferença entre fé e crendice
- Honrar pai e mãeHonrar pai e mãe tóxicos·Dar certo como forma de honra
- Deus como Pai· ReligiaoDeus como pai ideal·Adotar um pai ou mentor·Deixar-se ser adotado por Deus·A importância do amor na parentalidade
- Promessas de Deus· ReligiaoParadoxos divinos·A maldição de Jeconias·Genealogias de Jesus·A virgindade de Maria
- Promessas e CompromissosBênçãos e maldições hereditárias·Ninguém é refém de promessas ou maldições·A importância de conhecer a ancestralidade
A minha missão, o meu filho, como que eu equilibro esses pratinhos?
Pela presença ou pela ausência, pelo exemplo ou pela omissão, todo pai deixa marcas. Algumas se transformam em legado, outras em feridas que atravessam gerações. Mas será que a nossa origem precisa definir o destino dos nossos filhos? E afinal, o que Deus espera de um pai? Nesta conversa, Rodrigo Silva mergulha nas Escrituras para mostrar como romper ciclos, curar o que foi ferido e construir um legado capaz de atravessar gerações através da paternidade.
Como que a gente pode entender essa questão de honra, principalmente honrar pai e mãe?
Vamos pensar num pai tóxico, um pai agressivo, um pai abusador. Como eu posso honrar esse pai hoje? Não me tornando o que ele foi. Você já pensou que você dando certo é uma maneira de honrar o seu pai que fez tudo para você dar errado? Porque ele não merecia ter um filho que deu certo. E você deu certo.
Senhoras e senhores, sejam muito bem-vindos a mais um super episódio do Como Você Fez Isso. Como você está percebendo, realmente é super, temos presenças ilustres aqui. Como vocês viram nossa biografia aí na nossa abertura, eu queria que a nossa plateia maravilhosa recebesse o nosso querido convidado Rodrigo Silva. Palmas para ele! Você viu que temos uma plateia maravilhosa? E ao meu lado, minha esposa querida Fabi, ao meu lado para essa entrevista, para esse papo maravilhoso junto com o Rodrigo, né, amor?
Não, eu vi na agenda, falei, Caio, eu vou me meter lá porque eu amo aprender com o Rodrigo e eu quero lá tirar, tô cheia de dúvida, vou lá tirar todas as minhas dúvidas.
Então, primeiro, Rodrigo, obrigado pela presença, tá?
O prazer e o privilégio é meu, pelo carinho, pela acolhida. Já segunda vez que estamos juntos aqui e muitos papos que já tivemos, excelente, excelentes em termos bíblicos assim. Eu também aprendo com vocês e obrigado a colorosa recepção que eu tive da plateia aqui, muito obrigado.
Mais uma pausa na nossa plateia, essa plateia está nos mimando. Rodrigo, primeiro um episódio especial de Dia dos Pais, né? Então pegar esse contexto do Dia dos Pais para trazer lições, né? A maioria esmagadora das pessoas que nos acompanham são empreendedores, na sua maioria PMEs, as pessoas estão correndo atrás de planos, sonhos, projetos. E a gente fala muito de família aqui, né? Família, eu, eu projeto mais importante que a gente tem aqui nessa terra.
Só que a gente trouxe para a gente navegar ao longo de uma história onde traga reflexões, traga ensinamentos. E além, ao longo de uma história bíblica muito forte, a gente possa trazer insights para a vida cotidiana. E obviamente é um papo que eu sei que iremos caminhar por um ponto e iremos seguir um fluxo muito legal sobre a história de Abraão. Que o pai da fé, né? Então primeiro eu queria que você trouxesse um plano de fundo da história de Abraão para a gente pegar alguns insights sobre paternidade, algumas discussões muito importantes e algumas reflexões.
Que o objetivo sempre do Como Você Fez Isso é gerar provocações para que as pessoas parem, reflitam, pensam. Isso tudo com grande objetivo, que as pessoas sigam o caminho de paz e prosperidade, né? Que elas realizem os projetos dela com o sentimento que valeu a pena. Então, primeiro, vamos trazer um plano de fundo da história de Abraão.
Bom, vamos começar então com a própria expressão que você falou: Abraão, o pai da fé. É curioso que existe por aí uma cultura, a meu ver equivocada, que a fé não admite perguntas. Eu já ouvi nas igrejas de várias linhas religiosas diferentes algumas pessoas dizendo que o verdadeiro crente nunca pergunta por quê, no máximo para quê? Mas indagação faz parte da natureza humana. Nós perguntamos quando tá doendo, a gente fala: ai, ai, ai, tá doendo.
Os Salmos são uma licença poética de autores inspirados por Deus para expressar a sua dúvida, a sua humanidade, a sua dor. Por que, Senhor, o Senhor se afastou de Israel? Davi questiona: até quando se tornarão longe do meu gemido as palavras do meu pranto? Etc., etc. E Abraão, como pai da fé, A primeira vez que ele abre a boca no livro do Gênesis é para expressar uma dúvida: como será isso, Senhor? Interessante que a primeira afirmação do pai da fé é uma indagação.
Então a fé admite perguntas, sim, perguntas honestas. Só que você sabe que em termos médicos a diferença entre veneno e remédio é uma questão de dosagem. A dúvida honesta pode se tornar uma dúvida de deslealdade, de falta de crença, de falta de confiança, que essa sim ofende a Deus. A partir disso eu já posso pegar o panorama de Abraão. Abraão nasceu em Ur, uma cidade que está no sul do Iraque hoje, e lá ele recebeu dois chamados de Deus, um em Ur, outro na cidade de Padã-Aram.
Em Ur, ele e Terá, seu pai, que era um local ali, receberam o chamado de Deus para sair de Harã, perdão, de Ur, para uma terra que Deus lhes havia de mostrar. Se você olhar na sua casa no mapa, o Iraque, bom, eu desenhando aqui vai ficar espelhado, vou tentar fazer com a mão esquerda para você. O Iraque estaria aqui, então Abraão tem que sair daqui, ele vai até a Síria, atual Síria, para a cidade de Padamarã, e da Síria ele desce para a região do Levante, que hoje seria Israel.
Então seria mais ou menos essa trajetória. O que os levou a sair dali de Ur, que estava no contexto do chamar de Deus? Não sabemos. Eu tenho algumas hipóteses. Eu localizo Abraão no período que a gente chama de Ur 3, aproximadamente 1800 antes de Cristo, 1900, 1800 antes de Cristo. É a época que você tá tendo uma transição cultural em Ur, que Ur era comandada pelos sumérios. Isso não está na Bíblia, tá? É uma reconstrução histórica hipotética de como poderia ser o quadro da saída de Abraão.
Então Ur deixou de ser Suméria e os Elamitas assumiram a cidade. Então Ur passou a ter uma nova, um novo idioma, uma nova forma de comunicação, um novo comércio, novos deuses. E a gente tem, desde a saída dos Sumérios até a entrada dos Elamitas, um crescimento exponencial do politeísmo na região de Ur, que fica ali na Mesopotâmia. Talvez Deus, sabendo que Abraão era um descendente de Noé, que Deus falava: esse aí é um homem justo, mas eu tenho que guardar a aliança da vinda do Messias, então vou chamar Abraão.
E Abraão sai com Terá, o seu pai, o seu irmão, o seu sobrinho Ló, a sua irmã, que depois se torna sua esposa, Sara, e eles vão até Padã-Aram. Só que eles não continuam viagem. Sabe aquele posto Graal do meio do caminho que era apenas para ir ao banheiro e comprar uma coxinha e continuar a viagem? Só que a pessoa resolve tirar a barraca de dentro do carro, armar o acampamento, ficar com os filhos ali nas férias. Até que não, pera aí, gente, tem que seguir viagem.
E quando Terá já está bem idoso e ele morre, Deus aparece novamente para Abraão e fala: Abraão, saia daqui porque não é essa terra. E Abraão vai então para a terra prometida. E existe uma expressão em hebraico muito forte que aparece no texto do Gênesis. Quando Deus fala com Abraão para sair, Deus fala com ele: Lech lecha. Lech lecha em hebraico até hoje é um ditado popular em Israel. Lech lecha seria algo como vá por ti mesmo, ou seja, vá na confiança.
Você pode ler de várias maneiras esse vá por ti mesmo. Lech lecha pode ser letra A: mesmo que eu estou te dando o conselho ou o chamado, no final das contas a decisão de seguir é sua. Vá por ti mesmo, não só porque eu estou mandando, mas porque você aceitou a minha ordem. Ou seja, o Deus da Bíblia não é um Deus que obriga, é um Deus que chama, convence e só aceita a devoção se ela vier de livre e espontânea vontade. Então, Abraão, eu estou te chamando, vá para a terra, mas vá por ti mesmo.
Outra coisa que nós aprendemos também: vá na confiança. Você vai para um lugar que você não conhece, Mas eu lhe mostrarei. E para terminar, uma outra coisa que eu poderia dizer é o seguinte: o que significa essa fé que ele depositou em Deus? Certamente a voz que lhe apareceu lá em Ur e depois em Padã-Aram era uma voz de alguém com o qual ele já tinha um relacionamento. Sim, ainda que ele não soubesse todos os detalhes, ele tinha um amor por Deus que foi despertado.
E quando você tem um conhecimento prévio daquele que o chama, você confia. Então a fé de Abraão pode ser comparada a duas situações. Imagine que eu esteja num prédio pegando fogo e eu estou desesperado para sair ali no meio das chamas e tudo mais. E quando eu vou em direção a uma porta, eu vejo saindo de trás de mim da fumaça um homem com a roupa do Corpo de Bombeiros. Ele está com aquela máscara, aquele chapéu vermelho, aquele casaco.
Eu vejo o distintivo do Corpo de Bombeiros. Ele fala: não abra essa porta. Não abre essa porta. Eu falo, eu paro na mesma hora. Se eu sou inteligente, eu paro. E ele fala, vem atrás de mim. Eu entro com ele na fumaça. Não houve tempo de explicações. A minha lógica imediatista me indicava a sair por aquela porta para ficar livre das chamas. Mas por que que eu desisti da minha lógica e obedeci aquele bombeiro. Se você olhar, eu fiz uma decisão de fé porque eu não tinha nenhuma explicação dele, nenhuma aula, e até contra o meu instinto eu o segui.
Mas é uma fé inteligente. Por que que é uma fé inteligente? Porque eu sei que pessoas do Corpo de Bombeiros têm treinamento para lidar na questão de chama. Eu sei que ele sabe o que está fazendo, e eu sei que na circunstância não dá tempo de dar explicações. Então eu obedeço sem questionar. Mas não é uma fé cega, não é uma fé ingênua, não é aquela fé como do Machado de Assis falando do Rubião, sujeito mais crédulo do que crente.
É uma fé que me leva a seguir alguém que já me deu evidências de quem ele é. Essa fé que Abraão depositou em Deus. Mas tem um outro quadro que é a distorção disso. Imagine que eu estou na mesma situação com o fogo e sai, quem sabe, uma pessoa com problema mental descompensada, ou sei lá, qualquer coisa desse jeito, começa a gritar assim: corra comigo que nós vamos sair voando pela janela! E eu abandono o meu instinto para pegar na mão daquela pessoa para sair voando pela janela.
Aí já não é fé, aí é crendice. Então existe uma diferença entre ser crente e ser crédulo. E Abraão, o pai da fé, me mostra a diferença entre as duas situações. Ser crente é ter uma fé racional em alguém que está me dando evidências de que nele eu posso confiar. Então quando ele diz, vamos, mesmo sem saber o que está do outro lado, porque ele vai me conduzir.
Isso da fé de Abraão, eu acho uma coisa muito interessante. Até você me corrige, Rodrigo, se eu tiver errada. Quando eu leio essa parte de Terá, eu entendo que ele, Terá, primeiro foi chamado, e aí o pacote foi todo, foi todo mundo. Então começa a entender que já é geracional desde o pai de Abraão. E aí, só que Deus promete para ele sobre a descendência dele, do tamanho da descendência. Ele não vê o tamanho da descendência.
Não.
Aí Isaque vem com a mesma promessa. Aí você tem Jacó, que tudo bem, tem os 12 filhos e tem mais a filha depois, né? Só que só depois que tudo vai se multiplicando e vai crescendo. Então talvez você vê 4, 5, 6, 7, 8 gerações até que começa a se tornar algo gigantesco. E quando a gente pensa assim numa promessa geracional, eu queria que a gente entrasse um pouco nesse aspecto, porque talvez a gente não tem ideia do impacto que nós temos, das promessas geradas através de geração por geração.
E talvez a gente não vai viver a promessa, mas nós devemos ser os guardiões da promessa e fazer com que isso seja passado de geração em geração. Então, às vezes, quantas famílias tinham promessas, tinham sonhos, tinham tantas coisas guardadas e prontas para a próxima geração, mas talvez foi passando, foi passando, foi passando, e aquilo foi se corrompendo até que a gente sabe como se tornou a história de Israel, que foi uma né, depois de tudo que aconteceu, e anos e anos e anos depois.
Como que você enxerga assim biblicamente essa questão de garantir as promessas geracionais?
Olha que interessante, Deus não é contraditório, mas ele é paradoxal. E na filosofia, o paradoxo não é uma contradição qualquer, é uma realidade muitas vezes oposta, mas que convive harmonicamente. Um exemplo de paradoxo Eu posso dizer: eu estou farto de não ter nada. Se você não tem nada, como você está farto? Mas é, faz sentido, é lógico. Então Deus, ele não é contraditório, mas ele é paradoxal. Lembre, eu acredito na Santíssima Trindade.
Eu estou falando de um único Deus que são três pessoas. Mas como três pode ser um? Um pode ser três? O paradoxo diz que isso é possível. E nesse paradoxo de Deus, ele, ele é sempre alguém que está pronto para ressignificar situações, reciclar condições ruins. Então, quando você me pergunta da questão da responsabilidade geracional das bênçãos, eu imediatamente desenho na minha cabeça duas setas, uma indo, outra voltando. E eu vou explicar o porquê das duas setas para responder a você.
Daquela seta que vai, é a primeira vez que eu vou poder receber um Feliz Dia dos Pais Que eu me tornei pai esse ano. Obrigado. Eles já são tetra, né? Eles são tetra, eu ainda sou um só, mas tô lá. Mas o que que acontece? Eu olhando então a seta nessa direção, a minha responsabilidade com a Sara. Então vou primeiro chamar atenção na sua resposta para responsabilidade paterna. O que que eu vou passar para ela? O que que eu vou transmitir para ela e para os filhos dela, né?
Porque a Bíblia fala muito, tem a barajá aqui em hebraico, a bênção. Tenho que confundir porque pronuncia barajá, pode ser piscina em hebraico, para não confundir alguém que sabe hebraico que tá ouvindo. A bênção que eu passo é para os filhos e os filhos dos teus filhos. Deus fala até a terceira e quarta geração. Então eu tenho que olhar a educação não apenas da Sara, Mas também dos filhos da Sara, dos netos da Sara, que vão herdar coisas boas e ruins minhas.
Então tem que cuidar muito com essa responsabilidade de educar não apenas a ela, mas os que virão depois dela. Isso é muito sério. Então existe uma promessa de Deus e ela é forte, e Deus vai me cobrar disso também. Eu sou responsável também. Agora, olhando essa mesma seta no sentido inverso e com relação aos meus ancestrais, será que eu também estou valorizando aquilo que eu herdei deles? Engraçado que hoje nós podemos falar isso daqui a pouquinho, com essa disruptura que há entre pais e filhos.
Antes de começar, a gente tava lembrando da bênção, da promessa de Deus em Malaquias, né? Converterá o coração dos pais aos filhos, dos filhos aos pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição. Hoje os filhos não querem mais relação com os pais. Então eu tenho que pensar, poxa, eu tenho que conhecer os meus pais, eu tenho que aprender com a minha ancestralidade, até para saber as tendências que eu tenho e que eu não tenho.
Uma dica para você, eu não sou psicólogo, tá, nem quero avorar ser um, mas eu já fui paciente de psicólogo. E a melhor maneira de consertar, de aprender sobre mecânica, é tendo um carro problemático. Você vai saber muita coisa. Então eu tenho um carro problemático, por isso que eu aprendi muita coisa de psicologia. Você quer fazer uma terapia? Não começa a falar só de si mesmo, começa a descobrir a sua árvore genealógica. Antes de falar da sua dor, da sua frustração, do seu pessimismo, procure saber os casos na sua família de tentativa de morte, de ruptura e tudo mais.
Você vai descobrir muito das suas tendências. E aprenda também as virtudes da sua família, porque você é o subproduto disso. E agora, no encontro das duas setas que descem e que vão, eu aprendo o lindo desse paradoxo de Deus: ninguém é refém nem das promessas nem das maldições. O que significa isso? Bom, Deus tinha uma promessa para Abraão, mas muitos filhos de Abraão não alcançaram a promessa porque decidiram pelo lado errado.
E muitos eram filhos de famílias que traziam maldições hereditárias, e nem por isso eles aceitaram aquele papel. Por isso que eu tenho na herança de Abraão pessoas que não eram do sangue de Abraão. Raabe, Rute estavam ali na linhagem de Abraão sem serem do sangue de Abraão. Então eu noto que no final das contas, tendo promessas ou maldições na ancestralidade da minha família, eu posso decidir qual das duas vão me alcançar. E a responsabilidade disso. E isso é tão sério, tão sério.
Nem maldição é destino, não é destino, é, pode ser tendência.
Tendência não é determinismo. E eu posso dar um exemplo que vai até interessante? Aparentemente o exemplo não vai ter nada a ver com isso, mas no final vocês vão ver que vai ter. Muita gente se pergunta por que, já que a gente tá no Dia dos Pais, tá dentro da sua pergunta de maldição e tudo, por que que Jesus tinha que ser filho de uma mãe humana, mas não podia ser filho de um pai humano? Vamos parar para pensar. Eu acredito que Maria, quando deu à luz a Jesus, ela era virgem.
Acho que esse é um ponto comum entre católicos e protestantes conservadores, né? Porque tem teólogos liberais que acham que aquilo era uma lenda, que era um mito. Mas eu acredito na literalidade. Maria, quando engravidou de Jesus, ela estava grávida pelo poder do Espírito Santo. Ela não tinha tido relação sexual com José. Jesus não é o subproduto de um espermatozoide com óvulo no ventre de Maria. É uma obra do Espírito Santo que biologicamente eu não sei explicar, mas ela era virgem.
Ponto.
Isso é um ato de fé, é um dado de fé, é um dogma. Só que eu posso questionar por quê. Embora não seja católico, mas pensando com uma mente católica, a gente fala de Santa Maria, mas fala de São José? Coitado, por que que não? Qual o pecado? Não, mas Maria nasceu imaculada, tá? E por que que Deus não fez José também nascer imaculado? Para ele também ser pai biológico de Jesus? Por que que Maria pode ser a mãe biológica de Jesus e José não pode?
Coitado do José! E você pode olhar, são perguntas não de ofensa ao dogma, mas perguntas legítimas. Não, mas Deus fez Maria Imaculada, Imaculada Conceição, tá? Por que que não pode ter feito José Imaculado também? Porque, e vou mais além da minha pergunta, por que que os dois não poderiam ter uma relação sexual? Lembre-se que o casamento É inclusive um dos sacramentos da Igreja. Se o sacramento consegue ter o status de— perdão, se o casamento consegue ter o status de sacramento, é porque dentro dos limites da ética, da moral católica, o sacramento é algo santo.
O casamento é algo santo. Se o sacramento, se o casamento é santo, a relação sexual que acontece dentro do casamento também é Santa. Então, em que sentido uma relação sexual de José e Maria iria dessacralizar Jesus? Sabe qual é a resposta que vai na sua pergunta? Tem uma, uma maldição no Antigo Testamento e uma bênção na mesma família. Vou falar da bênção. Deus fez uma promessa para Davi. O seu descendente sentará para sempre no trono de Israel.
Um descendente seu que eu vou levantar, e que nem é Salomão, ele vai sentar para sempre no trono de Israel. Então Davi morreu, e depois Salomão, e todo o povo judeu esperando o descendente Davi, o filho de Davi, que iria sentar no trono como Deus prometeu. De maneira eterna. Só que um dos descendentes de Davi, chamado Jeconias, resolveu não aceitar a bênção e optou pela maldição. E ele quebrou aliança com Deus. E existe uma maldição sobre Jeconias.
O profeta falou para Jeconias: nem você nem nenhum dos seus filhos sentará no trono. Aí agora eu criei um um problema, um paradoxo. Porque por um lado eu tinha uma promessa de Deus a Davi, que um descendente dele sentaria no trono, mas agora tem uma maldição em Jeconias. Como é que eu vou cumprir essa promessa a Davi sem passar por Jeconias? José era descendente de Jeconias, Maria é descendente de Davi por outra linha. Por isso que tem duas genealogias, uma em Lucas, outra em Mateus.
Como Maria era descendente de Davi por uma via que não passa por Jeconias, Jesus só poderia ser descendente de Davi segundo a carne através de Maria, porque se ele fosse descendente de Davi por José, passaria por Jeconias, daria um problema. Então Deus cumpriu. Olha como é que Deus é sábio, como é que ele cumpre o desígnio dele. Foi a sua pergunta inicial, por isso que eu dei esse exemplo tão devagador, perdoe-me por isso, tão prolixo, mas ele cumpre de um jeito que a mente humana não imaginaria.
Um descendente de Davi vai sentar no trono. E não vai ser por Jaconias. Então vamos resolver da seguinte maneira: a mãe de Jesus vai ser virgem. Tão simples assim. Deus faz reciclagem. Não discuta com especialista, ele entende da história mais do que você.
Quando a gente fala da história de Abraão, eu queria te perguntar, para você, quais as maiores lições que você tira dessa história? Primeiro, vou começar por aí. Quais as lições, toda vez quando você pega a história de Abraão, você fala assim, cara, isso aqui me marca muito. Quais são as maiores lições que você pega da história de Abraão?
Bom, a primeira delas eu já coloquei, o fato de ele mesmo como pai da fé duvidar, tá? A segunda, Deus não fez de Abraão uma marionete, um robô, um aplicativo de celular. Lech lecha, vá por ti mesmo. Eu te chamo, mas a vontade última é sua. Terceira lição que eu pego de Abraão: ele não foi o senhor perfeitinho, ele cometeu erros, erros sérios com Agar, por exemplo, né? Se nós temos todo problema hoje no Oriente Médio aí, agradeça Abraão, né?
Você tem ali Ismael e Isaac brigando até hoje, até hoje. E os descendentes de Ismael também não se entendendo entre eles até hoje. Por uma falha de Abraão. Quarta lição que eu pego: quando Deus lhe chama para uma grande tarefa, tome cuidado, porque os seus erros também saem muito caro. Você fala muito de empreendimentos aqui, que eu sei. Imagine que o erro de um CEO de uma empresa pode custar o emprego de 5, 10 mil pessoas. Eu até costumo brincar: por que que Deus às vezes é tão severo com algumas pessoas como foi, por exemplo, com Moisés, Abraão e outros, porque eles eram líderes.
Imagina que você entre no aeroporto e um supervisor está ali fazendo uma visita de rotina, e quando esse supervisor passa nos departamentos do aeroporto, ele entra no banheiro lá embaixo e o faxineiro está dormindo em cima da vassoura. Ele vai dar um belo de um chingaço naquele sujeito, vai mandar limpar o banheiro e vai ficar por aquilo mesmo. Aí esse mesmo supervisor sobe e vai para torre de controle, e lá em cima ele vê o sujeito da torre de controle cochilando em cima do— é demissão sumária.
O erro dos dois foi o mesmo: cochilar no lugar de trabalho. Só que o cochilo do faxineiro resultaria no banheiro sujo, o cochilo daquele outro poderia ser uma tragédia. Então, quando Deus lhe chama para uma grande coisa, cuidado, porque os seus acertos darão bons recursos, bons resultados, mas os seus erros também grandes estragos. E Abraão tem que tomar cuidado disso. Os erros de Abraão foram sérios, sérios, sérios, e causaram grandes problemas.
E a última lição que eu pego, a penúltima lição que eu pego de Abraão, é que mesmo cometendo erros, mesmo não sendo o senhor perfeitinho, Deus ainda usa você. Deus ainda tem misericórdia com você. Deus em si mesmo se basta, mas ele prefere contar com cada um de nós. Isso é maravilhoso. E o último elemento que eu pego de Abraão é a seguinte: ame Deus acima de todas as coisas. Ame Deus acima de todas as coisas, mais do que a sua esposa, e obedeça a Deus acima de todas as coisas, mais do que seus filhos.
Porque se esse Deus falar com você: sobe ao monte e sacrifique Isaque, faça isso. Mesmo contrário à opinião pública, mesmo contrário à lógica, coloque Deus em primeiro lugar. Esse é o segredo da sua vida. Ele tem que ser o seu sócio majoritário em todos os sentidos. Eu amo a minha esposa, mas eu tenho que amar a Deus mais do que a ela. Eu amo a Sara, minha filhinha, mas eu tenho que amar a Deus mais do que ela. Esse é o segredo: pessoas que tenham coragem de amar a Deus incondicionalmente.
Ah, Rodrigo, é fácil falar, mas na prática— sim, na prática tem um monte de coisa que é difícil. É difícil até fazer academia. Tá certo? Para quem não gosta como eu, tem que fazer amarrado. Eu odeio. Eu tenho uma academia lá em casa, mas eu não faço no gosto. Falar, não faço. Eu faço por uma questão de saúde. Todo dia. Hoje eu fiz de manhã. Eu falei, não vou fazer não, que eu tenho que ir lá. Falou, faça, dá tempo. Aí eu fui e fiz.
Mas tem que fazer. Na vida, muita coisa não é fácil. Então, se você tá acostumado a fazer coisas que não são fáceis porque está convencido delas, ame a Deus acima de todas as coisas. E nesse sentido, o amor deixa de ser um mero sentimento, estar apaixonado por para se tornar uma decisão. Eu decidi amar a Deus.
Eu vou te fazer— Entrando nesse assunto ali de Abraão e Isaque, é muito interessante, né? Porque a gente tava falando ali nos bastidores, a gente escolheu Isaque. Na verdade, Deus, né, falou com Caio através do marido, e depois confirmou comigo. E aí a gente, as crianças estavam querendo entender da história e tudo mais, aí caiu Abraão colocando Isaque para sacrifício e a Bela, a minha filha de 10 anos, senta do meu lado. Ela: mãe, se Deus te pedisse para me sacrificar, você faria isso?
E é extremamente complicado você responder, porque eu sei o tamanho da minha obediência. Tudo que Deus me pede é sim na hora. E eu falo: como é que eu respondo isso para uma criança de 10 anos? E aí eu dei uma ensaboada ali falando como Deus ele testa. Não testa mais, porque Deus não testa ninguém, não coloca ninguém.
Só um parênteses, ela vai fazer 11, então tá entrando na pré-adolescência. É porque eu falei, eu perguntei, ela perguntou assim: você me colocaria no monte também, papai? Me sacrificaria?
É isso que ali é algo muito interessante, porque ali a gente entende também principalmente uma sombra muito linda do sacrifício de Jesus. Mas também tem algo como Deus, ele muitas vezes algo que domina o nosso coração, às vezes ele vai pedir para a gente tirar porque tá ganhando lugar que era dele. Eu falei, perguntei para ela, filha, se tem algo que hoje Deus te pedisse muito para você tirar da sua vida, o que que mais doeria?
Ela ficou pensando, ela sair da minha escola. Hoje era algo que eu gosto muito e se ele me pedisse ia machucar meu coração. Então coloquei ela para pensar nesse sentido. E aí a gente tava assistindo um um seriado Netflix agora de férias com as crianças chama The Faithful. É interessante porque é o viés das mulheres, de Sara, de Rebeca, de Raquel. Muito interessante.
É filme.
E obviamente que tem algumas coisinhas ali que não vai ser 100%, mas ele trouxe algo interessante de que Isaac meio que ficou machucado. Obviamente que na Bíblia não fala nada disso, não tem nenhuma passagem disso, mas de certa forma isso feriu a relação dele com Abraão, inclusive a relação dele com Deus, porque a gente não vê biblicamente Isaque tendo muitas revelações com Deus e tudo mais, assim como a gente vê Abraão falando muito com Deus, falando com Abraão, depois vem com Jacó, né, até que tem Jacó ali deitado e vendo Ailí em Betel e tudo mais.
Dentro da sua interpretação, você vê que de alguma forma o tamanho da obediência de Abraão com Deus pode ter ferido alguma relação dele paternal com Isaque?
Pode, por que não? Não posso afirmar, mas posso inferir. É possível que sim, porque lembremos que do lado de cá da eternidade, até as nossas virtudes estão maculadas pelo pecado adâmico, até as nossas virtudes. Então nós sempre resolvemos problemas criando outros problemas. Nós vivemos numa época, por exemplo, quantos problemas foram solucionados pela tecnologia e quantos novos surgiram? Tem um livro do Peter Kreeft chamado Sócrates Meets Jesus.
Em português ele ficou com o título de— esqueci o título em português, fizeram um título diferente. Em inglês seria Sócrates Encontra Jesus, onde ele imagina uma história. Ele é um grande filósofo, Peter Kreeft, católico inclusive, e ele fez uma ideia de como é que seria o filósofo Sócrates ressuscitando hoje, encontrando um bibliotecário de Harvard e conversando. E num dos trechos do diálogo de Sócrates com esse homem, Sócrates fala o seguinte: Você é isso, isso, isso.
Ele falou: Sócrates, eu tô vendo ser um homem tão conservador, eu pensava que você era um homem à frente do seu tempo. Aí Sócrates: Como assim à frente? O homem não tem como ver à frente do tempo dele, só no tempo dele. Aí ele: É, tá bom, mas veja, Sócrates, a nossa geração teve muitas vantagens. Veja a nossa medicina, já encontramos a cura para milhares de doenças. Aí Sócrates pergunta: Milhares? Quer dizer, não havia tantas assim no meu tempo?
Vocês criaram muitas para poder consertar a parte, né? Então nós sempre resolvemos problemas criando outros problemas. A partir disso, a resposta é sim, Abraão pode ter dado algumas situações para Isaque que causaram um certo trauma. E o próprio Isaque também, a partir da sua própria individualidade, o seu livre-arbítrio, pode ter lido aquilo de maneira diferente. É um mistério para mim da psicologia da Gênese do pensamento humano, o poder da escolha.
Eu pego lá na base, Caim e Abel. Os dois não tinham influência de nada errado, não tinha nada de má companhia, vieram do mesmo pai, da mesma mãe, do mesmo ambiente. Um oferece um sacrifício para Deus de um jeito, outro de outro. É um mistério que para mim só termina com uma coisa: eu mesmo. Eu mesmo, porque sinceramente até os meandros da escolha da minha filha, da minha esposa, é difícil falar. No final das contas, você pode falar de si mesmo e fazer o seu melhor e orar a Deus.
Com relação a filhos, um amigo meu, o Rodrigo Bertotti, a Fabiana, vocês conhecem, já teve aqui, vai estar com vocês também, ele falou que você só sabe se o que você fez deu certo é quando você não tiver mais o que fazer. Enquanto a Bela tá com vocês, mas você só vai saber se a educação que você tá dando para ela deu certo é o dia que ela for embora de casa e não precisar mais de vocês. Aí você vai saber. Então, com Abraão, pode ser que Isaque tenha tido alguma coisa nesse sentido.
Pode olhar que ele depois é resistente em aceitar Jacó, que era o escolhido de Deus. Ele escolhe Esaú, né, e fica privilegiando Esaú ali enquanto Rebeca privilegia Jacó.
E ela segurando firme a promessa. A gente tem uma promessa, tem que manter a promessa.
E mesmo a virtude dela de segurar firme a promessa, você tem também uma mácula. Você tem uma mácula ali também, porque da ética ela quer a promessa do jeito dela. Ela faz o filho enganar o pai, ela paga um preço alto. É, pulou novela mexicana. E ela paga um preço alto por aquilo. E depois o Jacó lá. E aí eu vejo a beleza da história da redenção. Como é que Deus vai trabalhando mais a despeito de nós do que com a nossa ajuda? Tem um livro em inglês, In Spite of Myself, A Despeito de Mim Mesmo, onde ele trabalha muito isso. Deus trabalha mais com apesar de nós do que conosco.
E como é um episódio, enfim, especial do Dia dos Pais, a gente até tava conversando ali atrás, nem todo mundo tem uma boa lembrança nesse dia, não. Nem todo mundo. Eu já, eu lembro que a primeira vez que eu fiz um post nas redes sociais no Dia dos Pais, eu sou muito grato pelo pai que eu tive, sabe? Eu creio que ele deu o melhor que ele tinha em todas as condições que ele tinha. E aí eu fiz um post do Dia dos Pais, né? E aí eu comecei a perceber a quantidade de pessoas que nesse dia é uma referência que ele não não quer lembrar, ou para algumas gera mais feridas do que— qual que é o seu olhar sobre isso?
Eu acredito muito no que a gente tava falando lá atrás, que quando você aprende a honrar a linha que você foi, você tem que dar algum jeito de você conseguir, na sua linha ascendente, se livrar de qualquer tipo de toxina que você tem. Eu creio que alguma amarra na vida, né? Mas como que você, você olha nesse sentido e qual é a sua reflexão que vem? Porque acredito que você também já deve ter essa experiência, ser público também, que nesse Dia dos Pais não é todo mundo que tem uma boa referência.
A própria figura do pai, ela passou por modelos diferentes ao longo da história, principalmente na construção do mundo ocidental, desde a época bíblica ou do Oriente, que o pai era figura central. Hoje até a palavra patriarcado, patriarcalismo, caiu até numa conjectura muito ruim. Hoje é uma palavra quase assim horrível de ser falada, né? Você fala patriarcado, ah, você está numa mentalidade patriarcado, parece machista, parece opressor.
Patriarcado hoje se tornou sinônimo de opressor. Isso é um anacronismo medonho, não tem nada a ver isso no passado, mas eu não vou entrar no mérito da questão. Depois, no mundo ocidental, até em parte devido ao culto a Maria, aos poucos o pai foi ficando secundário e Maria se tornou a essência. Tanto é que pode olhar, se o filho fala: eu não converso com meu pai, pegando a cultura brasileira, aí é normal. Eu não converso com minha mãe.
Que tipo de filho você é que não conversa com a própria mãe? Então vê que ficou secundário. Só que agora nós estamos passando por uma outra fase, que nem o pai nem a mãe já são dignos de respeito mais. E isso você vai vendo até nos próprios cartuns, essa evolução. Você pode olhar quando você tinha lá atrás, no começo do cinema americano, você tinha os Waltons, você tinha, era o pai, a figura do pai, as fotos bem do pai no meio com aquele bigodão, a mulher sentada, os filhos.
Depois foi migrando para versões alternativas como Dini é um Gênio, onde o marido é um paspalho. Depois I Love Lucy, que o marido é um paspalho, o idiota. Depois vem os desenhos animados de Fred Flintstone, Os Jetsons, Homer Simpson. Que a figura do pai é sempre patética, ridícula, idiota, né? Alguém certa vez até falou que a palavra, como Bart Simpson menciona o nome do pai dele em inglês, Homer, Homer é Homero, claro, mas ele pronuncia de um jeito que é um sotaque meio redneck, fala assim, ô cachorro, Homer, é como se fosse aquele cachorro que cuida do home, da casa.
Então ele fala Homer, mas ele pronuncia de um jeito que não é bem Homer. Eu não saberia falar o sotaque porque eu não sou americano, mas é um jeito de falar assim do cachorro que cuida da casa. Então hoje a figura do pai é o Family Guy, é o ridículo, é o idiota. E com relação aos traumas, eu acho que a resposta que eu posso dar a isso é o seguinte: é o perdão. E não caia naquela de não, mas é muito injusto eu ter que perdoar o meu pai.
Você pode escolher o caminho do não perdão, mas aprenda algumas coisas de alguém que não é psicólogo. Mas já precisou deles. A primeira coisa que você tem que aprender é que amor e ódio são dois sentimentos muito, muito semelhantes e muito fortes. Eu posso dizer que você é tão apaixonado pela pessoa que você ama quanto pela pessoa que você odeia, porque em ambos os casos ela se torna o centro da sua vida. Eu posso trair a minha esposa sem ter nenhuma amante, basta eu ter alguém que eu odeie demais.
Eu penso tanto nessa pessoa que pode atrapalhar até minha relação sexual com minha esposa, porque ela vai para cama comigo no pensamento. Ela pode atrapalhar tudo, ela pode me impedir de ser feliz. Se tem uma pessoa que vale aprisionar, é a pessoa que você odeia. E aí é curioso que as pessoas, como não querem enfrentar o caminho do perdão, que ele é muito dolorido, eles começam a dar desculpas para o sentimento dele. Não, não é ódio.
O que eu sinto é um sentimento, é uma dor, desprezo. Para com isso. O primeiro passo para perdoar é admitir que você tá odiando. Ponto. As pessoas não admitem, ficam usando um eufemismo para descrever o sentimento, sendo que no mundo do— existem dicionários do lado de fora, mas no nosso inconsciente não existe dicionário. O sentimento é um, é raiva, é ódio, é, tá tudo no mesmo pacote. Então você tem que admitir que tá odiando, mesmo que esse não seja uma admissão muito fácil, porque o mocinho não odeia.
Quem odeia é o vilão. Você tá com ódio e você tem que soltar o seu pai. Sabe por quê? Embora eu não seja adepto da lei cármica espírita, não sou espírita, mas vou fazer uma paráfrase do Espiritismo. Você está reencarnado, você está fadado a reencarnar o seu pai. Tô fazendo apenas uma analogia em vida, porque o fruto não cai muito longe da árvore. E é lógico, o ser humano não foi feito em série. O que eu falo aqui do João não serve para o Joaquim, cada um é de um jeito, mas de maneira mais ou menos geral Nós percebemos muitos jovens modelando a vida dele pela relação mal resolvida com seu pai.
Ele tá sempre reagindo, né?
Ele tá sempre reagindo, e ele pode reagir de várias maneiras. Uma delas, e mais comum, quando ele se torna pai ou mãe, ele começa a fazer as mesmas coisas que aquele seu algoz chamado pai fazia com ele. Ele começa a tratar o seu filho igualzinho o pai dele fazia com ele. Da mesma maneira, ele começa a sabotar a relação dele com seu filho, assim como o pai dele sabotou dele. Igualzinho. A gente vê muito, gente. Se tem uma coisa que mais se repete, são papéis.
São papéis. Você vê o sujeito repetindo papel. Outra coisa, ele pode evitar a paternidade, demonizá-la. E hoje nós temos uma geração que está demonizando a maternidade, a paternidade. É uma, uma, agora eu cheguei, eu de Israel fui para os Estados Unidos, Estados Unidos para cá. E lá em Washington eu vi uma matéria lá que me surpreendeu. Pela primeira vez nos Estados Unidos agora está tendo um aumento exponencial de jovens de mais de 20 anos que voltam a morar com os pais.
Para quem conhece a cultura norte-americana sabe que lá não é assim. 18 anos, menos, tchau, sai de casa, vai para universidade, da universidade você já arruma seu emprego, não tem mais negócio. Negócio no Brasil que fica morando com o pai, não, não tem esse negócio. É muito raro você ver um— era, tem que atualizar— era muito raro você ver nos Estados Unidos filho solteiro de mais de 20 anos morando com os pais. Fez 18, tchau. Agora tá mudando.
Novos estudos estão mostrando um número crescente ano após ano de jovens de mais de 20 anos americanos que estão voltando a morar com os pais, ou porque não se casaram, ou porque já se divorciaram e voltaram para casa dos pais. Ou seja, ele tá tão preso à relação tóxica do pai dele que ele não consegue ser um pai, porque ele tem medo de ser igual ao pai dele. Ele não consegue ser um chefe de família, continua sendo filho. E ele começa a fazer a conta que a vida fora de casa é muito cara, é melhor ficar em casa com a mãe dele lavando a roupa dele, fazendo as coisas, e ele não ajudando em tudo e tal.
Então essa toxicidade que eu tenho em relação ao meu pai, eu tenho que impor limites sobre ela, senão ela vai me dominar e vai dar as diretrizes da minha vida. E para mim, como eu tenho uma mente bíblica, o caminho disso é o perdão. E de novo, eu sei que você vai falar, como no exemplo que eu dei de Abraão sacrificando Isaque: Rodrigo, isso é difícil, é muito fácil falar, é muito fácil. E sim, mas, gente, na vida tudo, tudo que dá um bom resultado não é fácil, não é fácil.
E uma frase que eu já repeti à exaustão, e tomo licença para repeti-la: quem quer dá um jeito, quem não quer dá uma desculpa. Então, sabe, você acha que é fácil ganhar uma medalha olímpica? Você acha que é fácil passar no vestibular da FUVEST? Você acha que é fácil enfrentar a vida de São Paulo de metrô e tudo para estudar? Tudo na vida custa um preço. Agora, Você tem que escolher, você quer dar um jeito ou arrumar uma desculpa?
A história da Bíblia, quando a gente entende que ela é uma história de redenção, redenção a gente entende de perdão, mas eu também entendo que tem uma questão de honra como um princípio bíblico. Como que a gente pode entender essa questão de honra, principalmente honrar pai e mãe?
Excelente. Quando a Bíblia fala honrar pai e mãe, a gente tem que entender isso culturalmente, o que significaria naquela época e hoje. Deixa eu explicar primeiro o que significaria naquela época e hoje, para não ser mal interpretado. Quando a gente estuda ética, existe uma diferença entre ética e moral. A moral são os usos e costumes. A moral muda de época para época, embora que de maneira popular a palavra moral às vezes é usada como se fosse um intercâmbio de ética.
A moral católica, e o pessoal pensa que é ética, mas tecnicamente falando, a ética é um princípio eterno que vale para todo mundo, em todo tempo e em todo lugar. Só que esse princípio, ele se matiza numa estrutura histórica, contextual, localizada, e aí ela pode modificar. Por exemplo, um exemplo de ética, eu sempre gosto desse exemplo que eu acho que ele cai bem, é respeito. Eu tenho que respeitar vocês, eu tenho que respeitar o pessoal da plateia, eu tenho que respeitar minha social media que tá comigo, tem que respeitar minha esposa, tem que respeitar o padre, tem que respeitar o pastor.
Respeito, eu tenho que respeitar todo mundo. Agora, como é que eu demonstro respeito quando eu entro numa igreja católica e eu estou com chapéu na cabeça? Quando eu estou guiando grupos em Israel, a gente sempre fala com eles assim, ó, nós vamos entrar agora numa igreja católica, então hoje, antes de sair do hotel, as mulheres que estão de manguinha, por favor, coloquem uma, uma, uma echarpe por cima e tal, sem bermuda. Não são regras do Rodrigo, mas eu conheço as regras católicas locais.
Então elas colocam. E entrando na igreja, por favor, se alguém tiver de chapéu por causa do sol quente, muita gente tá com boné, tire o boné, ok? Quando num Shabat você leva o grupo para visitar uma sinagoga, todo mundo coloca um chapéu, porque na sinagoga é desonroso você entrar sem um chapéu na cabeça, cabeça descoberta. Na Igreja Católica é desonroso você entrar na igreja com chapéu na cabeça. Então o exemplo que eu dei do chapéu é a moral.
A ética é o respeito. Eu respeitei a Igreja Católica, eu respeitei a sinagoga, mas a maneira de demonstrar o respeito mudou. Então a partir disso, quando a gente pega a Bíblia, a gente tem que primeiro separar na Bíblia o que que é o princípio e o que que é a moral bíblica. E as pessoas ficam atropelando isso a todo jeito e acabam tornando a Bíblia um livro do maluco beleza. E alguns ficam até atacando a Bíblia: essa Bíblia aí, olha, Deus fez isso, Deus Deus mandou aquilo.
Deus aí pega aqueles versículos fora de contexto, né? Deus mandou escravizar, Deus mandou pegar as oves e casar à força e tudo. Não entende a sociologia da época, a época. Deus falando com sotaque humano, Deus falando naquele sotaque para eles entenderem. Então é bom deixar isso muito esclarecido: o que que é o princípio bíblico, o que que é a moral histórica expressa na Bíblia, e como eu pego aquele princípio matizado naquela moral e traduzo de maneira correta para o tempo de hoje.
Então, na época bíblica, honrar o pai e a mãe, por exemplo, é o filho da minha filha não será meu filho, o filho da minha filha será descendente do marido dela e do pai do marido dela. Então, por isso que quando um jovem vinha casar com uma filha, tinha que pagar um dote, porque é uma indenização. Você tá tirando de casa alguém que eu alimentei, que não vai me dar descendentes. Tá levando embora para lá, tá tirando alguém do meu time, tá tirando alguém do meu time, você entendeu?
E o meu filho vai tirar alguém do outro time e ele tem que morar na casa do pai. Hoje os critérios mudaram, então isso era o pagamento, era o pagamento. Por isso que tinha o dote, uma das razões, uma das razões, não a única do dote. É lógico que há casos excepcionais, como as filhas de Ló, que queriam dar um descendente para ele, mas teria que ter mais espaço para explicar isso aí. Falei Ló, né? Não, Jó. Agora, é, como é que eu posso honrar o meu pai e minha mãe hoje?
Vamos pensar num pai tóxico, um pai agressivo, um pai abusador. Como eu posso honrar esse pai hoje não me tornando o que ele foi?
Uau!
Isso é uma honra, porque provavelmente Em muitos casos esse pai também é o subproduto de outros traumas. Lembra o livro A Cabana? Embora não concorde com tudo, A Cabana, acho que tem umas coisinhas ali que eu não gostei muito, mas eu sei separar as coisas que eu gosto das que eu não gosto. Não vou jogar fora água suja, bacia o menino junto, né? Depois do banho quer jogar tudo fora.
Não, calma aí, palmas!
Eu dou banho na Sara. Essa é minha parte lá em casa, Laura sabe disso. Eu aprendi a jogar fora só água suja. Bacia eu guardo e a menina também, tá aí até hoje inteirinha. Então no livro da cabana tem uma parte lá que o rapaz, ele entra num lugar e Deus mostra para ele um menino sendo espancado pelo pai. Ele revoltado, ele queria entrar lá para poder impedir, que assim, não, você vai só ver. E o menino chorando, ele falou assim: pois é, tava com dó desse menino, tô com muita dó dele, eu queria pegar esse menino para eu criar esse menino, para ele não sofrer o que ele tá sofrendo.
Pois é, imagina o que que ele vai ter de traumas. Exatamente. Aí no final Deus revela: esse menino é o seu pai, eu te fiz ter uma visão de quando o seu pai era criança. Aí você vai entender porque que o seu pai faz o que faz com você. Dá outra ideia. Então às vezes o meu pai não teve a força mental espiritual, emocional, de romper com os agrilhões dos ancestrais dele. Ele também pode ser um subproduto. E Deus que vai saber a salvação, isso não compete a mim, tá?
Eu posso honrá-lo dando certo. Você já pensou que você dando certo é uma maneira de honrar o seu pai que fez tudo para você dar errado? Porque ele não merecia ter um filho que deu certo, e você deu certo, e você honrou quem talvez nem merecia honra. E em fazendo isso, volta para você, porque você vê que você não vai ser o suprudo. Você quebrou, você falou da ancestralidade, você quebrou o vínculo. Não me tornar como ele. E aí eu até coloco a pedagogia da oposição.
Seu pai foi tóxico, sua mãe foi tóxica, preste bastante atenção. O que que eu falei aqui até do livro? Eu leio de tudo. Eu leio de Foucault, Nietzsche, até Santo Agostinho de Hipona e Ellen White. E olha o meu espectro de leitura. Eu tenho que saber até do que eu discordo e por que eu discordo. E a única maneira de eu saber por que eu discordo daquilo é conhecendo muito bem aquilo. Então quando eu falo hoje eu discordo de muitas coisas de Foucault, é porque eu li Foucault.
Eu tava no caminho orientando um aluno que colocou Foucault várias vezes no trabalho. Eu falei, cuidado, que arqueologia do saber aqui não é a mesma arqueologia que a gente usa lá. Você tá misturando as coisas e tudo e tal. Aí eu sei porque que eu discordo de Foucault. Então preste atenção no seu pai, na sua mãe, até para você saber o que você não deve fazer, o que você deve evitar. E também procure honrar o seu pai, de repente conhecendo a história dele.
Isso vai te dar um outro— eu posso contar uma parábola rápida para ilustrar isso?
Adoro parábola.
Vou contar uma para vocês, já que a gente tá falando de criança, né? Tem menino na bacia. Na bacia não, mas já que eu sou mineiro, eu vou colocar o menino num trem.
Tá bom.
Havia um trem de ferro, um comboio, e todo mundo ali dentro do trem de ferro, deitado ali no vagão, esperando, porque no outro dia tinha compromisso, cada um com suas coisas ali. Uma criança começou a chorar, mas ela chorava, chorava e não parava, e não parava. Isso, essa parábola, vou ambientá-la numa época em que não havia muita tolerância com criança. Vamos ambientá-la no início do século 20, tá bem? Final do século 19, início do século 20.
E todo mundo revoltado com aquele barulho que a criança e tudo e tal, e as luzes apagadas. E um empresário chateado que no outro dia ele tinha uma reunião cedo, é que a criança não deixava dormir. Até que alguém gritou: ei, ei, alguém faz alguma coisa aí! Cadê a mãe dessa criança aqui? Não faça a criança calar a boca! Aí acenderam as luzes do vagão e veio o condutor. E lá no fundo tinha um homem segurando um bebezinho assim, todo atrapalhado, e mais duas criancinhas perto dele assim, olhando assustadas.
E esse senhor respondeu: desculpa, gente, eu sou o pai da criança. Tá aí, cadê a mãe dela? Eu falei, ela tá lá no vagão de cargas, num caixão. Minha esposa teve complicações depois do parto, morreu, e eu tô levando o corpo dela para sepultar na nossa terra. Não tem nenhum parente comigo, eu não sei o que fazer. Naquele mesmo momento, todo mundo dentro do trem mudou. Primeiro foi um choque. Aquele que foi o primeiro falou, cadê a mãe dessa criança?
Pediu desculpas e ofereceu, olha, eu sou empresário, se precisar de alguma ajuda, algum apoio. Uma outra senhora lá falou assim, não, faz o seguinte, deixa eu levar os dois maiores lá para o vagão de restaurante para dar uma comida para eles. Uma outra que tava amamentando falou, ele deve estar com— eu tô amamentando, deixa ele, eu vou dar de mamar para ele aqui. Um padre que tava lá ofereceu para fazer uma oração, um advogado ofereceu os empréstimos.
Todo mundo se imobilizou. E Jesus, quando contava uma parábola, perguntava ao auditório: que vos parece? Todo mundo continuava com o incômodo do choro da criança. Ninguém mudou o seu compromisso do dia seguinte, mas a perspectiva mudou quando eles souberam a razão do choro daquela criança. Então, muitas vezes, aquilo que mais incomoda você, que mais agride você, que mais te enche a paciência, é o choro de uma criança num vagão de trem de ferro à noite, que você não sabe o motivo e sente o incômodo.
Conhecer a história por detrás do choro pode não resolver o problema, mas ajuda bastante você a enfrentá-lo, a suportá-lo, talvez até com outro sentimento. Então procure saber o histórico da sua família. Eu não tive pais que eu posso falar assim, são aqueles que eu tenho, né, lembranças maravilhosas, mas conhecendo a história de ambos, eu os vejo até como lutadores. Eu consigo entendê-los, e isso me libertou até para eu saber ter uma relação com a minha filha que não reproduza aquilo de onde eu vim, ou os estigmas que me puseram, como por exemplo a síndrome do impostor, que eu lutei muito com isso por muito tempo.
Então eu acho que honrar o pai e mãe tá nessa direção. Você não é obrigado, de acordo com a Bíblia, a ter orgulho dos seus pais. Não tem nenhum mandamento na Bíblia assim Orgulhem-se dos pais de vocês. A Bíblia manda honrar, honrar, honrar. É o seguinte: meu pai na velhice, se eu tiver com ele, né, porque às vezes você não sabe onde tá, aquela coisa, tem muitos filhos que estão longe, né, honre-o, você entendeu? O que depender de mim, eu vou honrá-lo, eu vou deixar faltar nada para ele, mas eu não vou deixar que ele continue me dominando.
Porque mesmo os asilos, eu já visitei alguns asilos, tem muito velhinho fofinho lá. Quando você vai conhecer a história deles, muito filho já não vai lá ver mais porque ele é uma pessoa que tá sempre— Então Deus perdoar, no sentido bíblico da palavra, é soltar, não é abraçar e encher de beijo. Perdoar é soltar. Jesus não pediu para eu gostar dos meus inimigos, pediu para eu amá-los. Rodrigo, mas amar e gostar não é a mesma coisa?
Não, amar e gostar não é a mesma coisa, e eu provo isso. O meu pai, quando ele estava com câncer em Belo Horizonte, eu fui cuidar dele.
Seu pai é vivo?
Não, já faleceu. E foi até o câncer dele que me aproximou da Laura, porque um dia indo a Belo Horizonte eu encontrei com a Laura e a mãe dela. Depois de anos que a gente tinha se conhecido, e elas me ajudaram a cuidar dele. E ele faleceu. E eu vou contar rapidamente isso aqui para vocês. Os meus pais, eles eram católicos de IBGE, vocês entendem? Eu era católico fervoroso, eu queria ser padre. Mas um belo dia, por razões que eu posso contar num outro momento, Eu decidi não ser mais católico, me tornei Adventista do Sétimo Dia.
Meu pai não aceitou, nem minha mãe. Me puseram para fora de casa, uma longa história. E num determinado momento, eu lembro que o meu pai, quando eu pedi para ele ajuda para estudar teologia, minha primeira faculdade no Nordeste, ele bateu a mão no bolso e falou assim: que os crentes e os pastores te sustentem. Porque daqui não sai mais nada. Quando ele faleceu, eu ia a Belo Horizonte muito no anonimato, porque eu já era conhecido na época.
E se eu fosse a Belo Horizonte, que é a minha cidade, e os Adventistas soubessem que eu tava ali, ia chamar para pregar aqui. Então o que que eu fazia? Se tivesse qualquer convite para eu pregar em qualquer lugar da palestra do Brasil, você me chamou para falar lá na Bahia, Eu falava, olha, tá, compre a passagem para o Belo Horizonte. Eu não cobro pelas minhas pregações, então assim, dá uma passagem para Belo Horizonte lá, que eu ia de avião lá, dormia, e dali eu ia, né?
Foi nessa que eu encontrei com a Laura. Então ninguém sabia muito, é por isso que é importante dizer isso, da morte do meu pai. Mesmo sem eu saber, no dia do funeral dele, que eu fiz o velório dele, o funeral, o serviço fúnebre, ali havia uns 5 ou 6 pastores adventistas que de última hora ficaram sabendo e foram lá. Havia uma coroa de flores da Igreja Adventista, uma do NASP, onde eu dou aula, que é a Universidade Adventista, da TV Novo Tempo.
E meu pai não é da igreja, não tinha nada a ver. Coroas de flores da igreja para o meu pai. E havia alguns irmãos da igreja, ficaram sabendo, estavam ali também. A família da Laura e da família do meu pai, só o meu tio e uma sobrinha que eu conheci no dia do velório. Eu tenho uma irmã por parte de pai que eu só vi uma vez. Naquele momento eu olhei para ele, olhei para o redor, vi a vida que eu tomei e falei: é Pai, os crentes, os pastores me sustentaram.
Vocês entenderam o que eu quero dizer? Tem muita gente fala o contrário, né, que igreja tá aí para ele. Não, pelo contrário, eu sou o produto disso, eu tô aqui. Olha o podcast que eu tô aqui, quantas pessoas queriam estar aqui no meu lugar agora num podcast como esse. Então Eu, a vida vai, vai levando, mas eu não esclareci ainda a questão de gostar e amar. Num desses dias que eu estava visitando meu pai no hospital, na Santa Casa, quando eu desci, a Laura já tava ajudando nessa época, ela ia me levar para o aeroporto, que eu tinha que correr para pegar o voo para ir para outro lugar.
Por isso que eu dei essa digressão. Mas quando eu tava saindo, tinha uma menina chorando em prantos desse, ela abria, abraçava a barriga assim, abraçava a barriga e chorava gritando. E a outra em pé assim, sem ter muito o que fazer, segurando umas roupas. E o pessoal em volta sem fazer nada. E aquela questão, né, quando você sofre, você pode ter uma empatia quando vê uma situação semelhante. Eu parei e fui até a menina. Aí eu perguntei, o que que tá acontecendo?
Eu posso ajudar alguma coisa? Eu sou religioso e tudo. Aí a moça falou assim, a minha irmã, que a gente acabou de saber que a minha avó morreu e ela criou a gente, a referência não tem de mãe, ela tá descompensada, eu não sei o que fazer, a gente é do interior. Eu falei, calma, eu posso chegar. A gente sempre tem que pedir autorização. Sim. Aí eu cheguei, agachei para ficar no mesmo nível dela, falei assim, Eu sou Rodrigo, eu sou religioso, eu sou cristão.
Você me permite pôr a mão no seu ombro? Quando eu falei, foi o suficiente. Ela já levantou e me abraçou. E se tem uma hora que você não precisa ter tabus de toque físico, é durante um funeral. Isso eu aprendi quando fiz teologia. Você chega no lugar, as pessoas vêm te agarrar, você é representante de Deus. Então não preocupa nessa hora assim se a mulher é casada, assim, que vocês entendem o que eu tô querendo dizer. Nessa hora você deixa ela, ela vai te agarrar, vai fazer qualquer coisa.
E ela começou a me agarrar, chorar. Ah, por que que Deus fez isso e tudo? Eu na hora só falei um pouco de Deus para ela. Esqueci o nome que se usa. Estabilizei. Estabilizar, eu não sou psicólogo, não sou nada. Você faz tipo primeiros socorros, até o SAMU vi. Estabilizei a emoção dela ali, tudo e tal. E depois eu fui para o aeroporto. Eu quase perdi meu voo, mas raciocinem. O que me fez parar para atender aquela menina foi amor.
Eu amei aquela menina. Jesus falou para amar o próximo como a mim mesmo. Ela precisava de mim naquele momento, ela era mais importante do que o meu voo. Eu parei por amor, cumprindo o mandamento: amai o teu próximo como a ti mesmo. Mas se você pergunta: você gosta daquela menina? Eu não sei nem mais como é que é o rosto dela. Eu não sei o nome dela até hoje, esqueci. Se ela viesse aqui agora e sentasse, eu nem lembraria mais quem ela é.
Para gostar de uma pessoa, você tem que ter uma relação, um conhecimento, que eu não tenho em relação a ela. Então isso apenas para ilustrar que você pode e deve amar e não necessariamente gostar. Então eu posso amar alguém de quem eu não gosto. Porque se eu falar que eu gosto daquela menina, eu tô mentindo, eu não conheço para gostar. Então Deus pediu para você amar, não para gostar. Então você vai continuar reprovando o que seu pai fez, e há coisas mais hediondas que eu não preciso dizer aqui, mas você sabe do quê.
Você pode continuar reprovando, mas você pode amá-lo. E amar é, em outras palavras, uma maneira de não deixar que o ódio tome lugar do seu coração. Porque se você tá numa relação tão tensa com seu pai Dificilmente você cairá, dificilmente você cairá no terreno da neutralidade. Ou você vai odiá-lo ou você vai amá-lo. Dificilmente você vai ignorá-lo pelo que ele fez com você. Foi duro demais, foi forte demais para você passar ileso.
Ou você vai amá-lo ou vai odiá-lo. Aí, posso dar uma sugestão? Escolha o amor, porque o amor vai levar você para o perdão. E o perdão, como eu falei, é soltar. Perdoar é soltar. Mas se você, por vários discursos de justiceiro, de vitimismo, de qualquer coisa, escolher o caminho do ódio, lamento, ele vai continuar machucando você mesmo que ele esteja morto.
Forte, né?
Mas algo que é tão necessário ser falado O Abraão ficou lá para trás e não voltou mais. Coitado do Abraão, coitado do Abraão.
Duas coisas, então vou voltar para Abraão.
É mais fácil falar de Abraão que já morreu mesmo, vai processar ninguém.
A gente falou no espectro do filho, agora eu vou falar no aspecto do pai, do Terá, ou do próprio Abraão. Porque fica muito claro na história de Abraão, e aqui eu queria a tua ótica sobre o que muitas pessoas conhecem da história de Abraão, é a passagem junto a Isaque, né, que ele leva o filho dele para o sacrifício. Como que eu posso formular uma boa pergunta? Essa dinâmica de como que o pai cumpre a missão dele E de como o pai, o lance do a minha missão, o meu filho, como que eu equilibro esses pratinhos?
É que no caso do Abraão, a missão dele era sacrificar o filho. Mas eu acho que na vida de todo pai também tem aquele lance, né? Porque, por exemplo, quantas mães perdem identidade até, que quem você é? Eu sou mãe do Gabriel. Ela até perde o nome, pô. É a mãe do Gabriel, é a mãe do Vinícius, é mãe do Bruno. Ou seja, ela perde a missão. Não vai ficar perto, que uma das missões que todos os pais têm é a formação do filho, claro. Mas no sentido de pai, a sua missão é encaminhar o meu filho, entende?
Qual que é a tua ótica em relação a isso? Porque Abraão deu show nisso, ele nos ensinou de uma maneira.
Isso, ele deu show. E quando você fala ele nos ensinou, eu preferia dizer ele nos deu um exemplo. Exato. Ensinar não, porque a verdades da Bíblia que não são passíveis de docência. Sim, você não tem como ensiná-las. Eu dou um exemplo muito simples para você. Até há um tempo atrás, antes de eu ter a Sara, eu podia tentar entender o sentimento de ter um bebê, mas não adianta. E hoje você perguntar para mim, quando a Sara nasceu, várias pessoas me perguntaram, amigos próximos, que que você tá sentindo agora que você é pai?
Veja, eu sou o homem das palavras, eu escrevo livro, dou palestra, faço sermão, mas não tinha como ensinar. Por mais didático que eu procurasse ser, procurando de Piaget a Montessori, passando por vários pedagogos, eu nunca ia encontrar um jeito de explicar. É como explicar a sensação de um sabor de um chocolate que você experimentou lá na Suíça, sabe? Não tem como. É só experimentando e dando o testemunho. Experimente você também.
A partir disso, é o que Abraão teve de fidelidade a Deus, não é algo que dá para ensinar uma escola como desenvolver a fé de Abraão em 3 passos. Compra aí, viu? Vou dar a primeira aula grátis. Não existe isso, não existe isso. Você primeiro decide amar a Deus. Isso é a parte que nos compete, tomar a decisão e deixar Deus trabalhar com a sua graça em seu coração Todos os dias. E a partir do momento que Deus começa a trabalhar, reproduz na sua relação com Deus o que acontece na relação saudável de um pai e de uma mãe em relação ao filho.
Eu vou explicar. E permita-me aqui fugir um pouquinho do tema do pai e colocar a mãe, porque eu ainda acho que a mãe é um exemplo mais sublime para falar isso do que o pai. O pai também serve, mas eu queria enfatizar a mãe. Se você olhar o que que é a anulação de uma mulher em relação— tanto é que de maneira inconsciente você falou o seguinte: é a mãe do fulano. Você tá falando do pai, mas na hora deu o exemplo, a primeira coisa que o seu inconsciente mostrou foi da mãe, né?
Se você olhar para quem não tem filho na jogada, quem não tem filho e nem almeja ter filho, É um saco, um saco. Vocês têm o quarto agora, como é que são as viagens agora adaptado a eles? É tudo a eles. Noite sem dormir, depois é gasto com eles, é um dinheiro sem retorno, porque depois ele vai sair de casa e vai embora e tudo. E trocar fralda e tá comendo aqui e parar de comer. E tem uma coisa que me dá agonia, é deixar comida esfriar.
É parar de comer porque a criança começou a chorar, é sair do seu sono porque a criança chorou, é mudar o seu corpo, muda todo no caso da mulher, né? Muda todo. Depois tem o período, o jogo da seca, não, depois do puerpério, da seca, esse é o do homem, né? Aí tem o puerpério, aquela coisa toda, e modifica. Tem mulheres que adquirem, que adquirem diabetes na gestação, uma série de coisas. Se você olhar por esse viés, esses grupos de feministas radicais estão com a razão.
Por favor, cuidado com o corte, eu não concluí meu pensamento. Olhar por esse viés, ter filho é terrível, é padecer. E depois viram adolescentes, não querem mais saber de você, questionando e tudo mais, não tem como explicar. Mas quando você se torna pai e ama, eu ainda não cheguei nas outras fases, eu tô falando só da minha experiência de 3 meses. Gente, eu amo minha esposa, mas eu consegui ter um outro tipo de amor por uma mulher, pela, pela Sarinha, que eu, sabe, você pega e põe ela ali com você.
E eu tenho costume agora de tomar banho com ela no chuveiro, põe aqui, coisa mais linda. E ontem tomando banho com ela, eu olhei assim, ai, Deixa eu ver essa cena, porque eu sei que ela não vai ficar para sempre, sabe? E todos os perrengues passam, porque o amor é o que muda tudo. Então, por mais que existam livros sobre a parentalidade, por mais que existam filhos sobre como ser um bom pai, como educar, noções e tudo mais, mas tem uma coisa que nenhum especialista vai poder ensinar, é o amor.
E é o amor que vai fazer com que os conselhos do livro façam sentido e se tornam completamente absurdos para quem não tem a experiência, correto? Dentro, é claro, de uma situação de amor. Não tô falando daquela situação que você foi engravidada de maneira exclusiva. Vocês entenderam o que eu quero dizer? Com Abraão e Deus é a mesma coisa. Quando ele amou a Deus e Deus entrou na vida dele, ele tomou atitudes que para quem está fora do circuito parece o fim da vida.
Mas quem tá dentro fala: não, eu faria, eu levaria Isaac de novo. Doeu, doeu, mas eu levaria, porque o amor— é lógico que o sentido que Pascal deu à frase não é esse. Então tô pedindo licença para citar Pascal, mas de um jeito diferente. O coração tem razões que a própria razão desconhece. Não foi um sentido tão romântico, o sentido de Pascal matemático é outra coisa, mas eu vou dar essa essa ênfase aqui. O amor é tão lindo que quem tá de fora fala assim: você é louco.
Mas quem tá de dentro fala o seguinte: loucura não viver isso aqui. Então, quando você tá dentro do amor, a fralda suja de cocô, você já não tem mais nojo do vomitado dele, você não tem mais nojo do cocô dele, você não tem mais nojo do xixi, você não tem mais problema com a noite de insônia. Continua, o amor supera tudo. Com Deus é a mesma coisa. E é por isso que, de maneira muito linda, Vem o segredo da paternidade. Quando Deus criou os seres humanos, o Deus da Bíblia, Panenberg, Wolfgang Panenberg, fala muito disso, o Deus que sente.
Ele sentiu tanto prazer em ter os filhos tratando como pai que ele falou o seguinte: isso é tão gostoso que eu vou permitir que vocês também tenham esse privilégio. Sabe aquele chocolate gostoso que você comeu lá na Suíça? Fala, gente, eu vou levar um para os meninos experimentar, que você quer gostar. Vou levar para o Caio, que isso aqui é muito gostoso. Eu vou deixar ele experimentar também. Eu vou deixar, Adão, você ter um gostinho do que que é se sentir o Deus na vida de uma pessoa.
Eu vou dar para a humanidade o gostinho de saber, por degustação, o que é ser um Deus para alguém. Vou dar o direito de vocês terem filhos, porque durante os primeiros anos você é representação de Deus para o seu filho. Então isso é tão gostoso. Por isso que ele também tem para si o nome de Deus Pai. E essa relação nossa acaba ecoando a relação com ele. E o centro disso é o amor. Quando você ama a Deus, chega um momento, fala o seguinte: desde que eu tenha certeza que é Deus que tá pedindo, Dói, é difícil, não é fácil, não é mamão com açúcar, mas eu sacrifico Isaac.
E ele, na contrapartida, fala: e eu sacrifico o meu filho por vocês na cruz do Calvário.
Isso que você tá falando do pai aqui e do pai de como Deus Pai, isso é muito interessante. É uma das coisas mais comuns conversando com pessoas que têm dificuldade de aceitar Deus, de ter relacionamento com Deus, é porque normalmente a gente enxerga Deus da mesma forma como a gente enxerga nosso pai. Então, se eu acho que meu pai é agressivo, se eu acho que meu pai é um bruto, eu acredito que Deus vai ser punitivo, que ele vai agir da mesma forma.
Então eu acabo não me afastando. Eu, no meu caso, eu acreditava o quanto eu precisava performar para Deus me amar, porque era meu relacionamento com meu pai era dessa forma. Eu acreditava que eu só tinha lugar com ele se eu performasse, se ele me amasse pelas vitórias, pelas conquistas, pelas coisas boas que eu fazia, e que Deus só ia me amar nesse mesmo lugar. Como que você Como que a gente pode explicar para quem tá ouvindo a gente como precisa ser a nossa relação de filho com Deus?
Excelente! Sabe que eu tenho uma experiência, pergunta boa, hein? Boa!
Nossa, palmas para essa pergunta!
Quer dizer, foi muito bom mesmo, sério, te falo, é verdade. Mas ele, eu tô fazendo eco. Eu vou começar com uma experiência pessoal que eu tive, que eu até já mencionei para vocês algum momento. Eu sou autor dos livros de religião da Casa Publicadora Brasileira. Todas as escolas adventistas usam esses livros, e os livros vão mudando, é claro, né? Livro didático vai mudando. E quando eu escrevi a primeira vez um livro de ética para adolescentes, o título do livro seria Fazendo a Vontade do Pai.
Foi assim que eu assinei o contrato com a Casa Publicadora Brasileira, foi assim que o livro já tava com a capa pronta, faltando poucos dias para entrar na prensa, alguém levantou o dedo e falou assim: não, muda tudo, para tudo. Igual aquele cara: para tudo, para tudo, para tudo, né? Esse título não vai agradar os jovens. Fazendo a Vontade do Pai. Eu pensei: o pai, o que eles menos querem hoje, fazer a vontade do pai. E eu concordei.
O título do livro foi mudado. O livro saiu com o nome de Abrindo o Jogo: Ética Cristã no Mundo Pós-Moderno. Mudou radicalmente. Então você vê que realmente a imagem do pai está distorcida. E aliás, eu tenho até um estudo que eu já fiz: os maiores ateus do final do século 19, século 20 que nós temos, se você pegar aí Wagner, se você pegar Schopenhauer, Nietzsche, Freud, todos eles tinham problemas com pais e que eram religiosos.
O Freud, por exemplo, é interessante que no ateísmo de Freud eu fico analisando algumas coisas Freud diz que nós temos uma carência de um pai universal, mas o Freud era ateu. E eu pergunto: se Deus não existe, de onde vem essa carência? Como é que eu posso ter carência de algo que não existe? Não faz sentido. A carência pressupõe o objeto que preenche essa carência. Se meu pulmão carece de oxigênio, porque oxigênio existe, caso contrário não existiria.
Porque se eu careço de algo que não existe, como é que Né? Então, de onde que vem essa carência? E você vê que o Freud, por mais que ele teve um grande legado na psicanálise, com a descoberta do inconsciente, do id, do ego, do superego, essa coisa toda, o Freud, ele tinha a palavra-chave de todo o escrito de Freud, a culpa. E ele fala que contra isso aí a psicanálise não pode resolver. Nós temos uma culpa. Culpa de quê? Não tem Deus, não tem pecado original.
Aí eu faço uma leitura teológica de Freud. E tem um livro muito interessante, me fugiu o nome da autora agora, autora espanhola, Os Deuses de Freud. E ela conta, uma biógrafa de Freud, que ele tinha o costume de colecionar estatuetas de personagens da mitologia grega. Mas não podia ser qualquer uma, não, tinha que ser aquela específica. É inclusive parte dessa coleção está em Viena, se não me engano, a outra tá nos Estados Unidos, é um museu hoje.
E ele fazia um ritual para receber cada estatueta daquela, ele fazia um jantar para receber estatueta. E quando ele estava para terapizar alguém, ele escolhia uma estatueta para estar com ele, ele ficava alisando a cabeça da estatueta enquanto ouvia o paciente lá, sabe? Aí você vai ver a história dele com o pai, que era rabino. O pai era terrível. O único momento de prazer que ele tinha com o pai era quando o pai contava histórias da mitologia grega.
E o próprio Freud traz isso para psicanálise. E aí eu fico pensando, quando Freud nega a existência de Deus, será que ele está de fato negando a existência de Deus, ou ele não está conseguindo romper com a figura paterna distorcida de Deus que lhe foi apresentada? Uma vez, dando estudos da Bíblia para um ateu que depois deixou de ser ateu, Peter Gasper, já falecido, que foi iluminador de Oscar Niemeyer, alemão ele, eu falei, Peter, Eu sei porque você não quer aceitar a existência de um Deus Pai.
É que você tem tanto questionamento sobre o porquê do sofrimento que admitir que tem um Deus lá em cima é ter alguém para odiar. Então é melhor acreditar que não tem ninguém. E para muitas pessoas, o ateísmo é um consolo, é um consolo teológico do que— sim, sim, sim. Porque eles falam, não, os crentes que precisam de um amigo invisível, porque eles não aguentam suportar com sanidade, né, a questão. Alguns falam o seguinte: religião é um conto de fadas para quem tem medo do escuro.
Aí John Lennon, o ateísmo é um conto de fadas para quem tem medo da claridade, da luz, né. Então o que que acontece? Por outro lado, o ateísmo pode ser também explicado psicologicamente. É melhor acreditar que minha mãe morreu por mim morreu dando à luz a mim, então sou órfão de uma mãe que morreu, do que enfrentar a realidade que minha mãe me deu à luz e me entregou para outras pessoas que não me queria. Então, para muitos, a ideia teológica ela é uma afronta, porque você vai ter que conviver com a ideia de um Deus lá em cima que não quis você.
Então é melhor acreditar que esse Deus não existe. Minha mãe morreu no parto, eu sou órfão mesmo, universo não tem Deus, não tem nada, é um acúmulo de coincidências. E dentro desse aspecto, para ir no âmago agora da sua pergunta, como filho eu tenho que aprender o exercício de atualizar a fotografia. Atualizar a fotografia. Você não pode hoje colocar numa capa de um livro que vocês escrevem sua foto com 6 anos de idade, não vai ficar legal, você entendeu?
Atualize a fotografia, aprenda a não ser refém daquilo que você mais odeia. Eu tô usando a palavra odeia, porque se você agora, por causa do problema com seu pai, você extrapolar isso para além do seu pai, você está dando mais força para ele do que ele deveria ter, a ponto que ele continuará te punindo mesmo que ele morra. E aí você atribui isso para Deus, e não só para Deus, para várias pessoas. Qualquer pessoa que se parece com seu pai, você vai ter ojeriza.
E deixe Deus ressignificar o conceito de paternidade na sua vida, porque ele é o pai ideal. E muitas vezes, na minha terapia pessoal, eu tive que aprender a ressignificar coisas. Isso eu aprendi com Viktor Frankl, Em Busca de Significado. Nós temos que aprender a ressignificar coisas. Se você não ressignificar, você não cura trauma nenhum. Ah, eu fui violentada ali na esquina, então todo homem não presta. Se você não ressignificar aquela dor, você nunca vai conseguir ser feliz no amor com ninguém.
Sabe que o seu namorado te traiu, te botou chifre, abusou de você, qualquer coisa, você pega agora, fica solteirona o resto da vida porque todo mundo vai ser igual a ele. Você tem que aprender a ressignificar as coisas. Então, como ser um filho de um relacionamento saudável com o Pai Celestial, tendo uma figura de pai? Ressignifique as relações. Aprenda que, já que você não gosta de mito, então vou lhe dizer um mito para você abolir.
Não existe nenhum mito que diga que a história de Édipo tem que se reproduzir na história de Heráclitos. Pegando mitologia por mitologia, Édipo é Édipo, Heráclitos é Heráclitos. Mesmo que haja modelos arquétipos que eles falam, modelo arquétipo é apenas uma maneira de sistematizar uma realidade que só se constrói porque eu permito. Se eu não permitir, o modelo arquétipo não vai se repetir comigo. Então, tudo bem, seu pai foi um canalha, ele não é digno de respeito, não significa que todos sejam.
Aí, quando você fala: tá bom, Rodrigo, mas Deus ainda tá muito longe. Eu vou te dar uma dica então: Deus não se importa de contar com seres humanos para construir o seu reino. Eu falei em determinado momento aqui que Deus em si mesmo se basta, mas ele prefere contar conosco a despeito de nós mesmos. Deus não precisaria de Abraão para levantar o povo e o Messias. Ele não precisaria de uma mulher igreja para levantar. Ele faria sozinho.
Mas ele trabalhou através da igreja, ele trabalha através de pessoas. Deus trabalha através— Deus prefere contar conosco. Então Deus não vai ficar ofendido se você, para amenizar um pouquinho a dor, começa primeiro com o ser humano. Como assim, Rodrigo? Vou te dar a dica. Pega um papel, um caderno, e anota para você não esquecer. Eu conheço casais que gostariam muito de ter filhos, mas por um problema fisiológico, o homem não pode, mulher não pode, tentaram de tudo, fertilização in vitro, não conseguiram.
Aí eles tentaram uma alternativa que muita gente ainda, por tabu, causa repulsa: adotaram. E hoje diz que a coisa mais linda que eles tiveram foi o filho adotado ou a filha adotada. E depois alguns até engravidaram depois e fala o seguinte: olha, a diferença entre as duas é que uma nasceu do coração, outra nasceu do ventre, mas as duas nasceram de mim. Adote uma criança, tá? E o que que tem a ver isso com a paternidade? Está nesse aspecto.
Já que você não pôde ter um pai decente, adote um, adote um, adote um mentor para sua vida, adote um pai. Pode ser um líder que você confie, pode ser um tio, Pode ser um avô, pode ser um vizinho, pode ser um professor, pode ser um grande amigo. Adote um pai para você, para que você tenha pelo menos o gostinho do que é ser filho de alguém. Já que você não pode ser filho biológico de alguém no sentido psicológico da palavra, seja filho adotado.
Aí você vai começar a perceber o gosto de ter alguém que lhe ama de maneira paterna, sem aquele caos. E você vai poder começar a olhar para Deus, fala assim: peraí, então meu pai não é o único modelo de paternidade, existem outros. Então eu posso encontrar em Deus também isso. E aí vem o último detalhe desse conselho. Você tá anotando aí na caderneta? O último detalhe vem aqui. Deixe-se ser adotado. O problema é que muitas vezes nossos traumas nos impedem de permitir que o amor chegue até nós, sabe?
Eu tenho tanto medo de ser machucado que eu também já me bloqueio a qualquer relação, qualquer— deixe-se ser adotado, deixe alguém amar você, não feche as portas do seu coração para o amor paternal que pode vir de alguém que não foi o seu genitor. Deixe-se ser adotado. E ser adotado por alguém não significa que vai ser agora herdeiro dele, vai morar na casa dele. Não. Às vezes, por um momento da vida só, que ele vai ser o seu pai adotivo, durante o momento da faculdade, por exemplo.
Você entendeu? Ou se você é um evangélico, pode ser um presbítero, um pastor da igreja. Se você é católico, pode ser um padre, pode ser um frei, pode ser uma irmã de caridade. Deixe alguém também amar você, pode ser até um irmão mais velho. E não venha com desculpas, com historinhas. Tem muita gente boa em redor, é só você deixar de lado um pouquinho os seus traumas e começar a olhar um pouquinho para além dos seus próprios problemas.
E já que eu falei tanto de paternidade, não deixe que os seus problemas se tornem um filho único mimado. Eles vão se tornar um purgante na sua vida. O problema não é ser filho único, que minha filha é filha única até agora. Tô falando filho único mimado. Sabe aquele filho único mimado que ele acaba com a saúde do pai, acaba com a saúde da mãe, e ninguém suporta ele nos seus pais? Pois é, você não pode deixar que seus problemas virem filho único mimado, porque senão eles vão dominar você.
Mostra para os seus problemas que há outros filhos para você alimentar. Isso pode ser às vezes sendo útil para alguém. Vá a uma casa de repouso, conheça outras histórias, procure uma agremiação religiosa, procure fazer o bem. Agora, quanto mais você se dedicar a esse filho único mimado que são seus traumas e problemas, aí você não vai ter tempo nem para escovar os dentes e pentear o cabelo, porque ele vai sugar tanto que você só tem olhos para ele.
Você não vai conseguir arrumar uma namorada, um namorado, um casamento digno, você não vai conseguir ter relações permanentes, porque toda hora esse menino tá te tirando atenção. Então pega o seu problema, ele é real, existe, mas mostra pra ele que tem mais 15 irmãos pra você alimentar. Ele não é o único não, ele vai comer junto com todo mundo e na hora dele.
Bom, as plateias, maravilhoso o nosso papo, muito bom o papo, né, Laila? Rodrigo, primeiro, o papo com você é sempre muito provocador, reflexivo, mas de uma certa maneira também muito inspirador. A gente, como você fez isso, agradece sempre muito a tua presença, sabendo que você que tá aqui, aqui, ó, primeiro só algumas coisas, eu vou colocar as redes sociais do Rodrigo aqui na descrição. Se você não acompanha, ele tem um conteúdo muito legal, sempre de uma maneira muito educativa, né?
Tem um jeito de trazer uma didática, uma luz, onde as pessoas falam assim, cara, agora eu entendi, né? Então o seu conteúdo é muito bacana porque você pensa nessa densidade educativa de todo mundo que acompanha. Vou colocar também o link do Café com Joia porque a Fabrícia tá aqui, mas não é todo episódio onde eu tenho a grata presença dela. Mas ela toda semana no Café com Joia, né, amor? Toda terça e quinta no Café com Joia. E Rodrigo, nossa, nossa, que primeiro gostou de estar aqui, amor?
Muito, sempre.
Para você, primeiro, antes de perguntar para o Rodrigo, qual que é a sua reflexão final, amor? E depois você passa a bola para o Rodrigo trazer a frase de fechamento.
Para mim, o que mais impactou foi a questão da honra. Eu nunca tinha pensado nessa forma de honrar, se algo, o fato de eu fazer diferente. A gente pensa que é sobre eu ter que fazer muita coisa, eu tenho que ir lá, vou ter que lavar o pé, eu vou ter que beijar, vou ter que fazer um monte de coisa. E entender que o fato de você fazer diferente é uma forma de honra.
Isso me impactou bastante.
Rodrigo, frase final para todo mundo que chegou ao final desse podcast.
Ó, frase final é que se eu, com todas as minhas mazelas, erros, defeitos, virtudes e vícios, consegui chegar até aqui, você também pode, tá bom? O Deus é o mesmo. As experiências de vida podem ser diferentes. Você pode ter uma dor de cabeça, eu tenho uma dor de dente. Dor é dor, não importa onde ela esteja. A minha dor pode não ser exatamente a sua, mas o Deus é o mesmo. Então deixa ele te conduzir. Você vai descobrir que aonde quer que você for, onde quer que você estiver, você e Deus serão sempre a maioria, a maioria esmagadora, eu diria. Que Deus abençoe você.
Uau!
Plateia, mais palmas para vocês! Essa plateia foi espetáculo. Compartilha esse episódio com o grupo de família, amigos, que eu tenho certeza que vai gerar boas provocações. E nós contamos muito com a sua presença. Obrigado pela tua audiência e pela tua companhia, e a gente se vê na próxima semana, no próximo episódio. Fica com Deus e tchau!